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sexta-feira, 25 de abril de 2025

TRUMP REVISITA O FASCISMO ESPANHOL: "MORRA A INTELIGÊNCIA, VIVA A MORTE!"

Unamuno, com barba branca, saindo da Universidade após confrontar os fascistas
Em outubro de 1936, numa solenidade que tinha lugar na universidade espanhola de Salamanca, algum professor dormia com o inimigo, proferindo um discurso de exaltação à irracionalidade franquista. 

Os descerebrados presentes se empolgaram e um deles gritou o lema da Falange fascista: "Viva a morte!". Outros o secundaram, bradando esta e outras palavras de ordem a favor de uma Espanha monárquica, ultranacionalista e ultracatólica no mau sentido. Enfim, como sempre brigavam com o presente e exigiam uma volta ao absolutismo feudal.

Lá estava também o general Milan-Astray, cujos seguidores ergueram o braço, fazendo a saudação usual ao ditador Francisco Franco em pleno ambiente universitário, como se ele se encontrasse no local. Uma contradição  em termos. 
Milan-Astray, o parceiro da morte

O reitor Miguel de Unamuno, um liberal humanista, confrontou corajosamente a horda, dizendo que falaria porque "ficar calado significaria mentir e o silêncio pode ser interpretado como aquiescência".

Rebateu a pretensão dos fascistas de estarem defendendo a civilização cristã, acrescentando que estava em curso uma guerra civil na qual vencer não significava convencer, mesmo porque "o ódio que não deixa lugar para a compaixão não pode convencer". 

O general Milán-Astray perdeu as estribeiras ao ouvir as fortes críticas ao seu modelo para a Espanha e, furibundo, urrou: "Morra a inteligência, viva a morte!".

Unamuno finalizou com uma frase que entraria para a História: "Vencereis, porque lhes sobra força bruta. Mas não convencereis, porque para convencer é preciso persuadir. E para persuadir é necessário algo que lhes falta: razão e direito na luta.".

Os descendentes de Unamuno começam a articular uma forte resistência civilizada à nova caça às bruxas ora em curso, tendo na última terça-feira (22) realizado a primeira manifestação generalizada contra as trevas trumpianas: cerca de cem reitores, representando dezenas de instituições acadêmicas, incluindo Yale, Princeton e Harvard, denunciaram a "interferência governamental sem precedentes" no ensino superior.

No dia anterior, Harvard iniciara a batalha jurídica ao estrangulamento financeiro como arma trumpiana para obter o que Unamuno qualificaria de aquiescência dos bem pensantes: entrou com uma ação judicial contra o bloqueio, por parte do Governo Trump, de US$ 2,2 bilhões em subsídios federais, como represália por tal universidade por haver rejeitado as exigências infames dos descendentes de Franco e do general Milan-Astray.

A China, apostando na inteligência, redobra esforços 
para se colocar cada vez mais na dianteira científica e tecnológica, inclusive fazendo altos investimentos para atrair cientistas de outros países - enquanto Trump, flertando com a morte, os aterroriza ao impor uma recaída dos EUA no macartismo. 

Não preciso de bola de cristal para saber quem  sairá fortalecido das atuais escaramuças e quem marcha para um fracasso retumbante e para o fim da hegemonia que herdou dos campos de batalha da segunda guerra mundial. (por Celso Lungaretti)  

quinta-feira, 27 de abril de 2023

LINCHADORES DO CUCA UTILIZARAM A FERRAMENTA DE TRABALHO DO BOLSONARISMO: O ÓDIO.

Jornalistas acreditavam que a torcida corinthiana os acompanharia na sua sanha rancorosa...
O 
linchamento moral do cidadão Alexi Stival foi um dos capítulos mais deprimentes de arrogância e autoritarismo por parte de jornalistas brasileiros que se pretendem de esquerda mas tornam nossa causa odiosa aos olhos do cidadão comum ao reproduzirem a truculência, o espírito vingativo e o desprezo pelas normas e práticas da civilização que caracterizam a atuação da extrema-direita. Ficou difícil distingui-los das milícias virtuais do bolsonarismo.

Inconformados com o fato de o treinador Cuca não ter cumprido uma condenação de 15 meses da Justiça suíça, referente a um episódio de 35 anos atrás, definitivamente prescrita tanto segundo a jurisprudência daquele país quanto da brasileira, eles armaram um verdadeiro rolo compressor de textos tendenciosos, manipulatórios e unidimensionais, satanizando impiedosamente sua vítima sob o pretexto de ela nunca haver ajoelhado no milho da humilhação pública. 

Ou seja, a sentença da corte de Berna deixou de existir e os autos do extinto processo só poderão ser dados a público no final deste século, por força dos 110 anos de segredo de Justiça que sobre eles incidem. Mas isto não impediu o uso e abuso de elementos do processo com finalidade panfletária.
...mas a postura oposta dos jogadores frustrou tal intento. 
Caso de um exame de sêmen realizado para fins forenses e talvez vazado para a imprensa suíça na época (o talvez se deve a que nada realmente garante que o resultado da perícia tenha sido mesmo o alegado, pois nenhuma troca de mensagens com a burocracia de uma corte valida uma reportagem jornalística). 

Como Cuca poderia defender-se, tanto tempo depois, de um mero relato de imprensa referente àquilo que era uma peça do processo cujo conhecimento público estava e está vedado? Isto Freud não explica, só Kafka...

Enfim, como a reportagem em questão não poderia ter-se baseado na leitura e cópia desses autos, pois nunca estiveram disponíveis para a imprensa, tal reportagem nem de longe serve como prova válida para destruir a reputação de um ser humano, ainda mais depois de uma eternidade. Mas, as boas práticas jornalísticas foram atropeladas pelos caçadores de escalpos, em sua sanha para venderem vingança como justiça.

De quebra, os justiçadores armados de teclados pisaram em milênios de evolução da humanidade, desde os rudes tempos do olho por olho, dente por dente. Justiça voltou a ser igualada a castigo, uma mera intimidação de quem possa ser tentado a cometer delitos semelhantes, não levando em conta se o autor de um ato reprovável continua representando perigo para a sociedade ou há décadas deu outro rumo à sua vida. E viva o punitivismo que tanto recriminávamos outrora...

Também nisto os vingadores se igualaram aos bolsonaristas e a todos os fanáticos que querem fazer o mundo retroceder séculos na escala da civilização, voltando ao pré-iluminismo.
Massacrado e privado do
direito de exercer seu ofício

O mais patético de tudo é que, enquanto faziam o mundo desabar sobre Cuca, tais jornalistas nem sequer cogitaram lançar idêntica
cruzada redentora contra o pior exterminador de brasileiros de todos os tempos, responsável pela sabotagem de vacinação que causou a morte de algo entre 350 mil e 400 mil pessoas que, de outra forma, teriam sobrevivido à pandemia de covid.

O motivo: evitar o que parece ser uma pizza já acordada entre os poderosos, no sentido de que ele, de imediato, seja punido apenas com a inelegibilidade e as dezenas de gravíssimos crimes não especificamente eleitorais que cometeu tramitem com a lerdeza habitual da Justiça brasileira, acabando por prescrever. 

Quem se dispusesse a lançar tal campanha, expondo-se às retaliações dos bárbaros, precisaria ter muita coragem. Já o apedrejamento do Cuca só ameaçava infligir danos (físicos, psicológicos, profissionais e morais) ao treinador e sua família. Vai daí que os patrulheiros do passado esquecido não mostraram a menor preocupação com o sofrimento por eles causado no presente.

Para concluir: não precisamos de ilusões compensatórias para o que ficou mal resolvido em priscas eras, mas sim de uma transformação em profundidade da sociedade brasileira hoje e agora!

Neste sentido, temos de somar e não dividir, oferecendo aos explorados e injustiçados a perspectiva de uma existência na qual a prioridade máxima seja a felicidade dos seres humanos, não a realização do lucro e a conquista/manutenção de privilégios.

O ódio é a ferramenta de trabalho dos nossos piores inimigos. Não nos serve, nem os deveríamos imitar. Jamais! (por Celso Lungaretti)
Post scriptum – a sequência de excessos na atuação da imprensa ficou mais aberrante ainda a partir da sem-cerimônia com a qual o Jornal Nacional mostrou aos brasileiros uma página do processo suíço contra os quatro futebolistas que deveria permanecer sob segredo de Justiça até o final do século.
O último ex-nazista levado a julgamento morreu em 2017,
aos 95 anos, quando seu processo continuava inconcluso na
corte mais alta da Alemanha. Seu nome: 
Reinhold Hanning
O fato de a arquivista da corte de Berna aparentemente ter abolido tal sigilo por conta própria f
oi uma prova cabal... de que Cuca está sendo linchado!!! 

Isto porque é quase certo que os advogados helvéticos que ele constituiu para avaliarem tal processo não encontrarão a mesma facilidade para realizar seu trabalho. Outra tentativa neste sentido foi feita anteriormente e os advogados se chocaram com a porta fechada, como deveria estar.

Indignou-se um grande amigo por eu questionar esse fim de feira do nosso jornalismo. Não é nem nunca foi por simpatia ao Cuca, mas sim porque inevitavelmente a mesma conduta será adotada com perseguidos que nos são mais caros, ou seja, os nossos companheiros de ideais. A cobertura da grande imprensa ao Caso Battisti foi um verdadeiro festival de horrores e tendenciosidade. 

E porque, repito, a prescrição de sentenças é um valor fundamental da civilização, caso contrário passaremos a vida inteira privando dos seus empregos, de seus direitos como cidadãos e até de sua liberdade e de sua vida pessoas que cometeram crimes décadas atrás e já não os cometeriam mais nem continuaram representando perigo para a sociedade. Detesto o punitivismo, pois não passa de um miasma medieval que deveria há muito ter-se dissipado! 

Jovem, já me horrorizava quando israelitas sequestravam noutros países ex-nazistas gagás, caindo aos pedaços, para julgá-los e executá-los quando já não eram nem sombra do que haviam sido na ativa. Tem de haver prescrição e a prescrição tem de ser respeitada, caso contrário ficaremos entregues à lei do mais forte e/ou aos humores de quem faz mais barulho na imprensa e nas redes virtuais. (CL)

sexta-feira, 21 de abril de 2023

O PROCESSO QUE CONDENOU CUCA FOI INCINERADO APÓS PRESCREVER. ENTÃO, CHEGA DE CIRCO!

Reportagem da Placar em 1987. Após
1,5 mês presos, os 4 foram liberados.
O
jornalista Paulo Vinícius Coelho, em sua coluna do UOL (vide aqui), trouxe as informações que faltavam para colocarmos definitivamente uma pedra sobre o tal escândalo de Berna:
  1. a Justiça suíça condenou em 1989 os jogadores do Grêmio pela prática de sexo com uma menor de idade que ingressara espontaneamente no quarto deles;
  2. estavam em quatro e o goleiro Chico foi condenado a três anos de prisão, embora a pena máxima possível fosse de dez anos;
  3. a condenação foi menos rigorosa porque não se comprovou que a menor tivesse sofrido violência física ou coerção;
  4. o Cuca acaba de dar entrevista coletiva protestando inocência e dizendo que sua única participação no episódio se deveu a estar no mesmo recinto, só que era um quarto em L e a menor, como consequência, nem sequer chegou a vê-lo, daí não o ter identificado diante da polícia;
  5. então, ao invés de a três anos como o Chico, ele foi condenado apenas a 15 meses (talvez por, embora separado por uma parede, ele saber o que estava acontecendo e nada ter feito para impedir);
  6. o principal de tudo é que, conforme relata o PVC, "o processo foi incinerado, depois de prescrito", portanto "a condenação não foi nem será cumprida" e hoje os quatro ex-jogadores podem passear à vontade pela Suíça sem nenhum risco de serem presos.
Cuca diz que era jovem demais para lidar com uma situação dessas e deixou tudo por conta dos advogados do Grêmio. Longe da Suíça, nem sequer tomou conhecimento de que estava sendo julgado in absentia

Mais tarde, quando quis fazer algo a respeito, advogados daquele país informaram que nada mais era possível porque o processo virara cinzas.

No que se baseia, afinal, a atual campanha de linchamento moral para impedir o Cuca de, 35 anos depois, exercer o seu ofício? No inventário de cinzas inexistentes, já que nem elas sobraram? 

Então, como nunca se soube exatamente o que constava no processo, já que tramitou em segredo de Justiça, está mais do que na hora de pararmos de infernizar o Cuca com suposições e elucubrações que tanto podem ser corretas como totalmente equivocadas. 

Deixou de existir qualquer base sólida para tirarmos conclusões a respeito do episódio, a menos que a vítima ou algum dos outros envolvidos acrescentem algo às versões do passado longínquo. Mas, nada indica que o farão. 

Chega de circo! (por Celso Lungaretti)
Observação – hoje, 25/04, surgiu a informação de que o processo suíço não foi incinerado, como afirmou o PVC e eu acreditei (mea culpa!), mas permanecerá sob segredo de Justiça até o final do presente século. 

Só que, ao contrário do que parecem supor os justiçadores do tribunal da internet, o resumo do caso num jornal de Berna vale tanto quanto qualquer notícia produzida a partir de vazamento de trechos de (ou de suposições sobre) um processo que não estava disponível para conhecimento do público: nada

Isto porque não existe garantia nenhuma de que, p. ex., tal texto expressava fielmente o conteúdo do processo. E seria de um ridículo atroz proibir-se a divulgação do processo em si, mas permitir que qualquer veículo de imprensa o trombeteasse aos quatro ventos.  (CL)

quinta-feira, 20 de abril de 2023

NUNCA GOSTEI DO CUCA COMO PESSOA, NEM COMO TREINADOR. MAS, CAÇAS ÀS BRUXAS SÃO INADMISSÍVEIS!

Cuca como jogador do
Grêmio (1987/1990) e...
P
ara minha decepção, o Alexi Stival, conhecido como Cuca, acaba de tornar-se o novo técnico do Corinthians. 

Não simpatizo com ele, nem gostei do seu trabalho noutros clubes. Mas, indignou-me ver colunistas da grande imprensa, ditos de esquerda, incorrerem mais uma vez em práticas inquisitoriais, estimulando o linchamento moral de um cidadão como se fossem caçadores de bruxas da Idade Média ou macartistas estadunidenses da década de 1950.  

É simplesmente kafkiana a situação de um indivíduo sendo exposto ao opróbrio e sofrendo várias pressões que visam obstar-lhe o exercício de sua profissão, por conta de um ato repulsivo que cometeu... HÁ 35 ANOS!!! 

Um dos pilares da civilização é a prescrição dos crimes após um período que varia de acordo com sua gravidade. Estupros são covardes e infames, mas não a ponto de justificar uma via crucis tão prolongada, daí o acerto da Justiça brasileira ao fixar em 20 anos o prazo para sua prescrição. 

E é de um ridículo atroz infernizar até hoje um cidadão brasileiro por ter deixado de cumprir uma pena de 15 MESES DE PRISÃO que lhe foi imposta in absentia NO ANO DE 1989 por uma corte estrangeira!  

Vale, ainda, reiterar que, tanto de acordo com as leis suíças, quanto segundo os critérios da Justiça brasileira, A SENTENÇA DE 1989 ESTÁ PRESCRITA. É mero arquivo morto, não podendo ser utilizado para desqualificar Cuca na atualidade.   
...como novo treinador
do Corinthians (2023)

Quem discorda deveria civilizadamente tentar fazer com que a lei brasileira mudasse, não adotar uma forma alternativa de punição, usando o próprio teclado como malhete (também chamado de martelo) de juiz.  

Nada indica que o Cuca seria capaz de reincidir tanto tempo depois. Por que, então, infernizá-lo com esses rolos compressores midiáticos?! Por que apontar o dedo indicador para ele e incitar a turba virtual a apedrejá-lo?!

Seus algozes atuais, implicitamente, agem de acordo com a mentalidade (bandido bom é bandido morto!) daqueles que dizem combater. 

Aquele garotão de 24 anos hoje está a três meses de tornar-se sexagenário. A impiedosa perseguição movida contra ele não faz mais nenhum sentido. Não passa do arcaico e bárbaro conceito de castigar pessoas como exemplo para que outros não copiem seus atos. 

Enfim, não adianta alguém ser contra o bolsonarismo e, ao mesmo tempo, reproduzir a mentalidade autoritária de quem se arroga o direito de disciplinar ou retaliar aqueles cujo comportamento lhes desagrada. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 18 de outubro de 2022

O MORO NO DEBATE COMO CAPANGA DO BOZO FOI A PÁ DE CAL NA LAVA-JATO

tales faria
PRESENÇA DE SÉRGIO MORO NO DEBATE
 É ATESTADO DE INOCÊNCIA DE LULA
A
o assessorar o presidente Jair Bolsonaro no debate deste domingo, 17, contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-juiz Sérgio Moro assinou a sentença de condenação definitiva da Operação Lava Jato

Até então, os adversários de Lula sustentavam que o petista não poderia ser considerado inocente das acusações movidas contra ele pela equipe do então juiz.

O argumento principal tem sido o de que o Supremo Tribunal Federal considerou apenas que houve um erro formal no processo: não poderia ficar sob a jurisdição de Curitiba, comandada por Sérgio Moro. 

Agora não dá mais para os adversários de Lula colocarem em segundo plano outro ponto – o principal – da decisão dos ministros do STF: Sérgio Moro foi considerado suspeito de perseguição contra o réu, o ex-presidente Lula. 

E isso, sim, torna a condenação um ato ilegal, um erro jurídico. O que, portanto, torna o réu inocente. 

Ao decidir assessorar Bolsonaro no debate, Moro confirma que realmente tem uma questão pessoal contra Lula. Uma aversão tão forte que o faz aliar-se a Bolsonaro, a quem acusou de pressioná-lo a abafar investigações na Polícia Federal envolvendo milicianos e o filho mais velho do presidente, Flávio Bolsonaro. 

Ou seja, o chefe da Operação Lava Jato era movido a ódio pessoal contra Lula, capaz de fazê-lo ignorar qualquer empecilho para condenar o petista. 
Ao aceitar acompanhar o presidente da República, que o demitiu do comando do Ministério da Justiça e contra quem lançou suspeitas de vários tipos, Moro mostra que é capaz de ignorar qualquer coisa desde que seja para prejudicar Lula. 

Para o STF, esse ódio  ou envolvimento pessoal de Moro  ficou comprovado quando o juiz permitiu o vazamento da conversa telefônica entre Lula e a então presidente da República, Dilma Rousseff. 

O vazamento impediu a posse do petista como ministro de Dilma, o que transferiria o processo de Curitiba para o STF. 

Para a opinião pública, no entanto, e para a História, o juiz comprovou isso tudo ao comparecer ao debate. Assinou a sentença de condenação da Lava Jato, operação que – agora está claro! – dirigiu com o fígado. Inocentou Lula. (por Tales Faria)
.
TOQUE DO EDITOR – Parabéns ao Tales pela argumentação engenhosa, mas farei algumas ressalvas. 

Concordo quanto à Lava-Jato haver mesmo forçado a barra contra Lula, cometendo irregularidades e ilegalidades que juridicamente tornavam obrigatória a anulação dos processos dela originários.

Considero, inclusive, insuficientes os elementos com que a Lava-Jato tentou estabelecer que o Lula recebera imóveis como pagamentos por serviços prestados à Odebrecht.  

Mas, tendo trabalhado durante três anos e meio como jornalista no Palácio dos Bandeirantes, estou careca de saber que o funcionamento de um esquema daqueles seria impossível sem o conhecimento e a anuência do presidente da República.  Omissão no cumprimento do dever certamente houve.

Resumo da ópera: a meu ver, o Lula foi condenado por algo que não ficou verdadeiramente provado, além de os presidentes, governadores e prefeitos, em sua grande maioria, sempre terem favorecido determinados interesses e recebido algo em troca.    

E encaro a ziguezagueante trajetória do Sérgio Moro não como um atestado de inocência do Lula, nem como comprovação de que o juiz era movido pelo ódio, mas sim como nova comprovação de que a esperteza (tanto quanto a ambição), quando é demais, engole o dono. 

E é por tudo que o Moro se mostrou capaz de fazer para atingir seus objetivos pessoais que concordo com o Tales: condenada mesmo foi a lava-Jato, uma caça às bruxas igual a tantas que a direita periodicamente promove no Brasil, usando o moralismo rançoso como trampolim para o poder. 

Uma delas, inclusive, culminou no suicídio de um presidente, cuja coragem abortou o golpe em andamento mas não impediu a posterior repetição de tramoias  quase idênticas (CL

terça-feira, 9 de agosto de 2022

LULA ATINGE A META QUE PERSEGUE HÁ 4 DÉCADAS: DILUIR O VERMELHO DO PT!

Vai ser esta a nova bandeira do PT? 
josias de souza
LULA DESBOTA BANDEIRA DO PT PARA ESVAZIAR BRUXARIAS ELEITORAIS DE BOLSONARO
No material da campanha de Lula, a cor característica do PT se diluirá em meio às tonalidades da bandeira brasileira. 

O vermelho será misturado nos adesivos e panfletos a tons de azul, amarelo e verde. Por trás da providência singela esconde-se a essência da estratégia eleitoral de Lula no embate que trava com Bolsonaro. 

No gogó, parte do petismo ainda sonha com vitória no primeiro turno. Na prática, a campanha de Lula já se equipa para a batalha da segunda rodada. 

Bolsonaro sacode desde logo o lençol do fantasma do comunismo. Os governos petistas notabilizaram-se pelo dinheirismo, não pelo comunismo. Mas na campanha do capitão, como nas guerras, a primeira vítima é a verdade. 

Antevendo as bruxarias que estão por vir, os estrategistas do PT tentam retirar do baralho a carta do radicalismo.

Em privado, Lula diz que, quanto mais irascível soar Bolsonaro, mais sereno será a sua retórica. O compromisso não orna com o estilo palanqueiro do personagem. 

Mal comparando, ocorre em 2022 algo semelhante ao que sucedeu há quase quatro décadas, quando Tancredo Neves pediu que fossem evitadas as bandeiras vermelhas nos seus comícios. Agonizante, a ditadura militar havia apertado o botão de dane-se

Surgiram em Brasília cartazes em que Tancredo era retratado contra um pano de fundo vermelho, ornamentado com a foice e o martelo. Agora, além de desbotar a bandeira do PT, Lula surfa a onda de manifestos pró-democracia. 

Tenta recriar contra o governo civil mais militar da história a atmosfera que vigorava no alvorecer da fase de redemocratização. (por Josias de Souza)
TOQUE DO EDITOR – O Josias acertou no atacado, mas há duas pequenas observações a fazer no varejo:
1. Descaracterizar o PT como partido de esquerda não é um artifício tático dos estrategistas de campanha, mas sim a confirmação simbólica de que Lula atingiu plenamente seu objetivo de desideologizar o partido, buscado obsessivamente desde a década de 1980.
Foi quando ele orquestrou a expulsão de forças e militantes revolucionários, ao mesmo tempo que escancarava as portas do PT para o ingresso indiscriminado de carreiristas e oportunistas, que evidentemente favoreciam a priorização total da conquista de governos, verbas e boquinhas.
2. Nada garante que Lula não vencerá no primeiro turno, pois a campanha gratuita nem começou e muita água ainda vai passar sob a ponte.

Possibilidades em aberto são o rápido esvaziamento do Bozo, que tanto pode levar a uma decisão já no 2 de outubro, como ensejar a emergência de outra candidatura para disputar com Lula o segundo turno. Afora a chance sempre presente de uma explosão social como as que aconteceram em vários países no ano de 2019. 

A única certeza, no momento, é que não haverá golpe de Estado nenhum, pois não passa de blefe de um Bozo em flagrante processo de esvaziamento. (por Celso Lungaretti)   

quarta-feira, 27 de julho de 2022

OS PRESBITERIANOS DO BRASIL SE IDENTIFICAM TAMBÉM COM O USTRA?

rui martins
OS AUTOS DE FÉ DA IGREJA PRESBITERIANA BOLSONARISTA
Q
uem levantou a lebre foi o jornalista Daniel Weterman, com seu texto no Estadão (acesse-o aqui). E a repercussão incomodou os donos da empresa citada (podemos dizer assim ou seria melhor chamá-la de partido político?).

Aliás, falando nos evangélicos, implesmente me surpreendo por quando leio comentários sobre a situação política atual, quase nunca encontrar uma referência aos enrustidos responsáveis por termos chegado onde chegamos.

Embora claramente escondidos nas boas análises políticas,eles formam o grupo de um terço ou, se quiserem, 30% dos eleitores que decidiram as eleições em 2018 e ainda hoje permanecem fiéis ao presidente de extrema-direita, apesar de sua imagem de nazifascista como consequência duas afirmações racistas, homofóbicas, golpistas e favoráveis à tortura que profere, bem como por facilitar a compra de armas e assim contribuir para o aumento da criminalidade no Brasil, entre outros males.

A expansão da religião dita evangélica no Brasil  tornou-se hoje um sério tema de sociologia a ser estudado. Não pela sua doutrina, pelos seus catecismos, suas crenças, nem por ser importada dos EUA, mas por ter se tornado um instrumento político de dominação.

Enquanto nos EUA são os brancos que comandam a extrema-direita supremacista, Bannon e Trump se servem do presidente Bolsonaro para criar e propagar uma versão de extrema-direita cabocla pobre e negra, servindo-se de uma versão evangélica fundamentalista, conformista, sem reformas sociais, mas com muitas promessas para depois da morte.

Daí a importância da denúncia de Weterman quanto à uma depuração de seus membros planejada pela direção da Igreja Presbiteriana do Brasil. O assunto era interno, a limpeza seria discreta e ninguém de fora ficaria sabendo, como não ficaram sabendo nos anos de chumbo dos inquéritos dentro dos seminários e igrejas presbiterianas (também em outras denominações protestantes) com expulsões e demissões.

"A cúpula da Igreja Presbiteriana do Brasil está fechada com Bolsonaro. Nesta reportagem, no Estadão, o relatório da instituição para afastar os cristãos da esquerda", anunciava Daniel no seu post, cujo título era 
Igreja Presbiteriana do Brasil tenta barrar esquerda e abre púlpitos para Bolsonaro

Mais: eocumento interno recomenda que os pastores orientem seus fiéis para se afastarem da nefasta influência do pensamento da esquerda.

O pastor presbiteriano de Curitiba, Osni Ferreira, foi dos primeiros a aderir à caçada que lembra os autos de fé da Inquisição, publicando um vídeo no Youtube, Nós temos que reeleger Bolsonaro

Logo depois, no Twitter, Andrade Negro respondia: "O Partido Presbiteriano do Brasil fez strip-tease no púlpito, tirou as vestes de igreja e assumiu sua face de agremiação de extrema-direita". 

E Reinaldo Azevedo, na Bandeirantes, cobrou coerência da IPB: se decidiu tornar-se partido político, deveria abrir mão das isenções de impostos que a beneficiam..

O pastor presidente do supremo concílio da IPB, Roberto Brasileiro, tentou, no dia seguinte à publicação, se explicar, diante da má repercussão da notícia de que se criara uma comissão destinada a expurgar os hereges de hoje, quais sejam os crentes com tendência de esquerda.

Embora comunista e comunismo não estejam mais no vocabulário político atual, os pastores presbiterianos assim qualificam quem tem simpatia por ideias sociais, requentando a velha conversa da ameaça comunista. 
Fé demais não cheira bem... 
A partir de uma montagem manipulatória do vídeo de uma velha entrevista do Lula na China, amedrontam seus seguidores com a mentira de que, sendo eleito fechará, ele destruirá as igrejas. E por falta de cultura e de informação, muitos crentes evangélicos e presbiterianos acreditam.

Ainda com o mesmo objetivo de justificar os autos de fé nas igrejas presbiterianas, a Associação Nacional de Juristas Evangélicos divulgou um parecer no qual mistura liberdade religiosa com laicidade, querendo que é normal se posicionar quanto a certas doutrinas.

Mas, não é normal querer criar uma triagem entre seus membros e seguidores, justamente sobre comunismo e pensamento de esquerda num momento político eleitoral cujas palavras de ordem bolsonaristas são justamente essas, de condenar comunismo e esquerda.

Há também muita ignorância e má fé nessa iniciativa inusitada, pois nos países europeus de origem dos movimentos da Reforma, grande parte dos pastores teólogos atuais não escondem serem de esquerda, principalmente por condenarem as desigualdades sociais criadas pelo capitalismo. 

A origem dessas propostas de limpeza dentro das igrejas presbiterianas brasileiras está no movimento supremacista branco estadunidense.

Até o próximo domingo (31), a direção da IPB estará reunida em Cuiabá, MT, com representantes de seus diversos sínodos e, entre os temas a serem discutidos, existe um relatório sobre a atitude a ser tomada quanto aos seus membros com tendência política de esquerda ou suspeitos de serem de esquerda, designados como comunistas.

Uma cumplicidade escrita nas estrelas...
Segundo a proposta, os pastores e presbíteros deverão tentar convencer esses membros a mudarem de ideia e se tornarem politicamente de direita e eleitores do Bolsonaro. Caso não levem a sério, o passo seguinte será a admoestação. E se persistirem no chamado mau caminho, deverão ser desligados da igreja ou expulsos.

Os primeiros visados são os que ocupam posição de influência dentro da igreja, como diáconos e presbíteros, mas principalmente professores de
Escola Dominical. Trata-se de uma tradição das igrejas protestantes, pela qual em todo domingo, antes do culto, os membros da igreja são divididos em classes de crianças, jovens, senhores e senhoras, para estudarem temas bíblicos com professores voluntários. também membros das igrejas.

O Supremo Concílio da IPB, que não tomou nenhuma medida, quando do escândalo de corrupção envolvendo o pastor Milton Ribeiro, não esconde sua adesão ao Bolsonaro, retribuindo assim a política do dito cujo, que tem favorecido evangélicos e, principalmente, presbiterianos.

Além do Ribeiro, o último ministro do STF indicado por Bolsonaro, André Mendonça. é jurista e também pastor presbiteriano. Para compensar a perda do emprego de ministro da Educação, o Instituto Mackenzie, criado pela IPB, já teria oferecido um posto de direção ao Ribeiro, segundo informações da imprensa.

Essa intervenção da IPB na política, imitando a ala conservadora, retrógrada e fundamentalista das congêneres estadunidenses, não é nova. A direção da IPB apoiou o golpe de 64 e o governo militar até 1985, e criou uma espécie de inquérito policial militar dentro das igrejas, demitindo pastores e seminaristas de esquerda ou suspeitos de esquerda.
 
Paulo Wright foi assassinado no DOI-Codi
Foi nessa época, 1973, que mataram no DOI-Codi, o ex-deputado catarinense Paulo Stuart Wright, egresso da Ação Popular, que por ironia do destino, era filho de pastores presbiterianos missionários estadunidenses em SC.

Seu irmão, James Wright, era pastor, tendo sido desligado e demitido da IPB durante o auto de fé ou inquérito político nela criado pelo presidente do Supremo concílio da época, Boanerges Ribeiro,

O Brasil, segundo a Constituição é um país laico, mas o governo Bolsonaro tem desrespeitado tal princípio. 

A IPB deixa também de ser uma igreja devotada a Deus para apoiar um presidente nada cristão, que está estimulando a compra de armas pelo povo, justifica e elogia torturadores, além de promover a destruição da Amazônia.

No dia 11 de agosto, a sociedade civil divulgará um documento, Carta às/brasileiras/e aos brasileiros, (mais sobre ele aqui) contra o golpe planejado. A IPB, assim como as evangélicas, ficará de fora e, num futuro próximo, isto terá um preço em termos de perda da credibilidade.

Ao promover a campanha pela reeleição do ultradireitista Bolsonaro, os líderes presbiterianos dão as costas aos princípios básicos da Reforma. 

É bom lembrar que as igrejas e suas instituições estão livres do pagamento de impostos; e que a IPB, especificamente, é uma igreja de importação estrangeira que, junto com as demais evangélicas, com seus gospels e tradições transplantadas dos EUA para cá, está atentando contra a cultura brasileira. (por Rui Martins)

segunda-feira, 2 de maio de 2022

ROJO ES EL COLOR DEL ALMA

Lula pediu desculpas aos policiais
por ter dito que o Bozo prefere
a eles em lugar do povo
 
C
ontinua atravessada em minha garganta a disposição petista de trocar a cor-símbolo do partido, do vermelho rubro dos que travam o bom combate para o vermelho desbotado, com nuances de verde e amarelo, dos que querem apenas melhorar de vida sozinhos e o resto que se dane.

É o que o Lula pretende desde os anos 80, quando pressionou fortemente o partido para deflagrar aquela vergonhosa caça às bruxas por meio da qual o segmento dominante  expeliu o máximo de tendências de esquerda que pôde. As que sobreviveram à primeira década foram espirrando nas seguintes.

Das dezenas que existiam, cito algumas: Ação Popular, Ala Vermelha do PCdoB, Convergência Socialista, Força Socialista, Movimento pela Emancipação do Proletariado, Organização Socialista Internacionalista, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário e Partido Revolucionário Comunista. 

Enquanto isto, as portas do partido eram escancaradas para os meros carreiristas, que só o inflaram e tornaram flácido, mas tinham a vantagem de contribuir alegremente para a desideologização do PT.

E há o caso bizarro de uma dissidência petista ter-se tornando um partido até promissor, mas que agora queima suas bandeiras e se desconstrói, retornando  à casa paterna tal qual o bom filho do ditado popular, obediente como nunca...
...e o corvo disse: "Nunca mais!" 

Por ironia do destino, os dirigentes que se portam como
vaquinhas de presépio enquanto Lula impõe ao PT uma direitização cada vez mais acentuada acabam de ter uma antevisão do que os espera adiante. 

No melancólico ato deste 1º de maio em São Paulo (esvaziado a ponto de terem sido obrigados a atrasar o discurso da atração principal até que começassem a chegar os fãs da Daniela Mercury), ficou bem evidenciada a consequência:
— dos pactos eleitoreiros com inimigos de classe;
— das propostas antiquadas e tímidas;
— do boicote velado ao #ForaBolsonaro e às iniciativas pró-impeachment do genocida ensandecido, etc.

Foi o primeiro dia do resto da vida do PT. Os vindouros serão piores ainda. (por Celso Lungaretti)
"Besame rosa de sangre/ Rojo es el color del alma!" 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

OPORTUNISTA? SIM. MAU CARÁTER? SIM. MAS NÃO COLABORADOR DA DITADURA

G
ylmar dos Santos Neves (1930-2013) foi o maior goleiro brasileiro de todos os tempos. Teve participação fundamental nas conquistas da Copa do Mundo de seleções pelo Brasil (1958 e 1962) e de clubes pelo Santos (1962 e 1963).

[Um revisionismo politicamente demagógico converteu os Mundiais do Santos em Copas Intercontinentais, mas não reconheço tais besteirinhas: para mim, continuam valendo os resultados conquistados nos gramados pelas chuteiras imortais!]

Gylmar  tinha amigos na sede principal da repressão paulista (Oban e depois DOI-Codi) e, após pendurar as luvas, montou em parceria com um deputado reaça, seu cunhado Ricardo Izar, um negócio de venda legalizada, para militares e delegados, de veículos apreendidos com os resistentes, sem cobrança de impostos, contando para tanto com autorização especial a ele concedida pelo governo federal.

Gylmar, portanto, era um mau caráter e andava em péssimas companhias. Sabendo disto, eu jamais tomaria uma cervejinha com ele.

Mas, colaborador da ditadura?! É uma irresponsabilidade fazer-lhe acusação tão pesada sem apontar um único resistente que ele tenha dedado, um único aparelho cuja localização ele haja apontado, um único ato ou declaração desse cidadão sempre discreto que  porventura tenha facilitado a vitória dos terroristas de estado sobre nós.

Ele colaborou, isto sim, com o próprio bolso, já que recebeu como recompensa, por seus préstimos de despachante, uma concessionária da GM no bairro do Tatuapé. 

E eu, tendo sido um dos primeiros prisioneiros a acusar publicamente os torturadores de rapinantes, por se apropriarem de tudo de valor que encontravam conosco quando caíamos nas garras deles, permito-me duvidar de que os veículos cuja documentação o Gylmar lavou pertencessem a presos políticos. Seria embaraçoso demais se viesse a público, aqui ou no exterior.

Tudo me faz crer que fossem aqueles destinados ao nosso uso contínuo, adquiridos com a grana que obtínhamos expropriando bancos  (já os utilizados em ações armadas eram apanhados pouco antes e abandonados logo depois).

Então, se alguém tinha algo do que se queixar eram os bancos, pois os carros comprados com o dinheiro deles deveriam é ir a leilão para que tais agiotas consentidos pudessem ser reembolsados. Devemos chorar as dores dessa corja?

E mais: vale a pena atingir a memória de um morto, portanto impossibilitado de se defender, por tão pouco e tanto tempo depois? Ele não fez o suficiente para merecer de nós um mínimo de consideração? (por Celso Lungaretti)  

quarta-feira, 23 de junho de 2021

CESARE BATTISTI: DEPOIS DA FUGA SEM FIM PELO MUNDO AFORA, AS ARBITRARIEDADES SEM FIM NA PIOR PRISÃO DA ITÁLIA

A
revista Forum publicou na semana passada a tradução (vide aqui) de uma longa carta de Cesare Battisti, na qual o escritor, entre outras arbitrariedades cometidas pelo Estado italiano, se queixa de estar em isolamento prisional há 20 meses, dos quais apenas seis foram em estado de semilegalidade [todos os trechos em azul são palavras de Battisti], daí seu inconformismo:
"Não se pode punir ou vingar aplicando a um veterano dos anos 70 o status de prisioneiro de guerra".
O documento foi publicado pelo jornal italiano Carmilla on line e traduzido para o português por Alessandro Peregalli e Rodrigo Ardissom Souza.

Faltou a IstoÉ citar o companheiro Carlos Lungarzo
Recomendando aos leitores que o acessem e leiam na íntegra, destaco algumas passagens (por Celso Lungaretti):
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O PRESENTE, NA PIOR PRISÃO CALABRESA
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Em resposta a pedidos formais por motivos de tratamento desumano, citando medidas de segurança sem precedentes, que, além disso, têm sido aplicadas retroativamente há 41 anos, o Estado responde literalmente: "a documentação solicitada foi retida do seu direito de acesso". Mas, então nos perguntamos, qual é a possível defesa? Esta é a razão pela qual entrei em greve de fome em Oristano [penitenciária de segurança máxima na ilha da Sardenha].

Em resposta, o Estado raivoso me transferiu para a pior prisão da Itália [na região da Calabria], me colocando à força na seção ISIS-AS2 [destinada a terroristas]. Isso, apesar das ameaças recebidas no passado e no presente, proferidas pelas diferentes frentes jihadistas contra mim. 

Mas se Cesare Battisti foi designado pela autoridade judicial para a segurança média e não ao orgastolo ostativo [1], o que ele está fazendo na AS2? 

Minha presença na seção ISIS implica grandes dificuldades e pequenas margens de sobrevivência:
— sem nunca sair da cela para a banho de sol;
— limitando também na comida, já que são do ISIS os trabalhadores que a distribuem; 
Quando Berlusconi relançou a caça a Battisti, ele já
não tinha atuação política e se ocupava da carreira...
— 
objeto de ameaças através do portão da grade; 
— privado de computador no qual eu pudesse exercer a minha profissão; 
— vigiado na frente e objeto de CED [medida disciplinar] a cada pequena reclamação; 
— sujeito à censura, sob a alegação de suposta atividade subversiva e assim por diante, até ser impedido também no direito de defesa, estabelecido pelo artigo 24 da Constituição. 

Eu poderia encontrar meus familiares italianos uma hora por semana, quatro vezes por mês, mas, dada a distância do meu local de residência e a idade avançada dos meus irmãos, que varia de 70 a 80 anos, isso raramente acontece. 

Minha família, que vive na França e no Brasil, só posso contatá-la com chamadas de vídeo no meu celular uma vez por semana, mas então tenho que desistir das visitas presenciais. Desta forma, passo meses sem contato com meus filhos, para os quais tenho de pedir notícias por carta, quase sempre retidas pela censura porque estão escritas numa língua estrangeira. 

Disseram-me até mesmo que meus filhos deveriam aprender a escrever em italiano para receber notícias de seu pai. Isto porque o censor tem dificuldade com o francês ou o português, que são as línguas maternas dos meus filhos. Esse é um tratamento desumano não só para qualquer prisioneiro, mas especialmente para alguém cujo último crime data de 41 anos atrás. 

...e da vida familiar da qual foi privado por
longos períodos de sua sofrida vida.
  
E como se isso não fosse suficiente, o governo me mantém enquadrado num nível absurdo de periculosidade, alimentando um processo de criminalização constante a ponto de poder justificar a apreensão do meu computador, no qual eu estava completando um romance sobre um conflito em Rojava e o drama dos imigrantes
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NO PASSADO, TRAÍDO POR EVO MORALES
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As autoridades italianas nunca aceitaram meu refúgio no Brasil. O Estado trabalhou com todas as suas forças, mas também com meios ilícitos como a corrupção e a oferta de privilégios políticos e econômicos, para obter a minha entrega fraudulenta a todo custo! 

...A Itália, através da embaixada, sempre manteve relações privilegiadas com os lobbies militares próximos a Bolsonaro. A ponto de empurrar as empresas ítalo-brasileiras a entrar ativamente na campanha presidencial de Bolsonaro. Em troca de tal amizade, Bolsonaro prometeu minha extradição. 

Embora a Constituição o impedisse de fazê-lo – você não pode revogar um decreto após 5 anos de sua emissão – Bolsonaro manteve sua promessa. Por meio de compra e venda de influência na Supremo Tribunal Federal, foi desavergonhadamente ignorada a Constituição e o estatuto de prescrição dos crimes atribuídos a mim e, em dezembro de 2018, decretada a ordem de extradição.

O governo de esquerda cessante me garantiu contato direto com o presidente da Bolívia, Evo Morales, que pessoalmente permitiu que o fundador do MST, João Pedro Stédile, me recebesse na Bolívia com a concessão de refúgio político. 
Depois de Guevara, Battisti: a traição parece ter
virado uma tradição dos presidentes bolivianos!
Numa operação combinada entre o Partido dos Trabalhadores brasileiro e o Movimento ao Socialismo boliviano, fui transferido para Santa Cruz de la Sierra e lá entregue a um emissário do governo, empregado direto do chanceler. 

Enquanto esperava a papelada para refúgio, fui alojado num centro de monitoramento: instalações pertencentes ao Ministério do Interior, que serviram de base para espionagem da oposição à Evo Morales! Uma dúzia de operadores de informática trabalharam lá... 

Tive imediatamente a impressão de que estava sendo observado a cada passo, não apenas por forças supostamente amigáveis.... 

Quando eu já tinha a certeza de que havia algo errado, fui pego a alguns passos do centro, enquanto ia às compras. De repente, todos aqueles a quem eu havia sido apresentado para a regularização do asilo tinham desaparecido.

Mesmo assim, eu não perdi as esperanças. Claramente pensei na traição de Evo Morales, mas ainda assim contava com as leis bolivianas que excluem a extradição por delitos políticos e, especialmente no meu caso, por estar prescrito de acordo com as leis bolivianas... 

...eu deveria ter suspeitado que o que a Itália queria evitar era exatamente um julgamento regular. Os próprios policiais bolivianos da Interpol, alguns dos quais eu tinha encontrado no centro de monitoramento, pareciam bastante envergonhados com o que estava prestes a acontecer. Eles não tiveram dificuldade em me informar que ali tinha um monte de italianos, brasileiros e agentes de outro país que eles não quiseram especificar. 

Não terá a Interpol nada mais importante com que
ocupar-se além de vendettas extemporâneas?
Eles me disseram claramente que minha pele estava sendo negociada e chamavam seus governantes de malandros. Entendi o que estavam falando na manhã seguinte, quando uma equipe trajada de negro e com capuzes entrou e me levou para o aeroporto internacional de Santa Cruz de la Sierra.

Colocado e guardado em uma sala de cujas janelas se via a pista (...) por um momento tive a esperança de que Evo Morales houvesse dado uma contraordem. Uma esperança fugaz, até a chegada de um grande grupo de pessoas com cores italianas no pescoço, que me levou ao avião oficial que nos esperava muito longe na pista de pouso. 

Eu até tentei resistir: É um sequestro, gritei. A resposta foi desarmante: E daí? Mas desta vez funcionou.
.
MAIS PASSADO: A ADMISSÃO DE CULPA
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Pensei seriamente numa solução coletiva dos nossos anos 70. O clima político na Itália não era o ideal, mas eu sabia da existência de personalidades e tendências dentro do mundo judiciário que, tendo lutado na linha de frente na guerra contra o terrorismo – como dizem hoje em dia – conheciam bem o assunto e não tinham interesse em recorrer à propaganda obscurantista para entender a realidade dos fatos. 

Certas pistas me disseram que estas pessoas, ou correntes de pensamento, ainda esperavam que um dia pudéssemos virar estas tristes páginas da história com dignidade e respeito pela memória nacional... 
Battisti não é Cristo, mas foi traído por um Judas 
boliviano e negado por um Pedro brasileiro...
...Movido por este sentimento, alimentado pela esperança de que 40 anos eram muito tempo e que a democracia italiana tinha de haver amadurecido e que o Estado também era um administrador forte e responsável, decidi confiar na justiça e chamei o promotor de Milão. 

Aquela meu depoimento em 23 de março de 2019 foi uma escolha dolorosa. Estava longe da Itália desde 1981, e meus contatos com o bel paese [belo país, ou seja, a Itália] eram reduzidos a poucos membros da família e ao editor. Não podia imaginar que, além da histeria da mídia, eu ainda pudesse despertar a vingança do Estado. 

Com a enorme dificuldade de ter de voltar a um julgamento que havia sido arquivado por décadas, sem nenhum fato novo para contribuir, exceto pelas ressalvas agora impossíveis sobre minhas próprias responsabilidades. 

Não me restava nada a fazer a não ser tomar o pacote completo, porém, criminalmente, não teria peso. Diante da escolha de enfrentar um julgamento histórico, e eu não fui o único a acreditar nisso, que sentido teria em mergulhar no código penal 40 anos depois?

Fui condenado a duas penas perpétuas e seis meses de prisão solitária por ter sido considerado culpado de praticamente todos os crimes cometidos pelo PAC [ele admitiu a autoria de duas mortes, mas não a das outras que arrependidos atiraram nas suas costas], incluindo quatro atentados mortais. Onde a minha presença física no local do crime não podia ser provada, fui considerado o instigador...

Eu admiti tudo. Reiterei minha autocrítica pela escolha de ter participado da luta armada, porque foi política e humanamente desastrosa. Mas eu não o tinha dito mil vezes ao longo de todos estes anos?

Terá ainda Battisti tempo e chance para ser feliz?
Não tinha nada a arrepender-me porque, errado ou não, não se pode mudar com uma visão a posteriori o significado de eventos historicamente definidos por um contexto social específico. 

Seria absurdo dizer que não poderia ter sido evitado, mas sei que o movimento revolucionário não se esquivou de assumir suas responsabilidades. Não podemos dizer o mesmo por parte do Estado. 

Também não tinha nada a pedir em troca de minha confissão. Não teria sido legalmente exigido e bastava para mim que tivesse sido aplicada a lei, como para qualquer outro condenado sem o terrível ergastolo ostativo, para ter acesso a algum benefício futuro reservado a todos.

Em resumo, é como dizer, tudo bem, vocês ganharam e eu estou aqui para testemunhar os cantos de vitória imerecida. Mas, uma vez terminada a festa, caro Estado democrático, vamos todos nos comprometer a reabilitar a história violada, enquanto eu cumpro minha sentença, de acordo com os termos das leis nacionais e das regras internacionais da humanidade como qualquer outro condenado

Pura ilusão. Depois de ter ostentado para o mundo inteiro o fruto de uma caçada suja, cantado uma vitória obtida por engano sobre o sangue das vítimas e a honra barrada da História, o Estado dos remendos não se contradiz e mostra sua verdadeira face. Ela se entrega aos bócios da forca, cavalga a onda populista, sacrifica até mesmo a palavra das autoridades que a serviram, mesmo quando não a mereciam.

Este é o sentimento que me acompanhou de Oristano a Guantanamo Calabro, à mercê do ISIS e submetido a um tratamento digno de uma ditadura militar. Mas não perdi a esperança e estou certo de que a justiça e a verdade prevalecerão.
Para encerrar com um vislumbre de esperança, o Tribunal de Milão reconheceu em maio/2021
a prescrição da sentença de Luigi Bergamin, cuja situação legal era idêntica à de Battisti
  
[1] uma tradução aproximada é
prisão perpétua hostil, que não concede qualquer tipo de benefício ou recompensa para a pessoa condenada. Infligida a indivíduos altamente perigosos, recebeu o apelido de fim da sentença, nunca!.
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