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sexta-feira, 2 de abril de 2021

SE NOSSA ESPÉCIE NÃO FOR EXTINTA ANTES, CHEGAREMOS À 3ª NATUREZA HUMANA – 1

dalton rosado
SOMOS AINDA IRRACIONAIS?
As ciências biológica e sociológica consideram que os seres humanos vivem o estágio da segunda natureza humana. A diferença entre o atual e o período tido como primeira natureza é a irracionalidade animal e a racionalidade do homo sapiens cuja aquisição inicial se situa uns 250 mil anos atrás.

É evidente que a transformação e transição de um estágio para outro não se operou (e nem se opera) num estalar de dedos, mas ao longo de milênios e de modo geografica e linearmente diferenciado; é certo, também, que a cada avanço se aceleram os mecanismos cognitivos de superação dos estágios anteriores, em busca de uma maior racionalidade.

Mas os traços de irracionalidade e crueldade próprios de um estágio selvagem (que me perdoem os animais irracionais pelo termo, de vez que estes jamais predam a natureza, ainda que devorem uns aos outros para sobreviverem) têm aflorado na era moderna, como se ainda estivéssemos presos às amarras de nosso passado distante. 

O que dizer dos exemplos da 2ª Guerra Mundialna qual pelo menos 50 milhões de seres humanos foram ceifados pela brutalidade de governos tiranos nacionalistas capitalistas (mas autoproclamados socialistas e trabalhistas em suas nomenclaturas de partidos, como o nazista alemão e o fascista italiano)? 
O que dizer da guerra da Síria, que já dura 10 anos, com a morte e a migração forçada de milhões de pessoas? Nela se verifica, além da luta pelo poder, a intervenção oportunista de tudo que é grupo político-religioso ou doutrina ideológica a disputar ali a verdade ditada pelo santo graal.

O que dizer da tragédia dos seres humanos (inclusive crianças) que correm riscos imensos e sujeitam-se às piores agruras em fugas desesperadas da guerra e da fome que grassam em seus países de origem, dirigindo-se cheios de esperanças às mecas do capitalismo e, quando sobrevivem à aventura, sendo por elas sumariamente rejeitados? 

O que dizer das turbas que glamurizam um passado tenebroso, voltando a utilizar, como símbolo de solução dos problemas sociais, a suástica ensanguentada do nazismo (regime decorrente do desemprego e penúria da Grande Depressão, aliás menos grave do que a reprise que ora se delineia, cujas perspectivas são ainda mais aterrorizantes)? 

O que dizer dos grupos raivosos que surgiram recentemente no Brasil (iludidos por conceitos patrióticos ultrapassados e por um simplista moralismo anticorrupção, sem compreenderem que o próprio capital, por eles defendido, é a maior das corrupções, aliam-se aos industriais e banqueiros corruptores e barbarizam os cidadãos conscientes que se lhes opõem)?

O que dizer de um governo que mantém, em gabinetes próximos ao do presidente da República, uma tropa que dá sustentação informática eletrônica à lavagem cerebral em larga escala, o dito gabinete do ódio, a disseminar uma virulenta desqualificação moral dos adversários políticos, além de incitar levantes golpistas e totalitários de ultradireita (querem a quebra das instituições do Estado burguês para em seu lugar colocarem a força das armas e a infâmia das posturas racistas, xenófobas, misóginas, supremacistas, elitistas, etc., etc., etc.)? 

O que dizer da irracionalidade do trânsito das megalópoles, lento por conta do congestionamento de veículos individuais ao invés de transportes públicos de massa que proporcionassem comodidades e rapidez de deslocamento das pessoas, e que ainda polui pela emissão de monóxido de carbono na atmosfera, tudo como forma de atender à pretensa indispensabilidade de empregos da indústria automobilística?
O que dizer de um processo industrial capitalista que infesta a atmosfera com o mesmo poluente do monóxido de carbono do trânsito e que tem nos dois maiores produtores de mercadorias do mundo, os Estados Unidos e a China, os maiores emissores?

Creio serem desnecessários mais exemplos, embora eu ainda pudesse citar muitos outros, de diferentes naturezas mas convergentes quanto à origem: o processo de produção e comercialização mercantil capitalista e seu comando irracional, que nos dá ordens insanas para que as cumpramos como obedientes soldados sem senso de justiça e de moralidade, nem um mínimo de empatia com os demais seres humanos. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O DILACERANTE POEMA DE IEVTUCHENKO SOBRE O MASSACRE DE BÁBI YAR EM 1941, ENFIM TRADUZIDO, É ATRAÇÃO DO BLOG

Ievguêni Ievtuchenko
(tradução: André Rosa)
Nenhum monumento se ergue em Bábi Yar.
Um penhasco íngreme, feito lápide áspera.
Tenho medo.
          Hoje tenho tantos anos
quanto o próprio povo israelita.
Vejo-me agora como 
                  judeu.
Eis que perambulo pelo antigo Egito.
E eu, pregado à cruz, pereço,
ainda tenho em mim as marcas de pregos.
Vejo-me como
                            Dreyfus.
O filisteu
        é meu delator e juiz.
Estou atrás das grades.
            Estou cercado.
Intimidado, 
        humilhado,
               caluniado.
E as damas em rendas de Bruxelas berram
enquanto furam-me o rosto com guarda-chuvas.
Sinto-me como
     uma criança em Bialystok (1).
O sangue escorre, se espalha pelo chão.
Chefetes de botequim em raiva desimpedida
entre cheiros de vodca e cebola.
Apanho com pontapés, impotente.
Aos carrascos (2), suplico em vão.
Enquanto berram
            “Esmaguem os judeus, salvem a Rússia!” —
um muambeiro (3) violenta  a minha mãe.
Ó, meu povo russo!
        Eu sei —
              vocês são
internacionalistas em sua essência.  
Mas, aqueles cujas mãos são sujas
chacoalham com o seu puríssimo nome.
Eu conheço a bondade da sua terra.
Quão vis são os
antissemitas que suntuosamente chamam 
a si próprios de União do povo russo!
Vejo-me como
           Anne Frank,
frágil
      como um ramo em abril.
E amo.
         Não preciso de palavras.
O que preciso
     é que nos olhemos nos olhos.
Tão pouco se pode ver,
              cheirar!
As folhas nos são proibidas
              e o céu também é impossível.
Podemos, contudo, 
           gentilmente
abraçarmos uns aos outros num quarto escuro.
Estão chegando?
            Não tenha medo, são ruídos
A própria primavera
               virá até aqui.
Venha até mim.          
Depressa, me dê os seus lábios.
Estão quebrando a porta?
                Não, é o gelo se partindo...
As ervas selvagens murmuram sobre o Bábi Yar.
As árvores soam sinistras
                como num julgamento.
Há no silêncio um grito sem fim,
                    e, tirando o chapéu,
eu 
     encaneço aos poucos.
Eu mesmo,
            feito um berro surdo e incessante
sobre milhares e milhares de enterrados.
Eu sou
    cada velho aqui abatido à bala.
Eu sou
     cada criança aqui abatida à bala.
Nada disso será esquecido
                  por mim!
         Deixem a Internacional
                       trovejar
quando for enterrado para sempre
o último antissemita da terra.
Não tenho uma só gota de sangue judeu.
Mas, em seu ódio insano, todos os antissemitas
neste momento me odeiam,
          como a um judeu,
e por isso
      eu sou um verdadeiro russo!
1Região onde ocorreu um dos mais violentos pogroms, uma versão russa da Noite dos Cristais.

2No original, погромщик, palavra derivada de pogrom, ataque violento a uma comunidade minoritária para intimidação, destruição e/ou pilhagem.

3No original em russo, o verbo насиловать pode significar coagir, constranger, mas também violar e estuprar. Optei por manter a ambiguidade com a palavra violentar. (André Rosa)
TOQUE DO EDITOR – O André Rosa é um jovem com muito talento que começou a escrever-me lá pelo começo desta década, para comentar assuntos culturais. 

Percebi que, se continuasse a morar na sua cidade de origem, um município pequeno e pouco interessado na literatura, desperdiçaria seu evidente potencial; e que, como fazia traduções de russo, aptidão rara, tive certeza de que ele acabaria se dando bem em capitais como São Paulo ou Rio de Janeiro.

Então, incentivei-o enfaticamente a tentar a sorte, até porque, no fundo, ele estava apenas  acumulando coragem para o passo decisivo.

Com poucos recursos mas muita determinação e esperança, ele aproveitou otimamente a chance que surgiu para cursar a UFRJ e deslanchou na vida, adquirindo prestígio como tradutor e publicando artigos no Le Monde Diplomatique e em veículos culturais.

Então, é-me por demais gratificante poder trazer para o blog um verdadeiro tour de force do André como tradutor: o poema  dilacerante que Ievtuchenko criou em 1961, referente ao massacre em massa de 33.761 civis ucranianos, levados pelos nazistas para  a ravina de Bábi Yar, em Kiev, e abatidos como animais nos dias 29 e 30 de setembro de 1941.

Além dos carrascos diretos, Ievtuchenko fustiga os soviéticos, antissemitas desde o tempo dos czares, pois, apesar de então se nortearem teoricamente pela Internacional, não mostraram empatia nem solidariedade para com as vítimas do massacre.  (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

ALEMÃES QUE VOTASSEM EM HITLER NO INÍCIO DE 1945 SERIAM COMPLETOS IMBECIS. IDEM, OS ELEITORES DE TRUMP EM 2020

A vitória de Joe Biden sobre Donald Trump, que deveria ser acachapante, acaba dependendo dos votos a serem apurados na reta de chegada.

Mesmo que ganhe, como parece ainda ser a possibilidade mais plausível, o placar apertado lançará sombras terríveis sobre o futuro da humanidade.

Boa parte dos estadunidenses simplesmente se viu diante de um cenário parecido com aquele que se apresentava aos alemães no início de 1945, quando o país era invadido pelas forças soviéticas na frente oriental e pelos exércitos dos EUA, Inglaterra e França na ocidental, sem nenhuma escapatória além da rendição.

Já pensaram se, naquele momento, a Alemanha fizesse uma eleição para escolher seu dirigente máximo e Hitler ainda recebesse votos de dois quintos dos eleitores? 

Pois é o que se constata da totalização informal da imprensa início de tarde: Biden com 44% e Trump chegando aos 40%.

Como podem indivíduos supostamente racionais votarem num presidente simplesmente catastrófico, que não resolveu nenhum dos graves problemas do país e criou muitos outros, sendo, inclusive, responsável pela maximização do morticínio da covid-19, que já atinge a assombrosa casa de 230 mil óbitos!
O país mais rico do planeta está sendo o que pior administrou a crise do coronavírus, embora possuísse recursos mais do que suficientes para evitar tantas mortes desnecessárias e as quase 9,5 milhões de contaminações!

E o que é pior: a culpa de Trump é simplesmente indiscutível, já que tudo fez para destruir o satisfatório sistema de saúde legado por seu antecessor.

Então, ainda que Biden prevaleça, temos de refletir longamente sobre os motivos que levam tanta gente a optar pelo salto no abismo.

Como não tenho obrigação de agradar ninguém, opino que boa parte da humanidade tem sua vida limitada a horizontes tão exíguos que coloca a vingança contra os que lhes são superiores (os civilizados) acima do próprio instinto de sobrevivência.

São como aqueles idiotas que acompanharam Jim Jones para o suicídio. E o pior é que tudo fazem para nos arrastar juntamente com eles para o nada! 

A humanidade vive um momento decisivo. Ainda nem nos livramos da pandemia, que inclusive recrudesce em vários países, como estamos na iminência de enfrentar a pior depressão econômica desde a dos anos 1930.

E, como desgraça pouca é bobagem, acentuam-se os indícios de que as alterações climáticas produzirão doravante efeitos cada vez mais devastadores.

A salvação de nossa espécie dependerá de nossa capacidade de nos unirmos para a sobrevivência. Se, a todos esses perigos acrescentar-se a loucura selvagem dos neofascistas, dividindo-nos quando mais precisamos nos somar, nossas chances diminuirão drasticamente.

A queda de Trump pode ser o primeiro passo para começarmos a tomar as decisões corretas enquanto ainda há tempo; ou a última chance desperdiçada.

E, mesmo que escapemos desta vez, estaremos muito longe da hora de cantar vitória. Muitos outros terríveis desafios teremos adiante. (por Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 8 de maio de 2020

JÁ QUE ESTAMOS SENDO OBRIGADOS A VER A TOSCA FARSA, QUE TAL A COMPARARMOS COM A TRAGÉDIA QUE ELA REPETE?

O filme em cartaz no Brasil há intermináveis 16 meses, uma semana e um dia bem que poderia intitular-se Bozo: a Avacalhação do Mal.

Seu enredo até que lembra um pouco o de Hitler: a Ascensão do Mal, premiada minissérie canadense de dois episódios dirigida por Christian Duguay em 2013, com Robert Carlyle como vilão principal. Trata-se do filme para ver no blog a que os leitores podem assistir, completo e legendado, na janelinha abaixo.

A diferença é que o primeiro foi um personagem histórico e o segundo não passa de um equívoco da História. E isto não apenas pela contagem de cadáveres (as ações de Hitler causaram ou indiretamente propiciaram um total aproximado de 85 milhões de mortes e as do Bozo, estima-se, tendem a fechar a conta com, no máximo, 1 milhão de óbitos).

Mas também porque Hitler era um gênio do mal, tendo conduzido a nação alemã ao abismo graças à sua poderosa retórica, que veio ao encontro dos sentimentos de frustração e ânsia de reafirmação dos germânicos após a derrota na 1ª Guerra Mundial, as condições draconianas impostas pelos vencedores e a devastação econômica decorrente de uma das piores hiperinflações da História.

Ele sabia fazer o discurso certo na hora certa e, com sua amoralidade e desumanidade extremadas, logrou reerguer a Alemanha e conquistar boa parte da Europa até que a sorte nos campos de batalha da 2ª Guerra Mundial virou e seu castelo de cartas ruiu espetacularmente. 

Já o Bozo consegue ser tão caricato quanto o Hitler dos piores momentos e é igualmente consumido pelo ódio contra tudo e contra todos, mas as semelhanças terminam por aí. 

Após três décadas de carreira política das mais medíocres, foi alçado ao poder por poderosos que não encontraram ninguém mais apto para servi-los na eleição de 2018, iniciou o governo em circunstâncias infinitamente melhores que as do Hitler e conseguiu dilapidar em tempo recorde o capital político de que dispunha, até chegar à condição atual, de um cadáver político esperneando para aparentar vida enquanto o rabecão não chega. (por Celso Lungaretti)

sábado, 14 de dezembro de 2019

NUMA DEMOCRACIA, QUANDO A MAIORIA DOS ELEITORES DECIDE MARCHAR PARA O PRECIPÍCIO, O PAÍS CAI NO ABISMO...

hélio schwartsman
O PULO NO FOSSO
Um dos problemas da democracia é que, quando a maioria dos eleitores decide marchar para o precipício, o país cai no abismo. É o que acontece no Reino Unido com a maiúscula vitória do premiê Boris Johnson.

A principal consequência da votação é que Johnson conseguiu carta branca para efetivar o divórcio entre os britânicos e a União Europeia, que agora deve ocorrer antes do final de janeiro. E é o brexit que pode ser objetivamente descrito como um pulo no fosso.

Embora muitos britânicos achem que a separação representará a retomada dos tempos gloriosos, nos quais o povo decidia seu próprio futuro sem a interferência de estrangeiros e em que os bons empregos não eram roubados por estrangeiros, ela significa, em termos mais concretos, a renúncia ao acesso privilegiado a um mercado de mais de 500 milhões de pessoas e a inutilização da melhor ferramenta para lidar com o problema da estagnação demográfica, que é a imigração.

Se é tão claro assim que o brexit é objetivamente ruim, por que tantos eleitores o apoiaram? Aí é que está o pulo do gato.

A ideia de um Reino Unido glorioso e independente circula como meme e está ao alcance fácil de qualquer um que se disponha a apanhá-la. 

A constatação dos prejuízos, porém, exige a montagem de cenários contrafactuais mais difíceis de visualizar, que não raro envolvem muita estatística: como ficaria a economia se o Reino Unido continuasse na UE?

Um estudo do próprio governo britânico que vazou em 2018 estimou que, com o brexit, até 2034, o PIB ficará entre dois e oito pontos percentuais menor do que seria em caso de permanência. Com a saída nos termos pretendidos por Johnson, o prejuízo seria de 6,7 pontos percentuais.

O diabo é que as lideranças populistas estão cada vez mais hábeis em fazer com que os eleitores se enamorem dos memes fáceis e ignorem os cenários só um tiquinho mais complexos. (por Hélio Schwartsman)
SOBRE O MESMO ASSUNTO, LEIA TAMBÉM (clique p/ abrir):

domingo, 1 de dezembro de 2019

ASSISTA NO BLOG A UM FILMAÇO SOBRE A INSANIDADE DE TODAS AS GUERRAS: "A PONTE DO RIO KWAI". IMPERDÍVEL!

Talvez o melhor filme de guerra de todos os tempos, A ponte do rio Kwai é um libelo contra a insanidade dos conflitos bélicos, com ênfase, principalmente, na armadilha do destino à qual sucumbe um personagem inesquecível: o coronel Nicholson (Alec Guinness).

Ele recebe ordens do comando britânico para render-se ao inimigo num dos palcos da 2ª Guerra Mundial no Pacífico, uma ilha na qual os prisioneiros dos japoneses morrem como moscas devido à malária, diarreia e maus tratos, obrigados a jornadas estafantes de trabalho forçado sob calor intenso e sufocante.

Enquanto os presos de outras nacionalidades estão prostrados e tratando apenas de sobreviver, os comandados de Nicholson chegam altaneiros, marchando e assobiando sua marchinha militar que se tornou famosa.
Guinness: performance de arrepiar!
O comandante japonês (Sessue Hayakawa) designa os britânicos para a construção de uma ferrovia na ilha e, como o cronograma está em atraso, determina que os oficiais também executem trabalho braçal, ao lado de seus subalternos.

Nicholson não aceita tal imposição e exige que sejam respeitados os códigos militares sobre prisioneiros de guerra. Ameaçado, espancado, mantido numa exígua jaula sob sol escaldante, a tudo resiste bravamente, com vontade de ferro apesar da idade (já é cinquentão).

Desesperado com o fracasso de suas tentativas de tocar a obra adiante com um engenheiro incompetente de seu país e vendo o prazo escorrer-lhe entre os dedos, o comandante japonês se vê obrigado a libertar Nicholson e a contar com sua ajuda para organizar o empreendimento.

Perfeccionista extremado à maneira britânica, este vê apenas uma oportunidade de provar a superioridade dos seus sobre os asiáticos. Com uma equipe de oficiais muito mais aptos, acaba entregando para os japoneses, dentro do prazo, uma ponte perfeita.
Holden e Hawkins, impecáveis.

Só no final, quando os aliados mandam um comando para destruir a ponte, Nicholson se dá conta de que, objetivamente, acabara se transformando de herói em colaboracionista. 

A perplexidade do personagem quando cai em si é um dos grandes momentos da história do cinema, em performance monumental de Guinness, que lhe valeu o Oscar de melhor ator de 1958 (A ponte do rio Kwai recebeu outros seis, inclusive os de melhor filme, diretor — David Lean — e roteiro adaptado). Os desempenhos de William Holden e Jack Hawkins também são impecáveis.

Simplesmente um filmaço, que nada perde de sua excelência e vitalidade seis décadas depois. Imperdível! (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

CENÁRIOS ECONÔMICOS ATUAIS LEMBRAM MUITO OS QUE ANTECEDERAM A GRANDE DEPRESSÃO DOS ANOS 30 (parte 1)

dalton rosado
SEMELHANÇAS ENTRE OS DOIS GRANDES CICLOS
MUNDIAIS DE DEPRESSÕES CAPITALISTAS
chamada 2ª Revolução Industrial fordista/taylorista, no início do século 20, foi quem promoveu a fusão do processo industrial (que incluía a energia da combustão fóssil petrolífera e outros ganhos, como a energia elétrica) com a produção em série (a partir da qual se obtinha maior produtividade, tendo, contudo, cada trabalhador de repetir incessantemente os mesmos movimentos, tal qual uma máquina).

A alienação humana decorrente de tal evolução do processo industrial sob o capitalismo foi brilhantemente retratada e criticada por Charlie Chaplin no filme Tempos modernos (assista-o na janelinha abaixo).

O novo processo de produção industrial desestabilizou o quadro econômico mundial, com as nações multiplicando esforços para prevalecerem na guerra concorrencial de mercado, o que demonstra cabalmente o indissociável canibalismo econômico patrocinado por um modo de relação social a partir da produção industrial empresarial abstrata e segregacionista na qual todos se tornam inimigos de todos.

A resultante deste processo foi a deflagração da  Guerra Mundial (1914-1918), responsável por cerca de 20 milhões de mortes, cujo resultado foi o domínio econômico dos países vitoriosos em detrimento das nações derrotadas (Alemanha, principalmente). 

Era a glorificação do nacionalismo capitalista, segundo o qual a história do ser humano se traduz em primeiramente nós [tipo o America First ora exumado] e os outros que se lixem.

Os Estados Unidos, grandes beneficiados com aquela guerra (daí seus governos terem se habituado à utilização do poderio militar como instrumento indutor do progresso nacional, sentindo-se no direito de atuarem como palmatória do mundo), alcançaram um crescimento econômico vertiginoso diante de uma Europa devastada pela guerra. 

Entretanto, aquilo que parecia ser um ganho irreversível demonstrou ser o primeiro processo de autofagia capitalista. 
É que os países pouco atingidos fisicamente pelos danos da guerra e por ela beneficiados, como os EUA, cedo constataram que a Europa havia se recuperado com infraestrutura de produção tecnológica de então, e que, portanto, o badalado milagre do american way of life não passava de um blefe, tal qual o ilusionismo de um mágico que tenta transformar a aparência em realidade.

De repente os Estados Unidos não tinham para quem vender a sua superprodução, pois sua capacidade de produção excedia as de consumo interno e de exportação de mercadorias. Com isto houve retração na produção industrial, queda dos lucros empresariais e paralisação do comércio.

A consequência imediata foi a elevação da taxa de desemprego, que saltou em 1929/1930 para algo entre 20% e 22%; e a quebra da bolsa de valores de Nova York, com investidores perdendo centenas de milhões de dólares num único dia (24/10/1929), a chamada  feira negra, causando suicídios e uma enxurrada de execuções hipotecárias que transformavam prédios valiosos em propriedades encalhadas, com custos de manutenção e impostos a pagar.

A miséria social tomou conta dos Estados Unidos, com filas imensas de desempregados em Nova York esperando na fila da sopa.

A grande depressão se alastrou pela Europa, Ásia e até pela Oceania (na Austrália, a taxa de desemprego chegou a 29% em 1932), pelo mesmo motivo: capacidade de produção instalada acima da capacidade de consumo. A  Revolução Industrial expunha, pela primeira vez, a ilogia e irracionalidade do modo de produção capitalista, e isso teria consequências imediatas.

Não durou muito para eclodir, em setembro/1939, a  Guerra Mundial, com uma Alemanha recuperada dos danos do conflito anterior sentindo-se apta a dominar militar e economicamente o mundo, com a ajuda os seus aliados italianos e japoneses (além das armas e contingentes humanos de nações conquistadas pelos nazistas).

O resultado da  Guerra Mundial foi a morte de cerca de 50 milhões pessoas entre civis e militares, equivalentes a uns 3% da população mundial, e uma destruição física nunca antes experimentada na história da humanidade, que demonstrou bem do que são capazes os governos submetidos ao poder destrutivo do capital.

Qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência, mas consequência lógica de uma relação social genocida e insustentável no longo prazo por seus próprios fundamentos.

Os economistas com viés capitalista têm multiplicado suas análises sobre a grande depressão, atribuindo-a a fatores gerenciais os mais diversos, numa tentativa de escamotear o óbvio: a saturação de um modo de produção social segregacionista, o qual, por isto mesmo (e a cada ciclo) se torna insustentável num determinado ponto da curva de ascensão e declínio.

Para tais coadjuvantes do infortúnio dos seres humanos, a ciência econômica, cuja essência e objetivo teleológico é a produção de valor econômico, não se constitui apenas numa ciência social (cujos pressupostos estão invalidados), mas também numa ciência exata.
Daí pretenderem que ela não deva ser superada, mas ajustada administrativamente com a indispensável subordinação política aos ditames absolutistas da lógica do capital (Paulo Guedes é o típico exemplar dessa fauna). 

É que eles não podem admitir a possibilidade de relação social sem valor econômico, pois isto seria reconhecer a sua própria obsolescência profissional sob tais pressupostos (embora os ditos cujos pudessem ser muito úteis numa nova lógica de produção, sem valor econômico). 

O mesmo ocorre com os trabalhadores e sindicalistas, pois para eles negar o trabalho e a função sindical reivindicatória de salários significaria considerar a sua própria superação. Algo assim como ser impossível o papa um dia vir a se declarar agnóstico... (continua neste post)  
Por Dalton Rosado
Em tempo: para um blog que não aceita propaganda comercial e mantém a dignidade de propósitos revolucionários sem contemporizar com quaisquer que sejam os interesses que possam desviá-lo do caminho a que se propôs, a marca de 3 milhões de acessos é digna de reverências e mostra que valem a pena os sacrifícios inerentes ao bom combate. Parabéns e obrigado, Celso Lungaretti! 

sábado, 28 de setembro de 2019

QUALQUER SEMELHANÇA ENTRE O PLÍNIO SALGADO E O JAIR MESSIAS BOLSONARO JAMAIS SERÁ MERA COINCIDÊNCIA – 1

dalton
rosado
DEFINITIVAMENTE, BOÇALNARO, O IGNARO É NEOINTEGRALISTA!!!
Os ditadores (ou aspirantes a sê-lo) têm algo em comum: a distorção dos conceitos virtuosos ou positivação de conceitos equivocados como justificativas de práticas igualmente distorcidas que justifiquem o cometimento do arbítrio e a negação dos ganhos civilizatórios alcançados a duras penas ao longo de séculos de servidão escravista imposta ou induzida.  

Representam, invariavelmente, o retrocesso.

Mas a prática, que também invariavelmente é o critério da verdade, contraria sempre as falácias com as quais eles buscam acobertar os seus intentos ditatoriais. Adolf Hitler dizia, como se fossem conceitos virtuosos, absurdos do tipo “que sorte para os ditadores que os homens não pensem!”. 

Tal frase se inseria num contexto no qual ele se excluía como ditador, de vez que fora eleito pelo povo. No entanto, posteriormente recorreu a instrumentos de persuasão radiofônica e militar para perpetuar-se no poder, exercendo-o entre 1933 e 1945, até o seu suicídio, cometido no seu bunker em Berlim, a pouco mais de 500 metros do estrondo das bombas do exército russo. A guerra por ele iniciada levara quase 8,9 milhões de alemães à morte. 

Em toda a 2ª guerra morreu cerca de 3% dos habitantes de nosso sofrido planeta. Isto equivaleria à totalidade da população brasileira atual.

Ele atribuía à ignorância ingênua das massas, que considerava existir (dedução implícita na sua afirmação), o êxito dos ditadores (referia-se a Stalin); é um exemplo de como usava toda e qualquer forma de manipulação das mentes para atingir os seus objetivos de poder ditatorial.

Os ditadores são assim; consideram-se seres iluminados, indispensáveis, salvadores da pátria, que por isso devem conduzir como um messias o poder verticalizado que sustentam e que julgam lhes autorizar a condução dos destinos sociais sem observar os consensos civilizatórios, embora cinicamente falem em nome da civilização. 

Hitler e seu sinistro ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, acreditavam no poder de persuasão da consciência popular com suas mentiras intensamente repetidas, por eles tidas como necessárias. Diziam:
"As grandes massas cairão mais facilmente numa grande mentira do que numa mentirinha. Torne a mentira grande, simplifique-a, continue afirmando-a e, eventualmente, todos acreditarão nela".
Hitler e os nazistas foram os primeiros a compreender o poder do então novo meio de comunicação de massa: a radiodifusão, e usaram-na amplamente para levarem ao sucesso os seus intentos, ensandecendo o povo germânico com um ufanismo patriótico, insano e genocida. 

O presidente Boçalnaro, o ignaro, disputou a eleição presidencial de 2018 sob a legenda do Partido Social Liberal, cuja denominação mais veraz seria Partido dos Laranjas

O PSL muito se assemelha à pequenez inicial do Partido Nazista e de sua política de tolerância zero (como seu candidato afirmou ter): trata-se apenas de um amontoado de falsos moralistas, de empedernidos oportunistas e de religiosos que não passam de mercadores da fé, vendilhões da salvação espiritual eterna. As biografias de toda essa gente são desabonadoras sob os mais variados aspectos comportamentais e culturais.

Quanto ao próprio Boçalnaro, seu comportamento tem induvidosas semelhanças com Hitler, ainda que se submeta principalmente e com servilismo abjeto ao presidente destrumpelhado. Como o dito cujo, com seu nacionalismo mercantilista (America First) também se assemelha ao líder nazista, o círculo se fecha. Estes três têm muito em comum. 

Bolsonaro, tal como Hitler, foi quem melhor percebeu o poder da comunicação sem filtro das redes sociais e apostou firme no apoio espúrio de caixa 2 eleitoral do grande capital e dos neointegralistas (nome brasileiro dos neonazistas) que pagaram diretamente as postagens pela internet. Assim, fez muitos brasileiros ingênuos engolirem a patranha de que caberia a ele o papel de salvador da pátria.

"Eu já conheci pessoas nessa vida, Ok? Pessoas reais. E tenho que te dizer, a maioria delas são grandes idiotas" é uma frase do Boçalnaro que traduz bem o que ele pensa da capacidade de introjeção mental da maioria de suas ideias a partir de uma comunicação de massa aos que considera idiotas.

No entanto, a livre comunicação que ele usou, é imediatamente censurada quando se volta contra os seus interesses. Assim, ele usou dois pesos e duas medidas em seu desabafo contra o desmascarador do conluio entre o Estado-Poder julgador (juiz Sérgio Moro) e o Estado-Poder acusador (Ministério Público): "Gleen Greenwald não vai embora, pode ficar tranquilo. Talvez ele pegue uma cana aqui no Brasil".

Assim era Hitler, o maior genocida e falsificador de conceitos da história da humanidade; assim é Boçalnaro, seu discípulo, no que se refere ao uso da mídia de comunicação e e quanto ao que ele considera como sendo uma idiotia da maioria da população. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)
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