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segunda-feira, 27 de setembro de 2021

POR QUE ALGUNS OPRIMIDOS REPETEM AS TESES DESUMANAS DO ENERGÚMENO QUE VIROU MICO E SUA TRUPE DE FARSANTES?/1

dalton rosado
DIÁLOGO SOBRE CONCEITOS EQUIVOCADOS
P
eguei um Uber e logo fui instado a conversar com o falante e provocador condutor do veículo, que desde o início deu vazão à sua vontade de expor seu pensamento sobre questões sociais sob o prisma conservador.

A partir de situações particulares e pontuais, fazendo generalizações inadequadas e (a meu ver) equivocadas, passou a explanar sobre seus conceitos. 

Como a viagem era longa, deu tempo para trocarmos ideias, até porque gosto de ouvir o que parte do senso popular admite como verdade.

De pronto começou a criticar os Conselhos Tutelares por punir os pais que deixam os seus filhos menores de idade trabalharem, argumentando que o trabalho de menores é edificante e instrutivo, na linha do que dissera algum tempo atrás o presidente Boçalnaro, o ignaro.

Note-se que, por ser um trabalhador de Uber (não cheguei a perguntar se era o dono do veículo ou trabalhava para o proprietário), ficou evidente que se tratava de mais uma situação na qual o oprimido defende as teses do opressor.  

Acostumei-me a contraditar tais argumentos respeitando as opiniões alheias, até para que as minhas sejam também respeitadas. Isto não significa aceitar o errado como certo, mesmo admitindo que não sou o dono da verdade, podendo estar errado, mesmo porque toda verdade é relativa.

Argumentei que, diante do desemprego estrutural que estamos vivendo, com o capital demitindo trabalhadores e forçando os ainda empregados a aceitarem que não sejam compensadas as perdas salariais decorrentes do crescente processo inflacionário, bem como a supressão de direitos trabalhistas, seria muito conveniente usar a mão-de-obra infantil ou pré-adolescente, objetivando a maximização dos lucros. 

Ele contra-argumentou que o certo seria trabalhar por meio período e estudar no tempo restante, pois assim aprenderia um ofício, disciplina e responsabilidade com o dinheiro. 

A conversa se prolongou e eu, como sempre nesses casos, evitei ofender o interlocutor no campo pessoal, não especulando sobre os motivos de suas preferências, pois entendo que o oprimido é educado para introjetar na sua mente como correta a opressão que sobre ele é exercida, devendo, portanto, apenas ser alertado (para o caso de querer aprender). 

Nem sequer cheguei a arguir a tese de que o próprio trabalho dos adultos é fonte da opressão social que também o vitima, porque isto tomaria tempo e era de uma complexidade imprópria para o momento. 
Pensando em terminar a conversa, argumentei que toda criança merece e deve ter direito a:
— tempo livre para lazer;
— uma boa educação familiar e escolar (em sentido diferente de muitos conceitos expressos na atual grade curricular); e
— condições de vida dignas (habitação, alimentação, saúde, segurança, etc.), algo que, sob o regime da exploração do homem pelo homem, não é oferecido à grande maioria da população. 

Para minha surpresa, o motorista sacou outro argumento conservador, reafirmando em mim a certeza de sua incapacidade de pensar coletivamente e de tomar consciência da realidade social opressora, aferrando-se, então, a conceitos particularizados e equivocados.

Reafirmando a crença na prosperidade pelo trabalho, ele disse que era contra o seu próprio pai (membro do MST que vive num assentamento), pois não era justo tomar a propriedade de quem passara anos trabalhando para ter aquele patrimônio e depois o via dividido com quem não fizera esforço algum para ter a terra. 

Mais uma vez me esforcei para manter um bom nível de cordialidade argumentativa, apesar do meu espanto com a postura de aceitação por parte dele de raciocínios opressores do seu próprio pai, que justificam a injustiça em nome de uma pretensa justiça que é, por essência, excludente. 

Perguntei de quanto era a área na qual estava assentado o seu pai, e ele me respondeu: cerca de 20.000 m², ou dois hectares.

Informei que só um grande latifundiário rural que eu conhecia (e não são poucos os iguais a ele, neste país de vastidões territoriais férteis mas improdutivas) não só possuía muitas propriedades, como somente uma delas totalizava uns 2.700 hectares; mesmo assim e apesar de por ela passar um rio perene, estava inativa, pois se destinava à especulação fundiária. 

Acrescentei, sem mais perguntas, ser injusto, num país com mais de 14 milhões de desempregados (afora tantos outros que já saíram das estatísticas), não existirem terras para serem exploradas por quem nelas quisesse trabalhar; e que imaginava a dificuldade que seu pai enfrentava para tirar o sustento familiar de uma pequena propriedade. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)
Gomes Brasil interpreta a canção composta por Dalton Rosado 
para homenagear Rosa Parks, ativista dos direitos civis
que foi símbolo da luta contra o racismo nos EUA

terça-feira, 7 de abril de 2020

O CORONAVÍRUS SERÁ VENCIDO PELA CIÊNCIA, NÃO PELA RELIGIÃO (imperdível!)

Ora ele hostiliza os que realmente lutam contra a epidemia, ora se prostra ante os ditos pastores... 
Durante a Idade Média, quando os governos eram teocráticos, nos tempos em que a lepra era o coronavírus de hoje, as imagens sagradas eram exibidas em procissões que imploravam a Deus que acabasse com ela. A ciência era perseguida na época. Basta lembrar a condenação de Galileu pela Igreja. 

Hoje, séculos depois, quando o mundo inteiro confia na ciência para encontrar uma vacina contra o novo vírus, o presidente Bolsonaro e seus 30% de seguidores apelam de novo à religião como única esperança.

A cena do presidente de um país laico segundo a Constituição, de joelhos com um grupo de fiéis ante alguns pastores evangélicos, um dos quais profetizando que a partir daquele instante ninguém mais morrerá de Covid-19 porque o Brasil está sendo abençoado por Deus e por Jair Bolsonaro, revela que o presidente está convencido de que o Brasil já é uma teocracia.

Essa leitura de Bolsonaro acaba de ser derrotada pela opinião pública brasileira. Segundo as últimas pesquisas, 76% dos cidadãos apoiam a ciência seguindo os conselhos do ministro da Saúde, que pediu que a população fique em casa.
...de igrejas frequentemente acusadas de terem como verdadeiro deus o bezerro de ouro.
Bolsonaro, ao contrário, e contra todos os outros líderes mundiais, inclusive o norte-americano Donald Trump, que no início fazia piada da epidemia, está ficando sozinho nesta batalha quixotesca contra os moinhos de vento, com apenas os 30% que o seguem em seu fanatismo místico e religioso. 

Até os militares, que aceitaram entrar em seu governo contra a esquerda, hoje se sentem perplexos com o presidente, que, segundo análise feita por um grupo de prestigiosos psicanalistas para a Folha de S. Paulo, sofre de graves distúrbios psiquiátricos, como onipotência, lógica paranoica, messianismo e estilo narcísico.

Os psicanalistas veem no comportamento de Bolsonaro ―de querer ele mesmo buscar uma solução para o coronavírus, desprezando a ciência e mantendo uma posição agressiva contra seu ministro da Saúde― um exacerbado messianismo perigoso que poderia provocar uma tragédia no país.

A esperança é que a grande maioria dos brasileiros esteja demonstrando maturidade democrática e que, apesar de ser este um país profundamente crente, saiba diferenciar entre o papel da religião, que é pessoal e íntimo, e o da ciência.
"Tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos [os vendilhões] do Templo" (João 2:15)
A religião, seja qual for, pois todas merecem respeito, pode servir de consolo aos que a professam para lutar contra as garras do desespero, mas nunca poderá suplantar a ciência ―que é a que pode salvar vidas.

Eu respeito a força e a importância de todas as religiões, assim como respeito os ateus e os agnósticos, mas abomino a existência de um deus volúvel e classista que escolhe quem salvará e quem deixará morrer. Foram o esforço e a inteligência do homem que permitiram, ao longo da história, que o mundo ressuscitasse de todas as grandes catástrofes.

Todos os outros mecanismos que se empenham em ir contra a ciência, colocando Deus como bandeira, são os melhores destruidores de esperanças e os piores feiticeiros e charlatães.

Os verdadeiros santos desta nova peste que assusta o mundo não são os que, como Bolsonaro, pedem orações e jejuns às pessoas, ou se ajoelham diante dos pastores. São os médicos, enfermeiros e cientistas que expõe a própria vida para buscar um remédio seguro que possa servir para todos.
"...o jovem médico chinês Li Wenliang, um dos primeiros a detectar a doença e da qual foi vítima..."
Hoje um santo do coronavírus é o jovem médico chinês Li Wenliang, um dos primeiros a detectar a doença e da qual foi vítima. E, com ele, todos os que, apoiados na ciência e na medicina, se expõem para salvar vidas.

O pequeno Leonardo, o bebê de 50 dias que saiu ileso do coronavírus na Itália, um dos países mais castigados pela epidemia, não foi curado por nenhum milagre divino, mas pela medicina. Seus pais, cujo filho sorrindo foi transformado numa metáfora da esperança que nunca morre, não haviam colocado nele nenhum nome de santo, e sim do gênio da arte e da ciência, Leonardo Da Vinci.

Lembro-me hoje de uma pequena história vivida na Itália, numa cidadezinha minúscula de montanha. Os camponeses estavam desesperados naquele ano porque a seca prejudicara as colheitas, seu único meio de subsistência.

O pároco lhes prometeu que, se eles fossem à missa e à procissão com o santo do lugar, a chuva chegaria, em perfeita sintonia com as receitas teocráticas da Idade Média.
O bebê Leonardo: símbolo de esperança

Aqueles trabalhadores de mãos calejadas e rostos marcados pelo trabalho duro do campo acreditaram no padre. No meio da procissão, o céu escureceu. As nuvens se amontoaram, e todos pensavam que estava chegando o milagre da chuva.

Em vez de água, no entanto, o que as nuvens descarregaram foi uma tremenda tempestade de granizo, com pedras do tamanho de maçãs que acabaram destruindo a já ameaçada colheita. Aqueles homens e mulheres decepcionados voltaram para suas casas e começaram a jogar, de suas janelas, as imagens de santos e virgens em meio ao desespero. 

O simbolismo daquela cena, que poderia parecer sacrílega, era apenas fruto do desespero e da decepção dos pobres moradores do povoado ―e me serviu como reflexão durante meus estudos sobre as religiões e suas mistificações.

As religiões, todas, são libertadoras dos nossos medos e criadoras de esperança, mas se agitam como um bumerangue quando são vividas como superstição e substitutas da ciência.

Muitos desses novos santos da ciência, que se sacrificam para salvar vidas, são idosos e sabem que seus esforços de hoje servirão para salvar novas vidas amanhã. É essa a maior grandeza do homem que resgata todas as suas outras misérias.

A Martin Luther King, o líder norte-americano que lutou contra o racismo, que não desistiu do sonho de que um dia negros e brancos pudessem viajar no mesmo ônibus, e que foi por isso assassinado, é atribuída a frase se soubesse que o mundo acabaria amanhã, ainda assim eu plantaria uma árvore hoje. 

E o patriarca Abraão, pai de todos os crentes, segundo a Bíblia, plantou uma árvore, uma tamargueira, nos seus 100 anos. Foi alvo de chacota, pois diziam que ele já não poderia ver a árvore crescer. Abraão respondeu que a tinha plantado para que outros amanhã pudessem colher seus frutos. 
"...não desistiu do sonho de que um dia negros e brancos pudessem viajar no mesmo ônibus..."
São essas pessoas que fazem com que a esperança continue viva e se multiplique no mundo.

Dedico esta coluna ao médico e ministro da Saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta, um católico praticante que não pede orações e jejuns contra o coronavírus e que dedica todas as suas energias em sua cruzada a favor da ciência e na guerra contra os charlatães, que preferem minimizar a tragédia colocando em perigo muitas vidas que ainda podem ser salvas. (por Juan Arias, colunista do El País)

domingo, 29 de dezembro de 2019

AINDA SUPERAREMOS AS AGRURAS QUE NOS INFERIORIZAM TANTO DIANTE DA IMENSIDÃO DO UNIVERSO

dalton rosado
O MISTÉRIO
Quando olho o firmamento e vejo nele inserido o planeta Terra, que mais me parece um grão de areia em relação ao areal cósmico, fico a pensar sobre o que sou, sendo um pequeno ser nesse mesmo planeta, então constato a grandeza do mistério que é Deus. 
Quem somos nós, portanto, para definirmos e formatarmos os critérios e forma de ser desse Deus? 

Certamente não será um Deus que separa os próprios filhos entre pecadores e santos (com estes últimos merecendo privilégios ou punições na vida eterna como consequência de seus comportamentos terrenos), e se baseando em critérios estabelecidos por esses mesmos filhos a partir de suas suposições do que seja Deus!

Como compreender e explicar a sincronia dos processos de vida dos animais e vegetais tão diferentes entre si em tamanhos e formas e que definem, cada um por si, as suas defesas e consistentes mecanismos de adaptação (a exemplo do mimetismo de pequenos seres que mudam de cor para confundir os seus predadores, os quais, por sua vez, têm outros predadores, numa luta existencial em que a perpetuação de cada espécie obedece aos critérios insondáveis)?

Como aceitar que os seres humanos, dotados de racionalidade, sejam os seus próprios predadores num processo de destruição ecológica planetária irracional como agora ocorre e, paradoxalmente, como se tal comportamento se desse em nome da própria vida? 
A mais conhecida das representações que os artistas criaram de Deus
Como sabemos, há alguns milhões de anos o nosso planeta foi habitado por animais gigantescos como os dinossauros, tendo eles sido completamente dizimados por uma força exterior (uma hecatombe causada pela explosão do choque planetário com um meteoro gigante, segundo os cientistas). 

Devemos, portanto, a recriação da vida animal e vegetal aos milhões de anos de recuperação proporcionados pela própria força da natureza inerente às condições desta nossa nave especial (e espacial) chamada planeta Terra.

Assim, devemos compreender a nossa vulnerabilidade enquanto seres fisicamente diminutos diante da grandeza celeste, e aproveitarmos melhor esse dom que a própria natureza (o Deus misterioso) nos deu, que é a nossa racionalidade. 

Ela nos dá a capacidade de pensarmos e elaborarmos cientificamente proposições que possam nos manter vivos face a tal  inegável vulnerabilidade.  

Qual a razão de ser de tanto egoísmo e sede de poder, que somente causam destruição e segregação? 
Tudo terá mesmo começando num Big Bang?

Será o Deus natureza sádico ao ponto de criar seres dotados de uma racionalidade segregacionista que privilegia alguns poucos em detrimento da maioria, ou isto advirá apenas de um estágio da evolução da natureza irracional para a natureza racional? 

Talvez os pósteros, já evoluídos, olhem para nós num futuro distante com compreensão e pesar por nossa inferioridade racional, (afinal, ainda estávamos em processo de evolução...). 

Não. A natureza é sincrônica, tanto que até as suas explosões cósmicas são produtoras da vida. A natureza é prenhe de vida, e não de morte. 

Acredito que a sincronia da natureza repudia o sadismo e que ainda superaremos as agruras que nos inferiorizam tanto diante da imensidão do universo. 

Acredito que o fundamentalismo religioso que formata um Deus punidor severo e preconceituoso dará lugar a afirmação humana de um Deus natureza fraterno e sábio, capaz de proporcionar vida e emoções permanentes e que contrariem por modos comportamentais ainda desconhecidos o tédio de uma vida futura sem problemas sociais graves.

Neste natal, tive a confirmação de que em pouco menos de nove meses serei avô pela quinta vez, fruto da gestação inicial de minha filha Lara, o que me garante, sob tais critérios, a perpetuação da espécie.

Assim, esperando que esses meus netos(as) – já existentes ou que ainda virão – possam seguir a saga da perpetuação da espécie humana por milênios, termino afirmando que me considero suficientemente ignorante para compreender o grande mistério do universo e suas leis físicas, mas suficiente para especular que o universo é Deus. 

Feliz 2023. (Dalton Rosado)

terça-feira, 24 de setembro de 2019

CARTA ABERTA A GRETA TRUNBERG

Dalton Rosado
Antes de mais nada, querida Greta, queria lhe agradecer por você existir e nos encher de crença na vida e nos seres humanos.

Você representa a dignidade e a coragem de quem, vendo o circo pegar fogo, se apressa em abrir a jaula daquele ser indefeso que ali está preso, ao invés de ceder ao primeiro impulso: o de correr para procurar a saída individual e salvar a própria pele.

É claro que o instinto de sobrevivência faz com que muitos pensem individualmente nas saídas, mas você, na grandeza de seu pequeno corpo de uma menina de 16 anos, está a procurar a chave que nos tornará possível a abertura da jaula que nos aprisiona. 

Este é o seu grande mérito, capaz de alavancar os sentimentos mais nobres da humanidade.
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Greta Trunberg
"Isso está errado, eu não deveria estar aqui. Eu deveria estar na escola, do outro lado do oceano", contestou Trunberg aos líderes de 60 nações. "Vocês ainda se aproximam de nós, jovens, para ter esperança. Como ousam?" 

A jovem ativista denunciou que a falta de ações concretas dos chefes de estado, dizendo: "vocês roubaram, com suas palavras vazias os seus sonhos e sua infância".
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É certo que, dada a sua idade e experiência de vida, não lhe é possível compreender e essência mais profunda dos complexos, intrincados e nebulosos mecanismos que estão a ocasionar o incêndio do circo.

Mas, assim mesmo, você está sendo capaz de identificar responsabilidades em quem, estando preso à estrutura de poder institucional (os políticos da alta cúpula que se reúnem na Organização das Nações Unidas) e aceitando-a, obedecem a uma ordem esquizofrênica que lhes impõe o cometimento do suicídio ecológico.

Você percebe a existência de um poder que é maior do que o poder institucional no qual eles estão investidos; e, com a sua aguçada perspicácia, já desconfia que há um poder maior a ser contestado. Isto fica bem claro nos seus pronunciamentos diretos e retos. 

Percebi ser aguçada a sua percepção por você ter dito que os chefes de governo obedecem à lógica da dinheiro, ainda que não lhe seja possível compreender, do ponto de vista da crítica da economia política e suas complexas análises de forma e conteúdo, toda a mecânica que causa a negatividade desse processo. 

Mas, não se sinta desinformada por isto, pois, até mesmo os que amam o dinheiro, não o conhecem na sua essência mais profunda, ainda que obedeçam ao seu fetiche socialmente negativo e ecologicamente suicida.

Você compreendeu o essencial e denunciou que há uma forma de relação social que está sendo impugnada pelos jovens (e são eles o futuro mais próximo da humanidade!). 

Assim, você dá a todos nós uma aula de sensibilidade humanista: o seu grito de preservação da vida contra o genocídio.
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"As pessoas estão sofrendo. As pessoas estão morrendo. Estamos no início de uma extinção em massa. 

E tudo o que vocês falam gira em torno do dinheiro e de um conto de fadas de crescimento econômico”, afirmou Greta Trunberg.
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Querida Greta, os sentimentos dos que julgam poder estar acima do interesse coletivo são regidos e guiados por conceitos de poder historicamente petrificados e predeterminados. 

Então, mesmo que as ciências lhes apontem os equívocos e a obsolescência de seus postulados, eles continuam acreditando que possam dar ao dinheiro e todo o seu processo de reprodução um tratamento (minimamente) justo, desde que sejam conservados os seus privilégios de classe, é óbvio. 

Eles não compreendem que a lógica da riqueza abstrata não admite senhores que estejam acima do seu vazio sentido autotélico e, muito menos, o desvirtuamento do seu inflexível objeto teleológico de auto-reprodução infinita, que se contrapõe à possibilidade de tratamento sustentável da nossa casa: o Planeta Terra. 

É isto que os faz crerem na possibilidade de colocarem os interesses da lógica mercantil que os rege acima dos alertas da ciência, embora esta, ao longo da história venha sistematicamente derrubando dogmas e valores que, mesmo quando absurdamente destituídos de qualquer base científica, eram tidos como eternos.
Você, como jovem que busca o conhecimento dos fatos históricos como forma de aprendizado sobre o que e em que devemos acreditar, deve lembrar-se do que sofreu Galileu Galilei pelo simples fato de dizer que a Terra era redonda e girava em torno do sol.

Os alertas dos cientistas sobre a catástrofe que pode representar para a humanidade o aquecimento global têm sido sistematicamente ignorados pelos governantes. 

Afinal, para Estados Unidos e China, maiores emissores de gás carbônico na atmosfera, é mais fácil contrariar o que dizem os cientistas do que enfrentar as agruras de uma redução na produção mercantil (inevitavelmente predatória) que faria voar pelos ares os seus números de riqueza abstrata (agora já admitidos pelos mais lúcidos e honestos como absolutamente insustentáveis) e, juntamente com eles, os podres poderes que os sustentam e ostentam.  
Assim, não há apelo ao bom senso que os faça retroceder na forma e conteúdo dos seus podres poderes. Eles jamais se dispõem a considerar o fato de que a humanidade caminha ao encontro de um novo contrato social, em tudo e por tudo diferente do que ora temos. A luta pela vida será árdua. 

Será a força popular que os destronará das suas cidadelas institucionais de apoio à esquizofrenia capitalista. E você, com a mobilização que conseguiu fazer, é um belo exemplo do poderio do consenso popular quando bem orientado.
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Disse Greta Trunberg: "Por mais de 30 anos a ciência foi clara. Como ousam seguir ignorando os alertas e vir aqui para dizer que estão fazendo o bastante? 

Se vocês realmente entendessem essa situação, e ainda assim seguissem falhando em suas ações, então vocês seriam maus. E nisso eu me recuso a acreditar".
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A compreensão que os jovens estão tendo sobre a hipossuficiência da política em romper com as amarras que destroem a vida e o ecossistema está cada vez mais claramente manifestada em seus conceitos e brados. Isso vem sendo expresso, também, no volume de abstenções, votos nulos e em branco das últimas eleições. 

Ao terror que os defensores do sistema promovem ao dizer que a negação do processo eleitoral representa a volta à ditadura, como se somente existissem essas duas formas de organização social, os jovens respondem que querem eles mesmos tomar as rédeas dos seus destinos para salvar o futuro que têm pela frente, e que não vão perdoar os que insistem nas mentiras e nas manipulações eleitorais ou ditatoriais como forma de controle da produção e da organização social.  

Para Trunberg, não haverá planos ou soluções para o que for apresentado durante a Cúpula do Clima. Isso, porque, segundo ela, os números são muito desconfortáveis.
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"Vocês não são maduros o suficiente para dizer que estão falhando. Mas os jovens estão começando a entender sua traição. 

Os olhos das gerações futuras estão virados para vocês. E se vocês decidirem nos ignorar, eu te digo: nós nunca vamos perdoá-los."
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A urgência de uma tomada de posições contra as agressões ao meio ambiente, que se somam às contradições próprias da lógica mercantil em fase de depressão mundial, torna inadiáveis as providências sociais de barramento de todas as práticas imanentes à essa mesma lógica predatória da vida social e do ecossistema. 

Melhor do que quaisquer manifestações de qualquer segmento etário da vida social foram os jovens os que mais compreenderam a necessidade dos protestos que devem provocar uma alteração no rumo das providências urgentes a serem tomadas.
E isto se dá em contraponto à ignorância e sentimento excludente e mantenedor de privilégios de setores da sociedade que admitem que os que mais defendem e intensificam os ideais conservadores e retrógrados são os que devem dirigir politicamente os destinos sociais. 

Infelizmente, esse segmento social existe e é bastante agressivo, mas certamente não é majoritário nem poderá conter o frescor da primavera que se anuncia, independentemente das chuvas ácidas provocadas pelas queimadas insanas das nossas florestas e poluições semelhantes. 
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A jovem ativista, que na última 6ª feira (20) conseguiu mobilizar milhões  de jovens estudantes de mais de 150 países na 3ª Greve Global pelo Clima, ameaçou: 

"Nós não vamos deixá-los sair ilesos dessa. Aqui, agora, vamos definir os limites. O mundo está acordando. A mudança está vindo, quer queiram, quer não”.
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A você, minha querida Greta, quero finalizar dizendo que você já entrou para a história, na qual figurará ao lado de outras mulheres desbravadoras de inestimável valor. 

Como Rosa Parks, a negra do Alabama que, com um simples gesto de não ceder a sua cadeira no ônibus para um homem branco (conforme determinava a lei de segregação social), provocou o início do verdadeiro tsunami que foi a luta pelos direitos civis nos EUA.

Assim me despeço dizendo que você, que poderia ser minha neta pela idade que tem, é minha companheira revolucionária na luta pelo bem da humanidade. 

Um beijo carinhoso do seu vovô/companheiro, Dalton Rosado. 

quarta-feira, 8 de maio de 2019

CRISTO APOIARIA OS EVANGÉLICOS NUMA INVASÃO DA VENEZUELA?

Neste quinto mês de governo com a economia em recesso; queda do apoio da população; desconfiança dos mais pobres, dos professores, mulheres e trabalhadores rurais quanto aos efeitos da revisão da Previdência nas suas futuras aposentadorias; oposição de todos os organismos internacionais ligados aos direitos humanos; e rachadura com o vice-presidente comprometendo a relação com os militares, tudo parece ir mal com a família Bolsonaro no poder.

Fiéis ainda a Bolsonaro, só os evangélicos, hoje cerca de 30% da população. A quase totalidade, vivendo do salário-mínimo ou menos, seguia, ainda há alguns anos o líder Lula.

De formação primária, leitores de um livro só (a Bíblia), são alimentados ideologicamente por pastores, blogs e fake news produzidos pela direção dos diversos movimentos evangélicos.

Só um acontecimento marcante poderá evitar a degringolada do governo, saudado, na sua vitória eleitoral, como messiânico e uma intervenção direta da mão divina na política brasileira. Não é preciso ser vidente e nem ter os dons esotéricos do feiticeiro de Virgínia, Olavo de Carvalho, para adivinhar qual poderá ser o fator capaz de provocar uma união nacional em torno de Bolsonaro.

Bastará ocorrer um incidente militar com a Venezuela capaz de sensibilizar a opinião pública brasileira e provocar uma reação patriótica. Pode estar mesmo em gestação adiantada esse incidente, que colocaria o povo revoltado nas ruas pedindo vingança.

Imaginem uma armação, na qual um grupo de soldados brasileiros são metralhados dentro de nossas fronteiras por venezuelanos bolivarianos, sem faltar a filmagem do começo dessa afronta por um dos soldados, pouco antes de ser também baleado.

Numa situação dessas, no calor patriótico, será fácil convencer o povo da necessidade de uma resposta. E nem o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, conseguiria conter uma declaração de guerra.

Entretanto, o voto do grupo de deputados evangélicos e a pregação dos pastores evangélicos poderão evitar essa aventura guerreira.

Por isso, a questão que colocamos, diante dessa hipotética situação, é de cunho teológico – os evangélicos, professando uma fé baseada no amor e no perdão, aceitarão aprovar essa aventura guerreira?
O Deus do Velho Testamento é tão cruel quanto Júpiter...

Fizemos essa pergunta num reduto evangélico e obtivemos algumas respostas preocupantes e sintomáticas. A maioria preferiu não responder o que é também alarmante, pois como bons cordeiros esperam a decisão de seus pastores.

Os favoráveis a uma guerra de invasão da Venezuela se reportam ao Deus do Velho Testamento, que incentivava guerras de invasão, ocupação, tendo, numa delas, chegado mesmo a parar o Sol e a Lua no céu para dar a vitória ao seu povo contra os amorreus.

Esse trecho da Bíblia, contando uma intervenção direta de Deus numa guerra, está no Livro de Josué 10: 12 a 14 (1). 

Entretanto, embora tal narração reforce para muitos fiéis sua fé em Deus, um Deus guerreiro que não abandona seu povo, ela é absurda diante dos conhecimentos científicos que temos hoje da astronomia e movimento dos astros no Universo.

Pior ainda, durante séculos, esse trecho bíblico reforçou a crença praticamente transformada em dogma, de que a Terra era plana, fixa e que o Sol girava em torno dela. E muitos cientistas dessa época que provaram o contrário (como Giordano Bruno) foram queimados por apostasia. Galileu que afirmava ser a Terra que girava em tornou do Sol, só escapou da fogueira por ter-se renegado.
...diferentemente da imagem de um Deus paternal e compassivo

Pode parecer um tanto absurda aos leitores esta referência a um livro religioso, e mesmo aos sombrios anos da Idade Média. Porém, entendam, naquela época, em lugar dos evangélicos, era a Igreja Católica quem fazia a cabeça do povo e mesmo dos dirigentes, tendo como um dos argumentos principais o castigo da fogueira. 

Retornando ao nosso tema, justificar a necessidade de uma guerra contra a Venezuela não será difícil aos pastores evangélicos porque, neste caso, embora se digam seguidores da nova aliança criada por Jesus Cristo, prefeririam o Deus cruel de nome Jeová ou Adonai.

O qual, vale dizer, era tão cruel quanto o Júpiter, da mitologia greco-romana, que devorava seus filhos. Um exemplo, o Velho Testamento conta que Onã foi morto por praticar masturbação, coito interrupto ou cunilíngua, não se sabe ao certo, para evitar descendência (2).

Diante disso, entende-se o provérbio de Salomão no livro bíblico Eclesiastes, “o temor de Deus é o princípio da sabedoria”. A mensagem do perdão e do amor divino veio com Cristo, mas persistiu a pena da punição eterna, assimilada ao fogo do inferno.

No Catecismo de Westminster, um dos livros básicos doutrinários do presbiterianismo consta a possibilidade da guerra justa, um conceito flexível que não impediu tantas guerras injustas, como o ataque e invasão do Iraque.
Billy Graham no Maracanã (1974)

O que se passa hoje nos EUA é semelhante ao Brasil. Um terço da população, a com menos poder aquisitivo ou a camada popular, é evangélica praticante ou fundamentalista.

Diante da dificuldade de terem uma vida terrena melhor social e economicamente, aderem em massa ao culto da transposição de suas esperanças para o além depois da morte, com as prometidas riquezas e delícias espirituais do céu, não bem explicadas, junto de Deus.

O evangelismo atual nasceu do fundamentalismo ou interpretação literal das Escrituras, defendido pelo pastor presbiteriano Carl McIntire, que morreu em 2002 com 95 anos e esteve em São Paulo nos anos 60, quando pronunciou conferências no Teatro Municipal (um de seus seguidores no Brasil foi o pastor Boanerges Ribeiro, que durante 12 anos dirigiu o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana).

O mais conhecido defensor do evangelismo atual era o pregador Billy Graham, que enchia estádios nos Estados Unidos e mesmo noutros países, proclamando a necessidade de um reavivamento cristão, que era também moral e conservador.

Para quem se surpreendeu com a cerimônia evangélica transmitida pela televisão, tão logo confirmada a vitória do candidato Bolsonaro na eleição presidencial, vale lembrar que a posse de Bill Clinton também se assemelhou a um culto evangélico com oração por um pastor, canto de hino evangélico e presença de Billy Graham.

Os democratas perderam o pouco da simpatia que lhes restava dos evangélicos estadunidenses, transferida para o atual presidente Donald Trump.  
Aliás, a maioria dos evangélicos já estava com os republicanos dos presidentes pai e filho Bush (o sonho dos Bolsonaros seria de repetir isso no Brasil). Em 2001, logo depois do atentado islamita contra as Torres Gêmeas, os evangélicos deram total apoio à guerra de Bush contra o Iraque, chamada de a guerra contra o terror da nova Babilônia.

Na verdade, se fosse uma guerra de reação contra os atentados praticados pelos islamitas, o alvo seria o Afeganistão, onde vivia Bin Laden, e não o Iraque (cujo dirigente era ateu) e contra os islamitas. Porém, para os EUA a guerra não era uma vingança, mas visava outra coisa: o petróleo iraquiano.

Hoje, a Venezuela não é chamada de Babilônia nem atacou ninguém, mas o pretexto é acabar com o marxismo ou comunismo, embora a ameaça de bolivarização da América Latina não exista. Esse pretexto, contudo, é suficiente para mobilizar os evangélicos e obter seu apoio com orações, pregações e talvez até soldados combatendo em nome de Deus.

Mas, a razão principal do interesse dos Estados Unidos pela democracia na Venezuela é bem outra. Trata-se da mesma que provocou a guerra no Iraque e gerou o caos reinante até hoje no Oriente Médio: tomar posse do petróleo.
Um artigo de Rui Martins

A participação do Brasil – que está entregando docilmente seu petróleo sem guerra – tornará a invasão uma questão latino-americana, evitando um confronto direto dos EUA com a Rússia, disposta a defender Maduro.
notas 
1 Sobre o Dia mais Longo
Josué 10: 12 a 14
12 Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os amorreus na mão dos filhos de Israel, e disse na presença de Israel: Sol, detém-se sobre Gibeão, e tu, lua, sobre o vale de Aijalom. 
13 E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos. Não está isto escrito no livro de Jasar? O sol, pois, se deteve no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro. 
14 E não houve dia semelhante a esse, nem antes nem depois dele, atendendo o Senhor assim a voz de um homem; pois o Senhor pelejava por Israel. 
2 Sobre Onã e masturbação
Gênesis 38:8 a 10
Então disse Judá a Onã:
Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão.Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou.
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