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segunda-feira, 21 de agosto de 2023

TIA ZEFINHA E A MODERNIDADE EM CRISE

 




Josefa Filgueira, ou Tia Zefinha, era minha tia-bisavó materna. Nascida em 1880, na chamada Costa Branca, região salineira do Rio Grande do Norte, em 1964 contava 84 anos e já estava com a lucidez claudicante. À altura eu era adolescente e contava 14 anos de idade. 

Ela havia vivido os anos em que ainda não se conhecia eletricidade e os barcos da sua juventude que levavam sal de lá para o sul do Brasil eram movidos à vela ou remos, já que a nem a energia a vapor não era ainda usual por lá.  

Nos tempestivos anos 60 a modernidade já estava sendo vivida e se consolidaria definitivamente nos anos 70 do início da era da microeletrônica e  sua tecnologia revolucionária. 

Naqueles anos o golpe militar, que vinha sendo tentado desde 1954 e que levou Getúlio Vargas ao suicídio como forma de abortá-lo, terminou por ocorrer - quase dez anos depois, em1º de abril de 1964, dia da mentira - e se consolidar sob os auspícios de combate ao comunismo e à corrupção: a velha cantilena golpista de direita.  


À altura eu não tinha clareza do seu significado, mas me chocou ver o pai de um amigo meu, um pacato cidadão de cerca de 50 anos, que gostava de comprar uns whiskies escoceses - bons e baratos - contrabandeados no porto da cidade de Areia Branca/RN, apenas para consumo de sua turma que enxugava legal, ter seu estabelecimento comercial invadido por um jovem Tenente do Exército que o prendeu a fê-lo subir algemado num caminhão do Exército.   

Anos depois foi que compreendi que aquele ato representava uma demonstração de poder arbitrário e da propaganda veiculada pela doutrina militar golpista de combate à corrupção, ao contrabando como crime de lesa impostos da pátria deles, sob a qual se dera a quebra da institucionalidade burguesa, bem como e, principalmente, em nome de um pseudo perigo vermelho.  

Ainda não eram os tempos em que um militar assumiria o poder político do Brasil pelo voto e encheria seu governo de militares com sinecuras bem remuneradas, uso de conhecidos hackers processados para grampear e bisbilhotar magistrados e órgãos do judiciário, e aviões para recuperar joias do Estado para o seu patrimônio particular e da sua esposa piamente evangélica.  

Mas voltando à lembrança da Tia Zefinha, diante do apagão da manhã de 15 de agosto de 2023 que deixou sem energia elétrica boa parte do norte e nordeste do Brasil, paralisando a maior parte das atividades sociais, lembrei-me de sua frase num dia em que faltou energia: “num disse que esse negócio de energia elétrica num dava certo?”  

Para Tia Zefinha, a energia elétrica era uma modernidade ineficaz e até certo ponto perigosa pelo medo que ela tinha medo de levar choque elétrico; é que o novo sempre assusta quem já se acomodou com o velho que mesmo ruim, é por ele conhecido, e o desconhecido pode alterar sua zona de relativo conforto.  

Como disse Caetano Veloso: “a mente apavora o que não é mesmo velho”

O crescimento da direita no mundo me fez lembrar da Tia Zefinha, que por medo do novo queria voltar a um passado social que sempre foi ruim, mas cujos problemas e soluções eram por ela conhecidos.  

Os problemas atuais estão se agravando tragicamente, com alguns aspectos adicionais antes impensáveis, como o aquecimento global fruto da irracional emissão de CO2 na atmosfera e outras agressões planetárias em rios, mares, solo, subsolo e atmosfera. 

 Esse é o combustível do crescimento da direita no mundo, naquilo que costumo chamar de pêndulo da ineficácia, como sendo aquele movimento da peça do mesmo nome num relógio de parede que vai de um lado para outro sem sair do lugar.  A direita e a esquerda institucional se alternam repetidamente no poder político subserviente e ineficaz, razão pela qual a abstenção eleitoral na Argentina de 31% ganhou de qualquer candidato individualmente.   

Hoje, com o apagão elétrico de algumas horas, as regiões afetadas simplesmente pararam. É que a vida social atual está completamente dependente das conexões eletrônicas e sem a energia elétrica pouca coisa funciona, restando assim paralisada a quase totalidade das atividades humanas.  

A cibernética nos seus vários ramos de uso é um ganho da humanidade, e sem ela a vida de cerca de 8 bilhões de seres humanos seria bem mais difícil do que já é. 

 Paradoxalmente, é justamente a Tecnologia da Informação que está promovendo a implosão do modo  de relação social mediado sob o capital por matar a galinha dos ovos de ouro do capital: a redução substancial do crime de apropriação indébita pela extração de mais-valia tornada marginal pela obsolescência do trabalho abstrato em maior proporção que os novos nichos de empregos criados por essa mesma tecnologia.  

Equivocadamente a sociedade do capital entende que o capitalismo gerou os avanços da ciência em seu benefício, e por ela foi constituído para tal desiderato, sem compreender a contradição contida neste processo que explicita a sua injustiça social intrínseca, criando um impasse cuja solução somente será possível com a adoção de um modo de relação social compatível os ganhos da ciência.  

São justamente os tais avanços tecnológicos nos vários campos da ciência, e em todos eles estão presentes os saberes cibernéticos, aquilo que nos impele à adoção de um novo modo de relação social que em tudo e por tudo é incompatível com a lógica da reprodução do valor pela produção e comercialização de mercadorias, pelos motivos antes expostos. 

O capitalismo somente é minimamente viável com o emprego parcialmente substantivo de assalariados segregados.  

Para sua sobrevida escravagista, a mercadoria força de trabalho , única que os trabalhadores descapitalizados possuem para vende rno fantasmagórico altar do capital: o mercado. Há que existir numa proporção que torne tolerável a segregação social por ela promovida e, como disse Marx, há que existir, concomitantemente, com um exército de desempregados capaz de reduzir a pressão dos trabalhadores por melhores salários.  

É por isso que Marx disse nos Grundrisse que quando atingíssemos o estágio da produção tecnológica de mercadorias capaz de prescindir substancialmente do trabalho assalariado num desequilíbrio de proporção entre empregados e grandes e majoritários contingentes de desempregados  - desemprego estrutural como ora ocorre -, toda a lógica de reprodução do valor iria voar pelos ares. É o que estamos a observar.  

Antes, no período da ascensão capitalista, era a classe operária empregada e assalariada o sujeito da revolução, e que tomado o poder das mãos do capital deveria se auto extinguir enquanto classe trabalhadora assalariada produtora de valor, bem como extinguir a própria forma-valor no curso da consolidação revolucionária. 

Hoje, com o desemprego estrutural é a insatisfação popular com a inviabilidade da vida - todos são afetados, até os empregados com a redução de salários e disfunção estatal na satisfação das demandas estatais como contrapartida dos impostos a todos cobrados -, que está a exigir um passo adiante.  

Mas o medo do desconhecido, ou seja, de uma sociedade sem a mediação social do valor, assusta o homo aeconomicus aculturado no agir e pensar sob a forma valor, que é tido por ele como dado imutável de sua existência. Para ele é algo assim como se querer que se viva sem tomar água ou sem alimentos. 

O condicionamento apriorístico a que estamos submetidos nos faz confundir o valor de uso, inerente a qualquer objeto de consumo ou serviço, com seu valor de troca, uma invenção humana histórica, sem que se saiba claramente que é esta última categoria capitalista aquela que determina toda a produção ou não-produção dos bens de consumo. 

 É o mercado aquilo que ora está a destruir tal produção, vez que neste processo há apenas o uso oportunista da necessidade de consumo das mercadorias cuja aquisição está substancialmente reduzida pela depressão econômica e limite desta mesma necessidade, não se usa mais de um sapato por vez. 

Somente se produz o que dá lucro, regra capitalista da famigerada viabilidade econômica da produção, e a forma-mercadoria hoje esbarra na capacidade aquisitiva para que se opere a sua produção com dupla personalidade - valores de uso e de troca - e junto com ela a negatividade intrínseca a uma relação social abstrata, negativa e segregacionista que comanda a vida real.  

É por isto que muitas vezes se queimam excedentes de produção de alimentos num país onde aumenta a fome.  

O desapego ao modo de produção capitalista, ou seja, viver com a adoção de um modo de produção voltado para a satisfação das necessidades de consumo, e não para o lucro, não é coisa fácil; mas tal como alguém que vai dirigir um carro pela primeira numa rua com outros veículos, só tem duas alternativas:  

(i) enfrentar o desafio de dirigir e se manter focado no que tem que ser feito no tráfego sem medo de abalroamento;  

(ii) ou jamais aprender a dirigir.   

Encontramo-nos no limiar de um processo que conjumina urgência e necessidade de sobrevivência.  

Urgência por conta de que há uma capacidade autodestrutiva nuclear que vem sendo noticiada por quem detém tal possibilidade de uso, bem como pela necessidade de ajuste da contenção de emissão de gás carbônico na atmosfera por um processo de produção industrial com uso de combustíveis fósseis que não pode parar.  

Necessidade por conta de que, apesar de todo o saber tecnológico existente, ou justamente por causa dele, ocorre o aumenta a fome no mundo, e justamente por conta da incompatibilidade entre forma tecnológica de produção e o conteúdo social desta, circunstância que se traduz numa contradição irresolúvel sob uma forma de relação social que se tornou obsoleta e inviável por múltiplos aspectos. 

Não é o caso de fazermos igual a minha Tia Zefinha, que queria voltar aos tempos da lamparina e do fogão à lenha condenando a eletricidade; mas de usarmos todo o saber tecnológico da humanidade em benefício dela mesma, e não de alguns poucos beneficiados administradores submissos da lógica de acumulação do capital que ora cavam a própria cova. (por Dalton Rosado)  


sábado, 11 de março de 2023

LULA 3 SERÁ COZIDO EM FOGO ALTO PELA CRISE CAPITALISTA

 


Com sua costumaz lucidez, Celso Lungaretti alerta o lulopetismo para o possível fiasco de seu novo governo diante das atuais condições do capitalismo brasileiro e mundial. Como também é costumaz, o alerta será recebido com tremenda indiferença pela turma hoje de volta ao poder. 

Não poderia ser diferente, pois há muitas décadas o lulopetismo deixou de pensar criticamente e tomou o caminho da mistificação eleitoreira onde cabe apenas duas categorias: ou você está com eles ou é contra eles. À esquerda, o lulismo não tolera qualquer análise ou crítica que aponte erros ou implique na perda de votantes. Só a bajulação é tolerada e quem não se ajoelha é ou sumariamente ignorado ou, caso tenha um mínimo de viabilidade, tem sua imagem destruída, a exemplo do feito contra Marina Silva e Ciro Gomes

Mas, infelizmente para eles, a realidade não se sujeita ao que queremos, pois é objetiva, e ignorando-a ou não, ela acaba sempre se impondo. Ninguém deixa de ser atropelado por um carro ao atravessar a rua inadvertidamente por ter posto na cabeça serem os automóveis hologramas e quem não acredita na gravidade acaba esborrachado no chão igual a qualquer outro caso pule do décimo andar de um prédio. 

Tanto quanto a força concreta dos carros ou da gravidade, existe a dinâmica do capitalismo, estrutura social criada pelo trabalho humano, mas cuja objetividade e legalidade governa a todos. Marx já dizia, os seres humanos criam a sociedade, mas não simplesmente do modo como querem ou nas condições que querem, existindo aí um jogo complexo de interações e formas de intervenção, as quais variam em capacidade de acordo com o nível de profundidade da dinâmica social. 

A raiz do capitalismo é a propriedade privada dos meios de produção, onde a riqueza criada pelo trabalho é apropriada pelo proprietário, o capitalista ou burguês. A propriedade privada estabelece o mercado, onde os indivíduos estão em contraposição entre si e a riqueza, gerada socialmente, só pode circular mediante trocas. A necessidade das trocas gera o Valor, elemento objetivo da riqueza, possuindo por função comparar as mercadorias a serem trocadas, e cuja base é o tempo de trabalho médio socialmente necessário para se produzir uma mercadoria. Quanto menos tempo, menos valor terá uma mercadoria e mais competitiva ela ficará no mercado. Para compensar a perda relativa do valor de uma mercadoria, o capitalista amplia a produção. Ou seja, no capitalismo a lógica é produzir mais com o menor tempo possível

É este esquema, totalmente objetivo e independente da vontade particular deste ou daquele indivíduo - seja ele um simples cidadão, um banqueiro ou um presidente - a mola do regime capitalista e também seu elemento desintegrador. Por um lado, a própria estrutura da propriedade privada força a concentração de riqueza, pois o capitalista se apropria a riqueza produzida pelos trabalhadores, devolvendo apenas parte dela na forma de salário. Ao contrário do pensamento comum, o salário é uma devolução, pois toda riqueza produzida é de imediato do proprietário, estando aí a raiz da alienação apontada por Marx entre o trabalhador e o fruto de seu trabalho. O operário não se reconhece na mercadoria pois ela é experenciada efetiva e imediatamente como uma coisa pertencente a outro

E existem outros níveis de concentração da riqueza, variando entre os próprios capitalistas, setores da economia, cidades, regiões e finalmente chegando a países. Capitalismo é acúmulo, é drenagem da riqueza sempre para as mãos de pouquíssimos, implicando no fato de que o capitalismo sempre será desigual e quanto mais riqueza for produzida, mais desigual a sociedade capitalista será. 

O outro aspecto importante da estrutura capitalista é a chamada lei do valor. Ora, se no mercado é mais competitiva a mercadoria com menor valor e é preciso sempre produzir mais para compensar a perda relativa com mercadorias individuais, a consequência é uma frenética corrida para fazer mais e com o menor custo. No limite, porém, esta corrida muitas vezes termina mal, pois a sociedade não consegue absorver toda a produção, levando à paralisia do comércio e consequente paralisia produtiva. Os lucros despencam, os capitalistas mais débeis começam a quebrar, não honrando compromissos com fornecedores, instituições bancárias e funcionários. Começam a ocorrer demissões, retroalimentando a queda da demanda e, logo, toda a sociedade está em crise.


A crise capitalista, assim, é uma crise de superprodução, ao contrário do passado quando ocorriam crises sociais por escassez. É pelo excesso e pela queda da taxa de lucro que o capitalismo sucumbe e isto não tem relação com política econômica, monetária, taxa de juros ou ambiente de negócios. É uma lei do próprio capitalismo, encrustada em seu núcleo duro, a propriedade privada e o mercado, e tão objetiva quanto a fórmula da água. São os economistas vulgares os responsáveis por transformar este fato em uma questão monetária, de controle fiscal, estímulos, falta de reformas ou qualquer outra pataquada inócua representativa apenas do quanto a Economia não é uma ciência, mas apenas uma forma de manipulação ideológica. 

Por isso, o capitalismo é incontrolável e irreformável, pois em sua essência está o irracionalismo da superprodução e do mercado. Ao longo da história, os capitalistas tentam colocar gambiarras no sistema para contornar as constantes crises de acumulação, basicamente lançando mão de dois mecanismos, a intervenção estatal e a guerra. A intervenção varia de tipo e nível, podendo ser a estatização ou desestatização, empréstimos, desonerações ou onerações, benefícios sociais ou sua retirada, etc. Já a guerra é o momento ápice em que o excesso de riqueza é literalmente obliterado para abrir passagem, a fórceps, para novo ciclo acumulativo.

Dito isso, todo governo basicamente tem duas alternativas: ser sortudo ou ser azarado. Com sorte, ele pega um momento de crescimento, onde os negócios estão indo bem e a acumulação capitalista está dentro de padrões toleráveis. Se tiver azar, ele pega o momento de fim de ciclo, de crise na acumulação. Lula teve sorte em 2003-2010, não parece ter agora. 

Na realidade, desde 2008 o capitalismo mundial patina, incapaz de engatar um ciclo produtivo sustentável. A razão é exatamente a elencada acima, a superprodução, ou, dito de outra forma, o capitalismo bateu no teto, igual já tinha batido em 1929. Isso significa que na atual configuração mundial, é impossível os seres humanos absorverem adequadamente a quantidade de mercadorias produzida, não por falta de dinheiro pra consumir, mas porque o nível produtivo é tão titânico a ponto de ser humanamente impossível dar conta de tudo, apesar de estarmos em um contexto  de hiper consumo supérfluo, com a produção abissal de lixo e rejeitos.

O resultado político disto é a ingovernabilidade social, com erupções de levantes, guerras e, mais prosaicamente, o desgaste de governantes. A impopularidade dos governos, sejam eles de esquerda ou direita, tem sido a tônica destes anos, com a crise engolindo a todos. Basta olhar para Biden, Boric, Fernandez, Macron, etc, para se ter ideia deste processo, todos assumiram com grandes esperanças para logo derraparem na insatisfação popular. Novamente, como disse Marx no 18 de Brumário, a primeira vítima de toda crise capitalista é o mandatário do país, não importa quem ele seja, pois é nele que o povo comum canalizará sua raiva e insatisfação. E quem costuma faturar é a oposição, seja também quem ela for.  

Em épocas de crise aguda, como a que estamos começando a viver, as alternativas radicais ganham mais guarida no seio da população. O campo dos moderados vai diminuindo até se tornar minoria completa, ao contrário de épocas de estabilidade, quando é majoritário. A aderência às ideias radicais surge da própria condição crítica vivida pelos indivíduos no dia a dia. A emotividade passa a falar mais alto, com o medo, a raiva, o ódio e a esperança tomando o lugar do raciocínio pragmático. São tempos de intolerância e agressividade. Por isso, quem apostar no mais do mesmo invariavelmente fracassará e apenas quem encarnar a mudança será capaz de arregimentar as multidões. 

A extrema-direita sabe disto e é este o motivo de ela falar e agir de forma radical. No entanto, sua radicalidade é falsa, pois visa apenas reforçar, por outros meios, o domínio da propriedade privada e do mercado, mas consegue apelar ao vulgo por oferecer alternativas à situação vivida. 

Ao não propor alternativa nenhuma, o lulopetismo entra no lodaçal modorrento da continuidade do pesadelo. Pior, pois enfraquece a esquerda e deixa a direita como única vocalizadora de um projeto de transformação social. Enquanto se arvora no discurso tecnocrata, na empulhação e na politicagem, o governo Lula é comido pouco a pouco pela crise capitalista, diante da qual é impotente. A única alternativa seria romper as amarras do bom mocismo e enveredar também pelo caminho da radicalidade, com todas as consequências daí advindas. No entanto, basta olhar a cara tediosa de Haddad para perceber o quanto audácia não é palavra constante do dicionário lulista. 

Resta então ir cozinhando a gororoba indigesta e empurrando com a barriga o fim, que se prenuncia trágico. Caso não tenha outro golpe de sorte, o destino de Lula 3 será o de ser tragado pela debacle da sociedade capitalista. (por David Emanuel Coelho

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

PULSÃO ASSASSINA DO CAPITALISMO CONDUZ A HUMANIDADE PARA A BARBÁRIE

 


Dissemos em artigo recente que o capitalismo provoca o irracionalismo social e citamos alguns exemplos disso.  

Poderíamos ter citado um corolário de outros exemplos, como a incineração de alimentos por produtores objetivando a manutenção dos preços, e isto num contexto onde cresce o fantasma da fome; ou citarmos o uso indiscriminado de matérias plásticas descartáveis que após o uso que vão poluir os mares matando as algas dos oceanos, tão importantes para todo o ecossistema, bem como para a fauna marinha.  

Mas aqui queremos nos concentrar na análise da essência e pulsão assassina desse modo de relação social, pois assim será considerada pelas gerações futuras, os quais terão pena dos nossos padecimentos, isso se a espécie humana não sucumbir antes, diante da sanha socialmente destrutiva e autodestrutiva da própria forma capitalista. 

São muitos os adjetivos comportamentais capitalistas convergentes para a sua essência assassina e genocida como exemplos e, neste momento de debacle da sua própria forma, ele age tal qual um suicida criminoso revoltado incapaz de viver sua própria vida e que quer levar para a morte toda a humanidade. 

A xenofobia capitalista, expressão da existência dos Estados Nacionais, se traduz num patriotismo nacionalista étnico excludente daqueles situados além das fronteiras nacionais, leva ao assassinato pela guerra dos estrangeiros, considerados contrários aos interesses do país.  


A formação das nações, de configurações jurídicas geopolíticas recentes, obedeceu ao critério capitalista de produção nacional de mercadorias visando à exportação e proteção destas por barreiras alfandegárias, enviando e recebendo excedentes da produção social de cada região de acordo com as suas capacidades geológicas, climáticas, minerais, tecnológicas, culturais, etc. Estas barreiras representam o contrário do que é - ou deveria ser - a fraternidade humana entre os povos, pois coloca a concorrência acima da solidariedade. 

Portanto, a xenofobia é assassina e, juntamente com outros fatores, compõe a base da motivação bárbara e genocida da guerra entre os povos.  

As nações e os Estados capitalistas foram formatados dentro dos interesses de sustentação à lógica social a eles inerentes e imanentes, de modo que todas as nações se submetem a todas as decomposições do agir e pensar independentemente da sua forma política.  

A forma política sob o capital não tem soberania de vontade e por isto são tão similares as posturas de governos mais fechados e centralizadores do comando, ditatoriais, e as posturas de governos sob cânones descentralizadores do poder governamental, como pretendem ser os governos republicanos de alternância eleitoral de poder.  

As ditaduras burguesas têm diferenciações para com as democracias burguesas no varejo e por dependerem da disputa cíclica do poder por grupos políticos em seu interior, tendem a ter mais flexibilização ditatorial de mando, vez que os pesos e contrapesos das suas instâncias estatais freiam melhor o absolutismo governamental opressor do Estado - mesmo os que se autointitulam pretensamente proletários.  

Entretanto, na hora do vamos ver, o que vigora é o interesse do capital representado pelos detentores de poder de mando do governo; dos representantes parlamentares e seus partidos - sempre em maioria pelos que são ligados ao capital e que contam com a participação dos que se dizem críticos da capital, pois o legitimam com sua presença; dos empresários dos vários ramos das atividades econômicas; e até mesmo dos sindicatos de trabalhadores, sempre buscando as melhorias dentro do capital sem questionar sobre a necessidade de sua própria superação enquanto categorias contributivas para a ordem capitalista.  

Já ouvi de um trabalhador o questionamento sobre os coreanos trabalhadores na siderúrgica do Pecém, na grande Fortaleza, por considerar que lhe roubam o emprego pertencente aos trabalhadores brasileiros  - pode?! Este é um exemplo de como o capitalismo torna os trabalhadores xenófobos e adversários entre si.  

Guerra concorrencial de mercado como altar do sacrifício humano – Adam Smith, pai do liberalismo clássico de mercado, cunhou a expressão mão invisível para explicar, de modo elogioso, a capacidade do mercado em intervir espontaneamente, por mecanismos próprios e internos, na equalização de preços e premiação para quem produz mais em menos tempo e melhor.  

Mas a mão invisível não é santa!  

O mercado é o altar da guerra concorrencial de mercado onde ocorre o confronto épico da disputa do capital com ele mesmo de forma destrutiva e autodestrutiva no longo prazo. 

O capitalista que produz mais e melhor em menos tempo, reduzindo custos de produção e ganhando qualidade, ganha a guerra concorrencial de mercado eliminando os seus concorrentes. Assim, concentra a riqueza em suas mãos na medida que acumula o lucro e se torna mais competitivo em aplicação de capital fixo - máquinas e instalações -, e até mesmo compram concorrentes menos expressivos economicamente, mas que incomodam, para eliminar a produção destes. 

Mas ao ampliar a sua produção, o capitalista vencedor da guerra concorrencial de mercado concentra riqueza e horizontaliza pobreza salarial; ao usar máquinas cada vez mais sofisticadas que reduzem valor e preço das mercadorias - que são coisas diferentes - provocam o desemprego estrutural, o qual reduz completamente a capacidade de compra e colide com o objetivo empresarial de vender e ganhar capital cada vez mais.  

A China, que cresceu muito nos últimos anos reduzindo custos de produção com uso da tecnologia, salários baixos e estímulos fiscais, agora vê-se na condição da redução drástica do crescimento, causando problemas para si e para todo o mercado financeiro ao qual deve cerca de 300% do seu PIB anual e para quem deve pagar os juros incidentes.  

O mundo é credor da China e o seu colapso será causa de turbulências mundiais severas. Entretanto, foi na guerra concorrencial de mercado que a China pôde se elevar à condição de segundo maior PIB do mundo apostando num crescimento econômico constante e crescente, mas cujo limite agora esbarra na capacidade de expansão capitalista.   

O mercado é a categoria capitalista para a qual converge toda concentração de trabalho abstrato produtor de valor, a mercadoria força de trabalho transformada em valor e todas as mercadorias sensíveis com seu valor de uso e de troca, sendo infenso a controles externos. Quando o Estado entende dever tributar a produção ele consegue afastar tal produção por incapacidade concorrencial de preço e leva os produtores à falência.  

Destarte, o mercado funciona como a hora da verdade do capitalismo na qual se evidencia toda a sua falibilidade.  

Hipocrisia governamental, deseducação, escravização, misoginia, homofobia, racismo, supremacismo e guerra - os governantes de todos os matizes ideológicos estão sempre a afirmar os seus propósitos de boa vizinhança e solidariedade para com as outras nações.  

Mas todos os países do G7 – Estados Unidos, Inglaterra. Alemanha, Franças, Japão, Itália, Canadá - têm histórico de beligerância e de desrespeito à autonomia dos povos quando estes não rezam pelas suas cartilhas e contrariam os seus interesses.  

Os Estados Unidos foram os grandes beneficiários das guerras mundiais das quais saiu com seu território ileso, além  de credor de vendas feitas aos países -principalmente os participantes do conflito, não importa se ganhadores ou perdedores-, além de instituir a sua moeda como moeda universal - o maior de todos os ganhos. A partir daí se tornou palmatória do mundo e se sentiu autorizado a intervir em quaisquer conflitos de poder nos países para colocar ali dirigentes submissos e simpáticos aos seus interesses.  

Não é para lá que fugiu o corrupto cubano Fulgêncio Batista que jamais foi alvo de qualquer embargo econômico quando era ditador de Cuba? Não fugiu para lá o igualmente iraniano corrupto, Xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlevi e sua família, queridinho dos Estados Unidos, quando removido do poder pela revolução islâmica teocrática do Aiatolá Ruhollah Khomeini? Seriam infindáveis os exemplos de intervenção militar estadunidense em países de todos os quadrantes do mundo para a manutenção dos seus interesses.  

Nessa onda histórica estão incluídos até antigos aliados que se voltaram contra os Estados Unidos como o bilionário fundamentalista religioso saudita Osama Bin Laden e o ditador iraquiano Saddam Hussein, ambos assassinados pelos marines estadunidenses.    

O que dizer da Alemanha nazista, ajudada pelo fascismo italiano e japonês, responsável pelo maior genocídio mundial em apenas cinco anos e poucos meses num conflito mundial no qual se calcula que morreram cerca de 50 milhões de pessoas, ou 3% da população mundial à época? 

Não dá para deixar de falar nos colonialismos inglês e francês que explorou até onde pôde as Américas, África e Ásia, e hoje, após as guerras de independências, ainda tentam manter por outros mecanismos capitalistas o seu poder de mando. 

A hipocrisia da boa convivência mundial entre as nações esbarra na lógica capitalista mundial, hoje mais globalizada do que nunca, substituindo a fraternidade e cooperação mundiais por uma concorrência mercantil-financeira que atingiu o seu estágio de contradição interna irresolúvel e nos coloca diante de impasses como a migração humana rejeitada pelo nacionalismo xenófobo e a ameaça de hecatombe nuclear que toma o noticiário internacional como a coisa mais natural do mundo em face dos desdobramentos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, além do conflito entre China e Estados Unidos à espreita.  

Outro aspecto a ser destacado é a deseducação causada por um critério moral capenga no qual levar vantagem é a tônica a ser observada pelos mais jovens no seu desespero pela falta de perspectivas de vida contributiva e saudável futura.  

Misoginia decorrente de um patriarcalismo obsoleto; homofobia calcada em preceitos religiosos e costumes ultrapassados; supremacismo racial derivado de uma falsa ideia de superioridade de raça são elementos que compõem este universo de criações capitalistas  negativas os quais somos obrigados a suportar graças a uma forma de relação social que os preserva. 

Mas ainda dá tempo de revermos tudo isso!!! (por Dalton Rosado


domingo, 26 de julho de 2015

LÁ FORA COMPARAM CRISE BRASILEIRA A FILME DE HORROR. MAS OS ATORES SÃO DE TOSQUEIRA TRASH.

Considero o Alberto Dines (foto) um dos maiores nomes da nossa imprensa em todos os tempos, além de ter imenso respeito pelo papel que ele desempenhou na resistência jornalística à ditadura de 1964/85.

Então, quis logo conhecer um editorial da imprensa britânica que o Dines acaba de recomendar entusiasticamente, como vocês podem constatar nestes trechos:
"Recessão e suborno: a crescente podridão no Brasil foi o título do editorial desta quinta-feira (23) no secular Financial Times, o jornal cor-de-salmão que raramente pisa em falso quando dá opinião... 
'Incompetência, arrogância e corrupção tiraram do Brasil seu encanto mágico… Não é de admirar que o país hoje seja comparado a um infindável filme de horror', afirma o FT.
...Ao associar de forma direta, impiedosa, o fenômeno macroeconômico da recessão à esfera criminal onde se encaixa o suborno, o jornal escancara a natureza da nossa desgraça.
Não há luz no fim do túnel, só mais abominações...
Para não deixar dúvidas quanto a gravidade do que está sendo investigado, adiciona dois penosos ingredientes raramente utilizados nas avaliações sobre o que aconteceu na Petrobrás: incompetência e arrogância.
Para coroar, o diagnóstico, o arrasador substantivo – podridão – que nos remete a Shakespeare e ao inconformado Hamlet... 
...Verdadeira bomba arrasa-quarteirão espalha estilhaços, fere a todos que, mesmo de longe, percebem o enredo"
Acabei encontrando uma tradução da íntegra do dito editorial  no site do jornal Valor, cujas ferramentas impedem, contudo, que seja copiado. O jeito é vocês o acessarem teclando aqui.

Dou toda a razão ao Dines: o FT cutucou nossas feridas até sangrarem, dando uma visão impiedosa mas veraz da situação extremamente grave em que nos encontramos.

Só discordo de que pareça filme de horror. Com atores como aqueles que estão envolvidos na produção dos nossos infortúnios, a coisa está muito mais para uma tosqueira bem trash, na linha do terrir. Ainda que seja terrir para não chorar...

Recomendo aos adultos, que certamente aproveitarão bem a leitura. As crianças preferem ser tranquilizadas, então para elas caem melhor as fantasias com happy end dos blogueiros chapa-branca.
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