"Tornei-me morte, o destruidor de mundos" (Baghavad Gita)
Errou quem supunha que Trump não passasse de um agente de Putin infiltrado na Casa Branca. Parecia, mas não era.
Na verdade, ele está mais para um agente da destruição generalizada, um novo Jim Jones que a todos sacrificará, mas detonando principalmente os próprios Estados Unidos.
Tem tudo a ver a afirmação de Thomas Friedman, num sentido até mais amplo do que ele pretendeu (referiu-se às inovações tecnológicas chinesas estarem ganhando das estadunidenses de goleada); "Acabo de enxergar o futuro, e adivinhem? Ele não envolve os Estados Unidos").
E está certíssimo o FMI, insuspeito de contaminação esquerdista, ao advertir que o tarifaço dos EUA coloca em grande risco a economia mundial. Só faltou acrescentar que quem cria monstros, acaba sendo sua primeira vítima...
Prestes a ser atingido por um vulcão, o país até agora mais poderoso do mundo está vivendo seus últimos dias de esplendor. Ao unir praticamente o mundo inteiro contra si, Trump comprou uma briga maior do que será capaz de sustentar.
A guerra comercial decorrente o devastará mais ainda do que a quebra da bolsa de Nova York em 1929. Daquela vez, a consequência foi uma década inteira de penúria. Desta, há grande chance de os EUA nunca mais voltarem a ser uma nação de primeira grandeza.
O que estamos vendo agora é apenas um novo desfecho para a guerra civil estadunidense, que parecia ter findado com a rendição dos confederados em 1865. Fato é que tal derrota jamais foi assimilada, continuou sendo uma ferida aberta e latejando até hoje. Finalmente, gangrenou de vez.
O Norte impôs pelas armas a passagem para uma etapa superior de desenvolvimento capitalista, detonando as bases da exploração rural baseada na escravidão. E, realmente, os Estados Unidos prosperaram muito mais com a industrialização do que avançariam com sua produção de algodão e tabaco no esquema das plantations.
Mas, os estados do Sul tinham teoricamente o direito de não aceitarem a abolição da escravidão na marra, apenas porque isto convinha aos que queriam priorizar outras atividades econômicas.
E, ao contrário do que aconteceu, p. ex., no Brasil, a produção escravagista ainda não chegara a seu fim natural (tornar-se contraproducente). Mantinha-se pujante e os brancos sulistas majoritariamente queriam que tudo continuasse como estava.
Mas, derrotados na Guerra da Secessão e tendo se registrado, em seguida, ganho econômico com o novo modelo, não tiveram como contestar o que lhes foi imposto. E, péssimos seres humanos que eram, se vingaram na parte mais fraca, os negros, exacerbando o racismo. Fazer com que os direitos civis dos afrodescendentes fossem respeitados quase exigiu uma nova guerra, em plena década de 1950!
Com o capitalismo ora entrando na sua fase agônica, no entanto, a grande vantagem obtida com a vitória do Norte avançado sobre o Sul retrógrado deixou de existir. E isto impulsionou a afirmação da extrema-direita, herdeira óbvia da Ku Klux Klan e outras hordas reacionárias sulistas de outrora.
O que essa gente inculta e feia quer? Simplesmente um retorno ao autoritarismo brutal do tempo dasplantations, com um retrocesso da globalização que os obtusos veem, de forma simplista, como causa da decadência de várias atividades econômicas que empregavam contingentes maiores de trabalhadores.
Megalomaníaco e autodestrutivo como Hitler, o que Trump está tentando é simplesmente fazer a História voltar para trás. Trata-se de uma proeza impossível.
Pôde ganhar duas eleições porque os EUA já eram um país que estava decaindo sob a modernidade econômica e só conseguia evitar uma imediata debacle mediante a imposição de artificialidades que faziam outras nações arcarem com os ônus de sua perda de competitividade. O que Trump faz é simplesmente derrubar tal castelo de cartas, agilizando um acerto de contas que será pra lá de nefasto para os EUA.
Com isto, mais a enorme rejeição acarretada por medidas de força pretendidas ou praticadas, como a apropriação de territórios alheios e a violação extremada dos direitos humanos de trabalhadores estrangeiros, tudo se encaminha para uma união sem precedentes das outras nações importantes contra os EUA. Elas não têm como perderem!
Antes de anunciar o filme por mim considerado merecedor de tal distinção –e que está disponibilizado na janelinha abaixo–, vou fazer uma breve introdução.
O filão surgiu em 1903, com O grande roubo do trem(d. Edwin S. Porter), oito anos depois de os Irmãos Lumière terem exibido os 55 segundos do seu L'Arrivée d'un Train a La Ciotat, inventando o cinema.
Dos milhares e milhares de bangue-bangues lançados nestes 126 anos, qual pode ser considerado the best? É difícil dizer. Inexiste uma opção tão amplamente aceita quanto Cidadão Kane (d. Orson Welles, 1941) como o melhor filme de todos os tempos.
Os grandes westerns puros, que fixaram a mitologia do gênero, foram No tempo das diligências (d. John Ford, 1939) e Os brutos também amam (d. George Stevens, 1953).
O western mais corajoso e digno é fácil de apontar: Matar ou morrer (d. Fred Zinnemann, 1952), uma parábola devastadora sobre o macartismo, realizada por alguns dos atores e técnicos que estavam sendo por ele perseguidos e cujo lançamento se deu no auge da caça às bruxas.
É de arrepiar a cena em que o xerife (Gary Cooper) atira a estrela no chão e parte enojado da cidade que o tinha como ídolo, mas o abandonou no momento do perigo!
Os principais westerns outonais, retratando o fim desse período histórico e o crepúsculo das lendas por ele engendradas, devem ser creditados a Sam Peckinpah (Pistoleiros do entardecer, 1962; e Meu ódio será sua herança, 1969) e a Sergio Leone (Era uma vez o Oeste, 1968).
Finalmente, meu palpite como o melhor de todos os tempos é Três homens em conflito, de 1966, o extraordinário épico de Leone sobre três aventureiros (o bom Clint Eastwood, o mau Lee Van Cleef e o feio Eli Wallach) que caçam um tesouro em meio à Guerra da Secessão.
Foi, claramente, o divisor de águas na carreira de Sergio Leone, o momento em que ele mostrou ser muito mais do que o (brilhante) artesão que se evidenciara nos seus faroestes anteriores.
EmPor um Punhado de Dólares(1964)ele introduzira:
—a figura do anti-herói no centro da trama;
— a amoralidade básica dos tipos e das situações;
— a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação;
— a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e
— um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
Depois, em Por Uns Dólares a Mais(1965), todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.
A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, em vez de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço dos antigos mocinhos.
Aí, finalmente, estava pronto para seu tour-de-force.
Três Homens em Conflitofoi a fita em que Leone definiu e afirmou seu estilo, embutindo no cinema de ação discussões mais profundas, sem prejuízo do entretenimento propriamente dito.
É um tipo de obra em camadas. De acordo com sua sensibilidade, o espectador pode se divertir apenas com o básico ou captar os muitos toques subjacentes.
E é grandiosa a crítica que Leone fez ao belicismo, com algumas das sequências mais comoventes que o cinema já apresentou:
— oficial bêbado sem coragem para, descumprindo as ordens recebidas, destruir a ponte;
— a orquestra do campo de prisioneiros tocando para abafar os ruídos da tortura;
— o jovem soldado agonizante a quem oEstranho Sem Nomedá seu charuto.
O duelo triangular no centro do cemitério é o mais artístico e climático que o cinema já apresentou e tem a valorizá-lo mais um tema emocionante de Ennio Morricone. Foi citado (ou seria melhor dizer copiado?) por Quentin Tarantino em Kill Bill.
Leva quase três horas e vale cada segundo. Um arraso! (por Celso Lungaretti)
lista final de filmes do Festival do Western Italiano
De todos os meus artigos, foi este que me deu mais trabalho e exigiu mais pesquisa. Tão logo li no portal de notícias Metrópoles a hoje tão comentada história da compra de milhares de latas de leite condensado marca Moça, imaginei a deliciosa e doce matéria saindo do meu computador.
Ah, ah, quando se fala em leite, antes mesmo de se pensar num pingado, logo se imagina o bezerro extraindo pela sucção o seu precioso alimento das tetas da vaca. Esse ato é descrito pelo verbo mamar. O bebê recém-nascido também mama com a mesma força no seio de sua mãe. Mas o seio pode ser substituído por uma mamadeira.
Mamar e mamadeira, o verbo e o substantivo, voltaram a ser atuais no governo Bolsonaro. Todos querem mamar, ele e seus filhos em primeiro lugar.
E o leite condensado –já tão apreciado pelo presidente populista na sua receita bem popular e nada sofisticada de ser saboreado com um naco de pão ou de ficar no meio de um pãozinho francês–, seria delicioso como tema de denúncia num comentário político. De dar água na boca, para quem escreve e para quem lê.
Todos querendo mamar, tanto deputados como senadores, a ponto de se esquecerem do impeachment.
Chamou-me a atenção o fato de o presidente justificar o envio de tanto leite condensado para as tropas militares, onde também milhares de jovens estão cumprindo seu serviço militar. Eu pessoalmente não me lembrava de um tratamento tão, digamos, maternal, aos soldados, na hora do rancho ou do café no quartel, onde prestei meu serviço militar ou, na linguagem popular, onde servi o Exército.
Foi no 6º Grupamento de Costa Motorizado, numa antiga cavalariça no centro da cidade de Santos, transformada em quartel, depois transferido para Itaipu. Conto isso com desnecessários pormenores, porque nesse mesmo quartel, no ano seguinte, serviu o Pelé, bem no começo de sua carreira no Santos F.C. Ali, como se diz, cumpri meu tempo de serviço, um ano.
Tão logo souberam do meu diploma no curso clássico, no colégio público Canadá, fui dispensado das ordens unidas e passei a trabalhar como escriturário com o primeiro-sargento José Bahia, na atualização das fichários de soldados e conscritos, mais as escalas de serviços. Bahia tinha um perfil diferente do militar: me levava consigo em lançamentos de livros e conferências literárias, me criando esse hábito.
Esse desvio era necessário contar, porque no meu comentário eu iria falar de Intendência nos quartéis, o serviço destinado a cuidar do abastecimento de todos os setores militares, inclusive o da alimentação. Não sei se isso inclui a goma de mascar ou chicletes, mas decerto o aprovisionamento de leite.
Depois de Bolsonaro ter falado em leite condensado para a tropa militar, fiz algumas buscas e fiquei sabendo ter havido distribuição de leite condensado nos Estados Unidos, logo depois de criado pela Nestlé, para os soldados nortistas federais, sob o governo do presidente Abraham Lincoln, durante a guerra contra os sulistas estadunidenses.
O Guerra da Secessão se deveu à certeza dos sulistas de que Lincoln, tão logo fosse empossado, aboliria a escravidão, o que os levou a pegarem em armas, antecipando-se a tal iniciativa. Terminado o conflito, o leite condensado se tornou popular.
Como não era tão absurda a desculpa de se distribuir leite condensado nos quartéis, a questão exigia esclarecer se os milhões gastos se referiam a despesas pessoais do presidente. Caso o fossem não se poderia tolerar, porque todas as despesas de alimentação nos quartéis são debitadas na Intendência.
Ora, após rápida pesquisa, percebi que o absurdo total de compra de leite condensado não se referia às despesas do Palácio do Planalto, mas ao gasto total do Serviço de Intendência, publicado pelo Ministério da Economia.
Uma conclusão se impõe: por que tanta repercussão na divulgação destes gastos? Fala-se num aumento de 20% sobre o ano retrasado, e isso em si só já é exagerado.
Porém, não se pode ignorar a perda gradativa de credibilidade sofrida nestes últimos meses pelo presidente Bolsonaro, favorecendo a interpretação de que um balanço geral de despesas seriam suas próprias despesas e de sua desprestigiada família.
A criação de um escândalo, que se agravou com a retirada do edital desse balanço de despesas, mais a não aceitação das explicações dadas por Bolsonaro, são a consequência da descrença criada à volta do presidente, com suas constantes mentiras.
Tudo tem um limite e Bolsonaro talvez tenha chegado ao seu limite final de mentiroso do Planalto. (por Rui Martins)
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TOQUE DO EDITOR – As minhas lembranças de preso político coincidem num ponto com as do Rui: leite condensado era um luxo a anos-luz de distância da realidade da soldadesca (e nada me leva a crer que isto tenha mudado, então apostaria até meu último centavo que essa história está mal contada...).
Quando era trazido para alguma audiência na Auditoria do Exército da avenida Brigadeiro Luiz Antônio e ficava preso no quartel da PE no Ibirapuera, sempre estranhava a frequência com que serviam carne de carneiro para a tropa.
Praticamente um dia sim, um dia não. Impossível não desconfiar do responsável pelas aquisições.
Já o café dos soldados eu conheci bem, naquela sucursal do inferno em que se constituía o quartel da PE da Vila Militar (RJ). Dos meus 85 quilos havia perdido uns 30 nos cerca de 100 dias desde a minha queda.
Tão flagrantemente subnutrido eu estava que despertei a compaixão dos soldados que traziam o café com leite matinal: mesmo correndo o risco de serem rudemente castigados, alguns me contrabandeavam todo que sobrara após a distribuição a toda a companhia. Era muito aguado (se leite condensado existisse, cairia muito bem, mas percebia-se claramente que do dito cujo não havia nem uma mísera gota...).
Mesmo ralo, meu corpo recebia com satisfação o açúcar que continha, este sim verdadeiro. (por Celso Lungaretti)