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segunda-feira, 23 de março de 2026

A MÚSICA DO DIA, DEDICADA A DONALD TRUMP, SÓ PODERIA SER "PALHAÇO"

Um dos principais cantores brasileiros do século passado, o rei da voz Francisco Alves obteve grande sucesso com Palhaço, marcha carnavalesca de 1947, composta a seis mãos por Benedito Lacerda, David Nasser e Herivelto Martins.

A quem ela poderia ser dedicada hoje em dia? Não há dúvida nenhuma: a Donald Trump, um inequívoco histrião hors concours,

Ele pensou que fosse um grande conquistador (mas não passa de um pequeno parlapatão). Então, como se ainda estivesse em 1930/40, agiu contra países mais fracos tal qual Hitler e Mussolini agiriam.

A consequência foi ele ter entrado como um leão numa guerra que deveria ser apenas Israel x Irã e agora estar saindo com o rabo entre as pernas, como um cão enxotado a pontapés, tendo de propor uma trégua e se de dispor a negociações.

As ilusões de Trump não completaram nem sequer um mês. E todos nós assistimos de camarote ao retumbante fracasso desse palhaço. (CL)

Acesse "Palhaço" no Youtube clicando aqui 

quinta-feira, 24 de abril de 2025

MAMÃE EU QUERO, MAMÃE EU QUERO, MAMÃE EU QUERO ANISTIA, DÁ CHUPETA, DÁ CHUPETA PRO BOLSONARO NÃO CHORAR

Foi de uma pusilanimidade extrema o chororô de Jair Bolsonaro, queixando-se por ter recebido numa UTI a intimação para responder pelo crime de haver sido o principal responsável por uma tentativa fracassada de golpe de estado para derrubar e matar  o presidente eleito do Brasil, com o objetivo de obter um novo mandato virando a mesa, após ser derrotado nas urnas. 

Primeiramente porque, mesmo hospitalizado, continuava gravando peças propagandísticas de sua incessante campanha para escapar das grades, ainda que seja provocando um confronto de Poderes que poderia ter consequências trágicas para nosso país.

Depois porque dá um péssimo exemplo como cidadão e como homem tentando despertar a compaixão dos brasileiros em seu momento de desgraça, logo ele que antes simulava a masculinidade mais tóxica:
— normalizando o estupro de uma deputada; 
— lamentando que a ditadura militar não houvesse fuzilado "uns 30 mil" oposicionistas, "inclusive o FHC'; e
— avacalhando os coitadezas que agonizavam sem ar durante a pandemia, para cuja letalidade, aliás, ele contribuiu intensamente, ao sabotar vacinas e estimular pajelanças.  

E isto sem se dar conta do ridículo em que incidia, ao proclamar-se "imorrível, imbrochável e incomível", mesmo sendo amplamente conhecido que entregou. moto e arma para a bandidagem como um garotinho apavorado.

Além de haver convocado três vezes seus seguidores para a tomado do poder e se mantido longe do palco da ação em todas elas, inclusive indo refugiar-se na Disneylândia quando da terceira.

E que dizer de sua alucinada  comparação, agora, com as vítimas do nazismo?!
Você só está cumprindo ordem aqui, 
mas o pessoal dos tribunais do Hitler também cumpriam (sic) sua missão: colocavam judeus na câmara de gás. Todos pagaram seu preço um dia. Não vai ser diferente no Brasil, trovejou para a assustada oficial de justiça.

Mais megalomaníaco, impossível. Pois a única comparação pertinente não seria com o Holocausto, mas sim com os julgamentos de Nuremberg, dos quais o Bolsonaro de lá escapou pela via do suicídio. Já o Hitler de cá, por mais que esperneie, desta vez não deixaremos escapar. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

HÁ 12 ANOS PRODUZINDO UM PENSAR SOCIAL REFLEXIVO E CONTUNDENTE

dalton rosado
ANIVERSÁRIO DE UMA TRINCHEIRA DE LUTA
Sábado passado (08/08) o blog Náufrago da Utopia completou 12 anos de existência ininterrupta, com o expressivo número de mais de 3,3 milhões de acessos.

Trata-se da vitória de um instrumento de comunicação que sobrevive sem nenhum patrocínio comercial, a despeito do grande esforço pessoal e dificuldades financeiras do seu editor e criador Celso Lungaretti.

Não é ao Celso que queremos reverenciar, uma vez que somos, por princípio avessos ao culto da personalidade; mas ao significado de um veículo de comunicação aberto ao debate, sem censura e que, mesmo se posicionando no campo anticapitalista em termos de linha editorial, não deixa de reconhecer méritos dos seus adversários ideológicos ou equivocados, quando eles existem. 

É fundamental, por sua transcendência, a importância de um veículo que se viabiliza graças à conjunção de esforços propiciada pelos avanços tecnológicos da área da comunicação via satélite, a permitir que se aliem ao Celso, o editor paulistano, colaboradores sem remuneração e tão distantes entre si: 
— o David Emanuel, de Belo Horizonte;
— o Dalton Rosado, de Fortaleza; e
— o Rui Martins, de Genebra, na Suíça.

O objetivo: produzir um pensar social reflexivo e contundente. E, para benefício dos leitores, a seus textos são acrescentados os de outros escribas, pinçados dos muitos veículos de comunicação, desde que tenham dado contribuições significativas no sentido de condensar um posicionamento crítico leal e firme sobre o processo dialético histórico e suas transformações irrefreáveis.

Quantos jornais foram empastelados pelas ditaduras mundo afora por terem se posicionado em favor das franquias sociais detestadas pelos ditadores??? 

Quantos deles acabaram facilitando os esforços dos tiranos para os neutralizarem, por dependerem de uma estrutura industrial de edição e publicação???

Quantos veículos de comunicação faliram como consequência das dificuldades econômicas de edição e, principalmente, do boicote do poder econômico, que jamais apoiou aqueles que se posicionam contra a tirania do lucro acumulador de capital escravista e segregacionista??? 

Quantos jornalistas foram assassinados por promoverem a divulgação de verdades que incomodam os opressores mundo afora, desde o árabe saudita Jamal Khashogg até o mais humilde radialista de província???
É graças a esses avanços tecnológicos, próprios de uma das contradições do capitalismo (o qual, como dizia Marx, cava a sua própria sepultura), que nascem tecnologias capazes de fazer e proporcionar a comunicação instantânea, mais difíceis de serem censuradas pelos déspotas de todos os tempos. 

Não devemos temer, portanto, as fábricas de fake news que infestam a internet, com sua massificação de mentiras à moda de Joseph Goebbels porque elas têm pernas curtas como todas as mentiras, logo se desmoralizando pela própria inconsistência.

A verdade (ainda que nunca seja absoluta, porque condicionada ao mesmo processo dialético que tudo transmuta, mas que protege no longo prazo aqueles que a buscam) tende a prevalecer sobre a mentira, tal qual o óleo, dentro d'água, termina vindo à tona.

Como poderiam, p. ex., imaginar os eleitores menos informados que o presidente Boçalnaro, o ignaro, eleito como candidato anticorrupção, fosse agir como o mais cínico praticante da velha política à qual dizia não pertencer?! 

Mas, os observadores atentos do processo histórico, munidos das ferramentas de análise dialéticas, já anteviam tal desfecho, que hoje deixa atônitos os seus incautos adeptos.

[aqueles que ingenuamente acreditaram nas falácias eleitorais de quem nada jamais construiu e baseou sua nefasta carreira parlamentar no elogio da morte e na agressão verbal em todos os níveis comportamentais.] 

As teses levantadas neste blog sempre podem ser reproduzidas com atualidade, justamente porque, ao contrário da mentira e do engodo, o tempo somente as ratifica e lhes empresta credibilidade.

Quantos visitantes, dentre os mais de 3,3 milhões de acessos ao blog nesses 12 anos, puderam se instruir e formar um pensamento crítico sobre a realidade que os rodeia, daí extraindo conclusões libertárias que formam um conjunto de visões transformadores e redentoras?

São os nossos leitores que alimentam o nosso esforço de redação, e é a eles que destinamos toda a nossa contribuição, que esperamos seja valiosa.

Este é o grande mérito do blog e aquilo que nos deixa, ao mesmo tempo, esperançosos e sentindo-nos responsáveis por sua continuidade e perpetuação, seja por nossas mãos, seja pelos que hão de nos sobrevir. (por Dalton Rosado) 
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UM ADENDO QUE NÃO PODERIA FALTAR
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Caro Celso, 

não fosse o testemunho de sua têmpera revolucionária atestada desde a mais tenra idade (que é fato histórico educativo) e tantas outras lutas travadas, bastaria, para justificar-lhe a existência, a criação e edição do Náufrago da Utopia, instrumento de educação e pesquisa histórica de inegável utilidade na construção de um novo porvir.

Parabéns dos seus colaboradores, agradecidos pelos esforços que você desenvolve a cada dia.  (DR)
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TOQUE DO EDITOR Se há algo que não aprendi nesses 52 anos em que venho travando o bom combate é a lidar com elogios. Sempre fico com a impressão de não os merecer e de que poderia ter feito mais e melhor. 

Só duas vezes, por ter contribuído para arrancarmos vitórias na bacia das almas quando a correlação de forças nos era esmagadoramente desfavorável, eu tive a sensação de dever cumprido em sua totalidade: a greve de fome dos quatro de Salvador em 1986 e a libertação de Cesare Battisti em 2011.  

Agradeço as palavras generosas do Dalton, até porque percebo sua intenção de animar-me, pois, mesmo afastados os piores augúrios sobre Bolsonaro, hoje apenas outro dos nossos muitos presidentes medíocres que se mantiveram no poder recorrendo à politicalha imunda, o desencanto da eleição presidencial de 2018 persiste latejando em mim como uma ferida aberta. 
Agora falta Nuremberg para alguém

Jamais deixarei de considerar que o Brasil não mereceu o sacrifício daqueles  meus heroicos companheiros que de tudo se privaram, inclusive dos anos de vida que lhes restavam, para que nunca mais este país sucumbisse à sanha bestial e boçal dos que negam tudo que há de belo, livre, amoroso, criativo, solidário, desprendido, pacífico, digno e nobre em nossa existência. 

Voltando ao blog, prefiro considerá-lo uma obra em construção, que ainda comporta aperfeiçoamentos e melhoras, principalmente no sentido de fazermos chegar a contingentes mais amplos as sementes que espalhamos, sem prejuízo da consistência ideológica e da honestidade de propósitos que nos trouxe até aqui.

Meu abraço fraterno e minha gratidão a você, Dalton, e aos incansáveis David e Rui. 

Meu muito obrigado aos leitores que nos prestigiam e incentivam, pois são eles a razão de nossa... insistência

E meu sonho de um dia ainda ver o Náufrago dedicando posts e mais posts a um novo julgamento com o mesmo espírito daqueles de Nuremberg, tendo como réu principal vocês sabem quem... (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

NOS BONS TEMPOS, O HUMOR DO CARNAVAL NÃO POUPAVA ALÁ E MAOMÉ...

Um dos maiores sucessos carnavalescos de todos os tempos, a marchinha Allah-la-ô (1940), embora creditada apenas a Haroldo Lobo e Antônio Nássara, teve dois outros pais, o jornalista David Nasser e o grande Pixinguinha.

Os versos originais de Nasser eram estes:

"Chegou a nossa caravana
À frente vem Maomé
Atravessamos o deserto
Sem pão e sem banana
Sem água pra fazer café
Allah-lá-ô ô ô ô ô ô ô
Mas que calor ô ô ô ô ô ô"  

Haroldo Lobo, autor da música, não gostou e pediu a Nássara que os melhorasse. Este levou a música e a nova letra para Pixinguinha fazer o arranjo. O maestro, no entanto, reescreveu tudo (prerrogativa dos gênios!). Entregou prontinha para o cantor Carlos Galhardo gravar, deste jeito:

"Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor, ô ô ô ô ô ô
Atravessamos o deserto do Saara
O sol estava quente
Queimou a nossa cara

Viemos do Egito
E muitas vezes
Nós tivemos que rezar
Allah! Allah! Allah, meu bom Allah!
Mande água pra Ioiô
Mande água pra Iaiá

Allah! Meu bom Allah!"

Hoje, Haroldo Lobo, Antônio Nássara, David Nasser, Pixinguinha e Carlos Galhardo correriam o risco de serem transformados em peneiras pelos sinistros e sisudos jihadistas, com apoio implícito dos fundamentalistas de ocasião, que não admitem zombarias com as religiões convenientes.

Fazem-me lembrar aquela frase célebre atribuída ao presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt, sobre o então ditador da Nicarágua: "Somoza pode ser um filho da puta, mas é nosso filho da puta". 

Como o mundo piorou! Como Allah e Maomé pioraram! Como a esquerda piorou!

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

MUITO OBA-OBA PARA O PRESIDENTE VARGAS. E O DITADOR, COMO É QUE FICA?

O baixinho Vargas  (no centro) e outros golpistas de 1930
Neste domingo (24) se completaram 60 anos do suicídio de Getúlio Vargas, ditador do Brasil de 1930 a 1945 e presidente da República de 1951 a 1954.

Na primeira condição, foi o responsável último por assassinatos e torturas terríveis, um legítimo precursor do Médici. Simpatizava com Hitler e Mussolini (até copiou a legislação trabalhista do último!) e apoiou-se nos integralistas de Plínio Salgado para implantar o Estado Novo (golpe dentro do golpe que radicalizou a ditadura, a exemplo do que seria depois o AI-5). 

O pretexto para o fechamento foi a 'descoberta' um plano de comunização do Brasil que, na verdade, fora inventado de cabo a rabo pelo integralista Olímpio Mourão Filho, falsário em 1937 e derrubador de presidente legítimo em 1964.

Com o final da 2ª Guerra Mundial, os EUA usaram sua enorme influência de bastidores para fazer com que fossem apeados do poder os dois ditadores sul-americanos aparentados ideologicamente com o nazi-fascismo: Vargas e Perón. 

O primeiro permaneceu, ademais, em ostracismo durante todo o mandato de Eurico Gaspar Dutra (eleito com seu apoio). 

Quando voltou à política, conquistando a Presidência nas urnas, tinha se tornado anti-imperialista desde criancinha. E o PCB, grotescamente, se tornou um sustentáculo do carrasco de vários de seus quadros; Prestes subiu no palanque do homem que permitiu a entrega de Olga Benário à Gestapo!
Vargas recebendo o líder fascista italiano Italo Balbo

Há quem louve o nacionalismo senil de Vargas. Eu, não. Afora o espírito de vingança do qual estava obviamente imbuído, ocupou o único espaço que lhe restava no tabuleiro político, já que os EUA e a direita a eles subserviente o repudiavam. Não guinou à esquerda por opção, mas por falta de.

Quando uma patetada de um membro de sua guarda pessoal o colocou na rota do impeachment, teve a dignidade de suicidar-se para, com o impacto emocional tal gesto e de sua célebre carta de despedida, frustrar o complô direitista. Foi o seu melhor momento, pois ele e Allende contrastam vivamente com os governantes depostos do nosso continente, os quais quase sempre aceitaram resignadamente o pé na bunda. O pior de todos foi o hondurenho Manuel Zelaya -aquele que consentiu em ser despachado para o exílio de pijama. 

Como há gente demais omitindo ou deixando em 2º plano os horrores da ditadura getulista, reproduzirei em seguida um artigo do ilustre historiador José Murilo de Carvalho, publicado na Revista de História

É informação muito importante para as novas gerações conhecerem o outro lado do 'pai dos trabalhadores', e também para refrescar a memória de certos expoentes das velhas gerações que gostam de engrandecer déspotas, relevando seus prontuários escabrosos em matéria de direitos humanos.

CHUMBO GROSSO
José Murilo de Carvalho
Os agentes da Polícia Especial de Filinto Muller (esq.) faziam estágios na Gestapo de Hitler
Assassinatos com motivação política não foram raros durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945). O caso mais gritante foi o fuzilamento de oito participantes do assalto ao Palácio Guanabara em 1938, organizado por militares e militantes da Ação Integralista Brasileira. Os oito tinham sido capturados e desarmados quando foram mortos nos fundos do palácio, como admitiu em suas memórias o general Góis Monteiro (1889-1956). Não houve qualquer investigação sobre o crime. Há referências a assassinatos nas revoltas comunistas de Natal e Recife em 1935 e nas delegacias de polícia, sobretudo na sede da Polícia Central, na Rua da Relação, na então capital da República, e nas casas de Detenção e Correção. Um médico da Polícia Militar, Nilo Rodrigues, por exemplo, disse ao jornalista Vítor do Espírito Santo ter presenciado fatos de alarmar: “espancamentos horrorosos, vários assassinatos dentro da Polícia Especial”. Mas, graças à censura à imprensa, poucos desses crimes vieram a conhecimento público. Quase todos foram abafados nos porões das delegacias. 

A tortura de presos foi investigada e descrita pelo jornalista David Nasser (1917-1980), inicialmente em seis reportagens publicadas na revista O Cruzeiro – a primeira delas em 29 de outubro de 1946 – e, depois, em livro de 1947. As publicações foram intituladas Falta alguém em Nuremberg. Esse alguém era o capitão do Exército Filinto Müller (1900-1973), chefe de Polícia da capital de 1933 e 1942. Os principais instrumentos de tortura mencionados em depoimentos no Congresso e registrados por David Nasser eram: o maçarico, que queimava e arrancava pedaços de carne; os “adelfis”, estiletes de madeira que eram enfiados por baixo das unhas; os “anjinhos”, espécie de alicate para apertar e esmagar testículos e pontas de seios; a “cadeira americana”, que não permitia que o preso dormisse; e a máscara de couro. 
Marighella: bestialmente torturado pela polícia getulista.

Era também prática comum queimar os presos com pontas de cigarros ou de charutos e espancá-los com canos de borracha. Em alguns casos, o requinte era maior. O ex-sargento José Alves dos Santos, por exemplo, teve um arame enfiado na uretra ficando uma ponta de fora, que foi, a seguir, aquecida com um maçarico. Para que os gritos dos torturados não fossem ouvidos fora do prédio da Polícia Especial, um rádio era ligado a todo o volume. Poucos torturados resistiam. Houve quem se suicidasse pulando do terceiro andar da sede da Polícia Central; outros enlouqueciam, como foi o caso de Harry Berger, membro do Partido Comunista Alemão, torturado durante anos juntamente com sua mulher, Sabo. Quase todos guardavam sequelas para o resto da vida no corpo e na mente. 

Os acusados eram processados e julgados pelo Tribunal de Segurança Nacional, criado logo depois do levante comunista de 1935, ainda antes do Estado Novo. Após a revolta integralista de 1938, já no regime de exceção, o regulamento do Tribunal foi alterado para apressar os julgamentos e reduzi-los quase a rito sumário, ou seja, sem processo formal. Recebido o inquérito, o juiz dava imediatamente vista ao procurador e citava o réu. O procurador tinha 24 horas para a denúncia. Findo o prazo, era marcada audiência para instrução e julgamento dentro de 24 horas, tempo que tinha também a defesa para se preparar. Em cinco dias, tudo se resolvia. Recurso só era admitido para o próprio Tribunal pleno, cuja sentença era irrecorrível. O Tribunal processou mais de 10 mil pessoas e condenou 4.099. 
Harry Berger enlouqueceu

Apesar da anistia concedida por Vargas em 1945, houve na Constituinte de 1946 tentativas de investigar e punir os crimes cometidos pela polícia política do Estado Novo. O esforço foi liderado pelo general Euclides de Oliveira Figueiredo (1883-1963), deputado eleito pela União Democrática Nacional (UDN) do Distrito Federal e pai do futuro presidente João Batista de Oliveira Figueiredo (1918-1999). Quando coronel, Euclides fora acusado de participação nos planos do fracassado assalto ao Palácio Guanabara em 1938. Julgado pelo Tribunal de Segurança Nacional, foi condenado a cinco anos e quatro meses de prisão, pena reduzida posteriormente para quatro anos e quatro meses.

O general apresentou, em 30 de abril de 1946, um requerimento em que pedia “profundas e severas” investigações no então Departamento de Segurança Pública para “conhecer e denunciar à Nação os responsáveis pelo tratamento dado a presos políticos”. O requerimento foi aprovado, e em maio foi criada a “Comissão encarregada de examinar os serviços do Departamento Federal de Segurança Pública”, presidida pelo senador Dario Cardoso (1899-1987). O general não foi incluído entre seus membros, provavelmente por ser incômodo aos que tinham alguma vinculação com o regime deposto.  

A Comissão deu em nada. Raramente havia quórum para as reuniões. As denúncias de crimes foram parar no arquivo da Casa. A Constituinte encerrou as atividades em setembro de 1946 sem que chegasse a conclusões concretas. Em 7 de novembro, já em sessão ordinária da Câmara, o general, inconformado, requereu a instalação de nova comissão. Argumentou, segundo os Anais da Câmara, que a matéria não era “daquelas que podem ser esquecidas. Trata-se de fazer justiça, descobrir e apontar os responsáveis por crimes inomináveis, praticados com a responsabilidade do governo”. Acrescentou ainda: “As grandes nações democráticas que fizeram a guerra ao totalitarismo já julgaram e executaram os responsáveis pelos horrendos crimes contra a humanidade. Nós também tivemos criminosos, não de guerra, mas de paz, de plena paz, e contra brasileiros. Talvez fossem eles os precursores dos nazistas. Convém não perdoá-los [sic] de plano. 
Vargas permitiu a extradição de Olga

Importa, igualmente, que os julguemos. Para julgá-los, importa conhecê-los”. Euclides mencionou a reportagem de Nasser publicada na revista O Cruzeiro. Terminou o discurso com um apelo aos deputados: “Ao menos se conheçam os responsáveis pelas barbaridades [...] a fim de que outros, que possam vir mais tarde, tenham receio de ver ao menos seus nomes citados, como desejo que sejam conhecidos os daqueles bárbaros que tanto maltrataram o povo do Rio de Janeiro, da capital da República, de todo o Brasil!”

Foi instalada a nova comissão, agora chamada “Comissão de inquérito sobre os atos delituosos da ditadura”, presidida pelo deputado Plínio Barreto (1882-1958). Novamente, Euclides Figueiredo não foi indicado para integrá-la. Mas, tendo desistido o deputado Aliomar Baleeiro (1905-1978), passou a fazer parte dela e foi um de seus membros mais atuantes. As atas atestam sua assiduidade nas reuniões. Várias pessoas foram chamadas a depor, umas como vítimas de tortura – como o então senador Luiz Carlos Prestes (1898-1990) e o próprio David Nasser –, outras por terem sido acusadas de torturadoras. Quase todas as denúncias se referiam a maus-tratos sofridos na Polícia Central, na Polícia Especial, na Delegacia de Ordem Política e Social e na Casa de Detenção. Os principais acusados eram Serafim Braga, chefe da Dops, o tenente Emílio Romano, chefe do Departamento de Segurança Pública, o tenente Euzébio de Queiroz, chefe da Polícia Especial, e o policial Alencar Filho, da Seção de Explosivos da polícia.

Um dos depoimentos mais dramáticos foi o de Carlos Marighela (1911-1969), deputado pela Bahia do Partido Comunista do Brasil, dado em 25 de agosto de 1947. Ele descreveu várias torturas que sofreu ou que presenciou. Entre elas, espancamento com canos de borracha, aplicado na sola dos pés e nos rins, queimaduras com pontas de cigarro, introdução de alfinetes por baixo das unhas, arrancamento das solas dos pés ou de pedaços das nádegas com maçaricos. Em se tratando de presas, costumava-se introduzir esponjas embebidas em mostarda em suas vaginas. O general Figueiredo, que fora companheiro de prisão de Marighela, considerou a declaração o ponto culminante dos trabalhos da Comissão. Em seu depoimento, o jornalista Vítor do Espírito Santo disse ter ouvido do médico Nilo Rodrigues que nunca tinha visto “tanta resistência a maus-tratos e tanta bravura” como as demonstradas por Marighela. 

Aos poucos, esta segunda Comissão também começou a ratear. O fenômeno acentuou-se após o depoimento do capitão Emílio Romano, em junho de 1948. A partir dessa data, não há mais referência a suas reuniões no Diário do Congresso. Em 24 de setembro, ela deixa de ser relacionada. Aparentemente, encerrou as atividades sem apresentar relatório. Uma das razões para o fato pode ter sido o depoimento do jornalista Vítor do Espírito Santo. Segundo ele, o médico Nilo Rodrigues dissera-lhe que não faria denúncias porque “as pessoas que se encontram no poder são as mesmas que praticaram as mencionadas violências”. Ao que o general Euclides Figueiredo acrescentou: “E as que fazem parte da Polícia Especial também ainda são as mesmas”.
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