sábado, 5 de abril de 2025

O CAPITALISMO ENGOLE A SI MESMO

Qual a relação entre o preço dos ovos, as tarifas de Trump e a corrida armamentista da Europa? A relação é aquilo já descortinado por Marx no século XIX e que segue atual porque permanecemos essencialmente na mesma sociedade escrutinada por ele: a lei do valor. 

Obviamente, não se pode negar as diferenças entre o capitalismo do século XIX e o do século XXI, mas tais diferenças estão dadas na configuração fenomênica e nas complexificações sociais estabelecidas ao longo dos últimos 150 anos, pois, por exemplo, não havia internet, shopping centers ou aviões na época de Marx. Contudo, na raiz da sociedade, em seu fundamento, o capitalismo segue sendo uma forma econômica fundamentada na propriedade privada dos meios de produção, atravessada pelo drama antagônico entre produção social e acumulação privada, crescimento produtivo e decrescimento do valor, crescimento da riqueza e explosão da miséria. Em nossa época, os aviões, a internet e os shoppings centers seguem sendo propriedade da burguesia e isso faz o capitalismo seguir sendo o que é, uma sociedade alicerçada em oposições, urdida em antagonismos inconciliáveis cujas tensões se amenizam em períodos de expansão do capital e explodem em períodos contracionistas. Essa é a lei do valor, tão objetiva quanto a gravidade, embora originada não da natureza, mas da história humana. 

A lei do valor explica Trump, explica o alto custo de vida e a corrida armamentista. Não se tratam de loucura, ganância ou a natureza belicista do ser humano, mas da aguda crise do capital vivida em nossa época. Desde o fim da segunda guerra mundial, o capitalismo engatou ciclos de crescimento razoavelmente estáveis, quebrados por ciclos depressivos, mas medidas de reorganização econômica conseguiam trazer novo impulso à acumulação. Assim, o fim dos anos dourados (1945-1970), quando o capitalismo cresceu sob o cadáver de milhões de mortos da grande guerra e sob os escombros de sua titânica destruição, foi seguido pela reorganização neoliberal, com o afrouxamento de regras trabalhistas, perdas de direitos sociais, incentivo à integração internacional e aprofundamento da financeirização. Naquele momento, o importante era concretizar um novo arranjo no sistema produtivo mundial, caracterizado agora pelo princípio do just in time, com a a produção ajustada a uma demanda não mais espontânea, mas rigorosamente induzida por sofisticados mecanismos de propaganda. 

Thatcher ajudou a implementar o 
neoliberalismo, com mão de ferro.

A nova configuração produtiva do mundo alongou as cadeias de valor e redistribuiu a divisão internacional do trabalho. Uma mesma mercadoria passou a ter suas partes fabricadas em países diferentes, aproveitando as vantagens setoriais de cada um, sendo que o núcleo duro do setor fabril se mudou para as regiões da periferia capitalista, onde a mão de obra é mais barata e a democracia mais fraca. 

Organizações multilaterais, tratados de livre comércio, reduções de barreiras aduaneiras, tudo isso foi o mote desse período porque as cadeias de valor precisavam circular livre e rapidamente. Quando fosse preciso comprar um carregamento de chips na China e enviar para os EUA, esse processo deveria ser ligeiro, sob pena de paralisação da cadeia de valor, e, por isso, não poderia haver muitos entraves para a saída dos chips na China e sua introdução nos EUA: os chips teriam estar prontos para serem despachados, passar para o transporte e serem levados por mar, céus e terra até o consumidor final. Em cada etapa do processo, o chip mudaria de mãos, mobilizando inúmeras empresas e intermediários, necessitando que a engenharia fiscal fosse a mais simples possível, com baixas alíquotas de imposto e sem muita burocracia, pois do contrário se elevaria o preço final do produto e a pulverização produtiva se tornaria inviável. A liquidez nesse contexto é essencial para permitir pagamentos ágeis e por isso o sistema financeiro é tão primordial. 

No entanto, o capitalismo vive há anos uma condição estagnada, com crescimento baixo. Alguns acreditavam que o just in time anularia a crise de superprodução, ignorando estar essa crise não em estoques abarrotados, mas na lógica de sempre ampliar a produção para compensar a perda relativa de valor. Mercadorias mais baratas só podem significar mais mercadorias sendo colocadas à venda. A manipulação da demanda através de estratégias de propaganda, obsolescência programada e a indução ao consumo supérfluo não anulam a lei da perda tendencial de valor. Acelera-se o tempo de absorção das mercadorias pela sociedade para compensar a inexistência de depósitos e pátios lotados, mas a materialidade da superprodução pode ser claramente vista nas toneladas de lixo, esgoto e resíduos de toda espécie que se acumulam no planeta. Podem ser vistas também nas incessantes mudanças de postos de trabalho a que são forçados os trabalhadores, sempre em vista de atender a uma mudança no fluxo das cadeias produtivas do capitalismo. 

União Europeia é exemplo de integração
de mercados nacionais.

Tal como antes, a tendência da queda do lucro leva à crise, primeiro localizada, depois generalizada. A inflação é um sintoma dessa crise, pois ela aparece diante da falência e da quebra das cadeias de valor, reduzindo ofertas, encarecendo financiamentos ou emperrando a circulação de produtos. 

De acordo com o momento, a resposta do capital à crise pode variar. Na década de 1970, a resposta foi o aprofundamento da liberalização mundial da economia, o combate ao protecionismo e a flexibilização das barreiras. Agora, a resposta parece ser a oposta, o aprofundamento do protecionismo e o fortalecimento das barreiras, o que é chamado pelos teóricos liberais de desglobalização, termo equivocado, pois o capitalismo é em sua própria natureza um processo contínuo de globalização, pautado nos Estado-Nações. 

O Estado-Nação é o quartel-general dos burgueses. É para ele que se voltam quando a situação está crítica, pois possuem nele um mercado cativo, acesso à estrutura militar, jurídica e policial capaz de defender seus interesses e posses nos momentos mais dramáticos da crise do capital. É a partir dele também que podem levar adiante outro impulso expansionista. 

Brexit foi o primeiro grande evento de restauração
do nacionalismo.

Hoje o principal motor econômico é a indústria militar. Esse setor vem puxando a frágil reprodução do valor, impedindo uma derrocada generalizada. Não à toa, a guerra da Ucrânia e o massacre contra o povo palestino têm sido fundamentais para a venda de armamentos. A Europa também entrou no processo de ser rearmar para manter sua frágil economia com sinais de vida. Obviamente, um recrudescimento do militarismo só pode ser feito se criando o famoso inimigo externo, e por isso os líderes europeus transformaram Putin no demônio e a Rússia no monstro engolidor de mundos. 

Por isso, o cada vez mais fascistizado Macron foi recentemente à TV fazer discurso belicista, digno de Napoleão III, exortando os franceses a morrerem pela pátria. Puro e simples revival de 1914, quando os trabalhadores da Europa foram conclamados a morrerem nas trincheiras por seus Estado-Nações, ou seja, por suas burguesias. O roteiro parecia ter caído em desuso em 1945, mas após décadas de colapso das esquerdas e de hegemonia liberal, o discurso rançoso de se sacrificar pela pátria pode retornar com força. 

O nacionalismo retorna e com ele todos os seus elementos próprios: xenofobia e protecionismo. O ódio ao estrangeiro é irmão do ódio ao produto estrangeiro. As barreiras comerciais e alfandegárias são elevadas em prol da proteção ao mercado interno e defender a nação do estrangeiro, do inimigo externo, seja ele o chinês ou o russo, passa a ser prioridade. A mensagem da burguesia é clara: sacrifiquem-se em prol da pátria, primeiro pagando mais caro, depois nos campos de batalha. 

Com seu governo em frangalhos,
Macron quer que os franceses
morram pela pátria. 

É assim que Macron e Trump acabam por dar as mãos. Ambos levam a cabo o empreendimento ditado por suas burguesias em resposta à crise do capital. E outras lideranças seguem a prática ao redor do planeta, com maior ou menor tônica conclamam seus povos a se galvanizarem em torno da pátria, ou seja, em torno dos patrões. O mundo vai se despedaçando e se encaminhando para o possível desfecho trágico: a guerra mundial. Rosa Luxemburgo já colocava, a economia imperialista só pode levar à guerra imperialista. O confronto total é o momento de salvação do capitalismo porque é nele que pode ocorrer a queima maior e titânica de valor, em infraestrutura e vidas humanas, ao mesmo tempo que consegue puxar a indústria explorando o trabalho a salários irrisórios, forçando a venda de insumos a preços rebaixados e expropriando tudo o que for possível, até mesmo os capitalistas mais frágeis. Para se salvar, o capitalismo engole a si mesmo. Resta saber se o mundo sobreviverá a mais essa queima de capitais, pois agora a queima pode ser com combustível nuclear. 

Enquanto isso, a esquerda segue bestificada, entre o ilusionismo liberal de defesa da democracia e a miséria de do oportunismo. (por David Coelho)



 


TRUMP NÃO GOSTA DO FILME 'APOCALYPSE NOW', ENTÃO CRIOU UMA VERSÃO PRÓPRIA

E
is, abaixo, alguns pontos destacados pelo veterano analista Celso Ming, do Estadão, em sua avaliação de que, a partir do pacote econômico do Pato  Donald Trump, "a única certeza é a de que tudo piorou".  

Não se sabe quais são os principais objetivos do presidente Trump, uma vez que ele já enunciou uma fieira deles: esmagar a China; desmantelar o aparato global que permitiu o roubo sistemático de riquezas e de empregos dos Estados Unidos; aumentar a receita e, assim, reduzir a carga tributária; estancar o fluxo migratório ilegal; impor sanções a governos que contrariem a nova política; forçar o alargamento do prazo de vencimento da dívida dos Estados Unidos; e por aí vai.

O principal efeito esperado da guerra comercial em curso no mundo é uma forte recessão.

As principais indicações disso são a derrubada dos preços do petróleo e dos índices das bolsas.

Num primeiro momento, a inflação nos Estados Unidos será inevitável porque refletirá o aumento dos preços dos produtos importados. Mas a recessão deverá encarregar-se de derrubar a demanda de bens e de serviços... 

Insegurança e incerteza continuam muito acentuadas e deverão dificultar as grandes tomadas de decisão. 

Como as principais potências econômicas já providenciaram revides, como a China, ou preparam ações para contrapor Trump, teremos mais chacoalhadas neste tsunami.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

ÍNDIO NÃO QUER APITO. ÍNDIO DÁ UM PITO. E O LULA FEZ REALMENTE POR MERECER!

Indígena sincero perde tempo com cara pálida enrolador
Lula passa vergonha até quando visita os indígenas.

Ao atender ao terceiro convite do cacique Raoni Metuktire no Parque do Xingu (MT), não só foi cobrado por haver ignorado os dois anteriores, como recebeu um ótimo conselho que não terá a humildade de seguir: 
"Quero pedir ao senhor para pensar no seu sucessor, que tem que ser o próximo presidente da República, para continuar seu trabalho de proteger os povos indígenas e o nosso território".
Tradução: "Sua obsessão de conquistar um quarto mandato quando no terceiro já está perdidinho da silva só lhe trará a derrota, além de deixar os povos e o território indigena sem protetor".

Lembram do quando ele era idoso propaganda do pré-sal?
Até os povos originários já sabem que a única carreira ao alcance do Lula atualmente é a de bom avô para seus netinhos.

Finalmente, Raoni botou o dedo numa das piores feridas do Lula, a de destruidor ambiental, hipócrita ainda por cima, pois fala exatamente o contrário:
"Estou sabendo que lá na foz do rio Amazonas, o senhor está pensando no petróleo debaixo do mar. Penso que não. Essas coisas, na forma que estão, garantem que a gente tenha o meio ambiente e a terra com menos poluição e aquecimento". 
Bravo, Raoni! Vergonha, Lula! (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 3 de abril de 2025

TRUMP PIROU DE VEZ E FARÁ OS EUA REGREDIREM 4 SÉCULOS EM 4 ANOS

"Tornei-me morte, o destruidor de mundos" (Baghavad Gita)
E
rrou quem supunha que Trump não passasse de um agente de Putin infiltrado na Casa Branca. Parecia, mas não era.

Na verdade, ele está mais para um agente da destruição generalizada, um novo Jim Jones que a  todos sacrificará, mas detonando principalmente os próprios Estados Unidos. 

Tem tudo a ver a afirmação de Thomas Friedman, num sentido até mais amplo do que ele pretendeu (referiu-se às inovações tecnológicas chinesas estarem ganhando das estadunidenses de goleada); "Acabo de enxergar o futuro, e adivinhem? Ele não envolve os Estados Unidos"). 

E está certíssimo o FMI, insuspeito de contaminação esquerdista, ao advertir que o tarifaço dos EUA coloca em grande risco a economia mundial. Só faltou acrescentar que quem cria monstros, acaba sendo sua primeira vítima...

Prestes a ser atingido por um vulcão, o país até agora mais poderoso do mundo está vivendo seus últimos dias de esplendor.  Ao unir praticamente o mundo inteiro contra si, Trump comprou uma briga maior do que será capaz de sustentar. 

A guerra comercial decorrente o devastará mais ainda do que a quebra da bolsa de Nova  York em 1929. Daquela vez, a consequência foi uma década inteira de penúria. Desta, há grande chance de os EUA  nunca mais voltarem a ser uma nação de primeira grandeza.

O que estamos vendo agora é apenas um novo desfecho para a guerra civil estadunidense, que parecia ter findado com a rendição dos confederados em 1865. Fato é que tal derrota jamais foi assimilada, continuou sendo uma ferida aberta e latejando até hoje. Finalmente, gangrenou de vez. 

O Norte impôs pelas armas a passagem para uma etapa superior de desenvolvimento capitalista, detonando as bases da exploração rural baseada na escravidão. E, realmente, os Estados Unidos prosperaram muito mais com a industrialização do que avançariam com sua produção de algodão e tabaco no esquema das 
plantations.

Mas, os estados do Sul tinham teoricamente o direito de não aceitarem a abolição da escravidão na marra, apenas porque isto convinha aos que queriam priorizar outras atividades econômicas. 

E, ao contrário do que aconteceu, p. ex.,  no Brasil, a produção escravagista ainda não chegara a seu fim natural (tornar-se contraproducente). Mantinha-se pujante e os brancos sulistas majoritariamente queriam que tudo continuasse como estava.

Mas, derrotados na Guerra da Secessão  e tendo se registrado, em seguida, ganho econômico com o novo modelo, não tiveram como contestar o que lhes foi imposto. E, péssimos seres humanos que eram, se vingaram na parte mais fraca, os negros, exacerbando o racismo.  Fazer com que os direitos civis dos afrodescendentes fossem respeitados quase exigiu uma nova guerra, em plena década de 1950!

Com o capitalismo ora entrando na sua fase agônica, no entanto, a grande vantagem obtida com a vitória do Norte avançado sobre o Sul retrógrado deixou de existir. E isto impulsionou a afirmação da extrema-direita, herdeira óbvia da Ku Klux Klan e outras hordas reacionárias sulistas de outrora. 

O que essa gente inculta e feia quer? Simplesmente um retorno ao autoritarismo brutal do tempo das plantations, com um retrocesso da globalização que os obtusos veem, de forma simplista, como causa da decadência de várias atividades econômicas que empregavam contingentes maiores de trabalhadores.

Megalomaníaco e autodestrutivo como Hitler, o que Trump está tentando é simplesmente fazer a História voltar para trás. Trata-se de uma proeza impossível. 

Pôde ganhar duas eleições porque os EUA já eram um país que estava decaindo sob a modernidade econômica e só conseguia evitar uma imediata debacle mediante a imposição de artificialidades que faziam outras nações arcarem com os ônus de sua perda de competitividade. O que Trump faz é simplesmente derrubar tal castelo de cartas, agilizando um acerto de contas que será pra lá de nefasto para os EUA.

Com isto, mais a enorme rejeição acarretada por medidas de força pretendidas ou praticadas, como a apropriação de territórios alheios e a violação extremada dos direitos humanos de trabalhadores estrangeiros, tudo se encaminha para uma união sem precedentes das outras nações importantes contra os EUA. Elas não têm como perderem!

Quem viver, verá. (por Celso Lungaretti    

segunda-feira, 31 de março de 2025

MINHAS IMPRESSÕES DE MENINO NO DIA EM QUE A MENTIRA SE ABATEU SOBRE NÓS

"Auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança (...), antes
te houvessem roto na batalha, que servires a um povo de mortalha!" (Castro Alves)
E
u tinha 13 anos no dia 1º de abril de 1964, verdadeira data da usurpação do poder por parte de conspiradores que a vinham tentando praticamente desde 1954.

Os pretextos que alegaram para derrubar o presidente legítimo João Goulart eram mentirosos, daí terem intitulado a quartelada de Revolução de 31 de março, embora nem fosse revolução, nem tivesse ocorrido na véspera do Dia da Mentira, mas sim no próprio.

Foi uma vã tentativa de evitarem a piada pronta. A utilização descarada de fake news por parte dos ultradireitistas vem de longe...

Puxando pela memória, só consigo me lembrar de que a TV vendia o golpe de estado em grande estilo, insuflando tamanha euforia patrioteira que os cordeirinhos faziam fila para atender ao apelo dê ouro para o bem do Brasil!.

Matronas iam orgulhosamente tirar suas alianças e oferecê-las aos salvadores da Pátria, torcendo para que as câmeras as estivessem focalizando naquele momento solene.
Desde muito cedo eu peguei bronca dessas situações em que a multidão se move segundo uma coreografia traçada por alguém acima dela, com cada pessoa tanto esforçando-se para representar tão bem seu papel... que acaba parecendo, isto sim, artificial e canhestra.

De paradas de 7 de setembro a procissões, eu não suportava a falsa uniformidade. Gostava de ver cada indivíduo sendo ele próprio, igual a todos e diferente de todos ao mesmo tempo.

No mais, dê ouro para quê? Para a compra de instrumentos de tortura?! Era mais do que previsível e foi o que acabou acontecendo. Ingenuidade demais não cheira bem.

E, na preparação do clima para a sedição, houvera a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade. Aquelas senhoras embonecadas e aqueles senhores engravatados me pareceram sumamente ridículos.

Aqui cabe uma explicação: duas fortes influências me indispunham contra o patético desfile daquela classe média abasta(rda)da, que detestava tanto o comunismo quanto o samba, talvez porque fosse ruim da cabeça e doente do pé.
Já dizia P. T. Barnum: nasce um otário a cada minuto
Minha família era kardecista e, quando eu tinha 8, 9 anos, me levava num centro espírita cujo orador falava muito bem... e era anticatólico visceral.

A cada semana recriminava a riqueza e a falta de caridade da Igreja, contrastando-a com a miséria do seu rebanho. Cansava de repetir que Cristo expulsara os vendilhões do templo, mas estes estavam todos encastelados no Vaticano.

Vai daí que, cabeça feita por esse devoto tardio do cristianismo das catacumbas, eu jamais poderia aplaudir um movimento de católicos opulentos.

E devorara a obra infantil de Monteiro Lobato inteira. Com ele aprendera a prezar a simplicidade, desprezando a ostentação e o luxo; a respeitar os sábios e artistas, de preferência aos ganhadores de dinheiro.

Mas, afora essa rejeição, digamos,  estética, eu não tinha opinião sobre a tal da  Redentora.

Escutava meu avô dizendo que, se viesse o comunismo, ele teria de dividir sua casa com uma família de baianos (o termo pejorativo com que os paulistas botavam num mesmo saco a maioria dos excluídos da época, predominantemente nordestinos).

Registrava a informação, que me parecia um tanto fantasiosa, mas não tinha certeza de que Vovô estivesse errado.

Marcha da Família, 1964: já vi enterros mais animados 
O certo é que os grandes acontecimentos nacionais me interessavam muito pouco, pois pertenciam à realidade ainda distante do mundo adulto.

Na canção em que Caetano descreveu sua partida de Santo Amaro da Purificação para tentar a sorte na cidade grande, ele disse que 
"no dia que eu vim-me embora/ não teve nada de mais", afora um detalhe prosaico: "sentia apenas que a mala/ de couro que eu carregava/ embora estando forrada/ fedia, cheirava mal".

Da mesma forma, o dia que mudou todo meu futuro – seja o 31 de março do calendário dos déspotas, seja o 1º de abril em que a mentira verdadeiramente tomou conta da Nação – não teve nada de mais.

Gostaria de poder afirmar que, logo no primeiro momento, percebi a tragédia que se abatera sobre nós: estávamos começando a carregar uma fedorenta mala sem alça, da qual só nos livraríamos 21 intermináveis anos depois.

Mas, seria abusar da licença poética e eu não minto, nem para tornar mais charmosas as minhas crônicas.

Os mentirosos eram os outros. Os fardados, as embonecadas e os engravatados. (por Celso Lungaretti)
"Pega na mentira, pega na mentira / Corta o rabo
dela, pisa em cima / Bate nela, pega na mentira"

APÓS A ANULAÇÃO DAS CONDENAÇÕES DE DANIEL ALVES E CUCA, OS ESQUERDISTAS DEVERIAM FICAR LONGE DO PUNITIVISMO.

D
epois de tornarem a imagem do jogador Daniel Alves pior que a do Jack, o estripador, as caçadoras de escalpos serão obrigadas a retirar o dele da galeria de troféus, pois a Justiça espanhola detectou um monte de erros e ilegalidades na condução do processo e o anulou por completo. 

Repetiu-se a reviravolta ocorrida no caso de Alexi Stival, o técnico Tite.

Quem pouco entende de assuntos jurídicos se queixa de que haveria provas contra o Daniel Alves sendo atiradas no lixo, mas, quando está em jogo a liberdade de um ser humano, a possibilidade de ter existido tendenciosidade por parte dos operadores da justiça realmente obriga a descartar tudo o que foi feito e, ou desistir-se da acusação, ou refazerem-se todos os procedimentos a partir da estaca zero.

O pior é que não dá para afixar o escalpo novamente na cabeça do cidadão. O dano à sua reputação foi definitivo.

Eu sempre fui contra o envolvimento de esquerdistas em campanhas punitivistas, exceto quando os alvos sejam verdadeiras aberrações monstruosas, como Hitler e Bolsonaro. 

Se um governante é responsável por milhões ou centenas de milhares de vidas roubadas de coitadezas indefesos (como ocorre, p. ex, quando sabota premeditadamente o combate científico a uma pandemia de enorme letalidade), sua impunidade abala os próprios fundamentos da vida civilizada. Nestes casos, sim, devemos lutar por justiça com todas as nossas forças.

Mas, exceto nestas situações extremas, existimos para livrar a humanidade dos  horrores do capitalismo, não para escolher a dedo celebridades que paguem simbolicamente pelos males sociais e nada realmente mudar depois de cada uma dessas catarses primitivas. (por Celso Lungaretti)

domingo, 30 de março de 2025

A INCONTINÊNCIA VERBAL DO LULA PIORA CADA VEZ MAIS

E
m mais uma declaração prá lá de desastrada, o presidente Lula aprovou implicitamente o direito de conquista, mandando às favas o princípio de autodeterminação dos povos, único aceitável para os civilizados:
Eu poderia ser radical contra o Trump. Mas na medida que o Trump toma a decisão de discutir a paz entre Rússia e Ucrânia, que o [ex-presidente Joe] Biden deveria ter tomado, sou obrigado a dizer que está no caminho certo.
Faltou o Lula dizer o óbvio, qual seja que o presidente dos EUA nem de longe está sendo um mediador imparcial do conflito entre sua aliada Rússia e a heroica Ucrânia. Atua apenas no sentido de fazer os ucranianos engolirem a pílula amarga de cederem territórios em troca da cessação de uma guerra que já não conseguem mais sustentar. 

Joe Biden estava certíssimo ao tentar evitar o sucesso de uma empreitada que em tudo e por tudo fazia lembrar as anexações de Hitler na década de 1930, vergonhosamente consentidas pelo premiê britânico Neville Chamberlain, cuja política de apaziguamento da Alemanha nazista foi um completo fracasso.
Ficou provado daquela vez que bem melhor teria sido abortar o ímpeto expansionista de Hitler no nascedouro, como aconselhava Winston Churchill. Deixar o mal crescer só tornou muito mais difícil controlá-lo depois.

Compreende-se que Zelensky, após ser miseravelmente traído pelos Estados Unidos, esteja agora apenas querendo alguma fórmula de a rendição a um inimigo com imensa superioridade de forças e recursos, não parecer ser exatamente o que será: uma mera capitulação. 

O que há para elogiar-se numa infâmia dessas, Lula? (por Celso Lungaretti)

sábado, 29 de março de 2025

GOLPISTAS DE 1964 ERAM PROFISSIONAIS. OS DE 2023 NÃO PASSAVAM DE VIRA-LATAS.

Chegou a ser chocante a incompetência com que os aprendizes de golpistas do 08.01.2023 tentaram seguir os passos dos seus antecessores de 1964, tropeçando nas próprias pernas e deixando um mundo de provas para trás, como se jamais lhes tivesse passado pelas cabeças ocas que seu putsch poderia fracassar, sujeitando os envolvidos na quartelada a severas punições.

É verdade que os castellistas aprenderam com o fracasso de 1961 a evitarem os principais erros cometidos, enquanto os bolsonaristas, depois de muito refugarem, tiveram de partir para o tudo ou nada, sem margem para uma segunda tentativa.

Afora que, como militar de carreira, Jair Bolsonaro jamais chegou aos pés do Castello Branco, tanto que o primeiro era respeitadíssimo por seus pares e o segundo acabou expulso da caserna, obrigado a aposentar a farda da forma mais desonrosa possível.

O esquema dos golpistas de 1964 vinha sendo montado desde a década anterior, mas ainda não estava pronto quando da renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961. 

Os conspiradores nela viram, contudo, uma oportunidade de queimar etapas, daí terem decidido precipitar as coisas: convenceram os comandantes das três Armas a tentarem impedir a posse do vice-presidente legal (João Goulart), que estava ausente, visitando a China em missão oficial.

Como o afobado come cru, eles foram derrotados:
1961: governador valente e general legalista barram o golpe
— pela resistência do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que passou a conclamar o Brasil inteiro a não permitir a usurpação de poder, utilizando para tanto uma rede de emissoras de rádio que se formou espontaneamente  (a Rede da Legalidade);
— pela decisão do comandante do III Exército (RS), o general legalista Machado Lopes, de colocar-se ao lado de Brizola, passando, portanto, a existir a ameaça de militares combaterem uns aos outros, hipótese que sempre horrorizou nossas Forças Armadas; e
— pela firme oposição de cabos e sargentos do Exército e Marinha ao golpe, criando outra divisão entre os fardados.

A crise acabou com a solução conciliatória de se dar posse a Goulart mas instituir-se o parlamentarismo, de forma que os poderes presidenciais foram momentaneamente reduzidos (o plebiscito de janeiro de 1963, contudo, restabeleceu o status quo ante).

Os conspiradores, face ao fracasso inicial, tiveram de repensar todo seu planejamento. Desfecharam perseguições nos quartéis, isolando e transferindo para unidades distantes os líderes dos subalternos que haviam se colocado contra o golpe, enquanto o pusilânime Goulart nada fazia para proteger quem lhe havia sido leal.

E, percebendo que careciam de algum respaldo na coletividade, partiram para a conquista do apoio da classe média conservadora, contando para tanto com o apoio do clero reacionário e de entidades anticomunistas como a TFP e a TFM. Só se considerariam prontos para nova tentativa 20 meses depois.
Arcebispo de SP convenceu seu rebanho a ajudar os lobos
O passo final foi a conquista da caserna, empreitada facilitada pelo apoio crescente que passaram a ter da classe média (afinal, os oficiais eram majoritariamente dela oriundos) e pelos préstimos de provocadores como o cabo Anselmo, que radicalizaram ao máximo a insubordinação dos cabos e sargentos das Forças Armadas contra o oficialato. 

[Meu saudoso companheiro na VPR, o José Raimundo da Costa, o Moisés, era um dos líderes dos marinheiros e nunca quis acreditar que Anselmo fosse um infiltrado, embora já existissem suspeitas. 

O Moisés me contou como ele e os marujos atiraram no mar um capitão que veio prendê-lo. O oficial, furibundo com a humilhação que sofrera, ingressou no Cenimar após o golpe e o que mais fez foi perseguir o Moisés, com o propósito obsessivo de capturá-lo para o torturar até a morte.]

O que os oficiais mais prezam é sua autoridade. E, dias antes do golpe, a viram estridentemente ultrapassada por Jango. 

Com o mandato cada vez mais ameaçado, Goulart havia finalmente descido do muro; daí ter ousado proibir a prisão de marinheiros e fuzileiros navais responsáveis por uma comemoração levada a efeito depois de vetada pelos escalões superiores. Foi a gota d'água: o oficialato alinhou-se em massa com o golpe. 
Johnson gostava de ser clicado como Texas ranger

A ruptura da ordem legal àquela altura já estava sendo amplamente requerida pelos capitalistas e latifundiários, além de endossada pelo presidente Lyndon Johnson.

A CIA favorecia e financiava os conspiradores há muito tempo, mas John Kennedy, caso tivesse sobrevivido ao atentado de Dallas, dificilmente lhe daria sinal verde, assim como não autorizou a disponibilização de cobertura aérea para a invasão da Baía dos Porcos, crucial para o sucesso da empreitada, mas que deixaria as digitais dos EUA impressas numa flagrante interferência na política interna de um país soberano (Cuba). 

A posse em 22 de novembro de 1963 de Johnson, um texano anticomunista que comeria na mão da CIA, significou a remoção de um importante obstáculo para o golpe, tanto que, a partir daí, só transcorreriam quatro meses e uma semana até Olympio Mourão Filho começar a descer a BR-3 (hoje rodovia BR-040) com suas tropas.

Enfim, com idênticas intenções. os golpistas de 1964 foram profissionais ao planejarem e executarem a tomada ilegal do poder, enquanto os de 2023 pavimentaram o caminho do fracasso com uma sucessão interminável de erros e lambanças.

Se, por um milagre, gente tão despreparada como os bolsonaristas lograsse êxito, teríamos obtusos irascíveis no poder. Seus principais quadros eram vira-latas mesmo para os pouco exigentes padrões da direita brasileira. 
            
                                  (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 28 de março de 2025

O CORINTHIANS AGORA TEM TIME PARA DISPUTAR TÍTULOS. MAS, ATÉ QUANDO?

P
restes a completar seis anos sem ganhar títulos, o Corinthians finalmente pôs fim ao constrangedor jejum, conquistando o campeonato paulista com vitória de 1x0 e empate por 0x0 contra o Palmeiras. 

Não foram grandes partidas, mas mobilizaram as respectivas torcidas como há muito não se via em São Paulo; o fato de estarem enfrentando o maior rival pesou mais do que a pouca importância do chamado Paulistinha na atualidade. 

Agora quem tem de aturar os buchichos sobre decadência é o Palmeiras, cujo apogeu sob Abel Ferreira ficou mesmo para trás: desde que o treinador português assumiu em 2020, o Palmeiras não passava em branco, consecutivamente, pela Libertadores, Brasileirão, Copa do Brasil e campeonato paulista. Acaba de o fazer.

Há grande chance de, desta vez, o Abel cumprir o que vem ameaçando faz algum tempo: voltar para Portugal. Pois o time por ele montado está fazendo água por todos os lados e o gajo não vem encontrando a fórmula da remontagem  
Como desgraça pouca é bobagem, o melhor jogador palmeirense, Estevão, está indo para o Chelses.

Quanto ao Corinthians, tem neste instante um time capaz de desafiar a provável hegemonia do Flamengo... desde que não seja desfigurado já na próxima janela de transferências. 

Parece que Garro e Yuri Alberto já receberam excelentes propostas do exterior e foram convencidos por Memphis Depay a ficarem mais um pouco, até que o Corinthians conquistasse algum título.

O próprio Depay também deverá voltar a ser objeto do desejo de grandes clubes europeus, agora que ficou comprovada sua recuperação da lesão que o mantinha afastado dos gramados desde julho de 2024. 

Quanto ao Hugo Souza, o goleiro-sensação cujas defesas de pênaltis têm sido fundamentais para a boa fase corinthiana, por enquanto jura amor eterno ao timão. Outros já o fizeram no passado e depois não resistiram ao canto dessas mesmas sereias. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 26 de março de 2025

NA POLÍTICA COMO NO FUTEBOL, ONTEM FOI O DIA DO ÓBVIO ULULANTE

No primeiro dia do julgamento por meio do qual a primeira turma do STF tornará réus os principais golpistas do 11.01.23, uma montanha impressionante de provas de todo tipo soterrou a defesa dos que todos sabemos serem culpados no mais alto grau.

Percebeu-se que os cúmplices do vilão maior já o atiraram ao mar, repetindo o procedimento que ele próprio sempre adotou com aqueles que o serviam, quando se tratava de salvar a própria pele. 

Assim, os advogados deles mal contestavam as condutas da Polícia Federal, da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal Federal,  empenhados, isto sim, em tentarem tornar crível a lorota de que os figurões que defendem estavam no meio de toda a confusão, mas não moveram uma palha para derrubar e assassinar o presidente democraticamente eleito. 

Os patronos do Jair Bolsonaro poderiam alegar o mesmo sobre eles todos, mas nem crianças do jardim da infância acreditariam. 

Pelo cheiro da brilhantina, antecipo, sem o mais ínfimo receio de errar, que, além de sair desse julgamento como réu, o fará a caminho de inevitável condenação nos que virão em seguida, salvo se voltar a esconder-se em alguma embaixada da antiga cortina de ferro (as voltas que o mundo dá!) ou na Disneylândia (se o imprevisível Trump já não tiver desencanado dele como serviçal tropical).

Mas, a estapafúrdia ida do Eduardo Bolsonaro para espalhar fake news noutras freguesias tem todo jeitão de ser o plano Z para depois que os demais planos infalíveis floparem: apoiar o bananinha na eleição presidencial de 2026.
Parece ter esquecido que o Lula tentou a mesmíssima jogada quanto estava tão inelegível quanto Bolsonaro estará no próximo ano. A única diferença foi que Lula se fez substituir por um afilhado político sem nenhum carisma ao invés de por um filhote grosseirão metido a besta. 

E o desfecho promete ser também o de dar com os burros n'água, já que no Brasil, manda quem tem mandato podero$o e obedece quem tem juízo. Depois de muito jogo de cena e das escaramuças previsíveis, o candidato da extrema-direita só não será o governador Tarcísio de Freitas (SP) se ele não quiser. Quererá.

TÉCNICO QUE NÃO SERVE PARA JOGO GRANDE -- Quanto ao futebol, a goleada da Argentina já se desenhara quando, na semana passada, os campeões do mundo derrotaram o forte selecionado do Uruguai em Montevidéu e nosso escrete precisou de um gol lotérico para, jogando muito mal, vencer a Colômbia em Brasília.  

Não deu outra. Perdidinho da Silva, Dorival Jr. escalou seis jogadores diferentes para iniciarem a partida e, em apenas 12 minutos, já perdia por 2x0, fora o baile. 

Repetindo a tolice do Felipão nos 7x1 contra a Alemanha, enfraqueceu o setor que os adversário tinham de melhor, o meio de campo. Os hermanos até foram caridosos, pois poderiam ter facilmente marcado o dobro de gols, se quisessem.

Nas oito partidas que nossa seleção disputou com Dorival Jr. no banco, o aproveitamento até que não foi tão ruim (62,5%), levando em conta que o Equador, segundo colocado, está com 61%. 

Mas, ficou evidenciado que ele não é técnico para jogos grandes, de forma que precisaremos de alguém bem melhor na Copa propriamente dita. 

O vareio que levamos da Argentina vai causar sua demissão na próxima sexta-feira (28), embora talvez fosse preferível mantê-lo nos quatro jogos inúteis que restam das eliminatórias sul-americanas (a classificação do Brasil  são favas contadas) e fazer uma escolha mais criteriosa. 

Eu iria de Jorge Jesus, porque o Flamengo de 2019. por ele treinado, foi o clube brasileiro que mais honrou nossas tradições futebolísticas no presente século. (por Celso Lungaretti)     

segunda-feira, 24 de março de 2025

O MUNDO GIRA, A LUSITANA RODA. MAS O ANÚNCIO DE JORNAL BACANA CONTINUA SEMPRE O MESMO

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tá no Estadão de hoje a informação de que até 2030, a consultoria Bain estima que haverá 1,5 milhão de brasileiros de alta renda acumulando US$ 1,1 trilhão, com capacidade de consumir artigos de grandes grifes.

A notícia celebra o fato de que, enquanto noutros países a desigualdade social diminui, no Brasil continua aumentando (o céu é o limite!): 
Apesar da desaceleração do setor em grandes mercados como Estados Unidos, Europa e China, o Brasil segue na contramão, com um aumento no interesse por bens exclusivos e de alto valor.
Nada mudou, portanto, desde que, em 1966, Ary Toledo interpretava no Fino da Bossa a composição de César Roldão Vieira cujos trechos reproduzo abaixo. Quase seis décadas depois, continuamos sendo o país do privilégio de poucos e do miserê de muitos.

O fictício anúncio de jornal citado na música é o seguinte:
Compra-se casa, mansão ou palacete no Jardim América, com um mínimo de 17 quartos para criadagem e sala de estar, de jogar, de dançar, de fumar, de brilhar, salões de chá, café e chocolate, piscina, jardim de inverno e de outono, quintal onde se possa praticar esportes caseiros como hipismo, golfe, tênis e bola-ao-cesto. 
Não podem faltar acomodações dignas para cães, gatos e onças de pequeno porte (de preferência com aquecimento interno), sendo também desejável a existência de um pequeno aeroporto de dimensões internacionais...
E a conclusão do cantador, ecoando a voz dos brasileiros explorados, humilhados e ofendidos, é a seguinte (mas os grandes empreendedores imobiliários estão se lixando para ela): 
Quando eu era menino, tinha um cachorro
e uma beleza de canarinho.
Tudo passou, daqui a pouco eu morro
e é só tristeza no meu caminho... 

Eu só queria um boi, uma vaca magra
e um casebre para morar,
batendo a foice, facão, enxada,
ganhar da terra o que a terra dá!
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