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sábado, 9 de novembro de 2024

CAPITALISMO E SEU PROPÓSITO INÚTIL


D
urante a segunda revolução industrial ocorrida no início do século 20, também chamada de revolução fordista pelo uso na indústria automobilística de padrão de produção incorporando os novos saberes tecnológicos de então, como o motor a combustão de minerais fósseis - o petróleo - e a energia elétrica, e outros minerais, bem como recursos da engenharia de produção entre outros comportamentos, manifestou-se o início de um novo tipo de domínio político: o grande capitalismo econômico-financeiro e industrial mundial. 

O engenheiro de produção Frederick W. Taylor (1856-1915) havia introduzido a melhoria da produtividade industrial a partir da produção por peças na qual cada trabalhador repetia um fazer específico que lhe dava agilidade produtiva, método que ficou conhecido como taylorismo

Henri Ford, precursor da indústria automobilística em Detroit, Estados Unidos, aproveitou os ensinamentos de Taylor e foi além, adaptando a máquina ao homem, introduzindo a forma de esteiras na qual os operários repetiam o gesto de produção repetidamente, mas sem precisar se locomover do local onde estavam, modo de produção opressor tão bem retratado por Charles Chaplin no antológico filme Tempos Modernos

Tais recursos tecnológicos - energia e engenharia de produção - aplicados à produção de mercadorias gerou lucros capitalistas antes inimagináveis ao mesmo tempo que promoveu o consumo das mercadorias barateadas que se tornaram acessíveis ao consumo popular. Tudo parecia confirmar novos e promissores tempos. 

O automóvel, por exemplo, que era caro e somente acessível à elite, passou a ser comprado mais comodamente e usado largamente no transporte de mercadorias e gente, substituindo em parte a ferrovia a vapor de então. Outros produtos modernos também surgiram concomitantemente, como os refrigeradores, a iluminação pública e residencial à luz elétrica, o rádio, entre outros apetrechos e ganhos civilizatórios.     

Entretanto, tais eventos resultaram no aguçamento pelo novo tipo de domínio político-econômico, diferente do mal-intencionado colonialismo antigo, qual fosse o domínio da tecnologia na produção de mercadorias pelos países mais desenvolvidos nessa área, para produzi-las e vende-las com valor agregado obtendo acúmulo de riqueza abstrata - capital.  

 A produção industrial é predominantemente urbana e assim os braços antes usados na agricultura de subsistência foram chamados às cidades com os apelos da vida moderna e o sentido gregário que permeia a vida humana; então começou a se formarem os grandes centros urbanos.  

Tais movimentos migratórios e de produção geraram a primeira grande guerra mundial na qual a Alemanha tentou dominar a Europa e parte do leste euroasiático - Rússia e países mais ao leste - com a teoria do lebensraum  - espaço vital - que provocou a primeira guerra mundial com o uso de máquinas da morte antes desconhecidas, causando um genocídio de cerca de 10 milhões de pessoas e mais de 20 milhões feridos e mutilados. 

O capital é assassino!  

Como resultado da primeira guerra mundial, dos movimentos migratórios e dos novos modos de produção, surgiu a primeira grande crise do capitalismo consubstanciada em 1929/1930 e cognominada como a grande depressão causando miséria, grandes turbulências sociais e o surgimento do crime organizado com as máfias estadunidenses da época da lei seca, no mesmo período. 

A miséria social é mãe do crime organizado, como ocorre neste Brasil haitizado de hoje.   

Entretanto, a grande depressão pôde ser parcialmente contornada com medidas estatizantes de indução ao consumo, como o New Deal do Presidente Franklin Delano Roosevelt, que consistiu em intervenção de socorro aos bancos, empresas, e crescimento de obras públicas, tudo dentro do figurino preconizado por John Maynard Keynes, defensor da tese de intervenção estatal na economia que ficou conhecida como keynesianismo.  

É daí que surgem os primeiros sintomas de inflação, ou seja, de perda de substância da moeda, que vem se agravando, e agora toma forma incontornável dentro das regras capitalistas, keynesianas ou neoliberais. 

Mas os efeitos colaterais do capitalismo nunca desaparecem.  

Com a Alemanha se recuperando dos graves e pesados encargos do pós-primeira guerra - a inflação na Alemanha de 1923 transformou as cédulas de sua moeda em lixo - surgiu o Partido Nazista - Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães – o capitalismo sempre exaltou o trabalho e o trabalhador, seiva de sua exploração e existência - que ganhou popularidade apelando para o sentimento de revanche pelo sofrimento imposto no pós-guerra e resgate do orgulho alemão que fora ferido, e tudo junto com a tentativa de resgate de sua antiga e frustrada intenção de dominação, que resultou na segunda guerra mundial conduzida por um tirano eleito, Adolf Hitler. 

Portanto, são as mudanças do modo de produção de mercadorias, e de capital, aquilo que tem tornado o ser humano refém de genocídios repetidos ao longo de mais de um século e que agora atinge um grau de letalidade capaz de nos destruir a todos, bem como de sermos extintos como espécie pela crise ecológica causada pela irracionalidade de um sistema de produção irracional e genocida.  

O capitalismo foi indutor do desenvolvimento do saber e viabilização da vida de bilhões de pessoas? Sim, do mesmo modo que as guerras induziram descobertas. Entretanto, isso não significa que tais evoluções provocadas por ambos certifiquem que ele seja saudável, e muito menos as guerras, e nem que não pudessem ser obtidas por outras formas de relações sociais sem os genocídios do capitalismo e de suas guerras imanentes.  

Atingimos atualmente a era da terceira revolução industrial da microeletrônica que criou a cibernética, que com mais profundidade do que as transformações sociais havidas na segunda revolução industrial fordista, simplesmente conspira contra as regras de funcionalidade da relação social sob a égide do capital, impelindo-nos à sua superação radical, sob pena de sucumbirmos junto com ela se não a superarmos. 

Karl Marx tinha razão quando disse que o capitalismo cava a sua própria sepultura! 

O desenvolvimento da cibernética a partir da descoberta e uso da microeletrônica está para o surgimento do motor à combustão fóssil e energia elétrica com o mesmo sentido de transformação das relações sociais perturbadoras, só que esta última com uma dimensão de irreversibilidade incontornável e maior grau de prejudicialidade. 

Note-se que todas as invenções aplicadas ao modo de produção de mercadorias ocorreram como modo de geração de lucros individuais e exacerbação da extração de mais-valia e tudo sob a indução e controle da mão invisível do mercado, como assim a cognominou o pai da economia moderna, Adam Smith.  

Entretanto, o lucro individual obtido na guerra concorrencial de mercado, paradoxalmente, conspira contra a produção da massa global de valor e decreta a falência do capitalismo que ora respira por aparelhos, com emissão de moeda oficial falsa, dívidas públicas com juros impagáveis e insuportáveis imputados aos países devedores pobres, e depressão econômica.  

Parabéns a Karl Marx por ter desvendado o mistério da exploração social encoberta pela farsa da prosperidade social capitalista há quase 170 anos.  

É sob tal contexto de decadência do imperialismo belicista ocidental pelos motivos aqui expostos que se quer retomar a antiga ideia de formação de um outro bloco antagônico ao da OTAN, mas infelizmente sob os mesmos pressupostos mercantilistas e econômico-financeiros decadentes. É claro que isso não resolve a crise e somente vai provocar uma guerra fratricida perigosa. 

Precisamos de bons exemplos que sirvam de norte para toda a humanidade e não apenas mais do mesmo - Estados Unidos e China, locomotivas chefes destas disputam de blocos, são os dois maiores poluentes promotores irracionais do aquecimento global. 

É sob tal contexto que se retoma a ideia antiga de formação de blocos capitalistas que disputam, tal qual o pequeno comerciante de Bairro com seus concorrentes ali estabelecidos, a vitória de Pirro na guerra da concorrência industrial, comercial e financeira mundial, para se ser detentor do comando político serviçal de uma pretendida hegemonia econômica num momento de depressão da dita cuja.  

Senhores da OTAN e dos BRICS, vocês mais se parecem com crianças brincando com armas altamente letais carregadas nas mãos! 

Nosotros, menos interessados no poder político a serviço do capital, devemos ter a consciência de retirar das mãos desses adultos infantis e vaidosos, eleitos pela manipulação do poder econômico e midiático, ou pela fraude ou negação da derrota eleitoral escancarada, ou ainda pela exclusão de má qualidade dos seus adversários eleitorais, as armas da morte cuja pólvora se chama capitalismo. (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

PRECISAMOS NOS LEVANTAR EM DEFESA DO POVO UCRANIANO — 1

dalton rosado
A TENSÃO DA GUERRA
A
s mesmas questões que causaram dois conflitos mundiais no século 20 estão presentes na tensão de guerra dos últimos dias, envolvendo um novo bloco de países: a Rússia e a China de um lado; e o ocidente do outro.

É a velha e abominável luta pela hegemonia econômica de uns sobre outros. 

Trata-se da melhor tradução do que seja o regime da exploração do homem pelo homem: capitalismo é isto! 

Reproduz-se no campo internacional  o que se observa no microcosmo de qualquer cidade capitalista, na qual os pequenos comerciantes lutam entre si para que sobrevivam uns e morram os outros, terminando todos, contudo, por sucumbir diante de algum capitalista maior e mais poderoso. 

A 1ª Guerra Mundial foi consequência do interesse insano da Alemanha de dominar a Europa, por se considerar tecnologicamente superior no contexto da revolução industrial em curso na Europa. 

2ª Guerra Mundial decorreu da primeira e dos mesmos interesses, com um adicional racista acentuado. 

A Alemanha se recuperava dos danos advindos da derrota na 1ª Guerra, que submeteu o povo germânico à penúria enquanto o país amargava ter sido obrigado a retirar-se de áreas sob sua influência, por exigência dos vitoriosos. 

Tais frustrações alimentaram um forte desejo de vingança, capitalizado pelo nazismo belicoso, xenófobo e racista, com sua exigência de espaço vital e sua exaltação de uma suposta superioridade ariana. 

O vírus desta insanidade desumana que se instala entre os humanos tal qual uma peste sanitária altamente letal e que tomou forma desde a primeira revolução industrial, chama-se capitalismo

Agora a geopolítica capitalista toma novos contornos, com o agravante de que uma guerra convencional, de ocupação militar terrestre, com apoio marítimo e aéreo, poderá ser o estopim de uma guerra nuclear devastadora, capaz de colocar a espécie humana a um passo da extinção..

O calcanhar de Aquiles do capitalismo one world em estado agônico é sua impossibilidade de expansão, pois esta se tornou socialmente destrutiva, ecologicamente suicida e estruturalmente autodestrutiva de sua própria forma e fundamentos enquanto modo de relação social. 

Os Estados Unidos e o ocidente europeu, que nos últimos cem anos usufruíram os benefícios de suas hegemonias política e econômica, veem o feitiço se virar contra o feiticeiro. E é no mercado, o 
altar do sacrifício humano, que a autofagia capitalista se consuma.

O capitalismo, repito, é uma forma de relação social fratricida.  Sofre do que chamo de síndrome do tucunaré (peixe predador que, nos açudes, engole todos os outros até exterminá-los e então, por não ter mais alimentos, destrói a si mesmo).  

Ao introduzir a tecnologia de ponta na produção de mercadorias, o capitalismo decretou, em maior parte, o desuso do trabalho abstrato (trabalho vivo, capital variável, Marx), substituído pelo trabalho das máquinas (trabalho morto, capital fixo, Marx) e, assim, reduziu substancialmente a massa de valor global produzida, tornando inviável a mediação social sob sua lógica. 

Vence, agora, quem aplica tecnologia e trabalho escravo (ainda mais explorador do que o anterior) na produção de mercadorias. Esta é a receita da China capitalista para sentir-se autorizada a propor uma nova hegemonia política e econômica para o mundo, tendo a Rússia como seu satélite. (por Dalton Rosado continua neste post) 
Dalton expressa em música quanto cansaço lhe causa ter de
suportar a insensatez e desumanidade do capitalismo agônico

sexta-feira, 8 de maio de 2020

JÁ QUE ESTAMOS SENDO OBRIGADOS A VER A TOSCA FARSA, QUE TAL A COMPARARMOS COM A TRAGÉDIA QUE ELA REPETE?

O filme em cartaz no Brasil há intermináveis 16 meses, uma semana e um dia bem que poderia intitular-se Bozo: a Avacalhação do Mal.

Seu enredo até que lembra um pouco o de Hitler: a Ascensão do Mal, premiada minissérie canadense de dois episódios dirigida por Christian Duguay em 2013, com Robert Carlyle como vilão principal. Trata-se do filme para ver no blog a que os leitores podem assistir, completo e legendado, na janelinha abaixo.

A diferença é que o primeiro foi um personagem histórico e o segundo não passa de um equívoco da História. E isto não apenas pela contagem de cadáveres (as ações de Hitler causaram ou indiretamente propiciaram um total aproximado de 85 milhões de mortes e as do Bozo, estima-se, tendem a fechar a conta com, no máximo, 1 milhão de óbitos).

Mas também porque Hitler era um gênio do mal, tendo conduzido a nação alemã ao abismo graças à sua poderosa retórica, que veio ao encontro dos sentimentos de frustração e ânsia de reafirmação dos germânicos após a derrota na 1ª Guerra Mundial, as condições draconianas impostas pelos vencedores e a devastação econômica decorrente de uma das piores hiperinflações da História.

Ele sabia fazer o discurso certo na hora certa e, com sua amoralidade e desumanidade extremadas, logrou reerguer a Alemanha e conquistar boa parte da Europa até que a sorte nos campos de batalha da 2ª Guerra Mundial virou e seu castelo de cartas ruiu espetacularmente. 

Já o Bozo consegue ser tão caricato quanto o Hitler dos piores momentos e é igualmente consumido pelo ódio contra tudo e contra todos, mas as semelhanças terminam por aí. 

Após três décadas de carreira política das mais medíocres, foi alçado ao poder por poderosos que não encontraram ninguém mais apto para servi-los na eleição de 2018, iniciou o governo em circunstâncias infinitamente melhores que as do Hitler e conseguiu dilapidar em tempo recorde o capital político de que dispunha, até chegar à condição atual, de um cadáver político esperneando para aparentar vida enquanto o rabecão não chega. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

CENÁRIOS ECONÔMICOS ATUAIS LEMBRAM MUITO OS QUE ANTECEDERAM A GRANDE DEPRESSÃO DOS ANOS 30 (parte 1)

dalton rosado
SEMELHANÇAS ENTRE OS DOIS GRANDES CICLOS
MUNDIAIS DE DEPRESSÕES CAPITALISTAS
chamada 2ª Revolução Industrial fordista/taylorista, no início do século 20, foi quem promoveu a fusão do processo industrial (que incluía a energia da combustão fóssil petrolífera e outros ganhos, como a energia elétrica) com a produção em série (a partir da qual se obtinha maior produtividade, tendo, contudo, cada trabalhador de repetir incessantemente os mesmos movimentos, tal qual uma máquina).

A alienação humana decorrente de tal evolução do processo industrial sob o capitalismo foi brilhantemente retratada e criticada por Charlie Chaplin no filme Tempos modernos (assista-o na janelinha abaixo).

O novo processo de produção industrial desestabilizou o quadro econômico mundial, com as nações multiplicando esforços para prevalecerem na guerra concorrencial de mercado, o que demonstra cabalmente o indissociável canibalismo econômico patrocinado por um modo de relação social a partir da produção industrial empresarial abstrata e segregacionista na qual todos se tornam inimigos de todos.

A resultante deste processo foi a deflagração da  Guerra Mundial (1914-1918), responsável por cerca de 20 milhões de mortes, cujo resultado foi o domínio econômico dos países vitoriosos em detrimento das nações derrotadas (Alemanha, principalmente). 

Era a glorificação do nacionalismo capitalista, segundo o qual a história do ser humano se traduz em primeiramente nós [tipo o America First ora exumado] e os outros que se lixem.

Os Estados Unidos, grandes beneficiados com aquela guerra (daí seus governos terem se habituado à utilização do poderio militar como instrumento indutor do progresso nacional, sentindo-se no direito de atuarem como palmatória do mundo), alcançaram um crescimento econômico vertiginoso diante de uma Europa devastada pela guerra. 

Entretanto, aquilo que parecia ser um ganho irreversível demonstrou ser o primeiro processo de autofagia capitalista. 
É que os países pouco atingidos fisicamente pelos danos da guerra e por ela beneficiados, como os EUA, cedo constataram que a Europa havia se recuperado com infraestrutura de produção tecnológica de então, e que, portanto, o badalado milagre do american way of life não passava de um blefe, tal qual o ilusionismo de um mágico que tenta transformar a aparência em realidade.

De repente os Estados Unidos não tinham para quem vender a sua superprodução, pois sua capacidade de produção excedia as de consumo interno e de exportação de mercadorias. Com isto houve retração na produção industrial, queda dos lucros empresariais e paralisação do comércio.

A consequência imediata foi a elevação da taxa de desemprego, que saltou em 1929/1930 para algo entre 20% e 22%; e a quebra da bolsa de valores de Nova York, com investidores perdendo centenas de milhões de dólares num único dia (24/10/1929), a chamada  feira negra, causando suicídios e uma enxurrada de execuções hipotecárias que transformavam prédios valiosos em propriedades encalhadas, com custos de manutenção e impostos a pagar.

A miséria social tomou conta dos Estados Unidos, com filas imensas de desempregados em Nova York esperando na fila da sopa.

A grande depressão se alastrou pela Europa, Ásia e até pela Oceania (na Austrália, a taxa de desemprego chegou a 29% em 1932), pelo mesmo motivo: capacidade de produção instalada acima da capacidade de consumo. A  Revolução Industrial expunha, pela primeira vez, a ilogia e irracionalidade do modo de produção capitalista, e isso teria consequências imediatas.

Não durou muito para eclodir, em setembro/1939, a  Guerra Mundial, com uma Alemanha recuperada dos danos do conflito anterior sentindo-se apta a dominar militar e economicamente o mundo, com a ajuda os seus aliados italianos e japoneses (além das armas e contingentes humanos de nações conquistadas pelos nazistas).

O resultado da  Guerra Mundial foi a morte de cerca de 50 milhões pessoas entre civis e militares, equivalentes a uns 3% da população mundial, e uma destruição física nunca antes experimentada na história da humanidade, que demonstrou bem do que são capazes os governos submetidos ao poder destrutivo do capital.

Qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência, mas consequência lógica de uma relação social genocida e insustentável no longo prazo por seus próprios fundamentos.

Os economistas com viés capitalista têm multiplicado suas análises sobre a grande depressão, atribuindo-a a fatores gerenciais os mais diversos, numa tentativa de escamotear o óbvio: a saturação de um modo de produção social segregacionista, o qual, por isto mesmo (e a cada ciclo) se torna insustentável num determinado ponto da curva de ascensão e declínio.

Para tais coadjuvantes do infortúnio dos seres humanos, a ciência econômica, cuja essência e objetivo teleológico é a produção de valor econômico, não se constitui apenas numa ciência social (cujos pressupostos estão invalidados), mas também numa ciência exata.
Daí pretenderem que ela não deva ser superada, mas ajustada administrativamente com a indispensável subordinação política aos ditames absolutistas da lógica do capital (Paulo Guedes é o típico exemplar dessa fauna). 

É que eles não podem admitir a possibilidade de relação social sem valor econômico, pois isto seria reconhecer a sua própria obsolescência profissional sob tais pressupostos (embora os ditos cujos pudessem ser muito úteis numa nova lógica de produção, sem valor econômico). 

O mesmo ocorre com os trabalhadores e sindicalistas, pois para eles negar o trabalho e a função sindical reivindicatória de salários significaria considerar a sua própria superação. Algo assim como ser impossível o papa um dia vir a se declarar agnóstico... (continua neste post)  
Por Dalton Rosado
Em tempo: para um blog que não aceita propaganda comercial e mantém a dignidade de propósitos revolucionários sem contemporizar com quaisquer que sejam os interesses que possam desviá-lo do caminho a que se propôs, a marca de 3 milhões de acessos é digna de reverências e mostra que valem a pena os sacrifícios inerentes ao bom combate. Parabéns e obrigado, Celso Lungaretti! 

quinta-feira, 10 de maio de 2018

O PANORAMA ELEITORAL. DESALENTADOR.

Com a falta de pique que me acomete quando estou gripado e não consigo ter boas noites de sono, apresento aqui, de forma bem sucinta, algumas informações relevantes para entendermos os últimos acontecimentos e o quadro atual:

 CALCANHAR DE AQUILES. O jornalista Luiz Weber, que é também especialista em direito constitucional, atribui a desistência de Joaquim Barbosa ao fato de que, aposentado do Supremo, ele passou a ser um dos principais pareceristas do mercado de munição jurídica. 
Cada um desses pareceres sai por, no mínimo, R$ 300 mil. E, claro, quem tem essa grana preta para lhe pagar são grandes empresas pilhadas em situações melindrosas. 

Não há nada de ilegal nisso, mas Barbosa certamente percebeu como ficaria mal na foto caso os adversários começassem a lhe atirar na cara que tem utilizado todo seu saber jurídico para livrar a cara de canalhas. Não condiria com uma imagem eleitoral de paladino da justiça.

 TUDO ISTO E O CÉU TAMBÉM. Artigo de hoje (9/5) do Josias de Souza veio ao encontro das minhas conclusões de quase um mês atrás (vide aqui). Há evidentes excessos retóricos, pois, afinal, ninguém em sã consciência acredita que o Lula atual fosse capaz de "organizar uma revolução" ou de "pegar em armas contra um Estado que o persegue" (nem o do passado, aliás). 

Mas, o Josias está certo em afirmar que, atirando em duas direções antagônicas, ele e o PT não acertarão em alvo nenhum. Ou mantêm a narrativa do inocente que estaria sendo vítima de um monumental complô, conformando-se com sua longa permanência atrás das grades; ou baixam a bola para tirar Lula da prisão no indulto natalino. 

 TROTSKY TAMBÉM QUEBROU A CARA... Faz-me lembrar um dos piores fiascos da trajetória do grande Leon Trotsky. Assumido o poder em 1917, os bolcheviques se deram conta de que não tinham condições para continuarem lutando contra a Tríplice Aliança (Império Alemão, Impérios Centrais e Austro-Hungria), pois o exército se esfarelara. Então, resolveram firmar uma paz em separado com o inimigo, evitando assim uma invasão da qual não conseguiriam se defender. 
Mas Trotsky, conduzindo as negociações pelo lado russo, utilizou todo seu brilho intelectual para enrolar o outro lado e ganhar tempo, na esperança que o conflito terminasse logo, pois já se encaminhava para a vitória da Inglaterra, França e EUA. 

Funcionou durante algum tempo mas depois a Rússia, recebendo um ultimato assustador, teve de fazer às pressas concessões ainda piores do que as antes exigidas. O próprio Lênin se posicionou pela assinatura do que seria o Tratado de Brest-Litovski, embora afirmando que se tratava de uma paz vergonhosa 
.
 ...MAS O PT ADORA COPIAR O QUE NÃO DEU CERTO. Alunos relapsos de História, os petistas estão cometendo o mesmíssimo erro: tentam impor aos outros aquela que seria a melhor das soluções possíveis para si, ou seja, querem a libertação do Lula mas não abrem mão das suas acusações contra o Judiciário.

E, claro, falta-lhes cacife para ganharem tal parada, assim como à combalida Rússia faltava cacife para abandonar a guerra sem ceder os territórios exigidos pelo inimigo como compensação.
  
O NOVO, ONDE ESTÁ O NOVO? Uma boa panorâmica das perspectivas para a próxima eleição presidencial é dada por Hélio Schwartsman na sua coluna desta 5ª feira (10). Segundo ele, "vão se acumulando sinais de que as forças da inércia são poderosas", pois a desistência de Barbosa, após a do Luciano Huck, "mostra que o sistema não é muito amigável para neófitos". 

Sobram, então, "velhos conhecidos como Marina, Ciro, Alckmin", além de Bolsonaro, que "tenta vestir-se de novo, mas (...) cumpre seu sétimo mandato de deputado federal". 

Se o PT não indicar logo o substituto de Lula, Marina ou Ciro se beneficiarão. Os tucanos têm de manter Alckmin vivo até o início da campanha na TV, quando o peso da estrutura partidária se fará sentir. Se Bolsonaro chegar ao 2º turno, seu adversário "estará com a faca e o queijo na mão", pois "extremistas tendem a ser rejeitados".

sexta-feira, 6 de abril de 2018

DIRIGENTES DO PT, NÃO BRINQUEM COM FOGO! LEMBREM-SE DE SARAJEVO!

Num cenário tão radicalizado quanto o brasileiro neste momento, é uma extrema insensatez darmos oportunidade para que um acontecimento nefasto entorne o caldo em definitivo, propiciando turbulências, mortes e, talvez, o retrocesso institucional que mais precisamos evitar: o início de uma nova ditadura.

Temos um governo fraco, um Congresso e uma corte suprema que não estão se mostrando à altura dos seus papéis: tudo de que não precisamos agora é de um confronto para o qual a esquerda está despreparada e inevitavelmente será desastroso para nós e perigosíssimo para o país.

Se Lula não voltar atrás da sua decisão de não entregar-se às autoridades em Curitiba, esperando que o venham prender em São Paulo, vai se criar uma situação semelhante à de 28 de junho de 1914, em Sarajevo (Bósnia), quando bastava a existência de alguns irresponsáveis em meio à multidão para, com o assassinato do arquiduque austríaco Francisco Fernando, ser acesa a chama que consumiria a Europa durante os quatro anos e quatro meses seguintes, causando quase 20 milhões de óbitos e preparando o terreno para o advento do nazismo e do fascismo.

Será impossível para os policiais e militantes do PT terem absoluto controle das situações que poderão advir da espetacularização da prisão de Lula, cercado por milhares de seguidores. Quem está abrindo essa porta para o imponderável será o responsável por tudo de desastroso que possa decorrer de sua decisão.

terça-feira, 4 de julho de 2017

A NOVA PERALTICE DO DITADOR CARA DE BEBÊ PODE ANTECIPAR O FIM DOS TEMPOS

Diz a Bíblia (Gênesis 3:19): "Com o suor do teu rosto comerás o teu pão, até que voltes ao solo, pois da terra foste formado; porque tu és pó e ao pó da terra retornarás!". 

Mas, pensei que a crise dos mísseis cubanos, em outubro de 1962, tivesse afastado definitivamente a possibilidade de petardos nucleares nos fazerem retornar ao pó de um momento para outro. A partir de então, ninguém mais transformou os porões de sua casa em abrigos contra radiação e as ameaças prediletas da indústria de entretenimento passaram a ser as epidemias infecciosas e os apocalipses zumbi. 

Temo, contudo, que possa haver superestimado o fato de que as grandes potências entraram em acordo e estabeleceram canais de diálogo, no sentido de evitar que um conflito entre elas aniquilasse a humanidade. E ter subestimado os ratos que rugem (*) como a Coréia do Norte, um paupérrimo paiseco com área de 120.540 km² e população na casa de 25 milhões de habitantes.
Kim Jong-un, com sua cara e jeitão de bebê Johnson...
Detentora do 208º PIB per capita numa lista de 230 países, a Coréia do Norte desperdiça criminosamente os poucos recursos que possui, esfaimando a população para adquirir a sofisticada tecnologia militar evidenciada nos seus testes nucleares e de mísseis, insistindo em mantê-los apesar de toda a pressão contrária dos Estados Unidos e aliados — até Vladimir Putin deu um puxão nas orelhas do ditador cara de bebê Kim Jong-un.

Este, contudo, dobrou a aposta, testando na noite passada (2ª feira, 3) um foguete balístico intercontinental que, provavelmente, seria capaz de atingir o Alasca estadunidense, e talvez até Los Angeles. 

Trump, que já posicionara uma formidável força ofensiva ao redor da Coréia do Norte, não pode permanecer indiferente a este novo desafio, sob pena de desmoralizar-se de vez. 

Resta saber se ainda lhe resta alguma retaliação a efetuar que não seja um ataque arrasador para neutralizar definitivamente a capacidade militar norte-coreana, correndo o risco de provocar uma guerra com a China.
...encontrou outro bobalhão que não amadureceu e com ele foi brincar de guerrinha.
Vai daí que o fim dos tempos poderá chegar não por causa das disputas entre os verdadeiramente poderosos, mas de uma insignificância totalitária como a Coréia do Norte. 

É bom lembrarmos que o estopim da 1ª Guerra Mundial foi um episódio aparentemente sem muita importância. Mas o Império Austro-Húngaro, face ao atentado fatal de um jovem terrorista contra o herdeiro do seu trono, inculpou a Sérvia pelo ocorrido e lhe fez exigências exageradas; não sendo totalmente atendido, declarou-lhe guerra, com as maiores nações se alinhando com um ou com a outra.
Seria cômico se as consequências não pudessem ser trágicas

Não será surpresa se a bravata do cara de bebê tiver também consequências as mais funestas, podendo levar de roldão toda a espécie humana. 

Será amarga a piada de Deus ou do destino (escolham quem preferirem) caso a trajetória iniciada há 385 milhões de anos com os peixes Tiktaalik, passando pelo répteis, pelos mamíferos, pelos primatas e pelos hominídios, até chegar há 20 mil anos ao homo sapiens, venha a terminar por causa de um país que é o 97º do planeta em extensão territorial e o 50º em população. Nem um anjo exterminador de primeira grandeza, tipo cavaleiro do apocalipse, merecemos?!

E o pior é a incômoda sensação de que já estaríamos indo tarde...
.
* O rato que ruge é uma comédia famosa de 1959, estrelada por Peter Sellers, sobre pequena nação que declara guerra aos EUA, esperando perder e depois receber ajuda econômica para sua reconstrução... mas vence!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

DALTON ROSADO LANÇA SEU BRADO: "EM NOME DA HUMANIDADE, PAREM COM ISSO!"

“Marx não defendeu uma sociedade do trabalho, mas uma 
sociedade emancipada inclusive do trabalho, motivo
este que o fez saudar a obra do seu genro boêmio, 
Paul Lafargue.” (Anselm Jappe, pensador alemão)
.
Pode parecer demasiado pretensioso alguém, a partir de um blogue, lançar um brado em nome da humanidade. Mas não é. Uma iniciativa contra a injustiça pode ter tanta repercussão como a passividade diante dela.

As coisas poderiam ter tomado outro rumo, p. ex., se o povo alemão em 1930 houvesse dado ouvidos ao advogado judeu Hans Litten, que denunciou Hitler como cúmplice pelo ataque das S.A. nazistas ao clube berlinense Eden Dance Palace, frequentado por opositores. Mas, com as bestas-feras e seu mandante escapando impunes após o massacre (tiros disparados a esmo sobre os frequentadores, apenas por serem opositores do nazismo), a escalada do terror atingiu um novo patamar.

Hans Litten chegou até a intimar Hitler para depor como testemunha, artifício jurídico com o qual tentava demonstrar sua cumplicidade direta na matança, mas isto sequer impediu o seu crescimento eleitoral. E o bravo advogado de 27 anos foi posteriormente preso, torturado e assassinado na prisão. 

O culto e capaz povo alemão ficou indiferente a todos os crimes do III Reich e se tornou refém de suas atrocidades..
UM BRADO CONTRA A IRRACIONALIDADE 
PODE ECOAR E GANHAR FORÇA!
.
A grande mídia vem destacando com alguma ênfase, mas sem colocar o dedo na ferida, que o mundo vive o mais alto nível de tensão desde o fim da 2ª guerra mundial. 

Em relatório tornado público, o serviço secreto estadunidense garantiu que a Rússia está pintada para a guerra, inclusive com a instalação de mísseis de longo alcance e grande poder de destruição. 

A Aliança Militar do Ocidente, igualmente, está reforçando os portos militares europeus, principalmente na Alemanha. A Otan denuncia a existência de uma corrida armamentista. 

Afirma-se que Rússia e China querem testar a força bélica dos EUA; Trata-se do uso indistinto da razão da força substituindo a força da razão. 

Este é o ápice de tensão num mundo já conflagrado por guerras convencionais; guerras civis; conflitos religiosos fundamentalistas; desintegração institucional de países africanos, que desembocam numa situação de anomia social, com milícias estabelecendo o terror; instabilidade dos sistemas prisionais e consequentes guerras entre facções do crime organizado, etc., etc., etc. Tudo tendo como pano de fundo a acentuação da fome e da miséria mundial.     

A constatação é óbvia, a ponto do noticiário internacional da grande mídia admitir tal estado de coisas diariamente. 
É importante destacar a superficialidade de abordagem que vem sendo feita sobre a superação dessa crise mundial. 

Nesta 4ª feira (11), no Bom Dia Brasil da Rede Globo, após notícias que atestavam a gravidade da situação, com destaque para a tensão na Europa, o segmento foi assim concluído: 
1. a modernidade evoluiu muito rapidamente, aumentando o fosso entre pobres e ricos, bem como entre vencedores e perdedores;

2. há uma perspectiva de aumento da crise econômica mundial nos próximos anos;
3. os governos devem renegociar as suas expectativas. 
O problema é que, da informação correta, derivaram ilações que carecem de uma abordagem científica – a qual, caso fosse feita, implicaria a negação dos pressupostos que produzem tal estado de coisas. A única forma de se combater os efeitos explicitados no quadro social mundial exposto é o combate às verdadeiras causas, sem subterfúgios, e isto a empresa capitalista de comunicação não pode fazer sob pena de negar a si mesma e os seus interesses.

O fosso entre pobres e ricos é cada vez maior na modernidade? Claro! Mas, faltou dizer que: 

1. há uma incompatibilidade absoluta entre a modernidade da produção tecnológica de mercadorias e a produção de valor que serve como mediação social, sendo esta a causa de tamanha exclusão social;
2. modernidade seria altamente benéfica, trazendo uma profusão de benefícios sociais, desde que colocada a serviço da comunidade e não do capital (é este último, portanto, que precisa ser abolido, e não a modernidade!);
3. somente com a superação do modo de produção mercantil poderemos erradicar a miséria social que está na base dessas tendências latentes de conflagração bélica.      
Por fim, o Bom Dia Brasil recomenda aos governos que renegociem suas expectativas. Nada mais vazio e impossível de se realizar.

Os governos são dependentes da lógica de reprodução a que pertencem e de onde tiram os seus sustentos (tal qual a empresa noticiosa). Os modernos estados capitalistas nasceram do próprio capitalismo; são o seu resultado político.  Assim, jamais abdicarão da força para a continuidade de um modelo de relação social, o qual, embora falido, insiste em continuar vivo. 

Diante da explicitação da contradição inconciliável entre forma política e conteúdo de uma relação social exaurida por suas próprias contradições internas, somente o povo poderá evitar a repetição dos fatos que causaram os maiores genocídios da história da humanidade, a 1ª e a 2ª Guerra Mundial, cujo saldo foi de 70 milhões de mortos.    

O que estava na base destes conflitos do século 20 foi a segunda revolução industrial fordista, ao promover tal elevação do nível de produtividade de mercadorias que causou um desequilíbrio na economia mundial. 

Agora a coisa se repete com uma intensidade mil vezes maior, a partir da terceira revolução industrial da microeletrônica e da globalização da produção que juntou alta tecnologia de produção com salários de fome.    

O mundo não pode permitir a repetição genocida da história, deixando nas mãos de governantes submissos a uma lógica econômica assassina o comando dos botões das máquinas da morte. 

Somente ao povo esclarecido cabe a contenção da escalada do terror e, infelizmente, são poucas as vozes que se levantam contra a barbárie (*). 

Em nome da humanidade, bradamos: parem com isso! (Dalton Rosado)
* Daí a importância de um blogue libertário e descompromissado com a lógica capitalista como o Náufrago da Utopia, que é capaz de publicar textos críticos contundentes, não vendendo a sua alma ao capital.
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