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quarta-feira, 7 de agosto de 2024

EXTREMA DIREITA VAI ÀS RUAS DA INGLATERRA LINCHAR ÁRABES E IMIGRANTES


 Na última semana, algumas cidades da Inglaterra foram palco de verdadeiros progroms comandados pela extrema-direita e que tinham por alvo imigrantes e populações árabes, tudo após um boato espalhar que o autor do assassinato de três meninas no dia 29 de Julho em Southport seria um imigrante islâmico. 

Hordas de houligans tomaram as ruas, comandados por nazistas, supremacistas brancos, nacionalistas e outros istas reacionários para atacar mesquistas, casas de árabes, hotéis onde se abrigavam imigrantes e mesmo linchar mulçumanos em plena rua, fazendo lembrar claramente os bárbaros atos perpetrados pelos nazistas na Alemanha, sempre, claro, com a conivência aberta ou velada da polícia que ou nada fazia ou interferia de forma leve, quase pedindo desculpas por fazer seu trabalho repressivo. 

Supremacista branco é preso durante
"manifestações" da extrema-direita, certamente
era eleitor de Boris Johnson...

Tais ações não podem de modo algum serem consideradas como esporádicas ou sem fundamento. Antes, são o resultado direto da contínua pregação islamofóbica da direita europeia, ampliada pela mídia, e justificada seja no mito da islamização da Europa, seja na guerra ao terror. De fato, há muito tempo que a islamofobia substituiu o antissemitismo enquanto discurso racista predominante das burguesias daquele continente, dado a extensa população árabe que vive por lá e a existência do estado terrorista de Israel, uma base militar ocidental encravada no Oriente Médio. 

Na realidade, o sionismo trabalha em favor da propagação da islamofobia, defendendo as barbaridades cometidas por Israel ao mesmo tempo que criminaliza a resistência palestina e tacha seus esforços de terroristas. O árabe é caracterizado por cruel, fanático e incivilizado, inimigo da suposta democracia liberal cuja única representação no Oriente Médio seria o estado israelense. Afinal, não foram as palavras de Netanyahu que a luta contra os palestinos seria uma luta da civilização versus a barbárie? Uma bela civilização, de fato, na qual se fazem linchamentos em plena rua! A única verdade é essa, enquanto a mídia e os governos conservadores da Europa falam diuturnamente sob o antissemitismo, quem de fato é apedrejado são os árabes. 

... que queria enviar
imigrantes árabes para Ruanda. 
Contudo, não podemos explicar o acontecimento apenas pela propaganda da mídia e dos governos ou pela ação da extrema-direita. Na realidade, não é coincidência que os ataques ocorram concomitantemente a um abalo sísmico nos mercados globais, que é sintoma da profunda crise capitalista desenrolada há anos, pois é justamente no momento de crise que o racismo, a xenofobia e outras praticas de ódio vem à tona enquanto estratégias dos capitalistas para galvanizar o descontentamento popular contra grupos minoritários e dividir a classe trabalhadora. 

Desse modo, não podemos ficar surpresos da repetição da história, pois a única coisa possível ao capitalismo gerar em épocas de abalo terminal é ódio, mortes e destruição. (por David Coelho)

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

O ANO ACABA MAL TAMBÉM PARA O 3º PATETA DA EXTREMA-DIREITA

Moe, Curly e Larry terminam 2022 em franco declínio, após fracassarem miseravelmente...
rui martins
TRUMP SE ENGANOU
Trump nos enganou ou, o mais provável, foi ele quem se enganou nas previsões sobre as eleições de meio-mandato nos EUA? 

Era tanta sua empáfia, que declarava, por antecipação, seu Partido Republicano como o grande vencedor. A ponto de convencer a própria imprensa e levá-la a se indagar como Joe Biden poderia governar na contracorrente. Uma grande vitória tão anunciada iria comprometer a imagem democrática dos Estados Unidos, comentávamos aqui.

Apesar de sua cara de mandão e autoritário, Trump não passa de um fanfarrão, de um farsante, de um bufão desmascarado no decorrer dos oito dias das demoradas apurações das eleições do 8 de novembro. Não houve nenhum tsunami republicano
...nas suas apatetadas tentativas de protagonizar dramas históricos!  
Ninguém melhor do que ele corporifica a expressão ter o rei dentro da barriga. Desta vez, contudo, há outra joia da sabedoria popular que se aplica perfeitamente ao Trump: Não se deve contar com o ovo na barriga da galinha.

Depois de tanta pretensão, tanto alarde e tantos arrotos, Trump ganhou, mas foi por pouco. Os republicanos não fizeram maioria no Senado nem conseguiram eleger o governador de Nova York.

Saíram com alguns deputados a mais na Câmara de Representantes, mas falharam em impedir a eleição de duas governadoras e uma deputada lésbicas, mais um vereador transgênero no New Hampshire. Nisso, sem dúvida, o machão Donald Trump foi derrotado, pelo que a associação de defesa dos direitos das pessoas LGBTQI considerou vitórias históricas nos estados do Massachusetts, do Oregon e do Vermont. 

Aliás, é a primeira vez em que foram eleitos candidatos LGBTQI em todos os estados dos EUA.
Sem a tal onda vermelha, o futuro
político de Trump ficou embaçado...
 

Assim, o objetivo de Trump de paralisar a administração de Joe Biden, se relativizou: embora detenha a Câmara de Representantes, as grandes decisões, como nomeação dos juízes da Suprema Corte e dos cargos na alta administração, estão nas mãos do Senado. 

Os republicanos não poderão liberalizar ainda mais a legislação sobre armas e nem modificar a legislação sobre o aborto. Mas vão ter como dissolver a comissão encarregada do inquérito sobre o ataque ao Capitólio, no qual houve morte e feridos, e descartar as acusações a Trump como incitador desse ataque.

Mesmo dentro do Partido Republicano nem tudo é positivo para o bilionário. O provável speaker dos republicanos na Câmara, Kevin McCarthy, que sucederá à democrata Nancy Pelosi, não é um seguidor incondicional de Trump, que até hoje, continua sustentando ter havido fraude na vitória de Baiden à presidência. 

Logo depois das eleições nas quais Trump foi derrotado, Kevin aderiu à narrativa trumpista sobre fraude, porém reviu sua posição algumas semanas depois, diante do ataque de trumpistas ao Capitólio.

Chegou até a reconhecer que houve responsabilidade de Trump nas agressões cometidas. Tal posicionamento crítico poderá impedir Kevin McCarthy de se tornar o speaker da Câmara. Porém…

Porém Trump, que se já se declarou candidato à presidência em 2024, não detém mais a condição de líder absoluto dos republicanos. Além das críticas de McCarthy, existem as de seu ex-vice-presidente Mike Pence no livro So help me God

E surgiu mesmo um concorrente à candidatura de Trump dentro do próprio Partido Republicano: trata-se do reeleito governador da Flórida, Ron DeSantis, considerado já um líder pela direita dura no partido.
DeSanctis morderá a mão que o alimentou?
DeSantis é o espinho na garganta de Trump, um ex-protegido que agora quer tomar sua dianteira (como se o governador eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, se tornasse candidato em 2026 contra Bolsonaro). 

Irritado, num encontro com jornalistas Trump ameaçou dizer coisas nada lisonjeiras sobre seu outrora pupilo, embora afirmasse não saber muita coisa a respeito dele, exceto ser sua esposa quem comandou sua campanha eleitoral

Tal concorrência não significa, no entanto, que haja grandes diferenças entre ambos, pois DeSantis é considerado um clone de Trump – o qual nos interessa mais por ser o modelo seguido por Bolsonaro. Enfim, vale notar que:
— os dois têm intenções golpistas;
— Trump possui diversos processos e poderá até mesmo ser impedido de se candidatar;
— Bolsonaro terá uma profusão de processos tão logo deixe a presidência; e, 
— se Bolsonaro não conseguir dar o golpe anunciado pelo ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União, mas pelo menos se livrar da erisipela na perna e estiver em condições de disputar a próxima eleição presidencial, é certo que terá também diversos DeSantis pela frente. (por Rui Martins)

sábado, 1 de outubro de 2022

O BOZO DISSE QUE NÃO ERA COVEIRO; A PANDEMIA SEPULTOU SEU DESGOVERNO

hélio schwartsman
FOI A COVID QUE DERRUBOU BOLSONARO?
O
grande mistério sociológico por trás deste pleito é por que Jair Bolsonaro está em vias de ser derrotado, apesar de ser o governante de plantão e de ter recebido do Congresso autorização para gastar bilhões de reais na reeleição. 

O colega Marcus André Melo sugere que a Covid é parte importante da explicação, por inverter a lógica normal de eleições e criar um viés contra os candidatos à recondução.

A lista de líderes defenestrados após a pandemia, independentemente de como tenham se saído no manejo da crise, impressiona. Ela inclui ex-mandatários de EUA, Chile, Israel, Colômbia, Reino Unido, Suécia, Itália. As exceções que me vêm à mente são França e Portugal.

Não é difícil entender por que o eleitor puniria dirigentes que tiveram mau desempenho, como Bolsonaro e Trump, mas por que castigar aqueles que se destacaram positivamente? Israel e Chile despontaram como campeões da vacinação. 

Algo parecido vale para o Reino Unido, embora Boris Johnson tenha inicialmente jogado no campo do negacionismo. 

Até Jacinda Ardern, a premiê da Nova Zelândia, o país que melhor lidou com a Covid, corre, segundo as pesquisas, risco de perder a eleição do ano que vem.

A tese de Melo é que a pandemia produziu num primeiro momento um aumento de popularidade, ao menos entre os líderes que não pisaram na bola desde o início. 

Esse efeito, que também ocorre em guerras, é conhecido na literatura como rally' round the flag. A população cerra fileiras em torno do governante para enfrentar a ameaça. 

O prestígio, porém, tende a ser efêmero e logo dá lugar à fadiga institucional. No caso da pandemia, esse desgaste foi magnificado pelo surto inflacionário que ela desencadeou.

Bolsonaro carrega um duplo fardo. Foi desastroso no manejo do vírus e ineficaz ao lidar com os desgastes posteriores. Isso ajuda a entender por que o estelionato eleitoral deste 2022 não está funcionando. (por Hélio Schwartsman)

segunda-feira, 25 de julho de 2022

ELES IRÃO ÀS RUAS NO DIA DA PÁTRIA. TEMOS DE DAR O TROCO DOMINGO, DIA 11!

Talvez estejamos imaginando o diabo mais feio do que
ele é e o Bozo vá simplesmente amarelar de novo... 
Quando se aproxima um momento decisivo, não podemos cometer erros. Há vários cenários possíveis e temos de estar preparados para eles.

Um autogolpe do Bozo não seria o fim do mundo, por lhe faltarem opções de sustentação sequer em médio prazo. 

A onda ultradireitista está em refluxo no mundo (Donald Trump e Boris Johnson que o digam!) e mais ainda no nosso continente. 

Com a economia em frangalhos, os brasileiros não teríamos outra opção afora nos livrarmos o quanto antes da horda de bárbaros, sob pena de sofrermos a pior depressão de nossa História, cuja consequência óbvia seria uma explosão social devastadora.   

Mas, mesmo que o golpe prevalecesse apenas num primeiro e curto momento, expelirmos essa corja de celerados exigiria o sacrifício de muitas e muitas vidas preciosas. Correriam rios de sangue. 

Então, a prioridade máxima é impedirmos que as coisas cheguem a tal ponto, nem que, para tanto, sejamos obrigados a conceder a vitória a Lula já no 1º turno. 

Até porque, se acreditamos que o reformismo também não funciona mais nesta etapa agônica do capitalismo, temos de ser coerentes com tal avaliação: o retorno do D. Sebastião nordestino não fará jorrar leite das pedras, servindo apenas para dissipar as ilusões remanescentes do seu primeiro governo, o de 2003/2006 (poucos se lembram, mas a maré já começou a virar no segundo governo lulista e o furacão Dilma  completou o estrago).  

...até porque, quando pagamos pra ver,
ele sempre tem recuado de seus blefes...
O mais sensato, portanto, poderá ser ajudarmos a eleger o Lula, mas tendo total clareza quanto à necessidade de, em seguida, articularmos uma firme oposição de esquerda ao rosário de concessões que, tão logo seja empossado, ele começará a fazer ao grande capital, pois é o preço que terá de pagar pela faixa presidencial.

Tudo definido? Não.

Seria ingenuidade descartarmos a possibilidade de que a explosão social vá necessariamente esperar até a eleição. A fome e a miséria já foram longe demais e talvez nem mesmo as esmolas eleitoreiras do Bozo adiem o que todos mais temem (pois suas consequências seriam imprevisíveis, podendo derrubar os castelos de cartas que os vários aprendizes de feiticeiro estão erguendo desde 2019)

E, em se tratando de aloprados como os golpistas bozistas, é bem capaz de, se a micareta deste 7 de setembro não flopar de forma tão acachapante como a de 2021, eles tentarem de imediato o golpe. Afinal, depois da derrota eleitoral, tudo ficará bem mais difícil para eles.

É importante não irmos às ruas no 7 de setembro, negando aos golpistas o pretexto que justificaria sua jogada desesperada, mas também não desmobilizarmos nossas forças, pois precisaremos delas prontas para a reação ao golpe, se o tentarem.

O domingo, 11 de setembro, é a data estratégica para nós. Começando desde já a prepararmos uma impactante resposta à micareta da quarta-feira, teremos agilidade para acelerar nossos planos, se necessário. 

Ou para consolidarmos de vez a derrocada ultradireitista, se eles repetirem o fiasco do ano passado.

Um toque final: a aposta desta vez é alta demais para negligenciarmos a hipótese de que o Bozo finalmente cumpra suas ameaças, embora todas as anteriores não passassem de blefes. 

...e já deu mostras cabais de ser tão inepto para
encabeçar um golpe quanto para governar um país.

Mas, também não podemos ignorar que, pelos precedentes, ele tem considerável chance de simplesmente amarelar de novo e firmar um acordo de bastidores para garantir a própria impunidade e a do seu clã, em troca de prometer ser um menino bem comportado até a entrega da faixa ao sucessor que sair das urnas eletrônicas.

Ou seja, neste exato momento ainda não dá para termos uma razoável certeza de qual cenário prevalecerá. Convém levarmos em conta todos eles. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 7 de julho de 2022

BORIS JOHNSON É A PRIMEIRA GRANDE 'VÍTIMA' DA CRISE GERAL CAPITALISTA

A
renúncia de Boris Johnson do cargo de primeiro ministro britânico é um sinal do que poderá vir nos próximos meses e em outros países importantes do mundo capitalista. 

Oficialmente, sua queda se deve a sucessivos escândalos, dele mesmo e de aliados próximos. 

Contudo, na prática, a queda ocorre pela crescente deterioração das condições de vida no Reino Unido, a qual se soma à já antiga crise do Brexit

Na Inglaterra a situação é de tal gravidade que a revista The Economist lançou recente artigo alertando para os perigos da carestia para a estabilidade social e política. Ou seja, a burguesia britânica hoje se assusta com a existência da fome em suas terras e com as consequências da luta de classes que daí decorrerá.  

Mas não seria preciso ler a revista dos financistas ingleses para ter noção do tamanho da crise social no país da Rainha.

Não faz poucos dias aconteceu por lá a maior greve dos últimos 40 anos, responsável por imobilizar toda a rede metroviária da região de Londres. Outros setores da economia também encaminham-se para fortes paralisações.

Neste cenário, o Partido Conservador resolveu se adiantar para garantir sua sobrevivência, blindando-se diante da insatisfação popular. 

Assim, Johnson foi sacrificado para aplacar a fúria dos trabalhadores, colocando carne nova para ser sangrada no altar do capitalismo. 

O quanto a medida dará certo para o partido atualmente no poder vai depender do tamanho do buraco da futura crise. Dependendo da intensidade do abalo na reprodução capitalista, nem mesmo o sistema político britânico, já fraturado, poderá se salvar. 

A grande lição do momento é enxergar o quanto a crise capitalista presente não mais está circunscrita à periferia do sistema, mas atinge o próprio coração burguês. 

A guerra da Ucrânia e os preparativos para uma terceira guerra mundial são fortes sinais de que o próximo abalo não será meramente localizado, colocando-se definitivamente enquanto uma crise geral igual à de 1929, capaz de abrir passagem para uma situação revolucionária em nível planetário. (por David Emanuel Coelho)

domingo, 20 de fevereiro de 2022

O BOZO VIROU PÁRIA E FEZ DO BRASIL PÁRIA AOS OLHOS DO MUNDO

jamil chade
AMADORISMO E
 IDEOLOGIA ENCURRALAM
BOLSONARO NA CENA INTERNACIONAL
Alvo de uma profunda desconfiança internacional, Jair Bolsonaro descobriu nesta semana que seus atos têm consequências. 

Ao tomar a decisão de manter sua viagem para a Rússia, o presidente brasileiro se viu encurralado. Bolsonaro paga, no fundo, um preço elevado pelos três anos de destruição de uma das instituições mais sólidas da República, o Itamaraty. 

Mas nada acontece por acaso, muito menos na diplomacia. Durante a eleição nos EUA, Bolsonaro criticou abertamente Joe Biden, apostando que seu maior aliado – Donald Trump – conseguiria um novo mandato. 

Quando os resultados da eleição foram anunciados, ele foi um dos últimos líderes no mundo a parabenizar o novo presidente estadunidense. Por semanas, repetiu a mentira da extrema-direita de que as eleições tinham sido fraudadas, sem jamais apresentar provas. 

Diante da invasão do Capitólio, em 06/01/2021, seu então chanceler, Ernesto Araújo, mandou sinais dúbios, abrindo uma ofensiva de críticas de senadores e deputados estadunidenses. Sequestrados por membros da extrema-direita que passaram a ditar os rumos da política externa do país, muitos dentro do Itamaraty sabiam que as escolhas do presidente e seus assessores mirins seriam desastrosas. 

Biden, assim que assumiu, desmontou a aliança que existia com o Brasil em temas de direitos humanos e da defesa de uma agenda cujo objetivo era frear qualquer ampliação de direitos de mulheres e da comunidade LGBT. 

Apesar de proliferar ligações para líderes em todo o mundo, Biden solenemente ignorou Bolsonaro. Num certo momento, ao ser questionado por jornalistas se iria telefonar para o presidente brasileiro, ele apenas riu. Uma risada de deboche. 

O estadunidense ainda abandonou o palco de um evento sobre mudanças climáticas convocado por ele, justamente quando Bolsonaro iria tomar a palavra para discursar. 

Incomodado com o isolamento esplêndido que se colocou, o brasileiro tentou uma reaproximação. O esforço do Itamaraty tampouco funcionou e, num gesto típico de uma criança mimada, ameaçou ir buscar outros amigos. 

Com a Europa, não foi diferente. Emmanuel Macron, na França, se transformou no principal foco de críticas do Palácio do Planalto, por ser um opositor ao acordo entre Mercosul e União Europeia. Para atingir o francês, o brasileiro optou por humilhá-lo. 

No melhor estilo da diplomacia olavista, ofendeu sua esposa e esnobou o chanceler francês em Brasília. Cancelou uma reunião de último minuto e optou por ir cortar o cabelo. Paris jamais esqueceu de como foi tratada por Bolsonaro. 

O autoproclamado país da diplomacia moderna respondeu meses depois ao receber no Palácio do Eliseu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de festejar o cacique Raoní. 

Com as portas fechadas pela Europa, Bolsonaro tentou um encontro com Boris Johnson, na esperança de mostrar aos seus adeptos que não estava isolado no mundo. Londres, diplomaticamente, mandou dizer que não abriria suas portas ao brasileiro. 

Restaram apenas os párias, os autoritários, os comunistas, aqueles que fazem antagonismo ao Ocidente ou nações irrelevantes. 

Em novembro de 2021, durante a Cúpula do G20, o aspecto tóxico de Bolsonaro ficou claro. Isolado numa sala, não conseguia sequer espaço para entrar nas rodinhas onde estavam os demais líderes. 

Presenciei como, num outro canto da sala, uma liderança internacional dizia como "os brasileiros tinham um problema" com um trecho da declaração final da cúpula. Neste momento, ela foi interrompida por outro líder que, em tom de ironia, disse: "eles têm vários outros problemas". 

Na esperança de mostrar à sua base mais radical que ainda conta no mundo, Bolsonaro conseguiu ser recebido por Vladimir Putin, que justamente opera para dividir o Ocidente, e pela insignificante Hungria. 

Moscou foi destino de todos os ex-presidentes brasileiros, de esquerda e direita. Mas o momento era delicado e a viagem considerada como sendo de alto risco

Bolsonaro passou a ser pressionado para não realizar a viagem. Mas, para mostrar aos estadunidenses que ele não se curvaria a Biden, manteve a missão. 

Aceitou todos os protocolos diplomáticos e sanitários impostos pelos russos, mesmo que isso significasse um golpe contra tudo o que ele sempre denunciou no Brasil: máscara, teste, isolamento e até o soldado comunista. 

Toda a agenda anti-Maduro e anti-Cuba também desapareceu diante de um dos maiores patrocinadores dos regimes latino-americanos de esquerda. 
Mas, ao embarcar, ele já vivia uma situação na qual não havia saída. Encurralado, seria criticado por ceder aos estadunidenses se não viajasse. Se fosse, não seria poupado se demonstrasse qualquer simpatia à causa russa. 

E bastou o que todos sabiam que iria acontecer – um deslize – para que a ocasião fosse usada por estadunidenses para bater a cara na porta do brasileiro e dar o troco por seu comportamento de questionamento à democracia nos EUA. 

Numa declaração na 6ª feira (18), a Casa Branca criticou abertamente a viagem de Bolsonaro, um gesto raro na história entre os dois maiores países do Hemisfério Ocidental. Verdade ou não, justa ou não, a realidade é que o governo estadunidense decidiu que a relação com Bolsonaro tinha chegado a um limite. 

Numa nota neste sábado, Itamaraty retrucou e disse que não era verdade que Bolsonaro tomou lado no conflito. E criticou Washington, acusando o comentário estadunidense de não ser construtivo

"Bolsonaro, depois de atacar Biden por meses, agora reclama que o outro lado não foi construtivo? O que ele esperava?", questionou uma fonte diplomática. 

Amador, despreparado e com uma base ideológica que norteia suas ações, o presidente colocou a diplomacia do país em seu momento mais vergonhoso. 

Paga caro por seus atos. Mas quem sai derrotado é um país que, hoje, perdeu seu lugar no mundo. (por Jamil Chade)

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

O RUY CASTRO TEM "NOJO DO BRASIL DE BOLSONARO". É COMO SENTE-SE A GRANDE MAIORIA DOS BRASILEIROS CIVILIZADOS

Há tempos, desde que a vacinação contra a Covid dividiu o mundo de um lado, governantes dispostos a proteger sua população; do outro, Jair Bolsonaro decidido a matar o maior número possível de pessoas, comecei a me perguntar como seria quando Bolsonaro tivesse de fazer uma viagem internacional. 

Como os serviços diplomáticos relatam a seus superiores o que acontece nos países em que estão baseados, não era segredo para nenhum chefe de Estado que Bolsonaro não apenas se recusava a se vacinar como fazia tudo para o vírus grassar no Brasil.

Fiquei a imaginar potentados como a alemã Angela Merkel, o chinês Xi Jinping e o próprio russo Vladimir Putin, para não falar do papa Francisco, sendo obrigados a receber Bolsonaro.

O protocolo da OMS já tornara obrigatório o uso de máscara e o roçar de cotovelos no lugar do aperto de mãos, e, diante da notória recusa de Bolsonaro a respeitar essas orientações, não seria surpresa se aqueles líderes sentissem nojo dele.

O ser humano tem uma tendência irreprimível a demonstrar repulsa ou medo na presença de alguém suspeito de uma doença contagiosa, e não há etiqueta diplomática que atenue isso. 

A prova de que o nojo a Bolsonaro é um fato está em que o único governante digno de nota com quem ele conseguiu falar em sua ida à Assembleia-Geral da ONU foi o britânico Boris Johnson, hoje um líder quase de segunda divisão.

E, para azar de Johnson, o homem cuja mão ele apertou trazia um infectado em sua comitiva.

Ao saberem disto, todos os diplomatas e funcionários que estiveram a um metro de qualquer brasileiro no evento da ONU foram se submeter a exame. 

O Brasil passou a provocar asco planetário. E, para eles, esse Brasil somos nós. 

Não sabem que, aqui, estamos tentando fazer a nossa parte, nos vacinando em massa e que também nos enojamos desse Brasil que arrota pizza e arrogância e mostra seu sórdido dedo para o mundo..
                         (por Ruy Castro)
                            "Sentado num banco de parque,/ olhando garotinhas com más
                               intenções,/ catarro escorrendo pelo nariz,/ dedos gordurosos
                                            sujando roupas surradas./ Ei, Aqualung!"

quinta-feira, 27 de maio de 2021

OS GOVERNANTES DEVEM PAGAR PELAS MORTES QUE PODERIAM TER SIDO EVITADAS

O
primeiro-ministro britânico foi um dos pioneiros do negacionismo na pandemia. 

Boris Johnson defendeu que o coronavírus se espalhasse e contaminasse a população até que a imunidade de rebanho fosse atingida. 

Depois, ele mudou o discurso e implantou medidas para conter a doença, mas vacilou na hora de tomar decisões mais duras.

Num depoimento considerado explosivo, um ex-braço direito de Johnson disse ao Parlamento que dezenas de milhares de pessoas morreram sem necessidade. Dominic Cummings afirmou que, no início da pandemia, o líder britânico pensava que a Covid-19 seria amena como a gripe suína e que não era preciso barrar a entrada do vírus no país.

Johnson aplicou restrições ao funcionamento do comércio e de escolas, mas seu ex-conselheiro conta que ele rejeitou um novo lockdown em setembro. Segundo Cummings, o primeiro-ministro temia o impacto econômico da medida e teria dito que seria melhor ver pilhas de corpos do que adotar outro aperto.
O comportamento do governo custou vidas. O Reino Unido tem 187 mortes por covid-19 a cada 100 mil habitantes. A alta de casos só foi contida com vacinas e medidas restritivas. 

Já o Brasil ultrapassou a marca de 220 mortes por 100 mil habitantes, com uma vacinação lenta, governadores hesitantes e um presidente que joga contra o isolamento.

A pandemia deixou claro que as decisões dos governantes podem fazer estragos gigantescos. A ação deliberada, a omissão por incompetência e a escolha de políticas tresloucadas provocaram dezenas de milhares de óbitos sem necessidade em vários países do mundo. O Brasil começou a fazer esse cálculo sinistro.

A cúpula da CPI da Covid já está convencida de que o governo poderia ter evitado mortes. Está provado que eles apostaram no tratamento precoce e na imunidade de rebanho. Por isso, não se interessaram em comprar vacina, disse o presidente da comissão, Omar Aziz, ao podcast Café da Manhã, concluindo: Não é incompetência, é proposital. (por Bruno Boghossian)

terça-feira, 9 de março de 2021

A SOCIOPATIA A SERVIÇO DO GENOCÍDIO – 2

(continuação deste post)
A
reivindicação de um direito constitucional previsto para situações de normalidade, justo num momento de necessária preocupação com a anormalidade surgida, bem demonstra a primariedade de um governante com sentimentos absolutistas e que, tal como um fanático fundamentalista religioso, usa a Bíblia para justificar a prática do genocídio.  

Ainda em março, afirmou que:
"O contágio pela covid-19 no Brasil não será como nos Estados Unidos, porque nada acontece ao brasileiro... O brasileiro precisa ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando no esgoto e não acontece nada. Eu acho até que muita gente já foi infectada no Brasil há poucas semanas ou meses, e ele já tem anticorpos que ajudam e não proliferar isso daí".
Francamente, ver um presidente da República dizer uma besteira dessas, dá pra pensar que ele ou está gozando com a nossa cara, ou ele é isso mesmo que você está pensando; ou as duas coisas juntas. 

O resultado de tal comportamento presidencial é que, um ano depois, somos o país que:
— assombra o mundo pela capacidade de contágio; 
— propicia a criação de variantes viróticas mais agressivas; 
— está chegando às marcas sinistras de 300 mil mortes no total e 2 mil mortes por dia; 
 não dispõe do número necessário (longe disto!) de vacinas, leitos, médicos, equipes médicas, equipamentos, oxigênio e até caixões para sepultamento.

Ainda no mês de março, e diante da perspectiva de emperramento ainda maior da economia, disse:
"Tem a questão do coronavírus também, que, no meu entender, está sendo superdimensionando o poder destruidor desse vírus".
Todas as suas intervenções desde o início e mesmo agora, quando os fatos contrariam frontalmente seus prognósticos e atitudes, vão no sentido da negação da letalidade e capacidade infecciosa do coronavírus, daí sua responsabilidade direta em grande parte das mortes havidas, podendo ser colocados na sua conta uns 100 mil óbitos evitáveis, segundo estimativa deste blog.

Um presidente da República, mais do que um executivo com responsabilidades constitucionais definidas, tem a obrigação de dar exemplos edificantes e contributivos. Os seus gestos e falas repercutem coletivamente para o bem ou para o mal. Infelizmente, no caso em questão, a hipótese que prevalece é sempre a segunda. 

Veio o mês de abril de 2020, e com ele o agravamento da tragédia sanitária e do comportamento negacionista por parte do presidente Boçalnaro, o ignaro, também nisto imitando seu ídolo, o presidente destrumpelhado, que ainda se jactava de ser imbatível eleitoralmente. Por lá nos EUA também as mortes e contaminações proliferaram numa dança macabra.  

Perguntado sobre o aumento do número de mortos superior aos da China, respondeu:
"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres!"
Não, presidente, não eram milagres que desejávamos que fossem feitos, mas sim tomadas providências coerentes com a gravidade do problema enfrentado: p
rimeiramente, com relação às vítimas e seus familiares; depois,  com medidas que efetivamente reduzisse a propagação das infecções; e por último, com apoio à altura das necessidades dos doentes e respectivos dependentes diretos.

Não queremos dizer que assim as mortes seriam todas evitadas, mas, pelo menos, substancialmente diminuídas; e a solidariedade do presidente para com as vítimas da tragédia sanitária certamente faria aumentar a confiança nele depositada pelos brasileiros. É o mínimo que se poderia esperar. 

Não poderia faltar mais uma de suas patéticas frases de machismo juvenil, esta proferida para sua claque de bovinizados em frente ao Palácio do Palácio:
"Vamos todos morrer um dia. Essa é a realidade, o vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida, todos vamos morrer um dia".
Ao perceber que estava sendo filmado, tentou amenizar sua jactância grotesca:
"Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com os familiares que perderam seus entes queridos e que a grande parte eram idosos. Mas é a vida, amanhã sou eu!"  
Não se trata de enfrentamento como homem. Evidencia-se aí a misoginia que, mesmo quando não quer, o presidente deixa transparecer. 
Os profissionais que estão na linha de frente do combate ao vírus, em grande parte bravas médicas e enfermeiras que estão morrendo no cumprimento do dever, são pessoas corajosas e solidárias. A questão não é de força ou machismo, mas de consciência e competência. 

Neste momento já se tornava gritante a contradição entre a realidade e as prospecções infundadas feitas pelo presidente que, imprudentemente, vinha minimizando a crise sanitária e se omitindo do seu dever de coordenar os esforços em escala nacional e transmitir esperanças ao sofrido povo brasileiro 

Diferentemente do premiê do Reino Unidos, que teve postura inicial semelhante mas depois fez autocrítica, reconhecendo seu erro e tomando as medidas preventivas que lhe eram factíveis, o nosso presidente continuou com o negacionismo de sempre. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

quinta-feira, 9 de abril de 2020

DEPOIS DO VENDAVAL – 1: O MUNDO QUE EMERGIRÁ DA PANDEMIA

Por óbvio, analisar como ficará o mundo após o fim da pandemia possui um forte componente especulativo. 

De fato, falar sobre o futuro sempre entra no aspecto de previsão, realizável ou não. No entanto, aqui aplicarei a ideia da tendência, que se caracteriza pelas potencialidades do movimento concreto atual. 

Portanto, dissecarei possibilidades inscritas no cenário presente, particularmente na dinâmica econômica e geopolítica do mundo atual. 

Fosse possível resumir o processo mundial com a pandemia numa imagem, seria aceleração. A pandemia não veio modificar a dinâmica geoeconômica da nossa era, mas acelerar processos que já estavam em andamento. Então, o mundo pós-pandemia vai ser um mundo no qual os arranjos que vinham se desenhando até aqui terão ganhado contornos mais definitivos. 

O mundo antes da pandemia vivia o que gosto de chamar de dissolução do neoliberalismo. O que isto significa? Por mais paradoxal que pareça, não se trata da superação desta forma de acumulação capitalista, mas sim de sua conclusão lógica. 

O neoliberalismo já havia arruinado com as diversas instâncias de vínculos sociais, de representação política e de proteção social. Ou seja, houve um processo de descoletivização da sociedade, agravada pela profunda desindustrialização dos países europeus e americanos. 
"erguiam-se centenas de muros e barreiras à circulação das pessoas"
O resultado deste processo foi a atomização da sociedade: cada indivíduo passou a centrar-se apenas em si mesmo, interagindo com os demais apenas e tão somente por meio da troca de mercadorias, e, acima de tudo, da troca de dinheiro. 

O dinheiro assumiu a função de costura do tecido social. Não havendo mais sindicatos, associações, clubes, parlamentos ou mesmo entidades públicas para criar laços sociais – pois todas, ou foram extintas, ou se tornaram meras correias de transmissão dos interesses do capital – restou às pessoas a conexão por intermédio da troca de valores. 

No entanto, quando a primeira grande crise do regime neoliberal explodiu em 2008, o dinheiro escasseou. A diminuição da troca de dinheiro na sociedade equivaleu à descostura de um vestido. O tecido social começou a se dissolver e, como já não existiam entidades coletivas, a alternativa foi a escalada da guerra de todos contra todos. 
"o principal problema residiu na falta de organização e orientação revolucionária"
É neste contexto que devemos compreender as revoltas anticapitalistas ao longo do planeta nos últimos dez anos, bem como seus fracassos e a ascensão de governos de extrema-direita. 

Quanto ao fracasso, bastaria dizer por agora, de forma ligeira, que o principal problema residiu na falta de organização e orientação revolucionária. 

Ela é fruto não só da decadência dos movimentos revolucionários, mas também da perda de credibilidade das organizações de esquerda, a maioria capturadas pelo regime neoliberal e transformadas em meras administradoras da miséria. 

A ascensão da extrema-direita veio no rastro dos fracassos e foi galvanizada por uma tentativa reacionária de explicação da crise. Corretamente, os neofascistas acusaram a falência das antigas organizações políticas e coletivas e o abandono do povo por parte destas. A transformação de antigos revolucionários em ricaços ou sua decadência moral pela corrupção cumpriram importante papel na propaganda reacionária. 
Velhos clichês: a busca da salvação no passado místico
Mas, os neofascistas não teriam tido o êxito que tiveram se não tentassem, de alguma forma, reconstruir laços sociais para romper a atomização social. Neste aspecto, buscaram galvanizar a população em torno das ideias de Deus, pátria e família, buscando a salvação no passado místico. 

Alguns, mais audaciosos, tentaram reconstruir a glória econômica do passado, como é o caso de Trump e Johnson. 

E aqui entramos no reflorescimento do nacionalismo, ou, ao menos, do discurso xenófobo. Importante constatar que o regime neoliberal não impôs a atomização apenas dos indivíduos, mas também das nações. Pode parecer contraditório isto diante do fato de que a época neoliberal foi uma época de intensa globalização. Mas esta globalização foi a do dinheiro, não das pessoas. 

Para ver isto, basta lembrar a natureza essencialmente comercial de praticamente todos os tratados e acordos internacionais feitos ao longo das últimas décadas. Mesmo nas organizações vinculadas à ONU, que seriam espécies de estruturas sociais coletivas a nível mundial, as mais destacadas foram as de cunho financeiro: FMI e Banco Mundial. 

É sintomático que, enquanto se criavam múltiplas facilidades para a circulação de mercadorias e dinheiro, erguiam-se centenas de muros e barreiras à circulação das pessoas. Nunca na história humana houve tantos muros e cercas costeando fronteiras ao redor do planeta. E isto em plena globalização!
"grandes potências reiniciaram competição entre si"

Ou seja, a integração mundial emulava a integração entre os indivíduos: era apenas o tênue fio do dinheiro costurando um tecido geopolítico frágil. 

Quando veio a crise e o dinheiro escasseou, o efeito foi o mesmo: guerra de todos contra todos, mas, neste caso, o todos eram os países. 

Isto explica o fenômeno Trump e seu America first, assim como o brexit e outras ações de unilateralismo ao redor do mundo. As grandes potências reiniciaram uma competição entre si e os países menores ficaram na situação de ter de escolher em qual time jogar. 

Então, o quadro mundial antes da pandemia era de uma radicalização do unilateralismo, do fechamento de fronteiras e da competição desenfreada entre os países. A pandemia, na minha visão, apenas veio acelerar isto. 

Pois, com a pandemia ficou claro o absurdo de se ter apenas um país enquanto fábrica do mundo, no caso, a China. Além disto, a pandemia mostrou que o tão propalado mercado mundial era tão frágil quanto uma célula sendo atacada pelo coronavírus. 

Na hora H, as cadeias de abastecimento falharam ao redor do mundo e as produções ficaram paralisadas, sem condições de receber os insumos. Isto se mostrou ainda mais dramático no caso da produção de insumos hospitalares. 

me first tornou-se a tônica, com países roubando suprimentos de outros nos conveses dos portos e nas pistas de decolagem.
"com países roubando suprimentos dos outros"
Ficou patente que a solidariedade, mesmo forçada pelo dinheiro, não existe nesta suposta comunhão global. Até mesmo a União Europeia revelou seu caráter atomizado com a Alemanha recusando-se a ajudar países-membros necessitados. 

Diante disso, o que avento para o mundo pós-pandemia? Um mundo ainda mais atomizado e com países ainda mais fechados. 

Antigas barreiras já existentes, agora serão erguidas ou reforçadas com justificativas sanitárias. Os países se tornarão amplamente desconfiados uns dos outros e antigas organizações de cooperação – creio até que mesmo a OMS – serão colocados em questão. 

As grandes potências vão começar uma corrida pela reindustrialização, ao menos de insumos fundamentais. As cadeias globais de abastecimento ficarão desacreditadas e voltará a ter impulso a ideia de fazer estoques e criar cadeias locais de produção. O just in deverá perder força. 

A China certamente sairá da crise como superpotência e líder mundial, mas deverá tomar decisões rumo a uma economia ainda mais nacionalizada, pois as multinacionais instaladas em seu território sofrerão forte pressão das sedes para desinvestir no país. 

Meu prenúncio, portanto, será de um mundo ainda mais conflituoso, com o capitalismo retrocedendo ainda mais para suas bases nacionais. As burguesias refluirão para dentro de seus países de origem, em busca de proteção e estímulo dos Estados nacionais. 

Será, portanto, um período tenso, de menor cooperação internacional e mais competição. 

E o Brasil nisto? Bom, este será assunto para o próximo capítulo desta série. (por David Emanuel de Souza Coelho) 
(continua neste post)
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