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sexta-feira, 3 de maio de 2019

VOCÊ SABE QUE CHEGOU AO FUNDO DO POÇO QUANDO COMEÇA A AVALIAR SE NÃO TERIA SIDO MELHOR ELEGERMOS O DACIOLO

ruy castro
APOSTA ERRADA
As forças que, há um ano, se juntaram para apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência devem estar se perguntando hoje se não teria sido melhor ficar com a primeira opção, o cabo Daciolo. 

Na época, ainda longe da largada, Bolsonaro e Daciolo, cada qual em seu box, pareciam focinho com focinho nas preferências. Ambos preenchiam os requisitos: eram carismáticos, primários e quase medievais. 

A ideia era a de que qualquer um deles, se eleito, faria uma simpática figuração no Planalto enquanto o país seria gerido pelos profissionais —os quais, depois de milhares de reuniões-hora em suas instituições, já tinham tudo esquematizado: abertura, reformas, volta da economia. Ao presidente, caberia uma agenda que o manteria ocupado e à distância da única arma perigosa ao seu alcance: a caneta. 

Mas, já na campanha, Daciolo começou a assustar os apoiadores. Em vez de prometer salvar o Brasil, fazia de cada 15 segundos na TV uma versão pocket do Sermão da Montanha. 

Sua voz, amplificada por anos de salmos em quartéis de bombeiros, era assertiva demais.

E, pela frequência com que dava Glória ao Senhor Jesus, era como se tivesse o WhatsApp do homem e somente a Ele daria satisfações no mandato. 

Os apoiadores voltaram-se então para Bolsonaro, com seu jeito de matuto simplório. No poder —pensaram—, enquanto ele brincasse de capitão dando ordens a generais, eles tratariam do país. 

Bem, Bolsonaro foi eleito e fez o que eles não esperavam: resolveu usar a caneta. Fala os maiores absurdos, toma decisões irresponsáveis, provoca incêndios que o próprio governo tem de apagar, quer acabar com a educação e o ambiente, tem três filhos dementes e se deixa guiar por um esperto que está vivendo algo nunca sequer sonhado: dirigir o país por controle remoto. 

Resultado: erraram feio. Daciolo talvez fosse melhor —mesmo com Jesus Cristo como vice. (por Ruy Castro)

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A MONTAGEM DO NOVO MINISTÉRIO É UM PANDEMÔNIO, UM SAMBA DO CRIOULO DOIDO OU UMA COMÉDIA PASTELÃO?

No domingo maldito, apurados os votos e consumada a desgraça brasileira, sai caminhando pela cidade, numa noite em que a São Paulo da garoa parecia reviver, como se chorasse nosso infortúnio. Precisava de ar puro (sentia-me sufocar no meu apê) e queria reavaliar as perspectivas, que de um momento para outro haviam se tornado tão sombrias.

Não havia base para boas projeções de cenários, salvo as de que:
— nada de mais grave aconteceria antes da posse, portanto tínhamos dois meses para nos preparar; 
— o novo governo tentará atuar dentro da ordem constitucional por algum tempo e só depois de fracassar é que as soluções extralegais vão começar a ser cogitadas;
—os identitários da periferia e dos grotões, devido à pouca visibilidade na mídia do que por lá acontece, vão correr perigo desde o dia 1º de janeiro, pois turbas alimentadas com ódio não se detêm apenas porque seu mito ganhou a eleição (tendem, isto sim, a crer que poderão tocar o terror impunemente).
Desde então, as perspectivas foram se aclarando e já se pode ir além:
— a tentativa de subjugarem a universidade e imporem limites obscurantistas ao pensamento, à arte e à cultura já começou, com a guerra cultural tendendo a ser das mais acirradas; 
— estudantes, intelectuais e artistas são os que mais rapidamente estão se organizando para resistirem ao macartismo à brasileira; 
— a sociedade civil, afastado o espantalho do lulismo, tende a unir-se em peso contra o retrocesso político e cultural; 
— o STF afirmou sua independência ao impedir as blitze intimidatórias contra o ensino superior e o estupro da autonomia universitária (seu novo desafio deverá ser o de frustrar em definitivo as tentativas ilegais de entrega à Itália do escritor Cesare Battisti, residente legal no Brasil (conforme explico aqui); e 
— os indícios provenientes dos bastidores da caserna nos dão a perceber que as Forças Armadas são avessas à ideia de extrapolarem seu papel constitucional, não se dispondo, pelo menos no momento, a endossar aventuras extemporâneas.
O certo é que o novo governo terá sofrido enorme desgaste prévio ao ser empossado, pois a montagem do ministério está sendo algo entre um pandemônio, um samba do crioulo doido e uma comédia de pastelão. 

Na última categoria, destaque para o diplomata praticamente desconhecido que criou há dois meses um blog reafirmando com linguajar pernóstico todas as idiossincrasias ultradireitistas de Bolsonaro –a ponto de ser chamado pelo grande Clóvis Rossi de um "cabo Daciolo com alguns livros a mais"– e conseguiu, apoiado por Olavo de Carvalho, dar um chapéu nos maiorais do Itamaraty, que agora prometem despejar um caminhão de melancias em cima dele. 

E o incrível governo Brancaleone em gestação terá de convencer o Congresso Nacional a aprovar medidas muito impopulares, a reforma da Previdência em primeiro lugar.

Tanto na Câmara quanto no Senado, precisará da anuência de três quintos dos parlamentares. Como a conseguirá? Tem tantos cargos assim para distribuir? Vai recorrer aos velhos esquemas de corrupção que prometeu combater? 

O certo é que deputadores e senadores precisarão de alguma motivação muito especial para colocarem suas reeleições em perigo, pois sabem muito bem que as listas dos responsáveis por uma eventual vitória do governo infestarão a internet nos próximos pleitos.

Se não conseguir entregar o que os donos do Brasil dele exigem, o novo governo perderá seu maior sustentáculo. E aí chegaríamos a um cenário futuro que neste momento me parece ser o mais provável: o de um presidente tolhido pelo Congresso e pelo Supremo, tentando romper o impasse mediante um autogolpe.

Talvez até em agosto de 2019, para seguir fielmente os passos de Jânio Quadros, o antecessor com quem Jair Bolsonaro mais se parece, em tudo e por tudo.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

AS URNAS DE NOSSA DESESPERANÇA – 7: OS AZARÕES DO PÁREO PRESIDENCIAL QUE CORREM PELO LADO DIREITO DA PISTA

(continuação deste post)
Meirelles: deveria limitar-se ao ofício de economista
Os candidatos menos cotados
nas pesquisas eleitorais, analisados
 por blocos
(1ª parte
Por mais difícil que pareça, é possível identificar pontos comuns de visão política nos dois blocos aparentemente heterogêneos de candidaturas menos cotados à Presidência da República, bem como num terceiro candidato à parte (mas que se insere no perfil do ultradireitista Bolsonaro).

O ponto de convergência é a crença (ou mensagem demagógica) na capacidade do Estado e do modo atual de produção mercantil por ele tutelado de resolver a contento os problemas sociais. 

Nenhum deles prega uma nova forma de relação e organização, como se a mediação social feita a partir do modo de produção capitalista fosse a única possível e o seu Estado, uma matriz indispensável da qual possam surgir apenas derivações, não alternativas.  

Este ponto comum reflete seus equívocos também comuns, que passam a existir desde o momento em que se propõem a participar no jogo eleitoral regido pela atual Constituição. 

As regras são previamente estabelecidas e joga quem quer.

Assim, analisemos as convergências de gênero nesses blocos político-eleitorais aparentemente heterogêneos.
Álvaro Dias: deveria limitar-se ao Paraná

O primeiro bloco é formado pelos candidatos Álvaro Dias, do Podemos; Henrique Meirelles, do MDB; João Amoêdo, do Partido Novo; e José Maria Eymael, da Democracia Cristã, todos de direita ou centro-direita. 

Apesar das diferenças cosméticas porventura existentes nos apelidos e situações geopolíticas em que se venha a rotulá-los, eles em nada se diferenciam quanto ao seu conteúdo. Pelo contrário, são inúmeras as identidades programáticas destes quatro candidatos que compõem o bloco da salvação do capitalismo com mais capitalismo pela via do Estado, e cuja identidade ideológica é neoliberal. 

Todos enfatizam, p. ex., a necessidade de crescimento econômico:  

— Álvaro Dias fala em crescimento de 5% ao ano; 

— Henrique Meirelles, um pouquinho mais modesto, aceita 4%, talvez por ter apenas conseguido, como ministro da Fazenda de Michel Temer (do qual agora procura distanciar-se como o diabo da cruz), -3,6% em 2016 e 1% em 2017, com previsão em torno de 1% para 2018; 

— João Amoêdo, como banqueiro pragmático, promete crescimento econômico a partir de 10 diretrizes básicas que mais não são do que o antigo corolário da visão burguesa segundo a qual o Estado deve circunscrever-se à função de regulamentação da ordem capitalista, deixando para o empresariado todas as demandas sociais a partir do conceito da mercadoria; 
Amoêdo: deveria limitar-se a otimizar a agiotagem dos bancos

— José Maria Eymael é o mais simplório nesta questão, apregoando apenas que a isenção de impostos para a construção civil seria a pedra de toque do desenvolvimento econômico.             
Ora, o próprio capital é que está travando o crescimento econômico mundial (e, mais acentuadamente, na periferia do capitalismo). E tal ocorre justamente porque são poucas as atividades empresariais com capacidade de geração de lucro.

Como dizia Karl Marx nas suas teses sobre a tendência da redução da taxa de lucro sob o capitalismo, o que vemos hoje é a exigência cada vez maior,  para fazer face à concorrência de mercado, de investimentos em equipamento tecnológicos e infraestrutura (capital fixo) e cada vez menos em capital variável (salários). 

O capital, ao concentrar riquezas por sua lógica concorrencial de mercado, à qual se aplica a lei darwiniana de seleção das espécies para a vida social, somente proporciona lucros àqueles que detêm mais capital (vide o caso dos grandes conglomerados comerciais e industriais que se fundem para ganhar da concorrência e abocanhar as fatias de mercado detidas pelos concorrentes).

É, portanto, graças à famigerada viabilidade econômica que somente se faz algo a partir de capacidade de lucro e, neste, sentido o Brasil equivale a um maratonista mal alimentado que concorre com atletas mais qualificados, sejam eles os donos do saber científico aplicado à produção de mercadorias (casos dos Estados Unidos e União Europeia), sejam eles os países de mão-de-obra abundante e miserável (casos da Índia e China).
Eymael: limita-se a aumentar para 8 suas derrotas eleitorais

Esquecem-se os candidatos de que o crescimento do PIB previsto para a América Latina no ano de 2018 está em torno de 1,6% (mesmo patamar projetado para os países de outros continentes que também pertencem à periferia do capitalismo ). Querer que seja retomado o desenvolvimento econômico a partir da indução pelo Estado, cujas finanças são cada vez mais deficitárias, é balela eleitoral de quinta categoria.   

A proposição de desenvolvimento econômico dos candidatos desse bloco, suposta varinha de condão capaz de suprir as finanças públicas e aliviar-nos de todos os males decorrentes da depressão econômica mundial (e da dívida pública e privada que já corresponde a 360% do PIB mundial, prenunciando um colapso no médio prazo), são tão irrealizáveis como se querer que um fusquinha dos anos 60 ganhe uma corrida de Fórmula 1 em 2018. 

Mas, há outras identidades programáticas que demonstram quão monocórdias são suas respectivas e repetitivas proposições. 

A redução de gastos estatais, que corresponde ao ajuste do orçamento fiscal, é uma proposição de todos os candidatos, num reconhecimento de que o Estado deve sanear as suas finanças para continuar viável.

Ocorre que, após o pagamento das despesas fixas estatais, pouco sobra para o atendimento das demandas sociais básicas. O objetivo deles é manter viável a tutela do Estado, tida como indispensável para a operacionalidade do sistema capitalista. 
Cabo Daciolo: limita-se a desfrutar seus 15 minutinhos de fama

Há despesas orçamentárias indispensáveis para a governabilidade, como a folha salarial dos poderes do Estado e o custeio da máquina estatal (poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, aí incluído os gastos militares com salários e equipamentos); os juros da dívida pública; e o déficit previdenciário. 

Tudo isso, somado a outras despesas menores mas igualmente obrigatórias, implica um déficit fiscal crescente, sem que o Brasil possa emitir moeda sem lastro (que causaria inflação insuportável), como o fazem os EUA e a União Europeia.

Os candidatos somente oferecem respostas a tal impasse acenando com a quimera do desenvolvimento econômico e do arrocho fiscal (este último item causador de grandes prejuízos para o povo no quesito das demandas sociais básicas de responsabilidade constitucional, principalmente saúde e educação). 

Aliás, a Constituição burguesa é sempre invocada quando se trata de cumprimento das regras republicanas que interessam aos capitalistas, mas ignorada solenemente quando se trata do respeito aos direitos populares ali consignados (e isto tem sido observado tanto nos governos de direita quanto nos de esquerda, neste momento de falência do Estado e de explicitação da coerção tácita do capital). 

Outro ponto comum a este bloco de candidatos é o enfoque da questão previdenciária, verdadeiramente explosiva se levarmos em conta quantos brasileiros hoje vivem às custas da previdência social, sem a qual ficariam no abandono, famintos e doentes. 

Para que fosse mantido o equilíbrio contábil das contas, quem deveria pagar as pensões dos inativos seriam os novos contribuintes previdenciários. 

Ocorre que, com o alto índice de desemprego do Brasil (mais de 12% da população economicamente ativa, ou 13,7 milhões de brasileiros), acrescido à redução do nível de salários sobre o qual incide a contribuição, o Estado vê-se obrigado a suprir a déficit previdenciário crescente. 

As fórmulas para o equacionamento desta questão sob a lógica do capital se resumem a duas opções, que procuram se somar. São elas: 
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— crescimento da economia e, consequentemente, do nível de empregabilidade e dos salários, o que faria aumentar o volume monetário de arrecadação e contribuição previdenciária; e
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— redução de direitos consubstanciados da redução do valor das pensões (a inflação colabora nesse sentido quando os valores permanecem inalterados) e aumento do tempo de contribuição, obrigando os contribuintes a se aposentarem quando estiverem perto da morte. 

Os candidatos de direita e de esquerda estão presos nesta jaula de ferro inexpugnável criada pelo capitalismo (que se oxida a olhos vistos), daí ser necessário inventarmos uma nova lavagem de roupa, como me disse certo desempregado crônico. 

A alternativa a todos os impasses do capital no seu limite interno absoluto de expansão (por seus próprios fundamentos, e não por ação política externa) não é uma inverossímil otimização de sua administração, mas sim a sua superação. 

As demais propostas administrativas dos candidatos desse bloco apresentam apenas modificações cosméticas, que em nada alteram a substância de seus governos. 

Estes se defrontariam com os mesmos impasses dos seus antecessores, sempre experimentando, no médio prazo, as dificuldades da ingovernabilidade que lhes são impostas pelo capital (cujas agruras terminam invariavelmente arrebentando nas costas do povo explorado pela extração de mais-valia e pelos impostos escorchantes).  

E tudo isso tendo, ainda, de negociar com um parlamento eleito pela força da grana, que funciona da base do é dando que se recebe; e sendo geralmente obrigado a respeitar os interesses corporativos daqueles que se apegam encarniçadamente a suas benesses setoriais, mesmo quando elas conflitam com o interesse coletivo. 

Por último, não há motivo para se dedicar mais do que um parágrafo ao bloco do eu sozinho do Cabo Daciolo, do Patriota, cujo discurso é uma versão religiosa fundamentalista do militarismo bolsonariano, estando mais para o similar evangélico do fanatismo do Estado Islâmico do que para uma candidatura que mereça análise detalhada. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

AS URNAS DE NOSSA DESESPERANÇA – 1: OS PARTIDOS TRAEM ATÉ OS PRÓPRIOS NOMES

Se por acaso algum candidato tivesse um surto de honestidade e clareza sobre o ato de governar no momento atual da crise do capitalismo (e, particularmente, da crise brasileira), e fizesse um discurso escancarando a realidade ao invés de disfarçá-la, certamente seria cassado pelo próprio partido, execrado pela maioria do eleitorado e talvez até processado pelo Ministério Público por desobediência constitucional. 

É que o eleitor acredita piamente que os problemas sociais sob a ordem capitalista possam ser resolvidos a partir de uma administração pública eficiente e sem corrupção, uma vez que a grande mídia inculcou nas mentes populares que a miséria social decorre desses dois fatores.

Assim, os candidatos fingem ter solução para tudo, prometendo um Brasil próspero, sem corrupção e menos desigual... mas, apenas até o momento em que assumem a responsabilidade de governar o ingovernável! Aí começam as justificativas para o fracasso de curto, médio ou longo prazos.

Esmiuçaremos nesta série de artigos as propostas específicas de cada um dos 13 candidatos, mas antes convém fazermos uma ligeira análise do ideário e da doutrina (ou falta delas) dos partidos que disputarão o poder presidencial em outubro. 
No Brasil os partidos políticos costumam contrariar nas suas práticas aquilo que dizem ser nas suas mensagens programáticas e nas suas simbologias, senão vejamos: 
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— o PTB da Ivete Vargas e, hoje, de Roberto Jefferson (o que dispensa comentários), é patronal e de direita, embora se diga (sem sê-lo) sucessor do trabalhismo nacionalista de Getúlio Vargas, o qual, por sua vez, era baseado na fascista Carta del Lavoro italiana; 
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— o PSDB, cuja própria sigla o identifica como sendo social-democrata, é, na verdade, de centro-direita e neoliberal; 
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— o DEM, ou Democratas, equivale ao Partido Republicano dos EUA, ou seja, é conservador de direita; 
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— O PSC e o Patriota, partidos de aluguel pelos quais concorrem Jair Bolsonaro e o cabo Daciolo, não representam seus programas, até porque nem sequer os têm (reduzem-se a um amálgama de ideias confusas, de um nacionalismo ultrapassado ou fundamentalista), enquanto seus respectivos candidatos não passam de caricaturas de ditadores energúmenos sonhando com um regime ditatorial de direita no qual os partidos sejam banidos; 
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— o PDT tem como candidato Ciro Ferreira Gomes, que foi cesista no governo do coronel César Cals; adautista no governo do coronel Adauto Bezerra; virgilista no governo do coronel Virgílio Távora; gonzaguista no governo de Gonzaga Mota; tassista no governo do outrora peemedebista Tasso Jereisssati (que o tirou da inexpressiva condição de personagem político do interior do Ceará para catapultá-lo a prefeito, governador, ministro e pretendente à Presidência da República). 
Após passar por tantas siglas partidárias, Ciro demonstra pertencer mesmo ao Partido dos Ferreiras  Gomes, não tendo nada a ver com o PDT fundado por Leonel Brizola, cujo DNA era trabalhista e nacionalista ultrapassado (o governador cirista do Ceará é filiado ao PT, para se ter uma ideia barafunda...); 
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 o MDB, que voltou ao nome antigo, foi um partido criado pela ditadura de 1964/85 para servir como um simulacro de oposição. Assim, sempre foi uma linha auxiliar do sistema, ainda que as suas hostes tenham abrigado membros da esquerda que queriam um espaço político e foram perseguidos. 
De tanto usar o cachimbo a boca ficou torta, acostumando-se a ser um partido de auxilio político a qualquer governo (ou de oposição, quando isto lhe for mais conveniente em termos de conquista e acumulação de poder).
Tem na sua história o opróbrio de haver traído as diretas-já para favorecer Tancredo Neves, que queria o colégio eleitoral para se eleger. Deu no que deu: José Sarney, antes presidente do PDS, partido oficial da ditadura, terminou presidente após a queda desta última. 
Termina hoje com um candidato ligado ao mundo financeiro internacional, Henrique Meireles, que tenta a todo custo se desvencilhar da imagem do Presidente Temerário. A trajetória do MDB dá bem uma mostra do que são os partidos políticos no Brasil.

— o Podemos tem como candidato Álvaro Dias e segue a mesma trilha da inconsistência programática, ou seja, é candidato dele mesmo e por puro oportunismo eleitoral, servindo apenas para viabilizar a sua candidatura desde há muito programada, depois que não conseguiu fazê-lo pelo PV; 
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— o Psol é o PT de outrora, mas já laçado pela gravata do poder, e caminha para a domesticação parlamentar e governamental quando assumir o poder estatal burguês em qualquer esfera do Executivo; 
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— o PC do B, supostamente Partido Comunista do Brasil, é na verdade anticomunista, pois defende o desenvolvimento econômico capitalista a qualquer custo, não hesitando em firmar alianças políticas as mais pragmáticas e fisiológicas, dentro do conceito stalinista de que os fins justificam os meios; 
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— o partido da Rede é ecologista comportado, ou seja, sustenta que a questão ecológica possa ser resolvida em pleno capitalista, sendo, portanto, mal definido ideologicamente; 
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— o PV, com seu discurso de ecologia cosmética, é apenas fisiológico e oportunista, entoando, piorada, a mesma cantilena da Rede;
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— o PT é, verdadeiramente, social-democrata... e, ademais, no mau sentido! Ou seja, não passa de um misto de trabalhismo de resultados (que nem trabalhista sério chega a ser) com reformismo (sendo mesmo defensor do capitalismo na sua essência fisiológica governamental). Cameleônico, mostra-se estatizante ou neoliberal conforme seus interesses de momento, quase sempre relacionados ao apego ao poder e à busca das benesses do aparelhamento do Estado;
Para começar, o PT desconhece que o trabalhador e o trabalho são categorias capitalistas; portanto, desde o seu nome é um partido inserido na lógica capitalista, a despeito do seu pretenso viés socialista. O PT no governo encara as depressões capitalistas como suas depressões, ao invés de denunciá-las. 

Os demais partidos são apenas siglas de aluguel que servem à eleição de parlamentares de baixa votação e venda de tempo na propaganda eleitoral. 

Feita esta análise programática superficial das siglas, vamos às propostas e ao perfil de cada um dos 13 candidatos, torcendo para que o número de mau agouro seja mera coincidência... (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

domingo, 19 de agosto de 2018

AVANÇADO NA PRAGMÁTICA DE CLASSE E ATRASADO NA VISÃO DE MUNDO, DACIOLO É UM PERSONAGEM CONTRADITÓRIO

david de souza coelho
DACIOLO CONSELHEIRO:
MESSIANISMO NA ERA
NEOLIBERAL?!
Óbvio, o candidato Benevenuto Daciolo Fonseca dos Santos não passa de um azarão no páreo presidencial. Porém, é inegável ser o cabo o autêntico outsider desta eleição, despertando, enquanto tal, curiosidade e simpatia. 

Uma coisa notável na figura de Daciolo é a junção entre fundamentalismo religioso e crítica social. 

Não podemos esquecer a história do personagem: cabo dos bombeiros do Rio de Janeiro, liderou uma combativa greve da categoria durante o governo Cabral; seu engajamento social chamou a atenção do Psol, que o filiou e transformou em deputado federal. Após expressões alucinadas de fanatismo religioso (queria colocar a frase todo poder provém de Deus na Constituição) foi expulso do partido. 

Entre um e outro discurso delirante, é conhecido por andar sempre com sua bíblia na mão, fazer profecias, denunciar iluminatis e maçons. No entanto, também lutou por melhorias para sua categoria, votou contra as reformas de Temer e não se cansa de atacar a bandidagem instalada no Congresso. 

Parece uma figura contraditória, avançado na pragmática de classe, atrasado na visão de mundo. No entanto, de modo algum Daciolo é um personagem bizarro. Ele é exótico apenas para quem desconhece as entranhas do próprio país, mesmo que tais entranhas estejam logo ali na zona norte do Rio de Janeiro. 

Na verdade, Daciolo representa um tipo social muito comum nas periferias das grandes metrópoles brasileiras. Muito mais comum, inclusive, que o fundamentalista ultraliberal. Este, o qual Bolsonaro tenta encarnar, está até presente na classe média, mas entre os trabalhadores periféricos ele é uma raridade. 
O tipo de Daciolo é o sujeito possuidor de aguda criticidade social – embora intuitiva, de maneira geral –, mas uma visão de mundo profundamente retrograda e alucinada. Claro, nem todos possuem a mesma capacidade de argumentação de Daciolo, mas é por isso que ele é a encarnação do tipo, não seu modelo três por quatro. 

Para mais ou para menos, o cabo representa uma figura bem disseminada em nossas periferias: o trabalhador pentecostal. A bíblia é seu guia existencial, formatando sua visão de mundo. É um ordeiro por excelência, abominando revoluções ou subversões da hierarquia. No entanto, possui um forte senso pragmático quando a questão é econômica. 

Na história brasileira, só consigo pensar numa figura semelhante em sua mistura de fanatismo religioso e aguda crítica social: Antônio Conselheiro. 

É interessante, inclusive, ver a similaridade entre a reação das elites modernistas do fim do século 19 à sua pessoa e a reação atual dos bem pensantes ao fenômeno Daciolo. Em ambos os casos, as figuras são vistas como exóticas, grotescas ou risíveis, mostrando que o Brasil profundo ainda nos permanece ignorado, mesmo tanto tempo depois de Euclides da Cunha. 

O líder de Canudos era o resultado da decomposição social do antigo sistema latifundiário do nordeste. Com a abolição da escravidão e o fim do império, o centro econômico e político do país se transfere para o sul/sudeste, deixando hordas de camponeses vagando sem rumo pelo sertão, muitos morrendo de fome. Só eram lembrados pelo recém instalado poder da república na hora de pagar impostos. No resto do tempo, eram completamente invisíveis. 

Conselheiro tornou-se o líder dos camponeses abandonados. No regime social falido do pós-ciclo açucareiro, amalgamava visões de mundo de um catolicismo ultraconservador com um agudo ataque às novas elites da república, as quais criavam um país no sul esquecendo-se dos miseráveis do norte. 

Não tenho pretensão aqui de insinuar que Daciolo é um novo Antônio Conselheiro, ou outra coisa do tipo. Pretendo apenas mostrar a semelhança entre duas figuras representativas, na história brasileira, de uma junção entre crítica social e profundo fanatismo religioso. 

Na verdade, o comum entre ambos é terem sido produzidos em épocas de decomposição social. Conselheiro, na decomposição do antigo sistema latifundiário do nordeste. Daciolo, na decomposição do neoliberalismo. 

Não é segredo o pentecostalismo ter se multiplicado fortemente no período neoliberal. As periferias brasileiras foram tomadas por ele. 

Impossível esmiuçar a fundo aqui as bases deste fenômeno, mas dá para resumir dizendo que o fundamento do avanço pentecostal é a cisão entre esfera do consumo e esfera da produção, operada pelo neoliberalismo. Em essência, o consumo ilimitado é para poucos, entrando as igrejas para acolher os que ficaram para trás.  
Um tipo igual ao Daciolo é justamente a resposta acabada à decomposição social operada pelo neoliberalismo.  

Ele assume a crítica religiosa, messiânica e puritana ao estilo de vida hedonista instaurado no mundo contemporâneo – do qual pessoas como Daciolo não participam ou participam apenas de modo limitado –, enquanto, ao mesmo tempo, respondem, na prática, aos ataques perpetrados contra ele na esfera econômica pelo neoliberalismo. 

Por isso, não há contradição alguma em Daciolo dizer que “o Senhor é o rei de toda glória” e depois atacar, de forma realista, os interesses da burguesia rentista. A lógica é a mesma, pois, na visão deste grupo social, estar alijado do consumo ilimitado e naufragar na precariedade econômica são duas faces de uma mesma moeda. 

Antônio Conselheiro podia dizer tranquilamente que a república era o cão, a besta, e depois criticar a concentração de terras. Seu público entendia perfeitamente, pois também sentia o abandono e a perseguição do poder da república. Igualmente, Daciolo pode falar sobre Jesus ser a salvação do Brasil e depois criticar as reformas de Temer. Seu público também o entende. 

De resto, muito se elucubra sobre Daciolo roubar votos de Bolsonaro. Embora o público dos dois não seja exatamente o mesmo, é possível que Daciolo impeça o capitão de crescer. 

Bolsonaro, inclusive, deu um enorme tiro no pé ao aderir ao discurso ultraliberal do Instituto Millenium. Acreditou que cairia nas graças do grande capital, mas apenas perdeu a chance de alargar seu eleitorado. 

Houvesse adotado um discurso econômico a la Daciolo – atacando a precarização dos trabalhadores – teria crescido em apoio entre a classe trabalhadora. Para nossa sorte, o ex-capitão é um perfeito mentecapto.
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(por David Emanuel de Souza Coelho)
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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A SIGLA "URSAL" É UMA PIADA DE 2001 QUE NOS FEZ RIR DO CABO DACIOLO EM 2018

O bombeiro Daciolo Fonseca dos Santos, conhecido como cabo Daciolo, tem 42 anos. Dá para imaginarmos o quanto ele deve ter sonhado com a popularidade que o 1º debate entre os presidenciáveis lhe proporcionou. Talvez até imaginasse que os pastores evangélicos um dia mencionariam seu nome nos sermões, como exemplo de religioso exemplar.

Bem, as chances de ele ser citado nos sermões aumentaram, mas não como ele gostaria. Isto porque é bem capaz de Daciolo servir para personificar aqueles que, segundo Jesus Cristo, deveriam ser perdoados por não saberem o que faziam...

Entre outras sandices, Daciolo perguntou a Ciro Gomes: "O que pode falar sobre o Plano Ursal? Tem algo a dizer para a nação brasileira?”.

Quando o adversário negou estar envolvido com, ou mesmo conhecer tal plano, Daciolo insistiu: seria a União das Repúblicas Socialistas da América Latina, fundada para estabelecer em nosso continente algo semelhante à antiga União Soviética (cuja sigla era URSS). 

E, triunfante, concluiu: “No nosso governo, o comunismo não vai ter vez". 

Como a Ursal era uma ilustre desconhecida do distinto público, a imprensa resolveu apurar de onde surgira tal disparate. 

E acabou descobrindo que se tratou apenas de uma galhofa da socióloga e professora universitária aposentada Maria Lúcia Victor Barbosa que, em artigo publicado em dezembro de 2001, indagou, debochando do alarmismo direitista acerca do Foro de São Paulo:
"Mas qual seria, me pergunto, essa tal integração no modelo Castro-Chávez-Lula? Quem sabe, a criação da União das Republiquetas Socialistas da América Latina (Ursal)?"
Ou seja, a piada de 2001, que se evidenciava claramente na utilização do termo pejorativo Republiquetas, não só confundiu os obtusos de então, como continua sendo até hoje levada a sério pelos Daciolos da vida. 

O que vem demonstrar quão profético foi o rei do entretenimento P. T. Barnum (1810-1891), em sua frase mais célebre: 
"Nasce um otário a cada minuto e, com a explosão populacional, logo deverão estar nascendo cinco otários por minuto".
Um desses cinco, nem preciso dizer quem seja... 
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