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quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

O ÓDIO DE BOLSONARO AOS IANOMÂMIS NÃO É DE HOJE

 

bernardo mello franco

Bolsonaro se vingou dos ianomâmis

Jair Bolsonaro vivia seu primeiro ano em Brasília quando o governo Fernando Collor demarcou a terra ianomâmi. Três dias depois, o jovem deputado subiu à tribuna para protestar. “Essa área é a mais rica do país. Por que instituir uma reserva indígena lá?”, reclamou.

Em tom conspiratório, ele sustentou que os ianomâmis seriam uma ameaça à segurança nacional. Da noite para o dia, poderiam iniciar um movimento separatista. “A curto prazo, essa área poderá tornar-se independente, e a perderemos definitivamente”, fantasiou. Começava ali, em novembro de 1991, sua cruzada contra a maior terra indígena da Amazônia.

Bolsonaro tentou convencer o Supremo Tribunal Federal a derrubar a demarcação. Sem sucesso na Corte, apresentou um projeto para anular o ato no Congresso. “Amanhã se dirá aí que estamos massacrando os ianomâmis. Em nome dos direitos humanos, quem garante que tropas estrangeiras não vão ocupar a Amazônia?”, discursou, em 1992.

Conforme este livro prova, 
o ódio aos indígenas não está apenas
na cabeça vazia do Bozo...
Em meio ao palavrório, o deputado deixou escapar seu real objetivo: liberar a exploração predatória da floresta. “Como o homem perdeu o paraíso através de uma maçã, os brasileiros vão perder o paraíso que é esse atual território. Não através de uma maçã, é lógico, mas através do nióbio, da cassiterita, do diamante”, disse.

A Câmara arquivou a proposta, mas Bolsonaro insistiu em perseguir os ianomâmis. Ao longo de sete mandatos, ele testou diferentes argumentos para depreciar os indígenas. No governo Fernando Henrique, alegou que eles seriam fantoches de ONGs controladas pela Casa Branca.

Na era Lula, trocou de inimigo imaginário e passou a atacar a China. A potência asiática estaria interessada em colonizar grandes espaços vazios nos confins da Amazônia. “Vão lotar seus cargueiros e despejar esse excesso populacional”, delirou.

Em 1998, o deputado chamou o Exército de incompetente por não ter aniquilado os povos originários. “Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema em seu país”, disse.

O plano de extermínio não prosperou, mas o capitão nunca se deu por vencido. Eleito presidente, ele desmontou a Funai, incentivou o garimpo ilegal e deixou os indígenas morrerem de fome. Bolsonaro se vingou dos ianomâmis. (Bernardo Mello Franco)


segunda-feira, 11 de março de 2019

OS BOLSONAROS REZAM PELA CARTILHA ALUCINADA DE OLAVO DE CARVALHO E O BRASIL VIRA FAZ-ME-RIR PLANETÁRIO

clóvis rossi
AUSÊNCIAS QUE PREENCHERIAM LACUNAS
Seria uma tremenda bênção para o governo Jair Bolsonaro se os pupilos de Olavo de Carvalho realmente pedissem afastamento, como ordenado pelo guru.

Seriam ausências que preencheriam lacunas, se você me entende.

A mais sintética e mais perfeita definição para o papel de Olavo de Carvalho foi feita há algum tempo por esse excelente jornalista que é Bernardo Mello Franco, que fez carreira brilhante na Folha de S. Paulo e hoje está em O Globo.

Disse que o polemista passara de piada a doutrina oficial de governo. Só no Brasil mesmo para uma piada virar conselheiro-chefe de um governo.

Ninguém sério leva Olavo de Carvalho a sério. Que os Bolsonaros rezem pela alucinada cartilha dele, azar do Brasil, que está se transformando em faz-me-rir planetário.

Não é opinião só da Foice de São Paulo, como os hidrófobos do bolsonarismo costumam chamar tal jornal. Basta ler o que um impecável conservador, Luiz Felipe Pondé, escreveu em sua coluna desta 2ª feira (11): 
"Esse grupo boçal ao redor da administração Bolsonaro pensa que foi ele quem o elegeu, mas essa percepção é típica de quem vive alienado da realidade. Quem elegeu Bolsonaro, na sua maioria, detesta seu clã, seus idiotas paranoicos e seus churrascos na varanda".
Pena que os olavetes no governo não pareçam ter a menor propensão para largar a boquinha, apesar das ordens do guru. O chanceler Ernesto Araújo, um deles, tem até histórico —e longo— de servir a governos dos quais discorda.

Está no Itamaraty há quase 30 anos. Passou pois, incólume, pelos governos de Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer.

Nunca deu um pio sobre a política externa desses governos, a não ser quando percebeu a chance de subir na vida ao vislumbrar a possibilidade de vitória de Jair Bolsonaro, outro olavete.

Aí, sim, atreveu-se a partir de então a ser crítico das políticas que ajudara a levar adiante, discretamente, é verdade, porque nunca foi relevante no Itamaraty.

Um dos problemas com os olavetes é que, além de serem tidos como uma piada, são uma piada datada, fora de época. 

Olavo de Carvalho dedicou-se a combater o comunismo. Deve achar, como todo fanático que vive alienado da realidade (para citar Pondé) de novo, que foi ele quem derrubou o Muro de Berlim.

O comunismo ficou soterrado nos escombros do Muro, mas os fanáticos querem continuar no combate. São caça-fantasmas, pois.

Dá até uma boa comédia para Hollywood, mas não dá um bom governo, porque os problemas brasileiros não são o comunismo, mas um punhado de outros, todos já fartamente diagnosticados e expostos.

Desconfio até que, se todos os seguidores do guru-piada renunciassem e não fossem substituídos, o governo ficaria melhor. (por Clóvis Rossi)

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

TODOS OS PAISANOS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI. JÁ OS FARDADOS SERÃO MAIS IGUAIS...

Por Bernardo Mello Franco
BLINDAGEM FARDADA
O Senado criou uma blindagem para militares acusados de matar civis em operações de segurança. Um projeto aprovado na terça-feira transfere o julgamento desses casos para a Justiça Militar. Com isso, soldados e oficiais envolvidos em crimes dolosos contra a vida não responderão mais ao júri popular, como os demais brasileiros.

O texto foi enviado ao presidente Michel Temer. Se ele sancioná-lo, o país dará mais um passo atrás no campo dos direitos humanos. O novo projeto reabilita um privilégio criado pela ditadura militar, em decreto-lei de 1969.

Depois da redemocratização, o Brasil ainda levou 11 anos até impor regras iguais a todos. Em 1996, a lei passou a determinar que os militares envolvidos em homicídios dolosos contra civis fossem julgados pela Justiça comum. A mudança foi proposta pelo então deputado Hélio Bicudo, conhecido pela atuação corajosa contra os esquadrões da morte.

No ano passado, a Câmara aprovou a blindagem com a desculpa da Rio-2016. A Olimpíada passou, mas o lobby fardado persistiu. 

Agora a mudança valerá em todas as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Essas ações costumam dominar o noticiário, mas nem sempre trazem resultados efetivos, como se viu mais uma vez na Rocinha.

Ao defender o foro privilegiado para seus soldados, o general Eduardo Villas Bôas afirmou: "Como comandante, tenho o dever de protegê-los. A legislação precisa ser revista". O problema é que essa proteção poderá significar a impunidade de militares que cometerem excessos contra a população civil desarmada.
Hoje os militares já têm direito à ampla defesa nos processos remetidos à Justiça comum. Na Justiça Militar, eles passarão a contar com o privilégio de ser julgados pelos superiores. 

Para entidades de defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internacional, isso vai eliminar a possibilidade de julgamentos imparciais e independentes. 

Ou seja: impedirá que a Justiça seja feita. 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

PICADO PELA MOSCA AZUL DO PODER, ELE VIROU 'BOLSONARO PAZ & AMOR'. VEJAM COMO ELE ERA ANTES DO ENGANA-TROUXAS.

Por Bernardo Mello Franco
BOLSONARO SEM RETOQUES

Jair Bolsonaro desembarcou nos Estados Unidos para divulgar sua candidatura a presidente. Em segundo lugar nas pesquisas, o deputado tenta suavizar o discurso para parecer menos radical. É um bom momento para ouvir o que ele dizia antes de sonhar com o Planalto.

Em 1999, o capitão reformado expôs suas ideias no programa Câmera Aberta, na Bandeirantes [vide abaixo]. Em 35 minutos, ele defendeu a ditadura e a tortura, pregou o fechamento do Congresso e disse que o Brasil precisava de uma guerra civil, mesmo que isso provocasse a morte de inocentes.

A entrevista mostra um Bolsonaro sem retoques. À vontade, ele se gaba de sonegar impostos e estimula os telespectadores a fazerem o mesmo. "Conselho meu e eu faço. Eu sonego tudo que for possível", afirma. Depois, diz que a democracia é uma "porcaria" e conta o que faria se chegasse ao poder: "Daria golpe no mesmo dia. Não funciona".
A máscara não lhe assenta bem. Vai tirá-la após a eleição?

O deputado afirma que Chico Lopes, ex-presidente do Banco Central, merecia ser torturado em pleno Senado. "Dá porrada no Chico Lopes. Eu até sou favorável a CPI, no caso do Chico Lopes, tivesse pau de arara lá. Ele merecia isso: pau de arara. Funciona. Eu sou favorável à tortura."

Mais adiante, Bolsonaro defende o fuzilamento do presidente Fernando Henrique e revela desprezo pelas eleições diretas: "Através do voto, você não vai mudar nada neste país. Nada, absolutamente nada. Você só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando 30 mil, e começando por FHC".

O apresentador Jair Marchesini ainda ensaia conter o deputado. Ele insiste: "Matando. Se vai [sic] morrer alguns inocentes, tudo bem. Tudo quanto é guerra, morre inocente".

Bolsonaro não era um jovem desavisado ao dar essas declarações. Tinha 44 anos e exercia o terceiro mandato de deputado —hoje está no sétimo. Era filiado ao PPB (atual PP), o partido de Paulo Maluf.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

UM E OUTRO

Toque do editor
Serei sincero: em dia de noticiário morno, eu não encontrava nenhum assunto que me me animasse a ponto de trazê-lo para o blogue. Aí bati os olhos no artigo Dirceu e Palocci, do Bernardo Mello Franco, que tem lá seu interesse, mas não é nada tipo parem as rotativas!, como se dizia nos tempos de antanho...

Veio-me, contudo, a ideia de estabelecer um paralelo com uma das melhores canções pouco lembradas do Chico Buarque, Umas e outras. Aí, minhas dúvidas se dissiparam: é com este que eu vou!

De resto, tais personagens inspiram-me sentimentos contrários, mas não exatamente os mesmos dos petistas.

Considero que, na escala de valores dos revolucionários, foi um pecado mortal o ex-trotskista Antonio Palocci ter usado todo o peso do podre Poder Executivo para detonar um humilde caseiro; afinal, existimos para fazer desses coitadezas os sujeitos da História, não para os esmagar quando atrapalham ministros do nauseabundo Estado atual. Face às desgraças e ao opróbrio do Palocci, só consigo pensar que Deus talvez escreva mesmo certo por linhas tortas...
O trotskista que virou suco (ou muco)...

Já o Zé me decepcionou profundamente quando se reuniu em 2002 com grandes  empresários (melhor seria dizer salafrários...) para acertar os termos da capitulação do Lula aos inimigos de classe. Mas, não me iludo: era exatamente esta a missão de que o ex-metalúrgico o incumbiu. 

Foi apenas um representante correto do representado. O grande erro tinha sido cometido lá atrás, quando se inchou tanto a bola de quem não queria o fim da exploração do homem pelo homem, mas, tão-somente, um aumento da quantidade de migalhas do banquete dos exploradores que iam para a mesa dos explorados.

Quanto à contribuição pessoal que o Zé deu para o mar de lama, deve ser relativizada: o mar de lama sempre existiu (inclusive durante as duas longas ditaduras do século passado) e sempre foi amplo, geral e irrestrito, com a imprensa canalha fechando os olhos a ele ou alardeando-o ao máximo, ao sabor de suas conveniências em cada momento político.

O velho Zé deveria saber: aquilo que todos fazem impunemente numa democracia burguesa, um revolucionário ou ex-revolucionário não pode imitar sem que o mundo desabe sobre sua cabeça. Lamento, sobretudo, o monumental trunfo que ele forneceu para a propaganda adversa.
...e o antigo companheiro que jamais deveria ter dado tanta sopa pro azar.
De resto, jamais me omitirei quanto ao fato de que as penas aplicadas ao Zé excedem em muito a gravidade dos crimes que lhe atribuem. 

Aos 71 anos de idade, deveriam permitir-lhe passar o que lhe resta de vida com a família, discretamente, como tem feito nos últimos tempos. Eles punem por corrupção, mas o ódio incontido se deve ao fato de o Zé ter sido um dos personagens mais emblemáticos das jornadas de 1968. 

Eis o artigo:

"José Dirceu e Antonio Palocci foram os aliados mais importantes de Lula na eleição de 2002. O primeiro montou a aliança que tirou o PT do gueto da esquerda. O segundo negociou a trégua entre o partido e o empresariado.
Lembram-se das antigas campanhas contra armas? "Hoje mocinho, amanhã bandido"...
Depois da vitória, os dois foram recompensados com os principais cargos do novo governo. Dirceu passou a pontificar na Casa Civil como um primeiro-ministro. Palocci assumiu a Fazenda com carta branca para comandar a política econômica.

No período da bonança, Lula não poupava elogios para afagá-los. O ex-líder estudantil, que pegou em armas contra a ditadura militar, virou o capitão do time. O médico de Ribeirão Preto, que não parecia ter intimidade com a bola, foi comparado ao craque Ronaldinho Gaúcho.
Zé Dirceu foi um dos personagens mais emblemáticos de 1968

Depois viria a tempestade, e o chefe lançou os auxiliares ao mar. "Eu afastei o Zé Dirceu, afastei o Palocci, afastei outros funcionários e vou continuar afastando", disse, durante a campanha à reeleição em 2006.


Nesta terça, os ex-ministros voltaram a se cruzar no noticiário. Dirceu, que cumpre prisão domiciliar, teve a pena aumentada para 30 anos de prisão. Palocci, que negocia um acordo de delação premiada, anunciou a decisão de se desfiliar do PT.

Condenados por corrupção, eles escolheram caminhos opostos. Dirceu manteve o silêncio em nome da causa. Arrisca passar o resto da vida preso, mas é tratado como herói pelos antigos companheiros. Palocci deve voltar mais cedo para casa, mas jamais se livrará da pecha de traidor.

Muito antes da Lava Jato, os dois chegaram a ser cotados para suceder Lula no Planalto. Então vieram o mensalão e o escândalo do caseiro, e a candidatura sobrou para Dilma Rousseff. Mas essa já é outra história. (por Bernardo Mello Franco)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

CONHEÇA AS RAZÕES DOS DEPUTADOS PARA REJEITAREM IMPEACHMENT DE TEMER

Recado do editor
A coluna que reproduzo abaixo, do jornalista Bernardo Mello Franco, dá uma boa ideia de como e por que a Câmara Federal jogará no lixo a primeira denúncia da parceria Janot-Globo contra Michel Temer. 

Não por causa do rosário de arbitrariedades e/ou impropriedades cometidas por Rodrigo Janot, nem porque o afastamento extemporâneo de Temer alongaria por, pelo menos, outro semestre a grave crise política que o Brasil enfrenta, adiando a saída do País da fase mais aguda da recessão econômica. Afinal, que importa aos deputados o sofrimento do povo? Sempre foi a última das preocupações em Brasília...

Não por ser muito barulho por nada, já que nem se escolheria pela via direta um substituto para cumprir o curto mandato-tampão, nem se anteciparia o pleito presidencial marcado para outubro de 2018.

Não pelo fato de nenhum dos possíveis candidatos ao posto haver empolgado os brasileiros, ficando a escolha limitada a manter Temer ou trocá-lo por um projeto piorado de Temer que leva o nome de Rodrigo Maia.

Mas pelos piores motivos, conforme Melo Franco expõe.

Suponho que isto não vá ser surpresa nenhuma para os leitores deste blogue. Para mim não foi. (CL)
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Por Bernardo Mello Franco
VOZES DA EXPERIÊNCIA
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Daqui a cinco dias, a Câmara decidirá se autoriza ou não a abertura de processo contra Michel Temer. O presidente é rejeitado pela maioria dos brasileiros, mas deverá ter votos suficientes para se salvar. É o que preveem os deputados com mais mandatos na Casa.

Para o decano Miro Teixeira, o espírito de corpo dos congressistas tende a beneficiar Temer. "O plenário atuará como um júri, e muitos jurados também respondem a inquéritos por crime comum. Ninguém quer se condenar. É a solidariedade dos culpados", ironiza o deputado da Rede.

No 11º mandato, Miro apoiou o impeachment de Dilma Rousseff e votará pelo afastamento de Temer. No entanto, ele diz que a batalha será inglória. "Os dois cometeram crime de responsabilidade, mas agora as ruas estão vazias. A realidade é que não conseguiremos os 342 votos", prevê.

O deputado Bonifácio de Andrada, do PSDB, diz que o presidente vai se safar com folga. "Não tenho dúvida. O Temer ganha com mais de 200 votos", projeta.
Pergunta que não quer calar: que lucro a Globo esperava obter? 

No décimo mandato, ele reforça o discurso dos parlamentares contra a Lava Jato. "A Câmara é a representação do povo. Os deputados não são santos porque o povo também não é santo", teoriza.

O tucano diz que o recesso de julho não piorou a situação do presidente, ao contrário do que previa a oposição. "O povo não gosta do Temer, mas também não aporrinha os deputados para votarem contra ele."

Nesta quinta, uma nova pesquisa CNI-Ibope mostrou que a aprovação de Temer caiu a míseros 5%. É o pior desempenho de um presidente desde o fim da ditadura. Para o petebista Paes Landim, que exerce o oitavo mandato, os números não terão qualquer influência no plenário.

"Para nós, políticos, o Temer é bom porque dialoga com o Congresso", elogia. Ele defende o arquivamento da denúncia e não teme perder votos em 2018. "Se a economia melhorar, o pessoal esquece isso", aposta. "O eleitor tem memória muito fraca. Daqui a um ano, já esqueceu."

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

MAIS UMA MAÇÃ PODRE VAI PARA A LIXEIRA: EIKE BATISTA.

Por Bernardo Mello Franco
O AMIGO BILIONÁRIO
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Nos últimos anos, poucos empresários brasileiros foram tão próximos do poder quanto Eike Batista. 

Sua ascensão meteórica foi impulsionada por uma intensa troca de favores com políticos. O dono do grupo EBX era o amigo bilionário, sempre disposto a bancar campanhas, emprestar jatinhos e abrir portas no mundo dos negócios.

O empresário procurava agradar a todos, sem distinção partidária. Em 2006, fez doações idênticas de R$ 1 milhão para Lula e Geraldo Alckmin. Em 2010, repetiu a dose com Dilma Rousseff e José Serra. Até Marina Silva, que não tinha chances de vitória, recebeu sua cota de R$ 500 mil.
Cabral, o presidiário; Eike, o fugitivo; e Dilma, a impichada.

A lei permitia o financiamento privado, e Eike dizia que seu objetivo era contribuir com a democracia. Suas tacadas dependiam de ações do poder público, como a liberação de licenças ambientais e empréstimos do BNDES, mas ninguém parecia preocupado com o conflito de interesses. Se todos estavam felizes com o patrocínio, quem haveria de reclamar?

Em Brasília, o então bilionário era visto como um parceiro das gestões petistas. 

No governo Lula, virou campeão de multas por desmatamento, mas foi recebido com festa pelo ministro do Meio Ambiente. 

No governo Dilma, conseguiu vestir a presidente da República com o macacão laranja de sua petroleira.
No Rio, Eike investiu pesado na relação com Sérgio Cabral. Além de apoiar campanhas, financiou vitrines da gestão do peemedebista, como as unidades de polícia pacificadora e a candidatura para sediar os Jogos Olímpicos. 

Em 2008, quando a PF levantou as primeiras suspeitas sobre o empresário, o governador abriu o palácio para defendê-lo. Foi um amor eterno enquanto durou.

Nove anos depois, Cabral está preso em Bangu e Eike é procurado pela Interpol, acusado de ocultar dinheiro de propina. 

O empresário que bancava os poderosos já deixou de ser bilionário. O próximo passo é deixar de ser amigo, quando tiver que escolher entre a cadeia e o acordo de delação.

domingo, 11 de dezembro de 2016

A SAGA LAVA JATO CHEGA AO FIM: "OS MÃOS SUJAS CONTRA-ATACAM" SERÁ A PRÓXIMA ATRAÇÃO DO CINE BRASIL.

"Não me convidaram pra essa festa pobre
que os homens armaram pra me convencer
a pagar sem ver toda essa droga
que já vem malhada antes de eu nascer"
(Brasil, Cazuza)

O que começa a transpirar da delação premiada da Odebrecht confirma que ela não deixará pedra sobre pedra na política brasileira. 

Mas, exatamente a quem interessam, desta vez, os vazamentos alarmistas, quase apocalípticos? Óbvio ululante: aos mãos sujas, que querem deter a limpeza em curso.

Pois, quando o presidente da República e o governador do Estado mais poderoso têm suas cabeças colocadas sob a guilhotina, juntamente com parlamentares a granel, cria-se a comunhão de interesses necessária para uma solução crapulosa prosperar, com apoio amplo, geral e irrestrito dos podres Poderes, sob o pretexto de que a alternativa será o país mergulhar no caos e a economia ir definitivamente para o brejo.

E o Partido dos Trabalhadores? O PT fará discursos inflamados, nada mais, se incluírem no pacote uma boia para o Lula, que já deve estar com as malas prontas para a viagem a Curitiba. 

Ele é a única esperança do partido para não ser estraçalhado em âmbito estadual e federal nas próximas eleições como já o foi em âmbito municipal nas últimas. Para livrá-lo da cana anunciada e tê-lo a postos como puxador de votos, o PT engolirá até o mais descomunal dos sapos. 

E o Supremo Tribunal Federal? O jornalista Bernardo Mello Franco disse tudo (e eu assino embaixo):
"Até a semana passada, a hipótese de acordão parecia remota, já que exigiria a participação do Supremo. Depois do que a corte fez para salvar Renan, nada mais é impossível"
E o rugido das ruas? Será bem menos possante, quase um miado, se o acordão nos for enfiado goela adentro enquanto a classe média estiver desmobilizada por ser período de férias escolares. Ninguém é de ferro.

Como o Cazuza pedia, o Brasil está mostrando a sua cara. 

Sugere-se aos pais que retirem as crianças da sala, pois podem ter pesadelos...
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domingo, 4 de dezembro de 2016

DE 19ª CONSTRUTORA DO PAÍS, ODEBRECHT SE TORNOU A 1ª NA DITADURA E CAMPEÃ DA CORRUPÇÃO NOS GOVERNOS DO PT.

Por Bernardo Mello Franco
MARKETING DA CORRUPÇÃO

"Desculpe, a Odebrecht errou." Assim começa o anúncio de duas páginas que a maior empreiteira do país publicou nos jornais de sexta-feira (2). Na propaganda, a empresa "reconhece que participou de práticas impróprias".

"Não importa se cedemos a pressões externas", prossegue o texto, insinuando que os empresários corruptores foram forçados a financiar os políticos corruptos. "Foi um grande erro, uma violação dos nossos próprios princípios, uma agressão a valores consagrados de honestidade e ética", continua o comunicado.

O discurso pode sugerir arrependimento, mas é apenas marketing. Há um ano e meio, a mesma empresa manifestava "indignação com as ordens de prisão de cinco de seus executivos". "A Odebrecht nega ter participado de qualquer cartel", dizia a peça publicitária de junho de 2015.

Entre as duas propagandas, publicadas em formato idêntico, o que mudou foi o contexto. A construtora esperava se safar de bico calado, mas foi atropelada por um caminhão de provas e teve que negociar um acordo de delação com a Lava Jato.

As investigações revelaram que a empresa mantinha um departamento exclusivo para o pagamento de propina. Suas planilhas ligam valores milionários a mais de 300 políticos de todos os grandes partidos.

Um pedido de desculpas pode ser melhor do que nenhum, mas seria melhor se a Odebrecht, em vez de posar de Madalena arrependida, fosse direto ao ponto. Num comunicado objetivo, poderia dizer quem subornou, quanto pagou e que obras fraudou, embolsando dinheiro público.

O anúncio desta sexta ainda ilude os leitores ao sugerir que os malfeitos recentes destoaram do histórico de princípios da empresa. 
Velha freguesa do noticiário de corrupção, a Odebrecht deve sua força à ditadura militar.

Apoiada pelo regime, saltou do 19º lugar para o topo do ranking do setor. Numa curiosa coincidência, a escalada começou com a construção do edifício-sede da Petrobras.

domingo, 30 de outubro de 2016

PIZZA PRONTINHA PARA SAIR DO FORNO: DEPUTADOS FARÃO NOVA TENTATIVA DE IMPLODIR A OPERAÇÃO LAVA JATO!!!

Por Bernardo Mello Franco
A ANISTIA VEM A GALOPE
Enquanto a torcida se distrai com as eleições municipais, os deputados articulam uma nova jogada na Câmara. O plano é driblar o Ministério Público e aprovar uma anistia geral ao caixa 2. Se der certo, será um gol de placa do sistema político ameaçado pela Lava Jato.

A ideia é ousada: usar um pacote moralizador para legalizar o financiamento ilegal de campanhas. Os parlamentares prometem aprovar a criminalização do caixa 2, uma das chamadas 10 medidas contra a corrupção. Parece boa notícia, mas há um detalhe. Ao proibir o trambique no futuro, a Câmara quer perdoar quem o praticou no passado.

O lance já foi ensaiado em setembro. A bola não entrou graças a deputados da Rede e do Psol, que se insurgiram contra o acordo fechado pelos grandes partidos. 

Agora a anistia ameaça voltar a galope. O motivo da pressa é a delação da Odebrecht, que deve entregar mais de 200 políticos de todas as siglas.

O novo acordão para estancar a sangria tem o aval do governo Temer e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Na quarta (26), ele repetiu uma tese dos réus do mensalão: caixa 2 e corrupção seriam "coisas distintas", sem ligação entre si.

Em entrevista a Mario Sergio Conti, na Globo News, o deputado indicou que apoia o perdão ao financiamento irregular das eleições passadas. "Nós temos que dar um corte e dizer que daqui para a frente está criminalizado", disse, apesar de a lei já prever punições ao caixa 2.

Questionado se estava defendendo uma anistia a criminosos, Maia abriu o jogo: "Alguma solução vai ter que ser dada. Eu acho que anistia é uma palavra forte". De falta de transparência, não poderemos acusá-lo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A NOVA VERGONHA DO CARANDIRU

Por Bernardo Mello Franco
Foi em outra véspera de eleição, mais de duas décadas atrás. Em 2 de outubro de 1992, a Polícia Militar de São Paulo invadiu a penitenciária do Carandiru para reprimir uma rebelião. A ação matou 111 presos em meia hora. As fotos dos corpos, nus e enfileirados no chão de concreto, correram o mundo como um símbolo da barbárie brasileira.

O massacre também se tornou sinônimo de impunidade. Depois de 24 anos, nenhum policial foi preso. Autoridades da época, como o governador Luiz Antônio Fleury Filho, nem chegaram a ser processadas. Agora o caso ganha mais um capítulo vergonhoso. O Tribunal de Justiça anulou os julgamentos que condenaram 74 PMs. Todos recorriam em liberdade, apesar da gravidade dos crimes e das penas de até 624 anos de prisão.

O relator do recurso, desembargador Ivan Sartori, defendeu a absolvição dos PMs. Ao justificar o voto, ele tentou reescrever a história. "Não houve massacre, houve legítima defesa", afirmou. A declaração é espantosa porque as vítimas estavam desarmadas e todos os policiais saíram vivos. A perícia contou uma média de cinco tiros por corpo, muitos disparados pelas costas e na cabeça.
Parentes das vítimas protestando 

O desembargador também deixou claro que não se importava com a reação da opinião pública. "Eu sou o juiz", decretou. "Seremos criticados pela imprensa, mas não quero saber da imprensa", prosseguiu. Seria demais esperar que ele se importasse com as famílias das vítimas.

Ao contrário do que pregam os defensores da violência policial, massacres de presos não protegem o cidadão de bem. O resultado do Carandiru foi a criação do PCC, que organizou o crime e passou a controlá-lo dentro e fora das cadeias.

O coronel Ubiratan Guimarães, que comandou o banho de sangue, chegou a se eleger deputado. Seu número terminava em 111, num deboche com o número de mortos na invasão. Fleury não tem mais votos, mas continua no poder. É integrante da executiva estadual do PMDB.

domingo, 12 de junho de 2016

SE OS SENADORES ENDOIDAREM, O BRASIL VIRARÁ O PAÍS DA FUZARCA.

Por Bernardo Mello Franco
VOLTAR PARA QUÊ?
Neste domingo (12), completa-se um mês desde que Dilma Rousseff assinou a notificação do impeachment, deixou o Palácio do Planalto e se recolheu ao Alvorada. Na temporada de exílio, ela criticou o substituto e prometeu lutar para voltar à Presidência. Faltou responder a uma pergunta: voltar para quê?

Dilma deve uma explicação sobre o que pretende fazer na hipótese, por ora improvável, de o Senado revogar o seu afastamento. Na noite de quinta-feira, surgiu uma pista. Na entrevista à TV Brasil, ela indicou que convocaria um plebiscito sobre a realização de novas eleições.

"A consulta popular é o único meio de lavar e enxaguar essa lambança que está sendo o governo Temer", disse. "Eu acho que pode ser um plebiscito de alguma forma. Eu não vou aqui dar o menu total, mas essa é uma coisa que está sendo muito discutida", acrescentou.

Parte da esquerda sonha com uma volta em que Dilma retome o programa de 2010, que ela abandonou depois de se reeleger. Há dois problemas: o dinheiro acabou e o Congresso deve impedi-la de governar.

A presidente foi afastada por 71,5% dos deputados e 67,9% dos senadores. No papel, ela precisa virar poucos votos no Senado para arquivar o processo de impeachment. Na prática, teria que mudar a opinião de mais de uma centena de parlamentares para voltar com condições mínimas de aprovar seus projetos.

Ainda faltaria contabilizar a reação das ruas e o estrago que pode ser provocado pelas novas delações da Operação Lava Jato.

A rejeição a Temer pode fortalecer a tese de novas eleições, mas é preciso haver um consenso mínimo entre as forças que não querem efetivar o interino. Por enquanto, não há unidade nem no PT. Na noite de sexta, o ex-presidente Lula evitou o assunto ao discursar para uma multidão na avenida Paulista. Alguns dos principais movimentos que apoiam o "Fora Temer", como o MST, não querem ouvir falar em plebiscito.

A palavra do editor
A AMAZONA DO APOCALIPSE
O Brasil virará o país da fuzarca se os senadores forem malucos a ponto de devolver a Presidência da República a Dilma Rousseff, no exato momento em que surgem os primeiros indícios de recuperação econômica.

Ou seja, seriam jogados fora os meses de governo de Temer, mais o prazo para exoneração da gangue que veio depois e reempossamento da gangue que estava antes. 

Isto tudo para retornarmos ao impasse que imobilizou a administração entre janeiro de 2015 e abril de 2016, pois nada indica que Dilma passaria a contar com maioria na Câmara Federal para aprovar seus projetos –ainda mais tendo a pairar sobre sua cabeça a lâmina do Tribunal Superior Eleitoral, ou seja, não podendo oferecer aos deputados nenhuma garantia de permanência no Palácio do Planalto.

Para um país que permaneceu praticamente sem governo durante intermináveis 16 meses, isto equivaleria a brincarmos com fogo. A política abomina o vácuo e, nestes tristes tópicos, o vácuo costuma ser preenchido por uniformes verde-oliva.

Ademais, Dilma continua não dizendo o que faria de diferente em termos de política econômica. A anterior levou o Brasil à pior recessão da História e fez desempregados brotarem como cogumelos. 

Quem tem um mínimo de conhecimento de economia sabe muito bem que, sem o afastamento, marcharíamos para a depressão econômica e para a convulsão social. Se Dilma não afirmar em alto e bom som que mudará significativamente suas principais coordenadas, só podemos supor que continuará seguindo a mesma rota... que leva diretamente ao encontro do iceberg.

Quanto à afirmação nebulosa de que, na hipótese de os senadores pirarem, convocará um plebiscito, a pergunta é: quem ainda acredita na palavra dela depois do grotesco estelionato eleitoral de 2014?

Mesmo porque, ainda que os senadores ensandeçam, ela não poderia convocar plebiscito algum, mas, tão somente, apresentar uma proposta de referendo revocatório, que teria de ser subscrita por um terço dos deputados, aprovada por 50% mais um dos deputados, depois por 50% mais um dos senadores.

E se tal proposta não emplacasse, ela, com previsível pesar, se resignaria a continuar desgovernando o País até conduzi-lo ao caos ou até dar ensejo a um golpe de verdade e à instauração de uma nova ditadura militar. Me engana que eu gosto.

O tempo que a esquerda desperdiçar elucubrando absurdos é o tempo que poderia aproveitar de forma muito mais útil fazendo uma autocrítica profunda, depurando suas fileiras e definindo novas estratégias e táticas, pois os 13 anos e meio de hegemonia petista a conduziram a um fracasso retumbante e a um beco sem saída.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

AS LIÇÕES DA DERROTA E O QUE FAZERMOS DORAVANTE

O jornalista Bernardo Mello Franco é um dos muitos críticos do último governo do PT que veem consequências sinistras na queda de Dilma Rousseff: "A posse de Michel Temer deve marcar a mais brusca guinada ideológica na Presidência da República desde que o general Castello Branco vestiu a faixa, em abril de 1964. Após 13 anos de governos reformistas do PT, o país passa ao comando de uma aliança com discurso liberal na economia e conservador em todo o resto".

Por um dever de coerência, todos que pretendemos contribuir para a emergência de uma sociedade que concretize os melhores anseios da humanidade através dos tempos –a justiça social e a liberdade– tivemos de repudiar o que o Governo Dilma se tornou: responsável pela pior recessão brasileira da História e, desde janeiro de 2015, meramente neoliberal (ou seja, empenhado em corrigir suas lambanças anteriores à moda de Milton Friedman, sacrificando os explorados e os coitadezas ao invés de entregar a conta aos que sempre foram privilegiados demais, como os parasitas do sistema financeiro, os predadores ambientais do agronegócio, os detentores de grandes fortunas e os aquinhoados com grandes heranças). 

Mas, a partir da descaracterização que a esquerda sofreu nas últimas décadas, isso significou ficarmos, os minimamente coerentes, na contramão dos muitos que passaram a considerar que a alternativa aos governos de direita fosse essa sopa aguada de populismo com reformismo que nos servia o Partido dos Trabalhadores. 

Por mais bandeiras históricas que o PT depositasse no arquivo morto, por mais que o Lula candidamente admitisse que os grandes capitalistas nunca lucraram tanto quanto em seus dois governos, por mais esdrúxulas que fossem as alianças firmadas (e os abraços clicados) com vilões da laia de Paulo Maluf, José Sarney, Fernando Collor, Kátia Abreu, o falecido ACM, etc., ainda assim os petistas mais simplórios e os maria-vai-com-as-outras da internet continuaram considerando que tal partido era a quintessência da esquerda e nós, que repudiávamos quaisquer dessas aberrações, direitistas enrustidos ou inocentes úteis.

Então, alguns colunistas da grande imprensa que sentiam-se incomodados por estarem à margem do não vai ter golpe, mas percebiam que sem o impeachment este país marcharia para a depressão econômica e a explosão social, agora vão, aliviados, reconciliar-se com seus leitores mais desprovidos de espírito crítico, descendo o porrete em Temer e seu ministério.

Não será esta a minha opção. Os colunistas deste blogue, se quiserem, poderão marchar em tal direção, numa boa. Mas, como já me disseram, continuarei sendo um velho teimoso. 

No primeiro texto personalizado que escrevi na minha longa trajetória política, em 1968, eu me alinhava firmemente com a revolução e repudiava o reformismo, apoiando-me na obra célebre de Rosa Luxemburgo. Quase meio século depois, minhas mais profundas convicções são exatamente as mesmas. 

Acredito, basicamente, que: 
  • o capitalismo já cumpriu seu papel histórico no desenvolvimento das forças produtivas e está tendo sobrevida cada vez mais parasitária, perniciosa e destrutiva –tanto que mantém a parcela pobre da humanidade sob o jugo da necessidade quando já estão criadas todas as premissas para o  reino da liberdade, e o 1º mundo sob o jugo da competitividade obsessiva, estressante e neurótica, quando já estão criadas todas as premissas para uma existência fraternal, harmoniosa e criativa;
  • os meios de comunicação que ele desenvolveu, como a internet, facilitam a disseminação e coordenação dos movimentos revolucionários em escala mundial, de forma que um novo 1968, p. ex., hoje seria muito mais abrangente (está longe de ser utópica, agora, a possibilidade de uma onda revolucionária varrer o mundo, como previa e preconizava Marx);
  • a necessidade de adotarmos como prioridade máxima a colaboração dos homens para promover o bem comum, em lugar da ganância e da busca de diferenciação e privilégio, será dramatizada pelas consequências das alterações climáticas e da má gestão dos recursos imprescindíveis à vida humana, gerando crises tão agudas que só unidos e solidários conseguiremos sobreviver;
  • a forte componente libertária original do marxismo tem de ser reassumida, pois os melhores seres humanos, aqueles dos quais precisamos, jamais nos acompanharão de outra forma. 
Em termos práticos, isto me leva a colocar como prioridade máxima, doravante, a construção de uma nova vanguarda, que não se limite a querer gerenciar o capitalismo para os capitalistas (en passant obtendo pequenas concessões para os explorados e garantindo consideráveis ganha-pães para seus dirigentes), mas lute pela transformação em profundidade da sociedade brasileira.

É hora de reaprendermos que a alternância no poder característica da democracia burguesa apenas significa que alguns governos imporão rigidamente a supremacia dos valores e interesses capitalistas, até as tensões sociais começarem a se tornar insuportáveis, quando serão substituídos por outros, menos impiedosos, que vão afrouxar os parafusos por algum tempo, até sobrevir uma grave crise econômica e as tensões sociais começarem novamente a se tornar insuportáveis, pavimentando o terreno para a volta da austeridade e do conservadorismo. 

Ou seja, a perspectiva é de uma eterna gangorra. Então, se apenas desconstruirmos o governo ruinzinho que começa, levando água para o moinho dos que almejam apenas trazerem de volta em 2018 o governo bonzinho (com o jogo de cintura do Lula no lugar da incompetência e autoritarismo de Dilma Rousseff), contribuiremos para a sociedade brasileira continuar patinando sem sair do lugar.

Temos de avaliar a retomada de alguns valores dos quais nunca deveríamos ter abdicado:
  • a colocação da esquerda como alternativa ao Estado burguês e não como seu penduricalho, empenhada em substituí-lo e não em retocar sua maquilagem sem extirpar sua desigualdade intrínseca;
  • como consequência, sairmos dele, passarmos a combatê-lo de fora para dentro e a organizarmos nossas forças à margem do Estado e contra o Estado (prescindindo, inclusive, das boquinhas e das verbinhas governamentais, pois o preço da autonomia política é a independência financeira e nada há de errado em sustentarmos nossas organizações e atividades com rifas, eventos, vendas de artigos e contribuições solidárias, como fazíamos outrora); e
  • voltarmos a encarar as lutas reivindicatórias e as segmentadas (movimento negro, bandeiras ambientais, feminismo, LGBT, etc.) não como finalidades em si, mas como parte da acumulação de forças para o confronto decisivo com o capitalismo, que é o que realmente definirá se viveremos numa sociedade livre das injustiças, iniquidades e preconceitos.
Ou, até se, meramente, sobreviveremos. Pois, em seus estertores, o capitalismo ameaça destruir os próprios requisitos da existência humana. 
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