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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

ESTE FILME MARCOU O MOMENTO EM QUE A MINHA VIDA MUDOU PARA SEMPRE

O dia da desforra é um filme que sempre me faz recordar o momento decisivo da minha vida, quando, mal acabava de completar 18 anos, sai do lar familiar para correr mundo, correr perigo, conforme a canção do Caetano Veloso. 

E se trata de um dos melhores westerns revolucionários italianos daqueles anos rebeldes. Seu diretor, Sergio Sollima, começara como crítico de cinema, entrou na Cinecittà como roteirista e assistente da direção e só aos 30 anos teve sua primeira chance dirigindo (ainda assim, apenas um dos segmentos de uma comédia erótica). 

Já como único diretor, O dia da desforra (1966) seria seu quarto filme e o primeiro realmente bem-sucedido. Foi tão apreciado que até uma sequência teve, Corre, homem, corre (1968), a qual, contudo, não chegou a empolgar. 
Também graças ao prestígio adquirido, Sollima ainda dirigiu outros dois filmes mais ambiciosos, o faroeste Quando os brutos se defrontam (1967), com Thomas Milian e Gian-Maria Volonté; e o policial Cidade Violenta (1970), estrelado por Charles Bronson.

Depois Sollima voltou ao ramerrão, deixando a impressão que poderia ter feito coisas melhores se lhe dessem os recursos e a liberdade de ação de que dispôs em O dia da desforra.

Ignoro o quanto do conteúdo revolucionário deste filme se deve a ele e quanto ao co-roteirista Sergio Donati, que colaborou com o grande Sergio Leone em duas de suas obras-primas, Era uma vez no Oeste (1968) e Quando explode a vingança (1971). Pelos trabalhos desenvolvidos por ambos como roteiristas, percebe-se que Donati estava mais familiarizado com enfoques politizados.

Cuchillo Sanchez (Tomas Milian) era um dos camponeses despertados para as lutas sociais por Benito Juárez. Depois que a revolução não vingou naquele momento (meados do século 19), havia se tornado um bandido de pequenas contravenções e pouca importância, até ser acusado do estupro e assassinato de uma menina de 12 anos.

Jonathan Corbett (Lee Van Cleef), ex-xerife e depois caça-prêmios, é pressionado pelo ricaço Brokston a sair no seu encalço, inclusive porque capturar autor de crimes tão repulsivos lhe aumentaria o prestigio. 

Brokston se propunha a bancar a candidatura de Corbett a senador, para obter, em reciprocidade, apoio ao seu projeto de implantação de uma ferrovia entre EUA e México.

A perseguição se alonga porque Cuchillo é hábil e astuto. E coisas surpreendentes acabam vindo à tona, principalmente sobre o quanto os acontecimentos estavam sendo influenciados pela gritante desigualdade social no México, o que conduz a um desfecho que se dá, realmente, num grande tiroteio, conforme o título que o filme recebeu nos EUA.

Os dois atores principais estão perfeitos nos seus papéis, a trilha sonora de Ennio Morricone é simplesmente um arraso e o filme vale cada fotograma. Pena que Sollima (falecido em 2015, aos 94 anos) nunca mais tenha acertado na mosca, embora seu trabalho seguinte,
Quando os brutos se defrontam, não haja ficado muito atrás. 

Por último, explico o sentido do título que dei a este post. Em fins de fevereiro de 1969, prestes a ingressar na VPR, fui surpreendido com a queda de um companheiro que conhecia meu nome real e tinha como indicar à Oban meu endereço, então precisei sair às pressas de casa em plena madrugada para me colocar a salvo.
Com pouco dinheiro, passei uns 10 dias precariamente hospedado num hotel barato do centro velho de São Paulo, à espera do
ponto que teria com o dirigente da VPR incumbido dos trâmites de integração do nosso grupo de oito secundaristas àquela organização.

Como a VPR atravessava um período tumultuado, de crise interna e prisões, só me restava aguardar pacientemente o encontro que havia sido marcado com intervalo bem maior do que o costumeiro.  

Sem saber como seria a nova etapa que me aguardava e apreensivo com a possibilidade de minha identidade já ter caído (eu só trazia comigo os meus documentos autênticos), fui duas vezes ao pulgueiro que ficava quase na frente do hotel e exibia... O dia da desforra.

Por falta de coisa melhor para fazer, em ambas permaneci por várias sessões seguidas, ora assistindo ao filme, ora mergulhado em reflexões. 

Não pensei nisto então, mas havia um perseguido na tela e eu começava a levar vida de perseguido, tendo de esconder quem era, mudar a aparência, evitar lugares onde me conheciam, andar pelas ruas sempre atento à possibilidade de alguém estar seguindo meus passos, etc. Foi uma amarga ironia ser logo aquele o filme exibido do outro lado da rua.

Ficou, assim, nas minhas lembranças como marco do exato momento em que minha vida mudou para sempre. (por Celso Lungaretti

domingo, 4 de dezembro de 2022

ENQUANTO ESPERAMOS NOSSO DIA DA DESFORRA, QUE TAL UM APERITIVO?

 
O dia da desforra, que andou sumido do Youtube mas está novamente disponibilizado, é um filme que sempre me faz recordar o momento decisivo da minha vida, quando sai do lar familiar para correr mundo, correr perigo, conforme a canção do Caetano Veloso. E se trata de um dos melhores westerns revolucionários italianos daqueles anos rebeldes.

Seu diretor, Sergio Sollima, havia começado como crítico de cinema, entrara na indústria cinematográfica como roteirista e assistente da direção e só aos 30 anos teve sua primeira chance dirigindo (ainda assim, apenas um dos segmentos de uma comédia erótica). 

Como único diretor, O dia da desforra (1966) foi seu quarto filme e o primeiro realmente bem-sucedido. Correu mundo e foi tão apreciado que até uma sequência teve, Corre, homem, corre (1968), a qual, contudo, não chegou a empolgar. 

Também graças ao prestígio adquirido, Sollima ainda dirigiu outros dois filmes mais ambiciosos, o ótimo faroeste Quando os brutos se defrontam (1967) e o policial Cidade Violenta (1970).   
Depois Sollima voltou ao ramerrão, deixando a impressão que poderia fazer coisas melhores se lhe dessem os recursos e a liberdade de ação que teve em O dia da desforra.

Ignoro o quanto do conteúdo revolucionário deste filme se deve a ele e quanto ao co-roteirista Sergio Donati, que colaborou com o grande Sergio Leone em duas de suas obras-primas, Era uma vez no Oeste (1968) e Quando explode a vingança (1971). 

Pelos trabalhos desenvolvidos por ambos como roteiristas, percebe-se que Donati estava mais familiarizado com enfoques politizados.

Cuchillo Sanchez (Tomas Milian) havia sido um dos camponeses despertados para as lutas sociais por Benito Juárez. Depois que a revolução não vingou naquele momento (meados do século 19), tornara-se um bandido de pequenas contravenções e pouca importância, até ser acusado do estupro e assassinato de uma menina de 12 anos.
Jonathan Corbett (Lee Van Cleef), ex-xerife e depois caça-prêmios, é pressionado pelo ricaço Brokston a sair no seu encalço, inclusive porque capturar o autor de crimes tão repulsivos lhe aumentaria o prestigio. Brokston se propunha uma apoiar a candidatura de Corbett a senador, para obter, como reciprocidade, apoio ao seu projeto de implantação de uma ferrovia entre EUA e México.

A perseguição se alonga porque Cuchillo é hábil e astuto. E coisas surpreendentes acabam vindo à tona, principalmente sobre o quanto os acontecimentos estavam sendo influenciados pela gritante desigualdade social no México, o que conduz a um desfecho que se dá, realmente, num grande tiroteio, conforme o título que o filme recebeu nos EUA.

Os dois atores principais estão perfeitos nos seus papéis, a trilha sonora de Ennio Morricone é simplesmente um arraso e o filme vale cada fotograma. Pena que Sollima (falecido em 2015, aos 94 anos) nunca mais tenha acertado tão na mosca, embora seu trabalho seguinte, Quando os brutos se defrontam não haja ficado muito atrás. 

Por último, explico o que deixei antever no primeiro parágrafo: Em fins de fevereiro de 1969, prestes a ingressar na VPR, fui surpreendido com a 
queda de um companheiro que conhecia meu nome real e tinha como indicar à Oban meu endereço, então tive de sair às pressas de casa em plena madrugada para me colocar a salvo.

Com pouco dinheiro, passei uns 10 dias precariamente hospedado num hotel barato do centro velho de São Paulo, à espera do ponto que teria com o dirigente da VPR incumbido dos trâmites de integração do nosso grupo de oito secundaristas àquela organização.

Como a VPR atravessava um período tumultuado, de crise interna e prisões, só me restava aguardar pacientemente o encontro que havia sido marcado com intervalo bem maior do que o costumeiro.  

Sem saber como seria a nova etapa que me aguardava e apreensivo com a possibilidade de minha identidade já ter caído (eu só dispunha de meus documentos autênticos), fui duas vezes ao pulgueiro que ficava quase em frente do hotel e exibia... O dia da desforra.

Por falta de coisa melhor para fazer, em ambas permaneci por várias sessões seguidas, ora assistindo ao filme, ora mergulhado em reflexões. Ficou, assim, nas minhas lembranças como marco do exato momento em que minha vida mudou para sempre. (por Celso Lungaretti

sábado, 8 de janeiro de 2022

COMO É FORMADO UM LÍDER INSENSÍVEL E OPORTUNISTA? ESTE WESTERN EXPLICA.

O melhor filme a estrear no blog neste Festival do Western Italiano é, sem dúvida, Quando os brutos se defrontam (1967), o trabalho seguinte do diretor Sergio Sollima após a culminância de sua carreira, O dia da desforra (1966).

A distância qualitativa entre ambos e o restante da filmografia de Sollima sempre me fez suspeitar de que o milagre se deveu ao roteirista Sergio Donati, pois este várias vezes embutiu discussões políticas nos seus trabalhos, enquanto o xará diretor só o fez exatamente nessas duas vezes.

Vale ressalvar que mesmo a direção em si melhorou muito nessas ocasiões, mas nada de Sollima se compara, em termo de subtexto político, com a o diálogo entre o professor Brett Fletcher (Gian Maria Volonté) e o infiltrado da agência de detetives Pinkerton por ele desmascarado, quando este lhe atira isto na cara: "Civilizado entre os civilizados, selvagem entre os selvagens, você é um perfeito parasita: adapta-se a qualquer ambiente e a todos manipula para atingir seus fins".  

De novo é uma alusão ao Partido Comunista Italiano, que estava sendo muito questionado à medida que sua aura heroica dos tempos da resistência ao fascismo se tornava uma lembrança distante e a emergência de uma nova geração de esquerda, muito mais combativa, ia deslocando o PCI cada vez mais para a direita. 

Crítica ainda mais explicita à descaracterização dos velhos comunistas é feita em Quando Explode a Vingança, do Sergio Leone, que teve Donati como um dos roteiristas. Coincidência? 

Mas, estou colocando o carro na frente dos bois: vamos à história.

Brett Fletcher, um professor de Boston, na tentativa de curar-se de tuberculose vai para o clima quente do Texas, onde é tomado como refém pelo bandido Beauregard Bennet (Tomas Milian) quando este foge de sua escolta. 

A intenção inicial de Bennet é matar Fletcher ao pôr-se a salvo, mas, ferido, desmaia e o professor cuida dele. Restabelecido, o bandido convence o professor a pegar uma diligência e voltar à civilização, mas novamente é ajudado por ele num momento de perigo e, em débito, acaba aceitando-o na sua quadrilha,

A partir daí, os dois vão se transformando por força dessa convivência: Fletcher aprende a sobreviver entre os rústicos e, em seguida, a liderá-los, enquanto Bennet tem sua humanidade aos poucos despertada. 

O novo Fletcher, contudo, não tem compaixão nem espírito de solidariedade para com os perseguidos e faz recrutamentos numa cidade de foragidos cuja existência dependia de seus moradores não voltarem a delinquir. Ao quebrar tal regra, ele os condena a serem massacrados.

Já Bennet acaba sendo preso por (o que nunca faria antes) descuidar-se ao socorrer um menino mexicano atingido no fogo cruzado de um tiroteio do seu bando com a Pinkerton.

O final é  surpreendente, com o acerto de contas entre Bennet, Fletcher e o agente principal da Pinkerton, Charles Siringo (William Berger). 

Siringo, por sinal, existiu mesmo e, talvez por ter escrito vários livros baseados em sua atuação na Pinkerton, acabou ficando com a fama de haver sido o primeiro grande detetive dos EUA. Mas, no período em que transcorre a ação do filme, o da Guerra da Secessão, ele não passava de um menino. Sua participação nesta história foi só uma liberdade poética dos realizadores... (por Celso Lungaretti)  
Desconsidere o alerta que às vezes aparece, sobre uma versão mais
completa deste filme: ela já foi retirada do Youtube. Mostrava a última
aula do professor Fletcher e sua despedida do colégio de Boston 

domingo, 19 de dezembro de 2021

ERA O QUE TODOS AGUARDÁVAMOS NOS ANOS DE CHUMBO: O DIA DA DESFORRA!

O
dia da desforra é um filme que sempre me faz recordar o momento decisivo da minha vida em que sai do lar familiar para correr mundo, correr perigo, conforme a canção do Caetano Veloso. E se trata de um dos melhores westerns revolucionários italianos daqueles anos rebeldes.

Seu diretor, Sergio Sollima, começara como crítico de cinema, entrara na indústria cinematográfica como roteirista e assistente da direção e só aos 30 anos teve sua primeira chance dirigindo (ainda assim, apenas um dos segmentos de uma comédia erótica). 

Como único diretor, O dia da desforra (1966) foi seu quarto filme e o primeiro realmente bem-sucedido. Correu mundo e foi tão apreciado que até uma sequência teve, Corre, homem, corre (1968), a qual, contudo, não chegou a empolgar. 

Também graças ao prestígio adquirido, Sollima ainda dirigiu outros dois filmes mais ambiciosos, o faroeste Quando os brutos se defrontam (1967), que também faz parte deste festival, e o policial Cidade Violenta (1970), com um Charles Bronson que se havia tornado astro na Europa.

Depois Sollima voltou ao ramerrão, deixando a impressão que poderia fazer coisas melhores se lhe dessem os recursos e a liberdade de ação que teve em O dia da desforra.   
Ignoro o quanto do conteúdo revolucionário deste filme se deve a ele e quanto ao co-roteirista Sergio Donati, que colaborou com o grande Sergio Leone em duas de suas obras-primas, Era uma vez no Oeste (1968) e Quando explode a vingança (1971). 

Pelos trabalhos desenvolvidos por ambos como roteiristas, percebe-se que Donati estava mais familiarizado com enfoques politizados.

Cuchillo Sanchez (Tomas Milian), um dos camponeses despertados para as lutas sociais por Benito Juárez, depois que a revolução não vingou naquele momento (meados do século 19), havia se tornado um bandido de pequenas contravenções e pouca importância, até ser acusado do estupro e assassinato de uma menina de 12 anos.

Jonathan Corbett (Lee Van Cleef), ex-xerife e depois caça-prêmios, é pressionado pelo ricaço Brokston a sair no seu encalço, inclusive porque capturar autor de crimes tão repulsivos lhe aumentaria o prestigio. Brokston se propunha uma apoiar a candidatura de Corbett a senador, para obter, como reciprocidade, apoio ao seu projeto de implantação de uma ferrovia entre EUA e México.
A perseguição se alonga porque Cuchillo é hábil e astuto. E coisas surpreendentes acabam vindo à tona, principalmente sobre o quanto os acontecimentos estavam sendo influenciados pela gritante desigualdade social no México, o que conduz a um desfecho que se dá, realmente, num grande tiroteio, conforme o título que o filme recebeu nos EUA.

Os dois atores principais estão perfeitos nos seus papéis, a trilha sonora de Ennio Morricone é simplesmente um arraso e o filme vale cada fotograma. Pena que Sollima (falecido em 2015, aos 94 anos) nunca mais tenha acertado tão na mosca, embora seu trabalho seguinte, Quando os brutos se defrontam não haja ficado muito atrás. 

Por último, explico o que deixei antever no primeiro parágrafo: Em fins de fevereiro de 1969, prestes a ingressar na VPR, fui surpreendido com a queda de um companheiro que conhecia meu nome real e tinha como indicar à Oban meu endereço, então tive de sair às pressas de casa em plena madrugada para me colocar a salvo.
Com pouco dinheiro, passei uns 10 dias precariamente hospedado num hotel barato do centro velho de São Paulo, à espera do ponto que teria com o dirigente da VPR incumbido dos trâmites de integração do nosso grupo de oito secundaristas àquela organização.

Como a VPR atravessava um período tumultuado, de crise interna e prisões, só me restava aguardar pacientemente o encontro que havia sido marcado com intervalo bem maior do que o costumeiro.  

Sem saber como seria a nova etapa que me aguardava e apreensivo com a possibilidade de minha identidade já ter caído (eu só dispunha de meus documentos autênticos), fui duas vezes ao pulgueiro que ficava quase em frente do hotel e exibia... O dia da desforra.

Por falta de coisa melhor para fazer, em ambas permaneci por várias sessões seguidas, ora assistindo ao filme, ora mergulhado em reflexões. Ficou, assim, nas minhas lembranças como marco do exato momento em que minha vida mudou para sempre. (por Celso Lungaretti)  
Menos mal que os leitores podem ir para o Youtube e ver lá o filme, mas ponho
em dúvida esta nova cláusula: parece-me que a restrição tem mesmo a ver é
com mensagem revolucionária, pois hoje ele jamais seria proibido até 18 anos.  
.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

A VISÃO DO MESTRE SERGIO LEONE SOBRE AS REVOLUÇÕES INAUGURA O FESTIVAL DO WESTERN ITALIANO NO BLOG DO NÁUFRAGO

Perdi a conta de quantas vezes assisti a Quando Explode a Vingança desde o seu lançamento em 1971, mas seguramente não terão sido menos de 15. Na primeira, saí emocionado do saudoso cine Marrocos, no centro velho de São Paulo: acabara de conhecer a visão que um dos meus diretores favoritos tinha dos movimentos revolucionários... e era, em muitos aspectos, semelhante à minha!

Concluí que Leone também se desencantara com a postura repulsiva do Partido Comunista Italiano em 1968 (que se agravaria nos anos seguintes, até chegar ao pacto faustiano com a putrefata democracia-cristã): quando os ventos da mudança sacudiam a Europa, o PCI optara pela omissão, que logo mais viraria cumplicidade com as forças da ordem.

O desencanto de Leone se expressou num filme em que ele, fervorosamente, toma o partido do homem simples que se engaja em revoluções; mas, mostra os dirigentes desses movimentos como sempre propensos a traírem a causa.
James Coburn e Rod Steiger: atuações inesquecíveis! 
Assim, o irlandês John Mallory (James Coburn) é convencido pelo seu melhor amigo, o intelectual revolucionário Nolan (David Warbeck), a ingressar no IRA. E seria Nolan, preso e torturado, quem pessoalmente o apontaria aos policiais britânicos.

Mallory escapa atirando e foge para o México, onde aproveita a experiência que adquirira com a dinamite para garimpar prata. 

Lá acaba conhecendo Juan Miranda (Rod Steiger), pequeno bandido mexicano cuja quadrilha é constituída principalmente por sua filharada e cujo sonho dourado é assaltar o banco mais tentador da região. 

Meio sem querer, ambos vão se envolvendo cada vez mais com a revolução mexicana. E a história se repete: abnegação e heroísmo das pessoas simples, traição do líder Dr. Villega (Romolo Valli). Percebe-se claramente que Nolan e Villega sintetizam a imagem que Leone tinha dos dirigentes do PCI.

Mesmo desencantado ("Quando comecei a usar a dinamite, acreditava nos grandes ideais. Acreditava em tudo! Agora só acredito na dinamite"), Mallory permanecerá até o fim no campo ao qual pertence.  
Este extermínio de prisioneiros numa vala alude a episódios ocorridos sob o fascismo na Itália 
Mas, sem ilusões. Quando alguém pede sua opinião sobre dirigentes que ele sabe não terem honrado seu compromisso com a causa, ele ironicamente se refere a eles como "grandes e gloriosos heróis da revolução".


Ou seja, não tendo sequer a esperança de que a história venha a retratar o que realmente aconteceu, ele antecipa a forma distorcida como serão vistos: os líderes oportunistas, manipuladores e vacilões, endeusados; e os idealistas sinceros,  perseguidos em vida e denegridos depois de mortos.  

Mas, claro, é um filme e não um panfleto. Tem uma ação tão envolvente que só os iniciados captam tal subtexto. Dá para se ver e gostar muito do filme sem perceber/entender nada disso.

Em alguns mercados foi lançado com um título equivalente a Por um punhado de dinamite, para relacioná-lo a Por um punhado de dólares e Por uns dólares a maisLeone, contudo, o concebeu como o segundo filme de outra trilogia: Era uma vez no OesteEra uma vez a revolução e Era uma vez na América.

Coburn e Steiger têm atuações magistrais. O roteiro escrito a dez mãos (inclusive as do Leone e do ótimo Sergio Donati) é simplesmente perfeito. E a trilha musical de Ennio Morricone, um arraso!

Também gostei muito do enfoque que Leone dá à repressão, personificada no comandante Gutierez (Anthony Saint-John): despreza-o tanto que lhe nega até a dignidade da fala. 

Gutierez aparece escovando repulsivamente os dentes, chupando um ovo, ordenando fuzilamentos com simples gestos de cabeça. Um desumanizado visto em toda sua desumanização, sem os habituais discursos redundantes. Só gênios como Leone criam soluções tão simples e eficazes. (por Celso Lungaretti)

sábado, 22 de dezembro de 2018

IMPERDÍVEL: O BLOG AFINAL DISPONIBILIZA A OBRA-PRIMA DE SERGIO LEONE SOBRE MOVIMENTOS REVOLUCIONÁRIOS!

Perdi a conta de quantas vezes assisti a Quando Explode a Vingança desde o seu lançamento em 1971, mas seguramente não terão sido menos de 15. Na primeira, saí emocionado do saudoso cine Marrocos, no centro velho de São Paulo: acabara de conhecer a visão que um dos meus diretores favoritos tinha dos movimentos revolucionários... e era, em muitos aspectos, semelhante à minha!

Concluí que Leone também se desencantara com a postura repulsiva do Partido Comunista Italiano em 1968 (que se agravaria nos anos seguintes, até chegar ao pacto faustiano com a putrefata democracia-cristã): quando os ventos da mudança sacudiam a Europa, o PCI optara pela omissão, que logo mais viraria cumplicidade com as forças da ordem.

O desencanto de Leone se expressou num filme em que ele, fervorosamente, toma o partido do homem simples que se engaja em revoluções; mas, mostra os dirigentes desses movimentos como sempre propensos a traírem a causa.
James Coburn e Rod Steiger: atuações inesquecíveis! 
Assim, o irlandês John Mallory (James Coburn) é convencido pelo seu melhor amigo, o intelectual revolucionário Nolan (David Warbeck), a ingressar no IRA. E seria Nolan, preso e torturado, quem pessoalmente o apontaria aos policiais britânicos.

Mallory escapa atirando e foge para o México, onde aproveita a experiência que adquirira com a dinamite para garimpar prata. Lá acaba conhecendo Juan Miranda (Rod Steiger), pequeno bandido mexicano cuja quadrilha é constituída principalmente por sua filharada e cujo sonho dourado é assaltar o banco mais tentador da região. 

Meio sem querer, ambos vão se envolvendo cada vez mais com a revolução mexicana. E a história se repete: abnegação e heroísmo das pessoas simples, traição do líder Dr. Villega (Romolo Valli). Percebe-se claramente que Nolan e Villega sintetizam a imagem que Leone tinha dos dirigentes do PCI.

Mesmo desencantado ("Quando comecei a usar a dinamite, acreditava nos grandes ideais. Acreditava em tudo! Agora só acredito na dinamite"), Mallory permanecerá até o fim no campo ao qual pertence.  
O extermínio em massa dos rebeldes evoca matanças ocorridas nos estertores do regime de Mussolini
Mas, sem ilusões. Quando alguém pede sua opinião sobre dirigentes que ele sabe não terem honrado seu compromisso com a causa, ele ironicamente se refere a eles como "grandes e gloriosos heróis da revolução".

Ou seja, não tendo sequer a esperança de que a história venha a retratar o que realmente aconteceu, ele antecipa a forma distorcida como serão vistos: os líderes oportunistas, manipuladores e vacilões, endeusados; e os idealistas sinceros (como Battisti) perseguidos em vida e denegridos depois de mortos.  

Mas, claro, é um filme e não um panfleto. Tem uma ação tão envolvente que só os iniciados captam tal subtexto. Dá para se ver e gostar muito do filme sem perceber/entender nada disso.

Em alguns mercados foi lançado com um título equivalente a Por um punhado de dinamite, para relacioná-lo a Por um punhado de dólares e Por uns dólares a maisLeone, contudo, o concebeu como o segundo filme de outra trilogia: Era uma vez no Oeste, Era uma vez a revolução e Era uma vez na América.

Coburn e Steiger têm atuações magistrais. O roteiro escrito a dez mãos (inclusive as do Leone e do ótimo Sergio Donati) é simplesmente perfeito. E a trilha musical de Ennio Morricone, um arraso!

Também gostei muito do enfoque que Leone dá à repressão, personificada no comandante Gutierez (Anthony Saint-John): despreza-o tanto que lhe nega até a dignidade da fala. 

Gutierez aparece escovando repulsivamente os dentes, chupando um ovo, ordenando fuzilamentos com simples gestos de cabeça. Um desumanizado visto em toda sua desumanização, sem os habituais discursos redundantes. Só gênios como Leone criam soluções tão simples e eficazes. (por Celso Lungaretti)

domingo, 14 de novembro de 2010

QUANDO OS BRUTOS SE DEFRONTAM...

...é um clássico do western italiano, infelizmente só disponível no Brasil em DVD amputado: faltam 13 minutos da versão original e os cortes foram, ademais, grosseiros.

Tratou-se da segunda obra-prima -- duas moedas que caíram em pé -- resultante da parceria entre um típico diretor-artesão (Sergio Sollima) e um grande roteirista que enxertava abordagens políticas em filmes de ação (Sergio Donati). A outra: O Dia da Desforra (La Resa dei Conti, 1966).

A primeira incursionara pela Revolução Mexicana, mostrando com quantas injustiças se forjavam os revoltosos.

Em Faccia a Faccia (1967), o foco foi a gênese de lideranças do tipo fascista, ao mostrar como um sofisticado professor de História (Gian Maria Volonté), em contato com uma sociedade primitiva, absorve o pior dos dois mundos: torna-se tão violento quanto os piores bandidos e a todos eles manipula para obter poder sem limites.

Mas, por que estou falando de Quando os Brutos se Defrontam?

Porque este título imediatamente me veio à mente ao constatar que Elio Gaspari e Gilmar Mendes estão travando uma daquelas brigas de foice no escuro... nas quais a opção mais sensata para nós é sermos imparciais, concordando com tudo que um diz sobre o outro.

Assim, Gaspari abriu as hostilidades no último domingo (07/11), em Gilmar atirou no Congresso e no STF:
"... Na última sexta feira, depois de ter sido derrotado no julgamento da vigência da Lei da Ficha Limpa, ele [Gilmar Mendes]... disse o seguinte:

'O Congresso estava de cócoras. Por quê? Porque não queria discutir isso racionalmente, porque ninguém queria se dizer contra a Ficha Limpa.'

"...Como o ministro classificaria a decisão do STF em 1936, negando um habeas corpus a Olga Benário, cujos advogados argumentavam que ela tinha no ventre uma criança concebida no Brasil?

"É fácil espancar o Congresso, mas em 1968 a Câmara dos Deputados negou ao Executivo a licença para a abertura do processo de cassação do mandato do deputado Marcio Moreira Alves. Até os sorveteiros sabiam que com isso ele seria fechado pelos militares. Foi. No Supremo, onde dois ministros foram imediatamente cassados, dois outros deixaram a Corte. Os demais ficaram sentados.

"Em 1974, foi o Supremo quem transferiu da Câmara para a cadeia o deputado Francisco Pinto, por ter chamado o general chileno Augusto Pinochet de ditador.

"O doutor Gilmar deveria deixar de lado as flexões dos joelhos alheios...

"Na mesma entrevista, referindo-se à decisão do STF pela imediata vigência da Lei da Ficha Limpa, Gilmar acrescentou: 'Foi um erro ter colocado isto em julgamento.'

"De quem foi o erro? De um 'capinha' que esqueceu o processo sobre a mesa do presidente Cesar Peluzo? Dos ministros que votaram numa posição contrária à de Gilmar?

"Pode-se sonhar com o dia em que o Supremo Tribunal Federal brasileiro funcione com a etiqueta da corte americana, onde (...) ministro criticando colega ou decisão da Casa é algo impensável".
A resposta veio hoje (14/11), em Gaspari, a ditadura e a Suprema Corte:
"...designado embaixador em Washington pelo governo de 64, o general Juracy Magalhães, entusiasmado pelo estilo de vida dos 'irmãos do norte', soltou a frase infeliz: 'O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil'. Até hoje faz escola.
"Admirador da ditadura brasileira e macaqueador dos americanos, Elio Gaspari gosta muito de comparar modos e feitos da Suprema Corte com o nosso Supremo Tribunal. Erra feio...

"Além da disparidade dos sistemas jurídicos (...), beira o nonsense confrontar a aplicação da vetusta Carta americana de seis artigos com a da imberbe Constituição pátria de quase 300 dispositivos...

"Se, por teimosia, despreparo ou autoindulgência, o jornalista persistir em traçar paralelos entre instituições ou culturas tão díspares, deveria - a exigir-se um mínimo de honestidade intelectual - citar também algumas das vicissitudes que acabaram por fazer a corte americana avalizar, durante décadas, regimes de intolerância, como a terrível escravidão...

"...não sobram desculpas às desinformações que o colunista veicula em artigos que mais servem ao escracho do que ao esclarecimento. Se houvesse assistido às sessões relativas à constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa, Gaspari saberia que a autocrítica - e não crítica - que fiz acerca da oportunidade do segundo julgamento teve lugar no plenário da corte, perante meus pares.

"...na pressa em escancarar a notória americanofilia, Gaspari prefere incorrer em distorções grotescas, na já bem conhecida avidez de apontar, à patuleia, as falhas de Pindorama...

"...o velho Supremo (...) bancou sucessivos habeas corpus para os dissidentes da ditadura, enquanto áulicos do regime bajulavam generais.

"Esses e outros aspectos importantes passam batido na visão imediatista e popularesca de gente como Gaspari, mais preocupada em criticar do que em compreender a realidade brasileira".
Se ambos decidirem resolver dignamente suas divergências no campo de honra, terei prazer em providenciar as pistolas.

Mas, por motivos óbvios, não serei o padrinho de nenhum deles.

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