Mostrando postagens com marcador identitários. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador identitários. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de novembro de 2021

QUEM FOI QUE REALMENTE FUGIU "DO CAMPO DE BATALHA CENTRAL"?

E
m artigo com a profundidade de uma poça d'água (ver aqui), Demétrio Magnoli recentemente inculpou a esquerda universitária e suas pautas identitárias por esta nova realidade que, segundo ele, faria Marx revirar-se no túmulo:
"Atualmente, os partidos à esquerda representam as classes médias urbanas, educadas e cosmopolitas, enquanto os partidos à direita assentam-se nos trabalhadores, na baixa classe média e nas pequenas cidades".
Diz suspeitar que a raiz de tal fenômeno tenha sido uma incapacidade da esquerda de responder ao "avanço das políticas econômicas liberais" a partir da queda do muro de Berlim em 1989, motivo pelo qual, segundo seu entendimento, elas "fugiram do campo de batalha central".

Tal fuga, na verdade, se deu na década anterior, quando, nos países latino-americanos, a derrota da luta armada foi quase comemorada como um triunfo por parte daqueles agrupamentos esquerdistas que não a travaram, chegando até a proibir seus quadros de socorrerem guerrilheiros em apuros, como fez o nosso partidão.

E, onde os movimentos contestatórios ameaçaram concretamente o poder burguês, foram exatamente os comunistas que deram mão forte aos governantes direitistas, casos emblemáticos da França (preferindo De Gaulle a Cohn-Bendit) e da Itália (mancomunando-se com a corrupta e mafiosa democracia cristã). 
PCB comunicando a expulsão de militantes simpáticos 
à luta armada, Marighella  e Jacob Gorender inclusos
Os identitários cometem mesmo erro crasso ao pulverizar a resistência ao capitalismo agônico (e, por isto, ainda mais nefasto e destrutivo), com cada tendência magnificando seus objetivos específicos sem atentar para o fato de que eles jamais serão real e definitivamente alcançados sob o regime da exploração do homem pelo homem. O certo seria priorizarem o enfrentamento vitorioso do inimigo comum. 

Mas, pelo menos os identitários são um fenômeno do pós-1968, enquanto o reformismo social-democrata que grassou na Europa e domesticou o nosso PT não passa de uma relíquia do pré-1917...

Quanto à lufada modernizadora da economia capitalista ocorrida no final do século passado, com a globalização dos mercados e alguns avanços científicos e tecnológicos significativos, ensejou muitas ilusões de humanização do capitalismo nos esquerdistas que, eles sim, buscavam uma justificativa para se distanciarem da batalha. 

[Lamento, especialmente, que o Paulo Francis, o Mario Vargas Llosa e o Jorge Semprún estivessem entre os que bateram em retirada...]

Hoje, contudo, está definitivamente provado que os ganhos produtivos a partir daí obtidos serviram foi para exacerbar a desigualdade econômica e social, a ponto de, p. ex., 1% da população brasileira concentrar metade da riqueza do país.

Noves fora, a esquerda se elitizou, isto sim, por ter buscado um modus vivendi com o capitalismo, contentando-se em tentar obter, para os explorados, algumas migalhas a mais do banquete dos biliardários, ao invés de se manter fiel à suas bandeiras históricas: a superação do capitalismo, abrindo caminho para a justiça social, a liberdade plena e um aproveitamento racional dos recursos finitos dos quais a humanidade depende para sua sobrevivência.

E, por não haver tido a coragem e o discernimento de continuar apontando às grandes massas qual é a verdadeira origem de sua permanente insatisfação, deixou o terreno livre para a manipulação da extrema-direita e da religião mercantilizada, que promovem verdadeira lavagem cerebral ao colocarem, de forma abastardada, as modernas técnicas de comunicação a serviço da mentira, do retrocesso e da desumanização. (por Celso Lungaretti)  

sábado, 30 de outubro de 2021

ARTIGO POLÊMICO DO DEMÉTRIO MAGNOLI LEVANTA QUESTÕES IMPORTANTES, MAS SUAS RESPOSTAS DEIXAM A DESEJAR

demétrio magnoli
ESQUERDA UNIVERSITÁRIA
Mágica besta: agora o mundo todo passou a ver os pais
fundadores
dos EUA como senhores de escravos...
 
A
Câmara de Nova York removeu de suas instalações a estátua de Thomas Jefferson (foto), sob a acusação de que o autor principal da Declaração de Independência era proprietário de escravos –como, aliás, 5 dos 7 pais fundadores

O banimento derivou da pressão do grupo de legisladores negros e latinos, que pertencem ao Partido Democrata. O degredo de Jefferson explica a força política de Trump.

A revista The Economist acaba de publicar um gráfico construído por Gethin et al. que sintetiza a mudança nos padrões de voto segundo o nível educacional dos eleitores entre 1950 e 2010.

Em 5 das 6 democracias analisadas (EUA, Reino Unido, Alemanha, França e Nova Zelândia), verifica-se uma tendência histórica implacável: o deslocamento para a esquerda dos mais escolarizados e um deslocamento simétrico dos menos escolarizados. O Canadá figura como exceção parcial à regra, mas apenas porque sua esquerda sempre teve sólidas bases na classe média urbana.

No passado, entre as décadas de 1950 e 1970, os partidos de esquerda e centro-esquerda controlavam majoritariamente o voto da população de menor nível educacional –ou seja, da classe trabalhadora.

Por outro lado, os partidos de centro-direita e direita venciam largamente entre as camadas de maior escolaridade –ou seja, na classe média e na elite. O padrão inverteu-se na década de 1990 e continua a infletir em curva acentuada: o diploma universitário tornou-se o maior indicador estatístico do voto à esquerda.
Já existia "cancelamento" na URSS de Stalin: personagens
eram apagados das fotos históricas, como Trotsky desta aqui
 
Marx revira-se, inquieto, no seu túmulo. Atualmente, os partidos à esquerda representam as classes médias urbanas, educadas e cosmopolitas, enquanto os partidos à direita assentam-se nos trabalhadores, na baixa classe média e nas pequenas cidades. O fenômeno ocorre, um pouco atenuado, até no Reino Unido, onde o Partido Trabalhista espelha as organizações sindicais.

Suspeito que a raiz da reversão encontre-se na resposta formulada pela esquerda à queda do Muro de Berlim. Confrontados com o avanço das políticas econômicas liberais, os partidos à esquerda fugiram do campo de batalha central, entrincheirando-se às suas margens, nas agendas identitárias e de valores.

Nos EUA, os democratas redefiniram-se como partido das minorias e adotaram as pautas identitárias oriundas do meio universitário. Na Europa, os social-democratas e seus concorrentes mais à esquerda concentraram-se em temas como os direitos das mulheres, da comunidade LGBT e dos imigrantes. As correntes populistas de direita aproveitaram a oportunidade histórica, apostando nos ressentimentos dos órfãos da globalização.

A esquerda enxerga a política através das lentes de seus novos dogmas –e, nesse passo, revela-se incapaz de decifrar suas derrotas.

Trump não venceu por entoar o hino God, guns, gays, mas por iludir os brancos sem diploma universitário com a canção de ninar do nacionalismo econômico.

A direita nacionalista europeia não se nutre de um suposto ódio atávico aos estrangeiros, mas da falsa conexão entre imigração e desemprego. 

"É a economia, estúpido!": o populismo de direita ocupou cidadelas desertas, abandonadas por uma esquerda que decidiu fechar-se num gueto, dialogando exclusivamente no interior de bolhas culturais.
Lula sempre gostou de ser comparado a Vargas, cuja
ditadura foi quase tão bestial quanto a dos generais
 

O Brasil não se encaixa no gráfico dos deslocamentos eleitorais. O PT resistiu às intempéries porque –ao contrário do PSOL– só adotou as pautas identitárias como adereços secundários, usados em dias festivos.

Sob o timão de Lula, persistiu no discurso do Estado-Protetor, agarrando-se aos estandartes do populismo econômico. O lulopetismo nunca confessará, mas sabe que a derrota de 2018 derivou da recessão provocada pelo governo Dilma, não da guerra cultural primitiva deflagrada pelo olavo-bolsonarismo.

Os democratas exilaram a estátua de Jefferson. O PT ajoelha-se diante da estátua de Vargas. (por Demétrio Magnoli)
TOQUE DO EDITOR – Ao contrário da maioria dos blogueiros de esquerda, prefiro mil vezes publicar um artigo com vários pontos questionáveis, que convide à reflexão, do que meros textos ecumênicos que se limitam a reiterar os clichês esquerdistas em voga naquele momento.

O Magnoli é um bom exemplo: os que preferem simplesmente cancelá-lo perdem uma ótima oportunidade para exercitar o raciocínio crítico. 

Reduzindo-se a um clubinho de maria-vai-com-as-outras, a esquerda perde a própria razão de ser. Definha e morre.

Morre como morreu o PT, enquanto força transformadora da sociedade, no exato instante em que, direcionado pelo timão do Lula, passou a renegar 1968 e o pós-1968.  Ou seja, quando tomou definitivamente o rumo do passado, acabando por ajoelhar-se diante da estátua de Vargas ao tentar exumar o nacional-desenvolvimentismo no catastrófico primeiro mandato da Dilma...

Continua, claro, sendo uma postura melhor do que a da extrema-direita bolsonarista, que se ajoelha diante de Plínio Salgado, Filinto Müller, Brilhante Ustra e, às vezes, recua tanto no tempo que cai no colo do Torquemada. 
Não será exagero atirar sobre os identitários tanta culpa
pela entrada em cena de uma ultradireita populista?

 
Mas, com relação a esses dois presidenciáveis de 2022 que miram a História com a nuca, a única opção consequente é os deixarmos para trás sonhando com seus respectivos
velhos bons tempos e seguirmos para a frente, botando de novo o pé nessa estrada, pois nada será como antes amanhã...

De resto, exatamente para que o artigo do Magnoli cumpra o papel de estímulo à reflexão, não publicarei agora minhas considerações a respeito dele. E espero que na próxima semana, quando puser mãos à obra, não seja o único a fazê-lo... (por Celso Lungaretti

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

A LUTA PRINCIPAL DA HUMANIDADE É PELA SUPERAÇÃO DO CAPITALISMO. AS DEMAIS A COMPLEMENTAM, MAS NÃO A SUBSTITUEM!

"
A história de todas as sociedades até agora tem sido a história
das lutas de classe. Homem livre e escravo, patrício e plebeu,
barão e servo, membro das corporações e aprendiz, em suma,
opressores e oprimidos, estiveram em contraposição uns aos
outros e envolvidos numa luta ininterrupta, ora disfarçada,
ora aberta, que terminou sempre com a transformação da
sociedade inteira ou com o declínio conjuntos das classes
em conflito" (Manifesto do Partido Comunista)
Já lá se vão 172 anos que Marx e Engels produziram o panfleto mais importante da história da humanidade e muitas de suas análises, como esta da epígrafe, permanecem totalmente válidas.

Houve, sim, uma grande oportunidade para nós iniciarmos a construção de uma nova história, mas até agora ela continua sendo tragicamente desperdiçada.

Pois a disputa entre opressores e oprimidos se dava pela posse e desfrute de bens que não existiam em quantidade suficiente para que todos os seres humanos pudessem levar uma vida materialmente plena. Então, era preciso que muitos tivessem de menos para que uns poucos tivessem demais. Pois da repartição equânime resultaria a escassez para todos, embora a comunidade acabasse se acostumando a sobreviver assim.

Enfim, a escassez impulsionava os mais bem servidos de força e/ou inteligência a submeterem os demais às suas necessidades e caprichos, que eram priorizados à custa da preterição das necessidades alheias.

No entanto, o desenvolvimento das forças produtivas, ainda que em regime de desigualdade econômica e social, acabou superando, no século passado, a barreira da necessidade.

Ou seja, os seres humanos conseguiram desenvolver os processos produtivos a um ponto que se poderia proporcionar uma existência materialmente digna a cada membro da espécie, e reduzindo-se significativamente a quota de trabalho que caberia a cada um. 

Mas, os poderosos de então optaram por perpetuar artificialmente a desigualdade que os privilegiava. Não lhes bastava ter o suficiente que todos tinham. Queriam e lutaram com unhas e dentes para continuar sendo dominantes. 

Ora, a riqueza que não era distribuída para que todos tivessem suas necessidades satisfeitas, mas por eles em grande parte usurpada, lhes proporcionou poder suficiente para barrar os ventos de mudança. E a indústria cultural, cujas ferramentas tiveram enorme evolução tecnológica a partir, principalmente, da segunda metade do século 20, lhes permitiu estruturar um quase infalível sistema de lavagem cerebral em massa. 

O meio é a mensagem (Marshal McLuhan), já esqueceram? A indústria cultural vende muito mais que produtos. Introjeta em cada uma de suas mesmerizadas vítimas toda a escala de valores e desejos da sociedade do consumismo e da ganância. 
Resumo da ópera:
— já estão dadas todas as premissas para a abolição das classes, das nações e de todas as divisões artificiais que separam os indivíduos (brancos x negros, homens x mulheres, heterossexuais x homossexuais e infindáveis et cetera), dando lugar a uma comunidade universal dos homens plenos, em que a prioridade absoluta seja o bem comum e todos sejam livres para fazer tudo que não prejudique e seja consentido pelos demais seres humanos; 
.
— mas, por enquanto, os poderosos estão conseguindo impedir a ferro e fogo tal transformação e, como disseram Marx e Engels em 1848, o que acontece, em escala mundial, é o declínio conjunto das classes em conflito, com a desestruturação de toda a vida em sociedade atingindo os extremos da barbárie e do genocídio;
.
— e até mesmo a juventude rebelde, na qual teóricos como Marcuse depositavam grandes esperanças, está perdendo de vista o inimigo principal e dispersando suas forças na fixação obsessiva em bandeiras relevantes mas secundárias, como se o fim de alguns preconceitos e práticas fosse capaz de tornar paradisíaca nossa existência numa sociedade em processo de autodestruição acelerada.
Como Marx e Engels também previram, o capitalismo só permaneceria
saudável enquanto pudesse expandir-se continuamente, mas isto também se tornou impossível: ele gera tamanha desigualdade que não há mais como compatibilizar-se oferta e procura, já que é cada vez maior o número de pessoas vegetando em condições subumanas, sem poder aquisitivo para adquirir quase tudo de que desesperadamente carecem. 

O castelo de cartas já teria desabado se o capitalismo não recorresse ao fornecimento indiscriminado de créditos (para países tanto quanto para pessoas) que não existem para ser saldados, mas sim indefinidamente remanejados, empurrando-se com a barriga o crash inevitável para a frente. Mas, um dia a margem artificial de manobra chegará ao final, o que vai mergulhar o mundo inteiro numa depressão econômica de intensidade jamais vista.

Além de serem finitos os recursos naturais que estão sendo devorados pela compulsão de produzir-se cada vez mais para atender à tirania do lucro, ao invés de produzir-se o realmente necessário e só quando necessário (a troca, estimulada ao máximo pela propaganda mesmerizante, de geringonças a cada ano, usando como isca um ou outro aperfeiçoamento tecnológico, deveria ser considerada um crime contra a humanidade!). 

Vale lembrarmos: as alterações climáticas que geramos são a ameaça mais evidente e imediata de extinção da espécie humana, mas não a única. Estamos cavando nossas próprias covas.

Mais do que nunca, precisamos somar todas as nossas forças para superarmos o capitalismo antes que ele nos destrua. É simples assim. (por Celso Lungaretti)

sábado, 29 de fevereiro de 2020

'A ESQUERDA PRECISA FAZER O LUTO DO QUE FOI ATÉ AGORA E CONTRAPOR À REVOLUÇÃO CONSERVADORA UMA REVOLUÇÃO REAL'

Toque do editor
Tendo aqui reproduzido o artigo Como a esquerda brasileira morreu, do Vladimir Safatle, é obrigatório informarmos que El País acaba de publicar uma espécie de continuação, Para a esquerda, morrer é só o começo, cujo texto integral pode ser acessado neste link, bastando registrar-se gratuitamente no site desse prestigioso jornal espanhol. 

Mas, a partir das repercussões do artigo inicial, Safatle consome grande parte da sequela debatendo críticas ou explicitando o que já havia colocado.

Como este blog prefere sempre a essencialização, pincei aquilo que o novo artigo traz de realmente novo e importante. São os trechos seguintes:
Por Vladimir Safatle
.
"Gostaria de insistir que o que ocorre agora não é simplesmente uma derrota. É o esgotamento de um ciclo hegemônico que se confunde com a história da esquerda nacional. A esquerda já conheceu várias derrotas, mas nunca conheceu um esgotamento semelhante a este. 

Nossas derrotas eleitorais, ou mesmo nossa derrota histórica diante do golpe de 64, não implicaram a incapacidade de projetar alternativas globais no futuro. A esquerda nacional conseguiu preservar durante décadas essa força de projeção, levando setores expressivos da sociedade a sonharem com um futuro radicalmente distinto do presente. 

Quando, ao contrário, nosso horizonte de expectativas foi submetido a uma retração cada vez maior, ficou claro que estávamos a entrar em algo de outra natureza. O nome desta outra natureza é, infelizmente, morte.

...não se trata de algo ligado ao Governo Bolsonaro, mas à incapacidade de a esquerda nacional reagir com uma mobilização compacta de ações, práticas de governo e conceitos que apontem efetivamente para uma sociedade globalmente distinta dessa que vemos no presente. 

Qual é a política econômica alternativa da esquerda nacional? Qual seu horizonte de reconstituição institucional? Nada disso é claro e nós nos recusamos a aprofundar tais debates.

"o populismo de esquerda não conseguirá mais ser reeditado"
A história da esquerda brasileira realmente se confunde com os modelos de governabilidade e mobilização próprios ao populismo de esquerda. Este populismo não conseguirá mais ser reeditado porque agora temos um fascismo popular produzido pela duplicação do tipo de liderança que o lulismo representou.

Todos nós estamos envolvidos em várias lutas, em várias frentes, num ritmo muitas vezes frenético. Todas elas são grandiosas. Mas a questão é outra. As múltiplas lutas não conseguem mais entrar em um processo de acumulação e unificação. Elas não entram em constelação. 

Conseguimos colocar um milhão de pessoas nas ruas em defesa da educação pública, mas não há sequência. Não há dia seguinte, não há acúmulo de lutas e, com isto, capacidade de bloquear as políticas destrutivas do governo. Um milhão de pessoas na rua transforma-se numa resistência pontual. Seria o caso de se perguntar a razão para tanto.

...o fato de que a multiplicidade das lutas no Brasil não consiga convergir num campo comum de combate às forças que espoliam os 99% é um signo fundamental da atrofia que ocorre quando um modelo hegemônico morre. Pois isto ocorre devido ao fato da esquerda brasileira ter usado, até agora, as lutas de reconhecimento [também chamadas de identitárias] de forma compensatória. 
"a esquerda brasileira tem usado até agora as lutas identitárias de forma compensatória"
Como ela não tem nenhum horizonte concreto de transformação econômica, como ela teme dizer em alto e bom som que é anti-capitalista, como ela é a última a realmente defender a necessidade de refundação da institucionalidade política nacional, como ela não consegue criar estruturas e organizações que sejam radicalmente democráticas, como ela não consegue mais criar solidariedade genérica com aqueles que não são como nós, a esquerda nacional se viu obrigada a expor de forma isolada o único setor no qual ela tem capacidade de transformação, a saber, este ligado às dinâmicas sociais de reconhecimento. Assim, ela acabou por limitar a força efetiva dessas lutas.

A cada dia que passa, fica mais claro que o Brasil é um laboratório mundial para um modelo de articulação entre neoliberalismo e fascismo. O termo fascismo não é, aqui, uma concessão retórica. Ele é o nome de um processo em curso que paulatinamente ganha forma. 
"A esquerda precisa desmontar o necroestado que vulnerabiliza os mais vulneráveis"
Um processo dessa natureza só pode ser parado de duas formas: graças a uma catástrofe (como uma guerra) ou mediante a consolidação de uma real força de contraposição radical. Uma força que possa contrapor à revolução conservadora uma revolução real. 

Mas, para tanto, essa força precisa atuar na duas frentes que sustentam o modelo, ou seja, ela precisa desmontar o necroestado que agora não tem medo de dizer seu nome nem de esconder suas técnicas reais. Necroestado que vulnerabiliza os mais vulneráveis, que elimina os que nunca foram realmente reconhecidos pela sociedade brasileira como sujeitos. 

Mas ela precisa também destruir o modelo econômico que o financia e necessita dele para amedrontar a sociedade enquanto garante ao sistema financeiro nacional lucros nunca dantes vistos na história do país. 
Os mesmos grupos, bancos e empresas que atualmente aplaudem a política econômica em curso fingindo não ver a violência e a destruição próprias a este governo são aquelas que 40 anos atrás forneceram dinheiro para a ditadura montar aparatos de crimes contra a humanidade, tortura, desaparecimento e estupro. 

Ou seja, não é exato dizer que eles são indiferentes à violência estatal. Na verdade, eles sabem muito bem que necessitam de tal violência para conseguir os lucros que hoje recebem. Sem ela, a sociedade se voltará contra os interesses de sua elite rentista e seus operadores.

Mas essa força que usa a organização compacta e a imaginação política convergente para traçar um horizonte de desejos e lutas para fora do capitalismo, digamos claramente, ainda não existe. Ela só existirá se aceitarmos fazer o luto de nós mesmos, o luto do que fomos até agora".

domingo, 12 de agosto de 2018

A POLÍTICA IDENTITÁRIA IMPEDE O SURGIMENTO DE UMA GENUÍNA RESISTÊNCIA ÀS ELITES

Por Tomasz Pierscionek
O fenômeno da política de identidade que se estende pelo mundo ocidental é uma estratégia de divisão e conquista que impede o surgimento de uma genuína resistência às elites.

Um princípio fundamental do socialismo é a ideia de uma solidariedade supranacional abrangente que une a classe trabalhadora internacional e sobrepõe-se a qualquer fator que possa dividi-la, como nação, raça ou gênero. Os trabalhadores de todas as nações são parceiros, tendo igual valor e responsabilidade numa luta contra aqueles que lucram com seu cérebro e músculo.

O capitalismo, especialmente em sua forma mais evoluída, exploradora e sem coração – o imperialismo –, prejudicou certos grupos de pessoas mais do que outros. Impérios coloniais tendiam a reservar sua maior brutalidade para os povos subjugados, enquanto a classe trabalhadora dessas nações imperialistas se saía melhor em comparação, ficando mais próxima das migalhas que caíam da mesa dos poderosos. 

A luta de classes internacional visa libertar todas as pessoas, em todos os lugares, do trabalho penoso do capitalismo, independentemente do seu grau de opressão passado ou presente. A frase uma lesão a um é um dano a todos sintetiza tal mentalidade, conflitando com a ideia de priorizar os interesses de uma facção da classe trabalhadora sobre todo o coletivo.

Desde a última parte do século 20, enraizou-se entre a esquerda (pelo menos no Ocidente) uma tendência de inspiração liberal que a fragmentação de uma identidade única, baseada na classe, em favor de múltiplas identidades baseadas em gênero, sexualidade, raça ou qualquer outro fator divisor. Cada subgrupo, cada vez mais alienado de todos os outros, concentra-se na identidade compartilhada e experiências únicas de seus membros, priorizando seu próprio empoderamento. Qualquer um fora deste subgrupo é rebaixado ao nível de aliado, na melhor das hipóteses.
A Grande Revolução Francesa sucumbiu às divisões internas

No momento em que escrevo, há aparentemente mais de 70 opções diferentes de gênero no Ocidente, para não mencionar inúmeras sexualidades – a sigla LGBT tradicional cresceu até agora para o LGBTQQIP2SAA. A competição entre elas acrescenta à mistura um número ainda maior de permutações ou identidades possíveis. 

Cada subgrupo tem sua própria ideologia. Tempo precioso é gasto lutando contra aqueles considerados menos oprimidos e dizendo-lhes para verificarem o seu privilégio, à medida que a hierarquia crescente das Olimpíadas da Opressão se configura e modifica. 

As regras para este esporte são tão fluidas quanto as identidades participantes. Um dos últimos dilemas que afetam o movimento das políticas de identidade é a questão de saber se os homens em transição para mulheres merecem reconhecimento e aceitação ou se as mulheres trans não são mulheres e estariam estuprando as lésbicas...

A ideologia da política de identidade afirma que o homem branco, cidadão respeitável, está no ápice da pirâmide privilegiada, responsável pela opressão de todos os outros grupos. Seu pecado original o condena à vergonha eterna. 

Embora seja verdade que os homens heterossexuais (como grupo) tenham enfrentado menos obstáculos do que as mulheres, homens homossexuais ou minorias étnicas, não se deve esquecer que a maioria dos homens brancos heterossexuais, passados e presentes, também lutam para sobreviver de salário a salário, não estando pessoalmente envolvido na opressão de qualquer outro grupo. Enquanto a maioria dos indivíduos mais ricos do mundo são homens caucasianos, existem milhões de homens brancos que são pobres e perdedores. 
Isso parece mais sopa de letrinhas...
A ideia de brancura é, em si, um conceito ambíguo envolvendo perfil racial. P. ex., os judeus irlandeses, eslavos e asquenazes podem parecer brancos, mas sofreram mais do que seu quinhão de fomes, ocupações e genocídios ao longo dos séculos. A ideia de vincular o privilégio de um indivíduo à sua aparência é, na verdade, uma forma de racismo idealizada por intelectuais liberais (para os quais também caberia o rótulo privilegiados), que seriam supérfluos em qualquer sociedade socialista.

A lésbica de minoria étnica de classe média que vive na Europa Ocidental é mais oprimida do que a síria de aparência esbranquiçada que reside sob a ocupação do Estado Islâmico? A classe trabalhadora branca britânica é mais privilegiada do que uma mulher de classe média da mesma sociedade? 

Estereótipos baseados em raça, gênero ou qualquer outro fator apenas levam à alienação e animosidade. Como pode haver unidade entre a esquerda se formos apenas fiéis a nós mesmos e àqueles que mais nos amam? 

Alguns homens brancos que sentem que a esquerda não tem nada a oferecer decidiram jogar o jogo político da identidade em sua busca pela salvação e se inclinaram a apoiar Trump (um bilionário com o qual não têm nada em comum) ou movimentos de extrema direita, daí resultando mais alienação, animosidade e impotência, o que, por sua vez, apenas fortalece a posição do 1% indiscutivelmente privilegiado. As pessoas do mundo inteiro são mais divididas por classe do que por qualquer outro fator.
O saco dos identitários já tem mais de 70 gatos

É muito mais fácil lutar contra um grupo igual ou ligeiramente menos oprimido do que dedicar tempo e esforço para se unir a eles contra o inimigo comum  o capitalismo. 

Combater a opressão por meio de políticas de identidade é, na melhor das hipóteses, uma forma preguiçosa, perversa e fetichista da luta de classes, liderada principalmente por ativistas liberais, de classe média e atuantes no setor terciário [comércio e serviços], que entendem pouco da teoria política de esquerda. 

Na pior das hipóteses, é mais uma ferramenta usada pelos 1% mais ricos para dividir os outros 99% em 99 ou 999 grupos diferentes que estão preocupados demais em lutar por seu próprio espacinho para desafiar o status quo. 

É irônico que um dos principais doadores do falso movimento político de identidade de esquerda seja o privilegiado bilionário canadense George Soros, cujas ONG's ajudaram a orquestrar os protestos Euromaidan na Ucrânia, os quais alavancaram o surgimento de movimentos de extrema-direita e neo-nazistas (ou seja, o tipo de pessoas que acreditam na superioridade racial e não se interessam pela diversidade).

Há um equívoco cuidadosamente elaborado de que a política de identidade deriva do pensamento marxista; a frase sem sentido marxismo cultural, que tem mais a ver com a cultura liberal do que com o marxismo, é usada para vender essa linha de pensamento. Na verdade, não só a política de identidade nada tem em comum com o marxismo, o socialismo ou qualquer outra corrente de pensamento tradicional de esquerda, como se constitui num anátema para o próprio conceito.
Protestos Euromaidan alavancaram a extrema-direita
Uma lesão a um é um dano a todos foi substituída por algo como uma lesão a mim é tudo o que me importa. Nenhum país socialista, seja na prática ou apenas no nome, promoveu políticas de identidade. Nem as nações africanas e asiáticas que se libertaram da opressão colonialista nem os estados da URSS e do Bloco Oriental nem os movimentos de esquerda que surgiram em toda a América Latina no início do século 21 tiveram tempo de brincar com políticas de identidade.

A ideia de que a política de identidade é parte do pensamento tradicional de esquerda é promovida pela direita que procura demonizar movimentos de esquerda; por liberais que buscam se infiltrar, apunhalar e destruir os movimentos de esquerda; e por jovens radicais desorientados que não sabem nada sobre teoria política e não têm nem paciência nem disciplina para aprender. O último grupo busca uma emoção barata que os faça sentir como se tivessem abalado as fundações do establishment quando, na realidade, apenas o fortalecem.
A antítese da fragmentação e dispersão de forças provocadas pelos
movimentos identitários é a esperança de que todos os movimentos
anti-stablishment voltem a unir-se para confrontarem o inimigo maior.
.
A política de identidade é tipicamente um fenômeno moderno de classe média que ajuda os responsáveis a manter as massas divididas e distraídas. No Ocidente, você é livre para escolher qualquer gênero ou sexualidade, fazer a transição entre eles por capricho ou talvez criar o seu próprio, mas não é permitido questionar os fundamentos do capitalismo ou do liberalismo. A política de identidade é o novo ópio das massas e impede a resistência organizada contra o sistema. 

É chocante vermos segmentos da esquerda ocidental acreditarem que as liberdades acima mencionadas sejam um indicador do progresso e um indicador de sua superioridade cultural, o que os leva até a apoiarem sua exportação via ONG's ou por outros meios!
Nota do editor: Tomasz Pierscionek é editor do London Progressive Journal e a publicação deste seu artigo foi recomendada pelo meu bom amigo Francisco Ugarte. Quanto à inclusão do vídeo do Youtube com os principais pontos da palestra da profª Angélica Lovatto, a sugestão veio do comentarista José A. de Souza Jr.
Related Posts with Thumbnails