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segunda-feira, 2 de março de 2026

SÉRIE "COMO FORAM AS CINCO COPAS DO MUNDO QUE O BRASIL CONQUISTOU": 1958.

"A taça do mundo é nossa
Com o brasileiro não há quem possa
Êh eta esquadrão de ouro
É bom no samba, é bom no couro
-
O brasileiro lá no estrangeiro
Mostrou o futebol como é que é
Ganhou a taça do mundo
Sambando com a bola no pé"
(Maugeri, Müller, Sobrinho e Dagô)
A conquista da Copa de 1958, disputada na Suécia, teve um significado imenso para nós, brasileiros: provamos ao mundo e, principalmente, a nós mesmos que poderíamos ser os melhores em alguma coisa, começando a livrar-nos do COmplexo de vira-latas.

Até então, víamo-nos como seres inferiores, deitados eternamente em berço esplêndido, sem nunca concretizarmos o nosso potencial. Uma vinheta radiofônica dizia: Brasil, um país a caminho do seu grande destino. Que nunca chegava.

Enquanto isto, admirávamos, embasbacados, o progresso dos EUA e as imagens fantasiosas que os grandes irmãos do Norte projetavam de si próprios via cinema e TV. Isso, claro, só fazia aumentar nossa sensação de inferioridade.

Consolávamo-nos com a ilusão de que seríamos a nação do futuro – uma pífia compensação para o passado inglório e o presente insosso. Era como a promessa católica do paraíso, o sonho que ajudava a suportar uma vida de privações.
Mané Garrincha, devastador!

O futebol já dera mostras, em 1950, de que poderia se tornar nosso grande motivo de orgulho nacional. No entanto, vacilamos na hora H e a euforia se transformou em frustração.

Meu pai costumava contar que, depois da fatídica derrota contra o Uruguai, a principal rua do nosso bairro ficou quase deserta, como ele nunca a vira num domingo. Rapazes e moças não tiveram nem ânimo para saírem de casa, na noite habitualmente destinada à paquera.

Em 1954 trombamos com o inesquecível esquadrão da Hungria e fomos merecidamente eliminados por Puskas & cia.

Aí, em 1958, receosos de mais uma frustração, não ousávamos acreditar na Seleção Brasileira. Ainda mais depois de duas derrotas vexatórias em amistosos de 1956 (0x3 Itália e 2x4 Inglaterra, apesar dos milagres de são Gylmar) e da eliminatória tortuosa em 1957, quando sofremos o diabo para vencer... o Peru!

É que a Venezuela desistira de disputar uma vaga no Mundial, deixando-nos a tarefa aparentemente facílima de derrotarmos um único e pouco ameaçador adversário.

No entanto, o Peru não morreu na véspera. O jogo em Lima ficou em 1x1 e, no Maracanã, num magro 1x0 -- gol de falta de Didi, cobrando com a maestria habitual uma infração da entrada da área.
Bellini criou o gesto de erguer a taça
[Um causo hilário. Excursionando pelo Brasil, o grande Benfica de então enfrentou o Botafogo e seu famoso goleiro Costa Pereira sofreu um gol de falta do Didi exatamente da mesma maneira, a folha seca, com o arremate parecendo que passaria sobre o gol e a bola descendo nos últimos metros.

Aí, no Pacaembu, o corinthiano Cláudio repetiu a dose, com seu chute que se dirigia para fora e entortava no finzinho da trajetória. Costa Pereira, que caminhava tranquilamente para bater o tiro de meta, botou as mãos na cabeça, estupefato, ao ver a redonda balançando suas redes, depois de fazer o que, nas entrevistas, ele qualificaria de
uma curvita...]

O empate diante da Inglaterra, no segundo jogo das oitavas-de-final (depois da boa estreia contra a Áustria, 3x0, com direito a golaço de Nilton Santos) fez aumentar nosso pessimismo. 

Foram 90 minutos de sofrimento, grudados nos rádios cujo som às vezes fugia, pois as transmissões a longa distância estavam longe de ser perfeitas; quando voltava, era uma agonia tentarmos adivinhar o que sucedera, até constatarmos que não tinha sido marcado nenhum gol durante o apagão.

Iríamos para o tudo ou nada contra a poderosa URSS, que anunciava ter utilizado os mais avançados recursos científicos para detetcar as vulnerabilidades dos futebolistas brasileiros.

Foi quando o técnico Vicente Feola se curvou à pressão dos líderes do elenco e escalou o fenômeno Garrincha... que até então ficara no banco porque um laudo psicológico o dava como pouco mais do que um débil mental. Foi preciso chegarmos à beira do abismo para o treinador desconsiderar os preconceitos dos engravatados.
Pelé mostrou a que vinha contra gauleses

O resultado foi aquilo que passou à história do futebol como um dos inícios de partida mais avassaladores de uma Copa do Mundo. 

Imprevisível como uma força da natureza, Garrincha pulverizou a ciência soviética, colocando uma bola na trave, servindo Vavá no primeiro gol e criando sucessivas jogadas agudas. 2x0.

Na quarta-de-final contra o retrancadíssimo Pais de Gales, foi a vez de Pelé dar o ar de sua graça, fazendo o gol salvador. 1x0. Ele também começara a Copa como reserva (de Mazzola), pois Feola temia que, aos 17 anos, não aguentasse tamanha responsabilidade. 

Ledo engano. O escrete melhorou muito com sua escalação a partir do jogo contra a URSS, para deslanchar de vez na semifinal contra a poderosa França de Fontaine (que, com seus 13 gols marcados nos gramados suecos, dificilmente perderá um dia a coroa de maior artilheiro de um só Mundial). 

Graças ao idiota Garrincha e ao inexperiente Pelé, o Brasil obteve a mais retumbante conquista de uma Copa do Mundo até hoje: com exibições da mais refinada arte futebolística já vista no Planeta Bola, emplacou goleadas de 5x2 tanto na semifinal contra a França quanto na final contra a Suécia.
                  
Gilmar; Djalma Santos, Belini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo disputaram a partida final, não se intimidando com a abertura do placar pelos anfitriões.

Duas arrancadas fulminantes de Garrincha, dois centros convertidos por Vavá e a vantagem mudou de mãos. Pelé (2) e Zagallo liquidaram a fatura, sob aplausos dos maravilhados suecos.
                  
O nosso povo, que há tanto tempo andava atrás de qualquer alegria, pôde finalmente desabafar: com o brasileiro, não há quem possa! 

Pena que as lições foram logo esquecidas. O embasbacamento face às metrópoles e a submissão aos preconceitos dos engravatados voltaram a prevalecer.
Clique aqui para assistir à final contra a Suécia
E continuamos reprimindo o Macunaíma que temos dentro de nós – tanto que, ao contrário dos argentinos com seu ídolo Maradona, fomos terrivelmente ingratos com nosso herói de duas Copas, deixando Garrincha agonizar no alcoolismo e abandono. (por Celso Lungaretti) 

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1958 - 1962 - 1970 - 1994 - 2002 - final

quarta-feira, 24 de abril de 2024

SE CÁSSIO SOFRER A MESMA INGRATIDÃO QUE GYLMAR E RIVELLINO, CORINTHIANS PASSARÁ RECIBO DE QUE NÃO MERECE TER ÍDOLOS!

São Gilmar, o das defesas elegantes
Com portentosa atuação de Gylmar dos Santos Neves, o Corinthians, numa fase em que era saco de pancadas do Santos de Pelé, conseguiu um heroico empate por 1x1 em plena Vila Belmiro, no último domingo de julho de 1960. Euforia.

Logo no meio da semana, contudo, perdeu por 3x2 do nanico Jabaquara no Parque São Jorge e a infiel torcida decidiu que o extraordinário goleiro, único jogador corinthiano titular do escrete campeão do mundo em 1958, falhara de propósito  para ser vendido ao Santos.

De onde surgiu uma suspeita tão destoante do caráter do acusado? É que um atleta adversário, exímio cobrador de faltas, fizera 1x0 com um chute colocado; Gylmar, atrapalhado pela barreira, pulou atrasado. Aí, no final da partida, nova falta perigosa surgiu e ele dispensou a barreira, sendo novamente vencido, dessa vez por um petardo. 

Final: 3x2 para o Jabuca e Gylmar, que ainda não havia decidido se aceitaria a proposta do maior time brasileiro de então, começou imediatamente a fazer as malas. Seria bicampeão mundial tanto pelo Brasil em 1962 quanto pelo time praiano em 1962/63 (Torneio Intercontinental uma ova!). 

Roberto Rivellino, o garoto do Parque, teve de ir embora do Parque por causa da hostilização dos infiéis torcedores: depois de ele carregar o fraco time alvinegro nas costas ao longo do campeonato paulista de 1974 inteiro, não conseguir evitar o empate (1x1) e a derrota (0x1) nas duas partidas da final contra o Palmeiras. O único titular corinthiano da seleção brasileira que conquistou  o tri em 1970 também recebeu um pé na bunda como prêmio.
Rivellino se tornou titular do Corinthians aos 19 anos

Agora chegou a vez do segundo jogador que mais vezes (712) vestiu a camisa do Corinthians em todos os tempos e principal responsável pelas duas maiores conquistas do
timão ao longo de sua história centenária, a Libertadores e o Mundial de Clubes de 2012.

Embora esteja alternando boas e más exibições, Cássio Ramos nem de longe merece ser feito de bode expiatório pelos erros crassos da última e da atual diretorias corinthianas, muito menos pagar pelo papelão que alguns jornalistas caçadores de bruxas fizeram ao ressuscitar um episódio de 35 anos atrás para impedir o sexagenário técnico Cuca de continuar treinando o Corinthians. 

Como Cássio comandara o elenco numa manifestação de solidariedade ao Cuca após uma vitória difícil, virou alvo desses macartistas de esquerda, que mais inconformados ainda ficaram quando o episódio recentemente teve uma reviravolta, terminando com a admissão por parte da corte estrangeira de que:
— a sentença contra o Cuca, decidida sem que lhe fosse garantido o direito de defesa, só poderia ser, como foi, definitivamente anulada; e
— novo julgamento é impossível, pois o episódio  já está prescrito faz uma eternidade.
Cássio salvando gol do Chelsea em 2012

A campanha de desqualificação do Cássio, insuflada por pessoas que atuam mais como identitárias fanáticas do que como jornalistas, bem como por torcedores tão descerebrados quanto aqueles que detonam as últimas tentativas de reação do time lançando sinalizadores que levam à interrupção da partida por vários minutos, finalmente tirou Cássio do sério. 

Após a derrota deste meio de semana, na qual o time inteiro atuou pessimamente e o técnico mostrou estar perdido no espaço, Cássio deu sofrida entrevista queixando-se da perseguição encarniçada que sofre e propondo-se a sair se for ele que estiver atrapalhando o Corinthians.

Haverá uma reunião com o ridículo presidente atual para tratar do caso. Se Cássio sofrer o mesmo destino de Gylmar e Rivellino, o Corinthians vai passar recibo de que não merece ter ídolos exemplares como ele, mas sim boleiros com a estatura moral do Luan e do Matias Rojas. (por Celso Lungaretti)
Atualização: a reunião com o Cássio já aconteceu e o parasita encartolado da vez lhe prometeu total apoio "como jogador e como ser humano" para superar este período difícil. Como as garantias do dito sujo valem tanto quanto notas de 3 reais, o ídolo do timão que se cuide: se a infiel torcida pedir a cabeça do passador de promessas sem fundo, não tenho a mais remota dúvida de que ele entregará a do Cássio numa bandeja para salvar a própria. (CL)   

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

PELÉ NÃO TEM AS HORAS CONTADAS, COMO NOTÍCIA ALARMISTA FEZ CRER

E
mbora seja repórter da Folha de S. Paulo intermitentemente desde 1990 e tenha uma pós-graduação em gestão de saúde pela FGV, a jornalista Cláudia Colluci colocou o mundo inteiro de sobreaviso, na expectativa da morte do rei Pelé, devido aos parágrafos iniciais da sua notícia do último sábado (3): 
"Internado desde a última terça (29) no Hospital Israelita Albert Einstein, Pelé, 82, não responde mais ao tratamento quimioterápico que vinha fazendo desde setembro do ano passado, quando foi operado de um câncer de intestino. No início do ano, foram diagnosticadas metástases no intestino, no pulmão e no fígado.

A Folha apurou que o craque está em cuidados paliativos exclusivos. Isso quer dizer que a quimioterapia foi suspensa e que ele segue recebendo medidas de conforto, para aliviar a dor e a falta de ar, p. ex., sem ser submetido a terapias invasivas.

Cuidados paliativos são indicados a todos os pacientes com doenças ou condições progressivas e potencialmente mortais. As medidas vão depender dos sintomas, da funcionalidade e do prognóstico, ou seja, quanto tempo de sobrevida se espera para o paciente".
Pelé, aos 17 anos, comemorando a
conquista do Mundial com Gylmar e Didi
 
Na edição desta 2ª feira (5), contudo, ela explicou que a situação do maior futebolista do mundo no século passado não era a que os leitores comuns concluíram:
"Cuidados paliativos não significam uma morte iminente, muito menos que a equipe médica desistiu do paciente, como muitos ainda pensam. Não é infrequente que doentes em cuidados paliativos se estabilizem de quadros agudos e tenham alta hospitalar, p. ex. 

O assunto vem sendo muito discutido após a Folha [ou seja, ela mesma, Colluci] revelar que Pelé não responde mais ao tratamento quimioterápico e está sob cuidados paliativos exclusivos. Isso quer dizer que a quimioterapia foi suspensa e que ele segue recebendo medidas de conforto para a aliviar a dor e a falta de ar, p. ex., sem ser submetido a terapias invasivas.

Há artigos científicos mostrando que, em certas condições, cuidados paliativos podem resultar em uma sobrevida ainda maior do que a observada em tratamentos quimioterápicos ou outras intervenções consideradas fúteis para pacientes incuráveis".
Portanto, a culpa pelo alvoroço que a notícia causou não é dos muitos leigos que acreditaram numa morte iminente, mas sim de quem abordou o assunto de uma forma que, intencionalmente ou não, foi alarmista e chocante.
Em 1980, ele foi eleito atleta do século por jornalistas
das 20 principais publicações esportivas do planeta
  

O fato é que a colega parece ter esquecido que escrevia para um jornal direcionado a leitores com os mais variados perfis e não para a
Revista Brasileira de Educação Médica. 

Se quem é do ramo tem obrigação de entender o que ela quis dizer, os leigos não têm obrigação nenhuma e justificadamente passaram a acender velas e a rezar por um milagre.

Então, o que cabia no caso era um humilde pedido de desculpas e não a postura arrogante de culpar a imensa maioria dos leitores por, burrinhos, terem entendido mal aquilo que magister dixit. (por Celso Lungaretti)
Competente documentário de longa-metragem, dirigido em
2016 pelos irmãos estadunidenses Jeff e Michael Zimbalist.

domingo, 20 de novembro de 2022

MUNDIAIS DA FIFA/5 VEZES BRASIL: O MANÉ JOGOU POR ELE E PELO PELÉ

O gol inverossímil que Garrincha marcou contra o Chile... 
"
Vocês vão ver como é
Didi, Garrincha e Pelé
Dando seu baile de bola
Quando eles pegam no couro
Nosso escrete de ouro
Mostra o que é nossa escola

Quando a partida esquentar
E Vavá de calcanhar
Entregar a pelota a Mané
É Mané Garrincha, Didi,
Didi diz 'é por aqui'
Aí vem o gol do Pelé"
(B. Marques/D. Bezerra)
O Brasil era o favorito do Mundial 1962, no Chile, com seu grupo de jogadores que pouco havia mudado desde 1958, quando deslumbrou o Planeta Bola. A principal alteração estava no banco, com o discreto Aymoré Moreira substituindo o adoentado Vicente Feola.

Mas, a contusão de Pelé, logo na segunda partida, foi um balde de água fria no nosso ânimo.

Antes, a Seleção aplicara protocolares 2x0 num México cujo único destaque era o goleiro Carbajal, por haver disputado muitas Copas (acabaria fechando a conta em cinco).

Contra a Checoslováquia, o rei tentou um chute de fora da área, que foi à trave enquanto ele ia ao chão, abatido por uma distensão muscular.

A aplicação tática do adversário fez escassearem nossas oportunidades de gol e os dois melhores arremates brasileiros morreram nos postes. 0x0.
...seus outros 3 e a jogada decisiva contra a Espanha atestam: ele carregou o Brasil nas costas!
A aplicação tática do adversário fez escassearem nossas oportunidades de gol e os dois melhores arremates brasileiros morreram nos postes. 0x0.

Uma vitória contra a Espanha, no jogo seguinte, tornou-se obrigatória para o Brasil seguir adiante na Copa.

Foi um jogo épico, contra um adversário forte e que contava com o mito Puskas (húngaro que, após ser o grande destaque da Copa de 1954, assumira a cidadania espanhola).

Chutando da meia lua, Adelardo colocou a Espanha na frente.

Amarildo, o substituto de Pelé, empatou, aproveitando centro rasteiro de Zagallo.
Substituir Pelé parecia missão impossível. Mas
Amarildo conseguiu marcar tentos providenciais.

Gylmar salvou o Brasil fazendo uma defesa extraordinária, depois de dividir a bola com um avante espanhol na marca do pênalti. O grande Gento pegou o rebote e desferiu um arremate mortal para o gol, com Gylmar caído. Mas o goleiraço, num lance de puro reflexo, conseguiu erguer os braços e espalmar.

Parêntesis 1 – Gento, além de ser um fora de série, tinha muito caráter. Certa vez, incumbido de cobrar um pênalti inexistente para o Real Madrid, chutou na direção da bandeira de escanteio, recusando-se a tirar proveito do erro da arbitragem.

Parêntesis 2 – também errou a arbitragem de Brasil x Espanha ao não assinalar um pênalti cometido por Nilton Santos. Marcou fora da área a falta ocorrida dentro.

O enciclopédia usou de malandragem, dando um passo dissimulado à frente para confundir o juiz, que estava vindo conferir de perto o local da infração.

Parêntesis 3 – então com 11 anos, eu não entendia por que o placar do estádio de Viña del Mar estampava a frase porque nada tenemos, lo haremos todo. Só bem depois vim a saber que um forte terremoto destruíra a infraestrutura futebolística do Chile, a dois anos do Mundial.

Contudo, o grande dirigente Carlos Dittborn conseguiu evitar a mudança de sede, pronunciando então essa frase que motivou sua gente a, com um esforço descomunal, conseguir reerguer tudo em tempo.
Foi uma epopeia: na manhã da partida inaugural, ainda 
eram completados os últimos ajustes no Estádio Nacional. 
Parêntesis 4 – tratou-se da primeira Copa do Mundo cujas partidas foram integralmente exibidas no Brasil, em teipe. Passavam na noite do dia seguinte e, cúmulo da breguice, um locutor daqui agradecia a gentileza do comandante fulano, piloto da Varig, que havia trazido a fita no seu voo.

As duas emissoras que transmitiam futebol, a Record e a Tupi, optaram pelo revezamento: cada equipe se incumbia da locução/comentários de um tempo da partida.

Então, era o chatíssimo Walter Abrão quem resmungava, no finalzinho da partida contra a Espanha, quando Garrincha não atava nem desatava na ponta: É muito egoísmo, ficar prendendo a bola numa hora destas, em vez de passá-la a um companheiro!.

Foi a maior queimada de língua que vi na vida. Num único mas decisivo lampejo de gênio, Mané se livrou dos adversários, atraiu toda a marcação (inclusive o goleiro) e deu um centro milimétrico para a cabeçada certeira de Amarildo. O possesso nem precisou pular. 2x1

Apesar do folclore, Garrincha não era nenhum desmiolado em campo. Tanto que, quando Pelé se contundiu, a ficha logo caiu para o Mané: era a ele que competia liderar o ataque brasileiro no restante do Mundial.

Então, às suas jogadas desconcertantes mas nem sempre objetivas, ele acrescentou uma inusitada dose de pragmatismo: passou a priorizar o gol.
Schroiff, melhor goleiro da Copa, falhou em 2 gols da final 

Nas quartas-de-final contra a Inglaterra, fez um cabeceando do meio da área e outro, sensacional, chutando da intermediária, quase uma
folha seca ao estilo de Didi (só que, com a bola rolando, é bem mais difícil!). 3x1.

Na semifinal contra os anfitriões, o inverossímil: pegou um rebote na entrada da área e, com a perna cega que só servia para descer do bonde, acertou um chute perfeito, no ângulo.

De quebra, outro gol de cabeça, quase igual ao da partida anterior. E o Brasil despachou o Chile: 4x2.

Parêntesis 5 – o Mané foi expulso no fim da semifinal, mas o jeitinho brasileiro fez a diferença nos bastidores. O árbitro, providencialmente (seria mais apropriado dizer premeditadamente...) não entregou a súmula em tempo e Garrincha pôde disputar a final.

Assim, com exceção do contundido Pelé, o Brasil levou a campo sua força máxima: Gilmar; Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Amarildo e Zagallo.

A Checoslovaquia, com seu bem montado esquema de formiguinhas, foi o adversário – mas a sorte, dessa vez, lhe seria madrasta.
Clique acima para ver os melhores momentos da semifinal 
do Mundial de 1962 ou aqui para assistir à partida completa
Os meio-campistas Masopust (0x1) e Zito (2x1), surgindo como elementos-surpresa, marcaram.

Amarildo, tentando um cruzamento da linha de fundo, viu, com seu espanto transparecendo no olhar, a bola enganar o goleiro Schroiff, que se posicionara para interceptar o centro. Nem ele acreditou no gol  (1x1) que fizera.

E o empolgante Djalma Santos alçou a bola despretensiosamente para a área. O pobre Schroiff, melhor arqueiro da Copa, estava num dia pra lá de infeliz. Ofuscado pelo sol, soltou infantilmente a pelota no pé de Vavá, que não perdoou. 3x1.

Parêntesis final – chefiando a delegação, o empresário paulista Paulo Machado de Carvalho foi fundamental para as conquistas de 1958 e 62. 
O comandante ajudando a carregar
Pelé depois que ele se contundiu

Sob a conturbada liderança dos cartolas cariocas, o Brasil dera vexame em 1950, quando os dirigentes não só embarcaram no já ganhou, como deixaram que ele contagiasse os jogadores.

Chegaram ao cúmulo de recomendarem ao limitado zagueiro Bigode que não abrisse a caixa de ferramentas na final, pois o mundo todo estaria olhando. Com Bigode pisando em ovos, o hábil ponta Gighia fez a festa em cima dele, levando o Uruguai à vitória.

E deu novo vexame em 1954, perdendo não só o jogo, mas também a esportiva, contra a Hungria, que era realmente melhor.

Aí entrou Paulo Machado de Carvalho, com um enfoque mais profissional do futebol e uma habilidade imensa na motivação dos jogadores.

P. ex.: ao ficar sabendo que Didi estava apático e macambúzio porque sentia falta da caninha habitual, o marechal da vitória o levou ao bar e, para surpresa do jogador, chamou duas pingas.

Didi hesitou, mas o velho disse: Comigo você pode. Toma!.

Copo vazio, ele foi além: Beba a minha também!.

Finalmente: Agora, vai à luta e arrebenta! Nós precisamos de você.

Assim era o homem. Então, não foi surpresa que, depois de criticadíssimo pela equipe esportiva da rádio Bandeirantes (SP) ao longo de toda a campanha, ele desse o troco quando um pouco perspicaz repórter da emissora o foi entrevistar no vestiário festivo da conquista do bi.
"Engoliu mais essa?"

Ele só disparou uma frase:
Engoliu mais essa, Pedro Luís?

O veterano locutor discursou durante minutos, criticando a mesquinhez de quem aproveitava um momento de júbilo nacional para vinganças pessoais.

Em vão: tinha ido a nocaute e, como os pugilistas sonados, não se dera conta. (por Celso Lungaretti)
Melhores momentos da final; para assisti-la completa, clique aqui 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

OPORTUNISTA? SIM. MAU CARÁTER? SIM. MAS NÃO COLABORADOR DA DITADURA

G
ylmar dos Santos Neves (1930-2013) foi o maior goleiro brasileiro de todos os tempos. Teve participação fundamental nas conquistas da Copa do Mundo de seleções pelo Brasil (1958 e 1962) e de clubes pelo Santos (1962 e 1963).

[Um revisionismo politicamente demagógico converteu os Mundiais do Santos em Copas Intercontinentais, mas não reconheço tais besteirinhas: para mim, continuam valendo os resultados conquistados nos gramados pelas chuteiras imortais!]

Gylmar  tinha amigos na sede principal da repressão paulista (Oban e depois DOI-Codi) e, após pendurar as luvas, montou em parceria com um deputado reaça, seu cunhado Ricardo Izar, um negócio de venda legalizada, para militares e delegados, de veículos apreendidos com os resistentes, sem cobrança de impostos, contando para tanto com autorização especial a ele concedida pelo governo federal.

Gylmar, portanto, era um mau caráter e andava em péssimas companhias. Sabendo disto, eu jamais tomaria uma cervejinha com ele.

Mas, colaborador da ditadura?! É uma irresponsabilidade fazer-lhe acusação tão pesada sem apontar um único resistente que ele tenha dedado, um único aparelho cuja localização ele haja apontado, um único ato ou declaração desse cidadão sempre discreto que  porventura tenha facilitado a vitória dos terroristas de estado sobre nós.

Ele colaborou, isto sim, com o próprio bolso, já que recebeu como recompensa, por seus préstimos de despachante, uma concessionária da GM no bairro do Tatuapé. 

E eu, tendo sido um dos primeiros prisioneiros a acusar publicamente os torturadores de rapinantes, por se apropriarem de tudo de valor que encontravam conosco quando caíamos nas garras deles, permito-me duvidar de que os veículos cuja documentação o Gylmar lavou pertencessem a presos políticos. Seria embaraçoso demais se viesse a público, aqui ou no exterior.

Tudo me faz crer que fossem aqueles destinados ao nosso uso contínuo, adquiridos com a grana que obtínhamos expropriando bancos  (já os utilizados em ações armadas eram apanhados pouco antes e abandonados logo depois).

Então, se alguém tinha algo do que se queixar eram os bancos, pois os carros comprados com o dinheiro deles deveriam é ir a leilão para que tais agiotas consentidos pudessem ser reembolsados. Devemos chorar as dores dessa corja?

E mais: vale a pena atingir a memória de um morto, portanto impossibilitado de se defender, por tão pouco e tanto tempo depois? Ele não fez o suficiente para merecer de nós um mínimo de consideração? (por Celso Lungaretti)  

quinta-feira, 14 de março de 2019

VERGONHOSO: ELANO RASTEJOU DIANTE DE MESSI NO MUNDIAL DE 2011, IMPLORANDO QUE O BARÇA NÃO MASSACRASSE O SANTOS

Elano foi suplicar clemência ao Messi
Fez bem nosso imprescindível Dalton Rosado em reverenciar (vide aqui) o grande time do Santos que deslumbrou o planeta bola na década de 1960, quando chegou inclusive a sagrar-se duas vezes campeão do mundo, em 1962 e 1963.

Para mim pouco importa que a Fifa tenha cassado depois tais títulos, sob a alegação de que a disputa entre o campeão da Europa e o campeão das Américas não poderia ser considerada um campeonato mundial, já que excluía os representantes dos outros continentes.

Mas, para quem (como eu) viu essa história acontecer, os barrados no baile não teriam a mais remota chance. Do Mundial de seleções eles participam, mas, dentre as 21 Copas disputadas até hoje, quantas ganharam? Nenhuma!

Aliás, nos Mundiais Fifa daquela época, a única seleção do resto do mundo que sobreviveu às eliminatórias foi a da Coréia do Norte em 1966. Não só se colocou entre os 16 que iriam para a Copa, como conseguiu inclusive ultrapassar as oitavas de final (hoje as chamaríamos de fase de grupos, pois eram disputadas por quatro selecionados jogando entre si e só dois seguiam adiante). 

A Coréia do Norte  surpreendentemente alcançou as quartas de final, mandando a Itália para casa, mas Portugal restabeleceu a ordem natural das coisas, impondo-lhe um sonoro 5x3.

Então, como diria Nelson Rodrigues, pouco se me dão as posteriores revisões politicamente corretas dos idiotas da objetividade: o Santos foi o legítimo campeão mundial de 1962 e 1963, não campeão de uma hipotética Copa Intercontinental que não existia na época e hoje só existe na cabeça dos que engolem acriticamente as falácias oficiais...
Por que confessar isso agora?

[Aliás, a incoerência da Fifa é tamanha que reconhece como primeira competição mundial entre clubes a Copa Rio de 1951, disputada exclusivamente por equipes da Europa e da América do Sul. Ora, das duas, uma: ou foi outra copa intercontinental ou as vencidas pelo Santos foram campeonatos mundiais!]

O certo é que, em 1962, a tal Copa Rio já tinha sido esquecida por Deus e o mundo (exceto pelos palmeirenses), tendo sido o Santos o primeiro time brasileiro a ser reconhecido aqui e lá fora como campeão mundial, depois de qualificar-se para representar as Américas derrotando o Peñarol (2x1, 2x3 e 3x0) e de detonar o Benfica na grande decisão (3x2 no Maracanã e acachapantes 5x2 no Estádio da Luz). 

Foi nesta última partida que o Santos maravilhou a Europa, com Pelé marcando nada menos do que três gols em Lisboa, que vieram somar-se aos dois que havia feito no Rio.

[Um acontecimento inusitado se deu no segundo confronto para decidir a Copa Libertadores das Américas, travado na Vila Belmiro: os santistas reclamaram que jogadores uruguaios haviam jogado areia nos olhos do goleiro Gylmar no 2º gol e cometido outra falta no 3º. A torcida santista atirou algumas garrafas no gramado. O jogo continuou, o Santos empatou e o placar final foi 3x3. Mas, o juiz chileno alegou depois que a partida só valera até o 2x3, pois não havia condições de segurança e deveria haver sido encerrado... só que ele tivera medo de apanhar caso soasse o apito final antes da hora!]

O bi mundial não viria com goleada, mas foi épico. O poderoso Milan fez 4x2  em Milão e terminou o 1º tempo no Maracanã vencendo por 2x0 um Santos desfalcado de Pelé. Aí desabou uma tempestade e, à base da raça e dos petardos de Pepe no campo molhado (fez dois gols de falta), o Santos devolveu os 4x2. 
Zito jamais consentiria em tal papelão
A decisão se deu no Maracanã, dois dias depois, numa partida intensamente disputada e com redobrados cuidados defensivos. Depois dos dois jogaços anteriores, a vitória por apenas 1x0, gol do zagueiro Dalmo cobrando pênalti, acabou sendo um anticlímax. Mas bastou, e o Santos novamente conquistou o mundo.

Para quem conserva a lembrança desse passado glorioso, foi chocante a revelação que o ex-meia Elano acaba de fazer a um site esportivo estrangeiro: na única chance que o Santos teve de reeditar suas grandes conquistas da década de 1960, ao disputar a final do Mundial de Clubes de 2011 com o Barcelona, pediu clemência aos adversários para não ser massacrado!!!

E quem o fez foi o próprio Elano, suplicando ao Messi: "Pelo amor de Deus, deem uma aliviada para a gente".  

Cuidadoso, Messi evitou dar uma resposta comprometedora, mas subentendeu que o fariam: "Vamos ficar com a bola. Se vocês não jogarem, nós vamos...". 

Pode-se ler esta frase de duas maneiras, mas, à vista do que aconteceu depois, creio que a certa é: "Deixem-nos ficar com a bola fazendo o tempo passar e nós aliviaremos, sim". 

É que, após o avassalador domínio catalão no 1º tempo (3x0 que bem poderiam ter sido 6x0), no 2º o Barça tocou a bola displicentemente de um lado para outro enquanto os santistas corriam para não chegarem... Messi ainda marcou, aos 37', o gol derradeiro, para fechar a conta e, creio, para não dar muita pinta de que fizera uma caridade.
Teria sido melhor perder sem arreglo por 8x0, como neste amistoso de 2013...
.
Pode estar aí a explicação de por que o Neymar desperdiçou tão bisonhamente a maior chance do Santos na partida inteira. As más línguas disseram que era por já estar vendido ao Barcelona. Mas, talvez tenha sido para cumprir o combinado entre Elano e Messi.

O certo é que Elano foi sensato em só revelar publicamente este episódio vergonhoso após a morte do grande capitão Zito, caso contrário correria o risco de levar uma baita surra, por maior que fosse a diferença de idade entre ambos.
...do que humilhar-se ao adversário e armar uma farsa para perder só de 4x0!

segunda-feira, 21 de maio de 2018

TRIBUTO ÀS CHUTEIRAS IMORTAIS – 2: O HERÓI IMPROVÁVEL QUE SALVOU O BRASIL, CARREGANDO O ESCRETE NAS COSTAS (1962)

"Vocês vão ver como é
Didi, Garrincha e Pelé
Dando seu baile de bola
Quando eles pegam no couro
Nosso escrete de ouro
Mostra o que é nossa escola

Quando a partida esquentar
E Vavá de calcanhar
Entregar a pelota a Mané
É Mané Garrincha, Didi,
Didi diz 'é por aqui'
Aí vem o gol do Pelé"
(B. Marques/D. Bezerra)


O Brasil era o favorito do Mundial 1962, no Chile, com seu grupo de jogadores que pouco havia mudado desde 1958, quando deslumbrou o Planeta Bola. A principal alteração estava no banco, com o discreto Aymoré Moreira substituindo o adoentado Vicente Feola.

Mas, a contusão de Pelé, logo na segunda partida, foi um balde de água fria no nosso ânimo. 
Antes, a Seleção aplicara protocolares 2x0 num México cujo único destaque era o goleiro Carbajal, por já estar disputando seu quarto Mundial consecutivo (acabaria fechando a conta em cinco).

Contra a Tchecoslováquia, o rei tentou um chute de fora da área, que foi à trave enquanto ele ia ao chão, abatido por um estiramento muscular.

A aplicação tática do adversário fez escassearem nossas oportunidades de gol e os dois melhores arremates brasileiros morreram nos postes. 0x0.


O Brasil entrou em campo no jogo seguinte, contra a Espanha, seriamente ameaçado: uma derrota provavelmente o desclassificaria e um empate o faria enfrentar um adversário pior na fase seguinte.
Pelé deixa o campo contundido, ainda no 1º tempo.

Foi um jogo épico, contra um adversário muito forte e que contava com o mito Puskas (húngaro que, após ser o grande destaque da Copa de 1954, assumira a cidadania espanhola).

Chutando da meia lua, Adelardo colocou a Espanha na frente.

Amarildo, o substituto de Pelé, empatou, aproveitando centro rasteiro de Zagallo.


Gylmar salvou o Brasil fazendo uma defesa extraordinária, depois de rebater um cruzamento, dividindo a bola com um avante espanhol. O grande Gento pegou o rebote dentro da área e desferiu um arremate mortal para o gol, com Gylmar caído. Mas o goleiraço, num lance de puro reflexo, conseguiu erguer os braços e espalmar.


Parêntesis 1: Gento, além de ser um fora de série, tinha muito caráter. Certa vez, incumbido de cobrar um pênalti inexistente para o Real Madrid, chutou na direção da bandeira de escanteio, recusando-se a tirar proveito do erro da arbitragem.

Parêntesis 2: também errou a arbitragem de Brasil x Espanha, ao não assinalar um pênalti cometido por Nilton Santos. Marcou fora da área a falta ocorrida dentro.
Imagens restauradas de Brasil x Espanha: jogaço!

O chamado enciclopédia do futebol usou de malandragem, dando um passo dissimulado à frente para confundir o juiz, que estava vindo conferir de perto o local da infração.

A Espanha reclamou outro pênalti, num lance que naquele tempo os árbitros consideravam bola na mão e não mão na bola (a penalidade máxima só se caracterizava quando o toque havia sido intencional). E, no finalzinho da partida, houve mais um, claríssimo, em favor do Brasil, também ignorado.

Parêntesis 3: então com 11 anos, eu não entendia por que o placar do estádio de Viña del Mar estampava a frase porque nada tenemos, lo haremos todo.

Só bem mais tarde vim a saber que um forte terremoto destruíra a infraestrutura futebolística do Chile, dois anos antes do Mundial, mas o grande dirigente Carlos Dittborn conseguira evitar a mudança de sede, pronunciando então tal frase, que motivou sua gente a, com um esforço descomunal, conseguir reerguer tudo em tempo hábil.
Brasil 3x1 Inglaterra, com narração do saudoso Fiori Giglioti (1º tempo)

Parêntesis 4: tratou-se da primeira Copa do Mundo cujas partidas foram integralmente exibidas no Brasil, em teipe. Passavam na noite do dia seguinte e um locutor agradecia a gentileza do comandante fulano, piloto da Varig, que havia trazido a fita no seu voo.
Pelé fora, Garrincha chamou a responsabilidade para si

As duas emissoras que transmitiam futebol, a Record e a Tupi, optaram pelo revezamento: cada equipe se incumbia da locução e comentários de um tempo da partida.

Então, era o chatíssimo Walter Abrão quem resmungava, no finalzinho da partida contra a Espanha, quando Garrincha não atava nem desatava na ponta: “É muito egoísmo, ficar prendendo a bola numa hora destas, em vez de servir um companheiro!”.

Foi a maior queimada de língua que vi na vida. Em mais uma jogada genial daquele que vinha sendo desde o início o melhor atacante brasileiro, Mané se livrou dos adversários, atraiu toda a marcação (inclusive o goleiro) e deu um centro milimétrico em direção à segunda trave, onde Amarildo, desmarcado, esperava para cabecear. O possesso nem precisou pular. 2x1

Apesar do folclore, Garrincha era simplório, mas estava longe de ser um desmiolado. Tanto que, quando Pelé se contundiu, a ficha logo caiu para o Mané: era a ele que competia liderar o ataque brasileiro no restante do Mundial.

Então, às suas jogadas desconcertantes mas nem sempre objetivas, ele acrescentou uma inusitada dose de pragmatismo: passou a priorizar o gol.
Brasil 3x1 Inglaterra, com narração de Fiori Giglioti (2º tempo)

Nas quartas-de-final contra a Inglaterra, fez um cabeceando do meio da área e outro, sensacional, chutando da intermediária, quase uma folha seca ao estilo de Didi (só que, com a bola rolando, é bem mais difícil!). 3x1.

Na semifinal contra os anfitriões, o inverossímil: pegou um rebote na entrada da área e com a perna esquerda, que geralmente só lhe servia de apoio, acertou um chute perfeito, no ângulo. [Ele fazia suas diabruras com a perna direita, seis centímetros mais curta!]

De quebra, outro gol de cabeça, quase igual ao da partida anterior. E o Brasil despachou o Chile: 4x2.


Parêntesis 5: o Mané foi expulso no fim da semifinal, mas o jeitinho brasileiro fez a diferença nos bastidores. O árbitro, providencialmente (ou premeditadamente?) não entregou a súmula em tempo e Garrincha pôde disputar a final.
Brasil 4x2 Chile: imagens restauradas dos gols.

Assim, o Brasil levou a campo sua força máxima, com exceção do contundido Pelé: Gilmar; Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Amarildo e Zagallo.

A Tchecoslováquia, com seu bem 
montado esquema de formiguinhas, foi o adversário – mas a sorte, desta vez, lhe seria madrasta.

Os meio-campistas Masopust (0x1) e Zito (2x1), surgindo como elementos-surpresa, marcaram.

Amarildo, tentando um cruzamento da linha de fundo, viu, com seu espanto transparecendo no olhar, a bola enganar o goleiro Schroiff, que se posicionara para interceptar o centro. Nem ele acreditou no gol  (1x1) que fizera.
E o empolgante Djalma Santos alçou a bola despretensiosamente para a área. O pobre Schroiff, melhor arqueiro da Copa, estava num dia pra lá de infeliz. Ofuscado pelo sol, soltou infantilmente a pelota no pé de Vavá, que não perdoou. 3x1.

Parêntesis 6: chefiando a delegação, o empresário paulista Paulo Machado de Carvalho foi fundamental para as conquistas de 1958 e 62.

Sob a conturbada liderança dos cartolas cariocas, o Brasil dera vexame em 1950, quando os dirigentes não só entraram no clima do já ganhou!, como deixaram que ele contagiasse os jogadores. 

Chegaram ao cúmulo de recomendarem ao limitado e faltoso zagueiro Bigode que não abrisse a caixa de ferramentas na final, pois o mundo inteiro estaria olhando. Com Bigode domesticado, o hábil ponta Gighia fez a festa, levando o Uruguai à vitória.

E deu novo vexame em 1954, perdendo não só o jogo, mas também a esportiva, contra a Hungria, que era realmente melhor.

Aí assumiu Paulo Machado de Carvalho, com um enfoque mais profissional do futebol e uma habilidade imensa no quesito motivação dos jogadores.
O marechal: um raro dirigente estimado pelos jogadores

P. ex.: ao ficar sabendo que Didi estava apático e macambúzio porque sentia falta da caninha habitual, o marechal o levou ao bar e, para surpresa do jogador, pediu duas pingas.

Didi hesitou, mas o velho disse: “Comigo você pode. Toma!”.

Copo vazio, ele foi além: “Beba a minha também!”.

Finalmente: “Agora, vá à luta e arrebenta! Nós precisamos de você”. Assim era o homem.

Então, não foi surpresa que, depois de criticadíssimo pela equipe esportiva da rádio Bandeirantes (SP) ao longo de toda a campanha, ele desse o troco quando um pouco perspicaz repórter da emissora o foi entrevistar no vestiário festivo da conquista do bi.

O comandante vitorioso só disparou uma frase: “Engoliu mais essa, Pedro Luís?”

O veterano locutor discursou durante minutos, criticando a mesquinhez de quem aproveitava um momento de júbilo nacional para vinganças pessoais.

Em vão: tinha ido a nocaute e, como os pugilistas sonados, não se dera conta.
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