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sexta-feira, 11 de maio de 2018

"REVOLTAS ESTUDANTIS DE 1968 FORAM O PRIMEIRO MOMENTO EFETIVO DE RESISTÊNCIA À DITADURA"

Por Vladimir Safatle
MAIO DE 68 NO BRASIL

É sintomático o silêncio dominante atual a respeito de Maio de 68 no Brasil. 

Em circunstâncias normais, poderíamos esperar uma reflexão articulada a respeito deste momento importante da história nacional, suas aspirações e impasses. No entanto, algo funciona atualmente sob a sombra da lógica do esquecimento, como se fosse questão de melhor não lembrar o que pode sempre retornar.

Lembremos como a ditadura militar brasileira havia se imposto como uma experiência transitória. Logo após o golpe, ainda se falava em eleições presidenciais em 1965. Foi aos poucos que a intervenção militar mostrou sua verdadeira face, a saber, aquela de um regime que nunca iria passar por completo, que mesmo depois de terminado saberia como continuar.

O sentimento social de sufocamento crescia com a promulgação de uma Constituição autoritária, com a consciência da impossibilidade da via eleitoral, como os casuísmos que apareciam diante dos resultados eleitorais desfavoráveis à ditadura.
29 de março de 1968: enterro do jovem Edson  Luís de Lima Souto inflamou o movimento estudantil
Nesse contexto, as revoltas estudantis aparecem como o primeiro momento efetivo de resistência à ditadura. Elas colocavam em questão os modos de oposição reinantes, já que o Brasil desenvolvera uma ditadura com uma capacidade de amortização de tensões maior do que aquelas que conheceriam seus vizinhos.

Estamos a falar de uma ditadura que criou um partido de oposição para chamar de seu, não por acaso o conhecido MDB. Uma ditadura que aplicou não o princípio do assassinato em massa, mas do assassinato seletivo que tinha a força de paralisar todo o conjunto da vida social com um esforço menor.

Nesse horizonte, constituíram-se os primeiros grupos efetivos de luta armada no Brasil. Ou seja, a história de Maio de 68 no Brasil é indissociável dessa opção pela luta armada que levaria boa parte dos estudantes à clandestinidade.
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."Toda ação contra um Estado ilegal é uma ação legal. Mesmo segundo princípios liberais, a luta armada contra a tirania é um direito" (Vladimir Satatle)
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A violência contra eles seria ainda mais brutal do que aquela que ocorreria em outros países latino-americanos. Pois até hoje seus corpos continuam desaparecidos, seus nomes, apagados da memória nacional, suas ações, recusadas.

Mas seria importante lembrar como o contexto legitimava tal escolha. O Brasil se situava em meio a uma ditadura claramente tipificada enquanto tal.

Um princípio fundamental a ser aceito em qualquer democracia que queira fazer jus a tal nome, mesmo uma democracia liberal, é: toda ação contra um Estado ilegal é uma ação legal. Mesmo segundo princípios liberais, a luta armada contra a tirania é um direito. 
Participantes do 30º congresso da UNE, em Ibiúna (SP), sendo levados presos em outubro de 1968
Note-se que vários líderes da luta armada, como Carlos Marighella, eram até então atores políticos bastante integrados ao que se chamaria de jogo democrático. Marighella opta por organizar a luta armada apenas após a implantação da ditadura militar, abandonando assim a diretriz hegemônica do PCB de então. 
Ou seja, sua escolha é motivada por um fechamento do horizonte político nacional, ela responde a tal fechamento.

Impor a uma sociedade a brutalidade da ditadura, da censura e da exceção e ainda esperar que a integralidade de seus cidadãos não use de todos os meios para se rebelar é desconhecer as dinâmicas mais profundas da história dos povos.
Um dos jovens estudantes que foram à luta armada
Nesse sentido, Maio de 68 no Brasil mostrou claramente como emergia uma juventude que não estava disposta a continuar a ser sufocada. 

Ela foi fundamental para que o Brasil conservasse uma dinâmica de transformações possíveis e de tensões. Ela deixou filhos e netos, de sangue e de espírito, que nunca estarão dispostos a esquecer o que eles fizeram e o que representaram.

Há um dever de memória a ser feito, ainda mais nos momentos sombrios da história nacional.

domingo, 7 de janeiro de 2018

PARA ARTICULISTA, CANDIDATURA DE LULA "ALIENARÁ AINDA MAIS A JÁ SIDERADA ESQUERDA BRASILEIRA"

Por David Emanuel de Souza Coelho
Para ser direto e falar sem contorcionismos, defendo que Lula não apenas não tem o direito de se candidatar, como também que é seu dever não fazê-lo.

Para além da expressão de um personalismo oco, qual a contribuição de uma candidatura de Lula à luta dos trabalhadores? Nenhuma. A campanha de Lula se pautará nas reminiscências de uma época histórica superada, impossível de repetição. 

Eleito, o que Lula fará? Essencialmente, o mesmo que Temer, só que com o MST e a UNE. Buscará as mesmas alianças que levaram Dilma ao fracasso. 

Alimentará o ódio da extrema-direita duplamente: por meio do simbolismo de sua presença na presidência e mediante dinheiro e poder distribuídos a seus aliados fascistas no congresso e nos estados. 

Alienará ainda mais a já siderada esquerda brasileira, afastando os trabalhadores de seus ideais e os jogando no colo de figuras como Bolsonaro.

E tudo pra quê? Para satisfazer a máquina burocrática do petismo.

Caso Lula não tivesse destruído o PT, com seu personalismo bonapartista, poderia contar com outros nomes para concorrer e ele poderia recolher-se à sua pacata vida de aposentado. 

Mas, não satisfeito em ter arruinado o partido, agora quer dar o tiro de misericórdia, levando junto o resto da esquerda nacional e o país inteiro. 
A mera presença de Lula na eleição já será um desserviço. A esquerda delirante pode vir com suas platitudes tipo Lula tem o direito a concorrer e os trabalhadores de não votarem nele, que são apenas atestados de rendição e impotência, mas é fato que a candidatura de Lula significará o obscurecimento de qualquer debate programático em prol da disputa de caricaturas políticas, pretensamente elevadas ao patamar de grandes totens históricos. 

Lula não tem absolutamente nada a oferecer e seria bom que se retirasse da cena em prol do surgimento de algo mais radical e autêntico, algo que não vise fazer banqueiros ganhar dinheiro como nunca dantes na história, mas que vise acabar, de vez, com a existência de bancos e banqueiros.

terça-feira, 16 de maio de 2017

UM MARCO DA RETOMADA DO MOVIMENTO ESTUDANTIL BRASILEIRO COMPLETA 10 ANOS: A OCUPAÇÃO DA REITORIA DA USP.

Já lá se vão 10 anos que o movimento estudantil voltou a marcar forte presença na sociedade brasileira, começando pela ocupação da reitoria da Universidade de São Paulo no dia 3 de maio de 2007, re-estréia de uma das práticas mais emblemáticas dos universitários de 1968.

Depois de manterem a ocupação durante 51 dias, os novos contestadores efetuaram a desocupação, vitoriosos, no dia 22 de junho, ao som do altaneiro hino revolucionário do Geraldo Vandré; aliás saíram, exatamente, "caminhando e cantando e seguindo a canção".


Foi quando, depois de visitar a ocupação, escrevi o texto abaixo, convicto de que os fios da História começavam a ser reatados, para a retomada dos movimentos de contestação no estágio em que eles pararam quando a assinatura do AI-5 arrojou o Brasil nas trevas do arbítrio total.


Após ter sido depositada na lixeira da História aquela bestial ditadura contra a qual os melhores seres humanos naturalmente se uniam, a acumulação de forças por parte dos que lutavam contra a desumanidade capitalista passou a ser bem mais lenta.


Mas, perceptível. Para quem tinha um mínimo de sensibilidade política, eram favas contadas que, mais dia, menos dia, uma enorme onda de protestos sacudiria o País. 


E em 2013 a onda chegou, apontando um caminho para o futuro e tornando instantaneamente ultrapassada a esquerda que trocara os ideais revolucionários por uma ilusão de poder, deixando-se cooptar e domesticar pelos inimigos de classe. 


Então, faço questão de lembrar como tudo (re)começou, publicando novamente um dos textos que mais me orgulho de haver escrito. Lancei-o no dia 31 de maio. Logo depois, o então governador José Serra capitulou, anunciando que reveria os quatro decretos autoritários repudiados pelos uspianos.

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POR DENTRO DA REITORIA OCUPADA
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A última segunda-feira de maio é ensolarada, uma exceção no invernal outono paulistano. As pessoas ao redor da reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada pelos estudantes desde o dia 3, mostram aquela animação habitual de quem reencontra o calor e o céu azul, após vários dias frios e cinzentos.

Conversam, brincam, confraternizam. Há líderes de servidores públicos se revezando num alto-falante para instruir/entreter quem chegou adiantado à reunião da categoria que terá lugar ali mesmo, ao ar livre. Ninguém parece preocupar-se com uma invasão da Polícia Militar, para cumprir o mandado de reintegração de posse concedido pela Justiça.

Uma barricada de pneus diante da entrada é a vitrine da ocupação. De que realmente servirá, caso cheguem brutamontes bem treinados e equipados, que têm a violência como realidade cotidiana? Quase nada. Mas, os símbolos têm papel importante nas batalhas em que o grande objetivo estratégico é a conquista de corações e mentes.

Diante da única porta de entrada, alguns estudantes do esquema de segurança fazem a triagem dos visitantes. Basta ter uma carteirinha de aluno ou professor da USP para entrar sem problemas. Como não sou uma coisa nem outra, levo alguns minutos para convencê-los de que não vim brincar de 007.

Como credencial, apresento meu livro Náufrago da Utopia, que por acaso trago comigo. Agrada-lhes o caderno iconográfico, com muitas fotos do movimento estudantil de 1968. Meio convencidos de minhas boas intenções, deixam que eu vá parlamentar com a  Comissão de Comunicação  (ou rótulo que o valha). Acompanhado, por enquanto.

Lá decidem que eu posso circular à vontade pela reitoria ocupada, liberando meu cicerone/vigia para outras tarefas. Uns 15 estudantes rodeiam meia dúzia de computadores, uns digitando e os outros palpitando.

Cuidam de manter o blogue da ocupação no ar, de selecionar e imprimir textos que serão expostos nos quadros de avisos e paredes. E também de mandar mensagens de esclarecimento aos jornalistas que falam mal da ocupação. [Como se isso adiantasse. Tirando honrosas exceções, a imprensa se colocou contra os estudantes, às vezes dissimuladamente, outras da forma mais panfletária e caluniosa, como fez a Veja São Paulo, que os acusou de “vândalos”, “baderneiros” e “arruaceiros”.]

A diferença mais marcante em relação às ocupações antigas é, exatamente, o esquema de comunicação sofisticado da atual, incluindo TV por Internet e rádio livre. De resto, sinto-me como se tivesse entrado num túnel do tempo e desembarcado naquele mês de julho de 1968 em que a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia (SP) esteve ocupada para servir como QG das iniciativas em apoio da Greve de Osasco, lançando a nova onda que (como agora) rapidamente se alastrou.

Os mesmos colchonetes espalhados por um salão em que repousam alguns sentinelas cansados, após a vigília da madrugada – período mais propício para uma operação policial, exigindo, portanto, cuidados redobrados (e muita disposição para enfrentar o frio).

Os mesmos jovens com roupas coloridas e brilho no olhar, convencidos de que estão fazendo História, embora alguns ainda sejam imberbes.
Os mesmos mosaicos de textos e imagens compondo um visual agradavelmente anárquico. [O pôster mais hilário é o do governador José Serra fazendo mira com um fuzil e os dizeres “José Serra, nada mais nos U.N.E.”. Que ingenuidade, deixar-se fotografar em pose tão incompatível com sua aura e seu passado!]

Sou capaz de apostar que, se fizesse uma  excursão  como a que estou fazendo, a reitorazinha teria chiliques, pois, à  anarquia criativa, deve preferir os ambientes burocratizados, assépticos e sem vida, a julgar pelo que revela nas entrevistas: faz musculação, esteira e escova nos cabelos, usa terninhos de estilo clássico, quer corrigir pálpebras e bochechas com cirurgia plástica.

Deuses, o que faz uma farmacêutica numa posição dessas? Serão esses os temas que uma reitora deve tratar na imprensa, quando sua universidade vive a maior crise das últimas décadas? [De quebra, é uma ingênua que, a mando ou com autorização do governador, pede reintegração de posse e depois paga o mico de ver o mandado judicial descumprido, já que os estudantes não engoliram o blefe e Serra teme as conseqüências desse presumível confronto sobre suas ambições políticas.]
Apesar de toda a grita demagógica dos direitistas empedernidos e dos cristãos-novos do reacionarismo, não há sinais visíveis de depredação ou vandalismo. Aliás, os estudantes criaram um sem-número de comissões, para cuidar de cada detalhe administrativo da ocupação, zelando pelo patrimônio público.

Até permitem que os faxineiros continuem cumprindo sua função de manter limpas as várias dependências, indiferentes ao perigo de que o  inimigo  possa infiltrar-se camuflado com macacões.

O que não funciona mesmo são os caixas eletrônicos de bancos, nos quais  foram colados avisos de “sem dinheiro”. Uma fração infinitesimal da usura consentida pela Justiça e abençoada pelo sistema foi detida. Vem-me à lembrança uma música de Sérgio Ricardo, ídolo dos universitários responsáveis pelas ocupações de quatro décadas atrás: “Os bancos e caixas-fortes/ que eram rocha, se quebraram/ e um rio de dinheiro correu”.

À saída, lanço um último olhar a esses jovens belos, brilhantes e idealistas, aparentemente tão frágeis, mas dispostos a enfrentar a tropa de choque da PM, se isso for necessário. Espero, torço para que não venha a ser.

Volto para o mundo real da desigualdade, da competição e da ganância, depois de um breve reencontro com o faz-de-conta revolucionário. Ciente de que há um longo caminho a percorrer até que os voluntários da utopia voltem a ser em número suficiente para tentarem ir além do faz-de-conta.
E, mesmo assim, esperançoso, pois um passo importante está sendo dado, com esse renascer do movimento estudantil que ora se delineia. É tudo de que precisamos, a renovação e oxigenação da esquerda, depois de tantas desilusões e defecções.

As pedras voltam a rolar. 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

OCUPA!

Em maio de 2007, o movimento estudantil paulista relançou as ocupações de
 escolas, que haviam tido papel marcante nas jornadas de 1968. Foi quando 
divulguei o artigo abaixo, um dos que mais satisfação tive em escrever, 
pois marcou meu reencontro tanto com o ofício de repórter quanto 
com meu passado de militante secundarista. A luta foi vitoriosa, 
com o governador José Serra acabando por rever os decretos 
que haviam provocado a revolta dos alunos da USP.  

A última segunda-feira de maio é ensolarada, uma exceção no invernal outono paulistano. As pessoas ao redor da reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada pelos estudantes desde o dia 3, mostram aquela animação habitual de quem reencontra o calor e o céu azul, após vários dias frios e cinzentos.

Conversam, brincam, confraternizam. Há líderes de servidores públicos se revezando num alto-falante para instruir/entreter quem chegou adiantado à reunião da categoria que terá lugar ali mesmo, ao ar livre. Ninguém parece preocupar-se com uma invasão da Polícia Militar, para cumprir o mandado de reintegração de posse concedido pela Justiça.

Uma barricada de pneus diante da entrada é a vitrine da ocupação. De que realmente servirá, caso cheguem brutamontes bem treinados e equipados, que têm a violência como realidade cotidiana? Quase nada. Mas, os símbolos têm papel importante nas batalhas em que o grande objetivo estratégico é a conquista de corações e mentes.

Diante da única porta de entrada, alguns estudantes do esquema de segurança fazem a triagem dos visitantes. Basta ter uma carteirinha de aluno ou professor da USP para entrar sem problemas. Como não sou uma coisa nem outra, levo alguns minutos para convencê-los de que não vim brincar de 007.

Como credencial, apresento meu livro Náufrago da Utopia, que por acaso trago comigo. Agrada-lhes o caderno iconográfico, com muitas fotos do movimento estudantil de 1968. Meio convencidos de minhas boas intenções, deixam que eu vá parlamentar com a Comissão de Comunicação (ou rótulo que o valha). Acompanhado, por enquanto.
Lá decidem que eu posso circular à vontade pela reitoria ocupada, liberando meu cicerone/vigia para outras tarefas. Uns 15 estudantes rodeiam meia dúzia de computadores, uns digitando e os outros palpitando.

Cuidam de manter o blog da ocupação no ar, de selecionar e imprimir textos que serão expostos nos quadros de avisos e paredes. E também de mandar mensagens de esclarecimento aos jornalistas que falam mal da ocupação. 

[Como se isso adiantasse. Tirando honrosas exceções, a imprensa se colocou contra os estudantes, às vezes dissimuladamente, outras da forma mais panfletária e caluniosa, como fezVeja São Paulo, que os acusou de vândalos, baderneiros e arruaceiros.]

A diferença mais marcante em relação às ocupações antigas é, exatamente, o esquema de comunicação sofisticado da atual, incluindo TV por internet e rádio livre

De resto, sinto-me como se tivesse entrado num túnel do tempo e desembarcado naquele mês de julho de 1968 em que a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia (SP) esteve ocupada para servir como QG das iniciativas em apoio da Greve de Osasco, lançando a nova onda que (como agora) rapidamente se alastrou.

Os mesmos colchonetes espalhados por um salão em que repousam alguns sentinelas cansados, após a vigília da madrugada – período mais propício para uma operação policial, exigindo, portanto, cuidados redobrados (e muita disposição para enfrentar o frio).

Os mesmos jovens com roupas coloridas e brilho no olhar, convencidos de que estão fazendo História, embora alguns ainda sejam imberbes.

Os mesmos mosaicos de textos e imagens compondo um visual agradavelmente anárquico. [O pôster mais hilário é o do governador José Serra fazendo mira com um fuzil e os dizeres José Serra, nada mais nos U.N.E.. Que ingenuidade a dele, deixar-se fotografar em pose tão incompatível com sua aura e seu passado de presidente da União Nacional dos Estudantes!]

Sou capaz de apostar que, se fizesse uma excursão como a que estou fazendo, a reitorazinha teria chiliques, pois, à anarquia criativa, deve preferir os ambientes burocratizados, assépticos e sem vida, a julgar pelo que revela nas entrevistas: faz musculação, esteira e escova nos cabelos, usa terninhos de estilo clássico, quer corrigir pálpebras e bochechas com cirurgia plástica.

Deuses, o que faz uma farmacêutica numa posição dessas? Serão esses os temas que uma reitora deve tratar na imprensa, quando sua universidade vive a maior crise das últimas décadas? [De quebra, é uma ingênua que, a mando ou com autorização do governador, pede reintegração de posse e depois paga o mico de ver o mandado judicial descumprido, já que os estudantes não engoliram o blefe e Serra teme as conseqüências desse presumível confronto sobre suas ambições políticas.]

Apesar de toda a grita demagógica dos direitistas empedernidos e dos cristãos-novos do reacionarismo, não há sinais visíveis de depredação ou vandalismo. Aliás, os estudantes criaram um sem-número de comissões, para cuidar de cada detalhe administrativo da ocupação, zelando pelo patrimônio público. 

Até permitem que os faxineiros continuem cumprindo sua função de manter limpas as várias dependências, indiferentes ao perigo de que o inimigo possa infiltrar-se camuflado com macacões.

O que não funciona mesmo são os caixas eletrônicos de bancos, nos quais foram colados avisos de sem dinheiro. Uma fração infinitesimal da usura consentida pela Justiça e abençoada pelo sistema foi detida. Vem-me à lembrança uma música de Sérgio Ricardo, ídolo dos universitários responsáveis pelas ocupações de quatro décadas atrás: “Os bancos e caixas-fortes/ que eram rocha, se quebraram/ e um rio de dinheiro correu”.

À saída, lanço um último olhar a esses jovens belos, brilhantes e idealistas, aparentemente tão frágeis, mas dispostos a enfrentar a tropa de choque da PM, se isso for necessário. Espero, torço para que não venha a ser.

Volto para o mundo real da desigualdade, da competição e da ganância, depois de um breve reencontro com o faz-de-conta revolucionário. 
Ciente de que há um longo caminho a percorrer até que os voluntários da utopia voltem a ser em número suficiente para tentarem ir além do faz-de-conta.

E, mesmo assim, esperançoso, pois um passo importante está sendo dado, com esse renascer do movimento estudantil que ora se delineia. É tudo de que precisamos, a renovação e oxigenação da esquerda, depois de tantas desilusões e defecções.

As pedras voltam a rolar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

SERRA ESCORREGA DE NOVO. E DESTA VEZ TOMBA SOBRE SEU PASSADO

José Serra perdeu o equilíbrio de novo.

Fez triste figura mais uma vez.

Desonrou novamente os ideais de outrora.

Embora tenha terceirizado o ataque jurídico e verbal contra o blogue Conversa Afiada  (do Paulo Henrique Amorim) e o site Luís Nassif OnLine, as responsabilidades política e moral são dele, Serra. Só dele. Pessoais e intransferíveis.

Pois foi em benefício de sua candidatura que o PSDB fez uma representação à Procuradoria Geral Eleitoral, pedindo investigações... com o evidente objetivo de promover intimidações!

E foi para evitar que Serra aparecesse como paladino da imposição da censura na internet, qual um  velho cavalheiro indigno  (1) a clamar pela volta da Dª Solange (2), que o presidente tucano Sérgio Guerra incumbiu-se de tentar justificar o injustificável nos papos com a imprensa.

Assim como era seu vice, Índio da Costa, quem cortejava os eleitores de extrema-direita durante a campanha eleitoral de 2010, poupando o ex-presidente da UNE da  saia justa  de aderir ele próprio à retórica de quem fechou a UNE.

Que moral tem para falar em "atentado à democracia brasileira" o dirigente máximo do partido de Geraldo Alckmin?!

A barbárie no Pinheirinho e a ocupação militar da USP não passam de balões de ensaio golpistas, para aferir a resistência da sociedade brasileira a uma recaída totalitária, a um novo 1964. 

Ou seja, estes episódios sim merecem ser qualificados de atentados à democracia --pois são reais, bem reais, tanto que houve até uma vítima fatal (ver aqui). Não virtuais e supostos.

Pior do que escorregar do skate é vacilar em relação ao próprio passado, perdendo a identidade que o sustentava e esborrachando-se no chão dos oportunistas.
  1. aos patrulheiros do politicamente correto, informo que não se trata de afronta aos idosos, mas sim de alusão irônica ao título de uma peça do Brecht, A velha dama indigna. 
  2. Solange Teixeira Hernandes, a censora-símbolo da ditadura militar.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O PV E SERRA SE MERECEM

Em 2006, quando se aproximava o final do prazo para filiação a partidos de quem se dispunha a ser candidato às eleições daquele ano, um amigo promotor, grande defensor dos direitos humanos, recomendou que eu me inscrevesse em alguma agremiação.

Respondi que não tinha nenhum projeto nessa direção, mas ele insistiu: quem sabe adiante?

Nem de longe cogitava ingressar na política oficial, salvo na remotíssima eventualidade de vir a ser anticandidato ao Executivo por algum partido que se dispusesse a usar as tribunas fornecidas pelo sistema para defender posições revolucionárias, sem nenhuma ambição de vitória eleitoral. Algo que se fazia no passado, mas parece ter saído de moda; agora, todos querem mais é obter nacos do poder.

Pelo sim, pelo não, acabei concordando com a sugestão do meu amigo.

Vem de longe minha propensão a deixar sempre uma porta aberta para as improbabilidades. Aos 18 anos, quando tirei a carteira de motorista, optei pela habilitação do tipo profissional, apenas porque o único requisito adicional era preencher outra página de questões de múltipla escolha.  Por que não? --pensei. Adquiri, portanto,o direito de dirigir qualquer veículo, menos os que transportassem carga perigosas; e, previsivelmente, isto acabaria não tendo utilidade nenhuma para mim. 

Aceitei também uma má indicação do bom Jorge: ele me recomendou o Partido Verde porque era, no seu entender, o menos sectário do campo da esquerda.

Mas, depois da inscrição, nem o PV me contatou, nem o procurei. Tinha outras prioridades.

Ao contrário do Jânio, o PV já
decidiu o rumo: direita, volver!
Postava, contudo, meus artigos na comunidade do PV no Orkut.

O que lancei em março de 2007, à véspera de mais um aniversário da quartelada de 1964, foi mal recebido por uma dirigente estadual, que me respondeu com esta farpa: 
"Quem fez a luta armada, já fez sua autocrítica, na medida que tantas mortes não foram de grande serventia".
A discussão azedou e eu invoquei o direito que tínhamos de confrontar a tirania:
"Eu participei da luta armada e considero nossa opção plenamente justificada nas circunstâncias da época, já que o fechamento de todos os caminhos da luta política, a partir do AI-5, só nos deixava a alternativa de desistirmos da resistência à ditadura ou pegarmos em armas".
Ela retrucou:
"Me espanta isso, pq isso abre precedente pra que numa situação crítica, novamente o fim justifique os meios.
A menos que eu esteja completamente equivocada, o PV defende o pacifismo".
 Então, face à insistência dela de que eu deveria respeitar o opção estatutária do PV pela não violência do Gandhi, eu comuniquei que estava deixando aquela comunidade do Orkut e providenciaria a desfiliação do partido logo no dia seguinte (o que fiz).

REQUIESCAT IN PACE

Hoje reavaliei minha postura em relação àquela desafeta virtual: deveria tê-la poupado de recriminações e, isto sim, agradecer-lhe penhoradamente por ter aberto meus olhos.

Que alívio estar, há cinco anos, bem longe desse partido! Se não, parafraseando o bordão do narrador esportivo Sílvio Luís,  o que é que eu iria dizer lá em casa  quando o PV formalizasse, na noite desta 6ª feira (10), o apoio a José Serra na eleição municipal?! Programaticamente, não faz sentido nenhum. Inexiste qualquer justificativa aceitável. E a única explicação que me ocorre é a frase pessimista do escritor francês Maurice Druon, "viver envilece".
Plínio Salgado + Índio da Costa +
Geraldo Alckmin = José Serra atual
O que o PV teve um dia de esquerda --meu ex-companheiro de movimento secundarista e militância revolucionária, Edmauro Gopfert, p. ex., foi um  verde  de primeira hora-- desmanchou no ar. Hoje não passa de um partidinho fisiológico como qualquer outro.

Aderir a quem se mancomunou escancaradamente com a extrema-direita na última eleição presidencial é vergonhoso.

Assim como vergonhoso é somar forças com aquele que, como governador, iniciou a atual escalada autoritária em São Paulo e, mesmo tendo um dia presidido a UNE, não hesitou em autorizar a invasão da USP por brucutus fardados.

O caráter ignominioso de tal aliança aumenta se lembrarmos da administração calamitosa dos tucanos no Estado, consolidando a ocupação militar da USP, ordenando a blitzkrieg na Cracolândia e a barbárie no Pinheirinho, dentre outras reincidências nas práticas ditatoriais das quais pensávamos ter-nos livrado em 1985.

Enfim, como bom cristão, deixarei os mortos enterrarem seus mortos. O PV e Serra se merecem.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

FARC, O ESPANTALHO DA VEZ

Oscar de Melhor filme de 1967, mostra como o filósofo Thomas More abdicou do poder (e da própria vida) para permanecer fiel a suas convicções. Há quem faça a opção contrária...

Pois bem, o PT não é narcotraficante, mas está ligado às Farc, que o são -- dizem, em úníssono, José Serra e Índio da Costa.

E, tendo feito uma óbvia insinuação, de extrema gravidade, desobrigam-se de justificar suas alegações, pois "todo mundo sabe".

O Estado de S. Paulo vem socorrer a ambos, com um artiguete de Roberto Lameirinhas, que foi meu foca quando eu editava revistas musicais. Se arrependimento matasse...
Intitulado Grupo surgiu em 1964 para lutar por regime leninista, o texto tenta, ademais, ressuscitar o espectro favorito do Olavo de Carvalho, que não assusta mais ninguém: o Foro de São Paulo.

Só os dois parágrafos iniciais são relevantes:
"Mais antiga guerrilha esquerdista em atividade na América Latina, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) foram fundadas em 1964, como o braço armado do Partido Comunista Colombiano. No mesmo ano, iniciou sua campanha contra o Estado, com o objetivo de instalar no país um regime marxista-leninista. Em 46 anos, estima-se em mais de 200 mil os mortos do conflito.

"Como força política, as Farc mantiveram vínculos com partidos e movimentos de esquerda de várias partes do mundo. Os laços com o Partido dos Trabalhadores, do Brasil, tornaram-se mais claros em 1990, quando o PT lançou o chamado Foro de São Paulo - que reúne grupos esquerdistas de vários países da América Latina e Caribe. Uma carta do então líder das Farc, Pedro Antonio Marín, também conhecido como Manuel Marulanda ou Tirofijo ('Tiro Certeiro', em espanhol), foi lida na abertura do evento".
Ou seja, no primeiro parágrafo, o Lameirinhas esboça um retrato das Farc, mais horroroso que o de Dorian Gray.

No segundo, diz que o PT tinha laços com as Farc em 1990 -- e como depois muda o disco, passando a abordar a problemática especificamente colombiana, deixa subentendido que até hoje tais laços persistem.

Mas, na
Folha.com, Clóvis Rossi (PT, Farc, meia verdade e ambiguidade) preenche a lacuna, contando o que aconteceu depois:
"O que Serra não explicitou é que o PT cortou tais laços depois que chegou ao poder. Ou, pelo menos, a parte mais importante do partido [o fez].

"Já em 2005, a Folha informava que o PT vetara a participação do grupo colombiano na reunião que marcaria o 15º aniversário do Foro, realizado em São Paulo -- e com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Eis o que dizia então a
Folha: 'A tentativa frustrada [de participação no encontro de São Paulo] está registrada em e-mail atribuído a Raúl Reyes, obtido pela Folha, e foi confirmada pelo advogado colombiano Pietro Lora Alarcón. Professor da PUC-SP, Lora disse que foi procurado pelo padre Olivério Medina, então embaixador das Farc no Brasil. Porém, o pedido de Medina foi rejeitado pela secretaria executiva do Foro, que era dominada pelo PT'.

"Dois anos depois do veto, as Farc voltaram a ser marginalizadas no encontro realizado em San Salvador.

"Declararam à época: 'Cremos ser oportuno manifestar nossa inquietação e desagrado pela posição de alguns companheiros que, em forma e sob responsabilidade pessoal, publicamente dizem que as Farc não podem participar no Foro, por ser uma organização alçada em armas'.

"Quando o Foro de São Paulo foi criado, em 1990, só um dos partidos nele representados estava no poder [o Partido Comunista Cubano]. No encontro de San Salvador, já eram oito os países governados por partidos do Foro: além de Cuba, Venezuela, Bolívia, Nicarágua, Equador, Brasil, Uruguai e Argentina.

"Ou seja, em vez de o poder abrir portas para um sócio como as Farc, elas se fecharam".
Resumo da opereta: para o bem ou para o mal (cada leitor terá uma opinião a este respeito, mas não devemos dispersar o foco da discussão), o PT se distanciou das Farc, exatamente quando elas passaram a ter sua imagem insistentemente associada ao narcotráfico.

Então, utilizá-las como espantalho eleitoral contra a candidata petista é uma falácia, na linha das invencionices manipulatórias dos sites e correntes virtuais de extrema-direita.

Que um despreparado figurante, alçado subitamente a protagonista em plena campanha presidencial, recorra a essas práticas goebbelianas (martelar mentiras para ver se passam por verdades), dá até para compreendermos. Mas não aceitarmos, evidentemente.

O caso muda de figura quando é um Serra, com meio século de trajetória política nas costas, a utilizar tal expediente -- ele que, em tempos idos, já foi acusado de receber
ouro de Moscou para prestar serviço à conspiração comunista internacional.

Volta contra os adversários de hoje as práticas torpes que os inimigos de ontem utilizavam contra si.

Até onde estará disposto a ir, na sua marcha acelerada para a direita?

Se perder, vai apoiar uma virada de mesa, como a que o levou ao exílio?

É
assim que quer ser lembrado pelos pósteros?!

São perguntas que o Serra deveria formular a si mesmo, com a mão na consciência... se é que ainda a possui.

terça-feira, 20 de julho de 2010

SERRA ADOTA DISCURSO DA DIREITA MAIS RETRÓGRADA E GOLPISTA

O professor Olavo
de Carvalho tem um
novo discípulo...
Os dois jornalões paulistas, inimigos históricos hoje irmanados nas cruzadas reacionárias, manchetearam, eufóricos, a reação do presidenciável José Serra à reprovação, por parte dos analistas políticos e de cidadãos equilibrados de vários partidos, das declarações destrambelhadas e abestalhadas do seu vice Índio da Costa contra Dilma Rousseff e o PT.
O Estado de S.Paulo: ''Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc', diz Serra"

Folha de S.Paulo: "Serra sai em apoio ao vice e aponta ligação de PT e Farc"

Eias o que declarou Serra em Belo Horizonte:

"A ligação do PT é com as Farc. Isso todo mundo sabe, tem muitas reportagens, tem muita coisa. Apenas isso. Agora, as Farc são uma força ligada ao narcotráfico, isso não significa que o PT faça o narcotráfico".
O próprio Índio da Costa, devidamente adestrado pelos caras pálidas, também recuou da acusação que nenhum demotucano pode provar, refugiando-se no abrigo seguro das insinuações:

"PT não faz narcotráfico. As Farc, sim".
Interessante o Serra repetir o todo mundo sabe da frase indefensável do seu vice que deflagrou esta polêmica ("Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc, ao narcotráfico, ao que há de pior").

Todo mundo sabe, p. ex., que ele é um ex-presidente da UNE e teve de fugir do Brasil para não ser encarcerado pela ditadura militar.

Todo mundo sabe, também, que ele deveu sua liberdade e talvez sua vida às gestões solidárias de companheiros de vários países, quando prisioneiro de Pinochet.

E daí? Hoje o Serra coloca a tropa de choque da PM no campus da USP e nega solidariedade a Cesare Battisti.

Então, a insistência do antigo Zorro e do certamente Tonto num tema tão ao gosto do alarmista/fantasista Olavo de Carvalho e dos sites neointegralistas faz temer o pior.

Esta campanha presidencial começa a assumir os contornos de uma briga de foice no escuro, com tentativas desesperadas das aves de mau agouro e dos sempre demoníacos, no sentido de gerarem, artificialmente, um clima similar ao de 1964.

Com a única diferença de que as fileiras obscurantistas foram quantitativamente reforçadas pela adesão de José Serra.

Mas, para quem dá mais valor à qualidade e à integridade, não houve prejuízo nenhum.

terça-feira, 22 de junho de 2010

JS - A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

Candidato José Serra,

no final de outubro de 2008, eu lhe pedi, por meio de carta aberta, que tomasse as providências cabíveis, como governador de São Paulo e como cidadão que foi perseguido pela ditadura militar, para que a página virtual do 1º Batalhão de Polícia de Choque da PM, mais conhecido como Rota, não continuasse exibindo elogios rasgados à ditadura de 1964/85 e ao papel que ele próprio desempenhou na repressão aos que resistiam à tirania.

Depois, diversas vezes voltei ao assunto. Idem, o portal "Brasil de Fato", que chegou a receber uma falsa promessa da Polícia Militar de que o site seria revisado, para adequar-se aos valores da democracia e da civilização.

Até hoje continua no ar, por exemplo, o seguinte:
"Marcando, desde a sua criação, a história desta nação, este Batalhão teve seu efetivo presente em inúmeras operações militares, sempre com participação decisiva e influente, demonstrando a galhardia e lealdade de seus homens, podendo ser citadas, dentre outras, as seguintes campanhas de Guerra: (...) Revolução de 1964, quando participou da derrubada do então Presidente da República João Goulart, apoiando a sociedade e as Forças Armadas, dando início ao regime militar com o Presidente Castelo Branco".
Então, pergunto:
  • O Sr. concorda com a afirmação de que os golpistas de 1964 estavam apoiando a sociedade?
  • Se não concorda, por que permitiu que ela permanecesse no ar, inalterada, durante todo seu governo?
Celso Lungaretti (jornalista, escritor e ex-preso político anistiado pelo Ministério da Justiça)

* * *

Compareci nesta 2ª feira (21) à sabatina da Folha de S. Paulo/UOL com o presidenciável José Serra unicamente para entregar a uma funcionária a pergunta acima, já que o envio prévio de questões só era admitido na forma de vídeo e eu não sou atração gratuíta do circo da mídia.

Seria ela pertinente, numa campanha eleitoral?

Nada seria mais pertinente, na verdade. Pois, a campanha inteira tem ignorado os grandes temas políticos e se travado em torno de ninharias como dossiês fantasmas, com um acusando "você fez!" e outra retrucando "eu não fiz!".

Então, o eleitorado ganharia subsídios mais ricos para sua escolha se pudesse avaliar o caráter de José Serra.

Ou a falta dele, caso assumisse, de viva voz, já não dar a mínima se e quando uma corporação sob sua autoridade mantém no ar a mais repulsiva retórica ditatorial.

Mas, o mediador Fernando Rodrigues poupou o entrevistado de constrangimentos, ao omitir que eu havia interpelado Serra em carta aberta -- enviada, como manda o figurino, primeiramente para o destinatário.

Também não citou o nome do "internauta" que fez a indagação, o que já é de praxe na Folha: meu nome deve ser, tanto quanto possível, omitido; e minha atuação, minimizada.

Pelos critérios jornalísticos, seria mais do que relevante ele esclarecer que a cobrança era feita por uma vítima da ditadura, que tinha todos os motivos para indignar-se com tal descaso em relação aos valores democráticos.

Noblesse oblige, Serra negou rapidamente que estivesse certo quem apoiou o golpe.

Que mais poderia fazer um ex-presidente da UNE? Evitou, entretanto, qualquer afirmação mais contundente, que pudesse indispô-lo com seus aliados atuais.

Disse não ter tomado conhecimento da existência de tais excrescências na página virtual da Rota - e ninguém lhe perguntou se era normal que uma carta aberta a ele encaminhada por um ex-preso político, expondo uma questão que envolve a fidelidade aos princípios democráticos, não chegasse às suas mãos.

Comparou a omissão de sua administração em resolver tal problema à do Governo Lula quanto ao viés totalitário dos manuais de História dos colégios militares.

E já ia mudar de assunto quando a jornalista Renata Lo Prete lhe indagou se não caberia, afinal, a tomada de alguma providência para sanar tal aberração.

Serra respondeu que não via isso como algo prioritário, mas aquiesceu.

Para que não fique o dito por não dito, encaminharei em seguida uma mensagem ao governador Alberto Goldman, fazendo-lhe a mesma cobrança.

De resto, não fiquei para assistir à sabatina. Entreguei o papel e fui tratar de assuntos mais relevantes. Afinal, avaliei, quem se atrasa 42 minutos para um debate não deve ter mesmo nada de importante para dizer.

E a versão integral disponibilizada pelo UOL (que vi depois) confirmou isso. O que ele falou foi mais do mesmo... de novo. Nada que valesse manchete.

Mas, houve algo marcante, sim. A entrada de Serra, assim descrita pelo colunista Fernando de Barros e Silva:
"Eram 11h42 quando o candidato tucano à Presidência entrou no palco da sabatina Folha/UOL, evento com transmissão ao vivo marcado para as 11h.

"Esperavam-no sentados na primeira fila, à frente da plateia que lotava o teatro, Gilberto Kassab, Geraldo Alckmin, Orestes Quércia, Aloysio Nunes Ferreira, entre tantos outros. Não é fácil descrever a cena, mas todos ali pareciam seus empregados. Serra chegou sério, sem dizer bom dia nem pedir desculpas pelos 42 minutos de atraso".
Como cinéfilo inveterado que sou, logo me ocorreu um paralelo com a sétima arte.

O atrasadíssimo Serra surgiu sem aviso no fundo do palco, por trás dos entrevistadores sentados, caminhando lentamente. Magro, careca, envelhecido, carrancudo e meio encurvado, deu a impressão de ter... encolhido.

Os espectadores foram surpreendidos por essa irrupção em cena que deveria ser jovial e esfuziante (política é a arte da representação...), mas foi, isto sim, sinistra. Houve um átimo em que todos ficaram estupefatos e não se ouviu ruído nenhum. Silêncio ensurdecedor.

Depois soaram as palmas, mas sem convicção. Foram aplausos pra lá de constrangidos.

Sempre achei de mau gosto as comparações que fazem na internet, mas -- juro! -- Serra lembrou mesmo o Nosferatu, de Murnau e Herzog.

Quase cheguei a temer que desse um bote para cravar os caninos na jugular da Lo Prete...


Foi exatamente assim a entrada de Serra no palco do Teatro Folha...
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