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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

"NÁUFRAGO DA UTOPIA"/ 20 ANOS: A VISÃO CRÍTICA, MAS DIGNA E SOLIDÁRIA, DE UM SOBREVIVENTE DA LUTA ARMADA.

F
az 20 anos que lancei o livro
Náufrago da Utopiana livraria Saraiva do Shopping Morumbi, com a participação do ex-preso político Ivan Seixas, do presidente do Sindicato dos Jornalistas Audálio Dantas e do jornalista Paulo Nogueira no debate que antecedeu a sessão de autógrafos.

Foi o coroamento da reabilitação da minha imagem como revolucionário. 

Tal revisão do passado acabou sendo uma consequência da luta pública que travei para que a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça colocasse em pauta o meu caso  (eu estava desempregado e em situação crítica, o que era a condição primeira da priorização de um julgamento, mas tal critério não estava sendo respeitado pelo colegiado). Minha batalha do tostão contra o milhão começou a repercutir na internet.

Ademais, o jornalista e escritor Marcelo Paiva inseriu uma referência desrespeitosa e gratuita sobre mim numa reportagem que fez para a Folha de S. Paulo. Ao polemizar com ele nas páginas do jornalão dos Frias pude mostrar o quanto havia de errado nas fantasias que circulavam na esquerda, começando pelo fato de que eram duas e não uma as áreas de treinamento guerrilheiro da VPR.

Foi minha primeira chance de expor o meu lado naquele episódio. Ao revelar que eu só conhecera a área 1 (desativada) e não estivera na área 2 (desbaratada pela repressão), coloquei um ponto de interrogação na mente de muitos companheiros que haviam acreditado piamente na versão mais falada.
Eu no centro, como um dos imortais da Oban
(nosso apelido para cartazes de procurados)
  

Logo em seguida eu tomei conhecimento de um relatório do II Exército que continha a data exata em que a repressão obteve, a partir de uma prisão efetuada  naquele dia, a localização exata da área 2 da Vanguarda Popular Revolucionária e iniciou os preparativos para o desencadeamento da Operação Registro: 18 de abril de 1970. 

Como eu havia sido preso dois dias antes, foi uma comprovação de que a lenda sobre ter sido eu o delator era uma falsidade e uma ignomínia (companheiros que não aguentaram a tortura descarregaram suas vaciladas sobre mim, transformando-me num indefeso bode expiatório, já que, preso, não tinha como contestar as inverdades). 

Pouco depois, Jacob Gorender, o maior historiador da luta armada brasileira, escreveu uma carta para a Folha de S. Paulo afiançando que eu era mesmo inocente daquela acusação infame. 

Foi o fim de um pesadelo de 35 anos e a reconquista da minha credibilidade para travar as lutas que surgissem no meu caminho. Era um tempo de batalhas ideológicas muito inflamadas na internet, tendo eu e o Ivan Seixas sido os maiores defensores no Orkut da memória da luta armada e dos combatentes que a haviam travado. 

Quando o guru dos bolsonaristas, Olavo de Carvalho, me atacou,  aceitei o desafio e botei-o para correr numa polêmica de três artigos cada.

Já o comentarista de tevê Boris Casoy me acionou na Justiça Criminal por haver-me referido a ele como antigo membro do nefando Comando de Caça aos ComunistasPenei para arrumar advogado que me defendesse gratuitamente, pois atravessava uma grave crise financeira, mas o Sindicato dos Jornalistas de SP acabou me socorrendo.
E um artigo sobre o CCC, publicado em 1968 pela Realidade, decidiu a questão: numa publicação de circulação nacional, Casoy era citado com membro da Juventude do CCC, portanto eu não cometia crime nenhum ao acreditar no que li na revista. 

O juiz de primeira instância concluiu que eu estava protegido pela liberdade de imprensa e não houve recurso contra sua decisão.

Enfim, o lançamento do Náufrago da Utopia ocorreu num momento em que eu completava uma guinada na minha vida passando a perseguir sem entraves os objetivos que durante 35 anos não pude buscar, por causa da estigmatização que sofria.  

Mesmo assim, tive dois bons momentos, levando à vitória a greve de fome dos quatro de Salvador e sendo talvez o único esquerdista a solidarizar-se na grande imprensa com o Paulo de Tarso Venceslau, expulso injustamente pelo PT

Depois que os caminhos se abriram, ainda travei lutas menores, além de uma que pareceu a concretização de uma visão de quando, lá pelos meus 13 ou 14 anos, encontrei numa biblioteca circulante aquela que seria minha primeira leitura de um livro sobre política adulta: A tragédia de Sacco e Vanzetti, do Howard Fast. Fiquei, evidentemente, indignado com a injustiça cometida contra aqueles dois anarquistas italianos nos EUA.

Em 2008 o Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti pediu-me ajuda e eu aceitei sem pestanejar.

Nunca me oferecia para atuar em episódios que estavam obtendo destaque na mídia (não queria ser chamado de caçador de holofotes), mas, quando estava em condições de prestar um grande auxílio a companheiros que recorriam a mim,  sempre atendia a suas solicitações. 

Via isto como era uma obrigação para um veterano que participara de uma luta com enorme letalidade do nosso lado. O mínimo que eu podia fazer para honrar o sacrifício dos companheiros era nunca recusar ajuda para um companheiro dela necessitado. 

Foram três anos (2008/2011) de uma luta extremamente desigual, contra a imprensa burguesa e o imenso poder de fogo de um país do primeiro mundo, que, ademais, jogava pra lá de sujo. Eu escrevia artigos quase diários, refutando as falácias da grande imprensa e pleiteando espaço para apresentar o contraditório, quase sempre negado. 

Ademais, atravessei o país fazendo palestras e participando de debates sobre o Caso Battisti. Meus textos eram publicados por vários sites e portais, então não seria pretensioso dizer que, na web, tive um papel destacado para a mudança de posição dos companheiros.

Talvez minha melhor contribuição haja sido ter-me tornado um repositório das informações de cocheira: por ser também jornalista e haver travado minhas polêmicas protegendo ciosamente tudo que tivesse obtido em off, colegas da grande imprensa começaram a me passar as informações sobre os círculos do poder que não podiam publicar em seus próprios veículos.

Inclusive uma valiosíssima: a de que o Lula, em fins do segundo mandato, não mexeria uma palha caso o STF, sozinho, extraditasse Battisti. Mas, se o abacaxi caísse na mesa dele, vetaria a extradição.

Graças a isso lutamos até o último argumento para que a decisão do caso não se desse no Supremo, no qual perdíamos todas as votações por 5x4, mas pelas mãos do Lula. O resto é História.

Gostaria de ter feito mais, contudo não consegui  o respaldo da esquerda organizada, que evitaria muitos vexames se aceitasse as estratégias que eu lhe propunha. Um consolo foi ter, no blog Náufrago da Utopia, combatido Jair Bolsonaro durante todo o ano eleitoral de 2018 e ao longo do seu famigerado mandaato.

Quando muitos se retraiam, temendo uma Operação Jacarta (massacre de opositores na Indonésia), não alteramos em uma vírgula sequer a linha editorial do nosso blog.

Concluindo: não daria para falar sobre o livro Náufrago da Utopia sem lembrar o contexto no qual foi escrito e os desdobramentos que gerou. Em termos literários, ele foi criado sob pressão máxima, pois devia vários aluguéis e estava ameaçado de despejo. 

O adiantamento que a Geração Editorial me prometeu contra a entrega do texto integral fez com que o terminasse em apenas 5 sofridas semanas. Para escrevê-lo fui obrigado a procurar informações sobre o destino de vários companheiros, o que há muito evitava fazer porque, quando ficava sabendo que haviam tido uma morte terrível nas garras da repressão, isto me deprimia demais. 

Então, parte do seu encanto advém de ser um livro escrito sob uma tremenda carga emocional, algo como a Autobiografia Precoce do Eugene Evtuchenko.

Uma decisão importante que tomei foi a de escrever com a isenção de um historiador, jamais escondendo ou maquilando episódios em que os personagens a mim simpáticos não se comportaram à altura do que deles eu esperava. 

Sempre detestei o culto à personalidade. A grandeza dos personagens históricos que a tinham em nada diminuía com o divulgação de seus maus momentos, pois estavam, como todos nós, longe de serem infalíveis.  Isto os fazia mais humanos. E a verdade é revolucionária.
A defesa dos direitos humanos é uma
prioridade do blog Náufrago da Utopia
.

Por que dividi o livro em três partes, as duas primeiras narradas na terceira pessoa e só a terceira parte na primeira pessoa? Foi uma forma de escapar ao constrangimento de relatar as torturas que sofri como quem as sofreu. Adotando a terceira pessoa, as torturas se referiam ao personagem Júlio, não a mim. 

Senti-me melhor assim, embora saiba que ser torturado por um estado policial não é vergonhoso, muito pelo contrário. Mas nem sempre as racionalizações  prevalecem sobre as emoções.

O Náufrago da Utopia foi um livro por muito tempo sonhado, daí a rapidez com que foi criado. Então, o uso da terceira pessoa nas partes iniciais também servia para descaracterizá-lo, no início, como autobiografia. 

O foco que eu escolhera fora mostrar oito jovens estudantes iniciando-se nos caminhos da revolução, mas da forma como tais personagens viam os grandes acontecimentos em cada momento. Ou seja, não como passado recordado mas sim como presente acontecendo. A primeira parte, com todo seu esforço de contextualização, é um painel sobre o movimento estudantil, a ditadura, a luta armada.

Depois, palestrando em escolas secundárias, tive a satisfação de ouvir alunos comentando que não sabiam nada sobre a ditadura, mas, depois do lerem meu livro, começaram a interessar-se pelo assunto. Fiquei emocionado. 

Quando já havia terminado as duas primeiras partes, me veio a ideia de adotar a primeira pessoa na parte final. Por quê? Para que ela fosse fiel ao meu ser  daquele momento. 

Eu não era mais o idealista ingênuo que havia sido quase destruído pela repressão nem o jornalista que adotava o pseudônimo de André Mauro para evitar problemas com a censura. Assumindo meu nome e minha história, estava recuperando a credibilidade. Tinha decidido ser, até o fim dos meus dias, um combatente da palavra, que em determinadas circunstâncias é mais eficiente do que as armas.

Aos jovens que me procuravam para saber qual minha opinião sobre uma nova luta armada, sempre mostrei cruamente como a dita cuja pode ser trágica quando a correlação de forças nos desfavorece tal qual agora. 

Aconselhava-os a, antes de mais nada,  irem aonde o povo estava, arregaçando as mangas e efetuando a laboriosa tarefa de politização do povão. Os voos maiores dependeriam do seu desempenho nessa etapa de acumulação de forças, pois hoje a correlação está totalmente desfavorável a nós

Encerro este artigo atual com o parágrafo final do livro de 2005:
"As cruzadas para mudar o mundo são repletas de armadilhas e sofrimento. Espero que ninguém mais entre de novo numa luta sanguinária com a ingenuidade do meu grupo secundarista em 1968. Mesmo assim, o mundo precisa ser transformado".

Desde então, o que mudou foi a premência da transformação do mundo, pois estamos  sob forte ameaça de extinção da espécie humana pelas alterações climáticas. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O ÚLTIMO ATO DE UM DRAMA HISTÓRICO QUE COMEÇOU HÁ 46 ANOS

Veículos revistados: sem resultados concretos.
"Jogaram a viola no mundo,
mas fui lá no fundo buscar"
(José Carlos Capinam)
Com a chegada às livrarias do livro 1970, a guerra no Vale do Ribeira, no início do mês que vem, estará sendo finalmente revelada a verdade sobre como os órgãos de repressão da ditadura ficaram conhecendo a localização exata da escola de guerrilha da Vanguarda Popular Revolucionária em Jacupiranga (SP), ponto de partida da fracassada Operação Registro, quando mobilizaram quase 3 mil homens para a caçada a um punhado de guerrilheiros e nem assim evitaram que escapasse aquele a quem mais queriam agarrar. 

Sou parte desta história: durante 34 anos me apontaram como o autor da delação. 

Num primeiro momento, em companhia de Massafumi Yoshinaga, como se vê neste manifesto de setembro de 1970. Tal versão não se sustentou pois, embora o nissei houvesse rompido publicamente com a VPR, nada tinha a ver com a queda da área e seu nome estava sendo citado como mera retaliação.
No processo da foto famosa da Dilma...

A minha suposta culpa foi tão propalada entre militantes, simpatizantes e admiradores da esquerda que, quando finalmente deixei os cárceres militares, nada havia a fazer. A imprensa, sob censura, não publicaria a minha versão, nem eu tinha como fazê-la circular nos círculos esquerdistas. 

Então, sob intensa estigmatização, só me restou o caminho do isolamento numa das comunidades alternativas que pululavam então. Alheio às invencionices sobre mim que abundavam lá fora e apoiado por pessoas que acreditavam em mim, superei os traumas e me reconstruí (o Massafumi, coitado, sucumbiu ao linchamento moral, acabando por enlouquecer e se matar).

Cheguei, na segunda metade da década de 1970, a receber proposta de outro agrupamento de esquerda (a VPR fora dizimada e os sobreviventes a dissolveram): divulgaria declarações minhas sobre as torturas que me haviam sido infligidas (no DOI-Codi/RJ quase enfartei e na PE da Vila Militar/RJ sofri lesão permanente), reabilitando-me para que pudesse retomar a militância, em escalão inferior.

O acordo emperrou na minha exigência de contar também que estava sendo feito de bode expiatório no tocante à delação da escola de guerrilha. Era compreensível que quisessem preservar a aura de heroísmo e martírio da VPR, mas eu não estava disposto a passar para a História como o vacilão que destruíra o sonho do comandante Carlos Lamarca. 
...eu era outro dos réus.

Quando a sanha ditatorial arrefeceu e a grande imprensa começou a me procurar, pude enfim denunciar pormenorizadamente as torturas que sofrera, mas os focos das reportagens eram outros e o caso de Jacupiranga não interessou a nenhum veículo. 

Em meados de 1994, o jornalista e escritor Marcelo Paiva imputou-me tal delação, em reportagem que saiu na capa do caderno de Variedades da Folha de S. Paulo. Retruquei, ele treplicou e encerramos a polêmica com um artigo cada.

Inicialmente, ele repetiu a versão simplificada: eu tinha estado na área, sabia a localização e a revelara ao DOI-Codi.

A minha réplica trouxe informação nova para o público de esquerda: eram duas as áreas. Eu fizera parte da equipe precursora que fora preparar o terreno para a chegada dos aprendizes, mas o sítio adquirido pela VPR fora considerado inadequado, com o trabalho sendo transferido para outro lugar.
Na fase de torturas

Decidida a desocupação da área 1, fui incumbido de criar um serviço de Inteligência no Rio de Janeiro. Isto porque, desconhecendo a localização da área 2, mesmo que fosse preso não colocaria a atividade principal em risco. 

Em 2004, tomei conhecimento de um relatório de operações do II Exército que corroborou totalmente a minha versão, apresentando a seguinte cronologia dos acontecimentos:
  • no dia 16/04/1970 eu revelei ao DOI-Codi/RJ a existência e localização da área 1;
  • no dia 17, o DOI-Codi/SP enviou duas equipes para lá;
  • no dia 18, ambas voltaram para São Paulo trazendo a informação de que a área efetivamente existia, mas estava abandonada, sem atividades guerrilheiras;
  • no mesmo dia 18, a partir de nova prisão efetuada pelo DOI-Codi/RJ, foi descoberta a existência de uma segunda área, esta sim ativa, na mesma região.
Carta do principal historiador da luta armada brasileira, Jacob Gorender, publicada na Folha de S. Paulo, deu-me razão:
"A respeito dessa segunda área, nenhuma responsabilidade cabe a Celso Lungaretti, que ignorava a sua existência. Sua vinculação com o episódio restringiu-se, por conseguinte, à informação sobre a área que sabia desativada, fornecida, segundo afirma, sob tortura irresistível".
Enfim, toda a verdade.
As pessoas mais interessadas e bem informadas passaram a reconhecer a minha inocência. E, repugnando-me o papel de apontar outrem para sofrer estigmatização no meu lugar, preferi manter a coisa no pé em que Gorender a deixou; eu saíra da berlinda e ninguém nela entrou. O nome da pessoa responsável só aparecia na web (num ou noutro artiguete da extrema-direita, que só fanáticos leem).

As emoções, com o tempo, vão sendo substituídas pela reflexão serena. Percebi que tais detalhes eram, na verdade, irrelevantes. Fundamental havia sido a extrema disparidade de forças que nos tangia inexoravelmente para a derrota final, não a forma como cada batalha foi perdida.

É uma ingenuidade acreditar que os bons serão sempre recompensados e os maus castigados, mas foi este primarismo emocional que tornou necessárias válvulas de escape como a busca sôfrega de culpados nos quais concentrar as pedras, uma espécie de catarse face ao inconformismo com um desfecho difícil de engolir. Daí para ser satanizado também quem não era culpado e quem era menos culpado, foi só um passo.

E, tendo passado pelos trituradores de carne da repressão política, jamais me permitirei julgar o comportamento de nenhum prisioneiro político forçado a dizer o que não queria. Mas, o pecado da pessoa cujo ato me foi atribuído por 34 anos é outro: o da total falta de solidariedade para com um companheiro que foi ao inferno no lugar dela. Fraquezas na sala de tortura são compreensíveis, mas não a atitude de alguém que, em segurança e com todo conforto, decidiu que um inocente sofreria no seu lugar.

Sou um homem de princípios: considerei que me cabia apenas o papel de esclarecer a minha participação. Mas, até por senso de justiça, torcia para que toda a verdade acabasse sendo resgatada e exposta.

O ideal, para mim, seria que o fizessem aqueles a quem concerne tal papel: historiadores, jornalistas ou escritores.

Demorou, mas isto acabou ocorrendo. E, curiosamente, por alguém que, parcial ou totalmente, preenchia os três requisitos: Celso Luiz Pinho, um jornalista que escreve livros sobre episódios históricos.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

QUE TODOS OS DOCUMENTOS SEJAM REVELADOS! (mensagem a Aluízio Palmar)

PREZADO ALUÍZIO,

FIQUEI ESTARRECIDO COM A PUBLICAÇÃO RECENTE [no seu site Documentos Revelados] DE UMA VERSÃO ANTIGA, TOTALMENTE SUPERADA, SOBRE COMO CAIU A ÁREA DE TREINAMENTO GUERRILHEIRO DA VPR EM REGISTRO.

POR QUE SÓ UM DOS TEXTOS DA POLÊMICA QUE TRAVEI COM O MARCELO PAIVA, E NÃO TODOS? FORAM 5, PUBLICADOS NA FOLHA DE S. PAULO:
  • O INICIAL DO MARCELO, ENVOLVENDO MEU NOME NUM ASSUNTO QUE VERDADEIRAMENTE NÃO ME DIZIA RESPEITO;
  • MINHA RÉPLICA;
  • A TRÉPLICA DO MARCELO;
  • A RODADA FINAL, COM NOVAS INTERVENÇÕES MINHA E DELE.
DESSES 5 TEXTOS, VOCÊ COLOCOU SÓ A TRÉPLICA DELE. FICOU SEM PÉ NEM CABEÇA, ATÉ PORQUE ELE RECONHECEU MAIS TARDE QUE EU ESTAVA CERTO E ELE SE DEIXARA LEVAR POR AFIRMAÇÕES TENDENCIOSAS.

AFORA O FATO DE QUE O JACOB GORENDER MANDOU CARTA À FOLHA DE S. PAULO, QUE A PUBLICOU NO PAINEL DO LEITOR, INOCENTANDO-ME NO EPISÓDIO DA ÁREA.

TODOS ESSES TEXTOS ESTÃO REPRODUZIDOS IPSIS LITTERIS NO APÊNDICE DO MEU LIVRO "NÁUFRAGO DA UTOPIA", COM DATAS E OUTROS DETALHES.

EU TINHA TUDO ISSO SALVO NO MEU COMPUTADOR, MAS UM PAU ME FEZ PERDER UMA INFINIDADE DE ARQUIVOS IMPORTANTES. DE QUALQUER FORMA, SÃO FACILMENTE LOCALIZÁVEIS. E, NO "NÁUFRAGO", EU OS REPRODUZI COM MÁXIMA EXATIDÃO, MANTENDO ATÉ OS ERROS DE PORTUGUÊS...

DE RESTO, SE VOCÊ PESQUISAR INFORMAÇÕES MAIS RECENTES, SABERÁ QUE A IDENTIDADE DE QUEM FORNECEU À REPRESSÃO A LOCALIZAÇÃO EXATA DA ÁREA 2 DE REGISTRO (EU SÓ ESTIVE NA 1, ABANDONADA) JÁ É AMPLAMENTE CONHECIDA.

CONTINUO CONSIDERANDO DESELEGANTE EU MESMO APONTAR TAL PESSOA, MAS HOJE NÃO É MAIS MISTÉRIO NENHUM. LAMENTAVELMENTE, ESTAVA NUM PATAMAR HIERÁRQUICO SUPERIOR AO MEU, TUDO LEVANDO A CRER QUE A OPÇÃO DA VPR FOI DEIXAR A CULPA SER ATRIBUÍDA A UM JOVEM QUASE DESCONHECIDO NA ESQUERDA PORQUE A REVELAÇÃO DA VERDADE SERIA MUITO CONSTRANGEDORA E ATÉ PREJUDICARIA A ATRAÇÃO DE NOVOS RECRUTAS.

SEMPRE TE CONSIDEREI UM COMPANHEIRO HONESTO, ALUÍZIO. ESPERO QUE VOCÊ PUBLIQUE O OUTRO LADO DESTA QUESTÃO, PARA NÃO PERPETUAR UMA TERRÍVEL INJUSTIÇA E PARA SER FIEL AO COMPROMISSO QUE VOCÊ ASSUMIU, DE AJUDAR A TORNAR CONHECIDA A VERDADEIRA HISTÓRIA DOS ANOS DE CHUMBO.

PODE ATÉ SER DESCONSIDERADO O E-MAIL DE RETRATAÇÃO DO MARCELO PAIVA (QUE NÃO O DESMENTIU DEPOIS QUE O CITEI NO MEU LIVRO E ESTÁ VIVO PARA CONFIRMAR SUA POSIÇÃO ATUAL A ESTE RESPEITO --INCLUSIVE, NUM LIVRO QUE ELE PRÓPRIO ESCREVEU MAIS TARDE SOBRE OS ACONTECIMENTOS DE REGISTRO, FOI BEM MAIS EQUILIBRADO NA AVALIAÇÃO DO MEU PAPEL HISTÓRICO).

OS 5 TEXTOS DA POLÊMICA PUBLICADOS PELA FOLHA DE S. PAULO E A CARTA DO GORENDER TAMBÉM SÃO DOCUMENTOS QUE AJUDAM A COMPREENDER ESSE EPISÓDIO HISTÓRICO. AGRADECEREI MUITO SE TAL INFORMAÇÃO FOR IGUALMENTE DISPONIBILIZADA NO SEU SITE, EQUILIBRANDO OS PRATOS DA BALANÇA.

ATENCIOSAMENTE,

CELSO LUNGARETTI
(06/08/2015, sem
resposta até agora)

sábado, 19 de abril de 2014

O PATRÍCIO MINO ME VÊ COMO "RUDE" E "IGNARO". ADMITO: SOU MESMO PLEBEU. COM ORGULHO!

Não jogo xadrez há alguns anos, mas tenho espírito de enxadrista. Gosto de encarar desafios.

Vem daí meu interesse por polêmicas, principalmente sob o ângulo da estratégia e tática adotada pelos contendores.

Grandes polemistas foram: 
  • Karl Marx, que, em Miséria da filosofia, fez picadinho de Pierre-Joseph Proudhon e seu livro Filosofia da miséria. O velho barbudo era simplesmente brilhante, mas tinha o defeito de amiúde exceder-se na virulência. Não deveria ter antagonizado de forma tão exacerbada um contendor do campo da esquerda, tratando-o pior do que aos inimigos de classe;
  • Paulo Francis, que travava muitas e ganhava quase todas, tendo feito com a feminista Irede Cardoso exatamente o que Marx fez com Proudhon (passou como um trator por cima dela):
  • Roberto Campos, menos dado ao sarcasmo e às alfinetadas que os outros dois, mas capaz de esgotar totalmente os assuntos sobre os quais discorria, deixando os adversários num mato sem cachorro, impotentes para responderem à altura.
Humildemente admito que ainda estou muito longe desses três modelos. Mas, a voz corrente é de que me sai bem contra Marcelo Paiva (que não era propriamente um adversário, mas sim um companheiro que estava muito mal informado a meu respeito) e Olavo de Carvalho (este sim um antípoda ideológico, a quem, contudo, respeitei demais, apenas voltando contra ele os ataques que me lançava, quando deveria é ter-lhe virado um caminhão de melancias em cima, pois hoje percebo que jamais passou de um tigre de papel).

Uma polêmica totalmente desequilibrada é a que está em curso entre Mino Carta e Demétrio Magnoli, cujos textos são os seguintes (clique p/ abrir):
Embora considere indesculpável a arrogância com que o MC me excluiu à última hora de uma matéria de capa da Carta Capital depois de eu haver desperdiçado horas e horas falando à sua repórter e posando para seu fotógrafo, e também o deplorável papel de caçador de bruxas que desempenhou no Caso Battisti, confesso que neste sábado, ao tomar conhecimento do tiro de misericórdia com que Magnoli o despachou, cheguei a sentir dó dele.

Não bato em bêbados, crianças, mulheres, deficientes físicos, idosos e, enfim, em ninguém que seja incapaz de se defender (mesmo bichos...). A lista, a partir de agora, passa a incluir o MC. Não o desafiarei mais, como vinha fazendo, na esperança de puni-lo exemplarmente pelos episódios acima citados.

Por quê? Porque, depois de vê-lo reduzido a pó de traque pelo Magnoli, percebo que não haverá mérito nenhum em repetir o massacre. Seria, isto sim, uma covardia.

A menos que, como no filme Wild Bill (d. Walter Hill, 1995), houvesse um jeito de colocá-lo em igualdade de condições. Bill Hickock (Jeff Bridges), desafiado a travar tiroteio com um cadeirante (Bruce Dern), pede para ser atado a uma cadeira. Mas, como em polêmicas isto é impossível, esquece! 

O que não implica passar batido pela bílis que MC, em seu descontrole, venha a expelir sobre mim. Como estas pessimamente traçadas (ridiculamente empoladas) linhas:
"Raymundo Faoro, amigo fraterno e companheiro de algumas aventuras, recomendava: 'Não exagere em ironias, eles acham que você fala sério'. Eles, os privilegiados rudes e ignaros. Digamos, os Magnolis e quem acredita neles, e quem os divulga (grifo meu, já que se trata de uma óbvia alusão a este artigo)".
Não aceito, evidentemente, a pecha de divulgador do Magnoli. Na verdade, o que fiz foi dar o máximo de quilometragem ao editorial que o dito cujo desencavou nos arquivos da veja: aquele no qual, por ocasião do sexto aniversário do golpe de 1964, MC proclamou sua admiração incondicional pelos militares, chegando ao cúmulo de louvar os esforços dos fardados no combate à corrupção e à subversão!!! [A alegação de que se tratava de ironia é um insulto à nossa inteligência...] 
Isto também era ironia?

Privilegiado?! Esta é a última acusação que me pode fazer quem atravessou a ditadura a pão-de-ló, enquanto eu comia o pão que o diabo amassou. 

Rude e ignaro?! É exatamente como os patrícios costumavam se referir à plebe na Roma antiga. Freud qualificaria tal escolha de palavras de ato falho. Já o homem da rua diria que MC, narcisista a ponto de levar a sério o apelido louvaminhas de 'imperador', se entregou, deixando perceber quais são realmente suas devoções.

Quanto a mim, jamais aspirarei a ser algo além de plebeu, filho de um honrado operário da Mooca. Mesmo assim, certos aspirantes a uma condição aristocrática que não é de berço (pois ascenderam à sombra do poder, qualquer poder) têm uma paúra imensa de enfrentar meus argumentos rudes e ignaros. Por que será?

sábado, 9 de fevereiro de 2013

EXÉRCITO FAZ A COMISSÃO DA VERDADE DE GATO E SAPATO

Logo que surgiram as primeiras especulações sobre quem integraria a Comissão Nacional da Verdade, dando como favas contadas que a presidente Dilma Rousseff honraria a INCONCEBÍVEL, INACEITÁVEL e DESONROSA promessa feita à bancada evangélica no Congresso, de não indicar nenhuma vítima direta da --militante torturado(a) pela-- ditadura de 1964/85, lancei minha anticandidatura, primeiramente como forma de protesto.

NUNCA ADMITIMOS SER IGUALADOS AOS NOSSOS ALGOZES, que tentam justificar suas atrocidades com a  desconversa de que os dois lados cometeram excessos. E o veto tanto aos criminosos da ditadura quanto aos antigos resistentes significava exatamente isto, a presunção de que ambos seriam identicamente inconfiáveis.    

Pensei também numa remota hipótese de mexer com os brios da esquerda, fazendo com que ela saísse de sua tradicional posição majoritária de atrelamento incondicional ao governo petista (enquanto a minoritária é de apenas negar tudo que o governo do PT faz e ficar de fora criticando). Sonhava vê-la levantando a bandeira da não capitulação diante dos parlamentares reacionários.

A presença de pelo menos um membro aguerrido seria fundamental para dificultar a previsível acomodação diante da resistência da caserna à revelação da verdade.

Alguém precisava pagar para ver quando os militares blefassem, como blefaram no célebre episódio do ultimatum do alto comando do Exército ao Governo Lula, em 2007 (vide aqui). 

Sabendo que meu nome não uniria a esquerda, várias vezes citei o companheiro Ivan Seixas, o grande responsável pelo resgate das ossadas de Perus, como segunda possibilidade. Se houvesse alguma mobilização para apoiá-lo, eu seria o primeiro a aderir, abdicando da minha anticandidatura.

Clamei no deserto. Os petistas e os caudatários do petismo se comportaram como tais e não como sobreviventes de uma carnificina na qual foram imolados alguns dos melhores cidadãos que este país já produziu. E os derrotistas deram a batalha por perdida sem sequer travá-la, como sempre.

Empossada há nove meses, o que essa domesticada comissão da verdade realmente produziu, afora a correção de um atestado de óbito famoso, retumbantes divulgações acerca do que todos estávamos carecas de saber e miudezas em geral? Valeu a pena a esquerda ter trocado a exigência de cumprimento da decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, de punição dos carrascos do Araguaia, por prêmio de consolação tão ínfimo?

Se alguém ainda tinha dúvidas a respeito do verdadeiro papel dessa CNV, a entrevista que o escritor Marcelo Paiva deu à Folha de S. Paulo neste sábado (09) é suficiente para as desfazer, ao revelar que, sob seu nariz, os militares sequestraram o arquivo confidencial do coronel Júlio Miguel Molinas, ex-chefe do DOI-Codi do Rio de Janeiro:
"...um dia depois da morte dele [1º/11], houve uma operação do Exército que cercou a casa e levou caixas e caixas de documentos. A CNV é que deveria ter chutado a porta do cara com um grupo de investigadores de alto nível, porque afinal é uma comissão oficial do governo brasileiro. Devia ter pegado essas caixas".
Adiante, o Exército entregou à CNV apenas e tão somente os textos referentes ao assassinato de Rubens Paiva e ao atentado do Rio Centro. O que mais haveria?

Nunca saberemos, pois, mesmo que a Comissão exija agora o acervo total, não haverá como determinar-se se foram subtraídos os documentos mais melindrosos. O Exército tem uma longa tradição de os incinerar, como até o Fantástico contatou, no episódio da base aérea de Salvador (vide aqui).

Isto para não falar da grande queima de arquivos do segundo semestre de 1981, quando quase 20 mil documentos secretos foram reduzidos a cinzas (vide aqui).
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