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terça-feira, 11 de agosto de 2009

LULA ESVAZIA JOGADA DE CHÁVEZ NA UNASUL

"O Foro de São Paulo, com a aprovação risonha do nosso partido governante, reivindica o poder ditatorial sobre todo o continente." (Olavo de Carvalho)

"Olavo de Carvalho, misto de (péssimo) jornalista, (eficiente) propagandista e (pretenso) filósofo, descreve o Foro de São Paulo de forma tão delirante que parece Ian Fleming introduzindo a Spectre numa novela de James Bond." (Celso Lungaretti)

“Fique pois o leitor sabendo que os partidos de Lula, Kirschner, Chávez, Morales e tutti quanti não governam nada ou então não pertencem ao Foro de São Paulo, embora eles próprios digam o contrário em ambos os casos.” (OC)

"Quem crê ou tenta fazer os outros crerem que o populismo autoritário de Chávez determinará o destino de grandes nações como o Brasil e a Argentina, já foi além até das fantasias de 007. Isso está mais para O Rato Que Ruge, aquela ótima comédia com Peter Sellers." (CL)

Estas afirmações foram parte da longa polêmica que eu e Olavo de Carvalho travamos em setembro/novembro de 2007, cuja íntegra pode ser acessada aqui.

O estopim foi exatamente o alarmismo de OC ao apresentar o Foro de São Paulo como uma conspiração sinista para a implantação de uma constelação de ditaduras esquerdistas na América Latina, seguindo o figurino de Chávez.

Levei na galhofa e OC veio babando para cima de mim. Só que o contragolpe lhe tirou toda a vontade de lutar: arrastou-se no ringue por mais dois assaltos e saiu de fininho...

Desde então, o que se viu? Chávez tentou empurrar o Equador a uma guerra contra a Colômbia no início de 2008, mas Lula liderou a turma do deixa-disso e foi a sua posição que prevaleceu.

Nesta segunda-feira, novamente, Chavez tentou fazer com que a cúpula da União de Nações Sul-Americanas repudiasse o acordo militar Colômbia/EUA, Lula liderou a turma do deixa-disso e foi a sua posição que prevaleceu.

Nos dois casos, a Argentina concordou discretamente com os panos quentes.

Então, fica comprovado que não foi a capacidade de argumentação de cada um de nós que decidiu aquela polêmica, mas sim o fato de meu realismo político fazer muito mais sentido do que as teorias conspiratórias de OC.

As grandes nações continuam se comportando como grandes e as pequenas, como pequenas.

Lula pode discursar contra a violação do território equatoriano no ataque às Farc, a presença militar dos EUA na Colômbia e em nossos mares, o golpe de estado hondurenho, etc., mas, no frigir dos ovos, não apóia nem apoiará soluções armadas que possam resultar num aumento da influência de Chávez no nosso continente.

O cara sabe que, no jogo político que desenvolve, é-lhe mais vantajoso oscilar na órbita de Obama. O resto não passa de retórica, palavras ao vento.

Quanto à Argentina, preferirá ficar num confortável segundo plano enquanto Lula der conta do recado sozinho. Mas, se tiver de intervir, será para reforçar a posição de Lula.

Completando o cerco velado à Venezuela, os EUA, com suas bases e sua frota, emitem um óbvio recado: estão prontinhos para intervir caso, p. ex., Chávez vá às vias de fato contra Uribe.

Não vou entrar aqui em juízo de valores, pois outros já o fazem até demais. Apenas quis mostrar como o tabuleiro está armado.

E quão disparatados são os superestimam fatores ideológicos e subestimam os geopolíticos, ao projetarem as posturas que Brasil e Argentina assumirão.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

3º MANDATO: PINGOS NOS II

Charge do Cleuber (clique para ampliar)
http://www.tracodeguerrilha.blogspot.com/

Já que houve críticas, veladas ou explícitas, ao meu artigo Lula descarta o 3º mandato, mas atrapalha-se ao defender Chávez e Uribe, creio ser oportuno reproduzir aqui uma explicação que dei a um grupo de discussão virtual:
Quanto à reeleição de Hugo Chávez, considero um assunto que diz respeito aos venezuelanos.

Sou absolutamente contrário a um 3º mandato consecutivo de Lula porque, NO BRASIL, isto poderá ser a senha para um novo golpe de direita.

Quando os reacionários viram que Getúlio Vargas continuaria governando indefinidamente, seja elegendo a si próprio, seja colocando no poder quem quer que apadrinhasse (como Dutra), apostaram todas as suas fichas em sua derrubada e a teriam concretizado, caso Vargas não virasse o jogo ao preço de seu suicídio.

Em 1964, temerosos de que Leonel Brizola sucedesse João Goulart, trataram de virar a mesa antes da eleição marcada para o ano seguinte.

Aqui já tentaram iniciar a arregimentação da classe média para o golpe com o Cansei, repetindo o mesmíssimo figurino de 1964: seria a nova Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade.

Mas, tínhamos a legalidade ao nosso lado: Lula conquistara seu 2º mandato nas urnas. Então, conseguimos esmagar o ovo da serpente e os direitistas passaram a mirar 2010.

Um 3º mandato consecutivo de Lula, com a mudança das regras do jogo na última hora, é tudo de que a direita precisa para convencer seus patronos estrangeiros e a classe média brasileira de que a democracia está em perigo.

E, assim como em 1964 ela corrigiu os erros de 1961, aproveitando bem as lições do fracasso anterior, temos de levar em conta a possibilidade de que a próxima investida seja bem mais profissional do que o Cansei.

Vale lembrarmos, também, que a derrubada de João Goulart foi o ponto-de-partida para o retrocesso em vários outros países da América Latina. O mau exemplo logo se propagou, com quarteladas em cascata.

Então, temos uma responsabilidade não só com o povo brasileiro, mas também com os pueblos hermanos: não podemos deixar que comece por aqui uma nova escalada golpista.

A melhor contribuição que podemos dar às forças progressistas do nosso continente será impedirmos qualquer recaída totalitária no Brasil.

Nada indica que a candidatura avalizada por Lula, seja a de Dilma Rousseff ou qualquer outra, esteja previamente derrotada. Então, não há motivo nenhum para sermos nós a virarmos a mesa (com uma mudança casuística e fora de hora da legislação eleitoral), o que daria um enorme trunfo propagandístico ao inimigo.

Daí a minha insistência em combater essa proposta, que o próprio Lula já rechaçou um sem-número de vezes.

Quanto à defesa atrapalhada que Lula fez das pretensões de Chávez e Uribe a uma nova reeleição, eu a registrei por se tratar de um fato jornalístico. Meu circuito é amplo e muitas pessoas me lêem apenas para encontrarem descrições mais perspicazes dos acontecimentos. [Curiosamente, um dia depois, Clovis Rossi repetiu várias de minhas considerações em sua coluna Brincadeira Besta, atestando que era mesmo o que poderia filtrar a sensibilidade de comentaristas veteranos - vide http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0406200903.htm ).

No entanto, deixei claro que Lula não deveria é ter misturado alhos com bugalhos. Errou ao querer compatibilizar a posição que ele está adotando aqui com as posturas que Chávez e Uribe adotaram na Venezuela e Colômbia. E, no final, acabou desistindo e batendo em retirada.

É o que deveria ter feito desde o começo, pronunciar-se sobre o Brasil e não meter o bedelho nas decisões de outros países.

Importante mesmo era darmos o máximo de quilometragem à constatação de que a Folha de S. Paulo, mais uma vez, botara os pés pelas mãos, com suas tentativas dominicais de fabricar fatos políticos -- as quais, além de inoportunas (neste caso) ou nocivas (caso da reportagem sobre o sequestro que não houve e que foi ilustrada por uma ficha falsa da Dilma Rousseff), acabam gerando apenas factóides.

E cravarmos de vez uma estaca no coração desse vampiro político que é o 3º mandato de Lula.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

LULA DESCARTA O 3º MANDATO, MAS SE ATRAPALHA AO DEFENDER CHÁVEZ E URIBE

Charge do Cleuber (clique para ampliar)
http://www.tracodeguerrilha.blogspot.com/

A exumação da proposta de um terceiro mandato consecutivo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, graças sobretudo à inoportuna manchete da Folha de S. Paulo do último domingo, foi prontamente rechaçada pelo principal interessado: Lula afirmou que "não existe hipótese de 3º mandato", nem o pretende buscar.

Falando à imprensa nesta terça-feira, na Cidade da Guatemala, o presidente reagiu com irritação a esse vezo da Folha em, como uma fábrica de factóides, tentar gerar acontecimentos políticos a partir das pesquisas de opinião que encomenda do seu instituto, o DataFolha:
"A imprensa fortalecerá muito mais a democracia quando ela se contentar em informar os fatos, e não criar os fatos."
Sua resposta à traquinagem jornalística da Folha foi das mais apropriadas:
"Eu não brinco com a democracia, foi muito difícil a gente conquistá-la. E o que vale pra mim, vale para os outros. Alguém que quer o 3º mandato, pode querer o 4º, pode querer o 5º, o 6º. A alternância de poder é fundamental para a democracia".
Só que, como de hábito, depois de acertar o cravo, ele deu a martelada seguinte na ferradura. Talvez por perceber tardiamente que suas afirmações contundentes poderiam ser interpretadas como críticas indiretas a seus colegas Hugo Chávez (Venezuela) e Alvaro Uribe (Colômbia), ele tentou remediar... e acabou se complicando ainda mais:
"O Chávez quer o 3º mandato. Ele vai se submeter às eleições. Uma hora o povo pode querer, noutra o povo pode não querer. O Uribe está querendo o 3º mandato. Tem de passar por um referendo. Ele pode querer, e o povo pode elegê-lo ou pode não elegê-lo. Eu não vejo nisso nenhum mal. O que acho importante é que todo resultado seja um exercício da democracia"
Não fez sentido, pois as situações são semelhantes. Por que Lula estaria brincando com a democracia se buscasse o 3º mandato e o Chávez e o Uribe, não?

Ele continuou enrolando-se ao tentar defender ambos da má repercussão no exterior de seus projetos continuístas:
"É muito engraçado que as críticas que fazem aos presidentes da América Latina não são feitas aos primeiro-ministros da Europa, que ficam 16 anos ou 18 anos no poder. Lá, a pessoa é indicada por um colégio e é democrático. Aqui, a pessoa é eleita pelo povo, e não é democrático. É preciso que a gente tenha um pouco de auto-estima para valorizar a democracia".
A comparação com o parlamentarismo foi das mais infelizes, pois o primeiro-ministro governa como representante de partido(s) e pode ser derrubado a qualquer instante por um voto de desconfiança.

Já o poder de um presidente da República sul-americano é bem maior e ele o conquista/mantém muito mais em função do carisma pessoal que da sustentação partidária. No fundo, só precisa da legenda para ter o direito de disputar a eleição e ganhar acesso ao horário eleitoral gratuito.

Uma vez eleito, adquire, com as moedas do poder, todo o apoio de que necessitar. Foi como agiu, p. ex., Fernando Collor, que se lançou pelo nanico PRN e depois cooptou os partidos maiores, iniciando seu governo com ampla maioria no Congresso Nacional.

Finalmente, entregando os pontos, Lula desistiu das elocubrações e disse o que, na linguagem das ruas, poderia ser traduzido para "cada um sabe o que é melhor para si". É bem o que se depreende da saída pela tangente com que encerrou o papo:
"Eu não posso falar pela Colômbia. Agora, sobre o Brasil, eu posso comentar. Eu acho que o Brasil não deve ter o 3º mandato. É isso."
Eu me permito acrescentar que sua posição, corretíssima para o cenário brasileiro, não pode ser retoricamente conciliada com as posturas antagônicas que Chávez e Uribe adotaram em suas respectivas nações.

Então, Lula ficou em apuros porque falou demais, direcionando-se, pelas próprias pernas, para um campo minado; desde o início, deveria ter abordado apenas o caso que lhe diz respeito, o brasileiro. É isso.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS

As forças armadas colombianas promovem matança “sistemática e generalizada” de civis, denuncia a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Navi Pillay.

O modus operandi é mandarem bala em civis por dá-lá-aquela-palha e depois apresentarem-nos como guerrilheiros mortos em combate.

Que falta de imaginação! Repetem até hoje as práticas que se generalizaram na ditadura brasileira durante a década de 1970.

O episódio mais emblemático, dentre os muitos e muitos ocorridos durante aqueles anos sinistros, foi o de uma execução de militantes capturados graças à colaboração do cabo Anselmo com a repressão. Motivo: a farsa foi montada de forma negligente e facilmente desmascarada depois, quando o Brasil saiu das trevas e voltou à civilização.

Eis como Élio Gaspari a relatou em A Ditadura Escancarada:
- A última operação de Anselmo, na primeira semana de janeiro de 1973, (...) resultou numa das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura. Um combinado de oficiais do GTE e do DOPS paulista matou, no Recife, seis quadros da VPR. Capturados em pelo menos quatro lugares diferentes, apareceram numa pobre chácara da periferia. Lá, segundo a versão oficial, deu-se um tiroteio (...). Os mortos da VPR teriam disparado dezoito tiros, sem acertar um só. Receberam 26, catorze na cabeça. (...) A advogada Mércia de Albuquerque Ferreira viu os cadáveres no necrotério. Estavam brutalmente desfigurados.

A Rota, tida nos anos de chumbo como unidade exterminadora da PM paulista, também era useira e vezeira em recorrer ao chamado falso positivo (relatar como resistência à prisão as execuções de pessoas indefesas).

Na Carta Aberta ao Governador José Serra por mim divulgada na semana passada, eu fiz uma referência a essa sistemática:
- O excelente livro Rota 66, do jornalista Caco Barcellos, documentou 4.200 casos de assassinatos cometidos pela Rota nas décadas de 1970 e 1980, tendo como vítimas, quase sempre, jovens pobres, pardos e negros (muitas vezes sem antecedentes criminais). Os inocentes atingidos por engano seriam em maior número do que os verdadeiros criminosos - cuja condição, claro, não eximia os policiais do dever de entregá-los à Justiça, ao invés de simplesmente abatê-los, como faziam.

Aparentemente, boa parte de nossa esquerda não está mais preocupada com as violações de direitos humanos cometidas contra os zés manes da vida, pois ignorou olimpicamente minhas cobranças ao Serra.

Também está se lixando para o fato de que a Rota mantenha até hoje no seu site elogios à própria atuação na derrubada do presidente constitucional do Brasil em 1964 e ao papel que desempenhou na repressão àqueles que, como eu, resistiam à tirania.

Nem mesmo confere a devida importância ao fato de que um ministro do Governo Lula faz elogios públicos ao arbítrio e a União se presta a defender carrascos como Brilhante Ustra.

Só o denuncia frouxamente e sem extrair a conclusão de que tal governo fez uma opção definitiva nos embates entre os defensores da justiça histórica e os que advogam a impunidade eterna das atrocidades perpetradas pela ditadura de 1964/85, alinhando-se com os segundos. Daí ser quase sempre omitido nesses textos anódinos o fato de que a maioria dos integrantes do Ministério de Lula respalda a posição de Nelson Jobim contra a de Tarso Genro...

Então, prevê-se uma enxurrada de artigos repercutindo as acusações (pertinentes e necessárias, ressalte-se) da ONU ao governo colombiano, com destaque muito maior do que o conferido à interpelação ao Brasil na OEA, por estar acobertando as práticas hediondas do passado.

Os dependentes das migalhas dos banquetes palacianos estão sempre prontos a satanizar o governo do colombiano Álvaro Uribe, mas nunca aplicam os mesmos critérios ao governo de Lula – embora ambos sejam, igualmente, fiéis seguidores da ortodoxia neoliberal e capachos contumazes dos EUA.
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