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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

OS MILITARES, OS EVANGÉLICOS E O CAPITAL PULAM DO BARCO DO BOLSONARO, MAS NÃO CAEM NO DO LULA

melhor do mundo para bolsonaristas e petistas é manter a polarização entre o continuísmo e a volta ao passado. 

Tudo que o presidente Jair Bolsonaro sonha é disputar com o ex-presidente Lula. Tudo o que Lula pretende é ter Bolsonaro como adversário. Nenhum dos dois quer ouvir falar em 3ª via.

Sim, se a eleição fosse hoje, daria Lula no 1º turno ou ele e Bolsonaro no 2º. O problema é que a eleição não é hoje e há milhões de brasileiros incomodados e se sentindo emparedados entre as duas soluções.

E os monoblocos vão se desfazendo no ar, porque em todos os segmentos da sociedade há divisões, dúvidas, insatisfação. Vale para a maioria, com menor renda e escolaridade, mas também para setores com grande reverberação.

Pode-se dizer que os militares são incorrigivelmente bolsonaristas? Não, depois de Bolsonaro se sentir compelido a demitir o ministro da Defesa e os três comandantes. 

Menos ainda depois de, na mesma semana, o contra-almirante Barra Torres reagir a ataques do presidente, o Exército reforçar diretrizes contra a covid na contramão de Bolsonaro e o general Silva e Luna, da Petrobras, lembrar que cabe ao Executivo fazer políticas públicas.

É possível insistir em que os evangélicos estão com Bolsonaro? Não. Há evangélicos e evangélicos, que se dividem entre designações, graus de seriedade, regiões e segmentos sociais. Os mais pobres, p. ex., sentem na pele os efeitos da política econômica – ou da falta dela.

E o capital, continua com Bolsonaro? Banqueiros, grandes empresários, líderes do agronegócio não passaram a troco de nada a defender democracia, Amazônia e justiça social, até em manifestos. Foi um movimento tumultuado, mas deixou uma evidência: há insatisfações e muita conversa.

Quem decide eleição é o povo, mas militares, evangélicos, banqueiros, empresários e o agronegócio moderno caíram do outro lado, o de Lula? Provavelmente, não. Há uma enorme aflição com Bolsonaro, mas isso não apaga a desconfiança quanto a Lula, petrolão, ligações com Venezuela, Cuba...
Logo, o eleitorado desiludido de Bolsonaro hoje está no limbo (ou
num mato sem cachorro), assim como, em 2018, o eleitor do PT que ficou chocado com o petrolão e o eleitor que se descolou do PSDB. Há espaço, sim, para buscar uma 3º via pé no chão, que trabalhe mais contra a crise e menos para ampliar confrontos ideológicos. 

Uma opção preguiçosa a essa busca é ceder à polarização. Outra é o melancólico voto nulo de 2018. (por Eliane Cantanhêde, n'O Estado de S. Paulo)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

MILITARES NUNCA ESTIVERAM SUBMERSOS

Alguns podem ficar comovidos com a nota do presidente da Anvisa, Barra Torres, contra as insinuações de Bolsonaro a respeito da aprovação da vacina infantil pela Agência. 

Pode-se mesmo pensar estarem os militares tencionando sua relação com o presidente genocida, pois, na mesma semana, o chefe do Exército impôs normativa requisitando vacinação do corpo militar e proibindo a publicação de notícias falsas. 

Nada mais falso, contudo. Na realidade, esta leitura é fruto de uma apreciação superficial dos acontecimentos. 

De fato, conforme já defendi em outras oportunidades, o governo Bolsonaro é um projeto dos militares. Foi a forma encontrada pela alta cúpula das três forças, da ativa e da reserva, de retornar ao poder político, pois marginalizados desde o fim da ditadura.   
Quando se tratava de conseguir o
cargo, valia tudo para bajular o chefe
.


Por isso, eles se associaram carnalmente a Bolsonaro na matança perpetrada durante a Pandemia. Tendo à frente um general incompetente, e com o Ministério da Saúde coalhado de oficiais, os  militares conduziram o programa bolsonarista da morte. 

A própria Anvisa, do incensado Barra Torres, várias vezes se submeteu à vontade bolsonarista, seja ao não impor medidas mais duras de restrição, ou quando não condenou aberta e oficialmente o uso da cloroquina e outros elixires do presidente, ou até mesmo ensejando, na época do debate em torno das vacinas Coronavac e Sputinik, o máximo possível de atrasos para a aprovação das vacinas  chinesa e russa.

Para além da Covid, a Anvisa tem sido, sob o comando de Barra Torres, a terra dos sonhos para o latifúndio e sua festa de agrotóxicos, com liberações recordes de substâncias comprovadamente tóxicas e deletérias para a saúde humana e para o meio ambiente. 

E os chefes das três forças? Apenas agora se dignam a impor vacinação obrigatória às suas tropas. Isto quando na iniciativa privada já se pratica, há meses, a  demissão por justa causa dos negacionistas.   

Sempre lembraremos de Pazuello e sua frase
emblemática: "Um manda, outro obedece"


Lembremos que tampouco há notícia da demissão em massa de seus cargos dos mais de 7 mil militares ocupantes de cargos públicos no nível federal. Nenhum deles fez o sacrifício maior de abrir mão de gordos salários e vantagens em nome da honra.

Na verdade, os valentes de ocasião da caserna farejaram a situação atual e sabem que seu monstro de Frankenstein está morto. Não podem mais contar com Bolsonaro para manter as boquinhas atuais, pois a chance do presidente se reeleger vão ficando cada dia mais nulas. 

Mais do que isso: Bolsonaro tem tudo para não apenas não se reeleger, mas também como jogar na desgraça para sempre todos os seus apoiadores mais próximos. 

Neste cenário, a alternativa é seguir a dica número um dos marketeiros e reposicionar a marca. Convém então vestir a máscara de defensor da racionalidade e da honra.

Por isso, Barra Torres, após ter aceitado passear sem máscara com Bolsonaro em 2020, se sujeitado às humilhações em lives ao lado dele e ter engolido calado os ataques contra a Anvisa em 2021, em 2022 vira  o grande herói do serviço público. 

Outros heróis virão, na senda das pesquisas eleitorais. (por David Emanuel Coelho)  

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

CUSTOU, MAS OS ALTOS OFICIAIS CANSARAM DAS PALHAÇADAS DO CAPITÃO ALOPRADO E O ESTÃO BOTANDO NO SEU LUGAR

eliane cantanhêde
APÓS MESES SUBMERSOS, MILITARES VOLTAM À TONA CONTRA O NEGACIONISMO, A FAVOR DA VERDADE
Depois de um mergulho temerário no bolsonarismo, dos solavancos que levaram à demissão de toda a sua cúpula e dos vexames do general Eduardo Pazuello e seus coronéis na Saúde, as Forças Armadas submergiram e saíram do foco e do noticiário por um bom tempo. 

Voltam à tona agora afirmativas e sob aplausos de boa parte da opinião pública que andava ressabiada com os militares.

Não é trivial que na mesma semana um contra-almirante da Marinha reaja a acusações levianas do presidente e o Exército emita diretrizes em perfeita discordância com o que o presidente prega o tempo todo na pandemia. Até os militares estão perdendo a paciência com o capitão insubordinado Jair Bolsonaro.
A comparação é inevitável e leva a uma reflexão: o que se espera dos nossos militares? Agir com a sabujice do general da ativa Pazuello a favor do chefe e contra a saúde, ou com a altivez e responsabilidade do contra-almirante da reserva Antônio Barra Torres a favor da ciência?

Pazuello desmereceu o Exército ao fazer papel de bobo na Saúde, enquanto Bolsonaro e seu gabinete paralelo é que mandavam e coronéis da pasta se metiam em escândalos. “É simples assim: um manda, o outro obedece”, disse o general.

Já Barra Torres, que também é médico, preside a Anvisa e teve um mau momento sem máscara numa aglomeração com Bolsonaro. Sua lealdade, porém, é à ciência e à agência, seus quadros e decisões técnicas. Lá atrás, já advertia contra a cloroquina. Depois, disse a verdade na CPI da Covid. Agora, é firme contra insinuações inaceitáveis.

Bolsonaro não deixou alternativa a ele ao dizer que há interesses (econômicos?) da Anvisa na vacinação das crianças. Já o almirante deu duas alternativas ao acusador: ou se retrata ou prova que teve corrupção, sob risco de prevaricação.

Já o Exército incomodou o presidente com diretrizes de combate à pandemia. Nada demais. Só a atualização da condenação a mentiras (hoje fake news) já prevista no Código Penal Militar e nas regras anticovid adotadas pelo general Paulo Sérgio Oliveira antes mesmo de assumir o Comando da Força.

O presidente queria um desmentido quanto às
fake news e à exigência de vacinas, mas o comandante explicou a ele num café da manhã que apenas alinhou suas medidas com as da Defesa. Está tudo lá. Bolsonaro iria bater de frente com mais um ministro, o general Braga Netto, seu apoiador?

O que continua nebuloso para civis (até do centrão) e militares (até bolsonaristas) é o que Bolsonaro ganha, ou acha que ganha, com seu negacionismo absurdo. (por Eliane Cantanhêde, n'O Estado de S. Paulo)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

QUEIROGA, QUE POR SERVILISMO RETARDA A VACINAÇÃO DE CRIANÇAS, ESCOLHEU O SEU LUGAR NA HISTÓRIA: A LIXEIRA.

leonardo sakamoto
BARRA TORRES HUMILHA BOLSONARO E
 REDUZ AINDA MAIS O TAMANHO DE QUEIROGA
U
m dos efeitos colaterais da nota pública divulgada pelo presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Antônio Barra Torres, pedindo coragem para que Jair Bolsonaro prove as acusações que fez contra ele e o órgão que dirige ou se retrate publicamente, é reduzir ainda mais a estatura diminuta do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. 

"Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, senhor presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar", escreveu Barra Torres. 

"Agora, se o senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate", acrescentou. 

Bolsonaro e aliados transformaram a Anvisa em alvo porque a agência tem tomado decisões coerentes com a ciência, como o aval técnico à vacina da Pfizer (aquela que Jair disse que transformava pessoas em jacarés) para crianças. 
Em sua cruzada contra a proteção das crianças, Bolsonaro insinuou que a Anvisa tem interesses escusos por trás da liberação do imunizante e diz não saber a pressa para aprovar produtos que salvariam crianças. 

A resposta é dada pelo Sistema de Vigilância Epidemiológica da Gripe: do começo da pandemia até 6 de dezembro, foram registrados 301 mortes entre 5 e 11 anos por covid-19. 

O texto do contra-almirante é uma chulapada elegante num Bolsonaro que, ironicamente, vive de lacração. Não será surpresa se o gabinete do ódio que opera dentro do Palácio do Planalto estiver preparando alguma fake para que a nota pública não fique sem resposta junto ao bolsonarismo-raiz. Afinal, o presidente precisa manter a aura de mito para sua base de apoiadores. 

Apesar da manutenção da estabilidade no serviço público ser fundamental para que funcionários possam peitar ordens ilegais e estapafúrdias de político (proteção esta que muita gente adoraria ver removida numa reforma administrativa), a diferença entre eles vai além da garantia de mandato de Barra Torres – que não pode ser demitido até 21/12/2024. 

Há diretores de autarquias federais que, por proximidade de pensamento ou planejamento de seu futuro político, não peitam presidentes. Pelo contrário, preferem bajulá-los em detrimento ao interesse público. 

O que não tem sido o caso de Barra Torres e da Anvisa, que colocam a saúde coletiva acima dos interesses eleitorais e ideológicos de Bolsonaro.  

E estabilidade do cargo nenhuma evitará o fato que, por conta da coragem de publicar a nota, ele e sua família sejam alvos da máquina do ódio bolsonarista – como, aliás, estão sendo.

Já Marcelo Queiroga não foi reduzido à condição análoga à de escravo, crime previsto no artigo 149 do Código Penal. 

Ele não é um trabalhador que foi enganado, assediado, ameaçado ou agredido para endossar o comportamento criminoso do presidente, tampouco para ajudar em sua sabotagem ao combate à pandemia (o epidemiologista Pedro Hallal fala em 500 mil mortes evitáveis). Queiroga se ofereceu conscientemente para o serviço, mesmo tendo condições para dizer não. 

Luiz Henrique Mandetta, p. ex., bateu de frente com o negacionismo de Bolsonaro ainda como ministro da Saúde e deixou o cargo. Nelson Teich não quis endossar a política de entupir os brasileiros de cloroquina e também vazou. 

Queiroga, por outro lado, aceitou se tornar cúmplice não só do morticínio de adultos, mas também o de crianças ao fazer de tudo ao seu alcance para atrasar a vacina a pessoas de 5 a 11 anos. 

Mostrou-se, dessa forma, um homem pequeno, que tem medo de perder o máximo de poder que conquistará na vida, sonhando, talvez, com um apoio presidencial para disputar um cargo de deputado, senador e quiçá governador na Paraíba. 

Tanto Barra Torres quanto Queiroga são médicos. O primeiro será lembrado pela história como um homem justo. 

Já o segundo como alguém que cuspiu em cima do juramento de Hipócrates:
— ao deliberadamente esquecer que prometeu não causar dano ou mal; e
— ao ser cobrado disso num protesto em Nova York, em setembro do ano passado, quando mostrou o dedo do meio aos manifestantes. 

Um homem que, ao ser convidado a escolher onde ficaria eternizado na História, preferiu a lata do lixo. (por Leonardo Sakamoto)
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