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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A IGREJA CATÓLICA SE DESMORALIZA: UM HERDEIRO DO INQUISIDOR TORQUEMADA SILENCIA O PADRE JÚLIO LANCELLOTTI

Dos sacerdotes católicos mais respeitados pela esquerda, não conheci D. Elder Câmara, fiz uma entrevista inesquecível com D. Paulo Evaristo Arns (vide aqui) e  admiro o trabalho do padre Júlio Lancellotti, de uma paróquia da Mooca, meu bairro de origem.

Ele acaba de receber de um herdeiro do Torquemada chamado Odílio Scherer, dito arcebispo apesar de nem de longe fazer jus à investidura, uma ordem absolutamente medieval: a de suspender de imediato todas as suas atividades nas redes sociais e interromper as transmissões ao vivo de missas.

Os conservadores e bolsonaristas cuja perseguição ao padre Júlio está por trás de tal medida aberrante também estão tramando sua transferência da paróquia de São Miguel Arcanjo, na qual atua há mais de quatro décadas como defensor incansável dos moradores de rua.

A perseguição dos reaças ao padre Júlio vem de longe e agora chegou ao ápice. Ele protagonizou um episódio emblemático em 2021: a prefeitura colocou obstáculos embaixo de um viaduto para os sem-teto não poderem dormir. Ele foi lá com uma marreta e arrebentou os obstáculos. Fez o que o PT deveria estar fazendo, mas não faz mais.

Minha total solidariedade ao padre Júlio. Meu total repúdio a esses inquisidores que não têm lugar em pleno século 21. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

LEONARDO SAKAMOTO: "AS MARRETADAS DO PADRE JÚLIO LANCELLOTI CONSTROEM UM FUTURO MENOS SOMBRIO PARA SP"

A
s imagens do padre Júlio Lancellotti derrubando, nesta 3ª feira (2), pedras colocadas pela Prefeitura de São Paulo para impedir que pessoas em situação de rua pudessem descansar na Zona Leste da capital viralizaram nas redes sociais. 

Se, por um lado, elas demonstram o pior da insensibilidade e do elitismo de nossa maior cidade, por outro deixam claro que a resistência segue viva, derrubando pedras embaixo do viaduto a marretadas, nas palavras do próprio coordenador da Pastoral do Povo de Rua. 

A administração municipal disse à Folha de S. Paulo que exonerou o responsável pela obra, sem dizer quem foi o gênio, e começou a retirada das pedras. Em última instância, contudo, o verdadeiro responsável não é anônimo: estava assistindo a Palmeiras e Santos, numa aglomerada arquibancada do estádio do Maracanã, neste sábado de pandemia. 

São Paulo sobrepõe preocupações estéticas aos princípios éticos no trato com a coisa pública. E, portanto, a zeladoria de um lugar acaba se tornando mais relevante do que o cuidado com os cidadãos mais vulneráveis que lá estão. Bruno Covas não foi o primeiro e não será o último. 

Em julho de 2017, após a capital paulista ter registrado a madrugada mais fria do ano até então, equipes da gestão João Doria lavaram a Praça da Sé com jatos de água, molhando as pessoas em situação de rua que dormiam por lá, além de seus cobertores e pertences. 

Em 2014, a gestão Fernando Haddad implementou paralelepípedos ao redor das pilastras do metrô na Zona Norte de São Paulo, local onde pessoas em situação de rua costumavam dormir. 

Tanto os prefeitos Gilberto Kassab quanto José Serra ergueram estruturas bisonhas que ficaram conhecidas como
rampas antimendigo, impedindo que seres humanos por lá descansassem. 

O padre Júlio é uma pedra no sapato de muita gente. Eu, que não creio, dou graças a Deus por ele existir. 

Seu trabalho incansável, muitas vezes realizado sob ameaça de morte, me lembra uma citação atribuída a outro gigante, Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: "Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista". (um artigo de Leonardo Sakamoto)
TOQUE DO EDITOR – Se as únicas opções dadas aos mendigos (detesto eufemismos, a rua não é situação para ninguém!!!) forem a de se deitar sobre pedras ou sair em busca de um lugar onde não tenham de imitar faquires, é óbvio que o padre Júlio fez muito bem.

Mas, tendo morado durante duas décadas ao lado de um vão do minhocão no qual os mendigos se concentravam por causa da distribuição de alimentos ali realizada pela pastoral, nunca me conformei em ver seres humanos abandonados para irem morrendo aos poucos, em nome do direito que eles teriam de dispor como bem entendessem de suas sofridas existências.
Cracolândia, no centro velho de Sampa: nela os viciados exercem o direito de agonizarem em público.
O exercício de tal direito prevalecia sobre o nosso, os moradores da região, de não termos nossas crianças expostas a cenas degradantes como as de os mendigos consumirem crack, transarem e defecarem em público; agredirem quem lá residia ou por lá passava (sim, existiam os doidos furiosos que perseguiam as pessoas pacíficas com porretes!); roubarem roupas nos varais, etc. 

Eu jamais me conformei com tal solução, de as autoridades lavarem as mãos, permitindo que eles vivessem e morressem onde lhes desse na telha, sem real empenho em recolhê-los, alimentá-los e tratá-los. 

Era óbvio que, se os mendigos detestavam tanto os recolhimentos à sua disposição, era porque lá sofriam espancamentos e maus tratos tais que, a neles permaneceram, preferiam sujeitar-se ao frio, à chuva, à crueldade humana (como a dos pivetes que lhes tacavam fogo) e a longas caminhadas diárias até pontos de distribuição de alimentos.
Quando a polícia os expulsava, saíam arrastando-se como zumbis pelas ruas da cidade, mas logo voltavam.
Mas, a responsabilidade do Estado, de dar-lhes tratamento de gente e não de animais nos canis públicos, continuava existindo. E, porque tal omissão era tolerada pelas pastorais por motivos ideológicos, a coisa degenerou em cracolândias e chacinas.

Tudo errado. E a cultura da insensibilidade preparou psicologicamente os cidadãos para pouco se revoltarem diante de uma omissão maior ainda, a do genocida governo federal (bem como de aprendizes de genocídio estaduais e municipais) diante das mortes causadas pela pandemia.

As marretadas devem mesmo ser dadas. Mas, na direção dos verdadeiros responsáveis por toda essa desumanidade com a qual convivemos dia após dia! (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A LIÇÃO QUE FICOU DA ADMINISTRAÇÃO POPULAR DE FORTALEZA: PELAS URNAS A CLASSE OPERÁRIA NÃO VAI AO PARAÍSO

NÃO TENHO SAUDADES, MAS CONFESSO QUE APRENDI

Era dia 17 de novembro de 1985 e terminava a apuração de votos (que naquele tempo era manual), confirmando os prognósticos das empresas especializadas: dera-se a primeira vitória de uma candidata do PT a um cargo executivo da importância da prefeitura de Fortaleza, quinta maior cidade do Brasil.

Uma multidão exultava diante do local de apuração, o Ginásio Paulo Sarasate. Tendo participado da coordenação da campanha (juntamente com Jorge Paiva, o coordenador geral, e outros menos votados, como o atual deputado federal José Guimarães, do PT), eu assistia àquela profusão de contentamento da multidão com um misto de alegria e preocupação. 

Lembro-me que estávamos em cima de uma Kombi, eu e o então deputado federal do PT José Genuíno (cearense radicado em São Paulo, que viera para o evento à última hora). Ele, percebendo minha alegria contida, que certamente transmitia certa dose de contrição, perguntou-me: você não está feliz?  Respondi-lhe que sim, mas também preocupado com o day after, pois aquela multidão estava se sentindo redimida e a nossa vitória não significava, obviamente, a redenção.
Na euforia da vitória; dias piores viriam.
Havíamos obtido a vitória eleitoral justamente em função do caos que marcara os governos de prefeitos nomeados por governadores que, por sua vez, eram escolhidos pela ditadura militar. Ainda por cima, as prefeituras daquela época não tinham autonomia financeira, pois esta só viria quando a Constituição de 1988 passasse a vigorar, no ano seguinte.    

No nosso caso particular, as dificuldades eram evidentes: não dispúnhamos de nenhum vereador do PT ou de qualquer partido de esquerda; nenhum deputado estadual; e nenhum deputado federal na bancada cearense. 

Eu viria a ser o secretário de Finanças, incumbido de administrar a falência da prefeitura de Fortaleza.

Os meus receios não tardaram a ser confirmados pelo desenrolar dos acontecimentos:
— com 15 dias de governo, as categorias profissionais que haviam conquistado o piso salarial correspondente (graças, em grande parte, à nossa luta) estavam prontas para cobrar a implementação de tais conquistas, embora o orçamento já fosse deficitário; 
Reunião com o secretariado: abacaxis para descascar
— a empresa de ônibus de propriedade da prefeitura exigia o aumento do preço das passagens, como forma de cobrir o déficit que vinha sendo subsidiado pela receita da própria prefeitura, cujas finanças estavam combalidas; 
— os empresários de ônibus, idem;  
— as empresas de coleta de lixo, pressionando ao máximo que fossem efetuados os pagamentos em atraso, deixavam, premeditadamente, de cumprir sua tarefa, de forma que o lixo se amontoava nas ruas, tornando insuportável o mau cheiro e o desconforto; 
— para completar o quadro, naquele início de ano vieram as chuvas particularmente e precocemente regulares, que aumentavam os buracos sem que as tradicionais verbas federais (era assim que funcionavam as prefeituras ao tempo da ditadura) chegassem. Era uma deliberada tentativa de fazer passar por ineficiente a administração popular recém-instalada. 
Em greve de fome contra o boicote do governo federal
As dificuldades administrativas tradicionais eram enormes e intermináveis. Ademais, a prefeita Maria Luíza Fontenele, além de ser a primeira mulher eleita para uma prefeitura de capital, pertencia à ala marxista do PT, que estava sofrendo um processo de perseguição interna (éramos adeptos do marxismo tradicional, do movimento operário, só posteriormente evoluindo para o marxismo esotérico da crítica ao valor/dissociação de gênero).

A dose era muito forte para o sistema, e até mesmo para o PT.

A ideia de assumir um cargo executivo na esfera política do capitalismo liberal burguês era e é um equívoco para quem se propõe a ser anticapitalista. 

Uma vez investido no poder, e sendo obrigado a conviver com todos os antagonismos sistêmicos institucionais decorrentes do imperativo de manutenção da ordem capitalista, um governo que possua norte revolucionário, ou mesmo reformista sério, passa a ter de administrar não somente a crise financeira do aparelho de Estado na atual fase de depressão econômica capitalista, como se vê obrigado a revogar as conquistas sociais adquiridas na fase de ascensão capitalista. 
Maria Luíza e D. Helder Câmara nas ruas de Fortaleza

Ou seja,  eram sapos e mais sapos a serem engolidos em nome da governabilidade capitalista. Pode?  

No caso da nossa administração popular de 1986/1988 em Fortaleza, os problemas se agravaram pelo fato de não aceitarmos a política de conciliação com os políticos tradicionais e com donos do PIB tupiniquim, o que nos colocou em rota de colisão com a descaracterização ideológica do petismo, já em curso (corrupção à parte, pois naquela época ela ainda não era tão visível).

Este foi o verdadeiro motivo da expulsão de Maria Luíza e seus apoiadores (inclusive eu, por ela escolhido para ser seu candidato à sucessão). 

De tudo ficou a lição não apenas da ingovernabilidade de qualquer governo que se proponha a ser pró-povo (a máquina estatal não foi concebida e aperfeiçoada para isto), bem como de quão incoerente é, para quem denuncia a falência vindoura do capitalismo, tentar administrá-lo em proveito desse mesmo capitalismo. 
Com Suplicy e Gilson Menezes
Tal foi, em linhas gerais, a trajetória que nos levou ao amadurecimento político e consequente opção pelo Marx esotérico, que se contrapõe em tudo ao Marx exotérico, do movimento operário, marcado pelo politicismo inconsequente. 

A concepção de luta social a partir da crítica da economia política e da dissociação de gênero difere completamente:
— dos métodos e objetivos teleológicos da luta eleitoral; 
— da luta pela inserção administrativa no aparelho de Estado; e 
— das concepções e objeto teleológico das atuais lutas do movimento sindical (movimento feminista do movimento dos sem-terra e dos sem-teto, etc).    
Estão equivocados os que defendem a candidatura do Lula como se fosse um ato de resistência anticapitalista. 

Destarte, não tenho saudades da nossa experiência da administração popular, mas confesso que aprendi com ela. (por Dalton Rosado)

PS: sugiro que leiam ou releiam o meu artigo sobre
o bitcoin, agora que começa a evidenciar-se que
o dito cujo, em essência, não passa da
abstração da abstração. 


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

RUI MARTINS: "TEREZA CRUVINEL E BICUDO GAGÁ".

Por Rui Martins
Há alguns dias, a conceituada colega jornalista Tereza Cruvinel, ex-O Globo e ex-TV Brasil, colunista e editora do site situacionista Brasil247, dedicado à defesa do governo Dilma e do PT, tornou-se passível de processo ao infringir o Estatuto do Idoso, perguntando, insinuando e levantando sem provas em apoio, em manchete e no texto, que o jurista Hélio Bicudo estaria senil ou gagá.

O texto era bem claro: 
"Bicudo está senil? – Um homem lúcido como ele sempre foi não diria os disparates que disse, em entrevista ao Estadão, se tivesse perfeito domínio de suas faculdades mentais".  
"… só pode fruto da turvação mental do subscritor do pedido de impeachment abraçado pela oposição".
É claro que tudo parece permitido nesse clima de caos político vivenciado pelo Brasil nestes últimos meses, no qual governo e oposição competem em corrupção e incompetência, movidos por interesses pessoais e não ideológicos, destruindo-se pouco a pouco, por confissões na Lava Jato e nos reajustes fiscais alguns dos avanços e muitas ilusões criados na última década.

Da crença de termos vivido anos de ensaios de um governo de esquerda vai restando só a impressão de termos nos iludido com um simples e primário populismo de esquerda. Quando se vê Lula e o presidente do PT terem rejeitados seus pedidos para a presidente Dilma governar em favor do povo, como havia prometido na campanha eleitoral, e não aceitar ser manipulada por banqueiros e grandes capitais, como lulistas e petistas podem continuar lhe dando apoio?
Uma quase sexagenária que vitupera os nonagenários

Que diferença faz haver ou não impeachment se o próprio governo já se antecipou e, desde seu início, praticou um autogolpismo, ignorando porquê e para que foi eleito, ignorando a razão do voto de seus eleitores?

É preciso mesmo ser muito ingênuo para se deixar conduzir cegamente por espertos prestidigitadores sofistas, acreditando estarmos na iminência de um golpe.

O golpe já houve! Foi quando a presidente Dilma eleita por uma campanha populista de esquerda decidiu, logo depois de sua posse, constituir um ministério de interesses próprios, favorecendo o agronegócio, os banqueiros e aumentando desmesuradamente os juros para tentar tapar os buracos criados nos quatro anos de má gestão. Foi a própria Dilma quem deu o golpe!

No que vai mudar o Brasil com impeachment ou sem impeachment de Dilma, se o executivo, o legislativo e parte do próprio judiciário se transformaram em máfias que se ameaçam para dominar mas, na impossibilidade, tentam negociar conchavos entre si num último esforço para continuarem no poder? Se não há mais heróis e só vilões, se os anseios sociais de tantos são postergados e a velha oligarquia vai tranquilamente retomando seus lugares e seus poderes?

Quem se preocupa nestes dias pelos índios, pelos negros, pelos sem terra, pelos favelados, pelos sem teto? Quando se descobre que o próprio projeto de casas populares foi verticalizado e não previu habitações integradas com lazer para crianças e jovens, segurança, saúde, educação e transportes?

Voltando ao início desta coluna, não acredito que o idoso mas combativo e destemido juiz Hélio Bicudo esteja gagá. Nem seu filho ingrato José Eduardo Bicudo, que o criticou em público e, sabe-se lá porquê,  ousou chamar o pai de senil. E, entre sete filhos, só uma voz crítica discordante não tem peso como referência, mesmo porque a filha Maria Lúcia discorda do irmão e faz mesmo uma referência bem positiva ao se referir ao pedido de impeachment entregue hoje em Brasília – “É uma continuação do belo trabalho dele”, diz.

Tereza Cruvinel, que tem 59 anos e se aproxima portanto do grupo da Terceira Idade, não deveria utilizar idade como argumento político, pois chega a ser um recurso insultuoso.

Com qual idade uma pessoa fica demente senil ou gagá? Tereza Cruvinel tem uma tabela exata? Será que todo idoso fica gagá? Neste caso, o Jânio de Freitas estaria gagá? 

Não acredito, mesmo porque muita gente importante envelheceu sem ficar gagá. Por exemplo, o Oscar Niemayer que ainda aos 98 anos ia aos comícios da Dilma; e um dos primeiros professores da Universidade de São Paulo, o Claude Levy Strauss, autor do livro Tristes Trópicos.

Me lembro ainda de uma entrevista feita no aeroporto de Genebra com dom Helder Câmara, quando já era bem velhinho, magrinho, frágil como Hélio Bicudo. Os militares, por certo consideravam o arcebispo gagá, como Cruvinel faz com Bicudo.

De que outros idosos importantes me lembro agora? Do escritor, prêmio Nobel de Literatura, Isaac Bashevis Singer e do pintor Picasso, autor do famoso quadro Guernica. E ainda do herói antiapartheid Nelson Mandela.

Só lhe perdoo, Cruvinel, esse desvio, essa ofensa, essa escrita não digna de uma tão conceituada jornalista, por ter lido hoje no mesmo chapa branca Brasil247, uma crítica sua à presidente Dilma junto com uma crítica ao Eduardo Cunha. 

Enfim, o site vai ficar com o Rui Falcão e o Lula ou vai continuar aceitando o desvio neoliberal da presidente Dilma e seu autogolpe nos eleitores?

Observações
  • na lista de idosos ilustres do companheiro Rui caberia também o matemático e filósofo Bertrand Russell que, quase centenário, presidiu com brilhantismo o tribunal internacional de grandes nomes da cultura e da ciência que julgou simbolicamente os crimes de guerra perpetrados pelos EUA no Vietnam.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

OS PIROMANÍACOS DA CASERNA PASSARAM RECIBO DA QUEIMA DE ARQUIVOS

Quando se aproximava o fim da ditadura, os criminosos fardados agiram como quaisquer outros criminosos: eliminaram as provas dos seus crimes.

Mas,  caxias  como eles só, fizeram a besteira de relacionar os documentos, à medida que os iam incinerando.

Ainda não sabiam que isto deve ser feito na calada da noite, sem testemunhas nem registros, para não acabar virando reportagem do Fantástico --como aconteceu  no final de 2004, quando foi escancarada uma queima de arquivos na base aérea de Salvador...

Seu  know-how, aliás, continua meio amadoresco. No começo do mês passado, quando montaram um  mutirão de reclassificação de documentos secretos,  não escolheram subalternos 100% confiáveis: um deles  deu o serviço  para a imprensa. Se aqui não fosse o país dos  panos quentes, estariam presos por sabotarem descaradamente a Lei de Acesso à Informação, desacatando a comandante suprema das Forças Armadas (a presidente Dilma Rousseff) e o ministro da Defesa (Celso Amorim), além de transformarem em motivo de galhofa as leis aprovadas pelo Congresso.

Enfim, é devido à falta de know-how dos  incendiários acidentais que podemos agora dimensionar a obra desses piromaníacos da caserna: no segundo semestre de 1981, quando o ditador da vez era João Baptista Figueiredo, foram reduzidos a cinzas aproximadamente 19,4 mil documentos secretos produzidos após o nefando 1º de abril de 1964. 

Sobre o teor de cada um deles resta apenas um resumo de uma ou duas linhas, em 40 relatórios encadernados aos quais a Folha de S. Paulo teve acesso --o suficiente, contudo, para dar uma boa idéia do que se tentou esconder dos brasileiros.

Segundo a reportagem publicada nesta 2ª feira (2) pelo jornal da ditabranda, "boa parte dos documentos eliminados trata de pessoas mortas até 1981". 

Havia também "relatórios sobre personalidades famosas, como o ex-governador do Rio Leonel Brizola (1922-2004), o arcebispo católico dom Helder Câmara (1909-1999), o poeta e compositor Vinicius de Moraes (1913-1980) e o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999)", levantamento das "contas bancárias no exterior" do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, investigação sobre a "infiltração de subversivos no Banco do Brasil", etc.

Verifica-se, ainda, que o tão criticado acobertamento de delitos cometidos por  protegidos da corte  também vicejava no regime militar: nunca foi levado à Justiça, como deveria ter sido, o personagem de que tratou o relatório intitulado "Tráfico de Influência de Parente do Presidente da República". Enquanto Emílio Garrastazu Médici autorizava carnificinas e ia fingir de torcedor do  Mengo  no Maracanã, a família faturava algum por fora...

Um dos mandantes dos piromaníacos, o general Newton Cruz, sai pela tangente de sempre, ao afirmar ter "cumprido a lei da época". Da mesma forma, os que executaram prisioneiros indefesos e deram sumiço nos seus restos mortais utilizam uma lei da época, a anistia de 1979, para escaparem até hoje da responsabilização por seus atos.
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