Prestes a completar seis anos sem ganhar títulos, o Corinthians finalmente pôs fim ao constrangedor jejum, conquistando o campeonato paulista com vitória de 1x0 e empate por 0x0 contra o Palmeiras.
Não foram grandes partidas, mas mobilizaram as respectivas torcidas como há muito não se via em São Paulo; o fato de estarem enfrentando o maior rival pesou mais do que a pouca importância do chamadoPaulistinhana atualidade.
Agora quem tem de aturar os buchichos sobre decadência é o Palmeiras, cujo apogeu sob Abel Ferreira ficou mesmo para trás: desde que o treinador português assumiu em 2020, o Palmeiras não passava em branco, consecutivamente, pela Libertadores, Brasileirão, Copa do Brasil e campeonato paulista. Acaba de o fazer.
Há grande chance de, desta vez, o Abel cumprir o que vem ameaçando faz algum tempo: voltar para Portugal. Pois o time por ele montado está fazendo água por todos os lados e o gajo não vem encontrando a fórmula da remontagem
Como desgraça pouca é bobagem, o melhor jogador palmeirense, Estevão, está indo para o Chelses.
Quanto ao Corinthians, tem neste instante um time capaz de desafiar a provável hegemonia do Flamengo... desde que não seja desfigurado já na próxima janela de transferências.
Parece que Garro e Yuri Alberto já receberam excelentes propostas do exterior e foram convencidos por Memphis Depay a ficarem mais um pouco, até que o Corinthians conquistasse algum título.
O próprio Depay também deverá voltar a ser objeto do desejo de grandes clubes europeus, agora que ficou comprovada sua recuperação da lesão que o mantinha afastado dos gramados desde julho de 2024.
Quanto ao Hugo Souza, ogoleiro-sensaçãocujas defesas de pênaltis têm sido fundamentais para a boa fase corinthiana, por enquanto jura amor eterno ao timão. Outros já o fizeram no passado e depois não resistiram ao canto dessas mesmas sereias.(por Celso Lungaretti)
Eu era menino quando o Corinthians vivia a maior seca de títulos da sua história, 23 anos de agonia.
Meu pai gostava de me falar sobre o último grande esquadrão, campeão paulista de 1951, 1952 e 1954, que tinha Gylmar, Cláudio, Luísinho, Baltazar. Dizia que nenhum torcedor corinthiano saía do estádio antes do apito final, pois era comum o gol de empate ou de desempate acontecer no apagar das luzes. Tratava-se de um time heroico, que fazia das tripas, coração para evitar um placar desfavorável.
E não é que hoje, seis décadas depois, o Corinthians voltou a ser um time heroico?! Sem poder contratar jogadores caros porque está pagando as dívidas de sua arena; com um técnico (Fábio Carille) no qual ninguém acreditava mas, em 16 meses de trabalho, já se coloca entre os mais vencedores pelo timão em todos os tempos (um campeonato brasileiro e dois paulistas); e com um elenco extremamente unido e esforçado, vai atingindo seus objetivos mais na base do heroísmo do que do brilhantismo.
Foi brilhante, sim, em 2017, nas partidas finais do Paulistão e no 1º turno do Brasileirão, mas por conta das inovações táticas do Carille e por ainda contar com um homem-gol que fazia a diferença (Jô).
Em 2018, nem isto. A forma de o Corinthians jogar, dando a posse de bola ao adversário e apostando no contra-ataques, foi assimilada e anulada pelos adversários. Perdeu três titulares importantes (Jô, Arana e Pablo) e só conseguiu um substituto à altura para o terceiro (Henrique). Jô faz enorme falta.
Mas, acaba de ser bi do Paulistão graças à disciplina tática e ao espírito vencedor. Nos mata-mata decisivos, contra Bragantino, São Paulo e Palmeiras, perdeu sempre a primeira partida e reverteu a situação na segunda.
Estava sendo desclassificado até os 47 minutos do 2º tempo pelo São Paulo quando deu um branco na defesa tricolor e Rodriguinho, com seu 1,77 m de altura, subiu sozinho para mandar às redes uma cobrança de escanteio. Depois, na decisão por pênaltis, o gigantesco goleiro Cássio defendeu dois e garantiu a vaga.
Neste domingo, quase a mesma coisa, só que o gol do Rodriguinho aconteceu na outra ponta da partida, 1m30 de jogo. Passou o resto do tempo se defendendo com perfeição, sem oferecer chances nítidas de gol para o Palmeiras. E, nos pênaltis, Cássio repetiu a dose, pegando dois (o primeiro com menos dificuldade, o segundo espetacularmente, como da outra vez).
Isto apesar de todas as desvantagens: enfrentava o clube brasileiro que atualmente mais investe em reforços, jogando na arena adversária, tendo torcida única contra si e já começando a final em desvantagem (o 0x1 do jogo anterior). Em matéria de superação, um feito inesquecível, típico de um time heroico.
Sempre prezei mais a inspiração do que a transpiração; gosto mesmo é do futebol-arte, com lances geniais, como o da Seleção Brasileira de 1958, 1970 e 1982 e o da democracia corinthiana do doutor Sócrates.
Mas, têm lá seu encanto esses times heroicos que parecem ser a alegria que nos resta depois do êxodo dos nossos melhores talentos para a Europa.
A perda de qualidade acaba determinando um aumento da dramaticidade. E podemos, pelo menos, vibrar com os Davis que obtêm conquistas improváveis, detonando o favoritismo dos Golias. A dúvida é: até quando o torcedor se dará por satisfeito com a emoção, sem ligar para outros detalhes. Como, p. ex., o de que, nas seis partidas finais do Paulistão, disputadas apenas pelos grandes, tivemos cinco 1x0 e um único e mísero 2x1, levando as três decisões para os pênaltis.