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segunda-feira, 31 de março de 2025

MINHAS IMPRESSÕES DE MENINO NO DIA EM QUE A MENTIRA SE ABATEU SOBRE NÓS

"Auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança (...), antes
te houvessem roto na batalha, que servires a um povo de mortalha!" (Castro Alves)
E
u tinha 13 anos no dia 1º de abril de 1964, verdadeira data da usurpação do poder por parte de conspiradores que a vinham tentando praticamente desde 1954.

Os pretextos que alegaram para derrubar o presidente legítimo João Goulart eram mentirosos, daí terem intitulado a quartelada de Revolução de 31 de março, embora nem fosse revolução, nem tivesse ocorrido na véspera do Dia da Mentira, mas sim no próprio.

Foi uma vã tentativa de evitarem a piada pronta. A utilização descarada de fake news por parte dos ultradireitistas vem de longe...

Puxando pela memória, só consigo me lembrar de que a TV vendia o golpe de estado em grande estilo, insuflando tamanha euforia patrioteira que os cordeirinhos faziam fila para atender ao apelo dê ouro para o bem do Brasil!.

Matronas iam orgulhosamente tirar suas alianças e oferecê-las aos salvadores da Pátria, torcendo para que as câmeras as estivessem focalizando naquele momento solene.
Desde muito cedo eu peguei bronca dessas situações em que a multidão se move segundo uma coreografia traçada por alguém acima dela, com cada pessoa tanto esforçando-se para representar tão bem seu papel... que acaba parecendo, isto sim, artificial e canhestra.

De paradas de 7 de setembro a procissões, eu não suportava a falsa uniformidade. Gostava de ver cada indivíduo sendo ele próprio, igual a todos e diferente de todos ao mesmo tempo.

No mais, dê ouro para quê? Para a compra de instrumentos de tortura?! Era mais do que previsível e foi o que acabou acontecendo. Ingenuidade demais não cheira bem.

E, na preparação do clima para a sedição, houvera a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade. Aquelas senhoras embonecadas e aqueles senhores engravatados me pareceram sumamente ridículos.

Aqui cabe uma explicação: duas fortes influências me indispunham contra o patético desfile daquela classe média abasta(rda)da, que detestava tanto o comunismo quanto o samba, talvez porque fosse ruim da cabeça e doente do pé.
Já dizia P. T. Barnum: nasce um otário a cada minuto
Minha família era kardecista e, quando eu tinha 8, 9 anos, me levava num centro espírita cujo orador falava muito bem... e era anticatólico visceral.

A cada semana recriminava a riqueza e a falta de caridade da Igreja, contrastando-a com a miséria do seu rebanho. Cansava de repetir que Cristo expulsara os vendilhões do templo, mas estes estavam todos encastelados no Vaticano.

Vai daí que, cabeça feita por esse devoto tardio do cristianismo das catacumbas, eu jamais poderia aplaudir um movimento de católicos opulentos.

E devorara a obra infantil de Monteiro Lobato inteira. Com ele aprendera a prezar a simplicidade, desprezando a ostentação e o luxo; a respeitar os sábios e artistas, de preferência aos ganhadores de dinheiro.

Mas, afora essa rejeição, digamos,  estética, eu não tinha opinião sobre a tal da  Redentora.

Escutava meu avô dizendo que, se viesse o comunismo, ele teria de dividir sua casa com uma família de baianos (o termo pejorativo com que os paulistas botavam num mesmo saco a maioria dos excluídos da época, predominantemente nordestinos).

Registrava a informação, que me parecia um tanto fantasiosa, mas não tinha certeza de que Vovô estivesse errado.

Marcha da Família, 1964: já vi enterros mais animados 
O certo é que os grandes acontecimentos nacionais me interessavam muito pouco, pois pertenciam à realidade ainda distante do mundo adulto.

Na canção em que Caetano descreveu sua partida de Santo Amaro da Purificação para tentar a sorte na cidade grande, ele disse que 
"no dia que eu vim-me embora/ não teve nada de mais", afora um detalhe prosaico: "sentia apenas que a mala/ de couro que eu carregava/ embora estando forrada/ fedia, cheirava mal".

Da mesma forma, o dia que mudou todo meu futuro – seja o 31 de março do calendário dos déspotas, seja o 1º de abril em que a mentira verdadeiramente tomou conta da Nação – não teve nada de mais.

Gostaria de poder afirmar que, logo no primeiro momento, percebi a tragédia que se abatera sobre nós: estávamos começando a carregar uma fedorenta mala sem alça, da qual só nos livraríamos 21 intermináveis anos depois.

Mas, seria abusar da licença poética e eu não minto, nem para tornar mais charmosas as minhas crônicas.

Os mentirosos eram os outros. Os fardados, as embonecadas e os engravatados. (por Celso Lungaretti)
"Pega na mentira, pega na mentira / Corta o rabo
dela, pisa em cima / Bate nela, pega na mentira"

quinta-feira, 28 de março de 2024

O DIA EM QUE COMEÇAMOS A CARREGAR UMA FEDORENTA MALA SEM ALÇA , DA QUAL SÓ NOS LIVRARÍAMOS 21 ANOS DEPOIS

"Auriverde pendão de minha terra...  antes te houvessem roto
na batalha que servires a um povo de mortalha" (Castro Alves)
Eu tinha 13 anos no dia 1º de abril de 1964, verdadeira data da usurpação do poder por parte de conspiradores que a vinham tentando praticamente desde 1954.

Os pretextos que alegaram para derrubar o presidente legítimo João Goulart eram mentirosos, daí terem intitulado a quartelada de Revolução de 31 de março, embora nem fosse revolução, nem tivesse ocorrido na véspera do Dia da Mentira, mas sim no próprio.

Foi uma vã tentativa de evitarem a piada pronta. A utilização descarada de fake news por parte dos ultradireitistas vem de longe...

Puxando pela memória, só consigo me lembrar de que a TV vendia o golpe de estado em grande estilo, insuflando tamanha euforia patrioteira que os cordeirinhos faziam fila para atender ao apelo dê ouro para o bem do Brasil!.

Matronas iam orgulhosamente tirar suas alianças e oferecê-las aos salvadores da Pátria, torcendo para que as câmeras as estivessem focalizando naquele momento solene.

Desde muito cedo eu peguei bronca dessas situações em que a multidão se move segundo uma coreografia traçada por alguém acima dela, com cada pessoa tanto esforçando-se para representar tão bem seu papel... que acaba parecendo, isto sim, artificial e canhestra.
De paradas de 7 de setembro a procissões, eu não suportava a falsa uniformidade. Gostava de ver cada indivíduo sendo ele próprio, igual a todos e diferente de todos ao mesmo tempo.

No mais, dê ouro para quê? Para a compra de instrumentos de tortura?! Era mais do que previsível e foi o que acabou acontecendo. Ingenuidade demais não cheira bem.

E, na preparação do clima para a sedição, houvera a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade. Aquelas senhoras embonecadas e aqueles senhores engravatados me pareceram sumamente ridículos.

Aqui cabe uma explicação: duas fortes influências me indispunham contra o patético desfile daquela classe média abasta(rda)da, que detestava tanto o comunismo quanto o samba, talvez porque fosse ruim da cabeça e doente do pé.

Minha família era kardecista e, quando eu tinha oito, nove anos, me levava num centro espírita cujo orador falava muito bem... e era anticatólico visceral.
Já dizia P. T. Barnum: nasce um otário a cada minuto
A cada semana recriminava a riqueza e a falta de caridade da Igreja, contrastando-a com a miséria do seu rebanho. Cansava de repetir que Cristo expulsara os vendilhões do templo, mas estes estavam todos encastelados no Vaticano.

Vai daí que, cabeça feita por esse devoto tardio do cristianismo das catacumbas, eu jamais poderia aplaudir um movimento de católicos opulentos.

E devorara a obra infantil de Monteiro Lobato inteira. Com ele aprendera a prezar a simplicidade, desprezando a ostentação e o luxo; a respeitar os sábios e artistas, de preferência aos ganhadores de dinheiro.

Mas, afora essa rejeição, digamos,  estética, eu não tinha opinião sobre a tal da  Redentora.

Escutava meu avô dizendo que, se viesse o comunismo, ele teria de dividir sua casa com uma família de baianos (o termo pejorativo com que os paulistas botavam num mesmo saco a maioria dos excluídos da época, predominantemente nordestinos).

Registrava a informação, que me parecia um tanto fantasiosa, mas não tinha certeza de que Vovô estivesse errado.

O certo é que os grandes acontecimentos nacionais me interessavam muito pouco, pois pertenciam à realidade ainda distante do mundo adulto.
Marcha da Família, 1964: já vi enterros mais animados 

Na canção em que Caetano descreveu sua partida de Santo Amaro da Purificação para tentar a sorte na cidade grande, ele disse que 
"no dia que eu vim-me embora/ não teve nada de mais", afora um detalhe prosaico: "sentia apenas que a mala/ de couro que eu carregava/ embora estando forrada/ fedia, cheirava mal".

Da mesma forma, o dia que mudou todo meu futuro – seja o 31 de março do calendário dos déspotas, seja o 1º de abril em que a mentira tomou conta da Nação – não teve nada de mais.

Gostaria de poder afirmar que, logo no primeiro momento, percebi a tragédia que se abatera sobre nós: estávamos começando a carregar uma fedorenta mala sem alça, da qual só nos livraríamos 21 intermináveis anos depois.

Mas, seria abusar da licença poética e eu não minto, nem para tornar mais charmosas as minhas crônicas.

Os mentirosos eram os outros. Os fardados, as embonecadas e os engravatados. (por Celso Lungaretti)
"Pega na mentira, pega na mentira / Corta o rabo
dela, pisa em cima / Bate nela, pega na mentira"

sábado, 25 de setembro de 2021

OS 5 DIAS DE ISOLAMENTO NÃO VÃO CURAR BOLSONARO, O JEITO É DESINFETÁ-LO E ISOLÁ-LO DE FORMA DEFINITIVA

Bolsonaro e seus fâmulos armaram em Nova York um picadeiro de fazer inveja a P. T. Barnum (1810-1891), a quem é atribuída uma frase que sintetiza o mundo dos espetáculos: "Nasce um otário por minuto". 

Em seus circos, o empresário explorava anões, mulheres barbadas, irmãos siameses e o famoso elefante Jumbo. 

O presidente levou em sua comitiva ministros que deixam a cueca à mostra, dão o dedo do meio e fazem arminha, além de um filho que, entrevistado na TV, chamou o prefeito da maior cidade americana de marxista.

Barnum se autointitulava King of Humbug —algo como rei da cascata ou da trapaça. Bolsonaro quer roubar-lhe a coroa. 

Nas preliminares do discurso na ONU, encenou o conto do homem simplório. Comeu pizza no meio da rua e pediu picanha bem passada (burp!) na churrascaria, reprisando a farsa doméstica de se lambuzar com leite condensado no café da manhã. O prato custa US$ 50, por cabeça, mais do que o auxílio emergencial.
Único chefe de Estado na reunião do G20 a se vangloriar por não ter tomado a vacina, sua fala resumiu em 13 minutos as mentiras que os brasileiros estamos cansados de ouvir. 

Em alguns trechos, ao comparar o cristianismo e a família tradicional aos pilares da sociedade, mostrou que está c. e andando para o Brasil. Só pensa na reeleição. O destino do projeto que enviou ao Congresso fragilizando o combate a
fake news é o que mais lhe interessa no momento.

No entanto, a temporada no estrangeiro revelou duas boas propostas para o país. A primeira com a visão da funcionária da ONU encarregada de desinfetar o pódio no qual discursaram os governantes, vacinados ou não. 

A segunda com a soberba do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que, deixando o nariz fora da máscara, contraiu o vírus e terá de ficar isolado em Nova York.

Ante a demora do impeachment de Bolsonaro, encontrou-se a solução: desinfetá-lo e isolá-lo. Não por cinco dias e sim de maneira definitiva. (por Álvaro Costa e Silva)

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

NASCE UM OTÁRIO A CADA MINUTO E TODOS SÃO FACILMENTE MANIPULADOS PELOS CHARLATÃES ULTRADIREITISTAS

 rui martins
ANTES A MORTE DO QUE A VACINA
R
ecebi pelo WhatsApp um vídeo do YouTube, falado em espanhol, alertando contra as próximas vacinas, enviado por um de meus primos. 

Ele é um dos milhões infectados pela crença em complôs e conspirações, agora centrados na criação e utilização das próximas vacinas por sociedades secretas e farmacológicas interessadas em dominar o mundo e transformar os homens em seres controlados e teleguiados. Sua decisão já foi tomada: não vai se vacinar!

Tudo começou há alguns anos com as mensagens anônimas ligadas ao Pizzagate, segundo as quais os principais dirigentes democratas da campanha de Hillary Clinton seriam pedófilos. 

Logo depois da vitória de Donald Trump, a primeira mensagem, há três anos, com a simples assinatura de Q, tratava de um possível extradição de Hillary Clinton. 

A seguir, outra mensagem secreta de Q, supostamente um alto funcionário do governo estadunidense, revelava ser um robô, instalado pela CIA, o presidente da Coréia do Norte. Em pouco tempo, Q e seus anônimos seguidores, QAnon, assumiram a divulgação de teorias conspiratórias, alimentadas por adeptos do presidente Trump.

Agora, com a derrota de Trump e o controle do mundo pelo coronavírus, os conspiradores deixam de lado os complôs políticos e militares, passando a disseminar boatos e falsas informações médicas e sanitárias relacionados com os próximos programas de vacinação. 

No fundo a ideia é a mesma –haveria um movimento secreto mundial para dominar-se a humanidade. 

E agora isto se daria por meio da vacinação em massa de quase todos os habitantes do planeta, com a trama sendo consumada no ato da vacina, quando também se inocularia um chip eletrônico nas pessoas. 

A ideia é absurda e grotesca, porém muitos nela acreditam e outros tantos ficam em dúvida sobre se aceitarão ser vacinados.

Para quem não está imunizado contra as fake news e toda forma moderna de propagação de mentiras, o caos aumentou, há alguns dias, com a divulgação por Internet de um filme de quase três horas postado no YouTube, Hold Up (Assalto). Difícil agora de ser aberto, mas já foi visto por milhões de pessoas
.
Seu produtor, o francês Christophe Cossé, considera o coronavírus uma doença igual às outras, porém inflada e contra a qual se construiu uma ideologia sanitária autoritária, para se levar a um tipo de sociedade vigiada e submissa. 

A humanidade estaria sendo submetida a campos de concentração, dos quais não se pode sair, como os de Hitler. Estaria havendo uma inimaginável manipulação de todo mundo. Dessa manipulação participariam os cientistas franceses, mancomunados com os laboratórios farmacêuticos.

Guardadas as proporções, o quadro dos resistentes às vacinas não difere muito do que circulava na boca do povo, quando o médico inglês Edward Jenner descobriu em 1796, quase por acaso, a primeira vacina: foi contra a varíola, partindo de observações com a varíola bovina. 

Muita gente não queria ser vacinada, por ter medo de ficar parecendo boi ou vaca ou passar a ter comportamento de bovino.

A mentira tem sua força de atração? É mais fácil acreditar-se numa teoria misteriosa do que aceitar a versão realista da ciência (do confinamento no caso do coronavírus, que, por sua elevada transmissibilidade, seria capaz até de repetir a tragédia da gripe espanhola)? 

O impacto do filme Hold Up poderia ser comparado com o falso documentário Operation Lune, querendo demonstrar que a equipe de Neil Armstrong não haveria chegado à Lua (as imagens mostradas teriam sido filmadas num deserto).

Mentira por mentira, uma grande parcela da população estadunidense ainda acredita na narrativa de fraude nas eleições, propagada por Trump, apesar das provas em contrário. 

No Brasil, é ainda grande o número de pessoas considerando correta a política do presidente Bolsonaro contra o coronavírus. A gripezinha e a cloroquina não foram totalmente desmistificadas. Mente que eu gosto! (por Rui Martins)
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