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domingo, 25 de maio de 2025

O CRÍTICO ACIDENTAL TAMBÉM APONTA OS 10 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS

O
 UOL ultimamente tem publicado listas de
10 melhores filmes de todos os tempos, elaboradas por cineastas como Guillermo Del Toro, Martin Scorcese,  Oliver Stone e Sofia Coppola.

Não sou nenhum mestre do ofício, quanto muito um crítico acidental (vide aqui), nem imaginava que minhas preferências pudessem acrescentar algo às escolhas desses profissionais consagrados, então ia me limitando a somente ler e meditar sobre tais listagens.

Só que percebi um pequeno detalhe: os 10 mais desse pessoal nem de longe estavam com essa bola toda. Lista por lista, uma minha seria até melhor. 

O que, lembrei-me depois, já percebera noutros carnavais. As opiniões de críticos costumam ser bem melhores que as dos técnicos e artistas que atuam na área, pois estes últimos valorizam exatamente aqueles concorrentes ou antecessores com os quais se identificam ou se identificaram. Na verdade, estão votando em si mesmos ao votarem nos outros.

Já os críticos somos mais propensos a reconhecer a genialidade de quem nos desagrada. Acho um pé no saco os aclamados
filmes de gangstêres do Martin Scorcese, mas nunca os qualificaria de irrelevantes. E aplaudo em pé os muitos que ele faz sobre o blues e quase ninguém vê (só O Último Concerto de Rock, de 1978, foi bem nas bilheterias). 

Eis minha lista. Quem discordar, pode detoná-la à vontade nos comentários:

    Cidadão Kane (dirigido por Orson Welles e lançado em 1941): um divisor de águas, estava tão adiante de sua época que só começou a ser alcançado por outros cineastas na década de 1960. Mostra a chamada coisificação de um ricaço que, idealista no início, sofre tais tragédias pessoais que acaba se enclausurando amargurado numa ilha de quinquilharias valiosas e nelas projetando sua humanidade até nada restar além de uma palavra enigmática a ser decifrada. 
   Oito e meio  (d. Federico Fellini, 1963): pura genialidade e irreverência desde o título zombeteiro, pois apenas quer dizer que se trata do oitavo filme dirigido por Fellini, além do seu episódio numa obra conjunta. Visão delirante de um cineasta em crise criativa e tentando colocar uma ordem no seu emaranhado de lembranças dolorosas e desafios presentes, é um arraso e o seu desfecho, um dos melhores da história do cinema. 
    A ponte do rio Kwai (d. David Lean, 1957): nunca o cinema explorou tão bem o drama de indivíduos com talentos superlativos, mas capazes de passar sem sequer perceberem de heróis a traidores por sua vulnerabilidade às armadilhas do ego (no caso, a necessidade obsessiva de afirmar superioridade sobre outros povos, vista como uma característica de caráter inglesa). Outro filme com desfecho de arrepiar. 
    
Era uma vez na América (d. Sergio Leone, 1984): uma aula de história do século 20, com a trajetória, desde a meninice, de quatro amigos judeus-estadunidenses simbolizando a transição dos pequenos negócios aventureiros para as grandes corporações implacáveis. A América que deixou de existir é a dos ideais dos fundadores e a que tomou seu lugar, a do crime organizado. Nada melhor para entendermos como se chegou ao pesadelo trumpiano. E se trata de um épico sobre gangsterismo  que, por comparação, pulveriza a pieguice rasteira dos chefões de Francis Ford Coppola e Mario Puzo.
    Stalker (d. Andrei Tarkovsky, 1979): provavelmente o filme de ficção científica mais ambicioso de todos os tempos, ao colocar em discussão os grandes temas da humanidade ao longo da incursão por uma zona proibida de um guia místico, um professor para quem nada existe além da ciência e um escritor em busca de inspiração. A fé, a ciência e a arte numa difícil jornada por uma terra devastada, para chegarem a um quarto que, após ser atingido por um meteorito, se tornou local em que a verdade é revelada e os desejos, atendidos.    
    Blow-Up (d. Michelangelo Antonioni, 1966): fotógrafo descobre, ao revelar o filme com fotos tiradas num parque, que casualmente registrou um assassinato.  Mas a descoberta seguinte é ainda mais surpreendente: ninguém está interessado. Depois de muito empenhar-se em trazer o caso à tona, conforma-se em também acreditar nas ilusões, como todos os outros, ao invés de afligir-se com as realidades desagradáveis. É uma parábola devastadora sobre a exacerbação do narcisismo e da alienação na sociedade de consumo, outro filme que nos ajuda a compreender o pesadelo atual.   
    Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972): é Herzog encontrando um paralelo perfeito para Adolf Hitler no aventureiro Lope de Aguirre, que em 1561 assume violentamente a liderança de uma expedição espanhola na América quando o comandante já decidira ordenar o retorno. Apesar de todos os seus rompantes de autoritarismo e de a inutilidade dos esforços evidenciar-se cada vez mais, todos se resignam. A vontade alucinada de um único homem arrasta os demais insensivelmente para a destruição, assim como o povo alemão continuou hipnotizado pelo führer mesmo quando já saltava aos olhos o fracasso iminente. 
    Terra em transe (d. Glauber Rocha, 1967): continua sendo até hoje o melhor de todos os filmes sobre a tragédia latino-americana, por ir corajosamente ao fundo da questão, ao apontar as culpas de uma direita totalmente desumana e predatória ao extremo, de uma esquerda que amiúde fracassa nos momentos decisivos além de facilmente se deixar seduzir por farsantes populistas e/ou autoritários e de povos que não ousam tomar o destino nas próprias mãos, eternamente dependentes de quem os guie. E mesmo o poeta, que é capaz de perceber tal tragédia em toda a sua extensão, não consegue escapar da armadilha e destravar a História. Como a esquerda armada poderia dizer de si própria, só lhe restou imolar-se em nome da beleza e da justiça, quanto muito deixando um exemplo mais digno para os pósteros.
    O sétimo selo (d. Ingmar Bergman, 1957): se Deus não existe e o homem é o lobo do homem, o que resta? O bravo cavaleiro percorre as terras devastadas da Idade Média à procura de uma resposta que nunca surge, enquanto os horrores se renovam e acumulam cada vez mais. Seu tempo restante de vida depende da partida de xadrez que disputa com a Morte, mas aos poucos vai se compenetrando de que não reencontrará a esperança em lugar nenhum. Um dos filmes mais pessimistas que conheço, mas é impossível deixarmos de admirar a integridade com que Bergman expõe suas próprias dúvidas e o domínio que tinha de sua arte.   
10º  O demônio das Onze Horas (d. Jean-Luc Godard, 1965): não poderia faltar o cineasta mais influente do último grande período revolucionário da humanidade, a segunda metade da década de 1960. Godard inspirou cineastas por todo o planeta, desconstruiu o cinema convencional e deu asas à imaginação como ninguém até então fizera. É difícil colocar um único de seus filmes entre os melhores de todos os tempos, na verdade o principal legado que deixou foi o conjunto de sua obra. Mas, talvez por mera questão de momento, os dois mais marcantes acabaram sendo este e A Chinesa (1967).  E talvez sua obra-prima haja sido interromper o Festival de Cannes de 1968 porque aquilo que realmente importava estava acontecendo lá fora, nas ruas e nas barricadas de Paris. (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

QUANDO OUTRO EXTERMÍNIO DE PALESTINOS ESTÁ EM CURSO, VEJA A PERFÍDIA COM QUE AS POTÊNCIAS SEMPRE AGIRAM NA ARÁBIA!

Demorou, mas finalmente o blog pôde disponibilizar o maior épico da história do cinema: Lawrence da Arábia (1962), um filme tão superlativo que, segundo Steven Spielberg, jamais poderia ser realizado nos dias atuais. 

Isto não só por seu astronômico orçamento, como também pela qualidade dos profissionais envolvidos no projeto, desde o elenco estrelar (Peter O'Toole no papel que o tornou um grande astro, mais Alec Guinness, Anthony Quinn, Claude Rains, Jack Hawkins, Omar Sharif, etc.) até os técnicos, passando pelo extraordinário diretor que foi David Lean (Grandes esperanças, A ponte do rio Kwai, Doutor Jivago).

E afora o fato de inspirar-se nas peripécias reais de um dos personagens mais fascinantes do século passado, o arqueólogo, explorador, diplomata, militar, agente secreto e escritor T. E. Lawrence, que foi oficial de ligação entre as tropas britânicas e os revoltosos árabes durante a 1ª Guerra Mundial.
O Lawrence real, bem mais baixo
do que o ator Peter O' Toole.

Com seus múltiplos talentos e interesses, Lawrence era o britânico que melhor compreendia os anseios dos árabes, na verdade uma infinidade de tribos nômades que o príncipe Faiçal tentava unir para confrontar o Império Otomano. 

Como os turcos eram aliados dos alemães, Faiçal recebia um reticente apoio da pérfida Albion e dos franceses, que não confiavam naqueles dispersos e indisciplinados combatentes do deserto.

Lawrence, que desde os tempos de arqueólogo simpatizava com a causa que um destino insólito lhe permitia estar defendendo, acaba conquistando a confiança de  Faiçal e se tornando um trunfo valiosíssimo para popularizar a revolta árabe na Europa, que se deslumbrou com os feitos militares (principalmente em ações guerrilheiras) daquele oficial da rainha vestido à moda árabe.

O filme tem 222 minutos e é de uma beleza estonteante, não se restringindo à escalada de Lawrence, desde seu papel subalterno como oficial britânico até tornar-se um herói de dois continentes. Também mostra as múltiplas contradições a que ele foi conduzido pela crueza da guerra e o seu papel ambíguo dentro dela (servia aos colonialistas, mas tentava arrancar deles o máximo de benefícios para aqueles ao lado de quem lutava). 

Acaba vencendo, mas também fracassando: como sempre, os poderosos, depois de outros tirarem as castanhas do fogo por eles, poupando-os de queimarem os dedos,  descumpriram suas solenes promessas e Lawrence se tornou um homem amargurado e arredio à notoriedade que conquistara, inclusive graças à sua interessantíssima autobiografia, Os sete pilares da sabedoria.
David Lean consegue colocar na tela todas as nuances da personalidade de Lawrence, algumas explicitamente (como um massacre inútil 
por ele ordenado, de turcos que debandavam em grande inferioridade numérica), outras de forma velada. 

Caso de uma possível homossexualidade do seu herói, que até hoje desperta polêmicas, ainda mais com a descoberta recente de que ele tinha, afinal, uma provável amante.

À maneira discreta dos britânicos, isto fica sugerido no relacionamento de Lawrence com seus dois jovens criados. E, com a mesma delicadeza, o filme não omite, mas também evita mostrar até o desfecho, o episódio de sua prisão pelos turcos, quando foi por eles estuprado, sem nunca ter escondido tal fato (relatou-o no seu livro).

Enfim, é um tipo de filme multifacetado, no qual cada pessoa, de acordo com seu nível de informação e sua sensibilidade, ou encontra as peças de um painel riquíssimo sobre um grande homem e sua época, ou apenas uma aventura que, embora pareça inverossímil, aconteceu mesmo, embora nem sempre exatamente como é mostrada.  

Afinal, não se trata de um documentário, mas sim de um filmaço, destinado a um público infinitamente maior e, ademais, com uma inteligência que as superproduções atuais desistiram de sequer tentarem atingir. (por Celso Lungaretti)

domingo, 23 de maio de 2021

A FASCINANTE HISTÓRIA VERÍDICA DO INGLÊS QUE COMANDOU A REVOLTA ÁRABE É O FILME QUE VOCÊ PODE VER HOJE NO BLOG

Peter O'Toole, entre Omar Shariff e Anthony Quinn
Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962) é, provavelmente, o maior épico já filmado.  

Pertence ao tempo em que havia vida inteligente no cinema e plateias capazes de a entender e valorizar. Então, as superproduções não apresentavam apenas colossais batalhas, mas também argumentos com muita dramaticidade e apreciável profundidade, roteiros encomendados a grandes nomes da literatura, direção impecável, músicas tão marcantes que viravam sucessos avulsos e atuações memoráveis. Hoje restam apenas as colossais batalhas. 

O cineasta londrino David Lean (1908-1991)  dirigiu apenas 19 filmes, destacando-se inicialmente ao transpor para a tela dois  romances de Charles Dickens, Grandes Esperanças (1946) e Oliver Twist (1948). 

Mas a consagração veio com seus dois épicos antológicos, primorosos, A ponte do rio Kwai (1957) e o próprio Lawrence da Arábia, cinco anos depois. Além de valerem a David  Lean os dois Oscar respectivos de melhor diretor, ambos fizeram jus também às estatuetas de melhor filme

Tendo chegado ao apogeu da carreira quase cinquentão, David Lean ainda faria outros três filmes, que mereceriam louvores se realizados por outros cineastas, mas representaram passos atrás para ele: Dr. Jivago (1965), A filha de Ryan (1970) e Passagem para a Índia (1984), 

A cinebiografia do militar, explorador, diplomata, escritor e arqueólogo Thomas Edward Lawrence se baseou, principalmente, no livro Os sete pilares da sabedoria, em que ele relatou suas aventuras como oficial de ligação britânico durante a revolta árabe de 1916/1918 e tudo que então aprendeu sobre os povos e costumes da região. 

Outra fonte foram as reportagens do jornalista viajante Lowell Thomas, um estadunidense que acompanhou pessoalmente sua trajetória e a tornou notícia mundial, fazendo dele uma lenda em vida, com o sugestivo apelido de Lawrence da Arábia.

Um jovem inteligente, imaginativo e apaixonado pela História, Lawrence ficou tão fascinado pelos povos árabes que, após estudar profundamente seu passado, usos e costumes, deu um jeito de se tornar assistente em escavações arqueológicas promovidas pelo Museu Britânico junto ao rio Eufrates. 

Lá ingressou no serviço secreto britânico e mais adiante, convocado para a 1ª Guerra Mundial, foi servir como tenente no Oriente Médio, por já estar familiarizado com a região.

O filme começa quando toda essa paciente aproximação do seu objetivo é recompensada com a designação de Lawrence (Peter O'Toole, no papel que o consagrou) para atuar junto aos efetivos do príncipe Faiçal (Alec Guinness), cuja revolta árabe os britânicos estimulavam para desgastar o Império Turco Otomano, aliado dos alemães. 
O Lawrence real

Como um conto de fadas que se torna realidade, sua brilhante atuação  o acaba tornando conselheiro logístico do movimento e comandante de uns 10 mil guerrilheiros árabes. 
Essa incrível trajetória é mostrada na primeira parte do filme, quando vemos Lawrence virando um herói para os árabes e uma lenda para o mundo, além de ser promovido meteoricamente a tenente-coronel pelos britânicos. 

Lawrence deu contribuição marcante para as tribos nômades árabes esquecerem momentaneamente suas rixas seculares e se unirem contra o inimigo turco, com o que acabaram prevalecendo sobre um exército bem mais capacitado para travar uma guerra moderna. 

Na divisão dos frutos da vitória, contudo, ele vai constatar quão difícil seria arrancar das potências imperialistas o que os árabes tinham ido buscar naquela empreitada e ele tanto queria lhes oferecer. 

Haveria muito mais o que dizer, porém este texto se alongaria demais e os spoilers brotariam como cogumelos. Mais vale a pena vocês assistirem a (ou reverem) este filmaço, cujo ótimo  elenco inclui Omar Shariff, Anthony Quinn, Jack Hawkins, José Ferrer e Claude Rains, entre outros. (por Celso Lungaretti) 

domingo, 1 de dezembro de 2019

ASSISTA NO BLOG A UM FILMAÇO SOBRE A INSANIDADE DE TODAS AS GUERRAS: "A PONTE DO RIO KWAI". IMPERDÍVEL!

Talvez o melhor filme de guerra de todos os tempos, A ponte do rio Kwai é um libelo contra a insanidade dos conflitos bélicos, com ênfase, principalmente, na armadilha do destino à qual sucumbe um personagem inesquecível: o coronel Nicholson (Alec Guinness).

Ele recebe ordens do comando britânico para render-se ao inimigo num dos palcos da 2ª Guerra Mundial no Pacífico, uma ilha na qual os prisioneiros dos japoneses morrem como moscas devido à malária, diarreia e maus tratos, obrigados a jornadas estafantes de trabalho forçado sob calor intenso e sufocante.

Enquanto os presos de outras nacionalidades estão prostrados e tratando apenas de sobreviver, os comandados de Nicholson chegam altaneiros, marchando e assobiando sua marchinha militar que se tornou famosa.
Guinness: performance de arrepiar!
O comandante japonês (Sessue Hayakawa) designa os britânicos para a construção de uma ferrovia na ilha e, como o cronograma está em atraso, determina que os oficiais também executem trabalho braçal, ao lado de seus subalternos.

Nicholson não aceita tal imposição e exige que sejam respeitados os códigos militares sobre prisioneiros de guerra. Ameaçado, espancado, mantido numa exígua jaula sob sol escaldante, a tudo resiste bravamente, com vontade de ferro apesar da idade (já é cinquentão).

Desesperado com o fracasso de suas tentativas de tocar a obra adiante com um engenheiro incompetente de seu país e vendo o prazo escorrer-lhe entre os dedos, o comandante japonês se vê obrigado a libertar Nicholson e a contar com sua ajuda para organizar o empreendimento.

Perfeccionista extremado à maneira britânica, este vê apenas uma oportunidade de provar a superioridade dos seus sobre os asiáticos. Com uma equipe de oficiais muito mais aptos, acaba entregando para os japoneses, dentro do prazo, uma ponte perfeita.
Holden e Hawkins, impecáveis.

Só no final, quando os aliados mandam um comando para destruir a ponte, Nicholson se dá conta de que, objetivamente, acabara se transformando de herói em colaboracionista. 

A perplexidade do personagem quando cai em si é um dos grandes momentos da história do cinema, em performance monumental de Guinness, que lhe valeu o Oscar de melhor ator de 1958 (A ponte do rio Kwai recebeu outros seis, inclusive os de melhor filme, diretor — David Lean — e roteiro adaptado). Os desempenhos de William Holden e Jack Hawkins também são impecáveis.

Simplesmente um filmaço, que nada perde de sua excelência e vitalidade seis décadas depois. Imperdível! (por Celso Lungaretti)

sábado, 24 de dezembro de 2016

ASSISTA "GANDHI" E CONSTATE: O FILME VALE PELA MAGNITUDE DO CINEBIOGRAFADO.

Gandhi, como ficou conhecido...
Gandhi (1982), o filme que está disponibilizado (completo, dublado) na janelinha abaixo, foi um daqueles casos, cada vez mais raros, de acerto de Hollywood na outorga dos principais Oscar. 

Ben Kingsley, no papel-título, esteve impecável. Mereceu, com sobras,  a estatueta.

Richard Attenborough, ator que só começou a dirigir no 27º ano de sua carreira, foi mais correto do que brilhante. Mereceu, sim, ser escolhido como melhor diretor, pelo mesmo motivo que Gandhi fez jus à distinção de melhor filme. Só que muito mais em função da grandeza do personagem histórico que enfocou e da força dramática da história levada às telas. Bastava-lhe ser fiel a ela para obter a consagração.

A comparação óbvia é com Lawrence da Arábia (1962), que retratou figura tão fascinante e rica em termos cinematográficos quanto Gandhi. Mas, o toque pessoal do superlativo diretor David Lean é perceptível num sem-número de detalhes —como a sutil insinuação de que T. E. Lawrence seria um homossexual enrustido, com um lado masoquista. 

Ou seja, Lean foi além da postura convencional de endeusar o herói, tomando seu partido incondicionalmente. Não enfatizou suas ambiguidades, mas também não as omitiu. Já Attenborough apenas reverenciou Gandhi, com a atenuante de que o dito cujo foi mesmo extraordinário. Mas, perfeito, ninguém é.
...e como era quando ainda exercia a advocacia.
Vale a pena todos conhecermos (e refletirmos sobre) a trajetória do homem que descobriu a força do protesto não-violento como instrumento na luta contra o colonialismo e, depois, a utilizou também contra a xenofobia sanguinária de hindus e paquistaneses.  Num e noutro caso, conseguiu evitar muitíssimas mortes. Foi magnífico! 

É fácil atribuirmos seu êxito a circunstâncias históricas muito específicas, que não se repetirão facilmente. Mas, Nelson Mandela trilhou caminhos semelhantes para libertar a África do Sul. Até que ponto as possibilidades de bisar tal receita eram tão ínfimas? Até que ponto elas eram consideráveis, mas faltaram líderes da envergadura de Gandhi e Mandela para as aproveitar? 

Não há resposta fácil. Mas, como nunca fui exatamente um determinista em relação à História, já me ocorreram hipóteses como a de que a quartelada de 1964 provavelmente não derrubaria o governo legítimo com um piparote se o presidente da República fosse o aguerrido Brizola ao invés do pusilânime Goulart...
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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

PETER O'TOOLE (1932-2013)

Ele brilhou em O substituto, como o cineasta que manipula também os fios da vida real...
A morte de Peter O'Toole me deu a mesma sensação de perda que tenho quando se vai alguma pessoa simpática do meu dia a dia: um vizinho com quem bato papo no elevador, um barbeiro ao qual já me acostumara, o porteiro da escolinha da minha filha. 

Eu o conhecia desde que, aos 11 anos, fui surpreendido com a novidade de um filme ser tão longo que se tornou necessário fazer um intervalo entre as duas partes.

...e como o grande T. E. Lawrence.
Tratava-se, claro, de Lawrence da Arábia (d. David Lean, 1962). Desde então, devo tê-lo visto em pelo menos duas dezenas de papéis; isso cria alguma familiaridade.

Não era, contudo, um grande ator. Com seu jeitão meio afetado e blasé, não desaparecia dentro do personagem, ao contrário, p. ex., de Al Pacino. 

O que víamos era sempre Peter O'Toole fingindo ser T. E. Lawrence, Lord Jim, o rei Henrique Plantageneta (O leão no inverno), Dom Quixote (O homem de la Mancha) ou Augusto - o primeiro imperador. Uma vez na vida sou obrigado a concordar com a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que lhe recusou a estatueta nas oito vezes em que foi indicado por algum papel, mas lhe conferiu um Oscar honorário pelo conjunto da sua obra.

Richard Burton também era assim, só que de uma forma um pouco diferente: ele parecia ser sempre maior do que o personagem, como se o estivesse representando à falta de coisa melhor, nunca tendo encontrado um papel realmente à sua altura. 

Os melhores desempenhos de Peter O'Toole, portanto, se deram quando as exigências do personagem se casaram melhor com as características imutáveis de sua atuação: foi perfeito como o intelectualizado e contraditório agente britânico que acabou liderando a revolta árabe e, mais ainda, como o diretor de cinema que brinca de ser Deus em O substituto (d. Richard Rush, 1980), de resto um filmaço que até agora não recebeu o merecido reconhecimento.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O RETROCESSO HISTÓRICO PODERIA TER SIDO EVITADO?

Para quem conheceu o cinema comercial de outrora, o panorama atual sugere terra arrasada. 

Épicos como os de David Lean (principalmente A ponte do rio Kwai e Lawrence da Arábia), os grandes westerns de Sergio Leone e Sam Peckinpah, os policiais de Jean-Pierre Melville e Jose Giovanni (tanto os que ele próprio roteirizou e dirigiu, quanto os que se baseiam em suas excelentes novelas), as comédias de Dino Risi e Mario Monicelli não eram sequer considerados filmes de arte; destinavam-se a públicos mais amplos e geralmente os atingiam. 

No entanto, nem de longe eram desprezíveis em termos artísticos. Muito pelo contrário. Tanto que vários deles estão sendo redescobertos e aclamados, merecidamente.

Enquanto isto, a lista das maiores receitas da indústria cinematográfica na atualidade praticamente coincide com a dos abacaxis mais execráveis. Dificilmente ultrapassam a idade mental de 12 anos.

Um respiradouro acaba sendo a TV por assinatura. Produções bancadas pelos canais pagos e comercializadas também no circuíto de DVD e blu-ray tentam atender às expectativas mais sofisticadas, enquanto a TV aberta vai se distanciando vez mais da vida inteligente. 

Um bom exemplar dos novos tempos é Átila, o huno (2001), disponibilizado na janelinha abaixo. Mesmo sem grandes destaques na direção (Dick Lowry), no roteiro (Roberto Cochran) e no elenco (só o eterno coadjuvante Powers Boothe impressiona), consegue mesclar bem o entretenimento, a reconstituição de época e a reflexão histórica.

Sugere que a única personalidade apta a salvar o Império Romano era o general Flavius Aetius (Boothe); que só o conquistador Átila (Gerard Butler) poderia ter mantido a centralização política e econômica após o colapso de Roma; e que a morte quase simultânea de ambos condenou o mundo civilizado à fragmentação, ruralização e retrocesso, ensejando um milênio de trevas. 

É uma tese fascinante, embora me pareça exagerar o papel do indivíduo na História. Creio que a decadência de Roma já se tornara irreversível e, no máximo, Aetius a retardaria um pouco; e que o Império Huno, mesmo que substituísse o romano, não sobreviveria ao seu criador, acabando por estilhaçar-se da mesma forma. 

Mas, pelo menos Átila, o Huno nos convida a pensarmos a História, ao invés de permanecermos espectadores do passado como o somos do presente. Neste sentido, cumpre muito mais a função da arte do que superproduções ambiciosas como Tróia, do Wolfgang Petersen (aquele cineasta que, quando foi para Hollywood, deixou todo seu talento na Alemanha...). 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

"GANDHI": UM FILME CORRETO, UM EXTRAORDINÁRIO PERSONAGEM

Gandhi (1982), o filme que está disponibilizado (completo, dublado) na janelinha abaixo, foi um daqueles casos, cada vez mais raros, de acerto de Hollywood na outorga dos principais Oscar. 

Ben Kingsley, no papel-título, esteve impecável. Mereceu, com sobras,  a estatueta.

Richard Attenborough, ator que só começou a dirigir no 27º ano de sua carreira, foi mais correto do que brilhante. Mereceu, sim, ser escolhido como melhor diretor, pelo mesmo motivo que Gandhi fez jus à distinção de melhor filme. Só que muito mais em função da grandeza do personagem histórico que enfocou e da força dramática da história levada às telas. Bastava a fidelidade a ela para garantir-se a consagração.

A comparação óbvia é com Lawrence da Arábia (1962), que retratou figura tão fascinante e rica em termos cinematográficos quanto Gandhi. Mas, o toque pessoal do extraordinário diretor que foi David Lean é perceptível num sem-número de detalhes -como a sutil insinuação de que T. E. Lawrence seria um homossexual enrustido, com um lado masoquista. 

Ou seja, Lean foi além da postura convencional de endeusar o herói, tomando seu partido incondicionalmente. Não enfatizou suas ambiguidades, mas também não as omitiu. Já Attenborough apenas reverenciou Gandhi, com a atenuante de que o dito cujo foi mesmo extraordinário. Mas, perfeito, ninguém é.

Vale a pena todos conhecermos (e refletirmos sobre) a trajetória do homem que descobriu a força do protesto não-violento como instrumento na luta contra o colonialismo e, depois, a utilizou também contra a xenofobia sanguinária de hindus e paquistaneses.  Num e noutro caso, conseguiu evitar muitíssimas mortes. Foi magnífico! 

É fácil atribuirmos seu êxito a circunstâncias históricas muito específicas, que não se repetirão facilmente. Mas, Nelson Mandela trilhou caminhos semelhantes para libertar a África do Sul. Até que ponto as possibilidades de bisar tal receita eram tão ínfimas? Até que ponto elas eram consideráveis, mas faltaram líderes da envergadura de Gandhi e Mandela para as aproveitar? 

Não há resposta fácil. Mas, como nunca fui exatamente um determinista em relação à História, já me ocorreram hipóteses como a de que a quartelada de 1964 provavelmente não derrubaria o governo legítimo com um piparote se o presidente da República fosse o aguerrido Brizola ao invés do pusilânime Goulart...
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