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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

A LAVA JATO FOI CONDENADA. MOTIVO: É CULPADA DESSE CRIME CHAMADO JUSTIÇA.

Esse crime chamado Justiça é um filme cujo título brasileiro caiu muito melhor do que o original (In nome del popolo italiano). E tem tudo a ver com o desfecho do julgamento da validade ou não da prisão após condenação em 2ª instância, uma devastadora derrota que o Supremo Tribunal Federal impôs à força-tarefa da Lava Jato nesta 5ª feira (7).

Fruto da competência de um grande diretor (Dino Risi) e de dois atores geniais, o filme mostra um juiz de instrução decente (Ugo Tognazzi) investigando o possível assassinato da amante de um grande empresário que reúne todos os defeitos da sua fauna (Vittorio Gassman). 

Horrorizado com os detalhes que vão aflorando sobre a existência daquele péssimo cidadão e nefando ser humano, o magistrado reúne provas suficientes para que ele seja preso e condenado por homicídio. 

Quando tudo parece encaminhado para que o cínico predador receba o seu merecido castigo, o juiz encontra o diário da moça, que comprova ter sido um caso de suicídio. E decide punir o empresário mesmo assim, não pelo assassinato do qual é inocente, mas pelos comportamentos anti-sociais de que é culpado. Então, joga o diário no fogo.

Foi o que fizeram os tenentes togados da Lava Jato. Só que a vida não apenas repetiu a arte mas foi além dela, ensinando-nos que atalhos para corrigirmos as injustiças podem conduzir-nos a outras injustiças, numa ciranda infernal que acaba por fazer-nos duvidar da própria possibilidade de realização da justiça em nossa sociedade imperfeita.

Com isto não contavam os justiceiros da vida real.

Seja por indignação sincera; seja por convicções direitistas; seja pelo impulso nas suas carreiras; seja pela grana, pela fama, pelas palestras, pelos livros e outros bônus que o êxito lhes proporcionaria; seja por um pouco disso tudo, resolveram obter condenações passando por cima das leis, ludibriando o STF, manipulando a imprensa, atuando tendenciosamente o tempo todo, sendo responsáveis, enfim, por um sem-número de ações e omissões incompatíveis com os cargos por eles ocupados.

Uma gazua com que arrombaram as garantias legais dos réus foi a antecipação da prisão para quando verdadeiramente não existia condenação definitiva (trânsito em julgado), o que simplesmente estuprava uma cláusula constitucional. 

Mas, no clima de caça às bruxas que os interessados em destruir o PT conseguiram insuflar, contorcionismos jurídicos foram consentidos (até pelo Supremo!) para fraudarem o espírito e a letra da chamada Magna Carta

Felizmente, a corajosa atuação do Intercept Brasil derrubou esse castelo de cartas... de ilegalidades e abusos criminosos de poder. 

Escancarou para o Brasil e para o mundo que as sentenças draconianas haviam sido obtidas atropelando-se o direito de defesa, com os réus sendo sido vítimas de uma Inquisição nos moldes medievais e não condenados segundo o que se convencionou chamar de Estado democrático de Direito.
Apesar de nossa pomposa e lerda Justiça até agora não ter admitido formalmente os vazamentos como provas, só para os muito ingênuos ou muito fanáticos ainda não caiu a ficha de que tudo aquilo é verdade, tendo mesmo existido um conluio absolutamente inaceitável entre os que deveriam apurar imparcialmente as ocorrências e os que deveriam julgar imparcialmente as evidências apresentadas.

O julgamento do Supremo foi a resposta dos togados à convicção que já predomina entre os seres racionais da nossa sociedade, algo tipo Deus escreve certo por linhas tortas

Só que as linhas dos deuses em questão (eles não chegam até a referir-se a si próprios como supremos?!), além de tortas, foram extremamente tímidas.  

Cabia uma rejeição exemplar. Qualquer placar diferente de 11x0  não seria resposta à altura do que realmente aconteceu neste país. Míseros 6x5 foram quase uma imoralidade.

Independentemente da retórica empolada dos doutos, o que se presenciou, em termos morais, foi a condenação de um crime: esse crime chamado Justiça no qual uma força-tarefa fora de controle incidiu, com seus integrantes acabando por se igualarem no cometimento de delinquências àqueles que alegavam combater.

E o pior é que Deltan Dallagnol, personagem-símbolo do jacobinismo que contaminou tais procuradores de Justiça, sempre me pareceu longe, muito longe, do juiz interpretado por Ugo Tognazzi, que age errado por força de suas convicções morais, sem nenhuma intenção de beneficiar-se pessoalmente da arbitrariedade cometida... (por Celso Lungaretti)
O filme é raríssimo, mas consegui trazer para cá pelo menos o momento
culminante, quando os italianos saem às ruas para festejar uma
conquista futebolística e o juiz toma sua decisão.

domingo, 10 de dezembro de 2017

A ARTE ANTECIPANDO A VIDA: VEJA UMA COMÉDIA SOBRE AQUELES QUE VIVEM NO PASSADO, COMO O GENERAL MOURÃO.

Custou mas foi disponibilizado no Youtube O incrível exército Brancaleone (era assim que se chamava quando foi lançado em 1966 no Brasil, e não de Brancaleone...). 

Trata-se de uma comédia clássica do cinema italiano, do grande diretor Mario Monicelli, responsável por obras-primas como Os eternos desconhecidos, A Grande Guerra, Os companheiros, Meus caros amigos e Quinteto irreverente. Imperdível!

Com atuação inesquecível de Vittorio Gassman e uma ótima trilha musical de Carlos Rutischelli, tem como inspiração óbvia a saga de D. Quixote de la Mancha: as peripécias de um indivíduo que tem a mente fincada numa realidade que ficou para trás e, tentando agir em conformidade com valores que o tempo levou... quebra a cara o tempo todo!

Igualzinho ao general Antonio Hamilton Mourão, que se mancomuna com as viúvas e remanescentes da última ditadura na azucrinação aos comandantes militares legalistas de hoje, obrigados a repreendê-lo e puni-lo seguidas vezes, enquanto conferem ansiosos o calendário, sonhando com o dia em que finalmente trocará a farda pelo pijama, deixando de ser responsabilidade deles.


domingo, 7 de maio de 2017

O DUELO MARCADO ENTRE MORO E LULA TEM TUDO A VER COM OS FAROESTES, MAS ME FEZ LEMBRAR OUTRO TIPO DE FILME...

O depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao juiz Sérgio Moro, marcado para a próxima 4ª feira (10) em Curitiba, desperta nos aficionados de ambos expectativa semelhante à da molecada de outrora quando, nas matinês de domingo, estava prestes a começar o duelo ao amanhecer na rua principal, momento culminante de muitos bangue-bangues de então.

A coisa chegou a tal ponto que Moro divulgou uma mensagem em vídeo pedindo à sua torcida organizada para se desmobilizar. Eis um trecho:
"Eu tenho ouvido que muita gente que apoia a Operação Lava Jato pretende vir a Curitiba manifestar esse apoio... 
Eu diria o seguinte, esse apoio sempre foi importante, mas nessa data ele não é necessário. Tudo que se quer evitar, nessa data, é alguma espécie de confusão e conflito. 
Acima de tudo, não quero que ninguém se machuque em eventual discussão ou conflito nessa data. Por isso, a minha sugestão é a de que não venham. Não precisa. Deixem a Justiça fazer o seu trabalho".
A mim, contudo, o espetáculo da próxima 4ª feira fez lembrar um filme bem diferente dos westerns: um clássico do cinema político italiano!

Se o leitor estranhar, dou-lhe toda razão. É que, como o Raul Seixas, devo ser mesmo um chato. Pelo menos no sentido desta estrofe de Ouro de Tolo, o primeiro grande sucesso do Raulzito: "Mas que sujeito chato sou eu/ Que não acha nada engraçado/ Macaco, praia, carro/ Jornal, tobogã/ Eu acho tudo isso um saco". 

Tenho certeza de que, vivo, ele estaria achando também a torcida contra e a favor da Lava-Jato um saco...
Estes atores até que são esforçados...
E a que filme italiano, afinal, me refiro? A Esse Crime Chamado Justiça (1971), o título brasileiro de In Nome Del Popolo Italiano, do grande Dino Risi (*).

Diretor de obras-primas como Perfume de Mulher (a distância entre o original italiano e o remake estadunidense é a mesma que existe entre o genial Vittorio Gassman e o correto Al Pacino), Risi foi mestre das comédias impregnadas de críticas sociais e uma visão compassiva da realidade.

Aliás, o Perfume de Mulher de 1974 contém um dos maiores momentos de um ator que vi em toda a vida: é simplesmente de arrepiar a metamorfose do militar cego quando, abalado por haver vacilado e descumprido o pacto de suicídio com outro veterano, não consegue mais manter a postura agressiva que utilizava como defesa desde que uma bomba lhe explodira na cara, tirando sua visão (por não suportar que sentissem pena dele, a todos afastava com cafajestadas e grosserias).

Não dá sequer para imaginarmos um ator que expressasse, com a mesma dignidade de Gassman, a desorientação e fragilidade do personagem quando finalmente cai sua máscara.
...mas não chegam nem perto destes!

Assim como não nos vem à cabeça ninguém melhor do que Marlon Brando para transmitir a profunda repulsa pela desumanidade que inspira a frase "o horror, o horror!", em Apocalypse Now; ou outro que não Gregory Peck fazendo as alegações finais da defesa do negro injustiçado em O Sol É Para Todos.

Foi também Gassman quem interpretou o repulsivo empresário de Esse Crime Chamado Justiça. É investigado por um procurador honesto (Ugo Tognazzi), por suspeita de haver assassinado a amante.

No curso do inquérito, vêm à tona sucessivos casos de pessoas destruídas pela ganância e insensibilidade predatórias do empresário.

Finalmente, quando tudo aponta para sua culpa, cai nas mãos do procurador uma carta que comprova não ter havido crime, mas sim suicídio.
Não haveria lugar melhor que um tribunal para tal espetáculo?
Então, depois de haver seguido fielmente as regras durante toda a sua carreira, o funcionário decide fazer aquela que crê ser a verdadeira justiça: suprime a prova, para que, por linhas tortas, seja punido um cidadão muito nocivo a seus semelhantes.

Tenho a impressão de que Moro se vê exatamente como o procurador honesto. E que ele tenha do Lula uma imagem tão negativa (embora por outros motivos) quanto a que o personagem do Ugo Tognazzi tinha do personagem do Vittorio Gassman.

Sou totalmente contrário ao maniqueísmo, como deve ser qualquer revolucionário que conheça o bê-a-bá do marxismo e do anarquismo. Então, desprezo as emoções primárias do big gundown e a banalidade das teorias da conspiração que pululam de lado a lado. 

Vejo no episódio da próxima 4ª feira apenas o encontro de dois personagens que geralmente agiram de acordo com seus valores, mas que, em determinadas circunstâncias, sentiram-se no direito de serem infiéis a eles, ultrapassando limites que jamais deveriam ter ultrapassado.
.
Obs. – Para não ficar falando de filmes inacessíveis aos leitores, informo que o raro Perfume de Mulher de 1974 pode ser baixado aqui, com legenda em português; e o raríssimo Esse Crime Chamado Justiça, com legenda espanhola, aqui ou aqui.

terça-feira, 18 de março de 2014

ATRAÇÃO PARA SÁBADO: O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE EM MARCHA!


Não compartilho as apreensões do filósofo Vladimir Safatle, que, num interessante artigo sobre o negacionismo (vide aqui), alerta para "a repetição à qual as sociedades estão submetidas quando são incapazes de elaborar seu passado". Ele está certíssimo em vituperar as falácias na linha da ditabranda, mas exagera os riscos atuais.

Para mim, o anunciada bis da Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade será apenas a reprise da tragédia como farsa. 

Aquele desfilar de bobalhões engravatados e peruas pernósticas, tangidos pela carolice e pelo alarmismo que o esquema golpista fomentou, não teve real importância na derrubada do governo legítimo de João Goulart. Foi apenas um argumento propagandístico que os conspiradores produziram para utilizar depois contra os que denunciariam a quartelada como quartelada. Armaram um teatrinho de fantoches para fingir que os civis apitaram alguma coisa no desfecho de uma conspiração que fermentava há muito na caserna.
As cansadinhas de 1964...

A primeira tentativa mais ambiciosa, quando da renúncia de Jânio Quadros, fracassara porque o poder econômico ainda não se dispunha a uma virada de mesa e os Estados Unidos, sob John Kennedy, idem.

A segunda tentativa redundou porque burguesia e latifundiários finalmente deram sinal verde para o golpe e, mais importante, porque os EUA tinham a anta Lyndon Johnson como presidente.

O sofisticado Kennedy fora capaz de antever quão desastrosa seria a invasão de Cuba por mercenários arregimentados pelos ricaços de Miami e pela CIA, negando-lhe o apoio aéreo que não deixaria dúvidas quanto à participação estadunidense na aventura. 

Já Johnson, o caipira texano, mergulhou de cabeça numa grotesca intervenção nos assuntos internos de uma nação soberana, deixando que as digitais dos EUA ficassem nitidamente impressas no golpe brasileiro.

Não sei se é para rir ou para chorar, mas o total abandono da pauta revolucionária por parte do PT, se fez com que o Brasil neste século não avançasse um milímetro sequer na direção do fim do pesadelo capitalista, por outro lado nos imunizou contra qualquer possibilidade real de nova quartelada. 
...e os cansadinhos de 2007.

Banqueiros, grandes empresários e agronegócio têm seus interesses caninamente defendidos pelos governos petistas. Por que se arriscariam a um salto no escuro?

E, como o Brasil não teve sequer a dignidade de atender ao pedido de asilo de Edward Snowden, sua fidelidade é a última das preocupações de Barack Obama. Melhor vassalo, impossível.

É óbvio que ainda existe uma direita golpista, ladrando mas não mordendo, porque quem manda mesmo são os donos do canil. Fracassou rotundamente com o Cansei! e vai tentar outra vez no próximo sábado, 22.

Será o Incrível Exército de Brancaleone novamente em marcha, para aumentar a quota de fiascos, dando mais uma demonstração de anacronismo e irrelevância.

De resto, eu perdi a conta de quantos manifestos de pijamados pirracentos li desde a volta à democracia. 

Tendo como palco principal o Clube Militar, trata-se do psicodrama favorito dos que, como a Carolina da canção célebre de Chico Buarque, relutam em reconhecer que o tempo passou na janela e só eles não viram.

E, mais ainda, não se conformam com o fim do seu mundo ter ocorrido antes de eles próprios morrerem. 

domingo, 26 de agosto de 2012

O QUE EU FAÇO NO MEIO DESTA ELEIÇÃO?

Apesar de existirem milhares de filmes que podemos baixar na internet, ainda não consegui colar no meu álbum algumas  figurinhas carimbadas. Pacientemente, torno a procurá-las de tempos em tempos, apostando em que algum internauta as acabará disponibilizando para download.

Caso de uma western humorístico que vi há quatro décadas, O que eu faço no meio desta revolução?, dirigido por um mestre do bangue-bangue à italiana (Sergio Corbucci) e protagonizado pelo extraordinário Vittorio Gassman. Como ninguém postou legendas, de nada me adianta o torrent do filme, pois não entendo de ouvido o idioma dos meus avós.

Lembro-me remotamente das agruras do ator que, em turnê pelo México, envolve-se casualmente com a revolução de Villa e Zapata, passa o tempo todo tentando safar-se do imbroglio, mas, no final, a acaba assumindo e, parece-me, tendo morte heróica.

É como às vezes me sinto em relação à campanha eleitoral.

A Folha de S. Paulo mancheteia neste domingo que 64% dos paulistanos querem ver mantida a obrigatoriedade do horário eleitoral em rádio e TV. O horror, o horror!

Nem o fato de que qualquer dia aparecerei durante segundos na propaganda do PSOL (o suficiente apenas para cruzar os braços e encarar os telespectadores...), me faz ter a mais remota simpatia pelo interminável desfile de candidatos patéticos, que sempre relacionei a outra fita italiana, esta uma obra-prima de Ettore Scola: Feios, sujos e malvados (1976, c/ Nino Manfredi).

Para quem vê na política o instrumento para transformar a sociedade, no sentido de despertá-la do pesadelo capitalista e propiciar o advento da "terra da amizade, onde o homem ajuda o homem" (belíssimos versos de um dos temas musicais de Arena conta Zumbi), nada pode ser mais depressivo do que tal demagogia grotesca e delirante, tal toma lá o voto sem quase nunca darem cá a ninharia que prometem, tal carnavalização como forma de chamar atenção, tais ambições pequenas de pessoas idem.

O que o Giannazi, um homem idealista, articulado e de trajetória política exemplar, tem em comum com esses farsantes medíocres, esses Russomannos, Haddads e Chalitas? Nada, absolutamente nada. 

É um Gulliver obrigado a disputar espaço com liliputianos... que, se não conseguirmos tirar leite de pedra, acabarão prevalecendo sobre ele por terem poderosas máquinas partidárias, muito mais recursos financeiros, exposição maior na mídia e no horário eleitoral, mensagens que vêm ao encontro das aspirações dos eleitores aferidas em pesquisas qualitativas, etc.

Tratar uma candidatura como produto tem tudo a ver com a sociedade de consumo; é a linguagem a que o grande público está habituado e condicionado. Quem se propõe a aclarar as consciências ao invés de embotá-las leva enorme desvantagem.

O verdadeiro palco para a esquerda sempre foram  as escolas, as ruas, campos e construções, onde o contato com as massas é direto e dramático, não as telinhas que separam  os homens dos outros homens para que, cada um por si, sucumbam mais facilmente à manipulação e à desumanização. 

Mas, se participarmos do mafuá eleitoral gratuíto é ruim, pior ainda seria se nem esta ínfima brecha aproveitássemos para tentar sensibilizar os corações e despertar as mentes.

Em circunstâncias muito raras e especiais, os Davis conseguem vencer os Golias. Só que, se não formos com nossas fundas para o campo de batalha, nunca saberemos se estávamos ou não diante de uma dessas oportunidades únicas. 

Como disse o Vandré numa canção de homenagem ao Che, "Quem afrouxa na saída/ Ou se entrega na chegada/ Não perde nenhuma guerra/ Mas também não ganha nada".

terça-feira, 14 de setembro de 2010

FEDOR DE GRANA

Perfume de Mulher (1974), do grande Dino Risi, é uma obra-prima do cinema italiano. Memorável. Inesquecível.

Como Hollywood há muito não produz enredos remotamente comparáveis aos europeus, em desespero de causa, apropria-se deles para fazer remakes... sofríveis.

Então, quando saiu a bobagem estadunidense, em 1992, nem me dei ao trabalho de assistir.

Pois não é por acaso que Martin Brest dirigiu apenas oito filmes em quase três décadas de carreira: não passa de um artesão, mediano como centenas de outros. Nunca esperem um lampejo de gênio em suas fitas, pois seria como tirar leite de pedra.

E Al Pacino, mesmo sendo um dos poucos atores de verdade dos EUA, jamais deveria expor-se a uma comparação com Vittorio Gassman.

Já que estamos falando de cinema, vale lembrar um bordão do  Dirty Harry/Clint Eastwood: "Um homem deve conhecer suas limitações".

No final de clássico de Risi, há um dos maiores  tours-de-forces  interpretativos que já tive a felicidade de ver.

O capitão reformado que adota a agressividade e a vulgaridade como defesas, falha em cumprir um pacto de suicídio com um velho amigo.


Fragilizado por constatar que não estava, afinal, à altura do esteótipo machista que projetava, acaba  desabando  nos braços da moça que o amava e ele sempre rejeitara (a realmente bela Agostina Belli).

A forma como Gassman conseguiu expressar fisionicamente a queda da máscara do capitão é de arrepiar. Dificlmente uma dor e perplexidade encenadas parecem tão reais, tocam tão fundo nossos próprios sentimentos.

Hoje, por acaso, encontrei a contrafação sendo exibida num canal por assinatura, já no trecho derradeiro.

E não é que, além de copiarem mediocrimente uma obra muito acima de sua capacidade artística, ainda ousaram modificar o final, para oferecerem a suas imaturas platéias um convencional  happy end?!

Em vez do militar libertando-se sofridamente das sequelas psicológicas da cegueira, o que vemos é ele brilhando num conselho disciplinar de colégio, ao salvar de uma punição o jovem que lhe serve de guia.

Os ingleses, decididamente, não cumpriram sua missão civilizatória no Novo Mundo...
P.S.: como não sei se terei ensejo de voltar a este assunto, deixo registrado que heresia comparável os estadunidenses cometeram com uma de suas próprias -- e raras -- culminâncias, Desafio à Corrupção (d. Robert Rossen, 1961). Perpetraram uma sequência indefensável, A Cor do Dinheiro (d. Martin Scorcese, 1986), que  é, praticamente, uma negação da jornada libertadora do personagem Eddie Felsen (Paul Newman) e sua ruptura com o submundo da jogatina e da ganância. O Felsen do início do 2º filme nada tem a ver com o que acabou o 1º. Ninguém regride tanto.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ESSE CRIME CHAMADO JUSTIÇA...

...foi o título brasileiro de In Nome Del Popolo Italiano, um dos grandes filmes de Dino Risi.

Diretor de obras-primas como Perfume de Mulher (a distância entre o original italiano e a refilmagem estadunidense é a mesma que existe entre o genial Vittorio Gassman e o correto Al Pacino), Risi foi mestre das comédias impregnadas de críticas sociais e visão compassiva da realidade.

Aliás, o Perfume de Mulher de 1974 contém um dos maiores momentos de um ator que vi em toda a vida: é simplesmente de arrepiar a metamorfose do militar cego quando, abalado por haver descumprido o pacto de suicídio com o amigo, não consegue mais manter a postura agressiva que utilizava como defesa.

Não dá sequer para imaginarmos um ator que expressasse a desorientação e fragilidade do personagem com a mesma dignidade de Gassman.

Assim como não nos vem à cabeça ninguém melhor do que Marlon Brando para transmitir a profunda repulsa pela desumanidade que inspira a frase "o horror, o horror!", em Apocalypse Now; ou outro que não Gregory Peck fazendo as alegações finais da defesa do negro injustiçado em O Sol É Para Todos.

Foi também Gassman quem interpretou o repulsivo empresário de Esse Crime Chamado Justiça, 1971. É investigado por um procurador honesto (Ugo Tognazzi), por suspeita de haver assassinado a amante.

No curso do inquérito, vêm à tona sucessivos casos de pessoas destruídas pelo empresário, com sua ganância e insensibilidade predatórias.

Finalmente, quando tudo aponta para sua culpa, cai nas mãos do procurador uma carta que comprova não ter havido crime, mas sim suicídio.

Então, depois de haver seguido fielmente as regras durante toda a sua carreira, o funcionário decide fazer a verdadeira justiça: suprime a prova, para que, por linhas tortas, seja punido um cidadão extremamente nocivo a seus semelhantes.

Este filme, com sua tese controversa, veio-me à lembrança ao ler que quatro aposentados alemães, na faixa de 63 a 79 anos, sequestraram e mantiveram em cativeiro durante quatro dias o consultor de negócios que os induziu a um investimento desastroso.

Forçaram-no a assinar uma confissão de culpa, comprometendo-se a repor as perdas.

Presos, estão sendo agora julgados. E a polícia investiga se o consultor cometeu abuso de confiança.

Caso houvesse verdadeira justiça, os idosos cumpririam uma pequena sentença de prisão domiciliar, pouco penosa para quem tem sua idade; e o consultor seria atirado numa masmorra por uns dez anos.

Mas, claro, não é isto que acontecerá.
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