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segunda-feira, 1 de abril de 2024

O COMPLÔ QUE MATOU JOHN KENNEDY ABRIU CAMINHO PARA O GOLPE NO BRASIL

Eu vou! Eu vou! Eu vou derrubar o governo, agora eu vou! Pararatimbum, pararatimbum!
O esquema dos golpistas de 1964 vinha sendo montado desde a década anterior, mas ainda não estava pronto quando da renúncia do presidente Jânio Quadros em agosto de 1961. 

Os conspiradores nela viram, contudo, uma oportunidade de queimar etapas e resolveram precipitar as coisas: convenceram os comandantes das três Armas a tentarem impedir a posse do vice-presidente legal (João Goulart), que estava ausente, visitando a China em missão oficial. 

Como o afobado come cru, eles foram derrotados:
— pela resistência do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que passou a conclamar o Brasil inteiro a não permitir a usurpação de poder, utilizando para tanto uma rede de emissoras de rádio que se formou espontaneamente  (a Rede da Legalidade);
O governador corajoso e o general legalista foram
decisivos para evitar que o golpe ocorresse já em 1961
  
— pela decisão do comandante do III Exército (RS), o general legalista Machado Lopes, de colocar-se ao lado de Brizola, passando, portanto, a existir a ameaça de militares combaterem uns aos outros, hipótese que sempre horrorizou nossas Forças Armadas; e
— pela firme oposição de cabos e sargentos do Exército e Marinha ao golpe, criando outra divisão entre os fardados.

A crise acabou com a solução conciliatória de se dar posse a Goulart mas instituir-se o parlamentarismo, de forma que os poderes presidenciais foram momentaneamente reduzidos (o plebiscito de janeiro de 1963, contudo, restabeleceu o status quo ante).

Os conspiradores, face ao fracasso inicial, tiveram de repensar todo seu planejamento. Desfecharam perseguições nos quartéis, isolando e transferindo para unidades distantes os líderes dos subalternos que haviam se colocado contra o golpe, enquanto o pusilânime Goulart nada fazia para proteger quem lhe havia sido leal.

E, percebendo que careciam de algum respaldo na coletividade, partiram para a conquista do apoio da classe média conservadora, contando para tanto com o apoio do clero reacionário e de entidades anticomunistas como a TFP e a TFM.  
Goulart só desistiu de agradar ao oficialato, tomando o
partido dos subalternos, quando já era tarde demais.
  
[
Afora a mãozinha estadunidense, com a enxurrada de investimentos em Bolsa de Valores, suficiente para forjar o boom econômico de curta duração conhecido como milagre brasileiro.]

Os viradores de mesa só se considerariam prontos para nova tentativa 20 meses depois. 

O passo final foi a conquista da caserna, empreitada facilitada pelo apoio crescente que passaram a ter da classe média (afinal, os oficiais eram majoritariamente dela oriundos) e pelos préstimos de provocadores como o marinheiro de 1ª classe Anselmo (erroneamente apelidado de cabo), que radicalizaram ao máximo a insubordinação dos cabos e sargentos das Forças Armadas contra o oficialato. 

[Meu saudoso companheiro na VPR, o José Raimundo da Costa, dito Moisés, era um dos líderes dos marujos e nunca quis acreditar que Anselmo fosse um infiltrado, embora já existissem suspeitas. Pagou com a vida por seu apreço pelo colega de antigas jornadas.]

O que os oficiais mais prezam é sua autoridade. E, dias antes do golpe, a viram estridentemente ultrapassada por Jango. É que, com o mandato cada vez mais ameaçado, Goulart havia finalmente descido do muro, daí ter ousado proibir a prisão de marinheiros e fuzileiros navais responsáveis por uma comemoração levada a efeito depois de vetada pelos escalões superiores. Foi a gota d'água: o oficialato alinhou-se em massa com o golpe.
Lyndon Johnson, com seu chapéu de cowboy: o
 homem errado, no lugar errado, na hora errada
 

A ruptura da ordem legal 
àquela altura já estava sendo amplamente requerida pelos capitalistas e latifundiários, além de endossada por Lyndon Johnson, que herdou a presidência após John Kennedy ser assassinado por um fogo cruzado até agora atribuído oficialmente a um único aturador (seria o Lee Oswald um homem-polvo?!).  

A CIA favorecia e financiava os conspiradores havia muito tempo, mas John Kennedy, caso tivesse sobrevivido ao atentado de Dallas, dificilmente lhes daria sinal verde. 

Vale lembrar que ele não autorizou a disponibilização de cobertura aérea para a invasão da Baía dos Porcos, crucial para o sucesso da empreitada, mas que deixaria as digitais dos EUA impressas numa flagrante interferência na política interna de um país soberano (Cuba). 

A posse em 22 de novembro de 1963 de Johnson, um caipirão texano que obviamente comeria na mão da CIA, significou a remoção de um importante obstáculo para o golpe brasileiro, tanto que, a partir daí, só transcorreram 130 dias até Olímpio Mourão Filho começar a descer a BR-3 (hoje rodovia BR-040) com suas tropas, iniciando a quartelada.

Anticomunista com carteirinha assinada e falsário desmascarado em vida (forjou o chamado Plano Cohen para alavancar a instalação do Estado Novo em 1937), Mourão antecipou-se por alguns dias ao cronograma dos conspiradores históricos, mas nada lucrou com isto: o poder não ficou com o ejaculador precoce, mas sim com o esquema golpista que vinha sendo laboriosamente montado desde a década anterior.   

Tão vergonhosa foi a facilidade com que um aventureiro desprestigiado na própria caserna e seus recrutas imberbes derrubaram Goulart que a esquerda entrou num longo processo de crítica e autocrítica, do qual decorreram 
o colapso da hegemonia do PCB e a ascensão da luta armada como principal forma de resistência à ditadura após a assinatura do AI-5. (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

DE TEIMOSO QUE SOU, VOU SUGERIR UMA SOLUÇÃO PARA A ATUAL CRISE BRASILEIRA.

John Kennedy, o presidente dos Estados Unidos que chegou a dar sinal verde para a invasão de Cuba por contrarrevolucionários e mercenários por eles contratados, foi também capaz de perceber quão desastroso seria o envolvimento explícito e de recibo passado dos EUA em tal aventura, daí ter vetado o apoio aéreo e de artilharia, fundamentais para o êxito da empreitada. 

Não comia simploriamente na mão da CIA, o que tem muito a ver com o vasto complô que culminou no seu assassinato em 22 de novembro de 1963 (negado até hoje pela história oficial estadunidense, numa ofensa à inteligência de qualquer cidadão que não tenha QI de ameba!).

Com Kennedy fora do caminho, a CIA convenceu o caipirão texano Lyndon Johnson de que era necessário depor o presidente brasileiro João Goulart para evitar a tomada do poder pelos comunistas. 

Um espantalho que se esfarelou durante a própria execução do golpe: antecipando-se ao calendário do comando golpista, um fascista histórico e histérico saiu com seus recrutas de um quartelzinho mineiro e conduziu tranquilamente tal incrível exército Brancaleone num passeio pela BR-3 (hoje rodovia BR-040), sem ser incomodado por efetivo nenhum do governo constituído (bastaria um caça da FAB ter disparado duas ou três rajadas de metralhadora por cima de suas cabeças para aqueles recos bisonhos estarem correndo esbaforidos até hoje...).
Eu vou eu vou/ derrubar governo agora eu vou/ parara-tim-bum

Mas, menos anedótico é o fato, inteiramente comprovado pela abertura de arquivos sigilosos dos EUA,  de que navios militares daquele país foram deslocados para a costa brasileira, colocando-se em posição para prestar ajuda aos golpistas, caso fosse necessária. 

Não foi: de resistência tão pífia como a que houve no momento do golpe, até cadetes dos colégios militares teriam dado conta.

Enfim, estou lembrando estes infaustos acontecimentos porque Donald Trump começará a mostrar a que veio no próximo dia 20 de janeiro. Como presidente em exercício não faz necessariamente o que sua retórica de campanha levava a crer (está aí a Dilma, que não me deixa mentir...), seria um erro darmos como favas contadas que, qual Lyndon Johnson e George Bush, Trump será mais um pateta comendo na mão da CIA.

Mas, também seria temerário descartar tal hipótese. Daquela vez, quatro meses e uma semana após a posse de um presidente sem noção nos EUA, a democracia brasileira foi para o ralo. É um precedente ruim demais para corrermos o risco de que se repita.

Os maus augúrios também advêm do derretimento dos nossos Poderes, a gerar um caldo de cultura muito perigoso, propício a viradas de mesa da extrema-direita (que hoje poderiam ter como pretexto o envolvimento e cumplicidade de parlamentares com a corrupção, explicitada nas sucessivas tentativas de enquadrarem e esvaziarem a Operação Lava Jato).

De antemão sabendo que a sensatez nunca deu muito ibope na tragicomédia brasileira, vou sugerir, de teimoso que sou, uma saída para, entre mortos e feridos, salvarem-se todos:
  • que se crie uma comissão mais ou menos como a de Verdade e Reconciliação da África do Sul sob Nelson Mandela, dando aos corruptos a oportunidade de se livrarem das grades ou permanecerem fora delas, desde que confessem seus delitos, paguem indenizações por eles e nunca mais os cometam, sob pena de os processos serem retomados do ponto em que pararam ou as condenações cumpridas até o fim;
  • que os empresários não possam participar da diretoria de grande empresa nenhuma (muito menos de entes do Governo e do Estado) por período a ser fixado;
  • que os políticos não mantenham seus mandatos nem possam disputar eleição nenhuma ou atuarem em entes do Governo e do Estado  por período a ser fixado;
  • que uns e outros não possam exercer atividades explicita ou implicitamente lobistas por período a ser fixado.
Isto, claro, deixaria frustrados os que há tanto tempo sonham com um dia verem a Justiça sendo feita. Mas, seria bem melhor do que deixarmos a instabilidade atual prolongar ainda mais nossa agonia econômica ou, pior ainda, criar condições para o retrocesso histórico, com a volta às trevas ditatoriais.

sábado, 11 de junho de 2016

VITÓRIA DE TRUMP FARIA SOAREM AS TROMPAS E CLARINS DE UM NOVO 1964

A palavra do editor
Jânio Quadros renunciou em 25 de agosto de 1961 e os conspiradores de direita resolveram aproveitar a oportunidade para desfecharem o golpe de Estado que tramavam para mais tarde. Os Estados Unidos, sob John Kennedy, não os apoiaram e a tentativa deu com os burros n'água.

Quatro meses antes, Kennedy autorizara uma tentativa de derrubada de Fidel Castro, não permitindo, contudo, que os EUA se envolvessem ostensivamente. Tinha de parecer iniciativa dos cubanos exilados. 

Então, sem apoio aéreo (bombardeios) nem naval (canhonaços para destruir a artilharia governista), o desembarque na Baía dos Porcos foi um completo fracasso. Mais pareceu um estande de tiro ao alvo para os governistas treinarem pontaria.

Ou seja, Kennedy não comia na mão da CIA, o que certamente foi um dos fatores determinantes de seu assassinato, num complô que nem mil Relatórios Warren (1) fariam crer que não existiu.

Golpe brasileiro tinha digitais dos EUA espalhadas por todo canto
Com a morte de Kennedy em 22 de novembro de 1963, assumiu o caipirão Lyndon Johnson, que não só comia na mão como lambia os dedos da CIA. Resultado: cinco meses depois o golpe brasileiro era vitorioso, com as digitais dos EUA espalhadas por todo canto.

Então, se o ultradireitista Pato Donald Trump conseguir mesmo virar o jogo contra a Hilária Clinton, a possibilidade de um novo 1964, hoje quase inexistente, vai se tornar bem plausível. 

Sugiro, portanto, que todos leiam com atenção a excelente análise de Demétrio Magnoli sobre o que Trump representa. A eleição está longe (8 de novembro), mas temos de começar a levá-la em conta. 

Inclusive, tentando achar uma solução para nossa crise política até lá, pois o que acontecerá a partir de 9 de novembro é uma desconfortável incógnita. (CL)

Por Demétrio Magnoli
A PRIMEIRA MULHER
A primeira mulher candidata à Presidência dos EUA seria uma notícia tão histórica quanto o primeiro negro na Casa Branca, com a condição de que o nome dela não fosse Hillary. A verdadeira novidade da campanha eleitoral americana não é uma Clinton, mas um Trump —o Donald. A candidata democrata representa o establishment; o republicano, uma revolta contra o establishment. Desse contraste emana o perigo real de triunfo do Donald.

Hillary mantém o favoritismo, apesar do empate técnico registrado nas últimas sondagens. A demografia milita ao seu lado: Trump enfrenta a rejeição majoritária das mulheres, dos hispânicos e dos negros. O sistema eleitoral joga no campo democrata: nos 11 Estados oscilantes, campos de batalha decisivos, Obama obteve 11 vitórias em 2008 e dez em 2012. Contudo, Trump não é um McCain ou um Romney, expoentes da tradição republicana, mas um tipo diferente de candidato: a imagem do som e da fúria de uma nação profunda, imersa nas águas do rancor.

O Donald invoca sempre o nome de Reagan, sugerindo um falso paralelo: Ronald foi um candidato solar; Donald é um profeta das sombras. Hillary falará dos dilemas do presente, na linguagem política convencional; Trump falará da restauração de uma idade de ouro, na linguagem do salvacionismo populista. "Fazer a América grande novamente": é a mudança contra a permanência, uma fórmula sedutora, empapada pela umidade da crise. O jogo segue regras complexas, desdobrando-se em equações pontilhadas de incógnitas.
Hilária ou histérica?

O Donald é fruto do colapso de uma tradição. Na sua rebelião contra o centrismo republicano, o Tea Party (2) declarou guerra ao Welfare State (3) e flertou com o nativismo xenófobo da nação branca e protestante. Trump armou seu palanque no meio daquela rebelião, mas a reinventou de modos surpreendentes. 

Numa ponta, estendeu o discurso nativista às suas consequências extremas, fincando uma bandeira nas terras da intolerância e do racismo: a deportação em massa dos imigrantes ilegais, o banimento dos muçulmanos. Na outra, operando pela negação da negação, jurou conservar o Welfare State e proteger a indústria e os empregos americanos da concorrência estrangeira, fechando as estradas do livre comércio. Hillary enfrenta a força de uma mistura explosiva: ultranacionalismo + populismo.

Atrás do Donald, sopra uma ventania. A crise do sistema político americano expressou-se pela ofensiva do Tea Party sobre as paliçadas do Partido Republicano e, do outro lado, por dois levantes sucessivos no universo do Partido Democrata: o furacão memorável de Obama em 2008 ("Yes, We Can" – 4), e a imprevista tempestade de Sanders nas primárias que se encerram ("Feel the Bernie" – 5). A cidadela de Hillary ruiu sob o impacto do primeiro, mas resistiu ao segundo. Som e fúria: Trump investe suas fichas na soma de todos os levantes, organizando uma marcha sobre Washington.
"Posso ir no banheiro, 'fessora? 'Tô apertado!"

O Donald ataca, simultaneamente, pelos flancos direito e esquerdo. As invectivas odientas contra imigrantes e muçulmanos, uma radicalização dos discursos das franjas republicanas, miram a nação branca. As promessas econômicas populistas e protecionistas, uma importação adaptada das miragens socialistas de Sanders, miram a nação pobre

O solo que sustenta a árvore incongruente de Trump é composto por uma narrativa declinista. No mito do Grande Declínio, ou seja, da erosão do poder, da influência e da prosperidade americanas encontra-se a força persuasiva de sua candidatura. Hillary terçará armas contra um argumento que desconhece os limites habituais da razão.

O Donald é sintoma de uma crise geral dos valores das democracias ocidentais. Na sua candidatura, estão impressos marcadores ideológicos similares aos dos partidos nacionalistas que ameaçam a costura da União Europeia. O destino da primeira mulher interessa ao mundo inteiro.
  1. Investigação oficial que concluiu ter sido Lee Harvey Osvald o único assassino de Kennedy, além de confirmar a existência do Papai Noel, do coelhinho da Páscoa e da fada dos dentes.
  2. Ala populista e ultradireitista do Partido Republicano, que propõe uma diminuição substancial dos gastos da União, para que os impostos possam ser reduzidos.
  3. O Estado do Bem-Estar Social defende exatamente o oposto, ou seja, a importância do Estado como agente de promoção social e organizador da economia.
  4. "Sim, nós podemos".
  5. "Sinta o Bern!", jogo de palavra com o nome do candidato e a palavra burn, calor. 
JFK - a pergunta que não quer calar (versão do diretor)
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