Mostrando postagens com marcador Edgar Allan Poe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Edgar Allan Poe. Mostrar todas as postagens

domingo, 20 de julho de 2025

MELANCÓLICA CONCLUSÃO: A DEMOCRACIA NÃO SOBREVIVE À AGONIA DO CAPITALISMO

Atraiu 50 milhões de visitantes esta
exposição sobre progressos recentes
O
último momento em que houve grande confiança no progresso da civilização sob as salvaguardas democráticas foi o início do século 20, mas aí veio a 1ª guerra mundial e teve o efeito de um banho de água fria no otimismo que recentes avanços científicos e tecnológicos haviam  despertado.

Isto porque o conflito de 1914/1918 foi um pesadelo. Os dois lados escavaram trincheiras para bloquear o inimigo e conseguiram seu intento, imobilizando-se mutuamente. Então, dia após dia lançavam suas tropas em tentativas temerárias de quebrar o equilíbrio de forças, fracassavam e voltavam a suas posições, após sofrerem baixas tão elevadas quanto inúteis. Dava a impressão de que a carnificina se prolongaria indefinidamente. 

Foram, portanto, levadas de roldão aquelas fugazes esperanças e o sentimento dominante voltou a ser o de que a barbárie continuava à espreita e o homem, sempre propenso a reassumir o papel de lobo do homem. 

Certo quem estava era Edgar Allan Poe, ao constatar que o horror e a fatalidade marcavam a história da humanidade ao longo dos tempos. dispensando-o de datar a história trágica que iria contar, pois poderia ter acontecido em qualquer época.

Desde então o que se viu foi um festival de horrores: resiliências do colonialismo; fascismo; nazismo; o comunismo real (na verdade um capitalismo de estado intrinsecamente autoritário que horrorizaria Marx); um novo conflito mundial; o holocausto dos judeus e o posterior holocausto dos palestinos; a utilização de bombas atômicas contra um Japão na iminência de render-se; a guerra fria; as ditaduras bestiais brotando como cogumelos nas Américas Central e do Sul durante os anos de chumbo; a África quase toda abandonada à miséria, fome e disputas tribais, etc.

Mas, quando a crise dos misseis cubanos em 1962 colocou a humanidade a um passo da extinção durante três semanas, o susto foi tão grande que reavivou a vontade de viver de expressivos contingentes humanos, principalmente os jovens. 

A esquerda atravessou então seu grande momento, com os movimentos em prol dos direitos civis nos EUA, seguidos pela também vitoriosa resistência à Guerra do Vietnã; as Primaveras de Praga e de Paris; a contestação jovem nos EUA e em vários países europeus e americanos. 
Horrores da guerra de trincheiras foram banho de água fria
para quem acreditava em apogeu da civilização no século 20
 

Durante cerca de 10 anos muitos sonharam e muitos tentaram fazer com que os ganhos alcançados pelas gentes no processo produtivo  passassem a beneficiar a sociedade como um todo, libertando-a dos grilhões da necessidade, ao invés de serem usurpados por uma minoria de bilionários e outros parasitas.

Mas a maioria silenciosa (porque não tinha o que dizer) acabou prevalecendo sobre as minorias que tentavam escancarar as portas da percepção e desbloquearem os afetos para engendrar um futuro paradisíaco. 

Aquele foi o momento no qual o potencial produtivo da humanidade como um todo, por força dos avanços científicos e tecnológicos concretizados, finalmente possibilitava que se proporcionasse o suficiente, em termos materiais, para a realização plena de todos os seres humanos. Ou seja, depois de uma trajetória de milênios, finalmente podia ser transposta a barreira da necessidade.

Mas, para que o feito beneficiasse a todos e cada um dos habitantes de nosso planeta, a prioridade econômica suprema teria de ser o bem comum e não a perpetuação e continuo aumento da fortuna dos ricaços em detrimento da grande maioria dos seres humanos, condenada à miséria ou a estágios intermediários de insatisfação por nunca conseguir satisfazer totalmente  suas expectativas, insufladas até o paroxismo pela indústria cultural.
 
A desigualdade econômica, contudo, coloca à disposição dos privilegiados uma gama enorme de recursos para manterem subjugados os que estavam abaixo deles, contando para tanto com dois trunfos poderosíssimos: os fetiches do consumismo e a lavagem cerebral dos cada vez mais aprimorados meios de comunicação de massa (daí o empenho do Trump em garantir total liberdade de empulhação para as big techs). 
A indústria cultural é poderosa ferramenta de
dominação de classe, embora poucos percebam

Ao sair vitoriosa no embate contra as proposições da contracultura e as barricadas dos sonhadores do absoluto, a sociedade de consumo instaurou  uma nova ordem na qual o consumidor tem sempre razão mesmo quando não tem nenhuma razão. 

E a disseminação da internet por todas as classes de renda permitiu que aqueles que não tinham nenhuma razão fizessem ouvir estridentemente seu besteirol, superando, por serem bem mais numerosos, os que se preparavam para dizer coisa com coisa. 

A idiotia religiosa foi fortemente alavancada em detrimento do conhecimento científico e a lei do talião cada vez mais substituiu a empatia, a compaixão e a tolerância, pois é mais fácil exterminar os excluídos que cedem à tentação de tomar pela força o que já não conseguem obter com trabalho do que reeducá-los e dar-lhes acesso, ainda que limitado, aos oásis do consumo.  

O capitalismo agoniza porque só funciona a contento havendo continuo crescimento econômico, o que é impossível dadas as contradições que condenam contingentes cada vez mais amplos de seres humanos à miséria e à exclusão social.

A democracia agoniza porque a minoria de privilegiados já não conta apenas com a força bruta para sufocar os anseios da maioria de explorados. Eventualmente ainda recorre a golpes de estado como o que Jair Bolsonaro tentou (só fracassando por crassa incompetência dos conspiradores que reuniu e desmesurada covardia pessoal), mas consegue também conquistar maioria no Executivo e no Legislativo pelo voto popular, mesmo quando prega ostensivamente mentiras cabeludas e desumanidade extremada.

Como resistirmos à nova barbárie ultradireitista? É o que teremos de aprender em conjunto, à medida que formos conseguindo vitórias expressivas contra essa outra forma de infestação que, de tão nefasta, lembra até a pandemia de covid 19. 
Na democracia decadente, as escolhas estão
restritas ao que convém à classe dominante

Uma coisa é certa: a democracia já não nos serve mais como trincheira, pois é cada vez maior a facilidade com que o inimigo ocupa tal bastião.

Não podemos desconsiderar o fato de que, apesar de Donald Trump haver tentado um autogolpe com o ataque ao Capitólio em janeiro de 2021, conseguiu escapar da punição que se impunha simplesmente por haver, com suas vaquinhas de presépio, obtido uma maioria espúria na Suprema Corte. 

A decisão unânime de inocentar Trump pelo que ele era clamorosamente culpado faz crer que nem Hitler seria condenado por esses fiéis escudeiros fantasiados com togas. E o mandato que Trump não deveria estar exercendo é um rosário de ilegalidades gritantes mas toleradas, conforme os brasileiros estamos constatando.

Mais: não devemos nos tranquilizar com o fracasso do autogolpe bolsonarista pois, no frigir dos ovos, o que impediu o sucesso da conspiração foi ela não haver conseguido cooptar os generais. Se dependesse do restante da oficialidade, o mito não estaria reduzido ao mico surtado que a CNN expôs à execração pública.

A direita que usa os talheres deverá prevalecer nas eleições de 2026 e 2028, tendo, contudo, a direita que agarra a comida com as patas como coadjuvante. E é só. Conseguimos apenas adiar por alguns anos a tomada do poder pelos celerados, cuja faina para transformar o Brasil num hospício nem de longe cessou. O bananinha 03 está aí para comprovar.

E quanto mais a crise estrutural da economia capitalista agravar-se, provavelmente em sinergia com os estragos crescentes das alterações climáticas, mais o terreno ficará propício para a truculência obtusa dos ultradireitistas. 

Seguindo o exemplo do seu precursor Hitler na década de 1930, eles avançam como rolos compressores e, utilizando exigências falaciosas, blefes e demonstrações de força, vão submetendo implacavelmente os Poderes de várias democracias. 
Lavaram nossas almas: Gaviões da Fiel aderiram a manifestação de estudantes secundários
contra Bolsonaro na avenida Paulista e os ultradireitistas tiveram de esconder-se atrás dos PMs
A  opção que nos resta é voltarmos a travar as lutas sociais que nos permitam acumularmos força e mobilizarmos cada vez mais efetivos, percorrendo trajetória inversa à adotada pelo PT nas últimas décadas, quando o partido concentrou seus melhores esforços nas disputas eleitorais e chegou ao cúmulo de resignar-se à  tomada da avenida Paulista pela direita quando do
Fora Dilma! 

[O inimigo, no entanto, não passava de um tigre do papel e bastaram estudantes secundaristas e torcedores organizados do Corinthians para o escorraçarem na fase do Fora Bolsonaro!]

Só teremos alguma chance de êxito nas atuais circunstâncias se conseguirmos convencer os cidadãos comuns de que já somos e cada vez mais seremos a alternativa à barbárie. 

Daí ser fundamental termos sempre em mente que a violência deve partir apenas do inimigo, mas precisamos estar preparados para resistir a ela. Cabe-nos dar exemplo de civilidade, mas não de pusilanimidade... (por Celso Lungaretti)
"Vocês vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que
morreu ontem" (Caetano Veloso, reagindo a conservadores
de esquerda que o vaiavam em 1968 no Tuca)

domingo, 12 de maio de 2024

ROGER CORMAN (1926-2024) FAZIA FILMES BROTAREM COMO COGUMELOS. E ALGUNS FORAM SURPREENDENTEMENTE BONS!

O estadunidense Roger Corman, que acaba de morrer aos 98 anos, deve ser o recordista em citações no IMDb, a portentosa base de dados online sobre cinema, TV, música e games. 

Seu nome é associado a 493 filmes como produtor ou produtor executivo, tendo dirigido 56 e sido ator coadjuvante em 46.

Conhecido como o rei do filme B, fazia brotarem como cogumelos produções baratas mas eficientes para completarem os programas duplos de cinemas do século passado (daí terem quase sempre duração ao redor de 80 minutos, enquanto a atração principal dificilmente ficava abaixo de 90'), bem como, depois, para ocuparem espaços entre a tralha que inundava as locadoras de VHS.  
Orgia da Morte, o mais próximo que Corman chegou da direção autoral
Era, em suma, um pau pra toda obra, o que não o impediu de:
— legar pelo menos um filmaço  (Orgia da Morte, 1964);
— fazer oito adaptações memoráveis de histórias de Edgar Allan Poe no período (1960-1964), tendo Vincent Price como protagonista; e 
— produzir Corrida da Morte – Ano 2000, que virou um inesperado cult, dirigido por Paul Bartel e estrelado por David Carradine (Sylvester Stallone também participou).
Clique aqui para assistir no Youtube a Corrida da Morte – Ano 2000 
Finalmente, merece ser lembrado um prodígio de improvisação de Corman em 1963, quando completou antes do tempo as filmagens do seu O corvo, com Boris Karloff, Vincent Price e Peter Lorre nos papéis principais e Jack Nicholson, aos 26 anos, interpretando um aprendiz de feiticeiro.

Tendo o cenário à sua disposição e Karloff sob contrato por mais dois dias, ele e os roteiristas atravessaram a noite criando a história de outro filme, estrelado pelo velho astro e com a ascensão de Nicholson a segundo do elenco. Todas as cenas com Karloff foram filmadas nesses dois dias.
O Corvo: veteranos ilustres no remake  jocoso de um sucesso de 1935
O filme foi completado em partes durante uns três meses, com os atores restantes; a direção coube ora a Corman, ora ao amigo dele que estivesse disponível no momento (até mesmo o Francis Ford Coppola deu uma força!). 

E não é que dessa colcha de retalhos resultou um filme perfeitamente assistível?! (por Celso Lungaretti)
Sombras do Terror: um improviso tão competente que ninguém percebe

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

CESSE TUDO O QUE A ANTIGA MUSA CANTA...

 ...QUE OUTRO VALOR MAIS ALTO SE ALEVANTA!
C
om o futebol atual exigindo cada vez maior vigor e intensidade física, é difícil imaginarmos que ainda veremos atuar numa Copa do Mundo quarentões como o goleiro italiano Dino Zoff (40 anos no Mundial de 1982), o atacante camaronês Roger Milla (42 no de 1994) e outros cinco menos conhecidos.  

Mas, como cantou Sérgio Ricardo num tributo implícito ao inesquecível Mané Garrincha, "homem não chora por fim de glória, dá seu recado enquanto durar sua história". 

A decadência de Cristiano Ronaldo, que dentro de dois meses completará 38 anos, é uma das mais emblemáticas dentre os futebolistas famosos que não souberam manter a dignidade quando o fim de carreira se aproximava.

Teve seu apogeu em 2009-2018 no Real Madrid, mas tornou público o seu desejo de mudar de clube e foi atendido pela Juventus, que adquiriu seu passe na transação mais cara do futebol mundial até então. 

Não correspondeu à expectativa, pois a Juve passou as Champions em branco e, nas três temporadas em que contou com o CR7, só conquistou dois campeonatos italianos, duas Supertaças da Itália e uma Copa da Itália. Não foi, nem de longe, um retorno à altura do investimento. 
No banco, vendo a consagração do seu substituto
Em agosto de 2021 ele voltou ao Manchester United no qual outrora (2003-2009) brilhara e... foi uma total decepção!

Para piorar, na janela de transferências de meados de 2022 quis mudar para algum time que fosse disputar a Champions 2022/2023 e nenhum se interessou. 

Ficou sem ambiente no Manchester United ao abandonar o banco de reservas antes do término de uma partida e ao dar entrevista que teve péssima repercussão interna. 

Foram os próprios companheiros de equipe que exortaram a direção do clube a livrar-se dele antes de sua volta da Copa, o que acabou se consumando por acordo entre as partes.

Como acreditava que bombaria no Mundial, recolocando sua carreira nos eixos, Cristiano ficou indignado por ser substituído no 2º tempo das três partidas de Portugal nas oitavas-de-final. Supôs que, como principal responsável pelas maiores títulos do selecionado português em todos os tempos (a Eurocopa de 2016 e a Liga das Nações da Uefa de 2018-2019), ainda fosse intocável.  

Tornou público seu inconformismo e o técnico Fernando Santos, explicitamente desafiado, pagou pra ver, colocando-o no banco e apostando todas as suas fichas em Gonçalo Ramos, que aos 21 anos já se tornara um astro do Benfica.

O atacante excedeu todas as expectativas, marcando uma incrível tripleta nos 6x1 contra a Suíça e destravando o ataque lusitano, cujo jogo fluiu como nos longínquos tempos de Eusébio (década de 1960). Com isto, claro, o técnico quebrou a banca, adquirindo o direito de frustrar o CR7 sempre que considerar necessário para sua seleção. 

Parece que ele finalmente começou a cair na real, pois aceitou receber uma quantia mirabolante para ir exibir-se por 30 meses no All-Nassr da Arábia Saudita, implicitamente admitindo que sua trajetória no futebol competitivo terminou.  
O CR7 mostrando sua bola de ouro de
2017. 
E o corvo disse: nunca mais!

E até comemorou os gols de Gonçalo Ramos, passando recibo de sua derrota no conflito de gerações.

É outro exemplo gritante da destruição do caráter de um ser humano que a sociedade do espetáculo leva a alturas injustificadas e não percebe estar sendo apenas um joguete dos mercadores e suas tenebrosas transações (como diria o Caetano Veloso).

Notável finalizador e mediano no restante, ele nunca foi um verdadeiro contraponto ao Messi, um craque completo, com um repertório de jogadas muito maior, enorme superioridade técnica, mais rapidez de raciocínio e capacidade de liderar e ditar o ritmo da peça ofensiva. 

No entanto, era conveniente para os negócios simular uma competição entre ambos e, durante a década passada, tal fantasia se sustentou e rendeu muita grana para os manipuladores que a martelavam na mente dos videotas, como diria o Jerzy Kosinski.

Enfim, torço para que o belíssimo futebol apresentado por Portugal contra a Suíça não tenha sido fogo de palha; e para que, com seu atacante-revelação, os lusos cheguem à final. Seria o desfecho mais romântico possível para nós, brasileiros. Só que a França e Argentina têm planos diferentes.

De qualquer forma, pelo menos as semifinais ambos deveremos inevitavelmente alcançar, pois Croácia e Marrocos não passam de moedas que caíram em pé. (por Celso Lungaretti)  

segunda-feira, 2 de maio de 2022

ROJO ES EL COLOR DEL ALMA

Lula pediu desculpas aos policiais
por ter dito que o Bozo prefere
a eles em lugar do povo
 
C
ontinua atravessada em minha garganta a disposição petista de trocar a cor-símbolo do partido, do vermelho rubro dos que travam o bom combate para o vermelho desbotado, com nuances de verde e amarelo, dos que querem apenas melhorar de vida sozinhos e o resto que se dane.

É o que o Lula pretende desde os anos 80, quando pressionou fortemente o partido para deflagrar aquela vergonhosa caça às bruxas por meio da qual o segmento dominante  expeliu o máximo de tendências de esquerda que pôde. As que sobreviveram à primeira década foram espirrando nas seguintes.

Das dezenas que existiam, cito algumas: Ação Popular, Ala Vermelha do PCdoB, Convergência Socialista, Força Socialista, Movimento pela Emancipação do Proletariado, Organização Socialista Internacionalista, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário e Partido Revolucionário Comunista. 

Enquanto isto, as portas do partido eram escancaradas para os meros carreiristas, que só o inflaram e tornaram flácido, mas tinham a vantagem de contribuir alegremente para a desideologização do PT.

E há o caso bizarro de uma dissidência petista ter-se tornando um partido até promissor, mas que agora queima suas bandeiras e se desconstrói, retornando  à casa paterna tal qual o bom filho do ditado popular, obediente como nunca...
...e o corvo disse: "Nunca mais!" 

Por ironia do destino, os dirigentes que se portam como
vaquinhas de presépio enquanto Lula impõe ao PT uma direitização cada vez mais acentuada acabam de ter uma antevisão do que os espera adiante. 

No melancólico ato deste 1º de maio em São Paulo (esvaziado a ponto de terem sido obrigados a atrasar o discurso da atração principal até que começassem a chegar os fãs da Daniela Mercury), ficou bem evidenciada a consequência:
— dos pactos eleitoreiros com inimigos de classe;
— das propostas antiquadas e tímidas;
— do boicote velado ao #ForaBolsonaro e às iniciativas pró-impeachment do genocida ensandecido, etc.

Foi o primeiro dia do resto da vida do PT. Os vindouros serão piores ainda. (por Celso Lungaretti)
"Besame rosa de sangre/ Rojo es el color del alma!" 

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

GILBERTO GIL VAI VESTIR O FARDÃO E TOMAR O CHÁ DAS 5 NA ABL. O QUE FAZEMOS COM ELE? DEVEMOS COLOCÁ-LO NA RODA?

"Muito feliz em ser eleito para a cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras. Obrigado a todos pela torcida e obrigado aos agora colegas de Academia pela escolha", 
disse Gilberto Gil, eufórico por haver se tornado um merdalhão
do sistema com registro em cartório...
Viver envilece, disse Maurice Druon. E como!

Devemos colocar o Gil na roda? Não, a tortura é uma das piores abjeções em que pode incorrer qualquer ser humano, uma covardia sem limites. 

Eu me contento em atirar-lhe a roda nas fuças. 

No caso, a música que ele compôs quando queria revolucionar uma sociedade podre e não dela receber as honrarias reservadas aos antigos rebeldes que venderam a alma ao sistema e foram por ele perdoados.

Em 1965, ele desafiava: "Se lá embaixo há igualdade/ Aqui em cima há de haver/ Quem quer ser mais do que é/ Um dia há de sofrer/// Quero ver quem vai voltar/ Quero ver quem vai fugir/ Quero ver quem vai ficar/ Quero ver quem vai trair".

[Antes que os patrulheiros cricris tentem me desqualificar com os habituais clichês sobre racismo, esclareço: vejo não só o Gil, mas outros compositores de música popular (inclusive o causasiano Bob Dylan), como meros tolos pretensiosos quando aceitam servirem de chamarizes gratuitos nessas jogadas promocionais visando gerar repercussão para prêmios literários que hoje ninguém sério leva ainda a sério.

De resto, ver o Gil de 2021 trair tão impiedosamente o Gilberto de 1965 não me surpreende. Houve precedente.
Cumprindo o acordo firmado com a ditadura militar para obter a garantia de que não seria preso ao retornar para o Brasil, em 1972 ele deu entrevista a repórter da
TV Globo logo no desembarque do avião, tendo afirmado taxativamente: "Não tenho mais compromissos com a História".

No início da década seguinte, contudo, já estava reatando tal compromisso, só que com roupagem nova, mais chegada à negritude e a uma festiva superestimação do potencial transformador de ritmos como o reggae.

Aí, na coletiva de imprensa de lançamento do disco Um Banda Um, depois de ouvi-lo proferir umas tantas afirmações triunfalistas nessa linha, disparei a pergunta: "Ué, então você já reatou os compromissos com a História?".

Aquelas menininhas que trabalhavam de graça em jornais de bairro (só para poderem posar de repórteres e ver de perto seus ídolos) queriam me agredir. Onde já se viu colocar nosso mito nessa saia justa?

Poucas semanas depois fiz uma entrevista individual com o Gil para escrever o texto da edição da revista MPB a ele dedicada. Rimos ambos na chegada e nada dissemos sobre aquele episódio...

Mas, vestir o fardão da ABL, que tanto ele ridicularizava outrora, passa um pouco da conta. É o atestado de óbito de um artista enquanto artista. 

Depois de se prestar a tal palhaçada, alguém ainda acreditará em posicionamentos que  venha a assumir contra o sistema? O corvo disse: nunca mais! (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

A PANDEMIA VAI SER CONTROLADA. MAS É DESALENTADOR SABERMOS QUE, DEPOIS DA TEMPESTADE, NÃO NOS ESPERA A BONANÇA

dalton rosado
2020, O ANO TRÁGICO
O
ano de 2020 ficará registrado na história mundial como um dos mais trágicos do pós-guerra. 

A junção de uma depressão econômica mundial anunciada com a pandemia do coronavírus representará a morte de milhões de pessoas mundo afora, com grave repercussão econômica-social para os anos vindouros. O que se prenunciava como difícil ficou desastroso com a pandemia.

Salta aos olhos de qualquer analista mais sensato que restou evidenciado o critério utilitário da relação social capitalista com relação às necessidades de consumo: a produção de mercadorias atende precipuamente ao interesse de realização do lucro e reprodução vital do capital e não à satisfação do consumo.

Tal é uma das principais lições que podem ser tiradas dessa pandemia de natureza econômico-social. 

A outra é que governantes tirânicos, temerosos dos efeitos nocivos que a paralisia da economia pode causar às suas administrações, negam a necessidade de proteção social pelo isolamento e promovem o genocídio criminoso pelo qual a história haverá de condená-los, se não receberem a devida punição já no presente.

Os dois exemplos mais marcantes disto se concentram: 
— nos Estados Unidos, o balanço macabro alcançará ainda neste mês o patamar de 300 mil óbitos, 3.034 dos quais ocorreram
num único dia (em 2001, no atentado ao WTC que justificou o desencadeamento da guerra ao terror, morreram menos,  2.977 pessoas); e 
— no Brasil, com quase 180 mil mortes e que bateu nesta 4ª feira, 09/12, o recorde de estados simultaneamente com alta de número de mortes (21, mais o Distrito Federal). 

Felizmente, o negacionista-nacionalista-xenófobo-narcisista e menino rico prepotente terá de desocupar a Casa Branca, apesar de sua relutância em admitir o óbvio, como sempre fazem os garotos mimados quando alguém lhes toma os brinquedos. O mesmo destino está reservado para o seu congênere tupiniquim menos importante, mas não menos genocida.

Os negacionistas e antivacinas existem há tempos, com a história sempre os contraditando e lhes reservando o papel de bobos da corte. Oswaldo Cruz, o grande sanitarista brasileiro do início de século passado, também teve de enfrentar tais palpiteiros genocidas.

Mesmo com toda a hostilidade de que eram alvos, as estratégias de Oswaldo Cruz se provaram certeiras. As mortes por febre amarela caíram, entre 1903 e 1904, de 469 para 39. E, após o extermínio de mais de 50 mil ratos em 1904, a peste foi dada como extinta no Rio de Janeiro. 

As pessoas aprenderam a lição: quando surgiu uma epidemia de varíola em 1908, elas buscaram a vacinação espontaneamente.

No que se refere à economia, os próprios FMI e OCDE projetam uma depressão global que reduzirá em cerca de 4,4% o PIB mundial.
A China é o único país do mundo a prever um crescimento positivo do PIB no fechamento do presente ano, assim mesmo em torno de 1,9%, patamar insuficiente para o pagamento dos juros de sua colossal dívida pública e privada, bem como para a manutenção do emprego de seus trabalhadores  escravizados pelos baixos salários. 

O sistema financeiro internacional, credor dessa dívida chinesa e também das congêneres dos países da periferia mundial (dilacerados economicamente pelo aumento das suas dívidas públicas e juros altos impagáveis), está com as barbas de molho. Prenuncia-se um efeito dominó desastroso.

Por outro lado, bilhões de pessoas mundo afora estão descobrindo que podem utilizar os mecanismos de comunicação eletrônica (home work) para muitas atividades na área de serviços, hoje a mais pujante nos países em geral e, principalmente, nos ditos desenvolvidos. Então, é pouco provável que a locomoção ao emprego volte aos níveis anteriores, o que deverá refletir negativamente nas otimistas (e sempre contestadas) previsões de retomada da economia.    

O mais desalentador nesse quadro, contudo, é que depois da tempestade não virá a bonança: mesmo que as vacinas finalmente erradiquem a propagação das infecções viróticas, ainda estaremos submetidos à relação social oportunista, escravista e irracional sob a qual padecemos há séculos, e para a qual o stablishment  não admite alternativa. 

Os sofridos coitadezas (80% da população mundial), sem consciência e unidade aglutinadora de ação, buscam na própria razão de suas tragédias uma solução para suas amarguras, entoando a cantilena da retomada do desenvolvimento econômico. 

Os outros 20%, formadores de opinião e encastelados no poder econômico e institucional, não permitem que surja o clarão da liberdade e da razão promotora de uma vida social cômoda e farta.

Assim, a busca da retomada do desenvolvimento econômica já dá e continuará dando a tônica das esperanças populares, quando o mundo voltar a uma normalidade que nunca foi normal. 

Os governantes de esquerda e de direita seguirão tentando administrar as crises da falência estatal capitalista, ao invés de denunciarem suas ingovernabilidades; os administradores do capital procurarão reduzir custos dentro do tradicional receituário do que se vão os anéis e fiquem os dedos, mesmo que os dedos sem anéis se entrelacem num ritual funesto.

A nós, os revolucionários emancipacionistas, caberá a árdua mas honrosa tarefa de continuarmos denunciando a farsa da democracia burguesa  e demonstrando que uma vida social fundada na produção voltada para a satisfação de necessidades humanas é o contraponto único e essencial para superarmos este momento de inflexão histórica de um modelo de relação social que se tornou obsoleto e anacrônico. 

Mas, mesmo que nosso intento demore a se concretizar –o que ocorrerá inevitavelmente, caso não sucumbamos diante da irracionalidade bélica armamentista ou outro fenômeno meteorológico qualquer ,bastante previsível a continuarmos a agredir a natureza de modo tão tresloucado–, nossos esforços atuais passarão à história como ponto fora da curva. (por Dalton Rosado) 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

O HOMEM QUE NEGAVA A DOENÇA FOI VISITADO PELO CORONA NO ÚLTIMO ATO

O
s paranoicos têm razão. É bom demais para ser verdade. 

Falo da doença de Donald Trump. Melhor dizendo, da natureza trágica, irônica, poderosamente gótica de termos o nosso Donald com o bicho.

Embora, para espíritos literários, a trama seja um pouco previsível. O homem que negava a doença e se sentia acima dela é visitado pelo corona no último ato: onde é que eu já li isso?

Sim, em incontáveis livros. Mas, como lembrou o sempre excelente Laurence Tribe, é preciso reconhecer que Edgar Allan Poe chegou lá primeiro com o conto A máscara da morte vermelha.

Difícil negar. Aliás, falando de Allan Poe, é impressionante como as suas histórias nos interpelam diretamente nestes tempos de peste. Meses atrás, li A narrativa de Arthur Gordon Pym e gelei com a familiaridade da história: dois amigos partem à aventura pelo mar, mas uma tempestade imprevista os arrasta para os confins da racionalidade.

Não conto o resto, até para não estragar o café da manhã. Mas não há melhor metáfora sobre a tirania da imprudência (e sobre a tirania da contingência) escrita décadas antes de Joseph Conrad também nos legar as suas alegorias náuticas.

Enquanto o povo morre lá fora em agonias mil, eles comem, dançam e gracejam, ainda que exista um elemento dissonante naquela festa: sempre que o relógio marca a mudança da hora, há um silêncio sepulcral que arrepia todos os presentes. Será um prenúncio de morte? A manifestação de uma má consciência?

Talvez ambas. Porque a verdade —atenção:
spoiler— é que um estranho bate à porta e entra no salão. Vem com uma máscara macabra, como se fosse o rosto de um cadáver. 

O príncipe tenta expulsá-lo. Cai morto. Ali está a Morte Vermelha elle-même, para ceifar todos os convidados.

Como acontece com as histórias de Allan Poe, há interpretações para todos os gostos. Para os mais versados no Antigo Testamento, o conto é uma meditação implacável sobre a justiça divina, que sempre se abate sobre a corrupção moral dos homens.

Ou, então, é uma denúncia sobre a futilidade da riqueza perante o fim inexorável.

Mas pertence a um brasileiro a melhor interpretação sobre o conto de Edgar Allan Poe, embora ele não tenha escrito especificamente sobre Poe: falo de Martim Vasques da Cunha e do ensaio O Contágio da mentira: como sobreviver na cultura do Corona, recentemente publicado pela Âyiné.

O livro de Vasques da Cunha é importante ao lembrar dois conceitos fundamentais para entendermos a peste que vivemos.

Para começar, a peste é perturbadora porque gera uma crise de hierarquia: o vírus não discrimina entre ricos e pobres, virtuosos e viciosos, letrados ou analfabetos, governantes ou governados. Ele é indiferente às nossas categorias sociais ou mentais.

É a angústia perante essa insolência que leva muitos políticos a parodiar e a negar a realidade radical que têm pela frente. Um gesto que apenas amplifica essa realidade em manifestações cada vez mais sombrias.

O príncipe do conto, tal como o príncipe da Casa Branca, não soube como responder à realidade radical que perturbou a ordem das coisas. E optou pela ilusão ou pela mentira, tocando música enquanto tudo ardia.

Pelo menos, até o intruso penetrar nas paredes do castelo, mostrando que ninguém estava a salvo do seu próprio destino.

E agora? Agora, há quem diga que a experiência do coronavírus é um bálsamo para Trump (como foi para Bolsonaro; eu admito que sim); ou, pelo contrário, o réquiem da sua candidatura (uma refutação prática da sua irresponsabilidade teórica).

Em qualquer dos casos, a lição da morte vermelha não é para príncipes incorrigíveis. É para nós, meros mortais.

Como escreve Martim Vasques da Cunha:
"O ser humano precisa fazer uma única coisa para sobreviver na cultura do corona: cultivar o jardim da liberdade interior, o único espaço onde a consciência individual sabe que uma vida só pode ser medida pelo que você sabe ser o amor e o respeito pelos outros e por si mesmo —duas coisas que são extremamente fáceis de serem destruídas"(por João Pereira Coutinho)

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O BOZO TANTAS FEZ QUE ATINGIRÁ HOJE O PATAMAR DE 100 MIL MORTES, UNINDO-SE A TRUMP NO HALL DA INFÂMIA DA COVID-19

Que o destino de ambos seja o mesmo que Edgar Allan Poe reservou para
o Príncipe Próspero, personagem de ficção que se comporta de forma 
igualmente abominável quando a peste dizima seus súditos, no
conto A morte da máscara rubra, cuja melhor versão
cinematográfica (A orgia da morte, 1964) está
abaixo, dirigida por Roger Corman e 
estrelada por Vincent Price. 

quinta-feira, 12 de março de 2020

ATÉ EPIDEMIAS SÃO PONTO DE PARTIDA PARA GRANDES FILMES (CASO DESTE AQUI!)

Não há filme para ver no blog mais apropriado para estes tempos de gravíssima epidemia de paúra histérica e bem menos ameaçadora epidemia do novo coronavírus: Orgia da morte (d. Roger Corman, 1964) é um arraso!

Trata-se, disparado, do melhor dos oito filmes de terror gótico baseados em histórias de Edgar Allan Poe, que Roger Corman dirigiu entre 1960 e 1964, com Vincent Price como ator principal.

[Embora o remake de O Corvo na linha do terrir, com Price, Boris Karloff e Peter Lorre, também seja imperdível].

Mostra um príncipe vilanesco (Price) que se tranca no seu castelo tendo outros nobres como convidados, pois acredita que assim manterá todos a salvo da peste da morte vermelha, enquanto os camponeses, fora, morrem como moscas. 
O roteiro costura habilmente situações e personagens de outros contos de Poe e há um virtuosismo estético raro nos filmes de Corman, que quase sempre se limitou a ser um competente artesão preocupado mesmo é com o resultado financeiro (produziu o colosso de 415 filmes e dirigiu 56). Recomendo enfaticamente!

Também para afastar a sinistrose atual, outra dica é o livro A peste (1947), de Albert Camus, um libelo à solidariedade humana no enfrentamento das grandes tragédias. 

Serve também para mostrar o que é uma peste de verdade, ao invés dessa que nos assola, de baixa letalidade, que vai aporrinhar muito mas passará sem produzir danos terríveis (na Idade Média, epidemias chegavam a deixar atrás de si cidades fantasmas, pois todos os moradores morriam).  

terça-feira, 3 de março de 2020

AO IMPRESCINDÍVEL DALTON, SINCERAS DESCULPAS E UM ABRAÇO FRATERNO

Dalton Rosado, grande amigo e companheiro, me pediu que fizesse um texto de apresentação do seu novo livro, Era uma vez o Brasil... 1928/1968.

Automaticamente concordei, como fazia na década passada, quando eram frequentes tais pedidos e eu jamais me negava a dar uma força a quem se iludia quanto aos benefícios que meu endosso lhe traria...

Só no momento de pôr mãos à obra que me caiu a ficha: eu não sou mais aquele Celso Lungaretti que ainda flexibilizava suas convicções para não cair num isolamento maior com relação a quem continuava acreditando, mesmo que inconscientemente, nos valores do sistema.

Algumas concessões foram inevitáveis, como a de trabalhar durante 33 anos como profissional de comunicação, embora sabendo que a indústria cultural existia para manipular as consciências e tangê-las para a aceitação do inaceitável. Mas, tinha de garantir minha sobrevivência, do jeito que desse. 

Estava careca de saber que a democracia burguesa é um jogo de cartas marcadas quando aceitei um convite para candidatar-me a vereador em 2012, na esperança de ressuscitar os mandatos combativos de outrora, quando esquerdistas se elegiam para fazer explodir as contradições do capitalismo e não para obter nacos inofensivos de poder, desfrutando, en passant, das benesses e mordomias do sistema. Mal eram fechadas as urnas, eu já me inspirava em Poe para fazer o balanço daquela experiência:  E o corvo disse: nunca mais!  

E na década de 1970, totalmente descrente da cultura oficial, de todas as academias de letras e de todas as críticas pernósticas que serviam apenas como referencial para consumidores do produto arte escolherem as melhores opções de investimento do seu tempo e de sua grana, eu já apostava todas as minhas fichas na arte como proposta de vida, a arte livre de todas as amarras do sistema, que cultivávamos em nossas publicações marginais, em nossas apresentações de poesia em construção, nos eventos bem comportados aos quais levávamos dissonância, etc.
Luíza Fontenelle recebendo D. Helder Câmara em Fortaleza

Estavam também impregnadas de valores da contracultura as minhas críticas de música e cinema nos anos 80, tanto que tentei até colocar em xeque o trabalho bem comportado dos críticos que se prostravam aos ditames do sistema.  Talvez haja plantado algumas sementes, mas o resultado mais visível foi a desdita do colega que adotou posicionamentos semelhantes aos meus, o Jairo Ferreira, que a Folha de S. Paulo demitiu por motivo inverossímil.

O Náufrago da utopia nasceu num momento dramático, em que eu estava quase na miséria e travava uma luta desesperada para obter a minha anistia política e obter os recursos necessários para dar a volta por cima. Então, quando o inesquecível Apollo Natali convenceu o Fernando Emediato a lançar meu livro pela Geração Editorial, foi como uma luz brilhando no fim do túnel. 

Mesmo sentindo-me um peixe fora d'água, dei todas as entrevistas que foram agendadas para mim, posei de autor respeitável numa constrangedora noite de autógrafos ("o que estou fazendo aqui?", eu pensava o tempo todo)  e, pelo menos até o fim da década passada, joguei esse jogo direitinho, até para não deixar o Apollo mal com o Emediato.

Obtive o que necessitava, tornando conhecida de públicos mais amplos a verdade sobre acontecimentos da guerrilha do Vale do Ribeira dos quais eu vinha servindo de bode expiatório havia mais de três décadas. E um bônus foi o de que essa reabilitação arrancada a fórceps me permitiu dar a contribuição que dei à causa da libertação de Cesare Battisti, um dos meus maiores motivos de orgulho na vida inteira.
Mas, as asas que o sistema inadvertidamente me cedeu naquele momento crítico, logo em seguida retomou, ao perceber quem eu realmente era. Jornais passaram a me boicotar tanto como profissional de imprensa quanto como personagem histórico. Cineastas que pretenderam levar o Náufrago às telas constataram que para esse projeto desapareciam os financiamentos. Então reaprendi a lição de que os únicos caminhos abertos para mim serão sempre os de fora do sistema.

Vem daí que o personagem escritor da década passada foi outro sonho de uma noite de verão e hoje voltei a ser o que era e a acreditar no que acreditava na década de 1970. 

Que a verdadeira cultura só pode brotar na contramão do sistema.

Que se trata de uma experiência vital, a ser fluída pelos que com ela se identificarem, sem necessidade de tutores ou cicerones.

Que crítica é possível fazer-se de um livro que diz tanto sobre seu autor e sobre tudo que o inspirou e no qual acreditou? 
Salta aos olhos que o personagem principal, o jornalista Pedruca, é apenas um ersatz do Dalton  a transitar pelos cenários que o fascinaram, sejam os imaginados a partir de leituras e músicas, sejam os da História que ele via acontecer, começando a compreender (a ação do livro transcorre entre 1928 e 1968, enquanto o Dalton nasceu em abril de 1950).

É praticamente uma história informal de 40 anos da MPB, resgatando uma quantidade incrível de informações sobre episódios, autores e canções mais ou menos conhecidos, tudo isto em interação com os principais acontecimentos políticos daqueles momentos históricos.

Nascido no RJ e tendo morado na MG paterna e no RN materno, Dalton se fixou em Fortaleza há meio século e de lá não mais saiu. Apaixonado principalmente pela música carioca e pela nordestina, autor de cerca de 240 canções que vem divulgando aos poucos, Dalton criou, contudo, um livro que vai muito além de mostrar às novas gerações a grande arte que se fazia outrora neste país. 

[E que a indústria cultural relegou ao quase esquecimento, à medida que direcionava maciçamente seus holofotes para os fabricantes de ruídos populares (a sarcástica expressão é do Paulo Francis), com ênfase em ritmos sempre esfuziantes/dançantes e letras insuportavelmente simplórias.]

Pois nele também estão refletidas todas as convicções que Dalton formou e defendeu ao longo de sua trajetória de vida e de lutas, que vem desde a segunda metade da década de 1970, incluindo:
Composição do Dalton, interpretada pelo Chico Pio
.
— a atuação como um dos fundadores do PT no Ceará; 
— a gestão como secretário de Finanças da gestão popular de Maria Luíza Fontenelle em Fortaleza; 
— a indicação como candidato à sucessão e a virada de mesa da direção nacional, que expulsou a ambos para impor outro candidato;
— a candidatura a prefeito por um partido menor, sem chance de vitória, mas servindo para marcar posição; e
—  sua práxis subsequente como escritor, advogado de causas populares e divulgador da crítica da economia política.

Quando tantos esquerdistas eminentes do passado se descredenciaram como lutadores do bom combate, a figura que transparece do Dalton, por trás de seu tour de force histórico e musical, é o de um veterano que continua fiel a seus valores (emancipacionistas), devendo servir de exemplo para as novas gerações na necessária construção de uma nova esquerda.

Meu abraço fraterno ao Dalton, ficando a lhe dever uma abordagem especificamente literária do Era uma vez o Brasil... 1928/1968. Mas será mesmo necessária?! .
(Celso Lungaretti)
Related Posts with Thumbnails