sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

LULA DECIDIU: BATTISTI FICA!

Dignamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu a palavra final do Brasil a respeito da pretensão do Governo Berlusconi, de obter a cabeça do escritor e perseguido político Cesare Battisti para exibi-la como um troféu do suposto triunfo da mais retrógrada e intolerante direita européia sobre os ideais de 1968: o pedido de extradição está definitivamente negado.

Battisti morará e vai escrever seus livros no território brasileiro, a salvo da  vendetta  neofascista.

O que resta, doravante, é um exercício de  jus sperniandi  por parte do presidente do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso, que precisa de mais algumas semanas para digerir a devastadora derrota pessoal que acaba de sofrer. E é apenas isto que terá.

No fundo, o Caso Battisti só está prestes a completar quatro anos porque, desde o primeiro momento, o STF tem agido como um Poder alinhado com um governo estrangeiro, a golpear instituições e tradições brasileiras.

Por que ordenou a prisão de Battisti em fevereiro de 2007, se era um homem que levava existência pacata, honesta e produtiva há quase três décadas? Não seria suficiente a liberdade vigiada?

A detenção já não se constituiu num prejulgamento, além de uma tentativa de influenciar o julgamento propriamente dito com a produção e farta difusão de imagens negativas?

Por que a exibição de algemas choca tanto o ministro Gilmar Mendes quando o algemado é suspeito de estar praticando crimes financeiros aqui e agora, mas nem um pouco quando se trata de um acusado de haver cometido crimes políticos em outro país, no longínquo final da década de 1970?

A GUERRILHA JUDICIAL DA DUPLA DIREITISTA

Se dúvidas havia quanto à necessidade de manter Battisti preso, deixaram totalmente de existir em janeiro de 2009, no exato momento em que o ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu-lhe refúgio humanitário.

Pela Lei do Refúgio e pela jurisprudência consolidada em vários casos, só restava ao STF arquivar o pedido berlusconiano, como arquivara outros, idênticos, no passado.

Mas, na condição de homens de direita que são e sempre evidenciaram ser, o então presidente do Supremo Gilmar Mendes e o relator Cezar Peluso resolveram subverter o Direito, lançando uma espécie de guerrilha judicial contra o Estado brasileiro:
  • não encerrando o processo nem libertando Battisti, como deveriam ter feito;
  • permanecendo surdos aos muitos e fundados pedidos de libertação do escritor, nem que fosse para aguardar sob vigilância a pantomima que os dois preparavam com lentidão exasperante;
  • tudo fazendo para que o Supremo, numa das decisões mais infelizes e grosseiras de sua História, revogasse, na prática, a Lei do Refúgio, o que (legislar) não é, nunca foi nem jamais será  atribuição do STF; e
  • linchando Battisti, ao julgar seu caso com base não num relatório, mas num panfleto, uma peça da mais gritante e escancarada tendenciosidade.
Jamais eu vira, numa vida inteira de participação em lutas sociais e exercício do jornalismo, o relator de um caso polêmico encampar TODOS os argumentos de uma parte e NENHUM da outra. Mais unilateral, impossível.

Mesmo assim, a escalada de arbitrariedades foi detida quando um dos ministros que até então sustentatva a frágil maioria de 5x4 recuou, horrorizado, ante a tentativa de usurpar-se do presidente da República a prerrogativa de dar a palavra final no caso.

O que não impediu Mendes e Peluso de, após o fim do julgamento, ainda darem um jeito de reabri-lo para alterar o já decidido, numa manobra sem precedentes nos anais do STF, como notou o ministro Marco Aurélio de Mello: a pretexto de esclarecer um voto, enxertaram um condicionamento.

ITALIANOS TRAMARAM ASSASSINATO DE BATTISTI

Mas, obrigando Lula a ater-se aos termos do tratado de extradição entre Brasil e Itália, não lhe criaram real embaraço.

Pois, se o fundado temor de que o extraditado venha a sofrer "atos de perseguição e discriminação" é motivo suficiente para deixar de entregá-lo ao solicitante, não há mais o que discutirmos:
  • é público e notório que o Serviço Secreto Italiano tramou com mercenários o assassinato de Battisti na América do Sul, só não levando o plano adiante por divergência quanto ao preço do  serviço;
  • autoridades e entidades italianas estão, desde fevereiro/2009, dando as mais despropositadas e furibundas declarações a respeito de Battisti, incluindo ameaças de retaliação ao Brasil, promessa de vingança de uma associação de carcereiros e a bizarra confissão do então ministro da Justiça Clemente Mastella, ao reconhecer que a promessa de reduzir a pena de Battisti, de prisão perpétua para o máximo que a legislação brasileira permite (30 anos) estava sendo feita de má fé, só para nos iludir.
Tal incontinência verbal, aliás, veio ao encontro do que o principal jurista brasileiro vivo, Dalmo de Abreu Dallari, já alertara: a Itália não dispõe de nenhum instrumento jurídico que lhe permita adequar sua sentença à exigência brasileira. Recorre a subterfúgios espúrios, simplesmente.

Só não sei como qualificar a    de juristas brasileiros que supostamente ignoram aquilo que tinham a obrigação de saber, pois foi noticiado pela própria imprensa italiana.

É simplesmente inegável e insofismável, salta aos olhos e clama aos céus, que Battisti não só vai ser perseguido e discriminado, como correrá enorme perigo de vida caso seja despachado para a Itália.

AUTORIDADE PRESIDENCIAL EM XEQUE

Se Cezar Peluso quiser apenas dividir a responsabilidade pelo arquivamento do pedido italiano com o restante dos ministros, isto já deporá contra ele, pois a característica mais marcante de sua gestão está sendo exatamente a paralisia do Supremo.

Pior: caso, como faz supor a indicação de Gilmar Mendes para relator, o que ele pretenda é questionar a decisão do presidente da República, aí entraremos num terreno perigosíssimo.

O Supremo já decidiu que cabe ao presidente da República o papel de última instância, respeitando os termos do tratado de extradição Brasil-Itália.

Foi o que Lula fez, utilizando argumentação cabível e consistente, como condutor que é da política externa brasileira e contando com as informações privilegiadas (muitas das quais sigilosas) de que dispõe exatamente por exercer tal função.

Se o STF se dispuser a esmiuçar os elementos de convicção de um presidente, este será obrigado a revelar aquilo que tem por obrigação guardar para si, o que poderá gerar graves transtornos e prejuízos para o Brasil, conflitos internacionais e até guerras.

Então, há um limite para a invasão das prerrogativas presidenciais por parte do STF. E este limite será ultrapassado se o Supremo se meter a destrinchar esta decisão do Executivo, respaldada num parecer tecnicamente inatacável da Advocacia Geral da União e que, ao próprio senso comum, evidencia-se como o chamado  óbvio ululante.

Até o  sujeito da esquina -- aquele personagem ao qual o ministro Gilmar Mendes se referiu como se fosse o cocô do cavalo do bandido -- percebe que Cesare Battisti não terá seus direitos respeitados na Itália.

É um país:
  • que fechou os olhos a torturas e maus tratos durante os  anos de chumbo;
  • que fez, então, leis retroagirem para abarcar fatos ocorridos antes de sua promulgação.
  • que admitiu estender prisões preventivas (ou seja, de meros suspeitos que ainda não haviam recebido sentença nenhuma) por mais de dez anos;
  • que julgou réus ausentes, aceitando que fossem representados por advogados munidos de procurações forjadas e não voltando atrás quando a falsificação ficou indiscutivelmente provada;
  • que tramou atentado pessoal contra Battisti e moveu-lhe uma campanha de difamação tão falaciosa quanto enormemente dispendiosa.
NOVA FORMA DE GOLPISMO EM EMBRIÃO?

Aliás, pateticamente, o governo italiano acaba de afirmar em nota oficial que "o presidente Lula deveria explicar tal escolha não apenas ao governo, mas a todos os italianos e, em particular, às famílias das vítimas e a um homem reduzido a viver em uma cadeira de rodas".

Trata-se de uma óbvia alusão a Alberto Torregiani, que, autor de um livro que o projetou como vítima profissional,  é pertencente a um agrupamento assumidamente neofascista, tem ambições políticas e já admitiu que Battisti não estava entre os assassinos do seu pai Pierluigi Torregiani, conforme declarou em 30/01/2009 à Agência Ansa (vide aqui ):
"Torregiani revelou que Battisti não participou da ação que culminou no assassinato de seu pai porque havia ido à localidade de Mestre, onde teria matado o açougueiro Lino Sabbadin. 'Está tudo nos autos do processo', explicou".
Mas, demagogias, mentiras, ameaças, bravatas e  buffonatas  italianas à parte, permanece o fato de que a dupla reacionária do STF parece querer colocar o Supremo no papel de uma corte internacional  que estivesse julgando uma pendência entre o Brasil e a Itália, e não como um Poder brasileiro obrigado a respeitar as decisões tecnicamente consistentes de outro Poder.

Francamente, acredito que ficará falando sozinha, com os demais ministros não a acompanhando nessa aventura insensata e potencialmente catastrófica para nossa democracia.

Mesmo assim, cabe a todos os cidadãos brasileiros avessos ao totalitarismo, imbuídos de espírito da justiça e ciosos da soberania nacional manterem-se alerta contra o linchamento de Battisti e vigilantes contra essa nova forma de golpismo que habita os sonhos da direita inconformada com a hegemonia petista: a ditadura judicial.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

BAÚ DO CELSÃO: O 1º ARTIGO SOBRE CESARE BATTISTI

Enquanto aguardamos o pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva 
a respeito do pedido italiano de extradição do escritor Cesare Battisti e a reação 
do Supremo Tribunal Federal  -- se continuará atuando como uma corte inquisitorial 
e arbitrária ou vai respeitar o veredicto definitivo que o Governo brasileiro deu há
quase dois anos, com pleno direito constitucional de encerrar a questão, e agora 
será bizarramente obrigado a repetir--, eis uma recordação interessante do meu 
baú: o primeiro texto sobre o Caso Battisti.

Foi publicado no meu outro blogue, Celso Lungaretti - O Rebate, em 25/07/2008. 
Jamais  imaginaria que se tratasse do início de uma cruzada dificílima, estressante 
e interminável, no curso da qual produzi um dilúvio de textos (189, até hoje). 

Só não escrevi aquele com o qual mais sonho: CESARE (enfim) LIVRE!!!

"Será que serei injustiçado pelo mesmo PT que eu, como milhares de companheiros do mundo, aplaudimos quando da sua chegada ao poder através da eleição do Lula? Não me permito sequer imaginar que o povo brasileiro aceitará essa infame maquinação dos governos de direita franco-italianos."

O desabafo é do escritor italiano Cesare Battisti, 53 anos, cuja extradição para a Itália foi recomendada pelo Procuradoria Geral da República brasileira. Acusado de assassinatos cometidos na década de 1970 pela organização de esquerda Proletários Armados pelo Comunismo, Battisti está condenado à prisão perpétua na Itália.

Seu julgamento, realizado sob uma legislação de emergência criada para casos de terrorismo, admitiu depoimentos de menores de idade e de pessoas com distúrbios mentais, desconsiderou as evidências gritantes da tortura policial a que foram submetidos os acusados e aceitou sem nenhuma restrição as declarações de um ex-militante que buscou os benefícios da "delação premiada", entre outras irregularidades e impropriedades.

Battisti foi condenado à revelia, pois havia fugido da prisão em 1981 e deixado a Itália. Em seu longo exílio (França, México e Brasil), escreveu mais de 15 livros e exerceu diversas profissões: jornalista, técnico de computador, porteiro, etc.

Sua extradição foi solicitada primeiramente pela Itália ao governo francês que, depois de tê-la negado em 1991, reconsiderou sua decisão em 2006. Há fortes suspeitas de que tal guinada esteja relacionada a um acordo comercial entre os países ("Ao final me trocaram por um contrato de trem-bala entre as cidades de Lion e Turin", queixa-se o escritor).

Conseguiu escapar da França, mas o longo braço da Justiça italiana o perseguiu também no Brasil, onde está detido há 15 meses.

Battisti acreditava que nosso país manteria a postura civilizada de não extraditar condenados à pena máxima. A audiência em que ele depôs para um juiz federal, em janeiro último, reforçou seu otimismo:
- Aparentemente, tudo sucedeu da melhor maneira possível, até com o promotor colocando-se de meu lado. Eu, a defesa e todos os mais próximos não tivemos dúvidas sobre uma inevitável influência positiva sobre a Procuradoria Geral da República, que deveria em seguida pronunciar-se a respeito. Qual não foi nossa surpresa quando, um mês depois, o indefectível procurador se pronunciou a favor de minha extradição (...). Ele, o fiel da balança, nem sequer se deu ao trabalho de fundamentar e consubstanciar adequadamente o seu escabroso parecer.

Decepcionado, ele crê que esteja se repetindo o episódio francês ("caí, mais uma vez, mum jogo político sujo e cujas regras e verdadeiros objetivos desconheço") e faz um apelo aos brasileiros:

- Meus advogados reenviaram o processo à Procuradoria Geral da República, para uma segunda avaliação e posterior retorno ao Supremo Tribunal Federal. Porém, daqui em frente vamos precisar de um enorme trabalho jurídico e de sensibilização do mundo político e cultural brasileiro.

MINHA POSIÇÃO: REPÚDIO À CRUELDADE INÚTIL

Apóio a pretensão de Cesare Battisti, de permanecer (em liberdade!) no meu país. Exorto todos os brasileiros de boa vontade a cerrarem fileiras contra mais essa ignomínia que se trama em Brasília.

É a posição humanitária que sempre assumo nesses casos. Não encaro as penas de prisão ou execução sob a ótica da retaliação primitiva e rancorosa, "olho por olho, dente por dente". Vejo-as apenas como necessidade momentânea, para preservarem-se valores maiores da sociedade.

Ora, o momento do combate ao terrorismo italiano passou e o tempo das punições, também. Battisti é outro homem, neste outro tempo em que vivemos. Seria uma crueldade inútil encarcerarem-no agora, pelo resto da vida ou pelos próximos 30 anos (dispositivo da legislação brasileira que tende a prevalecer, como condicionante da extradição), o que dá no mesmo: dificilmente deixaria de morrer na prisão.

A prescrição das penas é uma das práticas mais nobres da nossa civilização.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

BAÚ DO CELSÃO: A NOUVELLE VAGUE

Trazendo para o blogue trabalhos marcantes de minha trajetória jornalística, recapitulo 
Nouvelle vague: 30 anos qualquer noite, que escrevi em junho/1989 quando trabalhava 
na Agência Estado, para venda avulsa aos veículos clientes, tendo sido publicada por 
jornais e revistas de todo o Brasil. Jairo Ferreira, o último entrevistado, já faleceu.

Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo: Acossado
Em 1959, três críticos dos Cahiers du Cinema que haviam empreendido uma implacável revisão crítica do cinema recente, trocaram a posição de estilingue pela de vidraça, lançando seus primeiros longa-metragens, corporificação dos conceitos teóricos que vinham amadurecendo ao longo dos anos anteriores.

Em fevereiro estreou Nas Garras do Vício (Le Beau Serge), de Claude Chabrol; em maio, Os Incompreendidos (Les 400 Coups), de François Truffaut; e em julho, Acossado (A Bout de Souffle), de Jean-Luc Godard.

Não houve estouros de bilheteria, mas o impacto entre a crítica, os cinéfilos e o pessoal do meio cinematográfico foi total, em 1959 e nos anos seguintes, daí o fenômeno receber da mídia uma designação charmosa, tomada da empréstimo de um artigo sobre a juventude francesa que L'Express publicara ano e meio atrás: nouvelle vague.

Mas, quando nasceu e quem realmente fazia parte da  nova onda?

As interpretações são múltiplas, já que nunca houve um movimento propriamente dito, mas sim um estilo, um certo jeito de fazer cinema, com pontos de contato e de diferenciação entre os vários cineastas.

Do núcleo de críticos dos Cahiers faziam parte também Eric Rohmer e Jacques Rivette.

Truffaut e seu pungente  Os Incompreendidos
E, entre os diretores que se revelaram à mesma época, estão Alain Resnais, Louis Malle, Agnes Varda, Philippe de Broca, Jacques Demy, Jacques Rozler e, até, Roger Vadim.

Então, há quem situe o início da nouvelle vague em 1956, quando Vadim e Brigitte Bardot sacudiram décadas de puritanismo nas telas com o deslumbrante ...E Deus criou a mulher (Et Dieu Crea la Femme).

A Cinemateca de Paris prefere o ano de 1957, em que o pessoal do Cahiers realizou seus primeiros curta-metragens e Louis Malle estreou nos longas com Ascensor Para o Cadafalso (Ascenseur Pour L'Echafaud).

E por que não 1958, ano do escândalo mundial de Os Amantes (Les Amants)? Foi neste filme que Louis Malle teve a ousadia de sugerir -- nada é realmente visto -- a prática de felação, causando comoção talvez maior do que a provocada em 1972 pela sodomia  soft  de O Último Tango em Paris.

Mas 1959 tem a maioria das preferências, não só por ser o ano do  début  do trio central da  nouvelle vague, mas também porque houve duas participações importantes dessa estética emergente no Festival de Cannes, em maio: Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima Mon Amour), de Resnais, e Os Incompreendidos, que valeu Truffaut o prêmio de direção.

Nas Garras do Vício: um rebelde com causa.
Isto, mais o próprio fato de a Palma de Ouro ter sido arrebatada por um filme francês -- o meramente exótico Orfeu do Carnaval, de Marcel Camus -- chamou a atenção da mídia internacional para a  nova onda.

E o efeito se completou com a estréia de Acossado, colocando em primeiro plano o talento ousado e polêmico de Godard e entronizando no cinema moderno a figura do anti-herói, que seria presença dominante na década de desencanto e contestação subsequente (os anos 60). Até o western italiano beberia nessa fonte.

POBRES, MAS CRIATIVOS - Além do quem  quando, outra pergunta difícil, no caso da  nouvelle vague, é  o que.

Para não enveredarmos por discussões tortuosas, fiquemos com os poucos pontos de consenso.

Primeiro, trata-se de um cinema pobre, feito com equipamento leve e cenários reais. Os filmes iniciais foram financiados por heranças, empréstimos e até dotes de casamento, com a precariedade de recursos acabando por ser revertida em riqueza criativa. Assim, os diretores desenvolveram novos truques de edição, como os  cortes-saltos.

Godard redescobriu as cartelas do cinema mudo, que ganharam nova função: a de comentar a ação com citações de poetas, filósofos, estadistas, etc.

Cena final de Acossado: filmagem na rua
Também foi resgatada do cinema silencioso a  Íris, recurso através do qual se isola um detalhe da imagem numa tela completamente negra.

Dois avanços tecnológicos foram importantes para respaldar a nova proposta estética: a Cameflex, câmera leve que proporcionava a mesma rigides de imagem da câmera pesada; e a Tri-X, película bem mais rápida que as anteriores, facilitando as filmagens à noite, com luz natural.

A Cameflex permitiu efetuar tomadas perfeitas de quaisquer ângulos e até com a câmera em movimento, dando origem à célebre frase do Godard: "uma idéia na cabeça e uma câmera na mão".

Um   travelling  marcante de Acossado, p. ex., foi feito com uma Cameflex sobre uma cadeira de rodas, improvisação impossível com equipamento pesado.

Quanto à Tri-X, a ela se deve o estranho efeito de a naturalidade das sequências noturnas de Alphaville, com sua iluminação meticulosa, parecer extremamente artificial.

Outra característica fundamental da  nouvelle vague  foi contrapor ao  star-system  dos EUA a concentração de todas as funções criativas nas mãos do diretor. Assim, além de dominar a encenação, ele passa a escrever o roteiro, fazer a montagem, interferir em cada detalhe de fotografia, trilha musical, etc., tornando-se o autor indiscutível da obra.

Nos próprios créditos esta marca se evidencava, já que passou a ser usado o registro de "um filme de...", ao invés de "dirigido por...". Esta postura foi antecipada teoricamente por Alexandre Astruc, ao recomendar que o cineasta utilizasse sua câmera da mesma forma que o escritor usa sua caneta (a fórmula da camera-stylo).

Godard se tornou o exemplo extremado do  cinema do autor, ao imprimir sua personalidade de uma maneira explícita nos filmes, a ponto de ser quase o personagem oculto de todos eles.

Foi o Festival de Itararé: não houve...
O espectador tinha a impressão de que o principal acontecia atrás das câmeras e não à sua frente. Desde o Cidadão Kane, de Orson Welles, ninguém deixava tão à mostra seu ego exuberante.

Ao longo da década de 60, cada cineasta da   nouvelle vague  foi desenvolvendo seu estilo individual e se distanciando cada vez mais da bagagem comum de um grupo que, aliás, desde o início era heterogêneo.

O fim da nouvelle vague pode ser fixado em qualquer ponto da década, mas, em respeito ao traço épico da formação francesa, o melhor divisor de águas é o Festival de Cannes de maio de 1968, interrompido sob a suposição de que a verdadeira arte estava nas ruas e barricadas.

Foi um erro: o que se esgotava era a fase de maior criatividade de uma geração brilhante.

O cinema não acabou em 1968 e, exatamente nas pegadas de Godard, Chabrol, Truffaut, Resnais e Malle (principalmente) viriam Herzog, Wenders, Fassbinder, Alain Tanner, Claude Goretta, Harry Kumel, Nagisa Oshima, os nossos Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, o filipino Lino Broka, os novos cinemas da Geórgia e de Taiwan...

A imaginação não está no poder, seja na política ou nas telas, mas os únicos avanços reais da sétima arte têm se dado nas trilhas do  cinema do autor.

Quanto ao velho burocrata de direção hollywoodiano, é um erro imaginar que ele tenha sido reabilitado: o verdadeiro artífice do cinema de massas, hoje, é o técnico de efeitos especiais...

CARLOS REICHENBACH: PERSONAGEM À DERIVA

"O pessoal da  nouvelle vague  teve uma trajetória que começou no cineclubismo, daí passou à crítica e, afinal, chegou à prática. Foi o cinema feito por quem pensava o cinema. E nisto eu me identifico com ele."

A afirmação é de Carlos Reichenbach, um dos melhores e mais prolíficos cineastas brasileiros nas últimas décadas.

Para o  Carlão, o principal na   nouvelle vague  é o lado do comportamento, "o registro de personagens à deriva, desajustados e desagradáveis".

O Carlão está em sua 5ª década de atuação
Os grandes marcos, no seu entender, são mesmo os três filmes de estréia do pessoal dos Cahiers: Nas Garras do Vício (que ele viu "umas 20 vezes" e considera o mais importante, por introduzir "um rebelde com causa"), Os Incompreendios e Acossado.

Assim ele analisa o trio central de cineastas:
"Godard era eminentemente urbano, político por excelência. Truffaut, o cineasta da intimidade, o mais afetivo, o mais amoroso, talvez porque a vivência dele tenha sido a mais marginal de todas. E Chabrol dissecou o universo da classe média baixa, posição com a qual hoje eu me identifico, acho que os cineastas devam buscar os personagens comuns, não os de exceção".
Reichenbach vê em Louis Malle um diretor que, sem fazer parte do núcleo central da  nouvelle vague, teve algumas características semelhantes em termos estilísticos, principalmente em Ascensor Para o Cadafalso e Os Amantes.

Já Alain Resnais, a seu ver, "é   nouveau roman, não  nouvelle vague, pois rilmava em estúdio, com muito dinheiro, usando escritores como roteiristas para desenvolver uma dramaturgia literária, clássica".

Da mesma forma, acrescenta, muitos cineastas que surgiram naquela época, como Agnes Varda e Phillippe de Broca, possuíam "apenas pontos de contato formais com a  nouvelle vague, mas, dramaticamente, não tinham nada a ver".

Embora hoje aprecie mais Chabrol e considere que o único a se manter fiel às característica da  nouvelle vague   até o fim tenha sido Truffaut, o Carlão reconhece ter sofrido maior influência de Godard:
"Foi com ele que aprendi a fazer um filme comercial subvertendo-o, abrindo para discussões mais profundas. Neste sentido, O Desprezo é insuperável, vi umas 30 vezes. Inclusive, formalmente, tem algumas sequências de grande arte".

JAIRO FERREIRA: FIM DO ACADEMICISMO

"Formalmente, a  nouvelle vague  tomou as inovações do pioneiro George Meliés e do pessoal da  avant-garde, como Jean Epstein, Lous Delluc, René Clair e Louis Buñuel. Eles usavam equipamento leve, filmavam em cenários reais e usavam todo tipo de experiências", avalia o jornalista, crítico e cineasta Jairo Ferreira, autor do livro Cinema de Invenção e dos filmes O Vampiro da Cinemateca e O Ínsigne Ficante.

Jairo reconhece, entretanto, que a  nouvelle vague  teve um papel importante: 
"Ela sacudiu o bolor do cinema europeu. Desacademizou a linguagem cinematográfica, tornando-a muito mais dinâmica, elástica e ágil.

Foi um cinema de transgressão, que impõe a qualidade poética da imagem e os diálogos cortantes, sem ranço literário".
O saudoso Jairo: crítico, cineasta, ator...
Segundo ele, a influência da  nouvelle vague  no Brasil se deu, primeiramente, quanto à forma de realização -- a busca de soluções criativas para compensar a exiguidade do orçamento -- durante o  cinema novo: "Nesta fase, só o Ruy Guerra estava sintonizado com o espírito da coisa. Os Cafajestes é pura  nouvelle vague".

Já a geração seguinte, do  cinema marginal  ou  udigrudi, veio toda nas pegadas de Godard, no entender de Jairo Ferreira. Ele cita Rogério Sganzerla, Júlio Bressante, Neville D'Almeida, Luís Rosemberg Filho, Eliseu Visconti Cavaleiro, Andrea Tomacci, Francisco Luís de Almeida Salles, Carlos Reichenbach e Ivan Cardoso como os herdeiros brasileiros da   nouvelle vague, só deixando de fora Ozualdo Candeia ("remonta mais a Buñuel e Pasolini") e o primitivo José Mojica Marins.

"Às vezes a coisa descambava até para a imitação, como o suicídio do Bandido da Luz Vermelha, evidentemente copiado do Pierrot Le Fou, do Godard."

Para Jairo, 1968 foi o último grande ano de inovação no cinema mundial:
"Quando Godard fechou o Festival de Cannes, marcou a reviravolta da nouvelle vague. Depois, aqueles cineastas nunca mais foram os mesmos.

Só o Godard e o Jacques Rivette se mantiveram mais ou menos experimentais. O Truffaut se perdeu, passando a fazer os mesmos filmes que ele combatia quando era crítico.

E a nouvelle vague foi o último grande movimento. Não será a hora de um novo?".

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

BILLY THE KID PODE RECEBER AGORA O PERDÃO PROMETIDO EM 1879

Billy não era parecido com Kris
Kristofferson ou Emilio Estevez...
Billy the Kid pode ser oficialmente perdoado pelo governador do Novo México, quase 130 anos após sua morte, ocorrida em julho de 1881.

É outra pendência que ficou para o finalzinho de mandato: assim como o presidente Lula em relação ao Caso Battisti, o governador Bill Richardson prometeu dar sua decisão até 5ª feira, 31, quando deixará o cargo.

Morto aos 21 anos, Henry McCarty, também conhecido como William Henry Bonney e  Billy the Kid, começou a se tornar uma das maiores lendas do Velho Oeste estadunidense por obra e graça daquele que o matou: Pat Garrett.

O xerife pagou a um escriba para relatar, em seu nome, a caçada por ele movida contra o velho companheiro de cavalgadas.

A versão de Pat Garrett -- Billy the Kid: a história de um bandido (L&PM, 258 p.) -- é apresentada como uma tentativa de restabelecer a verdade dos fatos, pois já se começava a mitificar o personagem.

Foi como apagar uma fogueira com gasolina: fez o mito crescer cada vez mais.

O que se sabe:
  • Billy perdeu cedo o pai e, aos 14 anos, tornou-se órfão também de mãe;
  • preso por roubar roupas de uma lavanderia, foge da prisão e vagueia pela fronteira entre EUA e México, furtando cavalos;
  • mata um ferreiro no Arizona, aos 17 anos;
  • escapa para o Novo México e, no condado de Lincoln consegue um emprego honesto na fazenda de John Tunstall, a quem passa a admirar muito;
  • quando Tunstall é assassinado a mando de outro fazendeiro da região, ele e outros vingadores, intitulando-se  vigilantes, travam uma guerra sangrenta contra a facção contrária.

O que permanece nebuloso:
  • o número de suas vítimas fatais, pois, das 20 ou 21 mortes que lhe atribuíram, apenas em quatro sua autoria é hoje dada como líquida e certa, havendo dúvidas quanto a outras cinco e a certeza de que as demais foram mero exagero;
  • se realmente foi morto por Pat Garrett ou sobreviveu, só vindo a expirar em 1950, quando um ancião que usava o nome de Brushy Bill Roberts disse ser, na verdade, Billy the Kid, em busca do perdão governamental (mas, faleceu antes que sua história fosse apurada).
 Embora não se constituam nos melhores filmes a respeito de Billy, os dois Young Guns são os mais esclarecedores.

O primeiro -- Os Jovens Pistoleiros (1988, dirigido por Christopher Cain) -- reconstitui a guerra do condado de Lincoln, mostrando como as disputas violentas por terras acabaram devolvendo à criminalidade os empregados de Tunstall (que contratava jovens marginais e os regenerava).

E o outro -- Jovem Demais Para Morrer (1990, d. Geoff Murphy) --, além da perseguição de Pat Garrett a Billy, introduz elementos interessantes, como a participação do jornalista contratado como  ghost  writer, o surgimento do nonagenário Brushy Bill Roberts (cujas alegações são aceitas como verdadeiras pelo filme) e o próprio fulcro do atual pedido de perdão.

...e muito menos Pat com James
Coburn ou William Pettersen.
É que o governador Lew Wallace, empenhado em acabar com a corrupção e arbitrariedades dos poderosos de Lincoln, prometeu (mas não cumpriu) perdoar Billy caso ele depusesse incriminando os assassinos do seu ex-patrão.

"O fora-da-lei foi mais honrado", diz o criminalista Joel Jacobsen, autor de Such Men as Billy the Kid, garantindo haver evidências "fortes, irrefutáveis mesmo" dessa barganha.

Em Jovem Demais Para Morrer,  Wallace é mostrado como sincero, mas impotente para cumprir o prometido.

Então, o dilema proposto ao governador atual é o seguinte: cabe a ele honrar a palavra de seu remoto antecessor?

Seja qual for a decisão, o certo é que Billy já foi reabilitado pela arte, com sua saga inspirando verdadeiras obras-primas:
  • o estranhíssimo western freudiano Um de Nós Morrerá (1958, d. Arthur Penn), em que seu drama é equiparado ao de um filho que perdeu o pai (não o biológico, mas o fazendeiro Tunstall);
  • o belíssimo western outonal Pat Garrett & Billy the Kid (1973, d. Sam Peckinpah), centrado na má consciência do primeiro, que aceita uma estrela e uma missão infame como preço a pagar por uma velhice sem problemas financeiros;
  • a antológica trilha musical composta por Bob Dylan para o filme de Peckinpah, incluindo "Knockin' at Heaven's Door".
    Há quem destaque também os temas criados por Jon Bon Jovy para Jovem Demais Para Morrer e depois reunidos no álbum Blaze of Glory.

    Têm lá seu impacto, mas a inevitável comparação com o trabalho de Dylan acaba sendo cruel para Bon Jovi...

    P.S.: o governador do Novo México decidiu negar o indulto simbólico a Billy. Alegou "incertezas" quanto a seu antecessor haver ou não prometido o perdão e "uma ambiguidade histórica sobre o motivo pelo qual o governador Wallace teria desistido da graça". 

    sábado, 25 de dezembro de 2010

    COMO LIDARMOS COM OS TORTURADORES DA DITADURA?

    No artigo O debate que o Brasil não fez, o veterano analista político Clóvis Rossi apresenta interessantes observações sobre a atitude de argentinos e brasileiros face aos genocídios e atrocidades dos anos de chumbo. 

    Vale a pena reproduzirmos o essencial de sua coluna que, no dia de Natal, fugiu à mesmice do tema obrigatório:
    "A Lei de Anistia foi emitida para, na essência, proteger um lado, o dos vencedores. Eram, a rigor, os únicos que não haviam sido punidos.

    Os derrotados, ou seja, os opositores ao regime militar, tenham ou não adotado a luta armada, sofreram punições de acordo com a legislação convencional (prisão, p. ex.), punições por uma legislação de exceção (o banimento, p. ex.) e até punições à margem de qualquer lei, convencional ou de exceção, como mortes em supostos enfrentamentos, suicídios que foram assassinatos (caso Vladimir Herzog, p. ex.) e torturas.

    ...A Argentina precisou de 20 anos para retomar a discussão da anistia, mas o fez em todos os âmbitos que a democracia inventou. As leis que concediam a anistia para os militares foram revogadas primeiro pelo Congresso, em 2003, e depois pela Corte Suprema, no ano seguinte.
    ...E no Brasil? Nada, salvo esparsas iniciativas do atual governo. (...) Convém revogar a Lei de Anistia? Agora é tarde. Tivesse havido o debate nos governos FHC e/ou Lula, seria uma coisa. No governo Dilma Rousseff, vítima de punição extralegal, na forma de tortura, seria considerada revanchismo, o que abriria uma crise que só aproveitaria a pescadores de águas turvas".
    Premissas corretas, conclusão errada.

    Convém, sim, revogarmos a Lei de Anistia, para legarmos aos pósteros um enfoque civilizado dessas questões:
    • o de que os cidadãos têm o direito de resistir às tiranias, inclusive pegando em armas contra elas;
    • o de que os esbirros dessas tiranias não podem ser igualados aos resistentes por meio de anistias recíprocas que, promulgadas em pleno regime de exceção, equivalem apenas a habeas corpus preventivos para os carrascos, artifício inaceitável por eles adotado para evitarem responder futuramente por seus crimes contra a humanidade.
    É crassa tolice e vil propaganda enganosa a alegação das  viúvas da ditadura, de que, revogada a anistia de 1979, os resistentes também teriam de responder por crimes.

    Os atos coerentes com o objetivo geral da luta contra a ditadura militar não têm caracterização criminal, como não tiveram nos países europeus que resistiram ao nazifascismo nas décadas de 1930 e 1940, p. ex.

    A Resistência Francesa matou muito mais e foi acentuadamente mais violenta do que a brasileira, praticando atos como o de explodir pontes, trens e quartéis, justiçar traidores, etc., nos quais, obviamente, vários civis acabaram pegando as sobras e inocentes foram sacrificados por engano (nem sempre o aparente colaboracionista o é realmente, mas, nas circunstâncias dramáticas de lutas desiguais, cometem-se compreensíveis erros de julgamento).

    Enfim, tudo isso é tido ou como necessário, ou como inevitável, numa luta contra a tirania.

    É claro que, se um resistente tiver aproveitado a situação para beneficiar-se pessoalmente ou acertar contas com desafetos (apenas como hipótese, não tenho conhecimento de que algo assim haja ocorrido), isto haveria mesmo sido um crime comum.

    Mas não as expropriações de agências bancárias para sustentar a resistência, roubos de armas e de dinamite, sequestros de diplomatas para trocá-los por presos políticos, tomada de aviões, ocupação de emissoras para colocar manifestos no ar, atentados contra expoentes do regime ditatorial, e que tais: estas ações, com ou sem a Lei de Anistia, só mereceriam medalhas, jamais processos.

    Então, na verdade, a revogação da Lei de Anistia ameaçaria apenas os criminosos envolvidos com o terrorismo de estado, não suas vítimas.

    E o fato de Dilma Rousseff ter sido uma dessas vítimas não interfere em nada, absolutamente em nada, com a essência da questão. Como presidente da República, ela deve fazer o que é certo, sem medo de bichos papões.

    O problema, a meu ver, é outro: a idade avançada dos possíveis réus e a tradicional lerdeza da Justiça brasileira, não só por ineficiência burocrática como por propiciar recursos protelatórios praticamente infinitos a quem pode bancar os melhores advogados.

    Então, o que deve ser ponderado é o seguinte:
    • valeria a pena introduzirmos um rito sumário apenas para tais casos, o que levantaria previsíveis acusações de desigualdade de tratamento?
    • ou se deixaria que as ações seguissem o andamento normal, com 99.9% de chances de os réus morrerem antes de as sentenças serem executadas?
    Como alternativa, haveria a possibilidade de, revogada a anistia de 1979, aprovar-se uma nova, estabelecendo a responsabilidade dos usurpadores do poder e dos que administraram/executaram o terrorismo do estado, mas poupando-os de punição concreta por motivo exclusivamente humanitário: o de serem hoje anciães e não haverem sido processados no momento certo em função da imperdoável omissão do Estado.

    Esta última solução teria a vantagem de não ensejar a canalhas a chance de posarem como vítimas, angariando simpatias e solidariedade imerecidas.

    Evitaria fornecer pretextos golpistas aos  pescadores em águas turvas  a que Clóvis Rossi se referiu.

    Deixaria os parâmetros corretos para nortearem enfoques futuros da mesma questão (torcendo para que jamais isto venha a ser necessário...). A partir daí, saberíamos exatamente como agir numa saída de ditadura, então não discutiríamos em 2010 o que deveria ter sido feito em 1985.

    E fecharia de forma digna essa página vergonhosa de nossa História, afixando nas testas dos torturadores e seus mandantes a etiqueta de  criminosos que eventualmente escaparam da punição, mas fizeram jus ao opróbrio eterno.

    sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

    MINHA MENSAGEM DE NATAL


    Qual a imagem mais adequada para transmitir aos companheiros e amigos meus sentimentos sobre o Natal?

    Pensei um bocado e acabei chegando neste trecho do melhor filme a que assisti sobre os episódios bíblicos: Jesus Christ Superstar, de 1973, dirigido por Norman Jewison.

    Pois é este o Cristo (belo, e não torturado) e é este o cristianismo (libertador, e não intolerante) que carrego no coração.

    É claro que o tema "Hosanna" não se refere ao nascimento de Jesus, motivo da celebração de amanhã.

    Mas, nunca me prendi a esses aspectos formais. O que vem sempre primeiro, para mim, é o espírito da coisa...

    DIPLOMATA BRASILEIRO AJUDOU EUA A ARRANCAREM SEAN GOLDMAN DOS AVÓS

    Quando um arrogante senador estadunidense chantageou o Brasil -- ao anunciar que embargaria a prorrogação de uma isenção tarifária para importações de produtos brasileiros, prestes a expirar, acarretando um prejuízo de 3 bilhões de dólares para nosso país, caso Sean Goldman não fosse entregue ao pai David --, firmei posição: quaisquer que fossem as razões jurídicas nesse episódio, não poderíamos jamais ceder sob pressão, dançando enquanto o cowboy dava tiros no chão.

    Um ministro do Supremo Tribunal Federal cônscio da dignidade nacional determinou que o jovem Sean fosse, ao menos, ouvido pelo plenário do STF, antes que o enviassem à força para onde não queria ir.

    O então presidente da mais alta corte do País, Gilmar Mendes, aproveitou o fato de estar de plantão no período natalino para prostrar-se ao ultimato dos EUA. Botaram Sean num contêiner e o despacharam a toque de caixa, bem a tempo de cumprir o prazo imposto pelo senador.

    A família brasileira de Sean não está tendo sequer o direito de o visitar. Precisou pleitear isso à Justiça estadunidense, que ainda não deu sua decisão.

    Também questiona na Justiça daqui o fato de um ministro do Supremo ter revogado abusivamente a decisão de outro. Ora, depois da imensidão de arbitrariedades que a dupla Gilmar Mendes/Cezar Peluso cometeu no Caso Battisti, isso foi café pequeno.

    Agora, a documentação diplomática exposta pelo Wikileaks revela que o então conselheiro da embaixada brasileira em Washington, Alexandre Ghisleni, aconselhava os gringos sobre a melhor maneira de arrancar Sean de seus avós.

    Então, recomendou que os congressistas de lá não fizessem discursos inflamados, que pudessem despertar os brios brasileiros -- tão escassos ultimamente. [Na verdade, só mesmo as inqualificáveis reações italianas ao refúgio de Cesare Battisti -- "O Brasil é mais conhecido por suas dançarinas do que por seus juristas", etc. -- produziram tal efeito.]

    Enfim, o papel desse tal Grisleni no episódio foi tal que merece ser agora designado para prestar seus relevantes serviços na faixa de Gaza, p. ex.

    Mas, como fofoqueiros e informantes dos EUA aqui são até mantidos no Ministério, é provável que nada lhe aconteça.

    quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

    RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS!

    As audiências das ações propostas por Boris Casoy contra os que escreveram sobre ele quando do episódio dos garis (vide meu posicionamento aqui) foram marcadas em sequência, daí ter tomado conhecimento de que o Paulo Henrique Amorim era alvo de outra delas.

    Como ele não tinha sido devidamente notificado e deixou de comparecer ou mandar advogado, eu até o alertei.

    Constato agora que o PHA optou pela retratação.

    É como agem as pessoas sensatas: livram-se dos problemas.

    Eu tenho uma expectativa favorável quanto à sentença de 1ª instância, que está para ser anunciada.

    Mas,  se acontecer o pior, optarei por percorrer todas as cortes da Justiça brasileira e até apelar às internacionais, de preferência a recuar um milímetro numa questão em que sei ter a razão ao meu lado e vejo o risco de abertura de um precedente nefasto para jornalistas e blogueiros. Censura, nunca mais!

    É como agem os revolucionários: colocam os princípios acima da tranquilidade, das conveniências e até da própria vida.

    TOSTÃO: "DEIXAMOS DE SER SEMPRE OS FAVORITOS"

    O grande Tostão, exemplo de esportista e de cidadão, é um dos dois melhores comentaristas esportivos do Brasil.

    Ele e Sócrates comprovam que se pode ser craque com a bola e com o teclado, assim como Leônidas da Silva o era com a redonda e com o microfone.

    Então, foi com orgulho que eu constatei, na coluna A realidade é outra, a coincidência de avaliações, pois Tostão também constata que o Brasil deixou de ser o país do futebol e hoje é apenas mais um país onde se joga futebol.

    Repito a advertência que fiz sobre o sério risco de perdermos o Mundial em nossa casa: não temos mais a melhor seleção, nem as melhores equipes, nem mesmo os melhores jogadores. Nosso futebol é feio, sem imaginação e com poucos gols.

    E, no último Brasileirão, descemos ao fundo do poço em termos morais, pois os jogos entregues por pirraça pelo São Paulo e Palmeiras, mais as partidas em que algum time escalou reservas para priorizar competições sul-americanas, acabaram tendo influência decisiva na classificação final.

    Leiam a análise que Tostão faz da catástrofe colorada no Mundial de Clubes, é simplesmente irrespondível:
    "Antes do Mundial, a maioria exaltava o Inter, outros times brasileiros e o Campeonato Nacional, porque queria valorizar o produto, aumentar a audiência dos programas esportivos e vender mais pacotes de pay-per-view. Outros exaltavam porque confundem jogo emocionante e equilibrado com qualidade técnica. Alguns elogiavam pelos dois motivos.

    E há também os que não perderam o senso crítico e que não fazem parte da turma do oba-oba. É a minoria.

    Apesar de os times brasileiros pagarem muito melhor e contratarem muito mais jogadores bons, caros e famosos, não há diferença técnica entre eles e os principais adversários sul-americanos.

    Fora a conquista do Inter na Libertadores deste ano, Grêmio, Fluminense e Cruzeiro foram derrotados nas três edições anteriores.

    O Brasil perdeu para a Argentina na última Olimpíada e, na anterior, nem se classificou, mesmo com Robinho, Diego e Nilmar. No último Mundial sub-17, a seleção, com Philippe Coutinho e Neymar, levou um show, acredite se quiser, da Suíça. O Brasil perdeu os três últimos Mundiais sub-17 e sub-20. Nas duas últimas Copas do Mundo, o Brasil foi eliminado nas quartas de final.

    O Brasil também ganhou vários títulos. Ganha e perde, com frequência. Deixamos de ser sempre os favoritos.

    A antiga diferença entre o futebol europeu, com muita força e jogadores altos e fortes, e o brasileiro, com muita fantasia, habilidade e criatividade, não existe há muito tempo. O Brasil perdeu seu estilo diferente e bonito de jogar. Está tudo igual.

    Não sou pessimista. É a realidade, que a maioria não vê ou finge não ver".

    quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

    AGONIA DE BATTISTI DEVERÁ SE PROLONGAR POR MAIS UMA SEMANA

    Dreyfus,
    Vanzetti
    e Sacco:
    vítimas
    de óbvias
    armações
    políticas e
    jurídicas. 
    Mas, a
    História
    não se 
    repetirá
    no Brasil.
    Temos
    vergonha
    na cara...


    A boa notícia é que a Advocacia Geral da União finalmente entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o parecer com o embasamento jurídico para a recusa do pedido italiano de extradição do escritor Cesare Battisti.

    A má notícia é que o fim da agonia não deverá mais ser nesta 5ª feira (23), mas sim entre o Natal e o Ano Novo.

    Evidentemente, para quem sofre com uma prisão arbitrária e amarga uma espera de quase quatro anos, uma semana a mais ou a menos não faz tanta diferença.

    Mas, é triste vermos que uma decisão DIGNA, SOBERANA e JUSTÍSSIMA será apresentada aos brasileiros dessa forma evasiva, encabulada.

    Que não se confrontam altaneiramente as falsidades e manipulações da imprensa burguesa, mas apenas se tenta esvaziar as reações contrárias.

    A recusa do Brasil, de acumpliciar-se com o linchamento de Cesare Battisti, deveria ser anunciada com pompa e circunstância, mostrando ao mundo que aqui casos como os de Dreyfus e de Sacco e Vanzetti têm o desfecho adequado. 

    Daríamos uma lição de moral aos reacionários do 1º mundo. Mas...

    IRÃ, UMA PIADA DE MAU GOSTO

    O estado teocrático do Irã acaba de anunciar a sentença kafkiana de Jafar Panahi, cineasta que PRETENDIA fazer um filme sobre os movimentos de resistência à tirania e ao obscurantismo impostos ao seu país: seis anos de prisão e 20 sem poder exercer o ofício.

    Igualzinho à Inquisição. Os Torquemadas não têm lá muita imaginação.

    O regime dos aiatolás ensandecidos teima em imitar aqueles vilãos de bangue-bangues antigos, que se vestiam de preto, coçavam o bigode e cuspiam no chão.

    Pratica um totalitarismo brutal e bestial, acreditando que dá uma demonstração de coragem, ao assumir ostensivamente sua regressão da civilização para a barbárie.

    Não. É apenas patético. O mundo o vê como uma piada... de péssimo gosto

    terça-feira, 21 de dezembro de 2010

    EXPOSTO JOGO DUPLO DO FATAH: PEDIU A ISRAEL QUE ATACASSE O HAMAS

    Em terra de cego, quem tem um olho, os outros arrancam.

    Cansei de ser hostilizado pelos  politicamente corretos  em episódios nos quais meu único pecado era o de enxergar bem mais longe do que eles.

    P. ex., embora tivesse imediatamente me posicionado contra o golpe em Honduras, fui também dos primeiros a advertir que Manuel Zelaya não estava à altura do desafio: quem se deixa escorraçar do país em pijamas mostra o que dele poderá esperar-se sempre que a barra pesar.

    Não deu outra: voltou ao território hondurenho em carreata e depois clandestinamente mas, nas duas vezes, não ousou deixar-se prender para forçar dramaticamente OEA, ONU e aliados regionais a tomarem uma atitude.

    Como dizia Charles Gordon (o herói de Cartum), às vezes a vida é o último trunfo que resta a um combatente para tentar reverter uma situação perdida. O pusilâmine Zelaya, contudo, nunca teve fibra para jogar uma cartada dessas.

    Também disseram cobras e lagartos sobre a minha posição em relação a árabes e israelenses, expressa em dois artigos que até hoje considero irretocáveis: A tragédia do Oriente Médio e Temos de desmontar a máquina de matar.

    O que havia de tão escabroso na minha posição? Leiam (com alguma paciência) e avaliem:
    "...discordo dos motivos (principalmente religiosos) alegados para a implantação de Israel onde está, mas não vejo como reverter o fato consumado sem um banho de sangue que não deve ser desejado por nenhum ser humano digno deste nome.

    Então, o melhor caminho seria mesmo o recuo de Israel às fronteiras iniciais (de maio/1948), o estabelecimento de um estado palestino e um esforço sincero de todas as partes envolvidas para dar um fim à beligerância na região.

    Se, entretanto, Israel mantiver sua intransigência quanto à devolução dos territórios de que apossou-se  manu militari  a partir da guerra árabe-israelense de 1948, e os árabes continuarem não admitindo a existência de Israel, o mínimo de sensatez manda que se descarte, de uma vez por todas, a estratégia sanguinária de exporem-se as populações civis a massacres, em iniciativas sem perspectiva nenhuma de êxito.

    Vou explicar melhor. Nem coligados os países árabes conseguiram até agora derrotar Israel, então salta aos olhos e clama aos céus que nenhuma dessas nações obterá êxito isoladamente.

    Teriam de combater o estado judeu todas juntas, sob um comando único e respeitado (as divergências entre elas são tão profundas que nunca seguiram verdadeiramente uma estratégia conjunta, apenas enfrentaram Israel ao mesmo tempo, mas como se lutasse cada uma por si).

    O que impede uma  guerra santa  dessas? O fato de os mandatários das nações árabes temerem muito mais revoluções em seus próprios paises do que odeiam Israel. São e representam privilegiados que empenham-se, acima de tudo, em manter seus privilégios.

    Daí quererem mesmo é evitar qualquer possibilidade de que a mobilização contra Israel acabe se voltando contra eles; povo armado é povo perigoso. Daí virem sabotando-a e até reprimindo-a através dos tempos, embora mantenham a retórica antiisraelense da boca pra fora.

    Movimentos fundamentalistas tentam virar o jogo com agressões insensatas a Israel, para provocar retaliações. Sonham com uma situação na qual os judeus provoquem tamanha indignação que os dirigentes das nações árabes, mesmo a contragosto, sejam obrigados a lançar uma nova  jihad.

    Isso nunca acontece. E o que essa gente faz é atrair desgraças para seu povo. Velhos, mulheres e crianças são dizimados por conta disso.

    Então, a esquerda mundial deveria negar qualquer apoio a essa estratégia de provocações irresponsáveis.

    O grande vilão pode ser Israel, mas quem impede o êxito de qualquer campanha militar contra o estado judeu são os dirigentes das nações árabes, com seu jogo duplo".
    Pesado? Não. Verdadeiro: o jogo duplo acaba de ser escancarado pelos documentos diplomáticos estadunidenses que o WikiLeaks está tornando públicos.

    Então, agora todos ficamos sabendo que o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, pediu a Israel que atacasse o Hamas em 2007, quando do conflito que resultou na tomada de Gaza pelo movimento de orientação islâmica, deixando o laico Fatah restrito à Cisjordânia.

    Desesperado em evitar tal desfecho, Abbas não hesitou em suplicar a intervenção do  bicho papão...

    Inclusive, segundo um relato de julho/2007 da embaixada dos EUA em Tel Aviv, a inteligência palestina repassava à sua congênere israelense "quase toda a informação" que coletava.

    Enquanto persistir tal mentalidade, Israel continuará deitando e rolando no Oriente Médio.

    segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

    JOBIM "REFORÇOU OS PIORES SEGMENTOS MILITARES", ACUSA VANNUCHI

    O Tiririca, pelo menos, não
    vestirá sua farda de palhaço
    ao atuar como deputado...


    Paulo Vannuchi, que não continuará como ministro dos Direitos Humanos no governo de Dilma Rousseff, abriu fogo contra o ministro da Defesa Nelson Jobim em entrevista concedida à Folha de S. Paulo.

    Criticou o comportamento desleal de Jobim em relação ao PNDH-3, mas poderia tranquilamente ter estendido sua reprovação a outros episódios; afinal, sempre que se discutiu no Ministério a punição dos torturadores da ditadura de 1964/85 e o resgate da verdade sobre os desaparecidos políticos, Jobim se fez porta-voz da pior e mais obtusa direita militar, ao invés de se posicionar como representante de um governo democrático.

    Palavras de Vannuchi:
    "Quanto a Jobim, foi indesculpável atacar o Plano de Direitos Humanos e a mim pessoalmente, sabendo dos problemas reais de comunicação entre nós nas vésperas do lançamento do decreto presidencial.

    Nos chamar de revanchistas maculou sua própria biografia. Reforçou os piores segmentos militares, extremamente minoritários e quase exclusivamente da reserva, que ainda se orgulham de assassinatos e desaparecimentos".
    Com isto, acrescentou Vannuchi, foi mais fácil deixar tudo como estava, sem se apurarem devidamente as atrocidades cometidas a mando ou com a conivência dos usurpadores do poder:
    "Muitos militares ainda vivos possuem informações que levariam, com certeza, à localização de pelo menos parte dos restos mortais dos desaparecidos. Esse esforço é a favor das Forças Armadas, para que os brasileiros se orgulhem delas sem isso representar aprovar crimes hediondos como tortura, degola e violação sexual de opositores da ditadura".
    E, embora a chamada  linha dura  militar hoje só dê sinais de vida em pronunciamentos de oficiais da reserva e nos sites ultradireitistas, Vannuchi adverte que continua existindo uma "cultura da  Guerra Fria  e de preconceitos da antiga Doutrina de Segurança Nacional, ainda não substituídos pelo ensino de direito constitucional e dos direitos humanos na formação militar".

    Face a tudo isso, reforçamos a indagação à presidente Dilma Rousseff, fazendo coro com o companheiro Laerte Braga: por que manter no Ministério um civil tão obcecado por fardas que até as veste a torto e a direito, que se alinhou com as  viúvas da ditadura  e que foi exposto pelo Wikileaks como fofoqueiro e informante do governo estadunidense?

    domingo, 19 de dezembro de 2010

    BATTISTI DEVERÁ COMEMORAR O NATAL EM LIBERDADE

    A Advocacia Geral da União já concluiu o parecer justificando, nos termos do tratado de extradição vigente entre os dois países, a decisão brasileira de rejeitar o pedido italiano de repatriação do escritor Cesare Battisti, que deverá ter confirmado seu direito de morar e trabalhar em paz no Brasil.

    Segundo o noticiário, o mais provável é que o presidente Lula bata o martelo na próxima 5ª feira, 23, em tempo de Battisti comemorar o Natal em liberdade.

    Justiça seja feita, quem antecipou tal desfecho foi Eliane Cantenhêde, colunista da Folha de S. Paulo, em 16 de janeiro de 2010 -- há quase um ano, portanto.

    Em artigo divulgado no mesmo dia, endossei a conclusão da Cantenhêde, pois já tinha ouvido o mesmo de outras fontes:
    "Os perseguidores do escritor já nem se preocupam mais em pressionar o governo brasileiro, pois sabem que será inútil. A decisão soberana que, em seu nome, o ministro da Justiça Tarso Genro tomou há um ano vai ser confirmada.

    Agora, os italianos pedem apenas que a derrota não seja apresentada de forma humilhante para eles; e negociam com as nossas autoridades a melhor maneira de se dourar a pílula".
    Ultimamente, já se dava como favas contadas que o Brasil adotaria uma posição digna e soberana, tanto que a revista IstoÉ fez até matéria sobre os planos para a liberdade  de Battisti --, pondo fim a um pesadelo que já dura 46 meses, desde sua detenção no Brasil por causa de crimes ocorridos há mais de três décadas na Itália.

    Crimes de que não foi acusado no seu primeiro julgamento, em julho de 1979, quando recebeu a exageradíssima sentença de 12 anos de prisão, por mera subversão contra o Estado italiano.

    Crimes que lhe foram jogados nas costas quando o processo, já transitado em julgado, foi reaberto em 1987 por conta das delações premiadas de Pietro Mutti, o líder do grupo de ultraesquerda do qual Battisti havia participado.

    Acusado por um juiz, noutro processo, de mentir sistematica e descaradamente à Justiça, distribuindo culpas de acordo com suas conveniências, foi também assim que Mutti agiu em relação a Battisti, atribuindo-lhe quatro assassinatos -- e, pateticamente, a acusação teve de ser reescrita pelos promotores quando se constatou que dois desses episódios haviam ocorrido com intervalo de tempo insuficiente para que Cesare pudesse ter se locomovido de uma a outra cidade.

    Em vez de atirarem esse amontoado de mentiras no lixo, inventaram que Battisti teria sido o autor intelectual de um desses homicídios. Poderiam também ter-lhe atribuído o dom da ubiquidade, por que não? As fábulas aceitam tudo...

    Com o único respaldo de outros interessados em favores da Justiça italiana, cujos depoimentos  magicamente  se casaram com os de Mutti, Battisti foi condenado em 1987 à prisão perpétua.

    Depois ficou indiscutivelmente provado que, foragido no México, ele esteve representado nesse julgamento por advogados que não constituíra para tanto, os quais fraudaram procurações para apresentarem-se como seus patronos (embora houvesse conflito de interesses entre Battisti e os co-réus que eles também defendiam).

    Nem sequer isto foi levado em conta pela Justiça italiana, que lhe nega o direito líquido e certo a novo julgamento, como qualquer sentenciado à pena máxima cuja condenação tenha se dado à revelia.

    O quadro se completa:
    • com as pressões políticas e caríssimas campanhas de mídia que a Itália desenvolveu para convencer a França a renegar o compromissso solene que assumira com os perseguidos políticos italianos, de deixá-los em paz desde que se abstivessem de interferir na política de sua pátria;
    • com as descabidas pressões políticas sobre o governo brasileiro, depois que este, soberanamente, concedeu refúgio a Battisti; e
    • com a interferência exorbitante nos trâmites do caso no STF, servilmente consentidas por Cezar Peluso, que em momento algum mostrou a isenção inerente a um relator, tomando invariavelmente partido pela posição italiana contra Battisti e contra o ministro da Justiça do Brasil (que sempre deu e deveria continuar dando a última palavra nos casos de asilo político e refúgio humanitário).
    Nem sequer a GRITANTE prescrição do caso foi levada em conta por Peluso, que recorreu a filigranas jurídicas para confundir o óbvio, com a anuência de outros ministros reacionários do Supremo.

    Depois de rasgar a Lei do Refúgio e desconsiderar a jurisprudência consolidada em vários outros casos, o STF não ousou, contudo, consumar o linchamento de Battisti: contra a vontade dos ministros alinhados com a posição italiana, reconheceu que continuava cabendo ao presidente da República dar a última palavra no assunto.

    Assim se escoaram quase quatro anos da vida de Cesare Battisti, cidadão que  foi mais do que punido pelo que realmente fez, mas quiseram transformar em bode expiatório do que não fez, como um símbolo do triunfo da pior direita européia sobre os ideais de 1968.

    Os brasileiros ciosos da soberania nacional e inspirados pelo espírito de Justiça certamente apoiarão a decisão de Lula, de colocar fim nessa jornada kafkiana, confirmando o direito que nosso Ministério da Justiça já reconheceu, de Battisti residir e escrever seus livros no Brasil, definitivamente a salvo da  vendetta  dos neofascistas italianos.

    MUNDIAL DE 2014: COMO EVITARMOS O DESASTRE ANUNCIADO?

    Lamento informar, mas o Brasil não é o favorito para o Mundial da Fifa de 2014. Longe disto.

    Não tem mais a melhor Seleção, nem as melhores equipes, nem mesmo os melhores jogadores.

    É uma constatação amarga, mas inescapável, para mim.

    Eu estava só com sete anos quando conquistamos a primeira Copa do Mundo. Então, nem sequer tive a percepção do que era ocupar posição inferior no futebol mundial.

    Com Seleção, Santos e Botafogo dando verdadeiras aulas aos gringos desajeitados e maravilhando o planeta bola, acostumei-me às vacas gordas.

    E conquistamos o bicampeonato no Chile, em 1962, com Garrincha como a estrela solitária que brilhou como nunca.

    E tropeçamos nos nossos erros, na violência dos europeus e nas arbitragens facciosas em 1966, nos gramados ingleses.

    Ficamos com a impressão de que só com armações e antifutebol o  velho mundo  conseguia evitar que nossa superioridade prevalecesse.

    Reforçada quando tivemos nosso maior triunfo, em 1970, no México: vencemos todas as partidas, com direito a atropelar três campeões do mundo em nossa trajetória: Inglaterra (oitavas de final, 1x0), Uruguai (semifinal, 3x1) e Itália (final, 4x1). Melhor, impossível.

    Já lá se vão 40 anos desde o nosso apogeu.

    Vimos a Holanda revolucionar o futebol mundial com seu carrossel, em 1974.

    Vimos Maradona carregar a Argentina nas costas em 1986 como nosso Mané das pernas tortas fizera em 1962.

    Ainda saímos vencedores duas vezes nos dez Mundiais seguintes, mas com um futebol pouco convincente (1994) ou tendo a sorte de enfrentar  galinhas mortas  (2002, quando nosso único adversário de verdade foi a Inglaterra).

    Nunca mais formamos equipes como o Santos de Pelé e o Botafogo do Mané. Conquistamos alguns Mundiais, sim, mas sem  arrasar...

    E chegamos ao fundo do poço em 2010.

    Na Copa da África, nem ganhamos nem deslumbramos. Perda total.

    No Mundial de clubes, uma zebra nos atropelou, tornando-nos protagonistas de um vexame histórico.

    Já não temos craque remotamente equiparável ao melhor do mundo (Messi), nem time que pudesse remotamente encarar o incrível Barcelona.

    Praticamos um futebol feio, sem imaginação e de poucos gols, ao contrário do Barça, que chega perto dos 90% de aproveitamento e está marcando mais de três tentos por partida.

    Finalmente, despencamos miseravelmente no quesito  desportividade, com nosso Brasileirão transformado em farsa, já que clubes grandes entregaram jogos por pirraça no final da campanha, com influência decisiva na classificação final.

    Afora o gritante desinteresse de São Paulo e Palmeiras quando enfrentaram, como mandantes, o Fluminense, ainda houve o escracho de o time de Felipão liberar 16 atletas para as férias antes da partida final contra o Cruzeiro. Avacalhação maior, impossível.

    Então, em termos técnicos, a tarefa de Mano Menezes será reerguer o futebol brasileiro das cinzas.

    Tão carente estamos de um articulador do ataque, desde que as estrelas de Ronaldinho Gaúcho e Kaká se apagaram, que nosso treinador já admite, seriamente, escalar Conca, caso este se naturalize.

    Se não, o jeito será torcermos para que o Ganso se torne o supercraque que se adivinhava quando uma contusão o afastou dos gramados.

    E não é só um Messi que nos falta, neste momento.

    Também temos de incorporar a última grande evolução tática do futebol mundial: a do Barcelona, claro.

    É um time que marca o adversário sob pressão no gramado inteiro, busca com volúpia a retomada da bola para, então, trocar passes interminavelmente, com extrema habilidade, enquanto seus jogadores efetuam uma rotação constante para tentarem criar brechas na defesa adversária.

    Aí, das duas, uma:
    • ou algum deles finalmente se desmarca o (átimo de) tempo suficiente para receber o passe certeiro em condições de levar perigo;
    • ou os craques da equipe desequilibram com lampejos individuais ou jogadas coletivas perfeitas (principalmente as tabelinhas).
    É esta receita de futebol ofensivo que teremos de incorporar, se quisermos chegar ao Mundial de 2014 com possibilidade de vencer e convencer.

    E está mais do que na hora de voltarmos a decidir os principais campeonatos nos mata-matas, em que cada time lute por si e nenhum seja beneficiado por indignidades alheias (desde o  corpo mole  para prejudicar rivais domésticos até a escalação de times reservas para priorizar outras competições).

    É o que dá para fazermos nesses três anos e meio que temos pela frente. 

    Não sobra mais tempo para colhermos os resultadas da mudança de conceitos que se impõe na formação dos novos valores: deixarmos de priorizar a competitividade e desestimular os talentos diferenciados, como vimos fazendo, com espantosa cegueira.

    Mas podemos, pelo menos, evoluir taticamente e resgatar a credibilidade de nossas competições, depois do fim de feira, em termos morais, que foi o Brasileirão 2010.

    O certo é que estamos no fundo do poço e ameaçados não só de uma derrota como a de 1950, mas de fazermos campanha desastrosa.

    Depende de todos -- dirigentes, treinadores, jogadores, comentaristas e torcedores -- reverter este quadro.
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