Qual a relação entre o preço dos ovos, as tarifas de Trump e a corrida armamentista da Europa? A relação é aquilo já descortinado por Marx no século XIX e que segue atual porque permanecemos essencialmente na mesma sociedade escrutinada por ele: a lei do valor.
Obviamente, não se pode negar as diferenças entre o capitalismo do século XIX e o do século XXI, mas tais diferenças estão dadas na configuração fenomênica e nas complexificações sociais estabelecidas ao longo dos últimos 150 anos, pois, por exemplo, não havia internet, shopping centers ou aviões na época de Marx. Contudo, na raiz da sociedade, em seu fundamento, o capitalismo segue sendo uma forma econômica fundamentada na propriedade privada dos meios de produção, atravessada pelo drama antagônico entre produção social e acumulação privada, crescimento produtivo e decrescimento do valor, crescimento da riqueza e explosão da miséria. Em nossa época, os aviões, a internet e os shoppings centers seguem sendo propriedade da burguesia e isso faz o capitalismo seguir sendo o que é, uma sociedade alicerçada em oposições, urdida em antagonismos inconciliáveis cujas tensões se amenizam em períodos de expansão do capital e explodem em períodos contracionistas. Essa é a lei do valor, tão objetiva quanto a gravidade, embora originada não da natureza, mas da história humana.
A lei do valor explica Trump, explica o alto custo de vida e a corrida armamentista. Não se tratam de loucura, ganância ou a natureza belicista do ser humano, mas da aguda crise do capital vivida em nossa época. Desde o fim da segunda guerra mundial, o capitalismo engatou ciclos de crescimento razoavelmente estáveis, quebrados por ciclos depressivos, mas medidas de reorganização econômica conseguiam trazer novo impulso à acumulação. Assim, o fim dos anos dourados (1945-1970), quando o capitalismo cresceu sob o cadáver de milhões de mortos da grande guerra e sob os escombros de sua titânica destruição, foi seguido pela reorganização neoliberal, com o afrouxamento de regras trabalhistas, perdas de direitos sociais, incentivo à integração internacional e aprofundamento da financeirização. Naquele momento, o importante era concretizar um novo arranjo no sistema produtivo mundial, caracterizado agora pelo princípio do just in time, com a a produção ajustada a uma demanda não mais espontânea, mas rigorosamente induzida por sofisticados mecanismos de propaganda.
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Thatcher ajudou a implementar o neoliberalismo, com mão de ferro. |
A nova configuração produtiva do mundo alongou as cadeias de valor e redistribuiu a divisão internacional do trabalho. Uma mesma mercadoria passou a ter suas partes fabricadas em países diferentes, aproveitando as vantagens setoriais de cada um, sendo que o núcleo duro do setor fabril se mudou para as regiões da periferia capitalista, onde a mão de obra é mais barata e a democracia mais fraca.
Organizações multilaterais, tratados de livre comércio, reduções de barreiras aduaneiras, tudo isso foi o mote desse período porque as cadeias de valor precisavam circular livre e rapidamente. Quando fosse preciso comprar um carregamento de chips na China e enviar para os EUA, esse processo deveria ser ligeiro, sob pena de paralisação da cadeia de valor, e, por isso, não poderia haver muitos entraves para a saída dos chips na China e sua introdução nos EUA: os chips teriam estar prontos para serem despachados, passar para o transporte e serem levados por mar, céus e terra até o consumidor final. Em cada etapa do processo, o chip mudaria de mãos, mobilizando inúmeras empresas e intermediários, necessitando que a engenharia fiscal fosse a mais simples possível, com baixas alíquotas de imposto e sem muita burocracia, pois do contrário se elevaria o preço final do produto e a pulverização produtiva se tornaria inviável. A liquidez nesse contexto é essencial para permitir pagamentos ágeis e por isso o sistema financeiro é tão primordial.
No entanto, o capitalismo vive há anos uma condição estagnada, com crescimento baixo. Alguns acreditavam que o just in time anularia a crise de superprodução, ignorando estar essa crise não em estoques abarrotados, mas na lógica de sempre ampliar a produção para compensar a perda relativa de valor. Mercadorias mais baratas só podem significar mais mercadorias sendo colocadas à venda. A manipulação da demanda através de estratégias de propaganda, obsolescência programada e a indução ao consumo supérfluo não anulam a lei da perda tendencial de valor. Acelera-se o tempo de absorção das mercadorias pela sociedade para compensar a inexistência de depósitos e pátios lotados, mas a materialidade da superprodução pode ser claramente vista nas toneladas de lixo, esgoto e resíduos de toda espécie que se acumulam no planeta. Podem ser vistas também nas incessantes mudanças de postos de trabalho a que são forçados os trabalhadores, sempre em vista de atender a uma mudança no fluxo das cadeias produtivas do capitalismo.
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União Europeia é exemplo de integração de mercados nacionais. |
Tal como antes, a tendência da queda do lucro leva à crise, primeiro localizada, depois generalizada. A inflação é um sintoma dessa crise, pois ela aparece diante da falência e da quebra das cadeias de valor, reduzindo ofertas, encarecendo financiamentos ou emperrando a circulação de produtos.
De acordo com o momento, a resposta do capital à crise pode variar. Na década de 1970, a resposta foi o aprofundamento da liberalização mundial da economia, o combate ao protecionismo e a flexibilização das barreiras. Agora, a resposta parece ser a oposta, o aprofundamento do protecionismo e o fortalecimento das barreiras, o que é chamado pelos teóricos liberais de desglobalização, termo equivocado, pois o capitalismo é em sua própria natureza um processo contínuo de globalização, pautado nos Estado-Nações.
O Estado-Nação é o quartel-general dos burgueses. É para ele que se voltam quando a situação está crítica, pois possuem nele um mercado cativo, acesso à estrutura militar, jurídica e policial capaz de defender seus interesses e posses nos momentos mais dramáticos da crise do capital. É a partir dele também que podem levar adiante outro impulso expansionista.
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Brexit foi o primeiro grande evento de restauração do nacionalismo. |
Hoje o principal motor econômico é a indústria militar. Esse setor vem puxando a frágil reprodução do valor, impedindo uma derrocada generalizada. Não à toa, a guerra da Ucrânia e o massacre contra o povo palestino têm sido fundamentais para a venda de armamentos. A Europa também entrou no processo de ser rearmar para manter sua frágil economia com sinais de vida. Obviamente, um recrudescimento do militarismo só pode ser feito se criando o famoso inimigo externo, e por isso os líderes europeus transformaram Putin no demônio e a Rússia no monstro engolidor de mundos.
Por isso, o cada vez mais fascistizado Macron foi recentemente à TV fazer discurso belicista, digno de Napoleão III, exortando os franceses a morrerem pela pátria. Puro e simples revival de 1914, quando os trabalhadores da Europa foram conclamados a morrerem nas trincheiras por seus Estado-Nações, ou seja, por suas burguesias. O roteiro parecia ter caído em desuso em 1945, mas após décadas de colapso das esquerdas e de hegemonia liberal, o discurso rançoso de se sacrificar pela pátria pode retornar com força.
O nacionalismo retorna e com ele todos os seus elementos próprios: xenofobia e protecionismo. O ódio ao estrangeiro é irmão do ódio ao produto estrangeiro. As barreiras comerciais e alfandegárias são elevadas em prol da proteção ao mercado interno e defender a nação do estrangeiro, do inimigo externo, seja ele o chinês ou o russo, passa a ser prioridade. A mensagem da burguesia é clara: sacrifiquem-se em prol da pátria, primeiro pagando mais caro, depois nos campos de batalha.
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Com seu governo em frangalhos, Macron quer que os franceses morram pela pátria. |
É assim que Macron e Trump acabam por dar as mãos. Ambos levam a cabo o empreendimento ditado por suas burguesias em resposta à crise do capital. E outras lideranças seguem a prática ao redor do planeta, com maior ou menor tônica conclamam seus povos a se galvanizarem em torno da pátria, ou seja, em torno dos patrões. O mundo vai se despedaçando e se encaminhando para o possível desfecho trágico: a guerra mundial. Rosa Luxemburgo já colocava, a economia imperialista só pode levar à guerra imperialista. O confronto total é o momento de salvação do capitalismo porque é nele que pode ocorrer a queima maior e titânica de valor, em infraestrutura e vidas humanas, ao mesmo tempo que consegue puxar a indústria explorando o trabalho a salários irrisórios, forçando a venda de insumos a preços rebaixados e expropriando tudo o que for possível, até mesmo os capitalistas mais frágeis. Para se salvar, o capitalismo engole a si mesmo. Resta saber se o mundo sobreviverá a mais essa queima de capitais, pois agora a queima pode ser com combustível nuclear.
Enquanto isso, a esquerda segue bestificada, entre o ilusionismo liberal de defesa da democracia e a miséria de do oportunismo. (por David Coelho)