Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera. Somente a ingratidão – esta pantera – foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera! O homem, que nesta terra miserável mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, a mão que afaga é a mesma que apedreja
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija!
(Augusto dos Anjos, Versos íntimos)
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Observações: sem nenhuma surpresa, vejo concretizado o desfecho que eu já antevia 20 dias atrás, ao lançareste post.
O goleiro responsável pelas duas maiores conquistas corinthianas em todos os tempos e segundo atleta que mais atuou pelotimãoaté hoje (712 partidas) já acertou sua transferência para o Cruzeiro.
Além da relutância em passar definitivamente à reserva quando ainda sonha com mais uma volta por cima, Cássio está desgostoso com as pressões mesquinhas dos torcedores e com a falta de grandeza do presidente Augusto Melo ao lidar com seu caso.
Último grande ídolo do Corinthians, líder incontestável do elenco, ele merecia encerrar sua carreira como atleta de uma forma muito mais honrosa, pelo menos alternando-se na titularidade com o Carlos Miguel até terminar seu contrato no final deste ano.
E já deveria ter sido acertado para o Cássio, depois das obrigatórias homenagens, assumir imediatamente outra função no clube.
Mas, nada tendo sido feito em tempo hábil, seu destino acabou sendo decidido pela pantera da ingratidão.
O Corinthians hoje é uma nau à deriva. (por Celso Lungaretti)
Com portentosa atuação de Gylmar dos Santos Neves, o Corinthians, numa fase em que era saco de pancadas do Santos de Pelé, conseguiu um heroico empate por 1x1 em plena Vila Belmiro, no último domingo de julho de 1960. Euforia.
Logo no meio da semana, contudo, perdeu por 3x2 do nanico Jabaquara no Parque São Jorge e a infiel torcida decidiu que o extraordinário goleiro, único jogador corinthiano titular do escrete campeão do mundo em 1958, falhara de propósito para ser vendido ao Santos.
De onde surgiu uma suspeita tão destoante do caráter do acusado? É que um atleta adversário, exímio cobrador de faltas, fizera 1x0 com um chute colocado; Gylmar, atrapalhado pela barreira, pulou atrasado. Aí, no final da partida, nova falta perigosa surgiu e ele dispensou a barreira, sendo novamente vencido, dessa vez por um petardo.
Final: 3x2 para o Jabuca e Gylmar, que ainda não havia decidido se aceitaria a proposta do maior time brasileiro de então, começou imediatamente a fazer as malas. Seria bicampeão mundial tanto pelo Brasil em 1962 quanto pelo time praiano em 1962/63 (Torneio Intercontinental uma ova!).
Roberto Rivellino, o garoto do Parque, teve de ir embora do Parque por causa da hostilização dos infiéis torcedores: depois de ele carregar o fraco time alvinegro nas costas ao longo do campeonato paulista de 1974 inteiro, não conseguir evitar o empate (1x1) e a derrota (0x1) nas duas partidas da final contra o Palmeiras. O único titular corinthiano da seleção brasileira que conquistou o tri em 1970 também recebeu um pé na bunda como prêmio.
Rivellino se tornou titular do Corinthians aos 19 anos
Agora chegou a vez do segundo jogador que mais vezes (712) vestiu a camisa do Corinthians em todos os tempos e principal responsável pelas duas maiores conquistas do timão ao longo de sua história centenária, a Libertadores e o Mundial de Clubes de 2012.
Embora esteja alternando boas e más exibições, Cássio Ramos nem de longe merece ser feito de bode expiatório pelos erros crassos da última e da atual diretorias corinthianas, muito menos pagar pelo papelão que alguns jornalistas caçadores de bruxas fizeram ao ressuscitar um episódio de 35 anos atrás para impedir o sexagenário técnico Cuca de continuar treinando o Corinthians.
Como Cássio comandara o elenco numa manifestação de solidariedade ao Cuca após uma vitória difícil, virou alvo desses macartistas de esquerda, que mais inconformados ainda ficaram quando o episódio recentemente teve uma reviravolta, terminando com a admissão por parte da corte estrangeira de que:
— a sentença contra o Cuca, decidida sem que lhe fosse garantido o direito de defesa, só poderia ser, como foi, definitivamente anulada; e
— novo julgamento é impossível, pois o episódio já está prescrito faz uma eternidade.
Cássio salvando gol do Chelsea em 2012
A campanha de desqualificação do Cássio, insuflada por pessoas que atuam mais como identitárias fanáticas do que como jornalistas, bem como por torcedores tão descerebrados quanto aqueles que detonam as últimas tentativas de reação do time lançando sinalizadores que levam à interrupção da partida por vários minutos, finalmente tirou Cássio do sério.
Após a derrota deste meio de semana, na qual o time inteiro atuou pessimamente e o técnico mostrou estar perdido no espaço, Cássio deu sofrida entrevista queixando-se da perseguição encarniçada que sofre e propondo-se a sair se for ele que estiver atrapalhando o Corinthians.
Haverá uma reunião com o ridículo presidente atual para tratar do caso. Se Cássio sofrer o mesmo destino de Gylmar e Rivellino, o Corinthians vai passar recibo de que não merece ter ídolos exemplares como ele, mas sim boleiros com a estatura moral do Luan e do Matias Rojas. (por Celso Lungaretti)
Atualização: a reunião com o Cássio já aconteceu e o parasita encartolado da vez lhe prometeu total apoio "como jogador e como ser humano" para superar este período difícil. Como as garantias do dito sujo valem tanto quanto notas de 3 reais, o ídolo do timão que se cuide: se a infiel torcida pedir a cabeça do passador de promessas sem fundo, não tenho a mais remota dúvida de que ele entregará a do Cássio numa bandeja para salvar a própria. (CL)
O goleiro corinthiano Cássio, que acaba de completar 36 anos, é o típico homem cordial. Não briga com ninguém, é respeitado pelos adversários, ajuda os jovens que acabam de ser promovidos das fileiras inferiores e chega a parar o carro na saída do estádio para dar autógrafo a torcedores.
Mesmo assim, pela segunda vez em 11 meses acaba de ser alvo da fúria da torcida santista na Vila Belmiro, outrora um templo do futebol, hoje uma praça de guerra.
Em julho de 2022 foi nos mata-matas da Copa do Brasil. O Santos, para se classificar, precisava tirar os quatro gols de vantagem que o Corinthians trouxera na bagagem. Ganhou só por 1x0 e, como era pra lá de previsível, se despediu da competição.
Por que os torcedores fizeram o Cássio de bode expiatório, ao invadirem o gramado após o apito final (um deles até atingiu o goleiro de raspão com uma tesoura voadora, só não acertando em cheio porque jogador santista Marcos Leonardo o empurrou no ar, desviando-o do seu objetivo)?
Por nada além de ter jogado bem, desempenhando a contento o seu papel.
Nesta quarta-feira (21) aconteceu a mesma coisa, com Cássio só se salvando das várias bombas disparadas contra a área corinthiana porque percebeu a intenção dos torcedores e se distanciou antes das explosões.
Isto é o pior de tudo, o fato de que ele foi alvo apenas por ter feito o que estava lá para fazer. Trata-se de uma amostra de uma sociedade que ficou intrinsecamente sectária e intolerante, pois a maioria dos cidadãos passou a não suportar seus desafetos e antagonistas do cotidiano, encarando-os como inimigos a serem exterminados.
Quando o Corinthians ficou 11 anos sem ganhar do Santos e 23 anos sem conquistar o campeonato paulista, Pelé foi o maior responsável por essa seca. Mesmo assim, o time da capital jamais incentivou seus jogadores a quebrarem o rei, nem torcedor nenhum o agrediu.
Durante a ditadura militar, tínhamos um Estado policial mas sua bestialidade contaminou apenas uma ínfima minoria da população (a malta do CCC à frente). Agora torcedores tentam linchar os craques do outro time, verdes-amarelos agridem vermelhos, vizinhos matam vizinhos.
Jair Bolsonaro não foi a causa dessa barbárie, apenas o seu principal incitador e beneficiário. (por Celso Lungaretti)
Se ainda faltava algo para o gaúcho Cássio ser reconhecido como o maior ídolo do Corinthians em todos os tempos, agora é incontestável.
Prestem atenção: eu escrevi ídolo, e não jogador ou goleiro.
Pois ele não é, nem nunca foi, um craque comparável a Cláudio, Luizinho, Marcelinho Carioca, Neco, Neto, Rivelino, Ronaldo Fenômeno e Sócrates, entre outros.
E nem mesmo como goleiro superou Gylmar e Dida, dois arqueiros com técnica mais apurada que a dele. Sempre lhe faltou, ao deixar a meta para interceptar cruzamentos, a mesma excelência que mostra defendendo os arremates contra seu gol.
Nas partidas mais difíceis, contudo, ele faz a diferença, graças a seus trunfos:
— é movido a adrenalina, então seus sentidos se aguçam, suas reações se tornam mais rápidas e ele fecha o gol nas partidas mais importantes;
— sabe aproveitar muito bem sua envergadura física, com 1,95m de altura e braços longos, o que intimida os atacantes (é comum errarem a meta de tanto que tentam tirar o chute do seu alcance);
— é um eleito dos deuses (e, como disse Nelson Rodrigues, "sem sorte não se chupa nem um [sorvete] chicabon, pois você pode engasgar com o palito ou ser atropelado pela carrocinha").
Assim, ao evitar com a ponta da unha um gol de Diego Souza na Libertadores de 2012, ele se tornou o principal responsável pela conquista inédita do Corinthians, que dificilmente conseguiria, na meia-hora restante, furar a sólida retranca do Vasco e marcar os dois tentos que se tornariam necessários para seguir adiante na competição.
Depois, para garantir a festa do bando de loucos em Yokohama, Cássio foi simplesmente portentoso, fazendo defesas dificílimas, inclusive o milagre que impediu Cahill de abrir a contagem logo no início da partida, com o disparo à queima-roupa sendo interceptado quase em cima da linha.
E a vítima daquela vez foi Fernando Torres, que pipocou nas várias chances que teve diante do gigante corinthiano. Dava a impressão de que, na hora de finalizar, ele via um Cássio de uns 3 metros de altura à sua frente....
E o que dizer das partidas decisivas do campeonato paulista de 2018, quando a semifinal contra o São Paulo e a final contra o Palmeiras foram ambas decididas nos pênaltis, com a estrela do Cássio brilhando mais uma vez?!
Contra o Boca Juniors na Libertadores 2022, Cássio voltou a ser decisivo, fazendo uma defesa impressionante em finalização de Benedetto na Neoquímica Arena e vencendo o duelo final contra o ótimo goleiro do time argentino, Rossi, quando a disputa da vaga foi para os pênaltis, após os 0x0 aqui e lá.
Cássio já havia pegado um e Rossi, dois (Benedetto chutara o seu nas nuvens), mas os cobradores tinham facilitado. Estava 5x5 nas cobranças alternadas. Aí Ramirez bateu com força e Cássio saltou como um gato para espalmar.
Gil, com todo o peso da Nação Corinthiana nas costas, cobrou forte e no canto, mas Rossi quase opera um milagre. Quase. Encostou na bola, tirou-lhe a força, mas ela escorreu para as redes.
E daí? Era só uma partida de oitavas de final...
Daí que, desfalcado como nunca, com quase um time inteiro no departamento médico, o Corinthians sobrepujou o temível Boca Juniors na Bombonera, algo que uma equipe brasileira não conseguia fazer desde o Santos de Pelé em 1963.
E Cássio foi o principal responsável por todas essas conquistas, pois elas não teriam ocorrido sem ele tirar coelhos da cartola. Sendo que as duas de 2012 são simplesmente as maiores do Corinthians em seus 111 anos de história.
E a desta 3ª feira (5) se deu em sua 599ª atuação pelo timão, para que a fiel lhe preste homenagens inesquecíveis quando entrar em campo na próxima vez.
[Já é o quarto atleta que mais jogou pelo Corinthians, devendo em breve superar as 602 partidas do também goleiro Ronaldo Giovanelli e as 606 do pequeno polegar Luizinho. Difícil mesmo será, com seus 35 anos, ainda ultrapassar as 806 de Wladimir, mas, com a estrela dele, tudo é possível...].
E pensar que há apenas três meses uns moleques que nada sabem de futebol nem da vida andaram ameaçando de morte o Cássio e sua família em razão de falhas menores em partidas menores! Deveriam é beijar-lhe as mãos santas... (por Celso Lungaretti)