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domingo, 3 de dezembro de 2023

O HAMAS É COMPATÍVEL COM A ESQUERDA REVOLUCIONÁRIA?


 Num longo artigo, mostramos como a esquerda brasileira reage diante da estrutura político-religiosa de Israel chamada sionismo e como vê o futuro para os palestinos. Ainda no texto seguinte, sobre judeus de esquerda, vimos a rejeição ao conceito de Estado étnico, no qual se entra só por herança sanguínea. Essa posição é tão marcante que esse grupo propõe mesmo a recriação de Israel como um Estado nacional sem exigência étnica. Com que forma? De Estado único no qual convivam judeus e palestinos ou na existência de dois Estados vizinhos, um palestino e outro judeu?

Essa seria a garantia de paz duradoura entre esses dois povos? Alguém me alerta: nessas duas hipóteses Israel sairá perdendo, mesmo sem guerras, porque os palestinos têm uma bomba natural mais potente – a bomba demográfica! 

Mas isso é uma visão muito pessimista e negativa, alguém argumentará. Vivendo juntos ou próximos com os mesmos direitos, eles começarão a se misturar como aconteceu no Brasil entre os brancos escravocratas e os descendentes dos antigos escravos negros, depois da abolição da escravatura e de todos os brasileiros serem iguais, sendo punida toda forma de racismo.

E com o velho testamento bíblico na mão, outro poderá argumentar: só poderá dar certo porque judeus e palestinos descendem de Ismael e Isaac, que eram meio-irmãos, pois o pai era o mesmo – o já idoso Abraão. Essa é uma história bem antiga, de uns 4 mil anos, quando ainda não se falava em casamentos entre jovens príncipes e princesas, mas numa sociedade em que havia escravas e seus proprietários eram pai e mãe centenários.

Sendo verídica essa história, poderíamos ser otimistas e imaginar o reencontro familiar entre os netos e filhos desse patriarca. Porém, briga de família a três pode complicar na hora de repartir a herança e a mesma fonte bíblica fala em guerras sem fim dos judeus com cananeus e filisteus, todos parentes, circuncisos e descendentes do mesmo bisavô e tetravô! E com o passar do tempo, turcos, libaneses, egípcios e iranianos poderiam ser considerados primos.

Tudo se complicou quando todos, exceto os judeus, no Oriente Médio passaram a seguir Maomé, surgindo o islamismo. Mesmo assim, restaram duas vertentes islâmicas: a dos sunitas e dos xiitas, nem sempre amigas. O Irã é xiita e a Arábia Saudita, sunita.

Depois da queda do Xá Reza Pahlevi, o Irã xiita se tornou uma rigorosa teocracia islâmica, seguidora da shariah, o conjunto de leis que codifica todas as exigências religiosas públicas e privadas dos muçulmanos, adotada com graduações diferentes pelos países muçulmanos. Nem todas as regras da shariah são compatíveis com os direitos humanos, como liberdade de expressão, liberdade de crença, liberdade sexual, de gênero e liberdade das mulheres. No Irã, a teocracia é repressiva principalmente contra as mulheres, havendo assassinatos cometidos pela polícia por simples questão de vestimenta. O cinema vive também sob censura.

Os sunitas são considerados mais tolerantes, porém inspiraram alguns movimentos considerados extremistas como Al-Qaeda, Estado Islâmico, Boko Haram e Hamas.


A esquerda deixou de ser laica?

Será que meus amigos de esquerda estão certos? Nestas semanas de guerra de Israel contra o Hamas, todos os textos aos quais tive acesso, cujos autores são de lideranças reconhecidas de esquerda, me deixam a impressão de estar havendo uma confusão involuntária - ou será voluntária, estratégica, temporária? - entre o povo palestino e o movimento Hamas, a ponto de se declararem enfaticamente defensores do Hamas contra Israel. 

Será que a partir de agora todo esquerdista tem de ser obrigatoriamente a favor do Hamas, mesmo se a esquerda e, não é de hoje, vem criticando o sionismo e a política israelense com relação aos palestinos? Depois de termos dado bastante espaço à questão do sionismo israelense, parece ser a vez de se discutir o caráter religioso fundamentalista islâmico do Hamas. O conceito laico da esquerda deixou de ser básico e se tornou superado?

O tema é bastante complexo porque além do caráter laico dos grupos palestinos que deram origem à OLP, Organização pela Libertação da Palestina, inclui também a questão da utilização de atos terroristas na conquista do reconhecimento das reivindicações palestinas.

O primeiro desses atos, que provocou divisões dentro da esquerda internacional, foi o atentado nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972. O último atentado, o do 7 de novembro, com a invasão de Israel e o assassinato de centenas de civis desarmados, voltou a provocar divisões, chegando a romper a união das esquerdas francesas.

É bom lembrar que, em 1948 tanto a URSS, quanto os socialistas e os comunistas franceses, apoiaram a criação de Israel. O apoio socialista estava ligado ao partido trabalhista no poder em Israel e os kibutz israelenses eram considerados um tipo de experimentação socialista.  O apoio da URSS durou pouco e o apoio aos árabes foi seguido pelos comunistas europeus.

Nos anos 70, por influência dos católicos de esquerda e dos franceses anticolonialistas, surgiu o apoio à causa palestina, seguido pelos maoístas.

Com o fim da guerra do Vietnã, os comunistas e a esquerda francesa focaram seu apoio em Yasser Arafat. Mitterrand e os socialistas continuavam defendendo a existência de Israel e Arafat acabou reconhecendo a existência de Israel e aceitou a coexistência de dois Estados. Mas o governo de direita em Israel e a Intifada fortaleceram a esquerda pró-palestina que denunciou Israel como Estado opressor e de apartheid, denunciando também o sionismo.

A situação tomou novas feições no fim dos anos 1980, quando os maiores apoiadores dos palestinos contra Israel eram o Hezbollah e o Hamas, dois movimentos islâmicos fundamentalistas. O fim do laicismo ou secularismo na luta pelos palestinos provocou divergências entre os socialistas e comunistas franceses, mas vinha sendo tolerado diante do eleitorado árabe muçulmano gerado pela imigração. Entretanto, a brutalidade do atentado do Hamas do 7 de outubro dividiu a esquerda francesa e voltou à atualidade a questão do movimento palestino estar nas mãos do islamismo fundamentalista, cujas dimensões vão além da causa palestina e representam, em muitos aspectos, um retrocesso no movimento da descolonização palestina.

O avanço do islamismo fundamentalista entre os países árabes, que chega a ter influência mesmo na atual Turquia, e mesmo em países africanos saídos da colonização, preocupa por representar uma marcha à ré na questão dos direitos humanos e na própria concepção de uma sociedade socialista. Diante da teocracia islâmica no Irã, com aplicação da lei da shariah, com punições físicas e pena de morte, ocorre um nítido recuo na liberalização feminina, uma rejeição total da questão dos gêneros com a não aceitação da homossexualidade, entre outras tantas exigências religiosas.

Enfim, uma bem argumentada demonstração da incompatibilidade do movimento Hamas com os objetivos revolucionários marxistas é feita pelo órgão da União comunista trotskista, Luta Operária, mostrando não existir para a esquerda só a opção primária “quem é contra Israel tem de ser a favor do Hamas”.

O trecho conclusivo de um longo artigo parece bem demonstrativo da pressa com que a esquerda brasileira aderiu aos islamitas: 

“O Hamas procura de fato um compromisso com o imperialismo e o reconhecimento deste, mesmo que fale em destruir a “entidade sionista” de Israel. Ele defende os interesses da burguesia palestina e as suas políticas estão em desacordo com os interesses dos palestinos oprimidos, cuja revolta ele teme. Pelo contrário, é com estes que os revolucionários devem estar unidos na luta contra o imperialismo. Apoiar o Hamas por do oportunismo, assimilando-o à “resistência legítima” de todo um povo, fazendo do reconhecimento do sentimento palestino de opressão nacional o apoio à política nacionalista de uma organização religiosa reacionária como o Hamas, equivale a abdicar de toda a política de classe”.

(por Rui Martins) 

domingo, 15 de agosto de 2021

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM: O TALIBÃ RETOMA GOVERNO, EM NOVO FRACASSO MILITAR DOS EUA

Kabul, capital do Afeganistão, amanheceu tomada pelos combatentes do Talibã. 

Avançando país adentro no rastro da retirada de tropas dos EUA, ordenada por Trump e acelerada por Biden, a organização de extrema-direita não encontrou resistências para ocupar a cidade e colocar fim ao governo imposto pela Otan, tendo o presidente Ashraf Ghani fugido para o vizinho Ubezquistão. 

Encerra-se assim a mais longa guerra da história estadunidense, com 20 anos de combates e 170 mil mortes, das quais 2.300 foram de soldados dos EUA. A invasão foi a primeira resposta aos ataques terroristas às Torres Gêmeas em Nova York, fato acontecido a 11 de setembro de 2001.

Acreditava-se que Bin Laden, chefe da organização Al Quaeda e responsável por comandar o ataque, estaria refugiado no Afeganistão. Quando o Talibã negou-se a entregar o terrorista, Washington ganhou apoio para uma invasão ao país. Como se saberia mais tarde, o trabalho foi inútil, pois Osama estava, desde sempre, no vizinho Paquistão, à época aliado incondicional dos Estados Unidos. 

Na realidade, desde o começo, a atenção do então presidente Bush era com o Iraque e seus poços de petróleo. O árido e miserável Afeganistão serviu apenas para aplacar a fúria da opinião pública, insatisfeita por imaginar que o odiento regime de Kabul escondia o assassino em massa. 
Helicóptero dos EUA busca diplomatas em retirada de Kabul. Ecos de Saigon.
Não foi à toa, portanto, a continuidade do Talibã, entrincheirado nas inóspitas montanhas do país, enquanto os militares da Otan montavam guarda nas grandes cidades para propagandear ao mundo um Afeganistão moderno e laico. No entanto, a maior parte da população afegã estava nas zonas rurais e, para elas, pouco ou nada mudou com a presença dos EUA e seus aliados. 

Somadas a isso, as poucas incursões militares a estas regiões, por parte dos estadunidenses, eram sempre brutais, com ações de mercenários, execuções sumárias, torturas e todo tipo de atrocidade, a ponto de fazer a população local ter mais empatia pelos medievais jihadistas. O resultado não pode ser outro senão o crescente ódio da população à presença dos EUA e ao governo fantoche de Kabul. 

Deste modo, as fileiras talibãs foram crescendo, inclusive com aporte de homens e armamentos do exército afegão, o qual, ironicamente, era armado e treinado pelos EUA. 

Enquanto o Talibã crescia, a popularidade da guerra ia evaporando em um Estados Unidos arrasado pela crise econômica e que gastou, até o dia de hoje, cerca de 3 trilhões de dólares no conflito. Por isso, diante da força do grupo extremista e do desejo de retirada, o caminho foi tentar fazer negociações de paz entre os talibãs e o então governo instalado em Kabul.  
"Não havia nada de importante para ser assegurado"

No fim, contudo, ficou provado que o tal governo era o próprio EUA e o Talibã conseguiu, em semanas, dominar o país praticamente inteiro, entrando na capital com quase nenhuma resistência.

Poderíamos falar de um fracasso estadunidense? Em partes. O Afeganistão nunca foi de fato uma prioridade para o Império. Acabou sendo mais uma solução de marketing que se alongou demais e acabou virando uma armadilha. 

Começou enquanto uma forma de aplacar a opinião pública e logo virou um novelo intrinsecamente emaranhado. No fim, os EUA simplesmente jogam a toalha, deixando um rastro de destruição, mortes e dinheiro torrado. Podem até ter feito o Talibã mais forte, agora com um exército treinado e armamento mais moderno em mãos. 

Mas, quando olhamos o Iraque, podemos perceber este fracasso em perspectiva. Lá também os EUA não conseguiram estabelecer uma ocupação estável, tendo o próprio Estado Islâmico surgido no país. Mas, os poços de petróleo, os oleodutos, os portos e as rotas de comércio do óleo estão seguras por lá, com raras incursões rebeldes. Isto era o que, no fim, importava. 

O fracasso do Iraque, portanto, é relativo; o do Afeganistão meramente simbólico, pois não havia nada de economicamente importante para ser assegurado ali. (por David Emanuel Coelho)

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