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terça-feira, 22 de setembro de 2015

DENÚNCIA IMPORTANTÍSSIMA: DESVIO DE RECURSOS PÚBLICOS DEBILITOU SEGURANÇA DE ANGRA 3!!!

Nunca magnifiquei as denúncias de corrupção, por considerar que se trata de um mal inerente ao capitalismo, daí a impossibilidade de erradicá-lo enquanto não dermos um fim à exploração do homem pelo homem e à ganância desmedida que ela desencadeia (até lá, cruzadas como a do juiz Sérgio Moro enxugarão gelo, fazendo apenas a incidência do delito diminuir momentaneamente); e por jamais perder de vista que, na ponta do lápis, o sistema capitalista em si é muito mais prejudicial aos trabalhadores do que os mensalões, petrolões e eletrolões já desmascarados e todos os outros que sabemos existirem.

Mas, a coisa muda de figura se, por causa da corrupção, milhões de brasileiros estiverem sendo ameaçados de morte terrível. 

Então, peço que todos leiam com máxima atenção a denúncia abaixo de Chico Whitaker, membro da Comissão Brasileira Justiça e Paz, da Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares e detentor do  "Prêmio Nobel Alternativo" da Right Livewood Award, que lhe foi conferido pelo Parlamento Sueco em 2006.

Com um adendo: vazou material radioativo da usina de Angra 2 em 15 de maio de 2009, mas a população só ficou sabendo 11 DIAS DEPOIS (!!!), tempo necessário para a situação ser recolocada sob controle. É como se administram tais crises por aqui: para que não sejam prejudicados os negócios, fazem-se apostas temerárias com a vida dos brasileiros, deixando-se de evacuar as vítimas potenciais!

MISTURA EXPLOSIVA
.
Por Chico Whitaker
A prisão do presidente licenciado da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, lançou novas luzes sobre a corrupção. Nas usinas nucleares, ela é um delito maior que o desvio de recursos públicos. Em Angra 3, p. ex., a caixa-preta da obra nos diz que, para desviá-los, esqueceu-se a exigência fundamental da segurança.

Essa tecnologia para obter eletricidade se apoia em três mitos, sempre repetidos: é a mais limpa, a mais barata e a mais segura.

Os dois primeiros são facilmente desmontáveis. É limpa uma tecnologia que cria enormes quantidades de lixo radioativo, a ser "escondido" por milhares de anos? É barata se forem somados os custos dos depósitos de lixo, do desmantelamento das usinas ao final da sua validade, das sempre novas exigências de segurança? Custa pouco a assistência às vítimas de acidentes?

O terceiro mito é perigoso. Não existe obra humana 100% segura. Falhas de projeto, de material, dos operadores e interferências externas provocam acidentes de gravidade variável. Há os chamados acidentes severos, com derretimento do reator e explosão da usina, que dispersam no meio ambiente toneladas de partículas radioativas (como o césio-137, 19 gramas do qual apavoraram Goiânia em 1987).

Quem defende o nuclear diz que sua probabilidade é mínima, pois são muitos os cuidados tomados. Mas podemos afirmar que, se ocorrerem, serão catastróficos –haja vista Chernobil, em 1986, e Fukushima, em 2011. A caixa-preta de Angra 3 revelou que lá tais cuidados não foram tomados, mas sim empurrados para o lado.

O projeto de sua construção (o mesmo de Angra 2) é dos anos 1970. Não foi atualizado com as normas de segurança da Agência Internacional de Energia Atômica após os acidentes de Three Mile Island, nos EUA, em 1979, e de Chernobil, sete anos depois, na União Soviética.

Engenheiros da Comissão Nacional de Energia Nuclear deram o alerta, mas foram calados. Seu parecer técnico foi desconsiderado. O Ministério Público Federal soube disso e fez exigências. Essas dúvidas imporiam uma revisão do projeto, atrasando e talvez até inviabilizando a obra. A resposta foi quase cínica: atenderiam às exigências, mas depois de terminada a obra.

Em maio de 2010, Angra 3 foi licenciada e conseguiu-se arquivar uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal que pedia a sua nulidade. Propinas tinham sido pagas desde 2009, antes mesmo da licença. Qual punição merecem os autores de tão tenebroso conluio?

Os jornais criariam pânico se dessem a esse escândalo mais espaço do que a simples notícia de corrupção? Pode ser. Mas os turistas e moradores da região, do vale do Paraíba, do sul de Minas, do Rio e de São Paulo ignoram o perigo de uma explosão das usinas, com ventos levando partículas radioativas a suas casas. Como em Chernobil, quando uma nuvem cobriu a Europa.

Não seria melhor se os potenciais atingidos tomassem consciência disso e agissem para evitá-lo? Em vez de esconder a ameaça, deveríamos parar Angra 3, rever seu projeto e desmontar Angra 2. A usina de Grafenrheinfeld, na Alemanha, referência de ambas, está sendo desmontada, como todas daquele país.

A segurança nuclear é uma exigência ética. Ninguém tem o direito de ignorar os riscos da manipulação do átomo.

domingo, 21 de agosto de 2011

EMPRESÁRIOS GANANCIOSOS QUEREM IMPOR RISCO NUCLEAR AOS BRASILEIROS

Professor emérito da USP, o septuagenário Alfredo Bosi lança um alerta importantíssimo contra as pressões empresariais para que sejam impostos aos brasileiros os enormes riscos inerentes à ativação de Angra 3. 

Querem enfiar-nos goela adentro a retomada das obras de uma usina nuclar que tem grande possibilidade de repetir a catástrofe japonesa, como fui dos primeiros a advertir, no artigo Fukushima 1 é uma "bomba relógio dupla". Angra 2 e Angra 3 também, de cinco meses atrás.

Isto seria uma estupidez, uma infâmia e um crime, neste momento em que o mundo começa a acordar do pesadelo nuclear. Daí eu subscrever cada palavra e recomendar máxima divulgação deste artigo.

ANGRA 3 É UMA QUESTÃO ÉTICA
Eis o que poderá acontecer aqui...

O referendo italiano que rejeitou maciçamente as usinas nucleares é modelo de participação popular; talvez seja o caso de imitá-lo aqui

Se a construção de uma usina nuclear fosse apenas uma questão técnica, seria reduzido o número das pessoas capazes de opinar sobre o assunto. Mas os riscos a que estão sujeitas as populações que vivem perto dos reatores são inegáveis. Como nenhum cientista pode afirmar que o risco é zero, a questão passa a ser ética.

Como delegar a sorte de milhares de cidadãos à onipotência de alguns tecnocratas e aos interesses desta ou daquela empresa? Um programa sem o respaldo da opinião pública esclarecida é acintosamente antidemocrático. O referendo italiano que rejeitou maciçamente as usinas nucleares é modelo de participação popular. Talvez seja o caso de imitá-lo.

Na Alemanha, a decisão do governo de suspender o programa nuclear atendeu a um movimento cívico que exige investimento em formas de energia renováveis e seguras. Por que o BNDES se dispõe a malbaratar bilhões de dólares em Angra 3 em vez de aplicar esse capital, arrancado aos contribuintes, na difusão em larga escala daquelas formas de energia?

As empresas nucleares preferem privatizar benefícios e socializar prejuízos, no caso, perigos.

Mas não há dinheiro que possa indenizar câncer hepático ou leucemia nas crianças vítimas dos vazamentos. O cidadão brasileiro tem o direito de perguntar: o que será feito com o lixo de Angra 1, 2 e 3? Que direito temos de legar aos pósteros esse pesadelo?

O presidente Bush autorizou a remoção dos rejeitos para depósitos a serem cavados em Yucca Mountain, mas a população do Estado de Nevada e as comunidades indígenas que lá vivem há séculos rebelaram-se contra uma decisão que violava o seu território. Obama prometeu revogar o decreto do antecessor, mas o impasse continua.

...e qual seria uma consequência.
Físicos da envergadura do saudoso Mário Schenberg (que condenou a instalação de uma usina em Iguape), José Goldemberg, Pinguelli Rosa, Cerqueira Leite, Ildo Sauer e Joaquim Carvalho alertam para o caráter desnecessário da energia nuclear no Brasil. As potencialidades de nossa biomassa, bem como de outras fontes renováveis, fornecem base segura para um desenvolvimento sustentável.

Nossos cientistas são evidentemente favoráveis a pesquisas na área nuclear que tenham aplicações na biologia, na medicina e na agricultura. A energia nuclear é cara. Dados do Greenpeace: 'O preço da tarifa ao consumidor pode sair por US$ 113/MWh, contra US$ 74/ MWh da energia gerada pela biomassa e US$ 82/MWh da eólica'.

Arriscada, desnecessária, cara..., mas dirão que é limpa; desde quando lixo atômico é sinal de limpeza?

O enriquecimento do urânio depende de eletricidade gerada por combustíveis fósseis, como o carvão. Duas das minas de carvão mais poluentes dos Estados Unidos, em Ohio e em Indiana, produzem eletricidade para enriquecer urânio. É o que informa B. Sovacool no número 150 da 'Foreign Policy'.

Enfim, uma boa notícia. A OAB anunciou, em 4 de julho de 2011, que está recorrendo ao Supremo Tribunal Federal exigindo que a eventual retomada das obras de Angra 3 só possa fazer-se com autorização do Congresso Nacional e mediante nova legislação federal.

Assim o requer a Constituição de 1988. Que os parlamentares ouçam a voz dos eleitores e não se dobrem às pressões de empresários gananciosos e políticos desinformados.

terça-feira, 19 de abril de 2011

CONVOQUEMOS O PLEBISCITO CERTO. PARA QUE ANGRA NÃO VIRE FUKUSHIMA

Como escritor e jornalista, Carlos Heitor Cony é dos melhores que temos.

Algumas atitudes do homem foram decepcionantes, mas ninguém é perfeito. Suas avaliações de assuntos que não o envolvem pessoalmente continuam sendo das mais consistentes. Portanto, devem ser lidas e consideradas.

Como a da coluna desta 3ª feira (19), Os plebiscitos, na qual faz restrições à proposta de um referendum sobre o uso e a venda de armas, contrapondo-lhe um problema em que a consulta aos cidadãos se faz realmente necessária e premente:
"O governo promete ampliar a energia nuclear concluindo Angra 3 e construindo mais quatro usinas, isso numa época em que países mais industrializados, como a Suécia e a Itália, estão desativando seus programas nucleares. O governo da Alemanha também estuda a possibilidade de reduzir ou acabar com suas usinas.

O investimento é vultoso (pelo menos R$ 8 bilhões cada uma) e os riscos de um acidente como o de Three Mile Island (1979), de Chernobil (1986) e, agora, o de Fukushima, cujos efeitos ainda estão se manifestando, exigem uma consulta popular justamente num país que tem numerosos recursos naturais para gerar energia, como as hidrelétricas, além de opções que a tecnologia vai criando sem cessar, como a eólica, a solar etc.

Tamanha verba poderia ser em parte aplicada num programa para tornar mais seguras as usinas que temos em Angra dos Reis (RJ), onde ainda não há condições de retirada imediata da população.

Um acidente de grande proporção no litoral fluminense colocaria em risco as duas maiores cidades brasileiras, além de causar devastação em várias cidades próximas.

Um plebiscito daria ao governo e à sociedade uma orientação mais democrática sobre o programa de energia nuclear, importante demais para ser da agenda exclusiva de técnicos e funcionários" [o grifo é meu].
A mesma preocupação, aliás, já havia sido manifestada pelo maior jurista brasileiro vivo, Dalmo de Abreu Dallari:
"A tragédia sofrida pelo povo japonês deve servir de alerta, estimulando a busca de outras fontes de energia, para atendimento das necessidades básicas das populações do mundo, mas também influindo para que se faça ampla divulgação dos aspectos básicos das opções existentes, informando o povo e dando-lhe a possibilidade de acompanhar as discussões e, mesmo, de participar das decisões sobre o assunto".
O plebiscito sugerido por Cony daria, exatamente, ao povo "a possibilidade de acompanhar as discussões e, mesmo, de participar das decisões sobre o assunto".

Nem preciso dizer que concordo em gênero, número e grau com ambos, Cony e Dallari.

Também não preciso dizer que tal proposta  encontrará resistência imensamente maior que a do plebiscito sensacionalista sobre as armas,  por colocar em xeque um programa que pode ser dos mais perigosos para o povo brasileiro mas propicia vultosos ganhos para grandes empresas, as quais o defenderão com unhas, dentes e  o$  argumento$ de $empre.

Nem mesmo as greves de fome de D. Flávio Cappio conseguiram impedir que se desperdiçassem recursos públicos e atentasse contra a natureza para atender aos interesses do agronegócio na região do rio Sâo Francisco.

As cartas de Angra, também embaralhadas a gosto dos interessados, valem R$ 8 bilhões cada. Será necessária uma enorme pressão para desfazer tal jogo.

Com a palavra os parlamentares que honram o seu mandato, as ONG's, a imprensa e as redes sociais.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

GREENPEACE ALERTA: USINAS BRASILEIRAS REPETEM ERRO CALAMITOSO DE FUKUSHIMA

Em carta enviada no último dia 11 ao BNDE, o Greenpeace Brasil solicitou a suspensão do financiamento para a construção da usina nuclear de Angra III, "em razão do quadro de incertezas" gerado pelo acidente de Fukushima, que deverá provocar "profundas transformações no ambiente regulatório para essa fonte de energia".

A suspensão -- enfatizou o Greenpeace -- se faz necessária como "uma medida de proteção dos recursos geridos pelo banco e que pertencem ao povo brasileiro", pois, caso razões de ordem técnica inviabilizem a construção da usina, isto "fará o BNDES desperdiçar R$ 6 bilhões".

O Greenpeace também alertou para um problema que este blogue foi dos primeiros a destacar:
"...a permissão de que se estoque os resíduos radioativos em piscinas dentro dos prédios onde estão os reatores também deve ser revista. O complexo nuclear de Fukushima, p. ex., contava com a estocagem de seus resíduos em piscinas internas, o que potencializou os efeitos nocivos do recente acidente. No Brasil, as usinas de Angra I e II que já estão em operação adotam o mesmo procedimento, o que também se projeta para o funcionamento da usina de Angra III".

sexta-feira, 1 de abril de 2011

POVO BRASILEIRO É COMO MARIDO TRAÍDO: O ÚLTIMO A SABER

A Folha de S. Paulo noticiou no sábado retrasado (19/03):
"Uma opção de projeto da usina nuclear Fukushima 1 transformou o local em uma bomba-relógio dupla e acendeu um sinal amarelo sobre usinas nucleares: a estocagem do combustível usado no mesmo prédio do reator.

...Isso pode gerar uma explosão com efeitos trágicos, já que esse material - uma mistura de urânio, plutônio e outros elementos letais - é 1 milhão de vezes mais radioativo do que o combustível novo".
Só no 13º parágrafo aparecia a informação mais relevante para nós, brasileiros:
"Várias usinas atômicas no mundo adotam o mesmo projeto de Fukushima, de armazenar o combustível gasto no mesmo prédio do reator. Angra 2 e Angra 3 estão entre elas".
Bastou eu bater os olhos para perceber a enormidade da ameaça: de imediato, redigi o post Fukushima 1 é uma "bomba-relógio dupla". Angra 2 e Angra 3, também.

Ou não existem mais editores de verdade na grande imprensa, ou a mídia encontra-se totalmente subjugada a gigantes como a Eletrobrás, praticando a mais abjeta autocensura. Pois os enormes riscos que correm os moradores de Angra dos Reis e municípios vizinhos deveriam estar sendo noticiados e discutidos à exaustão.

Pelo contrário, tudo é escondido ou minimizado.
Protesto do Greenpeace em Angra dos Reis

P. ex., um vazamento de material radioativo na usina de Angra 2, ocorrido em maio/2009, só foi comunicado à coletividade 11 dias depois!!! Esperaram  que a situação estivesse sob controle, pois assim a falha despertaria menos interesse e indignação.

Só que, se a situação houvesse saído de controle, não se teria dado aos habitantes da região o direito de escolherem se queriam permanecer nos seus lares ou buscar local mais seguro.

Também perdida no noticiário (de hoje, 01/04) está a informação de que, entre as medidas sugeridas no 1º mundo para evitarem-se acidentes como o de Fukushima, está exatamente a localização -- não mais no prédio dos reatores -- das piscinas de combustíveis nucleares. 

Enquanto isto, como diz a Marginália II de Gilberto Gil e Torquato Neto, "aqui, o 3º mundo pede a benção e vai dormir".

Certíssimo está o grande Dalmo de Abreu Dallari: o pesadelo de Fukushima obriga a que "se faça ampla divulgação dos aspectos básicos das opções [energéticas] existentes, informando o povo e dando-lhe a possibilidade de acompanhar as discussões e, mesmo, de participar das decisões sobre o assunto".

Evidentemente, não é o que ocorrerá enquanto continuarmos confiando cegamente nas autoridades, pedindo a benção e indo dormir.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

VOLTANDO AOS MAUS TEMPOS

CHARGE DE CLEUBER (clique para ampliar)
http://www.tracodeguerrilha.blogspot.com/

O mês é outubro e o ano, 1962. Em todos os países há pessoas com o ouvido colado nos rádios e lançando olhares angustiados para o céu, à beira do pânico.

Nunca estiveram tão presentes nas mentes e tão opressivas nos corações as imagens dantescas dos genocídios de Hiroshima e Nagasaki. Era concreta a possibilidade de repetição daqueles horrores em escala muito mais ampla.

É que os EUA, ao obterem provas fotográficas da existência de silos de mísseis soviéticos em Cuba, deram um ultimato à URSS, exigindo sua imediata remoção.

A União Soviética, inicialmente, não cedeu. Pelo contrário, ao saber que os norte-americanos haviam iniciado um bloqueio naval e aéreo de cuba, despachou uma frota que o tentaria romper.

Um único disparo e começaria a reação em cadeia! Estava-se a um passo da guerra nuclear entre duas nações que acumulavam poder destrutivo suficiente para exterminar a espécie humana.

Foram 13 dias que apavoraram o mundo, enquanto se desenvolviam tensas negociações entre os governos de John Kennedy e Nikita Kruschev. Nunca os estadunidenses compraram tanto cimento e tijolo como nesse período em que construíram sofregamente abrigos nucleares em suas casas.

A histeria coletiva inspirou um episódio magistral da série de TV Além da Imaginação, sobre vizinhos que, ao confraternizarem numa festa, recebem a notícia de que a guerra atômica pode estar começando.

O único que havia transformado seu porão em abrigo, nele entrincheira-se com a família, negando acesso aos demais, por não haver mantimentos, água e espaço físico para tanta gente.

Quando os outros estão pondo abaixo a porta, empunhando tacos de beisebol e outras armas improvisadas, chega o desmentido: rebate falso. Mas, suas reações primitivas e egoístas durante a emergência revelara a todos como eles realmente eram, sob o verniz da hipocrisia social.

KRUSCHEV OBTÉM CONCESSÕES.
KENNEDY, HOLOFOTES


A crise dos mísseis cubanos terminou com cada lado cedendo um pouco e o mundo suspirando aliviado.

Os EUA concordaram em, posteriormente e sem alarde, retirarem mísseis similares que haviam instalado na Turquia. Comprometeram-se, ainda, a nunca mais realizarem ou estimularem invasões de Cuba, como a que a CIA e exilados cubanos haviam tentado em abril daquele ano na Baía dos Porcos. Eram estes os acontecimentos que haviam motivado os soviéticos a exibirem também o muque.

Kruschev, por sua vez, ordenou o desmantelamento dos silos e a retirada dos mísseis, saindo do episódio com uma vitória real (obtivera as contrapartidas desejadas) e uma derrota propagandística, pois concordou em manter secretas as cláusulas que lhe eram favoráveis.

De quebra, as superpotências decidiram colaborar para que novos sobressaltos fossem evitados, tendo sido instalada uma ligação telefônica direta (o famoso telefone vermelho) entre Kennedy e Kruschev, para que se entendessem antes dos pequenos problemas virarem grandes crises.

Nos EUA e em grandes capitais européias, houve júbilo incontido. Cidadãos festejavam nas praças e parques, lotavam os bares. Casais redescobriram a atração sexual, estranhos iam para a cama depois de trocarem duas palavras [O número de crianças nascidas nove meses depois foi muito superior ao habitual...].

A explosão de vida sucedeu aos augúrios de morte. Emblematicamente, a música até então ignorada de quatro jovens de Liverpool decolaria para a consagração mundial, tornando-se a trilha sonora da maior revolução de costumes que o mundo já vivenciou.

CHERNOBIL: 6,6 MILHÕES
FORAM CONTAMINADOS

Mas, se diminuiu consideravalmente a ameaça de que a guerra fria entre EUA e URSS se tornasse quente e radioativa, nem por isso a energia atômica deixou de provocar pesadelos e paranóias.

Em abril de 1986, um acidente nuclear na usina soviética de Chernobil, na Ucrânia, liberou uma nuvem de radioatividade que atingiria a URSS, Europa Oriental, Escandinávia e Reino Unido.

Grandes áreas da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia foram muito contaminadas, expondo 6,6 milhões de pessoas e tornando necessárias a evacuação e reassentamento de aproximadamente 200 mil habitantes.

A ONU computou 56 mortes decorrentes do acidente na primeira década, estimando que outras 4 mil ainda viriam a ocorrer; o Greenpeace retrucou que esses números eram bem inferiores aos reais. A usina foi desativada.

Por que estou evocando dois episódios tão deprimentes? Pelo simples motivo de que isso pode acontecer de novo. Está no noticiário:
  • a Coréia do Norte realiza testes nucleares repudiados pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e vistos com apreensão pela Coréia do Sul e Japão;
  • um vazamento de material radioativo na usina de Angra 2, ocorrido em 15 de maio último, só foi comunicado à população 11 dias depois, com a garantia de que os seis empregados afetados não correm maiores riscos [Houve tempo para se preparar bem a versão tranquilizadora, mas não me surpreenderei se a história estiver sendo malcontada].
O acidente no reator de Three Mile Island, bem menos grave que o de Chernobil, motivou nos EUA o lançamento da campanha No Nukes, com a participação de músicos famosos como Jackson Browne, Bonnie Raitt e Graham Nash.

Três décadas depois eles continuam protestando, agora contra um projeto de lei que amplia o estímulo a empreendimentos ligados à energia nuclear.

É mais do que tempo de fazermos algo semelhante por aqui. A população de Angra dos Reis e municípios próximos seria a primeira a agradecer.
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