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sexta-feira, 16 de maio de 2025

A MÚSICA DO DIA VAI PARA CARLA, JAIR E OUTROS ULTRADIREITISTAS QUE APELAM AO CHORORÔ PARA EVITAREM A PRISÃO

"
Eu estou pegando vários relatórios dos meus médicos e eles são unânimes em dizer que eu não sobreviveria na cadeia
", lamentou-se a rainha do gatilho Carla Zambelli, dizendo-se portadora das síndromes Ehlers-Danlos e Hipercinética Postural Ortostática.

"Estou com 70 anos, eu não aguento disputar eleição daqui a oito, dez anos", lamentou-se o duas caras Jair Bolsonaro, que ora se proclama imbrochável, imorrível e incomível, ora banca o coitadinho  de dramalhão mexicano. 

Ambos tentam, com tais chantagens emocionais obterem um privilégio que os brasileiros, em sua imensa maioria, não têm: o de passarem por cima das condenações que lhes são impostas pelo Poder Judiciário. 

Mas, não é com chororô em público que se obtém um tratamento diferenciado para sentenciados impossibilitados de suportarem o rigor das decisões judiciais, mas sim com petições às autoridades competentes, que geralmente concordam, por exemplo, em autorizar o cumprimento da pena em prisão residencial.

No entanto, a valentona e o valentão a que nos referimos acima, na hora de arcarem com suas responsabilidades, mostrando que têm coragem pra suportar, preferem desfazer-se em lágrimas, implicitamente suplicando que outro Poder intervenha para livrar a cara deles.

Daí os estarmos homenageando com a Coragem pra Suportar do Gilberto Gil. (CL)

sábado, 6 de abril de 2024

O ZIRALDO (1932-2024) FARÁ MUITA FALTA! COM ELE APRENDEMOS QUE UM QUADRINHO VALE MAIS DO QUE MILHARES DE PALAVRAS.

Quando a ditadura policiava o humor sobre temas brasileiros,
Ziraldo dava o recado nos quadrinhos sobre a Guerra do Vietnã

Outra válvula de escape: zoar aquele moralismo rançoso a nós imposto
Menino Maluquinho: o Filme (1995), dirigido por Helvecio 
Ratton, com roteiro do próprio Ziraldo, marcou a estreia
nas telas do seu personagem mais famoso.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

O DILEMA DO MORO: SER JUIZ ROTINEIRO OU UM MIRABOLANTE JUSTICEIRO FORA DA LEI?

vinícius mota
MORO ARRISCOU E AGORA PAGA PREÇO
Não dá para acusar Sergio Moro de incoerência, conhecida agora parte de sua conduta informal na Lava Jato. Perseguiu o programa anticorrupção que tinha delineado em 2004, num texto acadêmico tratando da Mãos Limpas, na Itália.

É preciso esticar ao limite os instrumentos do direito e alimentar o apoio da opinião pública —no que vazamentos tempestivos à imprensa ajudam— para ter chance contra o monstro da corrupção, argumentava o jovem juiz federal. Escrito e feito.

Num dos trechos dos diálogos obtidos pelo site The Intercept, Moro dá um sabão num delegado da Polícia Federal, por tornar públicos documentos que justificariam tirar de Curitiba parte da Lava Jato. A bronca é repassada pelos procuradores, que articulam proteção ao juiz.

Num outro momento, Moro cobra do Ministério Público um contra-ataque midiático ao showzinho da defesa do ex-presidente Lula diante do magistrado. Opa! Falta, seu juiz.

Esse é o perigo de correr na faixa estreita que divide a pista da caixa de brita. Moro e os procuradores federais de Curitiba assumiram o risco quando implantaram um modo vanguardista e heterodoxo de operar.

Colheram louros, mas agora vêm os espinhos que estavam no preço. O sistema de Justiça não pode fazer vista grossa a revelações que sugerem ação parcial de um magistrado.

The Moronely Ranger e seu índio amigo, Tonto Kim
Os exemplos de juízes e procuradores que perderam o juízo ao longo da notável reação das instituições de controle brasileiras à corrupção grossa não se restringem a esse caso.

Inventaram o impeachment sem perda de direitos políticos, impediram o presidente de nomear ministros, meteram-se no Congresso, censuraram a imprensa, prenderam por motivos débeis, montaram esquemas paralelos de apoio a delatores e derraparam para o debate político.

Extravagâncias de autoridades fazem mal à democracia. O bom governo é comedido, silencioso, deferente aos seus limites e eficaz. A fervura dos rompedores e dos desbocados é típica de outros regimes. (por Vinicius Mota)

segunda-feira, 17 de junho de 2019

SÓ NÃO VIRAM OS DESLIZES DO HERÓI MORO OS CEGOS DE ÓDIO PELO VILÃO LULA

"Moralmente as colchas inteiriças são tão raras! O principal é que as cores não se desmintam umas às outras —quando
não possam obedecer à simetria e regularidade"
(Machado de Assis, em Quincas Borba
O problema é quando se vende colcha moralmente monocromática que se revela bicolor. Nesta semana, o preto sóbrio da cruzada lavajatista da moral contra a política desbotou, exibindo a política cinzenta dos moralizadores.

Houve quem se espantasse. Não foram decerto os leitores de Machado de Assis, céticos das grandezas integrais e atentos às mesquinharias humanas. 

A figura do moralizador impoluto, que põe o interesse coletivo acima dos comichões de sucesso individual, é sempre desmascarada na ficção machadiana. Apenas opera nas narrativas maniqueístas, nas quais bem e mal são monolíticos e apartados como Deus e o Diabo.

Mas, no debate público brasileiro, Machado perdeu para a Marvel. O que mais se ouviu nos últimos anos foi a narração do triunfo da vontade da novela A Faxina Moral da Nação

Sua estrela: o então juiz Sergio Moro. Já faz tempo que vem na subida da rampa de sua jornada de herói. Elogio pra cá, prêmio pra lá, sucesso de livro e filme, smoking e toga. Em 2015, a revista Veja deu seu rosto na capa e, ao pé da imagem, Ele salvou o ano!
Quando um super-herói...

Mídias tradicionais e alternativas (Mônica Bergamo lembrou os elogios de Glenn Greenwald à Lava Jato, em 2017), parcelas gordas das elites social e econômica, políticos, juristas e intelectuais trabalharam com afinco para tornar a novela moralizadora um estouro de público. A Lava Jato foi cantada em prosa, verso e série da Netflix.

No enredo, os problemas públicos todos —disfunções da gestão, má qualidade de serviços e políticas estatais, ineficiência econômica— foram reduzidos a um fator único: a corrupção sistêmica. 

Ignoraram-se as causas múltiplas de processos complexos e jogos sobrepostos, com muitos atores, valores e interesses —nem todos negativos— na berlinda. É que a complexidade, sabem os roteiristas da Marvel, afasta espectadores.

Agrada aquilo que é simples: um vilão para o qual aflua o ódio coletivo. Feitos adquirem grandeza por contraste com malfeitos de mesmo quilate. A Lava Jato começou na onda antissistema contra tudo o que está aí, mas elegeu o antagonista principal. 

A operação restringiu o perímetro da vilania no debate público, sinonimizando corrupção e petismo. O corruPTos estampado em cartazes de protestos e o petralhas de Reinaldo Azevedo viraram pragas linguísticas. O capítulo da caça ao supervilão, chefe da quadrilha, foi um desdobramento lógico.

O problema dos super-heróis, contudo, é que as instituições democráticas, com suas regras, burocracias, demanda por provas e presunção de inocência, retardam a punição dos malvados. 
...precisa fazer jogo sujo para derrotar o vilão...

Nesta parte do enredo é que Moro cresceu. Julgou que, encarnando a moral pública, tornara-se mais legítimo que a lei, capaz de vencer bandidos que a Justiça comum seria incapaz de punir. Na luta justa, todas as armas se justificariam. Soturno e intrépido, teve a ousadia de prender um ex-presidente da República. 

Moro nunca esteve sozinho. A opinião pública sagrou-o o Justo. Foi aplaudido no exterior —por Mario Vargas Llosa, pela Universidade de Notre Dame, pela associação de ex-alunos brasileiros de Harvard (não confundir com os professores da universidade)—, em rede e na rua, que com hashtags e cartazes delegaram-lhe superpoderes moralizadores. 

Uma operação simbólica completada com os bonecões do bandido —o Pixuleco presidiário— e do mocinho —o exuberante Superman.

Agora o ex-juiz deu com o rochedo gigante do Intercept no meio do caminho. Mas nas boas narrativas do gênero, o herói enfrenta o obstáculo e o supera. O final será trágico, patético, feliz?
...é porque não passa de propaganda enganosa!

Até a epifania de Greenwald, a maioria do país não apenas acreditou no que Moro disse como referendou seus métodos. 

A matéria apenas escancara excessos que marcaram toda a jornada. Ele considerou suspeitos como culpados sumários, prendeu antes para investigar depois, grampeou e vazou conversa entre presidente e ex-presidente da República, ato de consequência política óbvia e imediata. Apenas não viu os deslizes do herói quem estava cego de ódio pelo vilão.

Mas para fãs, os fins sempre justificam os meios. A hashtag #EuApoioaLavaJato levantada contra a #VazaJato mostrou que os superpoderes de Moro não se esvaneceram no contato com a primeira dose de kriptonita. E o Superman pode sempre contar com a solidariedade dos demais Superamigos. (por Angela Alonso, professora de sociologia da USP e pesquisadora sênior do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

DALTON ROSADO INDAGA: A QUEM CONVENCE O 'TRUMP PAZ & AMOR'?

"Vamos nos relacionar com todas as 
outras nações. Teremos grandes 
relacionamentos. Buscaremos 
terrenos comuns, não
hostilidades..." 
(Donald Trump)
. 
O discurso político outsider de campanha fabricado pelos marqueteiros coube como uma luva em Donald Trump, uma vez que sua estampa e história pessoal ratificavam o fenótipo e personalidade comuns aos muitos homens brancos ocidentais ricos, fanfarrões e arrogantes. 

Entretanto, embora o personagem carregue muito do homem real, a função de um presidente da República numa sociedade capitalista desenvolvida como a estadunidense inclui amarras institucionais e interesses sistêmicos que vão além da fanfarronice. 

Daí a orientação que deve ter recebido de seus assessores para aparecer agora como o Trump paz & amor, numa tentativa de suavizar os impactos negativos que os seus arroubos de campanha podem acarretar à economia estadunidense, pois, se eles foram bons para iludir boa parte do eleitorado que lhe garantiu a vitória no colégio eleitoral, não é benéfico para o exercício do governo. 
Incendiários não são convincentes no papel de bombeiros

O Trump de agora corre o risco de decepcionar os eleitores que nele buscaram um salvador da pátria tipo Capitão América e de vir ao encontro do ceticismo dos eleitores que não engoliram a sua pílula eleitoral fermentada no ódio racista, xenófobo, belicista, homofóbico, segregacionista, nacionalista, machista, etc. – aqueles que agora se manifestam em atos públicos de revolta contra tudo isso e contra um sistema eleitoral maluco, no qual quem obtém a maioria dos votos simples pode perder para quem conquista mais votos estratégicos.

Trump corre o risco de desagradar a todos e isolar os Estados Unidos causando grandes prejuízos a uma economia que se sustenta na manipulação financeira para a manutenção de seu padrão de consumo privado e estatal, outorgando-se, ademais, o direito de intervir militarmente alhures, não para promover a paz e a justiça, mas para defender os seus interesses econômico-financeiros de potência hegemônica capitalista. 

É evidente que os governantes não governam, mas se equilibram na onda da economia, que é o que lhes fornece impositivamente a bússola governamental. O Donald Trump empresário e bilionário tem um tipo de poder pessoal diluído na concorrência internacional de mercado; o Donald presidente (embora tal posição represente facilidades de todos os tipos para o desenvolvimento dos seus próprios negócios, independentemente de sua interferência direta) tem outro significado, a lhe impor diferentes limites, coisa que cedo ele vai experimentar. 
Saem Berlusconi e Gaddafi, entram Trump e Putin...

Não é comum um grande empresário se meter na política (veja o perfil da maioria dos presidentes dos EUA), pois, geralmente, eles preferem ter um político representando os seus interesses na Casa Branca do que exporem alguém de sua espécie ao tiroteio dos descontentes. É mais confortável manipular os cordéis por trás das cortinas.   

Mas Donald Trump está longe de ser um empresário comum. É o bilionário exibicionista, vaidoso e gabola que quis porque quis brincar de apresentador de TV; conquistador barato de beldades jovens, atraídas pelo dinheiro e fama; dono de cassinos nos quais se ganham e perdem fortunas com a jogatina; e, agora, presidente do país cuja economia, embora minada em suas bases, continua sendo a maior do mundo. Um tipo que tem tudo para causar um estrago ainda maior num capitalismo cambaleante, riscos belicistas à parte.  

Conseguiu o seu intento graças a um discurso que foi ao encontro da insatisfação popular crescente e se apresentando como alguém não pertencente ao stablishment político, capaz de colocar nos eixos a economia estadunidense (abalada desde a crise do subprime de 2008/2009, cujos reflexos negativos ainda persistem e até tendem a se agravar, uma vez que as suas causas não foram debeladas). Os problemas vêm a cavalo, pois o antifebril usado (a emissão de dólares sem lastro, que salvou o sistema financeiro da bancarrota) não eliminou a infecção, cuja origem se situa na renitente queda da chamada economia real.
Crise econômica dos EUA se agrava cada vez mais

Governar é algo muito diferente de fazer promessas de campanha dizendo aquilo que muitas pessoas desesperadas querem ouvir e acreditar. Administrar a vida social não é como administrar um cassino; não é campanha eleitoral; não é ser especulador imobiliário e muito menos comandar uma empresa capitalista (embora o Estado exista para regular e sustentar a ordem econômica). Governar o Estado é outra coisa.

A escalada da ebulição social no interior dos Estados Unidos; a queda de títulos e ações em muitos mercados financeiros e bolsas de valores mundo afora; as mudanças cambiais das moedas em relação ao dólar estadunidense e a inconsistência de seu lastro fundado na produção de mercadorias; os movimentos migratórios envolvendo os Estados Unidos, entre outros fatores preocupantes para a ordem capitalista mundial, são apenas sintomas do que está para vir. 

É esperar para ver.  (por Dalton Rosado)
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