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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

2 FILMES E 4 CANÇÕES SOBRE O HEROICO COMANDANTE GUEVARA, O 'CHE PUEBLO'

 
"El nombre del hombre muerto 
ya no se puede decirlo, quién sabe?
Antes que o dia arrebente, 
antes que o dia arrebente.
El nombre del hombre muerto, 
antes que a definitiva noite 
se espalhe em Latinoamérica,
el nombre del hombre es Pueblo, 
el nombre del hombre es Pueblo"
(Capinam, Gil e Torquato)
No final da década de 1960 eram muitos os jovens que, em todo o mundo, viam Che Guevara como o próprio símbolo da revolução.

Enquanto Marx, Lênin, Stalin, Trotsky, Mao e o próprio Fidel só significavam algo para os politizados, o Che tinha uma força simbólica indiscutivelmente maior -- e muito mais adeptos na faixa da adolescência e mocidade.

Quais serão os motivos de culto tão perene?

Há quem o atribua, depreciativamente, à semelhança visual entre o Che abatido e o Cristo crucificado, omitindo que as trajetórias também são semelhantes.

Ambos desdenharam os bens materiais e foram solidarizar-se com os pobres, oferecendo-lhes apoio e esperanças. Despertaram a fúria dos poderosos de seu tempo e foram por eles destruídos, terminando sua jornada com muito sofrimento.

Vale também lembrar que os relatos que chegaram até nós sobre o homem de \Nazaré não têm áreas nebulosas como aqueles episódios em que Guevara parece haver incorrido em violência excessiva.
Filme de Walter Salles (2004) sobre o Che de antes da revolução  
Mas, se Cristo disse que não vinha trazer a paz, mas a espada, foi Guevara quem a empunhou. E a guerra nunca inspirou os melhores sentimentos ao ser humano. Pelo contrário, desperta seus piores instintos.

Então, a luta justificada e necessária contra o tirano Fulgêncio Batista pode ter feito aflorar o Robespierre latente naquele homem antes tão afável, como foi retratado no filme Diários de Motocicleta.

Contradições são, enfim, inerentes a todo ser humano. Não existe o herói perfeito e impoluto, salvo em nossa imaginação. 
Canção do Gil e Capinam; participou do Festival da Record de 1967.
ERA BRIZOLA UM GUSANO?  Um relato interessante foi o que me fez o companheiro Moisés (José Raimundo da Costa), antigo militante do Movimento Nacionalista Revolucionário, responsável pela abandonada guerrilha de Caparaó. 

Disse que a dita cuja era parte do projeto de criação de um eixo guerrilheiro unindo Brasil e Bolívia, mas Leonel Brizola, a quem cabia desencadear a luta em nosso país, teria produzido apenas um arremedo de guerrilha, para justificar a dinheirama que recebera do governo cubano.

Não tenho como confirmar, mas as datas coincidem. E algum motivo deve haver para os cubanos naquele tempo se referirem a Brizola como um gusano (verme).
Canção do Milton e Fernando Brant; estava no Festival da Record de 1968   
Totalmente identificado com Fidel até a tomada de poder e durante os primórdios do governo castrista, Guevara acabou percebendo que o socialismo de seus sonhos não seria possível numa ilha pobre, asfixiada pelo embargo comercial estadunidense e obrigada a sujeitar-se às imposições da URSS em troca de ajuda econômica e proteção militar.

Seguindo o exemplo de Garibaldi e Bolívar, ele foi lutar noutros países. Abriu mão do poder e de honrarias para efetuar tentativas desesperadas de romper o isolamento da revolução cubana. E, após sua morte, acabou se tornando o símbolo maior do internacionalismo revolucionário.
EXECUTADO UM DIA APÓS SUA CAPTURA – Seu exemplo e seu martírio inspiraram os jovens que, em 1968, protagonizaram a última maré revolucionária. Tanto os marxistas que foram à luta armada, quanto os neo-anarquistas que barricaram Paris e cercaram o Pentágono, tinham Che como símbolo..
Canção de Cesar Roldão Vieira que participou do III FIC, em 1968 
Tornou-se o maior mito libertário do nosso tempo, alimentando as esperanças de que ainda aconteça aquela revolução com a qual os melhores seres humanos sempre sonharam e Marx tão bem delineou, o reino da liberdade, para além da necessidade.

Pode-se supor que, como Trotsky, ele tenha concluído que a revolução invariavelmente se deforma quando fica restrita a um só país – ainda mais uma nação pobre, atrasada e asfixiada pelo embargo comercial, como Cuba. 

E fez o que poucos fariam: assumiu a missão de encontrar uma saída para o impasse, nas condições mais desfavoráveis.
Canção do Vandré que só foi liberada após a abertura do ditador Geisel 
Morreu em outubro de 1967, executado um dia após sua captura pelo exército boliviano, que nada mais era do que um testa de ferro dos exterminadores dos EUA. Participaram da operação os rangers e os green berets do exército estadunidense, além de agentes da CIA. 

No mundo todo, os jovens que também lutavam contra o Império se identificaram com seus sonhos e seu exemplo. 

Não foram uma foto e um pôster que o transformaram em mito, mas sim esse exemplo de dedicação a uma causa justa até o sacrifício extremo.
Primeiro filme (2009) do Steven Soderberg (2009) sobre a trajetória do Che .
E, como os corações mais sensíveis e as mentes mais lúcidas não conseguiram vencer o sistema regido pela desigualdade e ganância, Che inspira até hoje os que não aceitam o capitalismo globalizado como o fim da História.

Daí a inutilidade dos frequentes ataques à memória do homem Ernesto Guevara -- como os lançados pela mídia reacionária.

Jamais atingirão, contudo, o mito Che Pueblo, personificação dos ideais igualitários que os melhores seres humanos vêm acalentando através dos tempos. (por Celso Lungaretti) 
Observação; fico devendo uma canção raríssima que Sergio Ricardo cantava 
em 1968 com o título de Che Guevara não morreu, foi proibida e voltou
 a partir da abertura política, rebatizada  de Aleluia (CL)
Sequência (2009) do filme do Steven Soderberg sobre a trajetória do Che

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

PULSÃO ASSASSINA DO CAPITALISMO CONDUZ A HUMANIDADE PARA A BARBÁRIE

 


Dissemos em artigo recente que o capitalismo provoca o irracionalismo social e citamos alguns exemplos disso.  

Poderíamos ter citado um corolário de outros exemplos, como a incineração de alimentos por produtores objetivando a manutenção dos preços, e isto num contexto onde cresce o fantasma da fome; ou citarmos o uso indiscriminado de matérias plásticas descartáveis que após o uso que vão poluir os mares matando as algas dos oceanos, tão importantes para todo o ecossistema, bem como para a fauna marinha.  

Mas aqui queremos nos concentrar na análise da essência e pulsão assassina desse modo de relação social, pois assim será considerada pelas gerações futuras, os quais terão pena dos nossos padecimentos, isso se a espécie humana não sucumbir antes, diante da sanha socialmente destrutiva e autodestrutiva da própria forma capitalista. 

São muitos os adjetivos comportamentais capitalistas convergentes para a sua essência assassina e genocida como exemplos e, neste momento de debacle da sua própria forma, ele age tal qual um suicida criminoso revoltado incapaz de viver sua própria vida e que quer levar para a morte toda a humanidade. 

A xenofobia capitalista, expressão da existência dos Estados Nacionais, se traduz num patriotismo nacionalista étnico excludente daqueles situados além das fronteiras nacionais, leva ao assassinato pela guerra dos estrangeiros, considerados contrários aos interesses do país.  


A formação das nações, de configurações jurídicas geopolíticas recentes, obedeceu ao critério capitalista de produção nacional de mercadorias visando à exportação e proteção destas por barreiras alfandegárias, enviando e recebendo excedentes da produção social de cada região de acordo com as suas capacidades geológicas, climáticas, minerais, tecnológicas, culturais, etc. Estas barreiras representam o contrário do que é - ou deveria ser - a fraternidade humana entre os povos, pois coloca a concorrência acima da solidariedade. 

Portanto, a xenofobia é assassina e, juntamente com outros fatores, compõe a base da motivação bárbara e genocida da guerra entre os povos.  

As nações e os Estados capitalistas foram formatados dentro dos interesses de sustentação à lógica social a eles inerentes e imanentes, de modo que todas as nações se submetem a todas as decomposições do agir e pensar independentemente da sua forma política.  

A forma política sob o capital não tem soberania de vontade e por isto são tão similares as posturas de governos mais fechados e centralizadores do comando, ditatoriais, e as posturas de governos sob cânones descentralizadores do poder governamental, como pretendem ser os governos republicanos de alternância eleitoral de poder.  

As ditaduras burguesas têm diferenciações para com as democracias burguesas no varejo e por dependerem da disputa cíclica do poder por grupos políticos em seu interior, tendem a ter mais flexibilização ditatorial de mando, vez que os pesos e contrapesos das suas instâncias estatais freiam melhor o absolutismo governamental opressor do Estado - mesmo os que se autointitulam pretensamente proletários.  

Entretanto, na hora do vamos ver, o que vigora é o interesse do capital representado pelos detentores de poder de mando do governo; dos representantes parlamentares e seus partidos - sempre em maioria pelos que são ligados ao capital e que contam com a participação dos que se dizem críticos da capital, pois o legitimam com sua presença; dos empresários dos vários ramos das atividades econômicas; e até mesmo dos sindicatos de trabalhadores, sempre buscando as melhorias dentro do capital sem questionar sobre a necessidade de sua própria superação enquanto categorias contributivas para a ordem capitalista.  

Já ouvi de um trabalhador o questionamento sobre os coreanos trabalhadores na siderúrgica do Pecém, na grande Fortaleza, por considerar que lhe roubam o emprego pertencente aos trabalhadores brasileiros  - pode?! Este é um exemplo de como o capitalismo torna os trabalhadores xenófobos e adversários entre si.  

Guerra concorrencial de mercado como altar do sacrifício humano – Adam Smith, pai do liberalismo clássico de mercado, cunhou a expressão mão invisível para explicar, de modo elogioso, a capacidade do mercado em intervir espontaneamente, por mecanismos próprios e internos, na equalização de preços e premiação para quem produz mais em menos tempo e melhor.  

Mas a mão invisível não é santa!  

O mercado é o altar da guerra concorrencial de mercado onde ocorre o confronto épico da disputa do capital com ele mesmo de forma destrutiva e autodestrutiva no longo prazo. 

O capitalista que produz mais e melhor em menos tempo, reduzindo custos de produção e ganhando qualidade, ganha a guerra concorrencial de mercado eliminando os seus concorrentes. Assim, concentra a riqueza em suas mãos na medida que acumula o lucro e se torna mais competitivo em aplicação de capital fixo - máquinas e instalações -, e até mesmo compram concorrentes menos expressivos economicamente, mas que incomodam, para eliminar a produção destes. 

Mas ao ampliar a sua produção, o capitalista vencedor da guerra concorrencial de mercado concentra riqueza e horizontaliza pobreza salarial; ao usar máquinas cada vez mais sofisticadas que reduzem valor e preço das mercadorias - que são coisas diferentes - provocam o desemprego estrutural, o qual reduz completamente a capacidade de compra e colide com o objetivo empresarial de vender e ganhar capital cada vez mais.  

A China, que cresceu muito nos últimos anos reduzindo custos de produção com uso da tecnologia, salários baixos e estímulos fiscais, agora vê-se na condição da redução drástica do crescimento, causando problemas para si e para todo o mercado financeiro ao qual deve cerca de 300% do seu PIB anual e para quem deve pagar os juros incidentes.  

O mundo é credor da China e o seu colapso será causa de turbulências mundiais severas. Entretanto, foi na guerra concorrencial de mercado que a China pôde se elevar à condição de segundo maior PIB do mundo apostando num crescimento econômico constante e crescente, mas cujo limite agora esbarra na capacidade de expansão capitalista.   

O mercado é a categoria capitalista para a qual converge toda concentração de trabalho abstrato produtor de valor, a mercadoria força de trabalho transformada em valor e todas as mercadorias sensíveis com seu valor de uso e de troca, sendo infenso a controles externos. Quando o Estado entende dever tributar a produção ele consegue afastar tal produção por incapacidade concorrencial de preço e leva os produtores à falência.  

Destarte, o mercado funciona como a hora da verdade do capitalismo na qual se evidencia toda a sua falibilidade.  

Hipocrisia governamental, deseducação, escravização, misoginia, homofobia, racismo, supremacismo e guerra - os governantes de todos os matizes ideológicos estão sempre a afirmar os seus propósitos de boa vizinhança e solidariedade para com as outras nações.  

Mas todos os países do G7 – Estados Unidos, Inglaterra. Alemanha, Franças, Japão, Itália, Canadá - têm histórico de beligerância e de desrespeito à autonomia dos povos quando estes não rezam pelas suas cartilhas e contrariam os seus interesses.  

Os Estados Unidos foram os grandes beneficiários das guerras mundiais das quais saiu com seu território ileso, além  de credor de vendas feitas aos países -principalmente os participantes do conflito, não importa se ganhadores ou perdedores-, além de instituir a sua moeda como moeda universal - o maior de todos os ganhos. A partir daí se tornou palmatória do mundo e se sentiu autorizado a intervir em quaisquer conflitos de poder nos países para colocar ali dirigentes submissos e simpáticos aos seus interesses.  

Não é para lá que fugiu o corrupto cubano Fulgêncio Batista que jamais foi alvo de qualquer embargo econômico quando era ditador de Cuba? Não fugiu para lá o igualmente iraniano corrupto, Xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlevi e sua família, queridinho dos Estados Unidos, quando removido do poder pela revolução islâmica teocrática do Aiatolá Ruhollah Khomeini? Seriam infindáveis os exemplos de intervenção militar estadunidense em países de todos os quadrantes do mundo para a manutenção dos seus interesses.  

Nessa onda histórica estão incluídos até antigos aliados que se voltaram contra os Estados Unidos como o bilionário fundamentalista religioso saudita Osama Bin Laden e o ditador iraquiano Saddam Hussein, ambos assassinados pelos marines estadunidenses.    

O que dizer da Alemanha nazista, ajudada pelo fascismo italiano e japonês, responsável pelo maior genocídio mundial em apenas cinco anos e poucos meses num conflito mundial no qual se calcula que morreram cerca de 50 milhões de pessoas, ou 3% da população mundial à época? 

Não dá para deixar de falar nos colonialismos inglês e francês que explorou até onde pôde as Américas, África e Ásia, e hoje, após as guerras de independências, ainda tentam manter por outros mecanismos capitalistas o seu poder de mando. 

A hipocrisia da boa convivência mundial entre as nações esbarra na lógica capitalista mundial, hoje mais globalizada do que nunca, substituindo a fraternidade e cooperação mundiais por uma concorrência mercantil-financeira que atingiu o seu estágio de contradição interna irresolúvel e nos coloca diante de impasses como a migração humana rejeitada pelo nacionalismo xenófobo e a ameaça de hecatombe nuclear que toma o noticiário internacional como a coisa mais natural do mundo em face dos desdobramentos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, além do conflito entre China e Estados Unidos à espreita.  

Outro aspecto a ser destacado é a deseducação causada por um critério moral capenga no qual levar vantagem é a tônica a ser observada pelos mais jovens no seu desespero pela falta de perspectivas de vida contributiva e saudável futura.  

Misoginia decorrente de um patriarcalismo obsoleto; homofobia calcada em preceitos religiosos e costumes ultrapassados; supremacismo racial derivado de uma falsa ideia de superioridade de raça são elementos que compõem este universo de criações capitalistas  negativas os quais somos obrigados a suportar graças a uma forma de relação social que os preserva. 

Mas ainda dá tempo de revermos tudo isso!!! (por Dalton Rosado


domingo, 13 de janeiro de 2019

ESTARÁ EVO MORALES À ALTURA DO GESTO DE SOBERANIA QUE O MOMENTO EXIGE?

dalton rosado
A ALEGRIA E HIPOCRISIA DOS CARRASCOS
O motivo da encarniçada perseguição a Cesare Battisti não é a realização da justiça, mas sim a demonstração de que não vale a pena lutar contra o poderio avassalador do establishment, ainda que ele seja genocida em larga escala.

Por que não se condena a príncipe saudita Mohammed Bin Salman, que mandou matar o jornalista Jamal Khoshoggi, seu conterrâneo, numa embaixada na Turquia?

Por que jamais se condenou à prisão qualquer torturador e assassino brasileiro pelas atrocidades e crimes praticados durante a ditadura militar?

Por que Lula, o único brasileiro operário guindado à Presidência da República pelo voto popular (graças à falência da burguesia em administrar o que é seu), mesmo com toda a sua subserviência ao sistema e pacto corrupto com a escória da política brasileira, acabou sendo nosso único presidente encarcerado?

Por que um magistrado de primeira instância que de uma hora para outra resolver processar e prender (corretamente) políticos como jamais aconteceu na nossa história de tradição de corrupção, é premiado com o mais alto posto do comando da promoção administrativa da justiça no Brasil?
Criminosos de guerra impunes: o senhor e seu lacaio.

Por que jamais se condenou George W. Bush que bombardeou o Iraque com aviões distantes 10 mil metros de altura, matando grande quantidade de civis inocentes, inclusive crianças que dormiam, sob a alegação da existência de armas químicas jamais comprovadas? Por que não é considerado terrorista?

Por que há quem apoie o sanguinário ditador da Síria Bashar Al-Assad, relativizando os crimes hediondos que marcam sua infame trajetória?

Por que os Estados Unidos aceitavam um ditador corrupto e subserviente aos seus interesses, Fulgêncio Batista, inclusive asilando-o em seu solo com toda a sua riqueza saqueada ao povo cubano, mas financiaram a invasão da ilha para a derrubada de Fidel Castro?

Por que o corrupto ex-presidente paraguaio Alfredo Stroessner pode viver tranquilamente em Brasília, desfrutando comodamente sua fortuna, sem jamais ser extraditado? 

Por que Anastácio Somoza, o sanguinário e corruto ditador da Nicarágua recebeu pronta assistência militar e apoio financeiro na sua luta contra os sandinistas (desvios condenáveis e deploráveis do Daniel Ortega, que se subsumiu à lógica do capital, à parte)?

Por que Jesus Cristo foi condenado a morrer na Cruz por uma massa induzida? 
"gestos altaneiros que podem afirmar a dignidade de um povo"

Seriam intermináveis os porquês da história.

Mas há também gestos altaneiros que podem afirmar a dignidade de povo, como se fosse um Davi diante do Golias a dizer peremptoriamente: aqui decidimos conforme nossas próprias convicções e um perseguido político, uma vez em nosso solo, não se submeterá a nenhum submisso capricho alheio.

Estará Evo Morales à altura do gesto de soberania que o momento dele exige?    

Basta! 

Coloquemos abaixo a hipocrisia, pois ela, por si só, jamais se autocriticará; é seu instrumento de manipulação das consciências! (por Dalton Rosado, que recomenda aos leitores esta sua composição em homenagem ao Cesare)
PS: falando nisso, por que o Lula, ex-presidente da República, era conduzido
coercitivamente para prestar depoimento, enquanto o Queiroz dança,
deita e rola no hospital Albert Einstein, debochando da Justiça?

domingo, 27 de novembro de 2016

A ERA FIDEL

"Condenem-me. Não importa. 
A história me absolverá."
(Fidel Castro, ao ser julgado  
pelo assalto ao quartel 
de Moncada).
No mundo todo, os inconformados com a tirania do capitalismo (que mantém cerca de 80% da população mundial em situação de pobreza crônica) viram com esperança a primeira experiência marxista tradicional ser vitoriosa nas Américas, a partir da deposição revolucionária do corrupto e submisso títere dos Estados Unidos, Fulgêncio Batista, pelos guerrilheiros do Movimento 26 de Julho (1), comandados por Fidel Castro, em janeiro de 1959.

Após a definição ideológica do governo de Fidel, houve uma tentativa de invasão estadunidense da Baía das Porcos, por meio dos contrarrevolucionários cubanos e mercenários latinos que financiou e armou; foi bravamente rechaçada pelo povo cubano, que conseguiu vencer a farsa. 

Os Estados Unidos não queriam passar recibo ao mundo de seu tradicional belicismo intervencionista, em ação num país que se revoltara contra o corrupto de carteirinha que lhes servia de aliado. Cuba era a ilha do turismo e da jogatina nos cassinos onde tudo terminava em corrupção, embalada pela maravilhosa salsa cubana, regada ao rum nacional e aos famosos charutos de fabricação local.

Tal ousadia às portas da Meca do capitalismo mundial quase desencadeou uma guerra nuclear, esquentando a guerra fria cujo contraponto era a União Soviética. A instalação de misseis soviéticos na ilha caribenha era uma resposta à instalação de mísseis estadunidenses na Turquia.

A tensão chegou a tal ponto que John Kennedy e Nikita Kruschev tiveram enorme dificuldade para evitar que os falcões de seus respectivos países iniciassem uma guerra nuclear cujos resultados seriam catastróficos para a humanidade.  
13 dias que abalaram o mundo

Tudo terminou com um acordo de retirada dos mísseis de Cuba e da Turquia (2), mais o compromisso de não invasão da ilha, o que significou um enorme constrangimento para o poder imperialista, que daí em diante passou a utilizar embargos financeiros, atentados e medidas diplomáticas para o combate a Fidel e seu governo.

O que os marxistas tradicionais não sabiam (por desconhecerem o Marx crítico dele mesmo) é que o regime de Fidel era tão capitalista quanto o imperialismo dos EUA, que tanto julgavam combater. 

Divergências havia apenas na forma política de organização do governo e na forma de extração de mais-valia, que, ao invés de ser feita por empresas privadas cubanas e estrangeiras, seria agora patrocinada (de patrão, mesmo!) pelo Estado dito comunista. Ignorava-se e ainda se ignora a mecânica autotélica da forma-valor que não permite distribuição equânime da riqueza abstrata.  

O heroísmo do povo cubano é uma lição deixada para a posteridade sobre o que um povo imbuído de sentimentos superiores de emancipação é capaz de fazer. Este é o maior legado deixado por Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Raul Castro e tantos outros que lutaram e viram o sangue guerrilheiro jorrar em Sierra Maestra e nas ruas cubanas, enfrentando as barbaridades do exército regular para, ao final, derrotá-lo.   

Não se podem negar os ganhos de povo cubano, que tem os melhores índices de IDH quando comparados com os demais países caribenhos, com os centro-americanos, os americanos do sul e o México. Não se podem negar a vitalidade e capacidade dos atletas (majoritariamente) negros de Cuba, a conquistarem tantas medalhas olímpicas; nem os ganhos de sua etnia completamente alfabetizada, num país em que seus ancestrais foram alvo da escravização direta.  Não há como se deixar de aclamar Cuba como o país do preto Doutor, entre outros ganhos sociais. 
Aonde vai a Cuba de Raul Castro?

Mas há que se reconhecer o fato de ser uma economia de mercado, na qual todas as categorias capitalistas estão presentes (trabalho abstrato, dinheiro, mercadoria, mercado, capital, Estado, política, riqueza abstrata, enfim, tudo que se traduz na forma-valor), daí necessitar de uma inserção mercadológica; daí padecer também quando ocorre a debacle do capitalismo globalizado. 

Aliás, suas agruras aumentam em função da maior vulnerabilidade, pois é apenas uma pequena ilha que sofre com os embargos econômicos que lhe são oficialmente impostos pelos Estados Unidos e é alvo do preconceito capitalista de muitos outros países.       

As restrições à liberdade de opinião e de locomoção bem demonstram a fragilidade de um pequeno sistema capitalista de Estado que nunca abdicou da força e do arbítrio como formas de sustentação política contra o capitalismo liberal e que, em tempos de crise globalizada, tende a passar pelas dificuldades inerentes ao estágio do limite da capacidade de expansão aumentada da forma-valor, principalmente na periferia capitalista. Cuba socialista, que é uma das versões políticas do capitalismo, sofre as consequências da crise deste mesmo capitalismo do qual faz parte.    

A superação das relações sociais capitalistas não pode ter sucesso num único país, ainda que tenha extensão continental, como é o caso do Brasil, da China, da Rússia, dos Estados Unidos, da Austrália, etc.; e muito menos numa pequena ilha, uma vez que a produção de bens e serviços indispensáveis a uma cômoda e sustentável vida social mundial depende da interação transnacional de produção a partir das riquezas naturais existentes de formas diferenciadas em cada país. 

Muito do que temos aqui, certamente não haverá noutro lugar e vice-versa; somente com um sistema de trocas sem mensuração econômica poderemos satisfazer nossas necessidades de modo sustentável. Isto não significa, entretanto, que devamos abdicar das tentativas localizadas de vida fora do mercado como embrião do que virá.  
"Resultados" de hoje não são aqueles com que Che sonhava...

Uma produção de bens e serviços que não se baseie em mercado, mas num sistema de cooperação transnacional para a satisfação de necessidades, implica um novo conceito de vida e, consequentemente, a existência de uma estatura humana superior, solidária, contributiva, que em tudo difere daquilo que a lógica capitalista nos impõe. 

Conseguiremos alcançar tal estágio? Creio que sim, desde que amparados por conceitos teóricos que demonstrem o equívoco no que estamos incidindo; e que confronte a cruel realidade social (que cada vez mais se torna bárbara, por conta do anacronismo de uma forma de relação social que chegou ao seu ponto limite de saturação). A realidade se aproximando da teoria poderá gerar saídas antes inimagináveis (as tais janelas revolucionárias de que fala Celso Lungaretti). 

Tenho divergências conceituais profundas com o marxismo-leninismo cultuado por Fidel, ainda que consiga identificar nele boas intenções, o que não me impede de constatar seus equívocos fundamentais. Daí divergir de muitos dos conceitos de Fidel expressos em sucessivas frases e discursos, dentre as quais pinçamos as que abaixo citamos sucintamente e comentamos:
a) “Pátria ou morte, venceremos!”, com a qual passou a terminar os seus discursos, repetindo uma antiga frase da luta de independência cubana à colonização espanhola, capitaneada por José Marti. O conceito de pátria diverge do universalismo marxista do qual Fidel se dizia defensor;
O slogan caducou; é da etapa das revoluções burguesas.
b) “Socialismo ou morte! Marxismo-leninismo ou morte!”, sem compreender que o politicismo e o socialismo marxista-leninista jamais romperam com as categorias capitalistas. Portanto, talvez sem o saber, Fidel fazia a apologia do capitalismo, ainda que sob a forma de capitalismo de Estado; 
c) “Jamais me aposentarei da política, da revolução e das ideias que tenho. O poder é uma escravidão e eu sou seu escravo”. Esta frase é a que melhor explica as contradições conceituais e os equívocos de Fidel. Primeiramente a política enfeixa uma ideia conceitual sistêmica e de Estado que é contrarrevolucionária; em segundo lugar, quem pensa deve estar aberto às mudanças que o pensar proporciona, pois a inflexibilidade do pensar é a antítese do próprio pensar e, portanto, contrarrevolucionária; e por último, considero que todo poder é escravista e a escravidão é contrarrevolucionária. O despotismo escravista é a marca mais característica do poder.        
Fidel Castro é história pessoal e conceitual relevante, como personagem icônica do século XX, pelo exemplo que encerra. Estou convencido de que seus erros e acertos servirão para a compreensão do que se apresenta hoje em termos de futuro, principalmente quanto à natureza capitalista do regime socialista cubano e, consequentemente, sobre a necessidade de superarmos todas as categorias capitalistas que hoje, mais do que nunca, corroem a vida social. 

Requiescat in pace, Fidel, pois, apesar de tudo, como dizia Rui Barbosa, “maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado.” (por Dalton Rosado)
  1. nome alusivo ao fracassado assalto ao quartel de Moncada, em 26 de julho de 1953, primeira ação guerrilheira de Fidel Castro.
  2. a dos mísseis soviéticos de Cuba, ostensiva; a dos misseis estadunidenses da Turquia, discreta. Os EUA faziam questão de posar de vitoriosos para fins propagandísticos, enquanto os soviéticos não se importavam com as aparências.
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