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terça-feira, 15 de novembro de 2022

O ERRO DO KEYNESIANO DE GARANHUNS É CRER NUM CAPITALISMO BONZINHO – 2

(continuação deste post)
S
e os Estados Unidos pagassem juros de 10,7% ao ano como o nosso país, estaria irremediavelmente falido. 

Motivo: tal custo representaria um ônus anual insuportável de R$ 48 mil para cada pessoa dos EUA (incluindo todos os velhos, inválidos e crianças que não trabalham e nem geram riqueza). A queda na renda média dos estadunidenses seria brutal.

O déficit global do orçamento da seguridade social brasileira foi de R$ 218,3 bilhões, ou seja, pagamos de juros um valor três vezes maior que aquilo que o orçamento da União despendeu com o déficit da previdência social. É por estas e por outras que se cortam gastos com os, e direitos dos velhinhos e inválidos do Brasil.

Os juros da dívida pública do Brasil fazem a alegria dos rentistas e é o nosso povo quem os paga.

Para os Estados Unidos o endividamento colossal não representa problema, porque os investidores estão dispostos a aplicar seus recursos em dólares estadunidenses a juros irrisórios ou até negativos.

Devemos bem menos, mas pagamos maior valor de juros que os EUA; isto dá bem a dimensão do que significa ser periferia do capitalismo.

Afinal, quando se deve sem obrigação de quitar a dívida no vencimento e se pode aumentá-la sem pagar juros, como ocorre com os países do G7, esta prática pode ir longe (mas somente até o dia do juízo final capitalista, que está próximo.

O Brasil recebe tratamento diferenciado: este nos é dado pelo mercado, a megera que baliza a vida social a partir de critérios altamente negativos e que ora estremece diante da perspectiva do descontrole fiscal pelo governo entrante.

Henrique Meireles afirma que Lula dilmou. Isto, partido de um seu tradicional apoiador, significa que a desobediência aos conselhos do executivo-mor do Banco Boston tem preço. 

Quando Armínio Fraga e Elena Laudau, entre muitos outros economistas que apoiam Lula, criticam as propostas de priorização das demandas sociais sem respeito ao teto de gastos e à responsabilidade fiscal, também tem preço.

Como conciliar, portanto, um Guilherme Boulos e o pessoal da Fiesp que apoiou Lula por medo do fascismo (mesmo com o dedo no nariz alguns e outros nem tanto, estando na última categoria os maiorais da Febraban)???

A depressão mundial do capitalismo não é uma marolinha. Quando os países do COP27, que se realiza no Egito, defendem recursos para os países situados próximos e abaixo da linha do equador que estão sofrendo mais com o aquecimento global e a queda na produção de alimentos, é sintoma do que o estrago vem sendo muito sério.

É neste cenário que Lula vai governar o Brasil, um país fraturado (mais do que dividido entre Norte e Nordeste de um lado e Sudeste, Centro-Oeste e Sul do outro) e com péssimos indicadores econômicos com relação ao cenário mundial, mesmo neste período depressivo do dito cujo. Estamos péssimos entre os que estão ruins.
Conforme se depreende, não vai mesmo demorar para aparecerem as contradições próprias de um governo que terá de escolher o que cobrir no corpo social brasileiro com o lençol curto da debilidade financeira estatal decorrente dos pesados custos de sua máquina cara e opressora.

Mas as viúvas da ditadura militar (acometidas de amnésia histórica) e a elite conservadora do Brasil já vociferam seu ódio paranoico e delirante diante dos quarteis das Forças Armadas. 

Acabarão se cansando por ora, mas logo estarão colocando nas costas do novo governo as agruras próprias de um capitalismo decadente e agravadas pelo desgoverno derrotado.

As tais manifestações, em grande parte financiadas por empresários insensíveis e megalomaníacos, juntos com uma classe média desesperada porque vem perdendo renda, têm também atraído trabalhadores que, embora oprimidos, não percebem estarem conspirando contra seus próprios interesses.

Será Lula capaz de mobilizar o povo trabalhador em defesa da vida e em contraponto aos ditames da economia capitalista autofágica e insensível que nos quer arrastar a todos para o cadafalso de sua decadência?

Quem viver verá. (por Dalton Rosado)

terça-feira, 1 de novembro de 2022

COMO É RIDÍCULO UM IDOSO QUE NÃO SABE PERDER E FAZ PIRRAÇA!

eliane cantanhêde
LULA TEM 'POVO NA RUA' E RECONHECIMENTO
 INSTITUCIONAL E INTERNACIONAL; FALTA BOLSONARO
O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva fechou o cerco, com muitas, rápidas e expressivas manifestações internacionais, o reconhecimento da sua vitória pelos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo e, o que não poderia faltar, apoio popular, nas ruas. 

A primeira providência após o anúncio do resultado, portanto, foi reforçar algo indispensável: condições de governabilidade.

Dos apoios institucionais, o primeiro e mais relevante foi de Arthur Lira, legítimo líder do PP e do centrão, que foi eleito para a presidência da Câmara com o decisivo apoio do ainda presidente Jair Bolsonaro e defendeu já no domingo (30) o respeito à vontade da maioria e que é hora de desarmar espíritos, estender a mão aos adversários, construir pontes.

O
centrão vai fechando a última página do governo Bolsonaro e abrindo a primeira do futuro governo Lula, confirmando a máxima, adaptada, de que hay gobierno, soy a favor.

Diplomatas, inclusive da ativa, comemoram a volta à normalidade e a reinclusão do Brasil no mundo, com a avalanche de manifestações de reconhecimento e apoio a Lula. 

Joe Biden, dos EUA, soltou nota menos de uma hora depois da eleição e ligou para Lula menos de 24 horas depois, para propor parcerias em ambiente, combate à pobreza, segurança alimentar e, claro, democracia.

Também se manifestaram líderes de França, Alemanha, Espanha, Itália, Portugal, de Cuba, à esquerda; e da Turquia, à direita. E na 2ª feira (31) Lula já se reunia com o presidente da Argentina, Alberto Fernández, bom exemplo do apoio no continente.

Um a um, líderes políticos, religiosos, empresariais e a própria Febraban vão reconhecendo a vitória de Lula e cumprimentando o presidente eleito, mas faltava o principal, pelo menos até a noite desta 2ª feira: Jair Bolsonaro. 

Essa lacuna não é apenas constrangedora e se torna mais um ato mal-educado e fora das regras produzido pelo presidente, que, além de tudo, é um mau perdedor. (por Eliane Cantanhêde)
"Dá chupeta, dá chupeta, dá chupeta pro bebê não chorar"

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

REJEITADO ATÉ PELOS PODEROSOS DA ECONOMIA, O BOZO ESTÁ NOS ESTERTORES

celso ming
OS EMPRESÁRIOS E O MANIFESTO PELA DEMOCRACIA
Desde que o Amarildo criou esta charge, 10 dias
atrás, o número de assinaturas triplicou
 
N
esta 5ª feira, 11 de agosto, quando se comemora a criação dos cursos de Direito no Brasil, será o dia da apresentação oficial da Carta pela Democracia, organizada pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, que já tem mais de 900 mil assinaturas.

O documento foi endossado pela Federação Brasileira de Bancos e pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, além de outras centenas de instituições e notáveis da sociedade civil.

Não é novidade que banqueiros e industriais façam profissão de fé democrática. Em outras oportunidades, importantes lideranças do empresariado se manifestaram a favor das instituições. Mas nunca como agora tantas lideranças de peso aderiram ao movimento.

Nos anos 1960 e 1970, os empresários em massa apoiaram a ditadura militar, portanto assumiram posição contra a democracia, e despejaram muito dinheiro nessa empreitada.

Entre os banqueiros estavam lá José de Magalhães Pinto (Banco Nacional), Ângelo Calmon de Sá (Grupo Econômico), Gastão Vidigal (Banco Mercantil) e Adolpho da Silva Gordo (Banco Português). 

Não satisfeitos em dar apoio à ditadura, importantes líderes industriais passaram a financiar a Operação Bandeirante, criada em 1969, que tratou de instalar a repressão e a tortura. Entre eles estavam Henning Boilesen e Pery Igel (ambos do Grupo Ultra), Sebastião Camargo (Grupo Camargo Corrêa) e Nadir Figueiredo (setor de embalagens de vidro), este último o grande fazedor de presidentes da Fiesp de então.

Naqueles anos lúgubres, banqueiros e industriais entendiam que a segurança dos seus negócios vinha sendo ameaçada pela subversão socialista, e apostaram na força do regime militar.

De lá para cá, o Muro de Berlim veio abaixo e, com ele, o que entendiam como ameaças do socialismo soviético. E foi se consolidando entre os empresários a percepção de que o futuro dos seus negócios depende da observância das regras democráticas, o que implica respeito à Constituição e às instituições por ela sacramentadas, como o Congresso, o Poder Judiciário e as eleições livres. 

Fora disso, escancaram-se portas e janelas para o arbítrio. E os investimentos ficam à mercê de subjetividades e do jogo de quem está no comando.

O presidente Jair Bolsonaro, que segue no empenho de uma retórica golpista contra o Supremo e contra o sistema eleitoral, tenta desclassificar a iniciativa dos empresários. Já os chamou de mamíferos e de assinantes de cartinha, além de tentar identificá-los automaticamente com a candidatura Lula – o que não tem cabimento.

A posição dos empresários não é unânime. Certos segmentos de dentro e de fora da Febraban e da Fiesp refugaram o movimento. 

Mas algo de importante acontece entre as lideranças da burguesia nacional – expressão pela qual, nos velhos tempos, as esquerdas referiam-se aos banqueiros e aos empresários do País. (por Celso Ming, que há mais de meio século atua no jornalismo econômico, em veículos como O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, rádio Eldorado e rede TV, mantendo sempre este estilo comedido com o qual está confirmando que a burguesia acaba de abandonar o Titanic do Bozo)  

sábado, 6 de agosto de 2022

GOLPE OU MERA CONFUSÃO MEQUETREFE DE PRESIDENTE DESTRAMBELHADO?

josias de souza
DESEMBARQUE DO CAPITAL QUEBROU UM PÉ DO GOLPE
O
manifesto pró-democracia coordenado pela Fiesp, com a adesão de outras 106 organizações, soou tardiamente indispensável. 

É tardio porque, a essa altura, a Presidência de Bolsonaro já expôs o Brasil ao mundo como uma subdemocracia em apuros. 

É imprescindível porque, a despeito de ter chegado a apenas 58 dias da eleição presidencial, o anúncio de jornal que formalizou o desembarque do capital quebrou um pé do golpe que frequenta os delírios do capitão. 

O outro pé, representado pelas minhas minhas Forças Armadas, continua enfiado na jaca. Entretanto, com uma taxa de rejeição rodando nas pesquisas acima dos 50% e sem a muleta do baronato, o Apocalipse de Bolsonaro vai ganhando uma aparência de confusão mequetrefe de um presidente destrambelhado.

Josué Gomes da Silva, o presidente da Fiesp, disse quase tudo ao declarar que "não existe liberalismo sem democracia e Estado de Direito". Faltou esclarecer que a entidade presidida pelo doutor e outras guildas subscritoras do manifesto temporão passaram os últimos três anos e oito meses tropeçando no óbvio distraídas. Confraternizaram com o descalabro sem admitir que o óbvio é o óbvio. 
Pena! O gordo não viveu para ver o regime
da
 democradura histriônica vir abaixo...

Em todo o ciclo da conturbada redemocratização brasileira, nenhuma obviedade revelou-se tão gritante quanto a incompatibilidade de Bolsonaro com os valores democráticos e os princípios do
Estado de Direito. No ano passado, o sem-indústria Paulo Skaff, então presidente da Fiesp, transformou em vexame um hipotético manifesto em defesa da democracia. 

A reação puxada agora pelo sucessor de Skaf, o industrial Josué Gomes, não livra a Fiesp e suas congêneres da pecha de apêndices do Poder. Mas injeta alguma lógica no histórico de subserviência e oportunismo do empresariado brasileiro. 

O establishment chuta Bolsonaro porque passou a enxergar nele um cachorro semimorto, cujo rosnado atrapalha os negócios. O Planalto pode esperar tudo das avenidas Paulista e Faria Lima, exceto que rasguem dinheiro. 

Afora o aval de outros segmentos do capital –das casas bancárias ao agronegócio– o documento da Fiesp, intitulado Em defesa da democracia e da Justiça, foi envernizado com a adesão de entidades que representam outros elos da corrente social do trabalho à academia. Junta-se a outro manifesto pró-democracia, subscrito por mais de 750 mil pessoas. 

Os dois documentos serão lidos na próxima 5ª feira, 11, na Faculdade de Direito da USP. 

Bolsonaro menosprezou a encrenca: "O pessoal que assina esse manifesto é cara de pau, sem caráter". Tramou discursar na Fiesp no mesmo dia. Mas as raposas do centrão com assento no comitê da reeleição farejaram o cheiro de queimado. 
"Desordem pode ser um convite às instituições
para tornar realidade os temores de Bolsonaro
de passar uma temporada na cadeia"
Tentaram esvaziar o movimento. Malsucedidos, convenceram o capitão a cancelar a incursão na Fiesp. Passaram a articular uma visita de Bolsonaro à Febraban, cavando um almoço 2ª feira (8). 

Agora, só falta o mais difícil: convencer Bolsonaro a empinar a bandeira da paz. 

É como se o capitão fosse intimado pela conjuntura a informar, antes da arruaça que programou para o feriado de 7 de setembro, se deseja mesmo ser visto como candidato à reeleição ou como unha encravada nos pés de barro da democracia brasileira. O histórico de Bolsonaro revoga o otimismo. 

Compra um terreno na Lua quem imaginar que Bolsonaro fará concessões ao bom senso e à pacificação. Mas a reação tardia expressada nos manifestos permite aos céticos enxergar uma luz onde só havia pus. 

No limite, a perspectiva de desordem pode ser um convite às instituições para tornar realidade os temores de Bolsonaro de passar uma temporada na cadeia. (por Josias de Souza)

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

AGORA VAI: ATÉ OS DONOS DO PIB ESTÃO VAZANDO DO TREM FANTASMA DO BOZO

vinicius torres freire
PACOTE ELEITORAL DE BOLSONARO  CORRE MAIS RISCO DE IR PARA O RALO
J
air Bolsonaro enfim conseguiu arrumar um turumbamba com boa parte da elite econômica. Seu pacote eleitoral e popular corre mais risco de ir para o ralo, ainda que, com pacote e com tudo, o povo vá passar mal por muito tempo. 

Por exemplo, nos últimos três anos, a inflação da comida aumentou quase 31%; o salário médio, 14,3% (o dos mais pobres, menos ainda). A poucos dias da pororoca golpista armada para o 7 de Setembro, vários caldos azedam.

A Fiesp soltou nota contra a reforma do Imposto de Renda, essa mixórdia tosca aprovada pela Câmara, aliás com apoio da esquerda. A Fiesp de Paulo Skaf quer apenas umas reduções de impostos, mas esse lobby pode dificultar ainda mais a aprovação dessa barafunda tributária no Senado.

Sabe-se lá o que vai sair do Senado, se é que vai, mas essa reforma do IR inclui um item do pacote eleitoral de Bolsonaro, a redução do dito cujo para parte menor da classe média. 

De resto, pode ser que mexidas adicionais diminuam a receita de impostos, ajudando a piorar as perspectivas para a dívida pública, o que leva os donos do dinheiro, credores do governo, a cobrar mais caro pelos empréstimos, elevando os juros na praça em geral.

A Febraban soltou nota a favor do
manifesto das associações empresariais, aquele avacalhado pela Fiesp e atacado pelo governo, em particular pelos seus sequazes na economia, Paulo Guedes e Pedro Guimarães, presidente da Caixa, e pelo premiê colaboracionista, Arthur Lira, presidente da Câmara. 

De passagem, a nota da Febraban dá umas caneladas na Fiesp e diz que respeita, mas na prática ignora, as ameaças de Caixa e Banco do Brasil deixarem a associação. Deram uma banana para o governo. Os bancos, note-se de passagem, não gostaram nada da reforma do IR.

Mesmo divididas pelos ataques do governo, pelo governismo das decrépitas federações estaduais da indústria e pela colaboração da Fiesp quinta-coluna, as associações empresariais ajudam a azedar o caldo bolsonariano.

A mudança no IR causa revolta desde que apareceu. O manifesto das associações empresariais acabou indo para a rua, ainda que de modo desordenado. Além disso, empresários mineiros graúdos, vários deles bolsonaristas até ontem (ou talvez até hoje), assinaram um manifesto meio parnasiano e adoidado, mas que pinga mais um limão no caldo do governo e confronta a Federação das Indústrias de Minas, que atacava o Supremo, colaborando com Bolsonaro.

O agronegócio racional soltou um manifesto por conta própria quando viu a desordem nas hostes empresariais, que não sabiam o que fazer com seu
manifesto quando Skaf lhes dava uma rasteira e o governo fazia ameaças. Bateram bem no governismo. Até o agro ogro corre o risco de rachar.

A aprovação da mudança no IR ajudou a derrubar a Bolsa. São os donos do dinheiro votando com os pés, vendendo ativos, ações, no caso. A reforma afeta rendimentos do capital e os bancos.

Na 4ª feira (1º), o Senado derrubou a reforma trabalhista picareta e outros desejos de Guedes.

Em resumo, o salseiro aumenta. Se criar ainda mais caso com o Supremo, Bolsonaro pode perder a mãozinha estendida por Luiz Fux, presidente do STF, que tentava ajudar o governo a dar um calote provisório nos precatórios (coisinha de R$ 50 bilhões). Essa moratória arrumaria dinheiro para Bolsonaro engordar o Bolsa Família e pagar o aluguel dos parlamentares do centrão.

Convém não esquecer: ainda morrem 20 mil pessoas por mês, de Covid. Enquanto isso, Bolsonaro nem mais finge que governa, ocupado em organizar um putsch. (por Vinicius Torres Freire)

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

AS ELEIÇÕES BRASILEIRAS JÁ ERAM ANTIDEMOCRÁTICAS, AGORA ATINGEM O ESTÁGIO DE FRAUDE ESCANCARADA

dalton rosado
O PODER ECONÔMICO VIA INTERNET
A ANULAÇÃO DAS ELEIÇÕES
Como sabemos, historicamente o processo eleitoral é uma corrida dominada pelo poder econômico, vendida à opinião pública como se fosse aferidora da livre vontade popular. Assim, legitimado pelo voto igualitário, o capital se sente economicamente autorizado a explorar o povo mediante a extração de mais-valia e politicamente apto a cobrar desse mesmo povo os impostos, obrigando-o a financiar a institucionalidade que o oprime. 

Não há nada de democrático nisso. Contudo, sempre nos tentam demonstrar que a alternativa seria uma ditadura, como se não houvesse mais opções além destas duas.  

O contrário da democracia burguesa poderia ser uma organização social horizontalizada; descentralizada; sem a ideia de poder vertical; aliada a um modo de produção social voltado para a satisfação das necessidades humanas, e não para a ilogia do lucro (agora em face de saturação, por força de sua suas contradições internas acarretarem, cada vez mais, a impossibilidade de efetivação).

O aparelho institucional burguês impõe a qualquer governante, de qualquer matiz ideológico, a obediência às suas regras fetichistas e reificadas pela funcionalidade social do capital, pois, afinal, é da vida mercantil que tira o sustento de toda a estrutura de poder do Estado.
Manipulação via internet foi determinante no triunfo de Trump

Não é difícil se compreender que o Estado serve, portanto, ao poder econômico; e os governantes, ainda que seu norte seja anticapitalista, não têm a capacidade de mudar essa essência ontológica estatal. 

A esquerda no governo, ou se adapta ao objeto teleológico do poder para fazer concessões aos parcos direitos civis e assistencialismos sociais, ou é defenestrada dele como um vírus que não se adapta ao organismo. Tal defenestração, nesse caso, se dá pelos mais variados tipos de mecanismos de controles jurídico-constitucionais. 

O capitalismo, ainda que viva a contradição entre forma e conteúdo que prenuncia o seu fim inexorável, adapta-se aos novos tempos tecnológicos como forma de sobrevivência.

A manipulação das consciências via internet e nosso posicionamento diante dela – o velho controle cerebral popular que era feito inicialmente pelos jornais e pelo rádio, depois pela televisão, ganhou agora um novo aliado, a internet. Esse instrumento aparentemente democrático, porque acessado facilmente pelos cidadãos de todos os estratos sociais, é vulnerável ao poder econômico cumputacional invisível.

Pela primeira vez na história deste país a eleição é marcada pela invasão dessa nova mídia de comunicação que é capaz de formar exércitos de multiplicadores a espalhar conteúdos falsos e/ou mensagens ideológicas bem estudadas por marqueteiros
No 1º turno, TSE ignorou o pior estelionato eleitoral da nossa História 
Estes são verdadeiros profissionais de manipulação das consciências,  tirando proveito das emoções próprias a uma população exaurida economicamente e, portanto, ávida de mudanças do status quo.

Neste sentido é o poder econômico aplicado à comunicação eletrônica eleitoral formando opinião, aliado ao fundamentalismo religioso (inculcado na mente de grande parte da população por seitas conservadoras, defensoras de um puritanismo arcaico), mais a defesa de um militarismo disciplinador, aquilo que está dando o tom destas eleições, tornando o que era implicitamente antidemocrático em algo explicitamente antidemocrático.

Se a governabilidade é hoje precária em razão da falência estatal provocada pela debacle da economia real e do sistema financeiro, somente a partir de uma manipulação eleitoral das consciências, que empresta uma aura de legitimidade ao governantes, é que se pode impor ao povo o austericídio no qual se constitui a imposição do ajuste fiscal a qualquer custo social.

Neste sentido, a eleição do dia 28 de outubro para a Presidência da República deve ser anulada, e aceitar concorrer nela sob tais bases implica legitimar algo que é espúrio pela própria natureza comportamental.  
Haddad deve renunciar à "disputa eleitoral viciada"

Assim, o candidato Fernando Haddad deveria renunciar a sua candidatura como forma de denúncia contra tais ocorrências, e tornar ilegítima a vitória do arbítrio que se prenuncia como provável (e ainda que possa haver uma virada eleitoral, pois a governabilidade está ameaçada e não nos cabe administrar a decadência capitalista irreversível, senão denunciá-la).  

Os robôs eletrônicos comandados por pessoas que disseminam mensagens falsas ou meia-verdades estão mais ligados do que nunca e são manipulados a partir de estudos de marketing aplicados à psicologia humana.

Tais procedimentos, financiados pelo capital, constituem-se como financiamentos de caixa 2 impossíveis de serem detectados pela Justiça Eleitoral acaso queira coibir o abuso do poder econômico mais flagrante no processo eleitoral.

O tradicional mecanismo do Ministério Público eleitoral para o combate ao abuso do poder econômico nas eleições, expresso na expressão siga o dinheiro, aqui dificilmente funciona, porque o capital se torna invisível, vez que representado por milhares de pessoas que manipulam mensagens eletrônicas aparentemente pessoais e livres para expressar o seu posicionamento.

A internet, um dos instrumentos de comunicação mais abrangentes e livres de censura, ao invés de representar uma redenção às amarras da mídia controlada pelo estado, torna-se alvo fácil do poder econômico. 
Caixa 2: "o capital se torna invisível"
Tal manipulação pode ocorrer por interesse do capital em candidatos que aceitem vergar-se à imposição daquilo que deve ser feito para a manutenção do status quo capitalista a qualquer custo, e diante de sua decadência; e ser implementado inclusive à revelia do candidato, para resguardá-lo da acusação de haver praticado crime eleitoral.

O poder computacional é assimétrico, e quando da interferência do poder econômico em sua utilização torna substancialmente desigual a disputa eleitoral como agora está correndo (a União Demoníaca Ruralista, a Febraban, a Fiesp e organismos similares que o digam!). 

Na eleição atual verifica-se uma completa interferência do poder computacional em favor do candidato Boçalnaro, o ignaro, e concorrer sob essas bases é aceitar como válidas regras leoninas, anti-isonômicas, cujos resultados nefastos são previsíveis. Devemos rejeitá-las desde já, e a forma mais à mão dessa contestação é a renúncia à disputa eleitoral viciada.    

Anulação das eleições é a palavra de ordem de hoje e de amanhã; renúncia à disputa eleitoral é subsídio fático contributivo para sua anulação. (por Dalton Rosado)

domingo, 15 de outubro de 2017

RECORDAR É VIVER: HÁ 10 ANOS O DÓRIA TENTOU BISAR A "MARCHA DA FAMÍLIA" DE 1964... E A PRAÇA DA SÉ FICOU ÀS MOSCAS!

Dória com o prefeito de Milão: incontinência verbal.
Ao ler no noticiário da Agência Ansa que o prefeito de São Paulo, João Dória Jr., foi deitar falação sobre Cesare Battisti em Milão, tomando o partido da Itália no tocante à extradição do escritor, meu primeiro pensamento foi o de que nossos mandatários atuais não têm a mais remota noção de que tais questões devem ser discutidas em casa. É feio ajudar estrangeiros a pressionarem o governo brasileiro, qualquer que seja o presidente da República.

E mais feio ainda fazer insinuações sobre um presidente anterior, por coincidência seu adversário político, sugerindo que Lula teria cometido algum deslize ao rechaçar o pedido italiano: "Agora temos um governo democrático no Brasil", afirmou Dória. Espero que, na primeira coletiva que der por aqui, algum repórter consciencioso lhe peça para discorrer sobre a existência ou não de um governo democrático em 2010.

Meu segundo pensamento foi o de que nada de melhor se poderia mesmo esperar de um sub-Trump desses, cuja primeira iniciativa politica mais ambiciosa, há pouco mais de 10 anos, foi articular uma pretensiosa reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade (episódio de acumulação de forças para o golpe de 1964), viajando gloriosamente na maionese...

Para reavivar as lembranças, eis alguns trechos do artigo que escrevi na ocasião:

"Tenham sido 2 mil ou 5 mil os cidadãos presentes ao ato público do Cansei na Praça da Sé, o certo é que, para uma metrópole como São Paulo, isto equivale a uma gota d’água no oceano.

Na verdade, as próprias lideranças do movimento não esperavam grande coisa depois que a OAB Nacional pulou fora, deixando a decisão de apoiá-lo ou ignorá-lo às seccionais. 

E o que se viu não deu nem para salvar as aparências. Outros enterros já tiveram participação mais expressiva.

O fracasso se deveu a muitas causas.

João Doria Jr. tentou transpor para a política as fórmulas publicitárias que costumam dar certo nas campanhas eleitorais. Então, face à comoção provocada pela tragédia de Congonhas [queda de um voo da TAM que não conseguiu aterrissar no aeroporto paulistano, matando 199 pessoas] , supôs mecanicamente que se tratasse da gota d’água para a classe média passar dos resmungos virtuais ao protesto aberto. A virulência dos posts na Internet deixava exatamente esta impressão.

E foi com visão de publicitário que ele estruturou seu projeto desde o título, mais próximo dos slogans propagandísticos do que das palavras-de-ordem políticas (e que acabou se revelando extremamente inadequado, pois propiciava piadas aos adversários, que cansaram de zombar do cansaço das elites) até o foco demasiadamente difuso: querendo atingir o máximo de consumidores...

Para piorar, a ideia foi prontamente apoiada pela extrema-direita golpista que faz proselitismo na Internet e pelas correntes que até hoje não se conformam com o fato de Lula haver escapado do impeachment. Com Brilhante Ustra, Olavo de Carvalho, o Partido Vergonha na Cara e o Fora Lula! apoiando o Cansei, ficou fácil para os governistas apontarem-no como uma nova Marcha da Família, com Deus, Pela Liberdade.

Afinal, além de ter todas essas ligações perigosas, o Cansei se voltava contra muitas iniquidades e não propunha solução para nenhuma delas.  Fazia sentido supor-se que sua verdadeira meta fosse, como em 1964, um golpe de Estado contra a subversão e a corrupção.

De quebra, o apoio da Fiesp, da Febraban e da Associação Comercial de São Paulo reforçou a suspeita de que se tratasse de uma conspiração dos endinheirados contra o presidente metalúrgico. E a OAB, respeitada por sua atuação exemplar durante os anos de chumbo, não acompanhou o presidente da seccional paulista [Luiz Flávio D'Urso] em sua aventura de amigo urso da democracia..."

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

BOULOS E O NOVO PACOTE: "APLAUSOS DA FEBRABAN, REPÚDIO DAS RUAS".

Por Guilherme Boulos, do MTST.
QUEM PAGA A CONTA?

O anúncio dos cortes de R$ 26 bilhões no orçamento pela equipe de Dilma revela mais uma vez a saída que o governo oferece para a crise. Refém das chantagens de agências de risco e de ultimatos editoriais como o desta Folha no último domingo, a conta veio novamente para o andar de baixo. Cortes na moradia, na saúde e congelamento salarial para os servidores.

Para aumentar a arrecadação, a principal medida proposta foi a recriação da CPMF, sem qualquer alíquota progressiva. Taxação de fortunas, lucros de bancos, dividendos? Nem uma palavra. Ao contrário, o governo apontou para a redução do IOF, que incide sobre o capital financeiro. A Febraban aplaudiu e pediu bis.

Tal como a covardia do governo, impressiona a hipocrisia tributária dos ricos no Brasil. Reclamam sem parar da carga de impostos, obtiveram isenções bilionárias nos últimos anos e ganharam horrores no período de bonança. Agora não aceitam pagar a conta. Brasileiro já paga muito imposto, dizem. Permitam a pergunta: quais brasileiros?

Se estão falando dos mais pobres e dos setores médios têm razão. Segundo o IPEA, os trabalhadores com renda mensal até dois salários mínimos deixam 54% dos seus gastos em impostos. Já aqueles com renda superior a trinta salários mínimos deixam para a Receita 29% dos seus gastos, quase a metade dos mais pobres.

Esta distorção ocorre porque a maior parte da carga tributária brasileira (51,3%) incide sobre o consumo de bens e serviços. Neste quesito, os diferentes são tratadas convenientemente como iguais. Outros 25% da carga são sobre os salários. Apenas 18% sobre a renda e –pasmem– menos de 4% sobre a propriedade.

As faixas do IR são uma aberração. A última faixa pega os que ganham acima de R$ 4.400 mensais e tem alíquota de 27,5%. Isso quer dizer que um trabalhador que ganhe R$ 5.000 por mês paga proporcionalmente o mesmo imposto do alto executivo que ganha R$ 100 mil. E a alíquota é baixíssima para os padrões internacionais. Na Argentina, a alíquota máxima é de 35%, no Chile 40% e em Portugal 46%.

No caso do imposto sobre a propriedade imobiliária a situação é ainda mais gritante. O ITR (Imposto Territorial Rural) é calculado a partir da autodeclaração dos proprietários sobre o valor de sua terra. A arrecadação anual do ITR em todo o Brasil –país conhecido pelos imensos latifúndios improdutivos– é menor que dois meses de arrecadação de IPTU da cidade de São Paulo. Em 2012, a União angariou ridículos R$ 677 milhões com ITR, enquanto a arrecadação do IPTU paulistano foi de R$ 5 bilhões. A Katia Abreu paga menos impostos por suas fazendas do que você pelo seu apartamento.

Portanto é verdade que brasileiro paga muito imposto, desde que estejamos falando da maioria trabalhadora do país. Quanto aos ricos, banqueiros e grandes empresários, sua tributação é uma mamata. Choram de barriga cheia.

São eles que devem pagar a conta da crise. E as propostas para isso são bastante concretas. E, diga-se, bem mais eficazes para solucionar a crise fiscal do que cortar R$26 bilhões em áreas sociais.

O auditor fiscal Fabio Avila de Castro apresentou em um trabalho acadêmico no ano passado apontando algumas alternativas.

Primeiro, a taxação sobre a repartição de lucros e dividendos. O Brasil é um dos poucos países que não faz esta tributação. Segundo os cálculos do auditor, uma alíquota de 15% sobre a repartição de lucros geraria arrecadação anual de R$ 36,5 bilhões. E uma alíquota de 20% sobre os dividendos poderia gerar R$ 48,9 bilhões.

Outra medida seria igualar o modo de tributação dos lucros ao já aplicado sobre os salários, com suas faixas de isenção e progressividade. Isso renderia, segundo ele, R$ 59 bilhões de receita anual.

O economista Odilon Guedes e o Sindicato dos Economistas de São Paulo também construíram uma proposta tributária no mesmo sentido.

Acrescentam temas como a federalização e aumento do imposto sobre heranças (que hoje tem teto de 8%), a regulamentação da taxação de grandes fortunas a partir de R$ 5 milhões (previsto no Artigo 153 da Constituição) e até mesmo a isenção de IR para trabalhadores de menor renda, mediante o aumento de sua alíquota para os mais ricos e a criação de novas faixas.

Ou seja, soluções para que o andar de cima pague a conta da crise não faltam. Inclusive reduzindo impostos sobre os mais pobres e setores médios, através de uma orientação por taxar muito mais a renda do que o consumo.

Soluções populares não faltam. Falta, isso sim, coragem para enfrentar os grandes interesses econômicos. Aplausos da Febraban, repúdio das ruas. 
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