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terça-feira, 27 de dezembro de 2022

ESTAMOS SUPERESTIMANDO TERRORISTAS CARICATOS E IGNORANDO RISCOS MAIORES

Ubaldo foi um personagem criado por Henfil em 1975, quando o terrorismo de Estado...
A
bomba explode lá fora, agora o que vou temer? 

A pergunta de Torquato Neto na letra de Marginália II é emblemática quanto ao comportamento de expressivos contingentes de brasileiros letrados (como em tudo na vida, há honrosas exceções, claro!): estes não só temem desmesuradamente os perigos verdadeiros, como inventam outros quando os antigos evaporam.

Assim é que a sinistrose do momento são alguns atentados pirotécnicos em Brasília quando da diplomação do Lula como novo presidente da República e outro que deu chabu na semana passada e realmente teria produzido mortes... mas, a esmo, muito mais detonando a imagem do que alavancando a causa dos mentecaptos responsáveis.

Minha terra tem palmeiras onde sopra o vento forte da fome, do medo e muito, principalmente, da morte – também consta daquela certeira reflexão poética do Torquato nos idos de 1968. 

O que é o Brasil, se não um abatedouro de coitadezas? Pela fome, pelo abandono e pelas armas.
...já arrefecia, para satirizar  esquerdistas que continuavam exageradamente apavorados.
Um rio de sangue atravessa nossa História, com a imolação de indígenas, escravos, pobres, rebeldes e uma infinidade de etceteras, para a perpetuação de um autoritarismo e de uma exploração seculares.  

Então, os que hoje temem o jus sperniandi dos debiloides derrotados nas urnas e clamam por medidas policiais são, em grande parte, os que deveriam ter ido às ruas para derrubar o governo genocida antes que ele causasse a morte evitável de aproximadamente 400 mil brasileiros durante a pandemia de covid, afora os pelo menos 600 mil que, mesmo sem a escandalosa sabotagem negacionista à vacinação, estavam destinados a morrer.

Mas, esses heróis do teclado e dos conchavos vergonhosamente, deixaram que secundaristas e torcidas organizadas de futebol fossem enfrentar sozinhos as hordas fascistas na avenida Paulista... e escorraçá-las, comprovando que o inimigo, afinal, nunca passara de um tigre de papel.  

Assim como o era o império colonial português quando os inconfidentes mineiros tinham enorme chance de deflagrar um verdadeiro processo de independência, mas tantos que tinham algo a perder ficaram em cima do muro e acabaram descendo pelo lado errado; Tiradentes foi abandonado às feras.
Onde estão nossos mortos? Onde estavam nossos apoiadores de 68?
Tanto quanto fomos abandonados às feras nós, os resistentes dos
anos de chumbo, pois bastaria que um centésimo dos manifestantes de 1968 entrasse na luta conosco em 1969 para termos real possibilidade de vitória. 

Enfim, voltando à paúra da vez. parece nem sequer ter passado pela cabeça de quantos esperaram a desbozificação cair do céu, a obviedade de que eram inevitáveis esses episódios de faroeste caboclo após o Bozo:
 ter facilitado tanto o acesso a armas de todo tipo e calibre (inclusive as privativas das Forças Armadas), seja afrouxando a legislação, seja enfraquecendo o controle; e,
— haver trombeteado exaustivamente, dia e noite que os homens de bem precisavam tomar nas mãos o destino da pátria (ah, como o Samuel Johnson estava certo quanto ao último refúgio dos canalhas!). 

Mas nada, absolutamente nada, respalda os temores de uma virada de mesa de última hora. Não acontecerá. 

Os poderosos já chegaram a um entendimento de como terão seus interesses preservados no novo governo, segundo a velha lição de Lampedusa. 

Os vira-latas do capitalismo e os fanáticos deslumbrados dos acampamentos antidemocráticos não têm poder de fogo suficiente para peitar os que realmente mandam. 

Muito mais complicados foram os estertores da ditadura militar, quando quem praticava atentados não eram civis metidos a bestas, mas profissionais... que, mesmo assim, deram um monumental chabu no episódio do
Riocentro, quando a bomba explodiu no colo de quem a transportava.

Daquela vez, os terroristas eram agentes da repressão política indignados com a decisão do ditador Geisel de desmontar a estrutura de combate à esquerda armada montada a partir de 1969 e que já perdera a utilidade, só servindo para prejudicar a imagem e os negócios externos do Brasil.

Foram sequestros e espancamentos de oponentes do regime por parte de paramilitares, cartas-bombas enviadas a entidades como a OAB e a ABI, incêndios de bancas de jornais que vendiam publicações alternativas, prisão oficializada e tortura de esquerdistas inofensivos como Vladimir Herzog. Tudo para despertar reações que parecessem comprovar a lorota por eles sustentada, de que a ameaça subversiva ainda persistia e os DOI-Codis da vida continuavam tendo razão de existir.

Agora é gente muito mais destreinada, desorganizada e descerebrada que age. Vidas podem ser perdidas, danos podem ser causados, mas não deterão a desbozificação nem que a vaca tussa.

Temos mesmo é de temer o que acontecerá quando, depois da tarefa fácil de desfazer as medidas mais iníquas e arbitrárias do demencial ex-presidente, o Governo Lula tiver de mostrar serviço na área econômica, principal drama do nosso povo face à interminável recessão que nos fustiga (pouco importando os economistas  a reconhecerem como tal ou não!).
Terroristas acidentais não
sabem: bomba com cabeça
de palhaço dá chabu!

Aí, a frustração dos coitadezas poderá explodir, dando nova oportunidade à extrema-direita de transformar o ruim em péssimo. E é bem capaz de então as forças do retrocesso já se terem livrado do canastrão que sempre nega fogo na hora H e escolhido um aprendiz de Hitler mais apto para as liderar.

Temos certamente um ano de trégua pela frente, talvez um pouco mais. 

No entanto, se não partirmos desde já para as transformações em profundidade desesperadamente necessárias, aquelas capazes de tirar o Brasil do fundo do poço, dias piores virão. 

Muito piores! (por Celso Lungaretti)  

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

O BOZO OFERECEU AOS MEDÍOCRES UMA CHANCE ÚNICA DE SEREM NOTADOS

jefferson tenório
ENTRE O PATÉTICO E O TERROR, NASCE O 
BOLSOTERRORISMO NOS ACAMPAMENTOS
O bolsonarismo tem nos mostrado que há uma linha tênue entre o patético e o terrorismo. 

A crise estética pelo já conhecido mau gosto e breguice dos grupos antidemocráticos se confunde com uma organização criminosa que vem ganhando força, principalmente nos acampamentos bolsonaristas. 

Fazer contato com extraterrestres usado celulares na cabeça, gritar por intervenção militar, marchar de modo descompensado agarrado às bandeiras, se colocar no para-brisa de caminhão em alta velocidade ou passar a noite de natal na frente de quartéis cantando Noite Feliz podem servir para memes e deboches, entretanto esses acampamentos são também incubadora para o nascimento e manutenção do bolsonarismo.

Não acho que o bolsonarismo seja apenas uma questão ideológica. A resiliência desses grupos demonstra que estamos diante de um fenômeno identitário. Isto significa que mais do que dar voz e visibilidade aos lunáticos da frente dos quartéis, Bolsonaro ofereceu aos medíocres uma oportunidade única de serem notados. 

O bolsonorismo é a busca para ser visto. É a tentativa do homem de bem, sem moral e sem ética ter a sensação de protagonismo. 

Quando Bolsonaro dizia "Deus acima de todos", lia-se "Eu acima de todos". Pois ao se colocar no lugar de Deus, Bolsonaro não emprestou apenas numa ideologia, mas uma identidade aos invisíveis, aos que sempre perderam, aos que sempre carregaram uma vida vazia e frustrada. 

E que agora se colocaram no lugar de Deus. Como se estivessem numa missão de vida ou morte. Donos dos destinos da pátria e os únicos que podem salvar o Brasil. Assim são constituídos os grupos antidemocráticos bolsonaristas. 

No sábado, véspera de Natal, a polícia civil do distrito federal encontrou e detonou um artefato explosivo nos arredores do Aeroporto Internacional de Brasília. Segundo o delegado Robson Candido, o suspeito pela tentativa do atentado é um empresário do Pará e que já foi detido. 

Além disto, numa busca e apreensão em sua residência foram encontrados mais explosivos, diversas armas e um fuzil. O que comprova que o empresário planejava executar outros atentados.

Com tudo isso, é inegável que o bolsoterrorismo ganhou força e deve ser encarado com seriedade e gravidade pelas autoridades. E por mais que Bolsonaro se mantenha em silêncio, sua postura antidemocrática em não aceitar a derrota estimula atos golpistas e de violência. 

O fato é que o terrorismo de Bolsonaro foi sendo gestado ao logo de seu mandato. No entanto, suas últimas ações como o indulto de Natal concedido aos policiais envolvidos no massacre do Carandiru; o seu silêncio; o seu choro, aliado à complacência dos militares diante dos atos antidemocráticos, fazem parte desse pacote ideológico e identitário que tem insuflado os manifestantes. 

É preciso estarmos atento, pois o patético e o terror estão muito próximos. O risível está próximo do fascismo. O bolsoterrorismo não é uma piada. É uma ação concreta, estimulada e executada pelos homens de bem. Fiquemos de olho. (por Jefferson Tenóriocolunista do UOL, professor de literatura e escritor, tendo recebido o prêmio Jabuti em 2021 por seu romance O avesso da pele)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

PASTORA, E POR TODOS QUE SUFOCARAM SEM VACINAS, VOCÊ TAMBÉM REZOU?

"
Michelle Bolsonaro, caída ao chão de joelhos enquanto três dúzias de fanáticos entoam um Pai Nosso em frente ao Alvorada e Jair se mantém de pé na perfeita imitação de sua própria estátua de madeira, é a brutal estética de uma derrota.

Estética que tem no bolsonarista grudado ao para-brisa do caminhão e vestido em camisa amarela outra simbólica representação do fracasso. 

O fiasco de um golpe, o malogro da crueldade, a ruína de um projeto nazi-fascista de Brasil. 

O fim de um governo desumano, perverso, sinistro, funesto, aterrador, tétrico, tenebroso, macabro. 

Acaba aos prantos e de joelhos na grama do Alvorada" (Milly Lacombe, sobre um vídeo bolsonarista que, por ser emblemático da debacle ultradireitista, viralizou nas redes sociais)
Em 1963,  Jorge Ben já dava a dica: menina bonita não chora 

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

LULA ASSUMIRÁ COM MÍNIMA MARGEM DE AÇÃO, PISANDO EM TERRENO MINADO – 1

dalton rosado
DITADURA BURGUESA, DEMOCRACIA
 BURGUESA E EMANCIPAÇÃO SOCIAL
Durante a recente eleição presidencial, diversas contestações foram disparadas da direita e da esquerda contra a minha posição de negar o voto a qualquer dos dois candidatos que disputaram o 2º turno.

Os eleitores do Boçalnaro, o ignaro não cansavam de repetir o mantra Lula é ladrão!.

Os do Lula diziam que eu estava levando água para o moinho dos adversários e que, mesmo sem querer, estava perpetuando e legitimando o fascismo.

Nos dois posicionamentos havia meias verdades. Mas, como toda meia verdade é uma mentira inteira, ambos implicitavam  não uma alternativa, mas sim uma falsa dicotomia.

Os arremedos de argumentações que pontificaram em quase todo o processo eleitoral ignoram uma questão central que não quer calar: será que não temos outras opções além de ditadura burguesa x democracia idem?

Sabemos que as ditaduras totalitárias representam a supremacia da vontade de alguns pretensos iluminados que decidem o que é certo e o que é errado arbitrariamente, sempre em benefício de uma casta social que as bajula e apoia em troca dos benefícios a receber.

Sob tais regimes de força, costumam ocorrer injustiças sociais e pessoais sem que os prejudicados tenham a quem recorrer: a própria máquina judiciária se submete à força bruta e mesmo o direito burguês é vilipendiado em nome de interesses escusos.

Os
patri(di)otas que hoje clamam por uma intervenção militar em nome de uma falsa democracia, dividem-se em dois grupos:
1. os que auferem vantagens e privilégios econômicos da ordem burguesa e querem mantê-los ditatorialmente sem questionamentos; e
2. os que são iludidos com cantilenas fracassadas mundo afora de que a ordem e a disciplina militares são contributos para o prosperidade social linear e que todos os problemas sociais decorrem da corrupção com o dinheiro público.

Os primeiros são conscientes dos seus interesses, e geralmente não tomam chuva nem sol, apenas financiam e manipulam à distância o movimento fascista (alguns dão opiniões golpistas pelas redes sociais e vão para resorts caros desfrutar o dinheiro arrecadado dos crédulos seguidores. 

Outros vão ao Catar alegadamente para levar pen drives e, já que estão lá, assistem aos jogos da Copa. 

E há ainda os que mandam caminhões e pneus velhos para serem queimados nos bloqueios de estradas, com quaisquer birutas lhes prestando continência e cantando o Hino Nacional.

Já os iludidos pela retórica de picaretas como Steve Bannon e Olavo de Carvalho não passam de inocentes úteis. Engrossam o cordão histórico dos que são gratos ao imperador por proporcionar-lhes pão e circo, ainda que escravizados. São mais vítimas do que algozes, ainda que aplaudam estes últimos.
As ditaduras burguesas são assim consideradas porque mantêm com mão de ferro as categorias capitalistas. 

E fracassam porque uma das regras fundamentais do capitalismo é a produção de mercadorias para serem vendidas no mercado;  quando há manipulação de resultados (custos de produção e privilégios monopolistas na guerra concorrencial de mercado), tudo termina mais rapidamente em desastre, com muitos mortos por não obedeceram aos que lhes é imposto.

As democracias burguesas são assim consideradas pela descentralização republicana de poderes do Estado e se subdividem em liberais clássicas, com o Estado mínimo; e keynesianas, com Estado forte e intervencionista, mas servindo como estímulo à economia de mercado na vã pretensão de tornar o capitalismo bonzinho. Desconhecem (ou optam por conscientemente desconhecer) a natureza subtrativa e egocêntrica do próprio capital e seu caráter onívoro.

Em ambos os modelos o que prepondera é o poder econômico.

No primeiro caso o Estado fica centrado nas mãos de políticos totalitários mancomunados com empresários capitalistas estatais ou privados e força militar, mas todos submissos às ordens emanadas do próprio capital, o Deus que cultuam.

No segundo caso, o Estado cumpre função precípua de regulamentação política e de indução do capital em nome da tão repetida e almejada volta do desenvolvimento econômico, que nunca foi nem jamais será linear, e que agora, como nunca, está cada vez mais difícil de ser conseguida, mesmo para os países que se situam no topo do mundo econômico.

Traduzindo: as ditaduras burguesas e as democracias burguesas são espécies de um mesmo gênero: a relação social capitalista. O socialismo é apenas a versão keynesiana do capital, traduzido como Estado forte, leviatânico, que nunca pode ser confundido com o ideal comunista jamais experimentado.

As tentativas de socialismo como forma de transição para o comunismo floparam graças à preservação das categorias capitalistas que, após as revoluções marxista-leninistas, continuaram servindo de mediação para a relação social sob a forma-valor: foram cada vez mais desenvolvidas, ao invés de terem sido paulatinamente negadas.

Os contra-argumentos fraternalmente usados por companheiros meus por conta da minha negação do voto nas eleições de 2022 no Brasil, geralmente se circunscrevem, resumidamente, ao exemplo clássico segundo o qual para se atingir o topo da escadaria à pé é necessário subir degrau por degrau.

Como eu me nego a repetir o mito de Sísifo, prefiro trilhar outro caminho para atingir o topo da montanha. (por Dalton Rosado – continua neste post)
Outra composição do Dalton interpretada pela Graça Santos

domingo, 4 de dezembro de 2022

AS CARETAS DO PALHAÇO SINISTRO NÃO ASSUSTAM MAIS NINGUÉM

josias de souza
MÁGICO? BOLSONARO TIRA GAMBÁS DA CARTOLA E EXIBE O SHOW DE AUTOENCOLHIMENTO
Acreditar que a Terra é plana, que as urnas foram fraudadas e que Lula não subirá a rampa é um direito de cada um. 

Noutros tempos, a Inquisição romana queimava os que aceitavam as ideias de Copérnico, para quem a Terra girava em torno do Sol. E Bolsonaro ainda não aceitou nem Darwin, que dirá as urnas.

 Mas o final de semana ganharia novo sentido se os golpistas se entregassem a um passatempo. A coisa começa com uma pergunta singela: "E se...?" 

E se Bolsonaro tivesse vencido as eleições, como estariam as coisas? E se o Lula acusasse o TSE de fraude antes de se trancar numa cobertura em São Bernardo? E se o petismo deflagrasse nas redes sociais uma cruzada pela virada de mesa? E se os comunistas trancassem rodovias e cercassem os quarteis para pedir a deposição do "patriota"? 

Mal comparando, o bolsonarismo injeta na receita do seu pudim métodos que fizeram do antipetismo a força política que empurrou Bolsonaro para o Planalto em 2018. 

Lula jamais questionou o resultado das eleições que perdeu. Condenado, submeteu-se às determinações judiciais. Mas nunca hesitou em atiçar seus radicais para botar medo em adversários. Essa tática perdeu o prazo de validade em 2015, quando a classe média desceu ao asfalto para pedir a deposição de Dilma. 

Lula defendeu a permanência de sua pupila no Planalto com a língua em riste. Disse ser um defensor da paz e da democracia. Mas acrescentou: "Também sabemos brigar, sobretudo quando o Stedile colocar o exército dele nas ruas"

Vagner Freitas, então presidente da CUT, fez eco: "Se esse golpe passar, não haverá mais paz no país"

Aprovado o impeachment, Dilma chamou o caminhão de mudança. Em paz.
Quando foi condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro, Lula afirmou que não tinha "razão para respeitaro veredicto. Teve que respeitar. Cancelou viagem que faria à Etiópia. Entregou o passaporte às autoridades.

João Pedro Stedile, o hierarca do MST, soou ameaçador: "Aqui vai o recado para a dona Polícia Federal e para a Justiça: não pensem que vocês mandam no país. Nós, dos movimentos populares, não aceitaremos de forma nenhuma que o nosso companheiro Lula seja preso"

Em São Paulo, brasileiros sem teto bloquearam com pneus incendiados a via Dutra e a marginal Pinheiros. Com a autoridade de presidente do PT, Gleisi Hoffmann, riscava o fósforo: "Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente. Mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar"

Quando teve a prisão decretada, com o aval do Supremo Tribunal Federal, Lula refugiou-se no bunker do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Antes de se entregar à Polícia Federal, fez um comício. 

Disse à multidão: "Eles têm que saber que vocês são até mais inteligentes do que eu. E poderão queimar os pneus que vocês tanto queimam, fazer as passeatas que tanto vocês queiram, fazer ocupações no campo e na cidade..." A revolta social revelou-se uma ficção. 

Retorne-se, por oportuno, às interrogações do passatempo de domingo. E se Bolsonaro tivesse vencido as eleições? Bem, nessa hipótese, o capitão consolidaria seu projeto de transformar o Brasil numa autocracia mequetrefe.

E se o petismo se insurgisse contra o resultado? Bolsonaro cobraria do desafeto Xandão a reafirmação da segurança do sistema eleitoral que sempre questionou. 

E se a turma da CUT, do MST e do MTST trancasse rodovias e acampasse nas imediações de prédios militares? Bolsonaro não hesitaria em acionar as forças de segurança, inclusive as próprias Forças Armadas, se necessário. 

Nos últimos quatro anos, nenhum outro empreendimento prosperou tanto no Brasil quanto na fábrica de crises que Bolsonaro instalou no Planalto. 

Exilado no interior de sua mediocridade desde que foi derrotado, o pior presidente da história revela-se incapaz de desfazer suas crises. Pior: imagina que pode resolver uma crise criando outras. 

Bolsonaro revelou-se presidente mágico. Especializou-se em retirar gambás de dentro da cartola. Reduz sua própria estatura na frente das crianças. 

Trancado no Alvorada, prepara um grand finale. Ensaia o sumiço da cerimônia de posse. Tornou-se uma diminuta criatura.

O hipotético prestígio que lhe foi conferido pelos 58 milhões de votos amealhados no 2º turno logo caberá numa caixa de fósforos. 
(por Josias de Souza)

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

O ILUSTRÍSSIMO DR. DALTON JUSTIFICA, EM JURIDIQUÊS, A DECISÃO DO XANDÃO

A Justiça não é mero muro de lamentações politico-eleitorais na frente de QGs militares.

Quando se judicializa uma reivindicação, a parte promovente há que se acercar da razoabilidade e possibilidade jurídica do que almeja, porque há o princípio da sucumbência processual, ou seja, quem perde deve arcar com o ônus da improcedência do seu pedido.

O pleito do Partido Liberal, no sentido de que fosse anulada parte dos votos do 2º turno, era  tecnicamente esdrúxulo desde o princípio. Motivo: não se pode separar  coisas inseparáveis no pedido. 

Embora quisesse preservar os seus 99 deputados (a maior bancada da Câmara Federal), senadores e governadores eleitos pelas mesmas urnas questionadas, o PL não poderia deixar de aditar  seu pedido e incluir os dois momentos eleitorais em toda plenitude, conforme requerido pelo ministro Alexandre de Moraes . 

Ficou confirmada, portanto, a tentativa de uso indevido do Poder Judiciário para fins políticos, por parte de quem perdeu as eleições. 
 
O ônus da imprudência judicial cabe a quem o praticou. (por Dalton Rosado)
TOQUE DO EDITOR – Nem todos sabem, mas o nosso bom Dalton, embora tenha sido o secretário de Finanças da prefeitura de Fortaleza e escreva principalmente sobre economia, é advogado e até hoje continua, septuagenário, exercendo o ofício. 

Este texto mostra como ele justificou, em puro juridiquês, a decisão de Alexandre de Moraes de rechaçar e punir a mais recente tentativa do Bozo e do Valdemar Costa Neto de melarem a última eleição. (CL) 

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

...E O PALHAÇO, O QUE É? É LADRÃO DE ELEIÇÃO!

ricardo kotscho
MORAES DÁ XEQUE-MATE EM CHICANA
GOLPISTA DA DUPLA BOLSONARO & VALDEMAR
H
á três semanas, inconformado com a derrota que ele não esperava, Bolsonaro deixou de vez de governar o país, trancou-se no Palácio da Alvorada e passou a procurar um jeito de melar a eleição.

Enquanto isso, seus seguidores bloqueavam estradas e rezavam ajoelhados diante de quarteis para pedir intervenção militar e impedir a posse do presidente eleito Lula. 

Na noite desta 3ª feira (22), o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, precisou de apenas alguns minutos, para dar um xeque-mate na delirante representação do PL de Valdemar Costa Neto em que, sem nenhuma prova, simplesmente declarava a vitória de Bolsonaro com 51,05% dos votos no 2º turno das eleições. 

Como assim? De onde tiraram isso? Com base no relatório produzido por um certo Instituto do Voto Legal, que teria encontrado "desconformidades irreparáveis de mal (sic) funcionamento" das urnas eletrônicas, Bolsonaro & Valdemar pediram a anulação dos votos de 279 mil urnas, o suficiente para inverter o resultado da eleição. 

Enquanto Valdemar ainda lia, com certa dificuldade, o relatório apresentado à imprensa, em cinco linhas Alexandre de Moraes determinou que, em 24 horas, o PL inclua na ação o questionamento do resultado do 1º turno das eleições, em que o partido elegeu a maior bancada da Câmara, com 99 deputados, além de 14 senadores e governadores. 

Assim, Moraes matou no nascedouro mais uma tentativa golpista da conspiração palaciana, já que as mesmas urnas foram empregadas no 1
º e no 2º turnos. 

Se serviram para eleger parlamentares e governadores do PL, por que as mesmíssimas urnas, já empregadas também na vitória de Bolsonaro em 2018, não prestariam mais para eleger Lula no 2º turno da eleição de 2022? 

Com a maior cara de pau, sem acreditar no que falava, o inacreditável Valdemar alegou que os modelos antigos das urnas, anteriores a 2020, têm todas o mesmo número de patrimônio. 

E daí? Isso, segundo ele, impediria a fiscalização das urnas que foram validadas por auditorias das Forças Armadas e do Tribunal de Contas da União, além de diversos organismos internacionais. 

Durante toda a campanha pela reeleição, Bolsonaro colocou em dúvida a segurança do sistema eleitoral, atiçando seus seguidores a reagir em caso de derrota, o que para ele só seria possível se a eleição fosse fraudada, antes mesmo da abertura das urnas. 

Os devotos reagiram, como ele esperava, e continuam bloqueando estradas e quarteis até agora, numa inédita escalada de violência pós-eleitoral. 

Antes do vexame protagonizado por Valdemar, generais e aliados fiéis do ainda presidente reuniram-se com ele no Alvorada pela manhã para convencê-lo a deixar seu autoexílio no Alvorada e voltar a trabalhar, porque seu sumiço já estava pegando mal. 

Nunca se viu nada parecido na nossa República de tantos golpes militares, desde a Proclamação, em que presidentes foram levados ao suicídio, ao impeachment ou à renúncia, mas ainda não se tinha chegado ao ponto de apresentar um relatório fajuto para inverter no grito o resultado de uma eleição – nem em eleição de síndico na Barra da Tijuca, em que Bolsonaro, aliás, já foi derrotado. 

Parece coisa de doido, e é. 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)  

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

NÃO É COMO FARSA QUE A HISTÓRIA SE REPETE, MAS SIM COMO ÓPERA BUFA.

O heroísmo destes desatinados inspira admiração e respeito...
rui martins
CANUDOS E O FANATISMO DO GADO BOLSONARISTA
Seria exagero ver nas últimas demonstrações de fanatismo dos bolsonaristas semelhanças com os seguidores de Antônio Conselheiro (descritos originalmente em Os Sertões por Euclides da Cunha e relembrados, mais tarde, em A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa)?

Nem um, nem outro usaram a expressão, hoje empregada, de gado, mas descrevem um mesmo comportamento irracional, bruto, selvagem, de seres primários sem consciência de identidade, dispostos a seguirem como bestas do mato, sem razão e sem inteligência, seu líder. 

Felizmente, ainda existe uma diferença básica, a não transformação desses grupos de maioria evangélica num foco de resistência armada.

Ou teria sido a falta de diplomacia dos dirigentes da então recente república, no final do século 19, quem ateou fogo naqueles religiosos, ao tentar desmobilizá-los com o envio de tropas militares? 
...enquanto o histrionismo destes bovinizados só merece o mais profundo desprezo.
Imaginem se os atuais bloqueios e concentrações diante dos quartéis tivessem sido dispersados à força. Por certo teria havido resistência.

Não seria essa a razão do silêncio do presidente Bolsonaro: a expectativa de que ocorra um incidente capaz de incendiar essas manifestações grotescas de pessoas acampadas diante de muros, rezando, orando, gritando, exigindo uma intervenção divina em favor de um golpe militar e da anulação das eleições?

É verdade, não há um líder como Antônio Conselheiro contando histórias malucas, capazes de fazer esquecer a miséria, arrastando as pessoas a agirem como desprovidas de sanidade mental. Mas existem outros tantos conselheiros vivos nos celulares e computadores, distorcendo a realidade em nome do mito maior, o presidente derrotado, segundo eles, mediante fraudes invisíveis perpetradas por seres sobrenaturais, representantes das trevas comunistas.

Sem medo do ridículo, uma pastora profetiza, seguida por centenas de milhares de ovelhas, e testemunha sua fé inabalável em que anjos ou discos voadores impedirão a posse de Lula em janeiro. E os comentários fluem sem parar dando glória a Deus e exclamando aleluias. 
Nunca tantos foram envergonhados tanto por tão poucos

Não são mensagens enviadas por excitados moradores de hospícios. São também pronunciadas em igrejas e congregações repletas, como se nesses lugares todos tivessem virado loucos.

Alguns internautas, na contracorrente, chegaram a elaborar um repertório desses casos de loucura, ignorância, desespero e fanatismo mais comuns, com orações aos gritos, malucos vestidos com a bandeira brasileira marchando, prestando continência como se estivessem em pleno exercício de ordem unida no quartel. 

Mulheres que gritam em crise de histeria contra Lula, outras clamando em favor de uma intervenção divina diante de uma tempestade de vento e chuva que desmonta barracas, arrasta pelo chão e molha colchões, cobertores e alimentos, enquanto Deus permanece insensível.

Conselheiro era contra a República que acabara de ser proclamada e queria a restauração da monarquia, enquanto predizia o fim do mundo para o ano 1900, com a criação de uma Nova Jerusalém. E seus seguidores, gente simples, sofrida e sem instrução, na maioria analfabetos, acreditavam e estavam dispostas a matar e ou morrer pelo Conselheiro. 

O governo republicano levou três anos para acabar com o foco de extremistas, precursores dos atuais evangélicos. Foi truculento, pois temia que a erva daninha se alastrasse, num país sem cultura, vivendo seus primeiros anos de democracia.

Estranhas coincidências: os bolsonaristas são contra a democracia, pedem um golpe e preveem um próximo Apocalipse com a volta de Cristo –ou seria a volta de Bolsonaro? Uma tendência ao messianismo herdada dos colonizadores portugueses, para os quais o rei dom Sebastião, morto em 1578 numa batalha no Marrocos, retornaria para salvar os portugueses da miséria. 
Todos os planos infalíveis do Bozo floparam por serem meras
fantasias egocêntricas de um indivíduo insano e infantilizado.
 

Ao que parece, Bolsonaro acredita nos adivinhadores messiânicos segundo os quais Deus – embora santo, justo e bom – usará uma doença, um acidente ou um raio divino para impedir a posse de Lula.

Ou será que, na falta de um gesto desfechado dos céus, os seguidores do Messias Bolsonaro vão sentir-se obrigados a tomarem eles próprios a iniciativa de provocar uma versão verde-amarela do atentado trumpista estadunidense do Capitólio, tentando impedir a posse legal e oficial de Lula? Será que chegaremos a esse absurdo? 

Para evitar a transformação da Praça dos Três Poderes (onde Janja gostaria de promover uma festa popular) numa versão guerreira de Canudos, será necessário se deslocar a cerimônia da posse de Lula para outro lugar mais seguro e protegido por tropas militares bem equipadas, inclusive com armamento pesado, para fazer face aos malucos? 

Malucos incitados direta ou indiretamente, por militares, políticos, pastores evangélicos, comentaristas de rádios bolsonaristas, canais no Youtube e redes sociais especializadas em fake news, a pretexto – numa afronta à democracia – de que não foi ainda dada aos derrotados uma explicação satisfatória sobre o resultado das eleições. (por Rui Martins)
Antônio Conselheiro, cujo nome hoje consta da lista oficial dos Heróis da
Pátria, inspirou o personagem do beato Sebastião no filme Deus e o Diabo
na Terra do Sol, de Glauber Rocha, que agora tem esta versão colorizada.  

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

UM FANTASMA RONDA A MENTE DEVASTADA DOS CRIANÇÕES ENVELHECIDOS

eugênio Bucci
O LÁBARO ESTIOLADO
N
o feriado de 15 de novembro, data da proclamação da República, subiu um pouco o número de pedestres que se concentram em frente a quartéis de algumas cidades brasileiras para requisitar um golpe de Estado. 

Tem sido assim desde que o TSE proclamou o resultado das urnas, dando a vitória a Luiz Inácio Lula da Silva. A turma que não se conforma exige que as baionetas anulem a eleição. 

Uma das faixas desfraldadas em São Paulo, diante da sede do Comando Militar do Sudeste, ao lado da Assembleia Legislativa, resumiu bem o espírito do pessoal: "Nação brasileira implora por socorro – SOS Forças Armadas".

Como nomear esse tipo de coisa? Com acerto, a imprensa vem se valendo de adjetivos precisos: atos golpistas, manifestações antidemocráticas ou inconstitucionais. É o que são, de fato. 

Na linguagem do jornalismo, o emprego de qualificativos criteriosos dá mais objetividade, e não menos, ao que se descreve. Um ato público que solicita uma ruptura violenta da ordem democrática só pode ser definido como golpista, assim como um cidadão que tem nacionalidade brasileira e dispõe de passaporte brasileiro só pode ser definido como um cidadão brasileiro. 

As aglomerações às portas dos quartéis trazem uma pauta de reivindicações inconstitucionais e ilegais. Logo, são golpistas. Dar o devido nome aos fatos, com substantivos e adjetivos, é um dos deveres mais valiosos da imprensa  e é exatamente esse dever que a imprensa está cumprindo quando chama de golpistas as manifestações golpistas.
Não adianta dizer que são apenas reuniões
pacíficas e ordeiras. Não são, não senhor. Do mesmo modo que uns minguados caminhoneiros bloquearam estradas pelo País afora, num levante criminoso e até agora muito mal explicado, esta turma quer estrangular as vias do Estado Democrático de Direito. 

Mais do que os caminhoneiros sabotadores, querem inviabilizar o País. O seu propósito não tem nada de pacífico, não tem nada de ordeiro

Quanto aos quartéis, em vez de se esgueirar na ambiguidade melíflua, deveriam se considerar ofendidos com o assédio da barbárie que se amontoa ao redor de seus muros.

O que mais chama a atenção, contudo, é o mau gosto infantiloide que há nisso tudo. As imagens mostram adultos em trajes auriverdes perfilados sobre o asfalto para brincar de marcha-soldado. O golpismo da temporada tem uma nota pueril, por mais que seja perverso. 

Uns batem continência. Outros marcam passo, desengonçados e balofos, como escoteiros da terceira idade. Sempre aparece alguém tocando corneta (e mal). Como crianças amedrontadas, pedem socorro à força bruta para dar cabo de assombrações que não existem. 

Um lá fez discurso e disse que os apartamentos de mais de 60 metros quadrados serão ocupados e repartidos pelo novo governo. Delírios imobiliários. 

O atual presidente (agora empenhado no abandono de emprego) se reuniu com Geraldo Alckmin e pediu a ele que ajudasse a livrar o Brasil do comunismo. Delírios reacionários. 

Um fantasma ronda a imaginação devastada dos crianções envelhecidos: o fantasma do fantasma do fantasma do comunismo.

A vestimenta dos circunstantes também merece registro. O pendão nacional virou um adereço prêt-à-porter que as senhoras mais ricas usam como um lenço, uma écharpe tropical. Os homens tendem a vestir a mesma peça como se fosse uma capa de super-herói, e há os que improvisam um capuz quando chuvisca. O lábaro emoldura o bárbaro estrilado.

Que espetáculo desconcertante. Quando vemos as vagas em verde-amarelo pela televisão, a cena parece saída de um daqueles filmes de zumbis. Os tipos que se movem na tela, implorando a intercessão da brutalidade, lembram mortos-vivos políticos adornados pelo estandarte pátrio e armados de telefones celulares. 

Deserdados pela ditadura militar extinta, transitam num limbo entre a tirania defunta e a ordem democrática em formação. Eles não souberam se desprender do que a História já cuidou de sepultar e não se sensibilizam com o que a Nação presente tenta construir.

Com ares de comédia, o que vem se desenrolando é uma tragédia. Seria um erro zombar da situação. Dia destes, em Nova York, ao ser importunado por alguém que o perseguia na calçada com um celular dizendo frases de morto-vivo político, o ministro do STF Luís Roberto Barroso virou o rosto para trás, sem diminuir o passo, e disparou: "Perdeu, mané. Não amola"

A tirada do magistrado soa sardônica, mas o impasse é grave. As forças que procuram fazer regredir a roda da História nacional não estão aí a passeio. Por um triz, não ganharam as eleições. Suas performances são cafonas, sua estética é jeca e seu discurso, infantil, mas nunca, desde a redemocratização, estiveram tão organizadas e tão determinadas como agora.

As pequenas multidões de camisa amarela que agora acampam nas cercanias da soldadesca têm lá o seu quê de ridículo, mas o que elas expressam é mais profundo e ameaçador. Os golpistas que sequestraram e estiolaram as cores nacionais ainda vão dar muito trabalho. As instituições que se preparem.
(por Eugênio Bucci)
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