sábado, 13 de junho de 2009

A LUTA ARMADA BRASILEIRA PODE SER EQUIPARADA A TERRORISMO?

No ano passado, em meio à interminável polêmica sobre a punição ou não dos torturadores da ditadura militar, a ministra da Casa Civil Dilma Rousseff lembrou que a tortura é tida pela ONU e pelos países civilizados como um crime imprescritível.

O presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes assim a contestou: "O texto constitucional também diz que o crime de terrorismo é imprescritível. (...) Direitos humanos não podem ser ideologizados, é bom que isso fique claro".

Como jornalista veterano e que sempre me interessei pelas grandes questões jurídicas, eu lembrei, na minha refutação a Mendes, o direito de resistência à tirania, que impediria, tanto no caso de quem pegou em armas contra o nazifascismo na Europa como no caso de quem travou a luta armada contra o regime de exceção brasileiro de 1964/85, o enquadramento legal como terrorista.

Curiosamente, um ex-presidente do STF, o ministro da Defesa Nelson Jobim, acaba de dizer que, embora tratados internacionais e a ONU definam a tortura como crime imprescritível, isso não se aplica ao Brasil: "Os tratados internacionais aqui não valem mais que a Constituição. Eles estão sujeitos à Constituição brasileira, que dá imprescritibilidade para um crime só: o de racismo".

Que os doutos juristas esclareçam quem tem razão, Mendes ao afirmar que o terrorismo é imprescritível no Brasil ou Jobim ao garantir que o único crime imprescritível no Brasil é o de racismo. Para nós outros, leigos, causa estranheza que o atual e um antigo presidente do STF divirjam num assunto de tal relevância.

Mas, a questão que merece mesmo ser aprofundada é a da luta armada brasileira x terrorismo. Nos anos de chumbo, essa equiparação foi lançada num artigo falacioso da imprensa carioca e chamou a atenção dos serviços de guerra psicológica das Forças Armadas, que passaram a utilizá-la em sua propaganda enganosa.

Assim, os cartazes que a Operação Bandeirantes confeccionou em 1969 para serem expostos em logradouros públicos me apresentavam como um dos "terroristas assassinos procurados" que "depois de terem roubado e assassinado vários pais de família, estão foragidos".

No entanto, eu jamais participei de ações armadas, nem seria disto acusado quando me prenderam no ano seguinte. Ademais, julgado por quatro auditorias militares diferentes, em nenhuma das sentenças meus atos foram qualificados como terrorismo. Nem nas dos demais resistentes, aliás.

A própria ditadura percebia o quanto haveria de forçação de barra numa tentativa de caracterizar-nos, em termos legais, como terroristas. Era apenas um lance propagandístico, na linha goebbeliana: repisar uma mentira mil vezes até que ela seja tomada como verdade.

O que não impede de até hoje a extrema-direita bater nesta tecla, como única escapatória retórica diante das evidências avassaladoras de atrocidades cometidas pela ditadura. Já que não tem como negar as torturas e assassinatos perpetrados pelo seu lado, tenta equipará-los ao pretenso terrorismo.

Então, vale a pena atentarmos para estes esclarecimentos do professor de Direito Constitucional Alex Monnerat Baptista que, a meu ver, elucidam definitavamente a questão:
A Carta de 1988 previu tratamentos distintos para os crimes terroristas e os crimes denominados políticos. De acordo com o grande doutrinador de Direito Constitucional Daniel Sarmento:

"Não se devem caracterizar os atos praticados contra a ditadura militar como crimes políticos ou de terrorismo. Até porque, de acordo com a definição do art. 2º da Lei 7.170/83, foram os golpistas de 1964, e não os insurgentes de esquerda, que subverteram a ordem constitucional vigente, estabelecendo, sob a égide da violência, do terror e do medo, uma nova 'ordem' político-institucional, sem qualquer salvaguarda dos princípios básicos atinentes à fundamentação da soberania democrática do Estado.

"Ademais, a própria Lei da Anistia (que os próprios militares citam como uma lei pactuada democraticamente, mas não passou de mais uma decisão unilateral dos juristas da repressão) deixou de punir crimes considerados políticos. E se deixou de punir, excluiu a própria antijuridicidade destes atos".

Há quem tente discutir esta questão à luz do Art. 20 ("Devastar, saquear, extorquir, roubar, seqüestrar, manter em cárcere privado, incendiar, depredar, provocar explosão, praticar atentado pessoal ou atos de terrorismo, por inconformismo político ou para obtenção de fundos destinados à manutenção de organizações políticas clandestinas ou subversivas").

Tal artigo, no entanto, faz menção a inconformismo político, mas não define que seja crime os atos praticados por militantes de esquerda contra regimes de exceção instaurados por violência e que tenham subvertido a Constiuição vigente (como ocorreu durante a ditadura militar).

A Jurisprudência já é assente neste sentido, asseverando ainda que, pelo fato de o Poder Judiciário estar impedido de apreciar matéria política, por força do art. 11 do odioso Ato Institucional nº 05, de 13 de dezembro de 1968, e pelo fato de o Congresso Nacional ter sido abruptamente silenciado pelo Poder Executivo (que se pretendia moderador), não podem ser tomados como terroristas os atos praticados pelos militantes contrários ao regime militar.

Os atos terroristas pressupõem, por definição, uma situação de normalidade democrática e uma concreta ameaça a esta normalidade oriunda de grupos armados e organizados (terroristas). O que havia, durante os tão famigerados anos de chumbo, era uma situação atípica na qual a opressão e a turbação às instituições democráticas partiam do próprio governo, este sim terrorista e com atitudes notadamente liberticidas.

No que tange aos acontecimentos ocorridos durante a ditadura, a questão fundamental é:
  • havia uma normalidade democrática?
  • os que tomaram o poder em 1964 tinham legitimidade para comandar os negócios políticos do país?
  • os Poderes Legislativo e Judiciário funcionavam de forma livre e desembaraçada (no que tange à apreciação de matéria política)?
Se a resposta a estas questões for "não", então, sob a ótica da Jurisprudência, não há que se falar em atos terroristas cometidos pelos militantes da esquerda, durante a vigência do regime de exceção.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

JOBIM: MINISTRO DA DEFESA DO BRASIL OU MINISTRO QUE DEFENDE OS TORTURADORES BRASILEIROS?

O ministro da Defesa Nelson Jobim (na foto, fantasiado com um uniforme de campanha) deitou falação contra a punição dos torturadores do regime militar.

Em entrevista concedida à Agência Brasil, disse várias bobagens e também algo que nos dá motivo para reflexões.

Até agora a ficha não caiu para Jobim, quanto ao seu papel: compete-lhe fazer com que as diretrizes do Governo Federal sejam cumpridas pelas Forças Armadas e não atuar como porta-voz e defensor das Forças Armadas no seio do ministério de Lula.

Parece nunca ter tomado conhecimento da missão da Pasta, conforme descrita na sua própria página virtual: “O Ministério da Defesa (MD) é o órgão do Governo Federal incumbido de exercer a direção superior das Forças Armadas [grifo meu], constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica”.

Ou seja, quando o Brasil saiu das trevas, houve a preocupação de eliminar-se a distorção existente durante a ditadura, quando havia ministros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica representando suas Armas no governo.

Pior ainda, eram eles três o governo real, pois os ministros civis não passavam de vaquinhas de presépio, sempre dizendo amém às imposições da caserna; mandavam os escrúpulos às favas, como tão bem definiu o então ministro da Educação (!) Jarbas Passarinho.

Assim, quando o ditador Costa e Silva sofreu uma trombose, os três atropelaram o direito do vice Pedro Aleixo e se constituíram em governo provisório, enquanto brigavam pelo poder nos bastidores. O Exército, como sempre, acabou prevalecendo, tendo o general Emílio Médici sido empossado como novo ditador dois meses depois, enquanto o almirante Augusto Rademaker recebia o prêmio de consolação (vice).

ENQUADRADO POR QUEM DEVERIA ENQUADRAR

Recolocando generais, almirantes e brigadeiros no seu devido lugar, o Brasil redemocratizado adotou a prática da maioria dos países civilizados, de submetê-los a um ministro da Defesa civil. Infelizmente, Nelson Jobim se deixou enquadrar por aqueles que deveriam, isto sim, manter-se obedientes à sua direção superior.

Sua capitulação se deu como consequência de um dos episódios mais traumáticos do Governo Lula, em agosto/setembro de 2007.

O Ministério da Justiça estava lançando o livro Direito à Memória e à Verdade, uma espécie de relatório final da sua Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, e Jobim exagerou na empolgação.

Em seu discurso, afirmou esperar que as Forças Armadas recebessem com naturalidade essa iniciativa do governo em prol da reconciliação do País. E concluiu com uma bravata pueril: "Não haverá indivíduo que possa reagir. E, se reagir, terá resposta".

O Alto Comando do Exército reagiu mesmo, lançando uma nota em que contestava a posição (até então) oficial do Governo Lula, de repúdio às atrocidades cometidas pelo regime militar.

Num desafio frontal ao Governo como um todo e, principalmente, a Jobim, a nota dizia que “os fatos históricos têm diferentes interpretações, dependendo da ótica dos seus protagonistas”.

E, brigando com a verdade histórica (de que a Arma, ao colocar-se a serviço de golpistas, atentara contra a democracia), o texto rechaçava as críticas à atuação do Exército nesse período em que descumpriu sua missão constitucional: “Não há Exércitos distintos. Ao longo da história, temos sido o mesmo Exército de Caxias”.

Jobim não deu a resposta prometida, até porque Lula preferiu engolir o sapo, ao invés de fazer valer a autoridade de que foi investido pelo povo brasileiro. A insubordinação gritante do Exército passou em branco.

Curvando-se à evidência dos fatos, a partir daí Jobim desistiu das quedas-de-braço com os fardados, passando a acatar seu comando, principalmente nos episódios referentes à punição dos torturadores.

Hoje lidera a facção (majoritária) do Ministério de Lula que considera definitiva a anistia que os ditadores concederam a si próprios e a seus serviçais em 1979, contra a corrente encabeçada pelo ministro da Justiça Tarso Genro e o secretário especial de Direitos Humanos Paulo Vannuchi.

DESDE QUANDO JUSTIÇA É REVANCHISMO?

Na sua entrevista desta semana ( http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/06/10/materia.2009-06-10.9770975409/view ), visivelmente contrariado por ter de cumprir a determinação judicial que obriga o Estado brasileiro a tentar localizar os guerrilheiros executados pelo Exército no Araguaia, Jobim resmungou: “Uma coisa é o direito à memória, outra é revanchismo e, para o revanchismo, não contem comigo”.

Foi sua primeira bobagem. Desde quando alguém pedir punição para quem torturou, mutilou, estuprou, assassinou e deu sumiço em cadáveres é "revanchismo"?! O termo correto, segundo o entendimento da ONU e das nações civilizadas, é justiça.

Depois, Jobim argumentou contra a tese de que o Brasil deveria seguir os passos dos países sul-americanos empenhados em passar a limpo seu passado:
“Quero que o futuro se aproxime do presente. Às vezes, gastamos uma energia brutal refazendo o passado. Existem países sul-americanos que estão ainda refazendo o passado, não estão construindo o futuro. Eu prefiro gastar minha energia construindo o futuro”.
Segunda bobagem. Não se constrói o futuro sobre cadáveres insepultos e atrocidades impunes, pois aquilo que ficou malresolvido acabará explodindo na nossa cara.

Se não formos fundo no desmascaramento do totalitarismo passado, deixaremos de criar anticorpos para prevenir o totalitarismo futuro. Quem não aprende com as lições da História, está fadado a passar de novo pelos mesmos eventos traumáticos.

E o Chile é o melhor exemplo de que se pode muito bem construir o futuro sem varrer as sujeiras do passado para baixo do tapete. Apurou corajosamente os crimes da bestial ditadura de Augusto Pinochet e seu desempenho econômico ao longo desta década tem sido muito melhor do que o brasileiro.

Outras bobagens vieram em cascata:
“Não posso comparar o Brasil com a Argentina ou com o Uruguai. Houve um acordo político em 1979. Houve um projeto de lei que foi aprovado pelo Congresso Nacional. A questão hoje não é discutir se é a favor ou contra torturadores. A questão hoje é saber se podemos ou devemos rever um acordo político que foi feito por uma classe política que já hoje está praticamente desaparecida. É legítimo fazer isso? Vamos perder um tempo imenso fazendo isso”.
O “acordo político” foi firmado entre um ditador no poder e uma classe política não só intimidada, como também chantageada: ou aceitava que fosse contrabandeada para a Lei da Anistia essa muamba (o perdão eterno para os verdugos), ou os presos políticos não seriam libertados nem os exilados teriam permissão para voltar.

E o Congresso Nacional que aprovou o projeto de lei foi o mesmo que os militares fecharam tantas vezes quantas lhes aprouve, sangrando bancadas com a cassação de representantes eleitos pelo povo e impondo um bipartidarismo macaqueado dos estadunidenses (com a extinção arbitrária dos partidos existentes e a proibição de que se organizassem outros além de um situacionista e um oposicionista).

Quanto à perda de tempo, como pode um ex-presidente do Supremo Tribunal Federal colocar nestes termos simplórios a questão de fazer-se ou não justiça? Gilmar Mendes teve a quem puxar...

O único trecho aproveitável da fala de Jobim foi a advertência de que há um empecilho jurídico ao cumprimento de uma eventual decisão favorável à ação movida pela Ordem dos Advogados do Brasil, contestando a validade do artigo da Lei da Anistia que garante a impunidade dos torturadores:
“Se o Supremo decidir que a Lei de Anistia não é bilateral, o que eu não acredito, terá que enfrentar um outro assunto: a prescrição. Há um equívoco. Dizem que os tratados internacionais consideram alguns crimes imprescritíveis. Mas, no Brasil, não é assim. Os tratados internacionais aqui não valem mais que a Constituição. Eles estão sujeitos à Constituição brasileira, que dá imprescritibilidade para um crime só: o de racismo. Trata-se de uma questão legal”.
Ou seja, uma vez derrubado o entendimento de que a anistia de 1979 abrangeu os torturadores, começará outra batalha jurídica igualmente complexa e intrincada: os crimes por eles cometidos estão ou não prescritos?

Jobim antecipou qual será a linha de defesa seguinte dos torturadores. Deveria cobrar-lhes honorários de consultor.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

SENHOR CIDADÃO, QUE VIDA AMARGA!

Senhor Cidadão,
eu e você
temos coisas até parecidas:
por exemplo, nossos dentes,
da mesma cor, do mesmo barro.
Enquanto os meus guardam sorrisos,
os teus não sabem senão morder.
Que vida amarga!
("Senhor Cidadão", Tomzé)

Senhor Cidadão, não adianta colocares toda tua máquina de comunicação, inclusive a mídia que te é subserviente, para embaralhar os fatos, atirando sobre funcionários, professores e estudantes da USP a culpa pela batalha campal que teve lugar na Cidade Universitária, igualzinha àquelas dos tempos ásperos da ditadura militar, quando eu e você tínhamos coisas até parecidas: pelo menos nossos ideais, da mesma cor vermelha e moldados no mesmo barro da solidariedade para com os explorados.

Só que, enquanto eu os defendia nas ruas, os teus passos te levaram para bem longe, onde não havia sustos, nem companheiros tombando ao teu lado, nem o teu sangue corria risco de ser derramado pela causa.

Talvez advenha daí o teu rápido esquecimento daquilo que continua impresso indelevelmente na minha mente: as lições aprendidas na luta.

Uma delas é a de que, quando manifestantes e tropas de choque estão frente a frente, o conflito acaba sempre ocorrendo. E a imprensa burguesa acaba sempre culpando os "baderneiros" e fechando os olhos à bestialidade dos fardados.

E o pior é que nem uns, nem outros são os verdadeiros culpados. A responsabilidade é de quem arma o tabuleiro dessa forma.

Caso do episódio desta terça-feira Pois, não fosse a presença no campus dos mais truculentos efetivos da Polícia Militar, nada aconteceria além de uma manifestação pacífica, na qual o pessoal da USP distribuiria flores aos transeuntes, faria os discursos de sempre e depois se retiraria, como sempre, com a sensação de dever cumprido daqueles que tiveram brio de protestar contra as injustiças. Quantas vezes não ocorreram atos semelhantes, sem que fosse derramado sangue?

Mas, lá estando as odiadas e odiosas tropas de ocupação que o teu governo fez questão de lá manter mesmo depois de superada a situação utilizada como pretexto (não motivo, jamais motivo!) para a invasão aberrante de um templo do saber, isto tinha o efeito de uma provocação sobre aqueles jovens ciosos da diferença entre universidade e quartel, ambiente acadêmico que propicia a livre discussão e ambiente autoritário que impõe a obediência cega.

E deu no que deu, Senhor Cidadão: essas imagens chocantes que jamais deveriam se repetir em plena democracia, mas servem ao teu propósito de convenceres a direita de que és confiável. Agora, no teu afã de angariar apoios para a corrida presidencial, provastes aos inimigos de outrora que não há nada, absolutamente nada, que deixarás de fazer.

Foi como se dissesses aos reacionários: "às favas todos os escrúpulos de consciência!". Lembras? Trata-se da frase que definiu o papel histórico do coronel Jarbas Passarinho, aquele que era teu antípoda há quatro décadas e hoje, talvez, nem tanto...

Que vida amarga!

terça-feira, 9 de junho de 2009

AOS QUE VIERAM DEPOIS DE NÓS

Jovens companheiros,

recebam o abraço de um náufrago da utopia de 1968, quando os melhores brasileiros, muitos deles tão novos como vocês, percorreram esses mesmos caminhos de idealismo e esperança, sem conseguirem levar a bom termo a jornada.

Eram tempos sem sol, em que só tinham testas sem rugas os indiferentes e só se davam ao luxo de rir aqueles que ainda não haviam recebido a terrível notícia.

Num país de tão gritante desigualdade social, eu e meus amigos chegávamos a ser tidos como privilegiados. E, tanto quanto a vocês, os reacionários empedernidos e os eternos conformistas nos diziam: “Come e bebe! Fica feliz por teres o que tens!”.

Da mesma forma que vocês agora, um dia percebemos que nada do que fazíamos nos dava o direito de comer quando tínhamos fome. Por acaso, estávamos sendo poupados – ao preço de silenciarmos sobre tanta injustiça.

E cada um de nós se perguntou: “Como é que eu posso comer e beber, se a comida que eu como, eu tiro a quem tem fome? Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?”.

Escolhemos o caminho árduo dos que têm espírito solidário e senso de justiça.

Poderíamos, é claro, nos manter afastados dos problemas do mundo e sem medo passarmos o tempo que se tem para viver na terra. Mas, não conseguíamos agir assim. Viéramos para o convívio dos homens no tempo da revolta e nos revoltamos ao lado deles.

Foi uma luta desigual e trágica. Muitos daqueles com quem contávamos preferiram a “sabedoria” de seguir seu caminho sem violência, não satisfazendo seus melhores anseios, mas esquecendo-os. E se tornaram inacessíveis aos amigos que se encontravam necessitados.

No final, desesperados, trocávamos mais de refúgios do que de sapatos, pois só havia injustiça e não havia mais revolta.

Os que sobrevivemos, ainda amargamos a incompreensão dos que se puseram a falar sobre nossas fraquezas, sem pensarem nos tempos sem sol de que tiveram a sorte de escapar.

E assim transcorreram anos e décadas. Só nos restava confiar em que o ódio contra a vilania acabaria endurecendo novos rostos e que a cólera contra a injustiça um dia ainda faria outras vozes ficarem roucas.

A espera chegou ao fim. Saudamos esse movimento que vocês iniciaram e estão sustentando contra todas as incompreensões e calúnias, como o renascer da nossa utopia.

Nós, que tentamos e não conseguimos preparar o terreno para a amizade, temos agora a certeza de que a luta prosseguirá. E a esperança de que vocês vejam chegar o tempo em que o homem será, para sempre, amigo do homem.

CELSO LUNGARETTI

Obs.: há dois anos, quando estudantes ocuparam a reitoria da USP em defesa da autonomia universitária agredida por decretos autoritários do governador José Serra, dediquei-lhes a carta acima, livremente inspirada na poesia "Aos Que Virão Depois de Nós", de Bertold Brecht. Publico-a agora neste blogue como homenagem aos estudantes que, ao lado de professores e funcionários da USP, logo mais estarão realizando uma manifestação pacífica e distribuindo flores aos transeuntes, diante da reitoria e no portão principal de acesso, para exigir a retirada do campus das tropas da PM que nunca deveriam ter nele entrado, muito menos quando o governador do Estado é um ex-presidente da UNE (infelizmente brigando com seu passado para tentar eleger-se presidente da República com o apoio dos inimigos de outrora).

sábado, 6 de junho de 2009

TÚNEL DO TEMPO: TROPAS OCUPAM A USP, COMO NA DITADURA

Termine como terminar a nova ocupação policial da Universidade de São Paulo, o grande perdedor, claro, é o governador José Serra, que começou sua trajetória política como presidente da União Nacional dos Estudantes e agora repete as práticas autoritárias do ministro da Educação da ditadura, Jarbas Passarinho.

Faz lembrar a propaganda contra armas que eu via nos ônibus quando criança: “hoje mocinho, amanhã bandido”.

Depois que o estado de direito foi restabelecido no Brasil, a atitude de tratar movimentos reivindicatórios e sociais comol casos de polícia parecia estar destinada à lata de lixo da História, como parte da herança maldita do regime militar.

Foi estarrecedora a postura de Serra, ao permitir que as tropas ocupassem várias unidades de uma instituição universitária, como resposta a uma simples greve de funcionários!

Quanto à reitora, é a pessoa errada no lugar errado. Clama aos céus que não tem a mínima idéia do que seja um templo do saber e da decisão nefasta que tomou ao, com o aval de Serra, chamar a polícia para o campus.

Veio-me à lembrança a frase imortal de D. Paulo Evaristo Arns, diante da invasão da Pontifícia Universidade Católica pela PM: "'Na PUC só se entra prestando exame vestibular".

O resultado não se fez por esperar: agora os professores e os alunos também estão em greve, reagindo à truculência e à intimidação.

Serra é mais uma personalidade empenhada em incinerar seu currículo, talvez até como forma de se tornar palatável para os inimigos de ontem. Quer mostrar serviço para a direita, convencendo-a de que é capaz de servi-la fielmente, aplicando força desnecessária e criminalizando os movimentos dos quais outrora participou.

Vendeu a alma na esperança de chegar à Presidência da República. Tomara que nem essa contrapartida obtenha!

Talvez Serra até venha a seguir a exortação atribuída ao jornalista José Nêumanne Pinto, de que a polícia deveria mesmo é mandar bala nos baderneiros.

Se foi isso mesmo o que Nêumanne disse num telejornal matutino do SBT, é melhor ele abandonar de vez a profissão de jornalista, pois terá se tornado um estranho no ninho. Aliás, quem fala algo assim apartou-se da própria civilização.

Registro, finalmente, minha total e irrestrita solidariedade aos bravos professores, estudantes e funcionários da USP, que neste momento estão na linha de frente da resistência da sociedade brasileira às forças obscurantistas empenhadas em, pouco a pouco, irem reintroduzindo o autoritarismo em nosso cotidiano.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

OBAMA PROMETE NOVO RELACIONAMENTO COM MUÇULMANOS

O presidente estadunidense Barack Obama quer passar uma borracha no passado e iniciar um novo relacionamento com os islamitas.

Foi o que ele disse nesta 5ª feira (4) no Cairo, ao mesmo tempo em que fazia autocrítica pública por crimes e erros cometidos pelos EUA: a invasão do Iraque para derrubar Saddam Hussein, as torturas e demais violações dos direitos de prisioneiros que foram cometidas nas bases norte-americanas em vários países, o alinhamento incondicional com Israel e o abandono do povo palestino à sanha israelense, etc.

Como sempre faço nesses casos, prefiro apostar no melhor, dando-lhe um crédito de confiança. Tomara que ele consiga mesmo concretizar o que propõe! O mundo só ganhará com isso.

Eis os trechos mais significativos -- por serem um inegável avanço em relação às posturas anteriores -- do seu enorme discurso, torcendo para que ele acabe representando um divisor de águas, inscrevendo-se na história da humanidade e não na dos grandes cases de relações públicas:
Esse ciclo de desconfiança e discórdia precisa acabar.

Vim para cá para buscar um novo começo entre os Estados Unidos e muçulmanos em todo o mundo; um que seja baseado no interesse mútuo e no respeito mútuo; e um que seja baseado na verdade de que Estados Unidos e islã não são mutuamente excludentes e não precisam competir. Em vez disso, eles se sobrepõem e compartilham princípios comuns: princípios de justiça e progresso, de tolerância e da dignidade de todos os seres humanos.

... ao longo de toda a história, o islã demonstrou em palavras e atos as possibilidades da tolerância religiosa e da igualdade racial.

...o Iraque foi uma guerra travada por opção e que provocou fortes divergências em meu país e em todo o mundo. Embora eu acredite que, em última análise, o povo iraquiano esteja melhor sem a tirania de Saddam Hussein, também acredito que os fatos no Iraque fizeram os EUA recordarem a necessidade de usar a diplomacia e construir consensos internacionais para resolverem seus problemas, sempre que possível.

Hoje os EUA têm uma responsabilidade dupla: ajudar o Iraque a forjar um futuro melhor e deixar o Iraque para os iraquianos. Já deixei claro para o povo do Iraque que não queremos bases em seu país e não reivindicamos seu território ou seus recursos. A soberania do Iraque é dele mesmo. Foi por isso que ordenei a retirada de nossas brigadas de combate até o próximo mês de agosto.

...não devemos nunca alterar nossos princípios. O 11 de Setembro foi um trauma enorme para nosso país. O medo e ódio que provocou foram compreensíveis, mas, em alguns casos, nos levaram a agir contrariamente a nossos ideais. Estamos tomando medidas concretas para mudar de rumo. Proibi inequivocamente o uso de tortura pelos Estados Unidos e ordenei o fechamento da prisão de Guantánamo até o início do próximo ano.

Há mais de 60 anos os palestinos suportam a dor do deslocamento. Muitos aguardam em campos de refugiados na Cisjordânia, Faixa de Gaza e terras vizinhas por uma vida de paz e segurança que eles nunca puderam viver. Eles sofrem as humilhações diárias, grandes e pequenas, que acompanham a ocupação. Portanto, que não haja dúvida: a situação do povo palestino é intolerável. Os EUA não darão as costas à legítima aspiração palestina por dignidade, oportunidade e um Estado próprio.

...se olharmos para esse conflito apenas desde um lado ou do outro, ficaremos cegos para a verdade: que a única solução é que as aspirações dos dois lados sejam atendidas através de dois Estados, em que israelenses e palestinos vivam, de cada lado, em paz e segurança.

Isso é do interesse de Israel, é do interesse da Palestina, é do interesse dos EUA e é do interesse do mundo. É por isso que eu pretendo pessoalmente trabalhar por essa solução com toda a paciência que a tarefa exige.

...os israelenses precisam reconhecer que, assim como o direito de Israel à existência não pode ser negado, tampouco o da Palestina pode ser negado. Os Estados Unidos não aceitam a legitimidade da continuidade dos assentamentos israelenses. Essa construção viola acordos prévios e solapa os esforços para conquistar a paz. É hora de esses assentamentos pararem.

Israel também precisa cumprir suas obrigações de assegurar que os palestinos possam viver, trabalhar e desenvolver sua sociedade. E, assim como devasta famílias palestinas, a crise humanitária contínua na Faixa de Gaza não favorece a segurança de Israel, como também não a favorece a contínua ausência de oportunidades na Cisjordânia. O progresso na vida diária do povo palestino precisa fazer parte de um caminho que leve à paz, e Israel precisa tomar medidas concretas para possibilitar esse progresso.

Há tanto medo, tanta desconfiança. Mas, se optarmos por ficarmos presos ao passado, nunca avançaremos.

Os povos do mundo podem conviver em paz. Sabemos que essa é a visão de Deus. Agora esse precisa ser nosso trabalho aqui na Terra.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

3º MANDATO: PINGOS NOS II

Charge do Cleuber (clique para ampliar)
http://www.tracodeguerrilha.blogspot.com/

Já que houve críticas, veladas ou explícitas, ao meu artigo Lula descarta o 3º mandato, mas atrapalha-se ao defender Chávez e Uribe, creio ser oportuno reproduzir aqui uma explicação que dei a um grupo de discussão virtual:
Quanto à reeleição de Hugo Chávez, considero um assunto que diz respeito aos venezuelanos.

Sou absolutamente contrário a um 3º mandato consecutivo de Lula porque, NO BRASIL, isto poderá ser a senha para um novo golpe de direita.

Quando os reacionários viram que Getúlio Vargas continuaria governando indefinidamente, seja elegendo a si próprio, seja colocando no poder quem quer que apadrinhasse (como Dutra), apostaram todas as suas fichas em sua derrubada e a teriam concretizado, caso Vargas não virasse o jogo ao preço de seu suicídio.

Em 1964, temerosos de que Leonel Brizola sucedesse João Goulart, trataram de virar a mesa antes da eleição marcada para o ano seguinte.

Aqui já tentaram iniciar a arregimentação da classe média para o golpe com o Cansei, repetindo o mesmíssimo figurino de 1964: seria a nova Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade.

Mas, tínhamos a legalidade ao nosso lado: Lula conquistara seu 2º mandato nas urnas. Então, conseguimos esmagar o ovo da serpente e os direitistas passaram a mirar 2010.

Um 3º mandato consecutivo de Lula, com a mudança das regras do jogo na última hora, é tudo de que a direita precisa para convencer seus patronos estrangeiros e a classe média brasileira de que a democracia está em perigo.

E, assim como em 1964 ela corrigiu os erros de 1961, aproveitando bem as lições do fracasso anterior, temos de levar em conta a possibilidade de que a próxima investida seja bem mais profissional do que o Cansei.

Vale lembrarmos, também, que a derrubada de João Goulart foi o ponto-de-partida para o retrocesso em vários outros países da América Latina. O mau exemplo logo se propagou, com quarteladas em cascata.

Então, temos uma responsabilidade não só com o povo brasileiro, mas também com os pueblos hermanos: não podemos deixar que comece por aqui uma nova escalada golpista.

A melhor contribuição que podemos dar às forças progressistas do nosso continente será impedirmos qualquer recaída totalitária no Brasil.

Nada indica que a candidatura avalizada por Lula, seja a de Dilma Rousseff ou qualquer outra, esteja previamente derrotada. Então, não há motivo nenhum para sermos nós a virarmos a mesa (com uma mudança casuística e fora de hora da legislação eleitoral), o que daria um enorme trunfo propagandístico ao inimigo.

Daí a minha insistência em combater essa proposta, que o próprio Lula já rechaçou um sem-número de vezes.

Quanto à defesa atrapalhada que Lula fez das pretensões de Chávez e Uribe a uma nova reeleição, eu a registrei por se tratar de um fato jornalístico. Meu circuito é amplo e muitas pessoas me lêem apenas para encontrarem descrições mais perspicazes dos acontecimentos. [Curiosamente, um dia depois, Clovis Rossi repetiu várias de minhas considerações em sua coluna Brincadeira Besta, atestando que era mesmo o que poderia filtrar a sensibilidade de comentaristas veteranos - vide http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0406200903.htm ).

No entanto, deixei claro que Lula não deveria é ter misturado alhos com bugalhos. Errou ao querer compatibilizar a posição que ele está adotando aqui com as posturas que Chávez e Uribe adotaram na Venezuela e Colômbia. E, no final, acabou desistindo e batendo em retirada.

É o que deveria ter feito desde o começo, pronunciar-se sobre o Brasil e não meter o bedelho nas decisões de outros países.

Importante mesmo era darmos o máximo de quilometragem à constatação de que a Folha de S. Paulo, mais uma vez, botara os pés pelas mãos, com suas tentativas dominicais de fabricar fatos políticos -- as quais, além de inoportunas (neste caso) ou nocivas (caso da reportagem sobre o sequestro que não houve e que foi ilustrada por uma ficha falsa da Dilma Rousseff), acabam gerando apenas factóides.

E cravarmos de vez uma estaca no coração desse vampiro político que é o 3º mandato de Lula.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

LULA DESCARTA O 3º MANDATO, MAS SE ATRAPALHA AO DEFENDER CHÁVEZ E URIBE

Charge do Cleuber (clique para ampliar)
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A exumação da proposta de um terceiro mandato consecutivo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, graças sobretudo à inoportuna manchete da Folha de S. Paulo do último domingo, foi prontamente rechaçada pelo principal interessado: Lula afirmou que "não existe hipótese de 3º mandato", nem o pretende buscar.

Falando à imprensa nesta terça-feira, na Cidade da Guatemala, o presidente reagiu com irritação a esse vezo da Folha em, como uma fábrica de factóides, tentar gerar acontecimentos políticos a partir das pesquisas de opinião que encomenda do seu instituto, o DataFolha:
"A imprensa fortalecerá muito mais a democracia quando ela se contentar em informar os fatos, e não criar os fatos."
Sua resposta à traquinagem jornalística da Folha foi das mais apropriadas:
"Eu não brinco com a democracia, foi muito difícil a gente conquistá-la. E o que vale pra mim, vale para os outros. Alguém que quer o 3º mandato, pode querer o 4º, pode querer o 5º, o 6º. A alternância de poder é fundamental para a democracia".
Só que, como de hábito, depois de acertar o cravo, ele deu a martelada seguinte na ferradura. Talvez por perceber tardiamente que suas afirmações contundentes poderiam ser interpretadas como críticas indiretas a seus colegas Hugo Chávez (Venezuela) e Alvaro Uribe (Colômbia), ele tentou remediar... e acabou se complicando ainda mais:
"O Chávez quer o 3º mandato. Ele vai se submeter às eleições. Uma hora o povo pode querer, noutra o povo pode não querer. O Uribe está querendo o 3º mandato. Tem de passar por um referendo. Ele pode querer, e o povo pode elegê-lo ou pode não elegê-lo. Eu não vejo nisso nenhum mal. O que acho importante é que todo resultado seja um exercício da democracia"
Não fez sentido, pois as situações são semelhantes. Por que Lula estaria brincando com a democracia se buscasse o 3º mandato e o Chávez e o Uribe, não?

Ele continuou enrolando-se ao tentar defender ambos da má repercussão no exterior de seus projetos continuístas:
"É muito engraçado que as críticas que fazem aos presidentes da América Latina não são feitas aos primeiro-ministros da Europa, que ficam 16 anos ou 18 anos no poder. Lá, a pessoa é indicada por um colégio e é democrático. Aqui, a pessoa é eleita pelo povo, e não é democrático. É preciso que a gente tenha um pouco de auto-estima para valorizar a democracia".
A comparação com o parlamentarismo foi das mais infelizes, pois o primeiro-ministro governa como representante de partido(s) e pode ser derrubado a qualquer instante por um voto de desconfiança.

Já o poder de um presidente da República sul-americano é bem maior e ele o conquista/mantém muito mais em função do carisma pessoal que da sustentação partidária. No fundo, só precisa da legenda para ter o direito de disputar a eleição e ganhar acesso ao horário eleitoral gratuito.

Uma vez eleito, adquire, com as moedas do poder, todo o apoio de que necessitar. Foi como agiu, p. ex., Fernando Collor, que se lançou pelo nanico PRN e depois cooptou os partidos maiores, iniciando seu governo com ampla maioria no Congresso Nacional.

Finalmente, entregando os pontos, Lula desistiu das elocubrações e disse o que, na linguagem das ruas, poderia ser traduzido para "cada um sabe o que é melhor para si". É bem o que se depreende da saída pela tangente com que encerrou o papo:
"Eu não posso falar pela Colômbia. Agora, sobre o Brasil, eu posso comentar. Eu acho que o Brasil não deve ter o 3º mandato. É isso."
Eu me permito acrescentar que sua posição, corretíssima para o cenário brasileiro, não pode ser retoricamente conciliada com as posturas antagônicas que Chávez e Uribe adotaram em suas respectivas nações.

Então, Lula ficou em apuros porque falou demais, direcionando-se, pelas próprias pernas, para um campo minado; desde o início, deveria ter abordado apenas o caso que lhe diz respeito, o brasileiro. É isso.

terça-feira, 2 de junho de 2009

IN THE COLD SUN OF AN AUTUMN DAY

São Paulo está glacial, nesta manhã que é a mais fria do ano para os paulistanos, após a madrugada idem.

Traz-me à lembrança o filme mais assustador a que já assisti sobre o fim da humanidade: Quinteto (1979), do grande Robert Altman.

Nele, não se mostra o mundo logo depois de explosões atômicas, como em O Dia Seguinte (dirigido por Nicholas Meyer, 1983); sobreviventes civilizados lutando contra as hordas do pós-apocalipse, como nos Mad Max II e III (d. George Miller, 1981 e 1985), que geraram um sem-número de derivações; a falta de alimentos agravada a tal ponto que os homens são obrigados ao canibalismo, como em No Mundo de 2020 (d. Richard Fleischer, 1973); ou o último cientista do planeta acossado por mutantes vampiros, como no clássico A Última Esperança da Terra (d. Boris Sagal, 1971) e sua medíocre refilmagem Eu Sou a Lenda (d. Francis Lawrence, 2007).

Quinteto foi na direção oposta, como que inspirado no magistral poema de T. S. Eliot sobre os homens ocos ("É assim que acaba o mundo/ É assim que acaba o mundo/ É assim que acaba o mundo/ Não com um estrondo, mas com um gemido").

Então, Paul Newman perambula por uma Terra a caminho de se tornar um bloco único de gelo. Os últimos humanos refugiam-se no que resta das grandes cidades, enquanto os derradeiros cães disputam as carcaças de quem tomba enregelado nas ruas. Algumas pessoas entregam-se a um jogo macabro, antecipando-se à morte inevitável.

Isto é o que mais assusta: a agonia lenta.

Não é próprio dos homens resignarem-se ao infortúnio, mas lutarem contra ele. Tanto que Paul Newman acaba o filme caminhando para o nada, na vã tentativa de atingir outra cidade que nada lhe oferecerá de melhor, de preferência a ficar simplesmente esperando a chegada da morte.

AS MARILYNS E AS JACQUELINES - Mas, é o cinema também a me aquecer nesta manhã que, de tão fria, faz-me lembrar o pungente lamento de Caetano Veloso no exílio londrino, quando deu novo significado aos versos de Erasmo Carlos ("Só quero que você me aqueça neste inferno/ E que tudo mais vá para o inverno").

Leio um despacho da Agência Efe, dando conta de que foram recuperados e publicados pela revista Life os negativos inéditos de uma sessão fotográfica de marilyn Monroe antes da fama.

Aos 24 anos, Marilyn estava deslumbrante, quando ainda não tinha de forçar a barra para parecer um símbolo sexual em cada tomada e em cada clicada.

Essa moça doce e simples me atrai bem mais do que a Marilyn me-leva-pra-cama que excitava até presidentes.

E a comparação entre a Marilyn antes e depois projeta meu voo da memória noutra direção: as duas Jacquelines Myrnas.

Quando eu tinha 14, 15 anos, essa estrela de programas humorísticos habitava meus devaneios eróticos, assim como o de muitos marmanjões.

Bem feita de corpo, passava-se por uma francesinha delicada, falando um português carregado de sotaque (Arrarraquarra...) e que a tornava muito provocante.

Fez tanto sucesso como símbolo sexual que acabou atuando em dois filmes do refinado Walter Hugo Khoury, além das previsíveis comédias.

E, antecipando-se à Xuxa, ela também tentou obter a proibição judicial de um filme no qual havia aparecido nua antes de alcançar a fama: Superbeldades. Perdeu a parada, é claro. E a publicidade gratuita só fez crescer a bilheteria.

Naquela época em que a restrição dos filmes era cumprida à risca, tive o maior trabalho e levei o maior tempo para conseguir assistir ao Superbeldades, proibido para menores de 18 anos.

Depois de barrado em vários cinemas, encontrei um em que o porteiro acreditou (ou fingiu acreditar) na minha carteirinha escolar falsificada, atribuindo-me três anos mais do que a idade real.

E, como sempre, a expectativa não foi correspondida pela realidade.

O filme não passava de uma interminável sucessão de strip-teases (mal)feitos por aspirantes a modelos e atrizes mal chegadas dos grotões para tentarem a sorte na cidade grande – sempre filmadas no mesmíssimo e paupérrimo cenário... 

Embora usasse apenas um pequeno tapa-sexo, aquela Jacqueline ainda por lapidar inspirava menos desejo do que totalmente vestida nos programas de TV. 

Ao sair daquele pulgueiro, não só uma ilusão minha se dissipara, como tinha aprendido que as imagens mostradas pelas câmeras são uma falsificação, no bom ou no mau sentido, da realidade ela mesma.

E, em termos mais prosaicos, passei a considerar como uma verdade absoluta a afirmação de Stanislaw Ponte Preta, segundo quem a TV não passava de uma máquina de fazer doido...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

JORNALISMO MARROM: GRUPO FOLHA JÁ MANCHETEOU ATÉ BEBÊ DIABO

Na mesma linha do meu artigo de ontem, Ricardo Amaral, repórter especial da Época em Brasília, também dava como inexistente a possibilidade de um terceiro mandato consecutivo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes mesmo de a Folha de S. Paulo proclamar triunfalmente que sua pesquisa de opinião, e apenas ela, exorcizara tal fantasma...

É instrutiva a leitura da coluna de Ricardo Amaral, A lenda do terceiro mandato acabou ( http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EMI75182-15230,00.html ).

Ele, inclusive, detalhou (melhor do que eu fiz na versão inicial do meu artigo) quais seriam os obstáculos que a Proposta de Emenda Constitucional pró-reeleição teria de percorrer no Congresso Nacional:
"No caminho da PEC estavam duas comissões da Câmara e do Senado, quatro votações com maioria de três quintos nas duas casas e, finalmente, um referendo popular que teria de ocorrer até o último domingo de setembro".
O primeiro empecilho que eu relacionei, dentre os sete que inviabilizariam tal iniciativa independentemente de quaisquer pesquisas do DataFolha, foi a oposição de Lula àquilo que os áulicos quereriam lhe impingir. Amaral é da mesmíssima opinião:
"O principal motivo para não acreditar no terceiro mandato sempre foi a oposição de Lula à ideia. Na primeira entrevista em que foi confrontado com o tema, em março de 2007, o presidente rebateu: “Com democracia não se brinca”. Só naquele ano, foram cinco declarações no mesmo tom e nenhuma palavra diferente, mesmo nas conversas reservadas que os jornalistas descobrem cedo ou tarde. O segundo motivo é que o argumento de Lula está correto. Mudar a regra do jogo seria uma aventura danosa. Numa batalha pelo terceiro mandato, Lula poria em jogo sua biografia e a estabilidade política do país. Seria um preço alto demais para conseguir mais quatro anos no Planalto. Lula já fala de si e de seu governo no passado".
Se Lula não almeja o terceiro mandato, a quem ele interessaria, afinal? Para Amaral, foi o que os tucanos pensaram que alguns petistas queriam:
"A lenda do terceiro mandato nasceu de um pesadelo tucano, verbalizado pelo cientista político Leôncio Martins Rodrigues no começo de 2007. “A proposta interessa muito ao presidente, mas também aos sindicalistas empregados em cargos de confiança. Eles têm boas posições no governo e não querem voltar aos sindicatos”, disse Rodrigues na ocasião. Podia ser uma boa especulação acadêmica, mas nunca foi amparada pelos fatos".
Enfim, como este é um espaço jornalístico sério, vamos deixar as lendas de lado. Que pasquins como a Folha delas se ocupem, na sua faina dominical para atrair atenção com factóides.

O finado Notícias Populares, que era do mesmo grupo jornalístico, certa vez trombeteou que havia nascido um bebê diabo em São Paulo.

Tratava-se apenas de uma criança muito feia, mas o repórter coloriu a notícia com sua imaginação.

Como o assunto despertou interesse inusitado dos leitores, aumentando sua vendagem nas bancas, o NP resolveu mantê-lo como manchete durante vários dias consecutivos, sem dar a mínima para a verossimilhança. Passou, simplesmente, a inventar relatos cada vez mais fantásticos, tendo o tal bebê diabo como protagonista.

Parece que a Folha vai pelo mesmo caminho. Logo, logo, sua manchete dominical será sobre lobisomem, saci-pererê ou mula-sem-cabeça...

domingo, 31 de maio de 2009

NOVA LAMBANÇA DA "FOLHA": NÃO DÁ PRA NÃO RIR...

A Folha de S. Paulo é um jornal que perdeu o rumo. Está à deriva.

Pois, embora não se veja nenhum interesse nas ruas pela concessão de um terceiro mandato consecutivo ao presidente Lula, a Folha se deu ao trabalho de realizar, por meio do DataFolha, uma pesquisa sobre essa possibilidade quase inexistente, por vários motivos:
  1. Lula precisaria aceitar e, até agora, tem afirmado que não aceitará;
  2. a Proposta de Emenda Constitucional foi apresentada por um parlamentar puxa-saco, mas, até agora, não conseguiu a adesão do número suficiente de congêneres necessário para que seja iniciada a tramitação;
  3. para ser aprovada, precisaria passar por duas comissões da Câmara Federal e duas do Senado, além de receber, em quatro votações, a anuência de três quintos dos congressistas, número bem difícil de ser atingido;
  4. a emenda estabelece a realização de um plebiscito em setembro, de resultado incerto;
  5. eminentes juristas já avaliaram que a emenda é inconstitucional, portanto haveria uma batalha jurídica no caso de sua aprovação;
  6. o PSDB e o DEM já declararam que usariam de todas as manobras facultadas pela legislação para retardar a tramitação da emenda, de forma a impossibilitar que esse roteiro seja cumprido até outubro, data final para a virada de mesa;
  7. vários ministros do STF já anteciparam que, mesmo sendo tal pacote aprovado pelo Legislativo, acabará fulminado pelo Supremo.
Então, se o terceiro mandato consecutivo é uma aberração sob todos os pontos de vista e tem chance infinitesimal de virar realidade, por que o autoproclamado principal jornal do País lhe confere tamanho destaque a ponto de fazer dele a manchete da principal edição da semana, a de domingo?

Para piorar ainda mais a performance jornalística da Folha, no próprio título do seu editorial dominical o jornalão admite que se trata de um "assunto encerrado", mas com uma argumentação que é um verdadeiro primor de hipocrisia:
"...a proposta da 're-reeleição' para o presidente petista não alcança, pelos dados da pesquisa, densidade suficiente para se impor.

"Ao contrário: com 49% dos entrevistados contra a ideia, e 47% a seu favor, comprova-se acima de tudo o quanto haveria de arriscado na manobra.

"A possibilidade de instituir-se uma fratura profunda de opiniões, em assunto diretamente ligado à estabilidade institucional, surge com clareza - e, do frio registro dos números às vicissitudes de um entrechoque real no debate público, certamente esse potencial divisivo tenderia a intensificar-se gravemente."
Ou seja, mais do que as sete razões acima alinhavadas, o que inviabilizaria mesmo o terceiro mandato é o resultado da pesquisa do DataFolha!

Ou o jornal superestima alucinadamente sua importância ou está recorrendo a um malabarismo retórico para tentar justificar a manchete indefensável. Fico com a segunda opção: maquiavelismo de baixa categoria.

Aqueles a quem os deuses querem perder, primeiro enlouquecem. Eis a melhor explicação para a nova lambança domingueira desse jornal que já se expusera ao ridículo absoluto no episódio da ficha policial falsificada de Dilma Rousseff.

A Folha está sofrendo de megalomania delirante, cujo sintoma mais evidente é essa obsessão em produzir factóides políticos que caem no vazio.

sábado, 30 de maio de 2009

CONFLITO ÁRABE-ISRAELENSE: TEMOS DE DESMONTAR A MÁQUINA DE MOER CARNE

Aleluia! Depois de longo e tenebroso inverno, encontro, finalmente, um editorial da Folha de S. Paulo que posso tranquilamente recomendar aos meus leitores: o da edição deste sábado (30), Israel persiste no erro.

Como não sou sectário, faço questão de reproduzi-lo na íntegra, até como incentivo para que a Folha produza outros com a mesma integridade jornalística:
Há 42 anos, desde que derrotou vizinhos árabes na Guerra dos Seis Dias e ocupou, entre outras áreas, o território palestino na margem ocidental do rio Jordão, Israel deslancha ali um programa de assentamentos injustificável, que agride o direito internacional. Sob Barack Obama, a Casa Branca volta a insistir no óbvio: o abandono dessa anexação sorrateira é crucial para a existência do Estado palestino.

O primeiro assentamento na Cisjordânia foi erguido sete meses após a vitória israelense. Implantaram-se outros 120 desde então, quer pela omissão, quer pela ação deliberada de diversos governos israelenses, sem importar a coloração partidária ou ideológica.

Foram vários os pretextos alegados para o que deveria restringir-se a uma ocupação militar temporária, pronta para ser desmobilizada mediante um acordo de paz. De saída, a propaganda dizia ser necessário consolidar, com a colonização civil, a conquista militar e assim garantir aquela margem territorial de segurança para futura barganha. Uma leva de colônias foi fixada no extremo leste da região.

Depois, no final dos anos 1970, governos de direita invocaram o risco de Israel ser dividido em dois e implantaram mais uma série de assentamentos, agora pulverizados por todo o território. A expansão continua em vigor.

De pretexto em pretexto, chegou-se ao paroxismo. Mais de 280 mil israelenses (4% da população de Israel) vivem hoje nos assentamentos da Cisjordânia, dificultando mais ainda o futuro estabelecimento de um Estado palestino. Para dar segurança aos assentados, o Exército israelense ali sustenta uma miríade de bloqueios rodoviários e postos de controle, que transtornam o cotidiano dos palestinos.

Decretar o fim da expansão desses assentamentos é o mínimo a exigir de Israel neste momento, a fim de que se abram perspectivas para a retomada de negociações com os palestinos. O premiê Binyamin Netanyahu, entretanto, afirma que vai permitir o "crescimento natural" dessas colônias. Uma provocação irresponsável, além de cinismo na perpetuação do esbulho.
De resto, discordo dos motivos (principalmente religiosos) alegados para a implantação de Israel onde está, mas não vejo como reverter o fato consumado sem um banho de sangue que não deve ser desejado por nenhum ser humano digno deste nome.

Então, o melhor caminho seria mesmo o recuo de Israel às fronteiras iniciais (de maio/1948), o estabelecimento de um estado palestino e um esforço sincero de todas as partes envolvidas para dar um fim à beligerância na região.

Se, entretanto, Israel mantiver sua intransigência quanto à devolução dos territórios de que apossou-se manu militari a partir da guerra árabe-israelense de 1948, e os árabes continuarem não admitindo a existência de Israel, o mínimo de sensatez manda que se descarte, de uma vez por todas, a estratégia sanguinária de exporem-se as populações civis a massacres, em iniciativas sem perspectiva nenhuma de êxito.

Vou explicar melhor. Nem coligados os países árabes conseguiram até agora derrotar Israel, então salta aos olhos e clama aos céus que nenhuma dessas nações obterá êxito isoladamente.

Teriam de combater o estado judeu todas juntas, sob um comando único e respeitado (as divergências entre elas são tão profundas que nunca seguiram verdadeiramente uma estratégia conjunta, apenas enfrentaram Israel ao mesmo tempo, mas como se lutasse cada uma por si).

O JOGO DUPLO DOS FEUDAIS ÁRABES - O que impede uma guerra santa dessas? O fato de os mandatários das nações árabes temerem muito mais revoluções em seus próprios paises do que odeiam Israel. São e representam privilegiados que empenham-se, acima de tudo, em manter seus privilégios.

Daí quererem mesmo é evitar qualquer possibilidade de que a mobilização contra Israel acabe se voltando contra eles; povo armado é povo perigoso. Daí virem sabotando-a e até reprimindo-a através dos tempos, embora mantenham a retórica antiisraelense da boca pra fora.

Movimentos fundamentalistas tentam virar o jogo com agressões insensatas a Israel, para provocar retaliações. Sonham com uma situação na qual os judeus provoquem tamanha indignação que os dirigentes das nações árabes, mesmo a contragosto, sejam obrigados a lançar uma nova guerra santa.

Isso nunca acontece. E o que essa gente faz é atrair desgraças para seu povo. Velhos, mulheres e crianças são dizimados por conta disso.

Então, a esquerda mundial deveria negar qualquer apoio a essa estratégia de provocações irresponsáveis.

O grande vilão pode ser Israel, mas quem impede o êxito de qualquer campanha militar contra o estado judeu são os dirigentes das nações árabes, com seu jogo duplo.

O caminho do enfrentamento vitorioso a Israel passa por revoluções prévias nos países árabes. A batalha tem de ser travada primeiramente em cada país, desalojando do poder essa elite nauseabunda (ainda feudal em várias nações) e estabelecendo governos populares. Estes, sim, travariam unidos a guerra contra Israel.

Caso contrário, fanáticos continuarão eternamente cutucando a onça com vara curta, Israel respondendo com as piores carnificinas (como forma de intimidação) e a esquerda fazendo discursos inflamados que não resolvem nada.

Temos de desmontar essa máquina de moer carne, de um jeito ou de outro.

Com o estabelecimento de uma paz duradoura seria bem melhor.

Mas, se tiver de ser pela guerra, que se crie, pelo menos, o cenário certo, para que o sangue não continue sendo derramado em vão.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A IMPRENSA TEM O RABO PRESO COM O SISTEMA. A ANISTIA INTERNACIONAL, NÃO.

Durante a ditadura de 1964/85, qualquer semelhança da realidade das ruas e dos porões com as notícias, interpretações e opiniões da grande imprensa era mera coincidência.

Embora a censura e as intimidações ajudassem a manter a ordem unida nos veículos mais importantes, houve também muita colaboração voluntária com o regime militar.

Para sabermos o que realmente acontecia em nosso país, éramos obrigados a acompanhar dia após dia transmissões de rádios estrangeiras, na esperança de que colocassem no ar algo sobre o Brasil.

De vez em quanto, alguém obtinha revistas e jornais de outros países que traziam matérias esclarecedoras, botando-os para circular entre os amigos confiáveis, até perderem a tinta de tão manuseados.

Os veículos alternativos também conseguiam furar o bloqueio informativo, vez por outra.

Mas, o certo é que a esmagadora maioria da população brasileira ignorava as atrocidades e os fracassos do regime (até epidemia de meningite era escondida dos cidadãos!!!), além de ser levada a crer em versões exageradíssimas dos êxitos.

"Alvíssaras, há 24 anos a imprensa é livre para noticiar o que quiser!" - dirão os cândidos. O único problema é que a imprensa mantém o colaboracionismo voluntário... com o sistema. E nem precisa de censura e intimidações para mantê-la no caminho da desinformação programada.

Vai daí que o melhor editorial sobre a situação brasileira não foi produzido por veículo de imprensa. Nenhum foi capaz de, em apenas quatro parágrafos, dizer tudo que se deve dizer sobre o Brasil de hoje:
"A sociedade brasileira permaneceu profundamente dividida em termos de realização dos direitos humanos. A expansão econômica e os projetos sociais apoiados pelo governo contribuíram para algumas reduções das disparidades socio-econômicas. Entretanto, apesar das modestas melhoras na diminuição da pobreza, a desigualdade na distribuição de renda e de riquezas continuou sendo uma das maiores da região. Enquanto isso, as violações de direitos humanos que afetam milhões de pessoas que vivem na pobreza não receberam praticamente nenhuma atenção. As comunidades mais pobres permaneceram sem conseguir ter acesso a serviços necessários. Além disso, vivenciaram um elevado grau de violência praticada por quadrilhas criminosas e sofreram violações sistemáticas de direitos humanos por parte da polícia.

"As comunidades urbanas marginalizadas continuaram tendo de enfrentar as consequências de viver sem proteção social suficiente. Além disso, sofriam as consequências de políticas de desenvolvimento urbano discriminatórias e da falta de qualquer provimento de segurança pública. Em consequência disso, muitas dessas comunidades acabam presas em favelas ou em sub-habitações, onde vivem encurraladas entre a violência dos criminosos e os abusos da polícia.

"Nas zonas rurais, trabalhadores sem terras e povos indígenas foram intimidados e ameaçados com violência e com expulsões forçadas. A expansão agro-industrial e projetos de desenvolvimento governamentais e privados reforçaram a discriminação social e a pobreza que há décadas afetam as comunidades rurais. Os direitos humanos e constitucionais dessas comunidades foram regularmente desconsiderados, seja pela falta de acesso à Justiça e a serviços sociais, seja por violência e intimidação das empresas de segurança privadas irregulares que protegem interesses econômicos poderosos.

"Muitas das pessoas que defendem os direitos humanos de comunidades marginalizadas, entre as quais estão advogados, líderes sindicais e ativistas comunitários, foram criminalizadas pelas autoridades e ameaçadas por aqueles cujos interesses desafiam."
Trata-se da abertura do capítulo sobre o Brasil do Informe Anual 2009 da Anistia Internacional.

Voltamos aos maus tempos em que precisávamos recorrer a estrangeiros para ficarmos sabendo o que acontecia em nosso país.

E ainda temos de baixar a cabeça, envergonhados, quando recebemos pitos como o do coordenador da Anistia Internacional para assuntos brasileiros, o britânico Tim Cahill, que constatou:

"Existe um conceito infeliz no Brasil de que os direitos humanos só defendem bandidos. Tal conceito é popularizado e utilizado por pessoas que têm interesse em mantê-lo. Isso ajuda na justificação de políticas de comportamento repressivo, como as megaoperações no Rio de Janeiro ou a ideia de que os índios ameaçam os interesses econômicos do Mato Grosso do Sul. Várias ações governamentais no Brasil acabam sendo executadas para satisfazer àqueles que não acreditam nos direitos humanos."

Irrespondível.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

VOLTANDO AOS MAUS TEMPOS

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O mês é outubro e o ano, 1962. Em todos os países há pessoas com o ouvido colado nos rádios e lançando olhares angustiados para o céu, à beira do pânico.

Nunca estiveram tão presentes nas mentes e tão opressivas nos corações as imagens dantescas dos genocídios de Hiroshima e Nagasaki. Era concreta a possibilidade de repetição daqueles horrores em escala muito mais ampla.

É que os EUA, ao obterem provas fotográficas da existência de silos de mísseis soviéticos em Cuba, deram um ultimato à URSS, exigindo sua imediata remoção.

A União Soviética, inicialmente, não cedeu. Pelo contrário, ao saber que os norte-americanos haviam iniciado um bloqueio naval e aéreo de cuba, despachou uma frota que o tentaria romper.

Um único disparo e começaria a reação em cadeia! Estava-se a um passo da guerra nuclear entre duas nações que acumulavam poder destrutivo suficiente para exterminar a espécie humana.

Foram 13 dias que apavoraram o mundo, enquanto se desenvolviam tensas negociações entre os governos de John Kennedy e Nikita Kruschev. Nunca os estadunidenses compraram tanto cimento e tijolo como nesse período em que construíram sofregamente abrigos nucleares em suas casas.

A histeria coletiva inspirou um episódio magistral da série de TV Além da Imaginação, sobre vizinhos que, ao confraternizarem numa festa, recebem a notícia de que a guerra atômica pode estar começando.

O único que havia transformado seu porão em abrigo, nele entrincheira-se com a família, negando acesso aos demais, por não haver mantimentos, água e espaço físico para tanta gente.

Quando os outros estão pondo abaixo a porta, empunhando tacos de beisebol e outras armas improvisadas, chega o desmentido: rebate falso. Mas, suas reações primitivas e egoístas durante a emergência revelara a todos como eles realmente eram, sob o verniz da hipocrisia social.

KRUSCHEV OBTÉM CONCESSÕES.
KENNEDY, HOLOFOTES


A crise dos mísseis cubanos terminou com cada lado cedendo um pouco e o mundo suspirando aliviado.

Os EUA concordaram em, posteriormente e sem alarde, retirarem mísseis similares que haviam instalado na Turquia. Comprometeram-se, ainda, a nunca mais realizarem ou estimularem invasões de Cuba, como a que a CIA e exilados cubanos haviam tentado em abril daquele ano na Baía dos Porcos. Eram estes os acontecimentos que haviam motivado os soviéticos a exibirem também o muque.

Kruschev, por sua vez, ordenou o desmantelamento dos silos e a retirada dos mísseis, saindo do episódio com uma vitória real (obtivera as contrapartidas desejadas) e uma derrota propagandística, pois concordou em manter secretas as cláusulas que lhe eram favoráveis.

De quebra, as superpotências decidiram colaborar para que novos sobressaltos fossem evitados, tendo sido instalada uma ligação telefônica direta (o famoso telefone vermelho) entre Kennedy e Kruschev, para que se entendessem antes dos pequenos problemas virarem grandes crises.

Nos EUA e em grandes capitais européias, houve júbilo incontido. Cidadãos festejavam nas praças e parques, lotavam os bares. Casais redescobriram a atração sexual, estranhos iam para a cama depois de trocarem duas palavras [O número de crianças nascidas nove meses depois foi muito superior ao habitual...].

A explosão de vida sucedeu aos augúrios de morte. Emblematicamente, a música até então ignorada de quatro jovens de Liverpool decolaria para a consagração mundial, tornando-se a trilha sonora da maior revolução de costumes que o mundo já vivenciou.

CHERNOBIL: 6,6 MILHÕES
FORAM CONTAMINADOS

Mas, se diminuiu consideravalmente a ameaça de que a guerra fria entre EUA e URSS se tornasse quente e radioativa, nem por isso a energia atômica deixou de provocar pesadelos e paranóias.

Em abril de 1986, um acidente nuclear na usina soviética de Chernobil, na Ucrânia, liberou uma nuvem de radioatividade que atingiria a URSS, Europa Oriental, Escandinávia e Reino Unido.

Grandes áreas da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia foram muito contaminadas, expondo 6,6 milhões de pessoas e tornando necessárias a evacuação e reassentamento de aproximadamente 200 mil habitantes.

A ONU computou 56 mortes decorrentes do acidente na primeira década, estimando que outras 4 mil ainda viriam a ocorrer; o Greenpeace retrucou que esses números eram bem inferiores aos reais. A usina foi desativada.

Por que estou evocando dois episódios tão deprimentes? Pelo simples motivo de que isso pode acontecer de novo. Está no noticiário:
  • a Coréia do Norte realiza testes nucleares repudiados pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e vistos com apreensão pela Coréia do Sul e Japão;
  • um vazamento de material radioativo na usina de Angra 2, ocorrido em 15 de maio último, só foi comunicado à população 11 dias depois, com a garantia de que os seis empregados afetados não correm maiores riscos [Houve tempo para se preparar bem a versão tranquilizadora, mas não me surpreenderei se a história estiver sendo malcontada].
O acidente no reator de Three Mile Island, bem menos grave que o de Chernobil, motivou nos EUA o lançamento da campanha No Nukes, com a participação de músicos famosos como Jackson Browne, Bonnie Raitt e Graham Nash.

Três décadas depois eles continuam protestando, agora contra um projeto de lei que amplia o estímulo a empreendimentos ligados à energia nuclear.

É mais do que tempo de fazermos algo semelhante por aqui. A população de Angra dos Reis e municípios próximos seria a primeira a agradecer.

terça-feira, 26 de maio de 2009

CESARE BATTISTI: DA DEPRESSÃO À ESPERANÇA

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Quando travamos uma batalha de opinião, nem tudo é premeditado. Há trunfos que nos vêm a calhar e, às vezes, nem percebemos de imediato sua relevância

Assim, foram as primeiras reações ao meu texto Cesare Battisti: da depressão à esperança que me fizeram perceber o quanto pode ser útil na luta que travamos para que tal episódio tenha o desfecho justo.

Vale a pena contar como tudo se passou.

Na semana retrasada, a convite do Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti, estive em Brasília para acompanhar a audiência pública com o ministro Tarso Genro, na Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal , sobre o Caso Battisti. Aproveitando o ensejo, acertei visita a Cesare na "Papuda".

O Sylvio Costa, diretor do aguerrido site Congresso em Foco, propôs que eu escrevesse sobre esse nosso primeiro encontro, com ênfase no fato de Cesare e eu termos vários pontos de contato em nossas histórias de vida.

Aceitei com entusiasmo, pensando, principalmente, na repercussão que obteríamos junto aos centros de decisão de Brasília, público-alvo do site. A matéria entrou no ar 6ª feira passada.

Como se tratou de um trabalho realizado profissionalmente, a autorização para reprodução segue a sistemática do site: publicação dos dois primeiros parágrafos, seguida de link para que seja lido o restante no Congresso em Foco.

O texto é oportuno, sobretudo, por mostrar o lado humano de Cesare Battisti, que a grande imprensa teima em sonegar dos seus leitores, para não conflitar com o ogro que tendenciosamente lhes impinge.

Daí a importância de o divulgarmos tanto quanto possível, neste período que antecede a decisão do STF sobre o pedido de extradição de Battisti (prevista para junho).

Peço um especial empenho dos meus leitores em publicá-lo e/ou repassá-lo:

CESARE BATTISTI: DA DEPRESSÃO À ESPERANÇA

Estou à espera de que Cesare Battisti seja trazido a um escritório do Centro de Internamento e Reeducação "Papuda", para que nós (vim com uma deputada e uma companheira do comitê de solidariedade) conversemos com ele numa mesa de canto, enquanto funcionários prosseguirão com seus afazares de rotina, ao redor.

Meus sentimentos são contraditórios. Para começar, fiquei surpreso com as características pouco opressivas deste presídio-modelo. Em 1970/71, quando fui preso político da ditadura militar, estive em terríveis centros de tortura como os DOI-Codi's de SP e RJ, e o quartel da PE na Vila Militar (RJ); e, de passagem, fiquei conhecendo o Presídio Tiradentes e o Deops de SP, igualmente soturnos. Além de haver mais tarde visitado um amigo, preso comum que cumpria pena no Carandiru, captando tanta energia negativa no ar que em nada me surpreendeu, em 1992, o massacre dos 111 detentos, iniciado exatamente no Pavilhão 9 que impressão tão má me causara.

E, depois de escrever mais de 60 textos em defesa de Battisti nos últimos meses, acabando por me tornar porta-voz do "Cesare Livre", inquieta-me a possibilidade de não ter tanta empatia com o homem como tenho com sua causa. Várias vezes já me decepcionei ao travar contato com os famosos do noticiário.

Battisti não me reconhece de imediato, mas abre um largo sorriso quando somos apresentados. Abraçamo-nos, sem que nenhum segurança se preocupe com a possibilidade de eu lhe passar sorrateiramente algum contrabando. Decididamente, não o consideram perigoso.

Aparenta exatamente os 54 anos que tem. É loquaz, fala rapidamente e enfatiza suas palavras com gestos, como bom italiano. Na sua agitação, às vezes assume, de relance, poses meio caricatas.

Tendo atuado como jornalista profissional nos 34 anos seguintes à minha passagem pelos porões e prisões da ditadura, sei que uma série de fotos do Cesare, feitas por um profissional, invariavelmente conterá muitas que o tornarão simpático aos leitores, enquanto outras tantas vão lhe dar aparência esquisita, desagradável. Invariavelmente, são as segundas que a grande imprensa brasileira pinça para ilustar as notícias sobre ele. Goebbels explica...

Olho no olho, percebo ser Cesare um homem pacato, do tipo não-faz-mal-nem-a-uma mosca. Nada do olhar de pedra dos verdadeiros assassinos, seja os que matam por dinheiro, seja os que o fazem em nome de causas (conheci exemplares dos dois universos). Pelo que valer, saí de lá convencido de que seria mesmo incapaz de haver cometido os três-assassinatos-que-eram-quatro a ele tardiamente imputados pela Justiça italiana.

Crimes simultâneos

É que, anos depois de condená-lo pelo que ele realmente fez (ter militado num grupúsculo de ultraesquerda e participado de algumas das chamadas expropriações, sem que nelas fosse derramado sangue), a Itália o levou de volta ao tribunal, a partir unicamente do testemunho de delatores premiados: o que o acusou e os que foram incumbidos de corroborar a acusação. Sabendo como eram montados os processos brasileiros dos anos de chumbo, bastou-me ler esse material para sentir o cheiro inconfundível de armação...

Parece que os Torquemadas brasileiros tinham mais zelo na montagem de suas farsas. Duas ações armadas em que Cesare haveria apertado o gatilho ocorreram no mesmo dia, em localidades distantes, de forma que sua presença física em ambas era materialmente impossível. Então, os trapalhões italianos trataram de tapar o sol com a peneira, reescrevendo a acusação de forma que ele passasse a figurar apenas como autor intelectual de um dos crimes -- o que não impede nossos jornalões e revistonas de continuarem até hoje atribuindo-lhe quatro homicídios, sem ressalvas.

Quando o refúgio humanitário que o ministro da Justiça Tarso Genro concedeu a Battisti foi publicado no Diário Oficial, em janeiro último, ele e todos nós começamos a preparar-nos para sua libertação. Até montamos esquemas de segurança para o Dia D, temerosos de algum atentado articulado pela extrema-direita italiana ou pelas viúvas da ditadura brasileira.

Dá para imaginar-se o impacto que lhe causou a estapafúrdia decisão do Supremo Tribunal Federal de mantê-lo preso, contra a lógica jurídica e o bom-senso dos leigos. Afinal, já se haviam passado quase dois anos desde que fora aprisionado no território brasileiro, a mando do STF, por crimes supostamente cometidos alhures.

Concedido o refúgio, que até agora tem sido invariavelmente reconhecido pelo próprio Supremo como fator determinante do arquivamento de processos de extradição, era de esperar-se que, no mínimo, aguardasse em liberdade o cumprimento das últimas formalidades jurídicas.

Negativo. O STF manteve a prisão e até sinalizou que poderia neste caso adotar decisão diferente de todos que lhe foram até hoje submetidos. De quebra, a Itália articulou uma das mais avassaladoras pressões a que uma decisão soberana do Executivo brasileiro foi submetida por governo estrangeiro, com o apoio explícito de boa parte da mídia brasileira.

Battisti mergulhou em profunda depressão, tendo de tomar medicamentos pesados, não conseguindo mais um sono repousante nem tendo paciência para ler seja lá o que fosse.

Então, fico comovido quando ele me confessa: ao receber meu livro Náufrago da Utopia, que lhe remeti pelo correio, obrigou-se a lê-lo, por considerar ser essa sua obrigação. Mas, a narrativa o prendeu tanto que acabou devorando-o e... retomando o gosto pela leitura. O bloqueio fora quebrado.

Fez-me lembrar meu próprio tempo de preso. Passado o pior período da tortura e incomunicabilidade, que para mim durou dois meses e meio, continuava com a mente turvada pelos traumas, misturando realidade e imaginação.

Mas, o companheiro da cela ao lado conseguiu que lhe trouxessem os livros existentes no quartel, pois, cardíaco, precisava de algo que o acalmasse. Reivindiquei e acabei obtendo o mesmo tratamento.

Foi a leitura dos chatíssimos manuais militares e relatos sobre Caxias, e depois dos volumes de Julio Verne (uma dádiva dos céus: sua obra completa estava pegando pó naquela biblioteca marcial!), que me devolveu a clareza de raciocínio.

Não esperava que, um dia, seria o Julio Verne de alguém. Nem mesmo quando o pessoal do comitê me enviou a mensagem de Battisti, com um parágrafo marcante:
“Acabo de ler seu livro. Um mergulho no passado, através das grades. Como tudo se parece! Alegrias e misérias, sonhos quebrados, decepções, mas o coração aguenta e os sentimentos se fortalecem, são mais claros. O sonho continua, são os meios para realizá-los que mudam”.
Aos 58 anos, já não tenho confiança irrestrita no que dizem pessoas a quem, por um ou outro motivo, convém me agradar. Daí a satisfação que senti ao captar sinceridade em Battisti! Meu passado de repórter me faz acreditar, aí sim totalmente, na leitura que faço das expressões dos interlocutores.

Outro motivo para eu citar esta frase é o de que as entrevistas com Battisti estão proibidas na “Papuda”, então sou obrigado a reconstituir nossa conversa pelas anotações que fiz precariamente (para não dar muito na vista) e pelo que retive na memória. Então, é algo inteiramente dele, para dar uma idéia de como se expressa.

Motivos da perseguição

Passemos à sua visão sobre a via crucis que percorre desde a prisão na Itália em 1979, passando por exílios no México, França e Brasil, afora os países que atravessou na fuga (Espanha, Portugal, Ilha da Madeira, Ilhas Canárias). Vou reproduzir, entre aspas, as frases de Battisti que consegui anotar, transmitindo o restante com minhas palavras, mas seguindo sua linha de raciocínio.

“Eu não sou ninguém, sou só um instrumento para a luta contra o que representou 1968 na história da humanidade”, diz ele, aludindo à pouca importância que teve durante a militância. Seu grupo, os Proletários Armados para o Comunismo, estava a anos-luz de distância das poderosas Brigadas Vermelhas, p. ex., não passando de mais um entre os aproximadamente 500 agrupamentos de ultraesquerda na Itália dos anos de chumbo.

Por que passou depois a sofrer perseguição tão encarniçada? Porque “1968 ainda não acabou”, deixando sementes que continuam a inspirar projetos de mudança, alternativas ao capitalismo globalizado que aí está. Então, as forças reacionárias querem desacreditar esse legado, “caracterizando 1968 como um movimento criminoso”.

Atirar Battisti numa masmorra italiana teria, portanto, alto valor simbólico: “Eu represento a criminalização do pós-1968”.

E como se explica o fato de que muitos dos que querem ver Cesare extraditado são antigos comunistas, como o presidente Giorgio Napolitano? “Nosso enfrentamento nas fábricas era contra o sindicalismo do PCI, não contra a democracia cristã.” Antes de pegarem em armas, os grupos de ultraesquerda já tinham como inimigos diretos os comunistas italianos, que tentavam de todas as formas evitar o crescimento da influência dos autônomos.

Estes adquiriam cada vez peso, conseguiam colocar “mil pessoas na rua de um dia para outro”, enquanto os comunistas não empolgavam mais os trabalhadores jovens. “Houve um episódio muito noticiado na época, em que o PCI convocou um congresso para reagir à ascensão dos autônomos nas fábricas, mas seus representantes acabaram sendo escorraçados.”

Então, quando parte desses autônomos pegaram em armas contra os atentados direitistas e contra a aliança histórica entre o comunismo e a democracia-cristã, tiveram pela frente, como principais repressores, os próprios comunistas. Por conta da experiência acumulada na luta contra Mussolini, “o PCI é que tinha experiência de guerrilha, não a democracia-cristã; foi nosso inimigo nº 1”.

É para evitar que seja trazido à tona o papel histórico deplorável do PCI durante as décadas de 1970 e 1980 que antigos comunistas desenvolvem tamanho esforço para encarcerar quem conquistou prestígio literário. “Poucos têm credibilidade para falar nisso em nível internacional. Quando eu me tornei escritor, virei uma ameaça.”

Neste sentido, um dos nomes mais emblemáticos dos excessos cometidos pela Itália durante a repressão aos ultras, o subprocurador Armando Spataro, é quem municia Walter Maierovitch com as informações (extraídas de inquéritos e processos) que este repassa em sua coluna da CartaCapital. “É um torturador documentado. Quantos morreram por causa dele, executados nas ruas! Ele é quem deveria ir preso, da mesma forma como os torturadores da Argentina estão sendo presos agora!”

Solidariedade financeira dos amigos

A companheira que me acompanhou na visita garantiu que Cesare estava bem mais animado quando saímos. Sem ter parâmetros para julgar, também tive a impressão de que seus passos eram mais leves na despedida, quase como quem quisesse dançar.

Faz sentido. Transmiti-lhe a avaliação de que tudo converge para o arquivamento do processo de extradição, sem análise de mérito, no julgamento que o STF deverá marcar para junho.

Como ele sabe que já participei de várias cruzadas semelhantes, deve ter levado a sério meu prognóstico. Tanto que, meio relutante a princípio, acabou revelando o que fará quando reconquistar a liberdade.

Viverá de e para a literatura. “Mesmo porque estou precisando muito de recursos, desde 2004, por causa das perseguições, não consigo ganhar a vida trabalhando. Hoje estou vivendo da solidariedade dos amigos.”

Neste sentido, pretende morar no Rio de Janeiro ou São Paulo, “que é onde as editoras estão”. Quer atuar na divulgação dos seus livros, pois, deixados ao léu, sem empenho do autor, “não acontece nada”.

Convidará sua filha mais velha, Valentina, para vir morar com ele no Brasil, mesmo porque ela é biogeneticista e aqui encontrará bom campo para seu trabalho.

Quanto à outra filha, de 14 anos, “é melhor que, por enquanto, continue morando com a mãe”.

De resto, o fim da depressão veio acompanhado por uma trégua que a hepatite B concedeu a Cesare: “Nos últimos dois meses ela me deixou em paz...”.

E, aliviado com a liberação, por ordem judicial, do livro cuja única cópia estava na memória do computador apreendido pela Polícia Federal, Battisti trata agora de escrever os dois capítulos que faltam. Seu título: Ao pé do muro.

Trata-se do segundo volume da trilogia sobre suas andanças e desventuras desde que lhe cancelaram o asilo político na França, entremeadas por lembranças da militância.

O já lançado Minha Fuga Sem Fim aborda, exatamente, a atuação (muitas vezes escusa) do lobby italiano junto aos políticos, a Justiça e a mídia franceses, no sentido de que fosse desconsiderada no seu caso a legislação de forte conteúdo humanístico do tempo de François Mitterrand.

O terceiro também já tem nome: Ser Bambu, aludindo à flexibilidade do caniço, como símbolo do jogo-de-cintura necessário para quem enfrenta adversidades como as de Cesare.
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