Mostrando postagens com marcador Batalha da Maria Antonia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Batalha da Maria Antonia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O MOVIMENTO ESTUDANTIL ERGUE-SE CONTRA O SUCATEAMENTO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Para matar as saudades das ocupações estudantis de 1968 e da tomada da reitoria da USP em maio de 2007, republico abaixo minhas impressões de quando visitei a segunda. Já com 56 anos, fiz questão de levar  minha solidariedade à moçada que ficou lá por 50 dias e acabou sendo vitoriosa contra a truculência policial e fulminando os quatro decretos autoritários do governador José Serra.

Gostaria de estar publicando aqui um texto sobre a ocupação atual, mas as pernas não me ajudam.

Transmito, ainda assim, meu abraço aos que vieram depois mas honram a combatividade de minha geração, a de 1968. 

Um dos maiores orgulhos da minha vida é ter-me mantido fiel à opção revolucionária que fiz entre dezembro de 1967 e janeiro de 1968.  Muitos da minha geração abandonaram os seus ideais e foram enriquecer ou empoderar-se. 

Lamento por eles, mas tomo a liberdade de citar-lhes  Marcos 8:36: de que vale alguém ganhar o mundo inteiro se perder a sua almaMemória não morrerá. (CL) 
POR DENTRO DA REITORIA OCUPADA
A última segunda-feira de maio [dia 28] é ensolarada, uma exceção no invernal outono paulistano. As pessoas ao redor da reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada pelos estudantes desde o dia 3, mostram aquela animação habitual de quem reencontra o calor e o céu azul, após vários dias frios e cinzentos.

Conversam, brincam, confraternizam. Há líderes de servidores públicos se revezando num alto-falante para instruir/entreter quem chegou adiantado à reunião da categoria que terá lugar ali mesmo, ao ar livre. Ninguém parece preocupar-se com uma invasão da Polícia Militar, para cumprir o mandado de reintegração de posse concedido pela Justiça.

Uma barricada de pneus diante da entrada é a vitrine da ocupação. De que realmente servirá, caso cheguem brutamontes bem treinados e equipados, que têm a violência como realidade cotidiana? Quase nada. Mas, os símbolos têm papel importante nas batalhas em que o grande objetivo estratégico é a conquista de corações e mentes.

Diante da única porta de entrada, alguns estudantes do esquema de segurança fazem a triagem dos visitantes. Basta ter uma carteirinha de aluno ou professor da USP para entrar sem problemas. Como não sou uma coisa nem outra, levo alguns minutos para convencê-los de que não vim brincar de 007

Como credencial, apresento meu livro Náufrago da Utopia, que por acaso trago comigo. Agrada-lhes o caderno iconográfico, com muitas fotos do movimento estudantil de 1968. Meio convencidos de minhas boas intenções, deixam que eu vá parlamentar com a Comissão de Comunicação (ou rótulo que o valha). Acompanhado, por enquanto.

Lá decidem que eu posso circular à vontade pela reitoria ocupada, liberando meu cicerone/vigia para outras tarefas. Uns 15 estudantes rodeiam meia dúzia de computadores, uns digitando e os outros palpitando.
Cuidam de manter o blog da ocupação no ar, de selecionar e imprimir textos que serão expostos nos quadros de avisos e paredes. E também de mandar mensagens de esclarecimento aos jornalistas que falam mal da ocupação. [Como se isso adiantasse. Tirando honrosas exceções, a imprensa se colocou contra os estudantes, às vezes dissimuladamente, outras da forma mais panfletária e caluniosa, como fez a Veja São Paulo, que os acusou de vândalos, baderneiros e arruaceiros.]

A diferença mais marcante com relação às ocupações antigas é, exatamente, o esquema de comunicação sofisticado da atual, incluindo TV por Internet e rádio livre

De resto, sinto-me como se tivesse entrado num túnel do tempo e desembarcado naquele mês de julho de 1968 em que a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia (SP) esteve ocupada para servir como QG das iniciativas em apoio da greve de Osasco, lançando a nova onda que (como agora) rapidamente se alastrou.

Os mesmos colchonetes espalhados por um salão em que repousam alguns sentinelas cansados, após a vigília da madrugada – período mais propício para uma operação policial, exigindo, portanto, cuidados redobrados (e muita disposição para enfrentar o frio).

Os mesmos jovens com roupas coloridas e brilho no olhar, convencidos de que estão fazendo História, embora alguns ainda sejam imberbes.
Aqui foi travada a batalha da Maria Antônia

Os mesmos mosaicos de textos e imagens compondo um visual agradavelmente anárquico. [O pôster mais hilário é o do governador José Serra fazendo mira com um fuzil e os dizeres José Serra, nada mais nos UNE. Que ingenuidade, deixar-se fotografar em pose tão incompatível com sua aura e seu passado!]

Sou capaz de apostar que, se fizesse uma excursão como a que estou fazendo, a reitorazinha teria chiliques, pois, à anarquia criativa, deve preferir os ambientes burocratizados, assépticos e sem vida, a julgar pelo que revela nas entrevistas: faz musculação, esteira e escova nos cabelos, usa terninhos de estilo clássico, quer corrigir pálpebras e bochechas com cirurgia plástica.

Deuses, o que faz uma farmacêutica numa posição dessas? Serão esses os temas que uma reitora deve tratar na imprensa, quando sua universidade vive a maior crise das últimas décadas? 

[De quebra, é uma ingênua que, a mando ou com autorização do governador, pede reintegração de posse e depois paga o mico de ver o mandado judicial descumprido, já que os estudantes não engoliram o blefe e Serra teme as consequências desse presumível confronto sobre suas ambições políticas.]
Apesar de toda a grita demagógica dos direitistas empedernidos e dos cristãos-novos do reacionarismo, não há sinais visíveis de depredação ou vandalismo. Aliás, os estudantes criaram um sem-número de comissões, para cuidar de cada detalhe administrativo da ocupação, zelando pelo patrimônio público. 

Até permitem que os faxineiros continuassem cumprindo sua função de manter limpas as várias dependências, indiferentes ao perigo de que o inimigo possa infiltrar-se camuflado com macacões.

O que não funciona mesmo são os caixas eletrônicos de bancos, nos quais foram colados avisos de sem dinheiro. Uma fração infinitesimal da usura consentida pela Justiça e abençoada pelo sistema foi detida. Vem-me à lembrança uma música de Sérgio Ricardo, ídolo dos universitários responsáveis pelas ocupações de quatro décadas atrás: Os bancos e caixas-fortes/ que eram rocha, se quebraram/ e um rio de dinheiro correu.

À saída, lanço um último olhar a esses jovens belos, brilhantes e idealistas, aparentemente tão frágeis, mas dispostos a enfrentar a tropa de choque da PM, se isso for necessário. Espero, torço para que não venha a ser.

Volto para o mundo real da desigualdade, da competição e da ganância, depois de um breve reencontro com o faz-de-conta revolucionário.
José Serra, ex-presidente da UNE. Pode?

Ciente de que há um longo caminho a percorrer até que os voluntários da utopia voltem a ser em número suficiente para tentarem ir além do faz-de-conta.

E, mesmo assim, esperançoso, pois um passo importante está sendo dado, com esse renascer do movimento estudantil que ora se delineia. É tudo de que precisamos, a renovação e oxigenação da esquerda, depois de tantas desilusões e defecções.

As pedras voltam a rolar. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 9 de abril de 2025

"FROUXOS", "COVARDES" E "OMISSOS": ASSIM UM PASTOR DA LAIA DO MALAFAIA ATACOU GENERAIS NO ATO DA AV. PAULISTA

Praticamente todas as minhas previsões sobre Jair Bolsonaro se confirmaram. 

Assim, p. ex., quando os outros articulistas de esquerda davam como inevitável que o Exército o acompanharia na futura tentativa golpista, eu já contrapunha que tais fardados não derrubavam presidentes para colocar no poder tenentes despirocados por eles chutados da caserna. Só o faziam para empossar generais.

E, como hoje todos sabem, na hora H o Exército se recusou a marchar sob as ordens do Bozo.

Por que estou lembrando isto agora? É porque, na micareta do último domingo (6) na avenida Paulista, um pastor qualquer, seguidor do Malafaia, disse ao microfone:
“Cadê esses generais de quatro estrelas, do Alto-Comando do Exército? Cambada de frouxos, cambada de covardes, cambada de omissos. Vocês não honram a farda que vestem!"
Mas o pior ficou para o dia seguinte: ao invés de repudiar esse ataque insensato, Bolsonaro o apoiou!!!

Ou seja, ele hoje é um aspirante a golpista que, sem ter o Exército ao seu lado, jamais conseguirá dar o sonhado golpe, de forma que viaja na maionese ao hostilizar os verde-olivas, que levam extremamente a sério tais ataques à honra de seus comandantes. 

O último fascistão brasileiro que bateu de frente com os fardados foi Plínio Salgado em 1938; era um líder muito superior ao Bolsonaro e, mesmo assim, perdeu a parada. 
Obrigado a dar baixa do Exército em 1988, Bolsonaro
tudo fez para desmoralizar a farda  quando presidente

Agora se trata de um monumental tiro no pé. As relações entre o bolsonarismo e a alta oficialidade chegaram ao ponto mais baixo de todos os tempos.

Como eu consegui prever corretamente, com quatro anos de antecedência, que Bolsonaro, por mais que os bajulasse e até endinheirasse algumas centenas deles, não conseguiria comandar seus antigos colegas de farda? Foi me baseando nas conclusões que tirei sobre o Exército quando era seu prisioneiro político. 

Sendo muito jovem e tendo sido por eles derrotado, os milicos me subestimaram: continuaram conversando à vontade. na minha frente, sobre assuntos neutros que não tivessem valor operacional para nossa guerrilha. Não perceberam ou não se incomodaram com eu estar o tempo todo os avaliando e tirando conclusões sobre eles.

Pena que esse aprendizado tenha sido desperdiçado pela esquerda, à qual sempre me dispus a fornecer análises que lhe fizeram muita falta. É uma das minhas maiores frustrações.

DO EXISTENCIALISMO AO MARXISMO -- Entre os 14 e os 17 anos, eu pensei seriamente num futuro como pensador de esquerda, seguindo o modelo de Jean-Paul Sartre. Mais por pragmatismo do que por qualquer outro motivo, acabei participando de um  ativismo secundarista de inspiração marxista, pois sabia que o existencialismo ateu não floresceria por estas bandas e sentia necessidade de pertencer a um movimento.
Batalha entre estudantes de esquerda e membros do CCC
na rua Maria Antônia. Um secundarista foi assassinado.

A tragédia brasileira era (e é)  dilacerante demais para eu me conformar com o papel de sábio no topo da montanha. 

Queria confrontar nossas iniquidades sociais, o que me empurrou para o lado dos que se dispunham a travar  o bom combate. Mas não descartava uma volta à  faina teórica, principalmente se viesse logo a redemocratização.

Só que 1968 me revelou quem eu realmente era. Participar da luta concreta me empolgou como nada o fizera na minha vida inteira, a cada dia me descobria agindo como antes não ousava, respondendo de bate-pronto aos desafios ao invés de refletir longamente sobre eles, seguindo a emoção do momento sem me questionar se a decisão que tomava era a politicamente correta. Na hora da ação, eu não refletia. Agia. 

Minha alma não era a de um scholar, embora dominasse algumas ferramentas  da intelectualidade. Entre a academia e a trincheira, percebi que sempre preferiria a trincheira.

E, ao longo destes 55 anos de militância, eu desenvolveria, principalmente, o talento de um comandante de Inteligência. Ou seja, a função que nunca pensara em desempenhar antes de a VPR me incumbir dela virou minha segunda natureza. Meus maiores acertos foram juntando fragmentos de informação para projetar cenários futuros que acabavam mesmo se tornando reais..

E minha maior mágoa foi a infinidade de ocasiões em que eu tentei alertar a esquerda de que suas linhas de ação eram desastrosas, sem conseguir que os dirigentes escolhessem as opções melhores que eu sugeria. Quantos desastres teriam sido evitados!
Eu percebia, evidentemente, que a grande maioria dos companheiros queria receber algo na linha das teses acadêmicas, com um lento e minucioso aprofundamento das questões, de forma que o momento propício para aquelas soluções acabava passando e elas caducavam sem uso. 

Confesso que até poderia jogar esse jogo, mas me repugnava profundamente agir como Marx já fulminara na sua 11@ tese sobre Feuerbach: "Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo". (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

DA DITADURA AO TRÁFICO DE DROGAS: O PAPEL DO FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO


 A imprensa brasileira sentiu os avanços, o namoro seguido de casamento entre a extrema-direita, uma parcela dos militares e setores fascistas adormecidos com o evangelismo populista a partir do Golpe de 1964? Não! O fenômeno era muito interno e se desenvolveu primeiro dentro dos seminários, reforçando-se pouco a pouco entre os chamados fiéis, provavelmente para não provocar reações e nem alertar setores importantes dos meios de informações criadores de opinião.

Naquela época, há 70 anos, o evangelismo levado dos EUA para o Brasil não tinha nenhuma expressão, era mesmo insignificante com seus 5% da população, a maior parte nas camadas populares dos pentecostais, congregações cristãs e Assembleias de Deus. Ainda existia a expressão protestante ligada ao movimento da Reforma, às igrejas luteranas, calvinistas, presbiterianas, que chegavam ao Brasil com seguidores tendo feições de classe média que enviavam seus filhos às universidades.

As primeiras igrejas pentecostais foram criadas
por missionários estadunidenses há mais de cem anos.

Se alguém perguntar aos colegas da mídia de hoje se ouviram falar no reverendo Boanerges Ribeiro, de Santos, certamente responderão pela negativa e poderão citar o pastor Milton Ribeiro, também ligado a Santos, ex-ministro da Educação, obrigado a se demitir por corrupção no ministério. Nada a ver!, pois Boanerges Ribeiro foi escritor, teólogo, presidente do Supremo Concílio e  um dos últimos intelectuais importantes do protestantismo brasileiro, na mesma linha do gramático Eduardo Carlos Pereira.

Mas enquanto no norte do Brasil a denominação evangélica dos pentecostais se expandia, só com o Golpe de 1964 os presbiterianos deixaram a neutralidade em matéria de política para se aliarem aos militares e passarem a reforçar a campanha contra o comunismo, inclusive com perseguições, repetindo o que já ocorrera nos EUA na chamada guerra fria.

É dessa época a Batalha da Maria Antônia, o  choque dos estudantes antiditatura da rua Maria Antonia, sediados na FFLCH, com os da Universidade Mackenzie, pró-ditadura. Entretanto, embora Boanerges fosse presidente do Mackenzie - a reitora era Esther de Figueiredo Ferraz -, isso nada tinha de religioso, era apenas político, entre estudantes de esquerda e de direita, entre constetadores do regime e apoiadores do golpe militar. Porém, nos meios evangélicos, como contou o reverendo Caio Fábio d Araújo Filho, numa entrevista à Veja, em agosto de 2022, havia nos presbiterianos uma "boagernização", que consistia na perseguição aos seminaristas e pastores de esquerda e inclusive  com sua entrega aos militares.

A batalha campal da Maria Antônia
terminou com o antigo prédio da FFLCH
destruído com o uso de coquetéis molotov. 

Esse quadro foi tomando forma e crescendo nos meios evangélicos, não só presbiterianos, e se revelou com força e muita influência nos anos que precederam à eleição de Bolsonaro, a ponto de terem sido os evangélicos seus principais eleitores e de atualmente terem posição marcante no Congresso, inclusive com uma bancada fundamentalista, a chamada banca da bíblia. 

Nesta altura, é o momento de afirmar ter havido reportagens e mesmo livros denunciando a cumplicidade do governo bolsonarista com os evangélicos, porém não um acompanhamento constante dessa união espúria pela grande imprensa. Entretanto, não se pode ignorar ter sido a BBC Brasil a mídia com mais enfoques no papel dos evangélicos durante o governo Bolsonaro. 

Diante da importância desse grupo religioso em crescimento, continua dando destaque com o repórter João Fellet e agora com a jornalista Letícia Mori, como na recente reportagem sobre o ramo evangélico existente entre os traficantes, que dominam as favelas de Parada de Lucas e Vigário Geral. A estrela de Davi foi espalhada nas entradas das favelas, criando o chamado Complexo de Israel. É o narcopentecostalismo, como denominam alguns pesquisadores, surgindo com força. (por Rui Martins) 


Related Posts with Thumbnails