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terça-feira, 27 de agosto de 2024

A GIGANTESCA CRISE CAPITALISTA ESTÁ CADA DIA MAIS PRÓXIMA

Uma expectativa de tsunami na economia mundial faz com que qualquer notícia menos alvissareira vinda dos Estados Unidos, a maior economia do mundo, seja suficiente para provocar abalos sísmicos na especulação financeira sob a qual gira o capitalismo na sua fase de circulação gigantesca de valor sem lastro.  

A consequência do desacoplamento das moedas fiduciárias como representação de valor válido advindo da produção de mercadorias, e oriundo da emissão de moedas sem lastro, tem provocado a inflação mundial que se situou na faixa anual de 5,8%, em 2023, sendo que na União Europeia ficou em 6,3%, e nos Estados Unidos se situou em 4,1%.  

Há quem considere que tais níveis de inflação são elementos essenciais para a estabilidade monetária, mas já são índices preocupantes.  

Isto tem provocado a elevação das taxas de juros que fazem a alegria dos rentistas, mas acende a luz amarela de perigo porque o aumento do endividamento público, que sacrifica os países pobres com os juros extorsivos para fazer face à rolagem de suas dívidas, cada vez mais está se aproximando dos níveis de inadimplência dos juros, também chamados de serviços da dívida - nome educado para a agiotagem do sistema bancário internacional -, que deverá ser catastrófico para a economia mundial.  

Após a queda vertiginosa do PIB dos Estados Unidos, ocorrida durante a pandemia da Covid19 em 2020, que chegou a -2,2% ao ano, houve uma recuperação em 2021 para 5,8%, e 1,9% em 2022, e 2,5% em 2023, que corresponde a uma média de 2,0% nesses últimos quatro anos, considerada renitentemente baixa desde a crise do subprime de 2008/2009, vez que o crescimento médio do PIB de lá de 2008 a 2019, se situou em 1,78% ao ano.  

A dívida pública dos Estados Unidos, acima de 100% do seu PIB, subiu recentemente a mais de US$ 30 trilhões, e vem crescendo constantemente, fato que implicou no pagamento de juros num total de US$ 1 trilhão no período de 19 meses, representando 15,9% do orçamento federal para o ano fiscal de 2022. Segundo o FMI, a continuar nessa pisada, a dívida pública nos Estados Unidos deve atingir 133,9% do seu PIB em 2029, acima dos 122,1% de 2023, o que significa existência de um endividamento constante e explosivo.                  

Os dados oficiais ora analisados, de inconteste veracidade, demonstram que há um freio de mão puxado na locomotiva da economia mundial, os Estados unidos, mesmo sendo detentor e emissor do dólar, divisa internacional que serve de referência como equivalente geral válido, e que assim é respeitado. 

Ora, se a locomotiva da economia mundial e detentora do seu maior PIB apresenta dados que demonstram fragilidade, o que se dizer dos vagões que são por ela puxados e que pagam taxas de juros bem mais elevadas sobre suas dívidas?! 

É graças a isso que na segunda-feira, 05/08, bastou a apresentação de dados negativos de empregabilidade e redução de crescimento para o último trimestre nos Estado Unidos, para desabarem as bolsas de valores do mundo inteiro, que embora recuperadas do susto nos dias seguintes, bem demonstram a instabilidade do sistema financeiro internacional cujo prenúncio é de cataclisma.    

O que está na base dessa instabilidade é a consciência que os agentes financeiros têm de que já não se produz um volume de valor válido necessário para a irrigação saudável do fluxo monetário, bem como de volume de lucros advindos de extração de mais-valia na produção de mercadorias - setores primário e secundário - e que tal fato tem data aprazada de possibilidade de sustentação de todo o sistema financeiro, que se vê ameaçado de colapso. 

Esses tempos especulativos financeiros provocou a prática do carry trade por grandes especuladores privados internacionais e que consiste em se contrair empréstimos a juros mais baratos para aplicar o dinheiro obtido em taxas mais altas, obtendo-se lucros em tais operações.  

Tal prática bem demonstra que a questão das taxas de juros na economia globalizada, na qual se transferem valores eletronicamente em segundos, é o que tem gerado lucros financeiros meramente especulativos que em algum momento vão se esfumar nas labaredas do incêndio anunciado, transformando o dinheiro sem valor em congelamentos bancários e/ou moeda podre sem poder de compra.  

As criptomoedas, hoje tão em voga, são também uma demonstração da prática de especulação financeira visando a obtenção de lucros com dinheiro gerando dinheiro fora da produção de mercadorias por mecanismo de oferta e procura limitada de fundos de várias moedas fora do sistema bancário e fora controle fiscal do estado, que num dado momento irão ruir pelo mesmo fator de inconsistência de valor das moedas fiduciárias que compõem tais fundos monetários.   

Quando se olha para a economia chinesa, que os desavisados consideram como um fenômeno de sucesso no mundo capitalista, e se vê o crescimento de sua dívida pública crescente, que o FMI prevê que em 2029 chegue a 110,1% do seu PIB provocando uma obrigação de juros de 3% ao ano em média, e num país que está enfrentando quedas anuais de crescimento do PIB - cerca de 4,7% em base anual de 2024 -, pode-se antever o tamanho da encrenca para os anos vindouros. 

A China já enfrenta sérios problemas de inadimplência da dívida pública de governos de várias cidades e uma crise no setor imobiliário provocada pela incapacidade de aquisição de unidades construídas ou mesmo de inadimplência das dívidas existentes de aquisições anteriores.  

Não é diferente o quadro financeiro na União Europeia, que aglutina as locomotivas da economia mundial no velho continente. Em que pese a queda da inflação ocorrida em 2023 e 2024 em torno de 3% ao ano, as taxas de inflação dos anos anteriores foram extremamente altas - em torno de 10% ao ano -, fato que denuncia a instabilidade econômica havida nos 27 países que compõem a comunidade do euro.   

As altas taxas de desemprego e a dívida pública em torno de 83,7% do PIB da União Europeia calculado em US$ 19,8 trilhões, sobre a qual incide juros de 3,7% ao ano, indica que estes últimos se equivalem ao crescimento do PIB antes referido, de onde se pode concluir que há prenúncio de estagnação ao invés de crescimento da economia como um todo.  

Os dados ora indicados, das maiores economias do mundo, e que significam cerca de 75% do PIB mundial, com dívidas públicas superiores aos respectivos PIBs, dá bem a dimensão de como vive o restante dos países da periferia capitalista, obrigados ao pagamento de taxas de juros elevadas e com Produtos Internos muito inferiores àqueles existentes nos países ditos ricos, além de altas taxas de desemprego e inflação. 

Segundo o FMI, a dívida pública mundial está em torno de US$ 91 trilhões e a dívida pública se situa em 92% do PIB mundial, ou seja, o que o mundo produz de riqueza abstrata, valor, em um ano, não é suficiente para pagá-la, mesmo que fosse possível, e não é, obviamente, que todos os recursos fossem apenas destinados para tal fim. É graças a isto que nos aproximamos do momento em que nem os juros da dívida serão possíveis de serem saldados, e todo o sistema financeiro ruirá inapelavelmente.  

A razão pela qual os Estados não conseguem refrear o crescimento de suas dívidas públicas deriva de uma realidade inafastável: se não se endividam, deixam de pagar as suas contas e de cumprir a função fundamental de fornecer infraestrutura para o desenvolvimento econômico pífio já existente; e se se endividam apenas adiam a hora da verdade, quando anunciarão aos rentistas o congelamento dos seus ativos.  

É que na economia mundial já não se produz valor no volume necessário numa economia interligada e dependente desse mesmo valor para continuar existindo.    

A constatação é de que, além do quadro de dificuldades que se avolumam nos países detentores da hegemonia capitalista, conforme demonstramos, a pobreza mundial reproduz a concentração de riqueza abstrata produzida pelo capitalismo levando miséria à maioria da humanidade. 

O mais grave é que com a depressão econômica mundial renitente, o quadro de dificuldades vem causando e se agravando com a eclosão de guerras, levantes populares e crises ecológicas provocadas pelo aquecimento global que se traduz em fenômenos atmosféricos e terrestres da natureza cada vez mais intensos.   

Há que se conjecturar, urgentemente, novos parâmetros de socialização fora dos critérios estabelecidos por uma lógica de relação social capitalista que tem se mostrado incapaz de usar os avançados conhecimentos da ciência em favor do bem-estar coletivo.  (por Dalton Rosado)  

sábado, 20 de abril de 2024

CONSERVADORISMO NA ERA DIGITAL

 Eu tinha quase 14 anos quando o golpe, cinicamente apelidado de  a redentora pelos golpistas, foi deflagrada em 01 de abril de 1964, quando as tropas do General Olímpio Mourão Filho desceram de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro num desfile de soldados e veículos diante de uma população indiferente àquilo que mais parecia um treinamento militar do que uma insurreição golpista.  

Havia no Brasil de 1964 uma insatisfação popular gerada pelo alto índice de inflação de 1963, que alcançou o patamar de 83,2% ao ano e pela queda no crescimento econômico, que saiu de 6,6% em 1962 para 0,6% em 1963. 

O plano trienal do ministro Celso Furtado não deu os resultados esperados e o governo João Goulart impôs medidas de contenção de despesas e restrição de crédito que provocaram insatisfações inevitáveis. O povo brasileiro - e é assim no mundo inteiro onde há eleições - vota nos governantes pelo bolso.   

Com as más notícias da economia, gerou-se uma insatisfação popular insustentável diante de um quadro de contradições  governamentais geradas pelo fato de que João Goulart, um populista político, misto de latifundiário rural dos pampas e trabalhista nacionalista, guardava a identidade política do governo getulista de quem fora ministro do Trabalho, mas sem jamais ser um comunista como queriam os membros do Partido Comunista Brasileiro e como temia o establishment naqueles tempos de  guerra fria e de revolução cubana. 

Os militares, que ambicionavam a volta de influência política no poder desde o general Eurico Gaspar Dutra, e que haviam se frustrado com o suicídio de Getúlio Vargas, responsável por abortar o golpe já consolidado naquele 24 de agosto de 1954, viram em 1964 as condições ideais para a tomada do poder. 

Os Estados Unidos, temerosos do alastramento do exemplo revolucionário cubano, vinham programando uma contenção do poder político pela força militar na América do Sul, fato que se comprovou posteriormente na Argentina e Chile, emprestou apoio político e militar preventivo para o golpe de 1964, estacionando grande poderio bélico e tropas de prontidão desde o Caribe até a costa brasileira, caso fosse necessário, na chamada operação Brother Sam. 

Não foi necessário: o golpe militar de 1964 teve apoio considerável da população brasileira sob o comando conservador da elite política, econômica, cultural e religiosa brasileira e a esquerda brasileira, sempre confiante em governos populistas dito de esquerda, de uma hora para outra percebeu que estava quase sozinha na defesa das bandeiras reformistas e capitulou sem resistência.  

Assim, seus membros sofreram o diabo nas mãos dos militares, que voltaram as costas até mesmo para seus apoiadores de primeira hora como Carlos Lacerda e Juscelino Kubitscheck, crédulos na restauração das eleições civis em 1965, e que sofreram posteriormente a cassação dos direitos políticos, providências que se tornaram extensivas a muitos outros políticos incautos. 

Mas a dinâmica da dialética do movimento social terminou por demonstrar à população brasileira no início dos anos 80 do século passado, a insustentabilidade dos métodos e posturas dogmáticas capitalistas dos militares e seus governos caíram de podre.  

Mas como a memória coletiva é curta, há quem defenda a volta desses ao poder político, orientados por uma cegueira elitista que não consegue enxergar um palmo diante do nariz e quer a volta ao passado, como se fosse possível restaurar o uso da máquina de escrever em substituição ao computador da era digital.         

Não nos iludamos! As mudanças de conceitos e costumes aculturados nas mentes populares, mesmo que perversos e contrários aos interesses da maioria, são difíceis de serem superados num estalar de dedos, até porque é sempre mais fácil a acomodação de sobrevivência com o que se conhece, mesmo que ruim, do que com o desconhecido, ainda que possa ser aparentemente promissor.    

Mas, hoje, a conjuntura é outra, ainda que o conservadorismo esteja nas mentes inseguras e desinformadas dos oprimidos, a grande maioria, o fato é que o capitalismo apodrece.  

Vivemos a era na qual a contradição entre forma e conteúdo do capitalismo está de tal forma inviabilizando a vida social que a própria intelectualidade elitista revisa os seus conceitos e estabelece uma divisão profundamente polarizada de posturas entre conservadorismo e progressismo político.  

Não é a miséria que se aprofunda aquilo que é capaz de promover a superação das categorias capitalistas, porque se assim fosse, a África seria o paraíso na terra, mas é o pensamento e a ação orientadora de conceitos feita a partir de uma juventude engajada num processo de ruptura e orientada por uma filosofia da práxis emancipatória, aquilo que será capaz de promover o início da emancipação humana.  

Lula foi eleito pela lembrança de seus dois governos anteriores que fora bafejado pela sorte de uma conjuntura internacional de elevação dos preços das comodities, que é o que o Brasil tinha e tem para vender. Dilma caiu por conta da explosão de insatisfação de 2013. Os dois fenômenos são iguais no conteúdo mais profundo e incidem sobre um mesmo partido político e ordem capitalista decadente.   

Mas hoje a situação é outra, pois vivemos sob um processo de depressão capitalista mundial que vem se acentuando desde a crise do sub prime de 2008/2009, sem que os mecanismos de contenção, como aqueles usados na grande depressão de 1929/1930, sejam possíveis de aplicação.  

O responsável pela crise profunda e irreversível do capitalismo é a era da cibernética e sua terceira revolução industrial.  

Somos atendidos na entrada de um shopping por uma voz mecânica e uma máquina que nos entrega o cartão do estacionamento; pagamos a estadia numa máquina e saímos ouvindo o som agradecido de uma voz que nos convida a uma volta breve; 

- ouvem-se músicas gratuitamente numa plataforma de streaming sem que precisemos comprar um CD, o que significa que as gravadoras detentoras da propriedade musical estão falindo, e os músicos só trabalham em estúdios de gravações, sendo que os DJs estão substituindo os cantores e bandas; 

- os operários das indústrias automobilistas foram substituídos por robôs e os sindicatos metalúrgicos mendigam empregos e perdem força de barganha por aumento de salários, mesmo diante de uma inflação que ameaça a deterioração do poder aquisitivo;  

   - os donos de postos de gasolina e todo o sistema de transporte e abastecimento de gasolina e óleo estão diminuindo celeremente diante do uso dos carros elétricos e isso causa falências e uma enormidade de desempregos; 

- a comunicação digital substituiu os jornais, os livros, os panfletos, e todos os meios de comunicação impressa, e isso levou ao fechamento de jornais, editoras e livrarias; 

- as lojas estão fechando e a cena urbana é de decadência por conta dos espaços vazios que viraram estacionamentos sem veículos, porque tudo se compra virtualmente, causando o desemprego de vendedores, redução dos lucros e falência dos lojistas, com o abandono dos prédios respectivos; 

- cursos superiores à distância são ministrados de forma online, o chamado EAD; 

- fala-se, hoje, com a Islândia, no extremo norte, com a mesma rapidez e nitidez com que se fala com o vizinho de residência; 

- os advogados e juízes não mais comparecem aos fóruns, porque toda a comunicação é virtual e sem uso de papel, que está reduzindo o lucro das empresas de celuloses; 

- médicos fazem cirurgias à distância com o uso de robôs; 

- engenheiros fazem cálculos complexos em segundos no computador; 

- pagamentos e movimentações de contas bancárias se operam por aplicativos em segundos; 

- obtém-se instantaneamente informações pelo celular ou computador que antes era necessário se comparecer a uma biblioteca para obter as informações desejadas;  

- arquivos de dados e informações sobre qualquer assunto são armazenados e analisados a um toque de computador ou de celular;   

 - receitas de comidas, diagnósticos de doenças, e até formulas químicas e qualquer instrução sobre a fabricação de artefatos diversos são possíveis de serem obtidos instantaneamente pela internet; 

- sabe-se mais sobre o curriculum das pessoas e seus dados pessoais do que eles mesmas podem perceber;  

- a tal da inteligência artificial é capaz de produzir imagens de locais e acontecimentos como se fossem verdadeiras(os) e reproduzir gestos e vozes de uma pessoa com a mesma fidelidade como se fosse ela mesma a fazê-lo... 

Ufa! Os exemplos seriam intermináveis e isso tudo era antes, e há bem pouco tempo, simplesmente inimaginável. 

As relações sociais sofreram substanciais mudanças de comportamento em face das alterações de produção de mercadorias e serviços que estão a exigir uma reflexão sobre a contradição entre as formas antigas e seus conteúdos diante de mudanças drásticas que alteraram a substância dessas duas questões e seus conteúdos. 

Querer que o sapato caiba no pé independentemente do tamanho de um e do outro é inviável; precisamos, portanto, de uma adequação do sistema de produção e distribuição de bens e serviços à realidade que a dinâmica da aquisição do saber colocou a nosso favor, e não contra nós, como agora acontece.  

O saber é revolucionário e colocou em xeque a ilogia capitalista. 

Como se pode, portanto, admitir, que o conservadorismo recalcitrante e obsoleto possa querer continuar usando métodos antigos para a solução de problemas novos?! (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 18 de março de 2024

COM A POMPA E CIRCUNSTÂNCIA DE QUEM DESCOBRIU A PÓLVORA, SAFATLE REPETE O QUE JÁ SABÍAMOS E NÃO APONTA FUTURO

O filósofo Vladimir Safatle é bem intencionado e consegue dissecar corretamente o passado, nem tanto o presente  e às vezes tropeça nas elucubrações sobre o futuro.

Eu, que como jornalista sempre me esforcei para tornar acessível ao leitor comum o blablablá empolado e pretensioso que é marca registrada da corporação acadêmica, não canso de me surpreender quando tantos se prostram a obviedades embaladas em papel para presente chique, como as que constam do artigo (aqui reproduzido) que o Safatle escreveu para a Ilustríssima da Folha de S. Paulo, em resposta  aos que criticaram seu último livro.

Para não perdermos tempo, antecipo que concordo com as análises abaixo, que eu mesmo já fazia há bom tempo, só que expondo-as em linguagem mais simples:
— a crise do subprime, em 2008, revelou que o capitalismo se aproxima inexoravelmente do fim e perdeu a capacidade de tornar a existência minimamente aceitável para contingentes humanos cada vez maiores (comparação minha: a época atual lembra muito a iminência da queda do Império Romano, pois há um número cada vez maior de bárbaros cercando-nos e as fronteiras dia a dia se tornam mais inseguras);
— face a isto, a ilusão reformista de que o capitalismo ainda se domesticaria ruiu por terra, o centro político sucumbe aos extremismos e as massas desesperadas despejam sua fúria sobre quem representa o stablishment;
— então, a esquerda institucional, que ora se apoia no centro para resistir às investidas da extrema-direita realmente morreu e só falta enterrar, pois, para obter vitórias momentâneas, sacrifica o desfecho da guerra, associando-se sua imagem àquilo que as massas mais desprezam (as fotos do Lula, pequenino e cheio de si, abraçando o imponente Artur Lira, quase me fazem vomitar!).
Quais as conclusões que podemos derivar de tais constatações?

A primeira é que Hebert Marcuse estava certíssimo no longínquo ano de 1964, quando em seu Ideologia da Sociedade Industrial previu que o consumismo e a lavagem cerebral da indústria cultural dariam um golpe de morte na esperança de irmos conscientizando aos poucos as massas para a revolução. 

Isto só funciona para quem ainda não foi mesmerizado e engolido pelo sistema. Sessenta anos depois fica claro que nos tornamos minoritários e é a partir daí que precisamos buscar formas de sobrevivermos politicamente, pois verdadeiros revolucionários não se deitam e esperam a morte chegar, lutam até o fim.

[Provavelmente isto não mudaria de forma decisiva o rumo dos acontecimentos, mas a obsessão do Lula em esvaziar a esquerda combativa e apostar todas as fichas petistas na conquista do poder ilusório conferido pelas urnas, desmobilizando a militância no vácuo entre uma eleição e outra, foi o principal erro de uma carreira repleta deles até a borda.]

E eis que, quando finalmente estamos prestes a nos ver livres do arquivilão Bolsonaro, percebemos que o golpe de misericórdia nessa direita que quer restabelecer, piorado, o capitalismo selvagem, continuará longe de ter sido dado. 

Alguém logo sucederá o palhaço assassino e, provavelmente não sendo maluco nem amarelão como o antecessor, deverá cumprir seu papel sem tanto estardalhaço mas com eficácia bem maior. 

Por que este pessimismo? Porque, desde o último ano em que a evolução do PIB brasileiro foi compatível com as necessidades de nosso país (2010, com 7,53%), enfileiramos desempenhos entre razoáveis e sofríveis, então o crescimento de 2,9% em 2023 ficou muito longe de representar o desafogo que a propaganda petista tenta nos impingir. Estávamos afundando com água até o queixo e agora o nível desceu para o pescoço. É motivo para espocarmos champanhe? 

Isto depois da saída de um presidente mentecapto sob quem os investidores não tinham a mais remota segurança para seus negócios e a posse do presidente conservador cuja afirmação mais emblemática sobre política econômica foi a de que os banqueiros nunca lucraram tanto quanto no seu governo. 

No início de 2023, eu previa um PIB de pelo menos 6%; não chegou nem à metade. Então, é compreensível o atual desencanto com o Lula3 e permanece a tendência de a agroindústria consolidar-se como o polo dinâmico da economia brasileira, alavancando a escalada política direitista. 

Com Bolsonaro varrido definitivamente da cena política (sua pena de prisão tende a ser bem longa, tal o volume de provas e depoimentos acumulados contra ele como golpista, afora o segundo ato que ainda virá, quando for apurada sua responsabilidade no extermínio em massa de brasileiros durante a pandemia!), é bem capaz de a direita se civilizar, passando a exercer uma dominação sem tamanhas maluquices e estridências. Elas não serão mais necessárias.

No entanto, ainda que tocado com luvas de pelica, o projeto dessa gente para o Brasil continuará sendo o mesmo: impor-nos a superexploração, dando um fim às ilusões de conciliação de classes e revivendo o anticomunismo grosseiro dos tempos da guerra fria. [Alô, Malafaia, é contigo que estou falando!]

E é aqui que deixo de estar em sintonia com o Safatle, pois o que ele propõe como resposta da esquerda aos desafios atuais são:
— platitudes retóricas de quem não tem um caminho das pedras para indicar ("Nossa tarefa seria criar o que ainda não existe, usando nossa imaginação política para identificar experiências onde elas estão e trazê-las para a constituição de um modelo");
— ou que equivalem ao uso de estilingues para matar elefantes ("construção de processos de democracia direta, dinâmicas de autogestão e ocupação de fábricas, lutas contra modelos extrativistas", etc.).

Ocorre que, como o próprio Safatle afirma, "nunca as crises do capitalismo se demonstraram tão claramente imbrincadas num sistema de crises conexas: crise ecológica, política, social, econômica, demográfica, psíquica e epistêmica".

É exatamente a simultaneidade entre tais crises e a perspectiva de que, pela via da sinergia, elas se alimentem e alavanquem mutuamente, que torna a situação atual mais ameaçadora do que qualquer outra que a humanidade já enfrentou. 

Para ficarmos apenas no que já morde nossos calcanhares:
— tudo indica que uma depressão econômica muito pior que a Grande Depressão do século passado se aproxima a passos largos;
— todas as previsões dos expertos sobre o avanço do aquecimento global e das alterações climáticas têm sido ultrapassadas; e
— abominações como Donald Trump e Vladimir Putin revivem nossos piores temores de guerras nucleares capazes de dizimar a espécie humana. 

Já pensaram no que acontecerá com a humanidade enfrentando ameaças tão terríveis ao mesmo tempo?

Concluindo: desde meados do século passado, quando caiu para a esquerda a ficha de que o proletariado industrial não será, de jeito nenhum, o sujeito de uma revolução nos moldes marxistas, várias tentativas de manter em pé as convicções antigas foram tentadas, em vão.

Primeiro foi afirmarem que a aristocracia operária realmente se deixara cooptar pelo capitalismo, mas o peão de fábrica continuava empunhando a bandeira vermelha. Mas, cadê o peão de fábrica que estava aqui? A tecnologia poupadora de mão-de-obra comeu.

Depois, houve quem proclamasse que o papel outrora atribuído aos operários industriais seria cumprido pelos assalariados de forma geral. Sem chance: são dispersos, não têm os mesmos interesses comuns e muitos deles já caíram na arapuca de se tornarem pessoas jurídicas e/ou tentam decolar sozinhos pela via do empreendedorismo, vendo os iguais como competidores a serem superados na luta inglória por um lugar ao sol .     

Marcuse sonhou com os marginalizados pelo sistema e os que dele se apartavam por escolha própria personificando, unidos, a esperança que restava. Mas, o exército da contracultura só durou até os EUA retirarem seus cowboys do Sudeste asiático e países próximos.

O saudoso Jacob Gorender colocava suas fichas no pessoal das ONGs, que, entretanto, nunca foi o titã Atlas, que tinha força para carregar o céu nas costas. E por aí vai.
Então, é por não sabermos com quem poderemos contar para comandar a revolução necessária que não conseguimos sequer definir uma estratégia viável para recuperarmos o terreno perdido nas últimas décadas.

E não nos ajuda o estado de espírito das massas, que, embrutecidas, querem mais é catarse, não soluções. Então, as fanfarronices desastrosas da extrema-direita lhes servem de compensação por terem sido conduzidos à insignificância e à impotência, sem sequer saberem identificar os verdadeiros inimigos e sem ânimo nem ousadia para reagir contra eles. 

E, como nosso compromisso é conduzirmos a humanidade a um estágio superior de civilização, não a fazermos regredir à Idade das Trevas, não podemos disputar espaço com os bufões ultradireitistas em tal palco dantesco. Dai aos bárbaros o que é dos bárbaros...  

Os que tentamos reconstruir a verdadeira esquerda nos deparamos com o que dela resta: voltou a um estágio tão embrionário que os voos mais altos são impensáveis em curto e médio prazos. Mas, algo ainda podemos definir, sim:
— temos de acumular forças com todo tipo de atividades que possamos desenvolver na contramão do sistema sem, contudo, partirmos desde já para os confrontos decisivos, pois 
não os conseguiremos vencer (o que não implica, contudo, deixarmos de responder às ações inimigas com reações de igual contundência, pois se apanharmos quietos, jamais inflamaremos as novas gerações, deixando-as entregues à insanidade dos motoqueiros fantasmas da ultradireita);
— precisamos formar militantes capazes de aproveitar as janelas revolucionárias que tendem a existir cada vez mais nestes estertores do capitalismo. Pequenos contingentes combativos, disciplinados e cientes do que estão fazendo, podem ter peso decisivo em situações caóticas como as que virão doravante. Quem não é o maior, precisa tornar-se o melhor.

Encerro com um tema para reflexão: podemos dizer que a extrema-direita é revolucionária, se ela apenas conquista o poder para dele ser logo desalojada (já que tudo que propõe é insustentável e desperta imensa rejeição quando colocado em prática, de forma que ela acaba servindo apenas para reforçar a dominação burguesa em determinadas circunstâncias, não para substitui-la)?

No sentido marxista, não! Para o velho barbudo, uma revolução ocorria quando se dava uma ruptura com a velha ordem política, social e econômica, sendo, no seu lugar, estabelecidos novos padrões de relações sociais.

Mas, a ultradireita do século 21 nada estabelece de duradouro, apenas destrói um estágio menos execrável da dominação burguesa, abrindo caminho para outro, de desumanidade extremada. De hora em hora, o capitalismo praticado no Brasil e no mundo piora. 

Atribuir dignidade revolucionária aos badernaços histriônicos dos Trumps e Bolsonaros, que têm mais a ver com entropia e niilismo, parece-me só uma provocação  de mau gosto.
(por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 15 de março de 2023

OS RUÍDOS DO SISTEMA FINANCEIRO GLOBAL

 


A falência do Silicon Valley Bank, um banco de porte médio dos Estados Unidos - 16º em valores em circulação entre os bancos do país, num total de US$ 209 bilhões de ativos -, que operava numa região onde predominam setores econômicos denominados startups área de tecnologia, antes de ser uma catástrofe como a crise do subprime de 2008/2009 é um indicativo de sintomas de debilidade da relação financeira da chamada economia real - produção  de mercadorias- e sistema financeiro, exposta sob a forma de inflação e altas taxas de juros.  

Inflação alta é sintoma de existência de circulação de dinheiro sem valor, ou seja, é a certidão passada pelos indicadores econômicos de que o sistema produtor de mercadorias não foi capaz, por si só, de promover e autorizar a emissão de valor válido, assim considerado quando advindo dessa produção.  

Os Estados Unidos, detentor da moeda de referência no mercado internacional desde o tratado de 1944, assinado em Bretton Woods, New Hampshire, USA, e que desde 1971 se tornou meramente fiduciária -baseada na credibilidade, sem lastro ouro-, representando hoje cerca de 60% de todas as reservas cambiais dos Bancos Centrais mundo afora, o que dá a dimensão econômico-financeira deste fato. 

Entretanto, o dólar não possui lastro que justifique tal credibilidade! 

Como viemos dizendo repetidamente, de há muito os Estados Unidos, mesmo sendo o detentor do maior PIB nominal do mundo capitalista, está longe de ter uma relação saudável entre o valor substancial de sua moeda e os números que ela representa para a economia mundial.  

A alta taxa de inflação dos Estados Unidos provocou uma alta dos juros pelo Federal Reserve - o Banco Central de lá - como forma de contê-la, mas como tudo em economia tem efeito colateral, eis que o Silicon Valley Bank (SVB), que mantinha cerca de 10% dos seus ativos com baixa taxa de remuneração anual - 1,79% quando o Tesouro dos Estados Unidos paga 3,9% -, se viu obrigado a vender títulos com prejuízos, por conta, também, e principalmente, da fuga de ativos deste banco pelas startups em resgate na busca de melhor remuneração de seus ativos.  

Tudo somado, as ações da SVB despencaram na bolsa, houve uma corrida de saques - que é o que vai acontecer futuramente em escala global- e os reguladores estadunidenses da Califórnia decretaram a intervenção e liquidação extrajudicial deste banco, provocando um estresse mundial por medo de que se repetisse a crise de 2008/2009.  

A crise do SVB, como dissemos, não tem a mesma dimensão da anterior, de 2008/2009, e foi possível de ser socorrida pelo sistema de seguros bancários dos Estados Unidos - FDIC  (Federal Deposit Insurance Corporation) -, mas tem a capacidade de denunciar que o mundo capitalista não sobrevive eternamente por meio de aparelhos artificiais como tem operado na questão da emissão de moedas sem lastro pelos BCs dos Estados Unidos e da União Europeia, mesmo exportando as ditas moedas  mundialmente, pois isto mais cedo ou mais tarde provoca inflação. 

 Inflação é a febre denunciadora da infecção no organismo capitalista econômico-financeiro de quem emite tais moedas, pois elas não passam de números - hoje nem são mais papel pintado impresso nas gráficas  dos BCs - lançados abstratamente como representação do valor sem qualquer correspondência.  

A crise do subprime, considerada como mera marolinha por Lula quando ainda era Presidente em seu segundo mandato, é a causa da inflação atual que corrói os salários dos trabalhadores no Brasil e no mundo passados apenas 15 anos deste evento que sacudiu a economia global.  

Se fosse possível se conviver com a emissão de moeda sem lastro e sem qualquer problema colateral, o capitalismo estava salvo e os governos todos seriam adorados pelo povo, pois bastava uma ordem ao Banco Central para que o povo fosse abastecido de dinheiro capaz de satisfazer todas as necessidades de consumo.  

É obvio não ser assim o funcionamento  do mundo da forma-valor, criada para promover a escravização indireta pelo trabalho abstrato assalariado produtor de valor que hoje escasseia em face da alta tecnologia aplicada à produção de mercadorias, matando a galinha dos ovos de ouro: o mesmo trabalho assalariado que Lula diz defender como cabeça de ponte da salvação trabalhista do capital e de todos.  

Do mesmo modo que a corrida de saques bancários pelos correntistas do SVB provocou a falência desta instituição bancária, imagine você o que acontecerá no dia em que  os países descobrirem serem suas reservas cambiais em dólares estadunidenses apenas números sem nenhum valor e sem nenhum poder de compra????   

Neste momento não haverá seguro bancário que dê suporte à constatação de ter o valor deixado de possuir força de compra, ou seja, que simplesmente deixou de valer, e o mundo terá de conviver com uma produção de bens e serviços  já não mais destinados aos mercados, como mercadorias, mas como simples e eficazes valores materiais aptos a satisfazerem necessidades de consumo.  

Neste dia poderemos ter a compreensão pragmática de que o valor dos objetos de consumo é material e não abstrato como hoje é estabelecido mediante as mercadorias, passando a dominar o valor de uso e não o famigerado valor de troca. 

Uma vaca vai valer pela sua capacidade de fornecer leite e carne - que me perdoem os veganos; uma galinha de pôr ovos; um pé de soja de alimentar gente e animais que alimentarão gente; um pé de milho, o de nos dar o milho para um gostoso cuscuz de mãe em Teresina, PI; e uma arvore frutífera de ser preservada por produzir frutas! 

Pari passu a uma ordem jurídica emancipada, atingiremos outro estágio da existência humana! (por Dalton Rosado) 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

DALTON ROSADO ANALISA A PRIMEIRA ENTREVISTA DE LULA À GLOBONEWS-2

 

Algumas considerações da entrevista de Lula-2

(continuação deste post) 
L
ula sobre as perspectivas de retomada do desenvolvimento econômico como vara de condão para a solução de todos os males do capitalismo  

 "o que nós precisamos neste instante é o seguinte: a economia brasileira precisa voltar a crescer e nós precisamos fazer mais política social...

... eu fico irritado às vezes quando se discute muito, qualquer problema se discute estabilidade fiscal, estabilidade fiscal. Ninguém, Natuza, ninguém foi mais responsável do ponto de vista fiscal do que eu...

... o que nós fizemos nesse país? Nós entramos, estabelecemos a meta de inflação de 4,5% e cumprimos. Nós geramos em oito anos quase 14 milhões de empregos. Depois. Com o mandato da Dilma, foram 22 milhões. Nós reduzimos a dívida de 60,5% para 37,7%, e nós fizemos uma reserva que o Brasil nunca tinha tido de 370 bilhões de dólares...

... elas são antagônicas (responsabilidade social e fiscal, pergunta levantada pela entrevistadora) por causa da ganância, sabe, das pessoas mais ricas, ou seja, as pessoas não querem. O empresário não ganha muito dinheiro porque ele trabalhou; ele ganha muito dinheiro porque os trabalhadores dele trabalharam. O que nós queremos é que haja a contrapartida no social... " 

    Lula, como qualquer político burguês, crê na pujança eterna do capitalismo, deseja nos fazer crer que a retomada do desenvolvimento econômico deve ocorrer sob seu governo. 

   Quer que o trabalhador continue sendo trabalhador e que seja representado por seu partido e sindicato, ou seja, continue sendo explorado, mas de modo mais humanizado, vez que vive da defesa dos seus interesses de classe e não da sua superação enquanto categoria capitalista primária. 

   Esquece ter sido sob o governo Dilma Rousseff quando começaram a surgir os efeitos deletérios no Brasil daquilo que ele afirmava ser apenas uma marolinha: a grave crise imobiliária dos Estados Unidos, a qual fora socorrida com dinheiro sem valor dos Bancos Centrais de lá e da União Europeia, sob pena de colapso, já ali, de todo o sistema financeiro internacional.

  A crise, provocada pela incapacidade da reprodução de modo sustentável do valor, impactando na reprodução de mercadorias, vem sendo sentida até hoje em seus efeitos, agravados pela pandemia de Covid 19.

  Sob Dilma e o PT explodiu a insatisfação popular em 2013, quando um simples protesto contra um aumento de passagens resultou num processo de aglutinação popular violentamente reprimido pela polícia. 

   Só a duras penas, a então presidente  conseguiu a reeleição contra o então candidato Aécio Neves para logo depois sofrer o impeachment em maio de 2016 com forte adesão popular, embora manipulada pela direita brasileira, que sempre foi negativamente expressiva e influente na política e na economia.

   Lula fala dos números do seu governo como se o PT, sob sua orientação, desde sempre não tivesse nenhuma responsabilidade na crise então instalada, ocasionada pela depressão capitalista dos últimos dez anos, como resultado do tsunami que vem se abatendo sobre o mundo.

   Lula avaliou mal a crise instalada desde 2008/2009 e o Brasil, como periferia econômica de pouca expressão em  relação aos países com hegemonia econômica - hegemonia expressa pela moeda forte aceita mundialmente, altos valores de seus PIB e endividamentos estratosféricos, acima dos PIB anuais, mas com juros baixíssimos ou até negativos - sofre mais intensamente as consequências desta conjuntura. 

   Analisemos, pois, os números destes dez últimos anos no Brasil (2013 a 2022), sob os governos de Dilma Rousseff, Michel Temer, e Jair Bolsonaro.  

Dilma Rousseff           2013  –     2014  –  2015    

PIB .................         3,0% -     0,5%  -   3,5%   = média de 2,33%

Inflação............         5,09 -     6,4%  - 10,67%  = média de 7,37% 

Desemprego  ....          7,1% -     4,8%  -   8,7%   =  média de 6,86%


Michel Temer             2016  -     2017  -  2018

PIB ................          3,0%  -      1,3%  -    1,3%  = média de     1,8%

Inflação ..........         6,29% -     2,95%  -  3,75%  = média de    4,33% 

Desemprego ....         10,9%  -    12,7%   - 11,96%  = média de 11,96%


Jair Bolsonaro           2019   -   2020   -    2021 -   2022

PIB .............           1,1% -     -3,3% -     4,6%   -  2,6% = média      2,5%

Inflação ‘......          4,31% -     4,52% -    10.6%  - 5,79% = média    6,3%

Desemprego ..         11,9% -     13,5% -    13,2%  -  8,7% = média  11,82%


Como se vê, no Brasil dos últimos dez anos vêm se acelerando os processos de PIB anuais baixos com inflação e taxas de desempregos crescentes em governos dos mais variados perfis ideológicos, numa prova inconteste de que a economia capitalista está em um processo autodestrutivo de sua forma de mediação social, é aquilo que se apresenta para a ordem política ditatorialmente sem que esta última possa influir substancialmente na correção de rumos.

O capital, na era da terceira revolução industrial, pelo advento e introdução da microeletrônica no processo  de produção social, tornou o trabalho abstrato produtor de valor dispensável em maior proporção do que os novos nichos de trabalho criados, reduzindo a massa global de valor produzido -razão da emissão estatal de moeda sem valor, inflacionária - e agora atingiu o seu limite interno de expansão, representando o fim de um ciclo cruel, escravista e segregacionista havido desde o seu nascimento, com desenvolvimento aprimorado de sua vida, e que agora atinge o estágio de morte por um processo de autodestruição da própria forma, mas sem querer largar o osso!
Ou superamos o capital ou sucumbimos com ele: eis a questão! 
O governo Lula admite, claramente, na sua entrevista, poder provocar a retomada do desenvolvimento econômico sob tal quadro, como se a política fosse soberana em relação à economia e indutora de uma correção de rumos capaz de resolver todos os problemas decorrentes da contradição capitalista irracional e do seu fim irremediável. 

O governante, tal qual um surfista numa onda, apenas tenta se manter de pé, equilibrando-se para
chegar à praia, a qual simboliza para ele a governabilidade sob parâmetros previamente estabelecidos
que ele não pode alterar. Esta é a identidade mais definida do reformismo social-democrata, corrente
à qual pertence ao trabalhismo lulista.
Lula sempre teve a simpatia dos militares, desde o seu aparecimento na cena pública quando a ditadura, em sua fase final, sentiu faltar terra sob seus pés, pois apesar de sempre tutelaram politicamente a República deste país, com a economia fraquejando, foi melhor entregar provisoriamente o comando político aos civis, e precisando de alguém confiável pela esquerda, foi melhor ter alguém confiável ao sistema do que ter uma onda revolucionária de verdade.
Entretanto, a obsolescência do capitalismo e sua crise interna, endógena, representada pela
incapacidade de sua reprodução ao nível exigido pela economia burguesa em sua lógica contraditória;
e sua crise externa, exógena, provocada pelo aquecimento global impossível de ser contido sob a
égide irracional do capital, está a exigir uma reestruturação do modo social de produção superando
o valor, a forma mercadoria, o trabalho abstrato, os partidos burgueses, o trabalhador e seu partido,
o Estado vertical, o mercado, e demais categorias que se criaram por séculos no seu entorno como
estrutura de preservação e dominação social. 
Nada mais revelador do reformismo bem-intencionado, contraditório e ineficaz do que
a entrevista de Lula. (por Dalton Rosado) 


sexta-feira, 15 de julho de 2022

QUANDO É QUE PEGAREMOS O TOURO CAPITALISTA PELOS CHIFRES? – 3

(continuação deste post)
A pergunta que não quer calar: 1929 se repetirá? 
A
guerra, a queda mundial no crescimento do PIB e da inflação não são causas, mas sim consequências irremovíveis das contradições da lógica do capital, estando agora mais presentes do que nunca.

A Comissão Europeia, organismo integrante da ordem capitalista, portanto, de apoio ao capital e de insuspeita tendência crítica, afirma que os EUA encaminham-se para inflação de 7,3% neste ano de 2022 (a maior desde décadas) e a zona do euro, de 6%. O Brasil prevê uma inflação em torno de 12% . 

Como ensina qualquer manual simplório de economia, a inflação é consequência de uma circulação de moeda sem correspondência com a produção de mercadorias. Assim, como há mais dinheiro em circulação do que produção de mercadorias, a lei da oferta e da procura promove a alta dos preços das ditas cujas (não do seu valor intrínseco, daí a moeda perder credibilidade como sua representação). 

Os Bancos Centrais, em obediência à economia e suas regras ditatoriais (não há BCs politicamente autônomos, como se quer afirmar), emitem moedas sem lastro como forma de doar sangue artificial a um organismo anêmico para evitar sua falência antecipada. 

A inflação é uma febre que denuncia a infecção no organismo capitalista. Não se pode quebrar o termômetro como forma de encobri-la, porque os assalariados compram mercadorias e serviços com o dinheiro que ganham, o que torna explícitos e conhecidos os seus efeitos socialmente nefastos. 

Traduzindo: a inflação é o maior confisco de salários que pode existir, e se alia à extração de mais-valia e aos impostos estatais como categorias capitalistas promotoras da cruel segregação social que ora se acentua gravemente.
Já passamos perto de uma nova depressão mundial na
crise do subprime. E a coisa não melhorou desde 2008 

Tudo isso corresponde a um ciclo vicioso decadente:
— não se produz porque não se vende;
— não se vende porque não há capacidade de compra pela população;
— mas, como a máquina do capital precisa continuar viva, emite-se moeda sem lastro, que causa inflação;
— a inflação corrói o poder de compra, e por aí vai... 

Ou seja, o Produto Interno Bruto decai em consequência das contradições capitalistas em processo. 

A Comissão Europeia prevê uma redução do PIB mundial para 2022. O PIB mundial deverá situar-se em 2,9% para 2022, incapaz de recuperar as perdas havidas em 2020 (ano da intensificação da paralisia econômica provocada pela epidemia da covid-19). 

E, com inflação alta, tais números se tornam socialmente explosivos; e, principalmente, assombrosos para a periferia capitalista. 

A África, p. ex., corre grave risco de ser vítima de um processo de inanição causada pela fome. O Egito já dá sinais de tal tragédia humanitária.

Para se ter uma ideia da gravidade do problema, os Estados Unidos, que detém a maior economia nacional do mundo, registraram uma queda do PIB de 1,4% no 1º trimestre do presente ano e o 2º trimestre também não está sendo alentador para os capitalistas e rentistas em geral. As bolsas de valores caem, e as rendas de capital acompanham a mesma trajetória. 

Corroborando o que prevê a Comissão Europeia, a Organização Mundial do Comércio, organismo da ordem capitalista, afirma que teremos em 2022 um PIB mundial em 2022 de apenas 2,8%.
O PIB mundial de 2019, antes mesmo da pandemia, já demonstrava fragilidade, fixando-se em apenas em cerca de 3,0%. A crise sanitária apenas agravou o que já era gravemente preocupante.

Com a economia mundial interligada e a velha e fratricida disputa por hegemonia economia entre as nações (reproduzindo a competição fratricida entre os empresários na guerra de mercado e até dos trabalhadores por ascensão profissional), está ocorrendo um novo fenômeno. 

Ele é uma consequência das guerras localizadas, com reflexos negativos na economia mundial: trata-se da paralisia da produção causada pela falta de insumos necessários à produção nos níveis de mercado. É mais um fator desestabilizador. 

A falta de produção e fornecimento internacional de semicondutores da produção de equipamentos tecnológicos (carros, computadores, celulares, etc.) está travada e isto está contribuindo ainda mais para a queda do PIB mundial, sem contar com a volta da epidemia de covid-19 em alguns países, como o Brasil, que está vivendo um crescendo perigoso de contaminação e se aproximando das 700 mil mortes para pouco mais de 210 milhões de habitantes.  

Neste quadro recessivo, a máquina estatal carente de recursos para prover as demandas sociais de sua incumbência e os altos juros da dívida pública dos países pobres, que sustentam o mercado financeiro mundial, endivida-se ainda mais, numa bola de neve sombria e ameaçadora. 

Mas os políticos continuam a desejar o acesso ao poder político decrépito da ordem capitalista, e o povo é incitado a votar como forma de solução de problemas que estão longe de poderem ser resolvidos por quem está inserido no contexto político capitalista. 

Aí, haja aumento da dívida pública e privada! Haja emissão de moeda sem lastro!

Segundo economistas mais conscienciosos, há 40% de possibilidades de entrarmos num quadro de recessão mundial; a agência Morgan Stanley, avaliando tal risco em 35%, fica só um pouco atrás.

Assim, os investimentos se retraem e tudo converge para um impasse de proporções bem maiores do que aqueles causados há cerca de quase cem anos (1929/1930), quando começou a 
grande depressão que estendeu-se pela década de 1930 adentro.  

E todos estes problemas são acrescidos pelo aquecimento global, que também contribui fortemente para a desertificação esterilizante e para a formação de catástrofes climáticas insuportáveis. 

Quando é que vamos ter coragem de pegar o touro capitalista pelo chifre??? (por Dalton Rosado)
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