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quinta-feira, 24 de novembro de 2022

SE LULA FOR COMUNISTA, HITLER É DEMOCRATA! – 2

(continuação deste post)
A
s experiências iniciais sob o receituário marxista-leninista em países originalmente rurícolas como a Rússia e a China, optaram por uma acelerada industrialização sob os moldes capitalistas e conseguiram recuperar no tempo o atraso de suas relações sociais, feudais ou semifeudais, em relação ao republicanismo capitalista.

Como esses dois países têm dimensões continentais, foram capazes de suprir internamente as suas carências materiais e avançar na recuperação do atraso das suas relações econômico-industriais com o ocidente capitalista, branco e masculino tecnologicamente desenvolvido socialmente, mas cindido em classes sociais distintas.

No entanto, como o uso do cachimbo entorta a boca, os revolucionários sucumbiram frente aos burocratas do partido comunista que se assenhorearam do poder político.

Deu-se então uma intensificação das relações capitalistas de Estado até a abertura ao capitalismo de mercado mundial. Isto porque o capital é viciante e os que caem nas suas garras, como os jogadores num cassino, ficam ávidos por acumular ganhos que só são garantidos para os banqueiros da jogatina (estes sempre lucram e o conjunto dos apostadores sempre perde, embora um ou outro deles se saia bem, até para que o restante mantenha sua ilusão de que um dia quebrará a banca). 

Como se considerar comunista um país como a China, que oferece ao mundo mercadorias baratas a partir de uma produção empresarial capitalista de extração brutal de mais-valia? Na verdade, o que a China faz é solapar os fundamentos capitalistas atuais adotando a desumanidade extrema de uma fase anterior, a do capitalismo selvagem.

Mao Tsé-Tung provavelmente jamais terá imaginado que sua vitoriosa revolução armada de 1949 contra os nacionalistas de Chiang Kai-shek iria debilitar o capitalismo mundial usando as regras de mercado do próprio capitalismo como fatores desestabilizadores do dito cujo (além de semear a confusão ao intitular-se falaciosamente como comunista).

O que dizer da Rússia, atualmente governada por um ditador plutocrata que, incapaz de vencer a guerra contra o país menor e menos populoso por ele invadido injustificadamente, torna-se um covarde franco atirador de mísseis de longa distância que matam civis a esmo?

A confusão semântica sobre o conteúdo do receituário marxiano de comunismo, identificado nos maus exemplos da Rússia e da China num mundo de economia capitalista globalizada, é largamente fomentada pelos capitalistas em geral.

Capitalismo ocidental é hoje a mesma coisa que capitalismo eurasiano, com diferenças cosméticas apenas no campo da forma política de governo.

Não, senhores, o capitalismo de Estado não é comunista e opera sobre as mesmas bases categoriais do capitalismo de mercado liberal clássico ou keynesiano social-democrata.

Estas três formas de capitalismo representam o oposto ao preconizado no ideário comunista. Este, pelo contrário, seria capaz de promover prosperidade linear, paz e elevação do intelecto humano, ao invés da atual miséria material de fome e pobreza eco/suicida capitalista.

Um provérbio chinês diz que a palavra ensina, o exemplo arrasta; realmente, os exemplos do que seria um caminhar para o comunismo idealizado foram péssimos e deseducativos.

No meu entender, Rússia e China poderiam haver tomado rumos diferentes dos adotados, já que dispunham de trunfos consideráveis, tais como suas dimensões continentais e capacidade de suprimento das próprias necessidades de consumo. 

É possível que isso contrabalançasse sua manutenção sob isolamento econômico por parte das grandes nações capitalistas (que, ademais, enviaram tropas para combater a nascente república soviética e insuflaram/financiaram ações contra-revolucionárias).

No entanto, ao invés de negarem as categorias capitalistas, tais nações estimularam e incentivaram a existência das ditas cujas sob um monopólio estatal de mercado interno que é o pior modelo de concorrência de produção e comercialização. Paulatinamente, ambas acabaram se direcionando para um capitalismo liberal, acolhendo o capital externo e passando a com ele concorrer sob uma mesma lógica.

Ora, para manter as rédeas de um regime de exploração sob o qual os trabalhadores produtores de valor jamais se beneficiaram com a riqueza abstrata por eles produzida, vieram regras de contenção política em nome de um comunismo que jamais existiu e que nega todo o primado de socialização comunista de fraternas relações humanas.

Assim, a propaganda ideológica capitalista passou a rotular como comunistas exemplos históricos que, mais do que semelhantes, são idênticos aos dos opressores: excludentes e exploradores. Ou seja, os mesmos pecados originais do capitalismo liberal ocidental clássico, mas com o defeito adicional de serem politicamente fechados e opressores.

Ao longo da história, as mutações semânticas são frequentes e intencionais. Exemplo disto é a palavra democracia, hoje tida como critério inquestionável de participação popular saudável.

Tal termo, na Grécia antiga, significava uma opção ao poder centralizado num monarca, contrapondo-lhe uma diluição que propiciasse aumento da participação social. Mas tal participação excluía os escravos que existiam em grande número. 

Somente os demos (uma casta de cidadãos privilegiados) podiam ter voz nas audiências públicas de deliberação. Ou seja, a democracia grega não era tão democrática assim.

Do mesmo modo a democracia burguesa moderna, regida pelo poder econômico dominante e dentro das regras preestabelecidas pela ordem jurídico-constitucional capitalista, não representa a livre manifestação consciente do eleitorado manipulado e vigiado (principalmente nas regiões mais afastadas do interior, onde reside a maioria dos eleitores).

Isto não significa que o oposto irrecusável da democracia burguesa seja a ditadura, como pedem os fanáticos seguidores do Boçalnaro, o ignaro. Se a democracia burguesa não passa de uma arapuca de representação popular, a ditadura é a prisão dentro da arapuca.

Como vimos, a repetição exaustiva de um conceito deturpado de comunismo, baseado em exemplos negativos de socialização sob valores comunistas deturpados e descaracterizados, consolidou uma noção de que ser comunista é querer conquistar governos para apropriar-se da riqueza socialmente produzida e agir de modo despótico, mazelas frequentes no capitalismo.

Daí eu utilizar a palavra
emancipacionismo (que não é criação minha, mas da turma da crítica radical social marxiana do valor) como
 ideal de realização da justiça social a partir de critérios de produção social:
— fora da lógica capitalista da forma-valor; 
— sob novos cânones do direito; e 
— sob critérios de organização jurídico-constitucionais de base popular.

A direita derrotada qualifica Lula de comunista, mas é uma pecha tão obtusa quanto seria intitular Hitler de democrata. (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

LULA DECLARA SEU AMOR AO ESTADO FORTE E VÊ O DA CHINA COMO EXEMPLAR – 1

 dalton rosado
LULA E A CHINA

O que nos serve de exemplo diz muito sobre o que somos. 

Lula acaba de erigir a China em modelo a ser seguido pelo Brasil! Estamos feitos...

Eis o que Lula afirmou, em entrevista ao jornal chinês Guancho
.
"...os países ricos não estão habituados a fazer concessão para o desenvolvimento dos países mais pobres. Na reunião de Londres do G-20 eu fiz a proposta de que nós aproveitássemos a crise de consumo nos países ricos para fazer investimento nos países pobres, sobretudo nos países africanos, para que eles pudessem fazer desenvolvimento tecnológico, para que pudessem virar consumidores e para que pudessem reativar a economia do mundo. 

Mas isso não foi possível. Nós tentamos mudar as regras do FMI, tentamos mudar as regras do Banco Mundial, e é muito difícil mudar, pois quem manda é a Europa e os Estados Unidos.

Por que é que a China fez isso? Porque a China tem um partido, a China é resultado de uma revolução, a de 1949 do Mao tse-Tung, a China tem um partido que tem poder, que tem um Estado forte, que toma decisões e que as pessoas cumprem, coisa que nós não temos aqui no Brasil.
A elite financeira de nosso país tem muita ingerência na política e é preciso que a gente os enfrente, para mostrar que o Estado tem de ter um papel importante.

Muitas das políticas sociais que o povo precisa só podem ser feitas caso o Estado concorde, só podem ser feitas se o Estado tiver comando,  e lamentavelmente o Estado está cada vez mais fraco nos países da América Latina e do 3º  mundo, estão cada vez mais privatizando as empresas públicas, estão cada vez mais privatizando aquilo que deveria ser o papel do estado.

Por exemplo, a China só conseguiu combater o coronavírus com a rapidez que ela combateu porque tem um partido forte, porque tem um Estado forte, porque tem pulso, tem voz de comando, e nós não temos isso aqui no Brasil...
"
As declarações reproduzidas no artigo estão entre 16'42" e 22'06".
Não confundir com a montagem fake espalhada por falsários no
WhatsAppcom o enxerto de falas antigas e manipuladas.
.
Como constatamos no texto acima, o social-democrata burguês Lula, contraditoriamente, elogia o país de um partido único, que tem um Estado ditatorial forte, armamentista, cujas decisões são tomadas de cima para baixo e que obriga todos os cidadãos a cumprirem as iluminadas decisões da cúpula. Para Lula, só assim é possível superarmos rapidamente crises sanitárias como a do coronavírus!!! 

O discurso de Lula é um deleite para a direita, que assim pode rotulá-lo como aspirante a ditador estatizante; e faz a alegria da esquerda keynesiana, que é capitalista e deseja um estado forte estatizante.

Nada doutrinariamente mais confuso do que os parágrafos acima reproduzidos. Trata-se de um pensar que mistura eleições burguesas de 2022 com uma ditadura de partido único sem eleições, incensando um governo que cala a voz dos dissidentes e que, embora se dizendo comunista, pratica o capitalismo mais selvagem do planeta!!! 

Ou a China capitalista que se faz passar por comunista nunca leu Marx, ou o falsifica.

Prefiro ficar com a segunda hipótese, porque por lá tem gente que certamente conseguiu (mesmo que clandestinamente) obter algum exemplar dos Grundrisse ou d'O Capital

Estes, pelo menos, têm como saber que aquele regime se constitui numa antítese do ideário preconizado pelo velho barbudo, qual seja:
— a emancipação do trabalhador pela via da sua própria superação enquanto tal; e
— o fim do móvel da escravizações dos trabalhadores, a forma-valor (dinheiro e mercadorias).

Os emancipacionista querem o fim do capitalismo, não a sua pretensamente benéfica exacerbação. Mas Lula apenas confirma sua conformidade ideológica com o capitalismo (o que já sabemos desde há muito), como se houvesse possibilidade de capitalismo bonzinho e produtor de riqueza equânime por todo o mundo a ser distribuída. 

Ele não é ingênuo; é apenas um oportunista que quer se passar por bem intencionado... 

Mas a mistureba doutrinária do Lula tem uma receita: oportunismo eleitoral combinado com obsessão pelo poder político e várias camadas de submissão ao capital. (por Dalton Rosado – continua neste post)

Tanto se fala em trabalho escravo na China que é oportuno conhecermos
a história da escravidão, contada pelo Dalton e cantada pelo Gomes Brasil

quinta-feira, 15 de julho de 2021

HÁ ALGO QUE JAMAIS PODE SER ESQUECIDO AO ANALISARMOS OS PROTESTOS EM CUBA: A REVOLUÇÃO, OU É MUNDIAL, OU NADA É – 1

dalton rosado
SOBRE O PRAGMATISMO POLÍTICO
A melhor definição para o pragmatismo político, numa só palavra, é oportunismo

Pragmatismo se traduz na ação de se fingir que se aceita alguma situação objetivando-se alcançar outra situação; é uma ação tática dentro de uma estratégia definida. 

Como todo oportunismo, cessada a oportunidade, surge a verdade que se esconde por trás da ação pragmática. 

Há quem defenda o pragmatismo como o meio justificando o fim. O problema é que, de tanto agir mentirosamente, o pragmático se acostuma com a mentira; e alcançado o objetivo-mor. ele continua contaminado com o vírus da dita cuja, que o vai destruindo aos poucos. 

Era pragmática a Nova Política Econômica de Lenin, por ele lançada quando ainda estava vivo e no poder, apesar do crescente agravamento da enfermidade que o levou à morte precoce aos 54 anos de idade (sete anos após a revolução bolchevique).

Ao adotar uma política de flexibilização das relações de produções capitalistas, aceitando-as sob pretensa fiscalização estatal proletária, o grande revolucionário russo estava respondendo a situações concretas:
— a contrarrevolução renitente sustentada pelos guardas brancos, com financiamento de agentes internacionais e nacionais capitalistas ou monárquicos feudais, que poderia tornar-se uma alternativa de poder caso o novo governo frustrasse as esperanças que despertara;
— a queda da produção intencionalmente patrocinada pelos antigos empresários capitalistas e latifundiários russos que detinham o saber empresarial e aristocrático; e 
— a fome do povo russo, causadora de insatisfação popular que minava a revolução.
Esta foto dá o que pensar: por que condenarmos a priori o inconformismo dos 
cubanos, semelhante até no visual àquele que saudamos entusiasticamente em 2019...
Com a NEP, Lênin teve êxito em amenizar a crise econômica. Se, 
com sua reconhecida habilidade e jogo de cintura, ele conseguiria solucionar o problema e retomar a linha inicialmente traçada em direção ao comunismo, jamais saberemos, de vez que morreu ainda durante o início do processo de construção do chamado socialismo real.
 
Com sua morte veio a ascensão de Josef Stalin que, assumindo o controle de tudo (do Comitê Central, do partido único e do governo), passou a destituir e a afastar (inclusive com a eliminação física) a velha guarda bolchevique, inclusive Leon Trotsky, o comandante da tomada de poder em 1917 e criador do Exército Vermelho, além de intensificar o processo de estatização empresarial sob critérios capitalistas de produção social.

Houve, sim, avanço social na Rússia, que não passava de um país camponês sob os czares, com incipiente desenvolvimento industrial (concentrado em São Petersburgo) e que se mantinha à margem dos avanços do capitalismo mundial: no pós-revolução desenvolveu-se industrialmente, alfabetizou e educou seu povo (a Rússia dos czares era um país de analfabetos), a ponto de conseguir fazer frente à Alemanha na 2ª Guerra Mundial.
...quando dos grandes protestos chilenos contra a política econômica neoliberal? Aliás, a repressão desembestada em ambos os países também foi das mais semelhantes.
Mas, passado este primeiro momento em que o pragmatismo revolucionário russo teve alguns efeitos positivos, o uso do cachimbo entortou a boca, com o desenvolvimento inicial sendo gradualmente minado pelas regras capitalistas totalitárias de produção social. Assim, a Rússia foi voltando a estar tecnologicamente defasada em relação ao mundo e acabou aderindo ao capitalismo internacional de mercado, tornando-se um país capitalista. 

A conclusão óbvia é que o pragmatismo russo sucumbiu ao totalitarismo das relações capitalistas de Estado, e terminou por abrir suas fronteiras ao mercado internacional. A contrarrevolução burguesa triunfou sorrateiramente graças ao pragmatismo. 

A história se repetiu com a China, e paramos por aqui na citação desses dois exemplos históricos fundamentais. 

Cuba é capitalista de Estado. Os trabalhadores que enrolam as folhas de tabaco e produzem a apreciado charuto de Havana, são explorados pela extração de mais-valia tanto quanto um trabalhador de uma fábrica de cigarros em qualquer país capitalista do mundo. 
O que ainda resta em Cuba do Guevara que foi ao Congo
e à Bolívia lutar pela revolução anticapitalista mundial?

A sensibilidade humanista (mesmo que se considere parcial, pois os opositores do regime são calados e tratados como traidores) de fato existe em Cuba: os negros cubanos de longe diferem das trágicas condições sociais dos negros da América Central e do Caribe, 

Mas, não pode sobreviver com a cabeça dos seus dirigentes focada num plano ao mesmo tempo anticapitalista e que mantém práticas capitalistas, cercada por um mundo totalmente capitalista.
 
Em que pesem os embargos econômicos estadunidenses, que de fato causam grandes carências ao povo, a insatisfação em Cuba é cada vez mais volumosa e reflete a necessidade de adotarmos mundialmente uma relação de produção fora da disfuncional lógica capitalista lá remanescente sob uma forma política estatizante, ora flexibilizada pelas circunstancias pragmáticas

A revolução, ou é mundial ou nada é! (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A MULTIDÃO DE ZUMBIS SEGUE UM MODO DE PRODUÇÃO IRRACIONAL SEM QUESTIONAR; A ESQUERDA MAJORITÁRIA, INCLUSIVE.

O QUE É ANTICAPITALISMO

"A utopia é a doença infantil do capitalismo,
não do comunismo" (Robert Kurz, Ler Marx)

Por que o capitalismo liberal (capitalismo privado) se parece tanto com o capitalismo de Estado (socialismo real)? 

A resposta não pode ser outra senão a constatação de que ambos são iguais nas suas essências constitutivas, diferenciando-se apenas na questão da organização política:

— o capitalismo liberal, por ser dono dos meios de produção de mercadorias, impõe, sob sua exploração econômica, a extração de mais-valia dos trabalhadores assalariados; 

— o socialismo real, por ser dono dos meios de produção de mercadorias por meio do Estado, impõe, sob sua exploração econômica, a extração de mais valia dos trabalhadores assalariados;

— o capitalismo liberal e o socialismo real têm ambos o dinheiro e as mercadorias como forma de mediação social inquestionável, com administração do controle monetário (ora irremediavelmente incontrolável) pelo Estado; 

— o capitalismo liberal defende a sua estrutura de organização política e social, tendo o Estado como organismo pretensamente capaz de prover as necessidades sociais via cobrança de impostos. Este diz funcionar como esfera social neutra e isenta, quando, na verdade, configura-se como linha regulamentadora auxiliar da coerção tácita ou explícita do trabalho abstrato, fonte da exploração dos trabalhadores e de indução das demais categorias capitalista (não sendo, portanto, nem neutro, nem isento);
Os zumbis da vida real

— o socialismo real defende a sua organização político social a partir de um Estado forte, proprietário e cobrador de impostos dos cidadãos, e tido como pretenso organismo a serviço dos trabalhadores, que são mantidos como tais por coerção explícita ao trabalho abstrato, fonte da exploração dos primeiros (os trabalhadores assalariados). O capital tem dinâmica auto-produtiva que não admite distribuição que depaupere a sua necessária sanha aumentativa; 

— o capitalismo liberal defende a tese falaciosa de que a invisible hand do mercado seria capaz de estabelecer critérios de eficiência, qualidade, equilíbrio de produção de mercadorias, meritocracia, redução de custos de produção capaz de viabilizar o consumo coletivo, etc.;

— o socialismo real defende a proteção, a partir do Estado forte, do mercado interno contra a concorrência internacional de mercado, bem como a planificação da economia com a pretensão de potencializar a produção de mercadorias para as necessidades coletivas de consumo (isto somente até ter de abrir suas fronteiras ao mercado externo);
  
— e por aí vai. 

Como se pode depreender das diferenciações acima referidas, todas elas:

— integram o universo de formas políticas de conduta, e não de conteúdo intrínseco existencial; 

— inserem-se no invólucro das categorias históricas, não ontológicas, imanentes ao modo de produção capitalista, cuja síntese foi mundo bem definida pelo Marx esotérico como pertencentes ao universo do fetichismo da mercadoria e sua dimensão tácita que tudo transforma a partir do seu caráter onívoro.
Tresler, verbo intransitivo: ler de trás para diante; ler às avessas.
Não é por menos que o Marx exotérico teve vida curta, dele hoje restando apenas grupelhos remanescentes ou marxistas pós-modernos, ditos reflexivos, que mais não são do que envergonhados reformistas do próprio invólucro do capitalismo. 

Isto se dá porque ele se circunscreveu apenas à luta de classes, como se a produção de valor estivesse inquestionavelmente acima do bem e do mal, podendo ser boa ou má, dependendo apenas da forma de sua apropriação e distribuição, ainda que tais postulados tenham sido negados a tempo pelo próprio Marx, ao afirmar que “não sou marxista”.

Mas, agora, quando as categorias capitalistas de trabalho abstrato, valor, mercadoria, mercado, dinheiro, Estado, política, democracia, presentes nos dois modelos políticos antes identificados (capitalismo liberal e socialismo real), tornam evidentes os seus limites internos absolutos existenciais provocando uma crise categorial sem precedentes históricos, o discurso político e as ações administrativas imanentes ao invólucro capitalista não apresentam alternativas capazes de superação dos problemas por elas mesmas causados. 

Caem, portanto, no descrédito popular consciente ou inconsciente, pois os cidadãos estão cansados de uma empiria que empurra o futuro para épocas cada vez mais distantes, enquanto  afirma o presente como tragédia social crescente. 
Frase de Daniel Tanuro, eco-socialista belga. 
O discurso político vigente, quando não é ridículo ou canastrão, é falacioso, e isto dos dois lados da vida política:  sob o invólucro capitalista liberal ou keynesiano.

Nada mais conservador do que um partido de esquerda investido no poder político do Estado em crise econômica.

Nada mais keynesiano do que um neoliberal quando se trata de salvar a economia das labaredas cada vez mais intensas de um modo de produção que se tornou anacrônico por suas contradições existenciais.

OS ENSINAMENTOS DO MARX ESOTÉRICO,
 VERDADEIRAMENTE ANTICAPITALISTA

Foi o Marx da maturidade quem, a partir do discurso sobre o fetichismo da mercadoria, questionou as categorias capitalistas, após um estudo profundo que lhe consumiu anos de reflexões e análises históricas e empíricas, até que se tornou capaz de prospectar e vaticinar um futuro que agora é atingido (e isto durante a 1ª revolução industrial e sua não simultaneidade, como agora ocorre com a globalização da economia) 

E fê-lo de forma científica brilhante, demonstrando, de forma lógica a irracionalidade de um modo de produção social caracterizado por contradições internas não facilmente identificáveis, e que é racional apenas dentro da estreiteza de um sistema objetivado que admite como naturais procedimentos antinaturais (sendo a compra e venda o primeiro deles). 

No último domingo (26) assisti a um debate televisivo no qual o ex-governador Tarso Genro, do PT, defendia a formação de uma frente ampla de esquerda (preferencialmente com Lula à frente), capaz, segundo ele, de implantar um programa de governo com vistas à manutenção das franquias sociais conquistadas. 

Vale lembrar que o entrevistado se pretende à esquerda do PT quando defende aliança com o resto da esquerda; já o seu guru não tem o menor pejo em buscar alianças com a direita corrupta que procura governar na base da aceitação da chantagem como critério para a concessão de apoio político. 

A inconsistência discursiva é total, somente podendo agradar aos desavisados de plantão.  

Ora, mesmo o discurso aparentemente avançado, ainda que bem intencionado e vindo de um antigo marxista tradicional convertido ao lulismo, demonstra à saciedade a ignorância, pela esquerda, da dinâmica do capital em crise e dos postulados do Marx da crítica da economia política, cujo vaticínio correto demonstra que não há saída para algo que está nos seus estertores: o capitalismo. 

A insistência em reformas econômicas, ainda que de modo bem intencionado visem a justa distribuição do dinheiro, apenas reflete o desconhecimento da própria dinâmica da formação e reprodução do dinheiro, que agora se encontra em fase de incapacidade auto-reprodutiva dentro das exigências da economia mundial. 

A insistência no gerenciamento do Estado como instrumento de realização das demandas sociais mínimas, mais parece a mendicância de pedintes escravizados ao seu senhor para que seja menos mau.

A esquerda institucional, predominantemente, e mesmo os resíduos da esquerda marxista tradicional não institucionalizada, estão pateticamente perdidos.      

A nós, que desejamos e lutamos pela emancipação humana, não há por que deixarmos de nos debruçar sobre os ensinamentos do Marx esotérico, da crítica das categorias capitalistas, para que, de pé sobre os seus ombros, possamos vislumbrar novos horizontes.
Devemos nos contrapor a tudo que represente a manutenção da coerção tácita ou explícita da forma-valor, viabilizada pelo fetichismo da mercadoria, ainda que isto pareça ser, para o pensamento inserido no invólucro capitalista desse mesmo fetichismo da mercadoria, coisa de gente fora da realidade.

Na verdade, a imensa massa de zumbis que segue sem questionamento um modo de produção irracional, procurando reformá-lo, tanto do ponto de vista social como ecológico, é que está fora de uma realidade que se impõe a olhos vistos e que a cada dia vai se tornar mais evidente. 

Quando o pensamento crítico científico social se coadunar com a realidade, exigindo novas posturas sociais por absoluta falta de alternativas dentro do invólucro capitalista, inverter-se-ão as posições do pensar atual, ou seja, os que eram considerados sábios cientistas políticos ou políticos institucionais tornar-se-ão ridículos analistas de uma mídia manipuladora e executores de ações de partidos políticos falaciosos e insensatos. (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

CAPITALISMO DE ESTADO x CAPITALISMO LIBERAL: UMA FALSA DICOTOMIA, FADADA AO FRACASSO.

"O mercado pode manter a sua irracionalidade por mais
tempo do que do que você pode permanecer
solvente" (John Maynard Keynes)
.
O capitalismo tem regras internas de funcionamento que obedecem à sua lógica de reprodução cumulativa autotélica (ou seja, quanto mais cresce, mais precisa crescer) e a pretendida distribuição da riqueza produzida sempre se torna impossível de ser realizada.

É evidente que nas ilhas de prosperidade capitalista, aqueles países que se tornam grandes produtores de mercadorias a custos competitivos no mercado (ou por produzirem mercadorias com alto teor tecnológico ou por possuírem riquezas naturais abundantes de alto consumo como o petróleo) os resultados periféricos dessa produção permitem ao Estado arrecadador de impostos ou produtor uma situação mais confortável, no sentido do provimento de demandas sociais. 

Mas o mundo não é só aquicomo bem disse o poeta Manduka na letra de Quem me levará sou eu. Qualquer análise macroeconômica mais séria demonstrará uma realidade inarredável: o mundo sob a égide do capitalismo é pobre e agora, atingido o limite interno de sua expansão graças à obsolescência crescente do trabalho abstrato na produção de mercadorias, agravam-se tanto tal pobreza quanto a falência do Estado. A turbulência é cada vez maior, notadamente nos países periféricos. O planeta se tornou um barril de pólvora. 

É dentro desse contexto que devemos analisar o crescimento chinês nas últimas duas décadas (ao qual aludi neste artigo recente e que foi também dissecado pelo Marcos Troyjo noutro post do blogue). O dito cujo não se constitui numa fórmula que fuja da lógica destrutiva capitalista e possa servir de exemplo a ser seguido, mas, pelo contrário, vem é confirmar que o capitalismo e suas contradições internas devem ser combatidos agora e sempre,  sem a ilusão de que modos alternativos venham a amenizar de modo localizado o sofrimento do povo. 

A China construiu o seu modelo de capitalismo baseado em premissas perigosas que, no longo prazo, demonstrarão ser catastróficas para o povo, inclusive servindo de estopim para um abalo sísmico no capitalismo mundial (sob tal prisma, acabará minando toda a lógica capitalista com muito mais eficácia do que com a revolução armada que no passado propunha). 

Fatores de base do tal fenômeno chinês são:
— a baixa taxa de remuneração do trabalho necessário (tempo de trabalho abstrato remunerado a valores baixíssimos, que oportuniza o tempo de trabalho excedente, não remunerado, gerador do lucro);
— a adoção de incentivos fiscais que reduziram a zero os impostos de exportação;
— o desrespeito à lei de patentes;
— a produção de mercadorias em níveis de qualidade diferenciados ao gosto do freguês;
— a manipulação cambial que tenta driblar a representação monetária do valor coagulado em cada mercadoria;
— o incentivo ao contrabando de suas mercadorias junto aos países importadores; e
— o alto índice de endividamento propiciado pelo capital financeiro desempregado e ávido por nichos de mercado nos quais pode reproduzir-se cumulativamente.
A exemplo do que ocorreu na Europa quando da primeira revolução industrial no século 19, um enorme contingente populacional de tradição rural foi urbanizado para a produção industrial e se tornou dependente de tal produção (e de todas as suas incertezas explosivas).

Agora, a produção industrial chinesa vive a impossibilidade material, matemática, de crescimento constante nos nível anteriores, pois esbarra no limite de consumo e capacidade de compra da população mundial; na adoção de barreiras alfandegárias por parte dos países importadores, que veem minguar as suas produções internas de mercadorias e o desemprego, consequentemente, aumentar; e no fato de que seus vizinhos populosos, tão ou mais pobres, estarem seguindo seus passos e se tornando renhidos concorrentes (caso da Índia, da indonésia, do Paquistão, do Vietnã, etc.). Os augúrios são péssimos: a perspectiva de um iminente desastre chinês aterroriza o mundo capitalista. 

O povo chinês já começa a sentir os reflexos da insustentabilidade de um modelo que começa a sofrer fissuras. Grandes conjuntos habitacionais fantasmas, desabitados, representam investimento sem retorno, apontando para a insolvência das dívidas que os financiaram; a migração de indústrias para países vizinhos já provoca desemprego (ainda que as estatísticas manipuladas não falem disso); e são centenas de milhões os chineses ora abaixo da linha de pobreza (com renda de 1 dólar estadunidense por dia), deslocados do campo para as cidades, sem qualificação, relegados ao desemprego e privados da produção agrícola. 

O pagamento à risca dos juros da dívida pública e privada chinesa exigiria níveis bem mais expressivos de crescimento econômico, que hoje estão fora de cogitação. Daí a perspectiva de que em breve haverá um abalo considerável na já combalida realidade do sistema financeiro mundial, mesmo porque o buraco não poderá ser tapado pela emissão de dinheiro sem valor por parte dos Bancos Centrais, como ocorreu durante a crise do sub-prime em 2008/2009 (uma pequena amostra da tempestade que está se formando agora).                       
.
OS SIMULTÂNEOS NEOLIBERALISMO E
NEO-KEYNESIANISMO BRASILEIROS
.
Nada mais neo-keynesiano do que o neoliberalismo nos períodos de crise intensa do capitalismo como agora ocorre; nada mais neoliberal do que o neo-keynesianismo quando a necessidade de expansão do capitalismo de Estado se impõe como forma de sobrevivência do Estado. 

O que foi a intervenção dos Bancos Centrais dos Estados Unidos e da União Europeia, países defensores do liberalismo econômico, na crise do sub-prime, se não uma necessária (para o capitalismo) intervenção estatal keynesiana para a salvação do sistema financeiro? 

O que está sendo praticado pela China, país dito comunista, governado com mão-de-ferro e repressão política a qualquer dissidente, se não a mais escrachada política neoliberal econômica? 

Cunhada nos albores do capitalismo, a expressão francesa laissez faire, laissez aller, laisser passer (deixai fazer, deixai ir, deixai passar) foi uma eloquente defesa do livre funcionamento do mercado sem interferência do Estado, constituindo-se na mais clara definição do liberalismo econômico. Esta filosofia econômica tornou-se dominante nos Estados Unidos e nos países ricos da Europa no final do século 19 e início do século 20. 

Já o Estado nacional capitalista foi criado para dar sustentação ao capitalismo intramuros e defendê-lo do capitalismo externo, estabelecendo-se, portanto, uma contradição entre a necessidade de expansão da capital (privado ou estatal) que busca nichos de mercado em que possa se desenvolver e as normas dos Estados nacionais, voltados para o interesse dos seus cidadãos, na contramão dos interesses dos cidadãos estrangeiros. 

O capitalismo é uma guerra de mercado na qual uns saem vencedores e outros perdedores, sem que haja possibilidade de equilíbrio de ganhos. É falaciosa a ideia de desenvolvimento equânime sob o capitalismo seja ele neoliberal ou keynesiano.       

O Brasil é, em termos de PIB, um país com números expressivos dentro da economia planetária, sem, contudo, ter uma participação expressiva no mercado mundial em termos de riqueza abstrata. Não passa de um exportador de matérias-primas minerais e de produtos agropecuários que têm baixo valor, daí os números de suas exportações serem relativamente baixos: o volume total das exportações brasileiras em 2016 foi de US$ 185 bilhões, enquanto a China exportou US$ 2,3 trilhões, ou seja, 11,4 vezes mais. 

É que a China, graças a atrativos como os seus baixos níveis salariais e os subsídios fiscais oferecidos, recepcionou a grande indústria multinacional sofisticada, passando, assim, a vender tecnologia. 

Nas exportações chinesas pontuam as vendas de unidades de disco digital (US$ 188 bilhões, quase o total das exportações brasileiras num único produto); equipamentos de transmissão (US$ 165 Bilhões); telefones (US$ 112 bilhões); circuitos integrados (US$ 65,7 Bilhões); e peças de reposição (US$ 45,4 bilhões). 

Ou seja, tornou-se fabricante de produtos sofisticados por obra e graça das indústrias que lá se instalaram para a exploração da mão de obra barata e outras vantagens. Tal modelo, vem se ampliando no continente asiático e até no africano (trazendo consigo um ameaçador aumento na emissão de gases poluentes na atmosfera e mesmo em Pequim, como se vê na foto abaixo).
O capitalismo, sob estas bases, assina a sua sentença de morte, pois reduz a massa global de produção de valor e de extração de mais-valia.  

O Brasil adota um modelo híbrido. É neoliberal e keynesiano simultaneamente. Esta dupla personalidade aumenta o tal do custo Brasil de produção, ao mesmo tempo que reduz sua competitividade no fratricida comércio internacional. Ademais, tem renda per capita e direitos superiores aos países asiáticos e africanos, não suportando, portanto, o achatamento acentuado dos salários, a perda de direitos e outras medidas lá adotadas (e aceitas até com naturalidade em função da pobreza histórica dessas nações e do desespero que grassa desde que a lógica capitalista mundial atingiu sua fase de fim de feira). 

Vale registrar também que, por estarmos parcialmente fora do processo de mercado internacional, somos menos susceptíveis às turbulências protecionistas que estão sendo articuladas pelos países ricos diante da globalização da produção de mercadorias. O Brasil é pobremente (sob o prisma da riqueza abstrata) autossuficiente. 

A conclusão a tirarmos disso tudo é que, qualquer que seja o modelo capitalista que venha a ser adotado no Brasil como forma de sobrevivência, estará destinado ao fracasso. 

Na verdade, por mais inatingível que possa parecer o ideal emancipacionista, o Brasil é um dos poucos países que graças às suas riquezas naturais, poderia com certa facilidade superar a vida mercantil sob a égide da forma-valor, adotando um modelo de produção diferente que dele faria um exemplo para o mundo. 

Padecemos sob um contato social regido por uma elite política historicamente conservadora e cada vez mais corrupta, subserviente a um empresariado acostumado às benesses estatais dirigidas. Trata-se do mais atrasado modelo de competição capitalista.  

A questão que se coloca, pois, não é buscarmos saídas dentro da imanência capitalista que não virão e nem amenizarão as nossas agruras momentâneas, mas fazermos um esforço de superação da lógica do capital que nos aprisiona e do modelo político que derrete a olhos vistos. Ainda que tal empreitada demande um esforço e consciência superiores. (por Dalton Rosado)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O CAPITALISMO DE ESTADO À BRASILEIRA ISOLOU NOSSO PAÍS DO MUNDO E NOS TORNOU UMA ATRASADA AUTARQUIA

Toque do editor
Não há quem aguente escrever dia após dia sobre a entropia brasileira — o atoleiro em que estamos nos debatendo desde 2015, com as forças políticas anulando-se mutuamente e o país não saindo do lugar, aparentemente condenado a aguardar a eleição presidencial de outubro de 2018 para que seja rompido o impasse, pois ora inexiste consenso para viabilizar qualquer opção melhor (o que há são emendas piores do que o soneto, como o estado policial que se vislumbra no ativismo justiceiro de certos jacobinos togados).

Então, buscando algo diferente, encontrei um interessante artigo do economista e cientista Marcos Troyjo, discorrendo sobre as diferenças entre o capitalismo de estado no Brasil e na China. 
Comida de tigre de papel em plena China?!

Como os leitores devem lembrar-se, a sugestão de seguirmos os passos chineses foi apresentada por uma articulação parlamentar de cunho nacionalista, que tenta fazer do senador Roberto Requião o vice de Lula na eleição de 2018. 

As propostas econômicas dessa tal frente foram imediatamente rechaçadas pelo Dalton Rosado, neste post. E eu creio que valha a pena aprofundarmos a discussão, até porque o Estado é um verdadeiro fetiche da esquerda brasileira desde o tempo em que o Partido Comunista era sua força hegemônica e seguia fielmente os ditames stalinistas. 

O texto de Troyjo, Notas sobre o capitalismo de estado, cujos trechos mais pertinentes reproduzo a seguir, é um adendo a tal discussão. E, certamente, o Dalton terá algo mais a dizer sobre o assunto, nos próximos dias.
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Por Marcos Troyjo
"...tanto a própria noção de capitalismo como a ideia de capitalismo de Estado representam conceitos demasiado amplos. Comportam realidades tão diferentes como China ou Cingapura, Brasil ou Rússia...

É possível (...) vislumbrar dois submodelos majoritários de aplicação de ferramentas Estado-capitalistas, sobretudo em termos de estratégia econômica. Os dois países que ofereceram os elementos mais facilmente identificáveis em tempos recentes são justamente o Brasil e a China.

O Brasil, que buscou consolidar o modelo em diferentes momentos históricos, jamais porém o implementou com tanto afinco como nos anos Lula-Dilma. E o fez num contexto de pujante sociedade civil, imprensa vigilante e livre, pleno direito à crítica e sufrágio universal. O capitalismo de Estado brasileiro que disso resultou foi consumista, orientado para dentro e curto-prazista.

Na China, o capitalismo de Estado se deu sobre estruturas de imobilismo político e (forçada) coesão. O projeto nacional chinês de poder, prosperidade e prestígio é mais importante do que a livre movimentação e expressão política dos atores sociais. Disso resultaram ênfase em poupança e investimentos, economia voltada para fora e perspectiva de longo prazo.
Mao (com Nixon) em 1972: onde foi parar seu livro vermelho?

O capitalismo de Estado chinês foi marcado –por certo tempo– pela administração artificial do câmbio e da remuneração do fator trabalho, acesso favorecido aos principais mercados compradores do mundo, grande capacidade de acúmulo de poupança e investimento nas mãos do Estado, parcerias público-privadas voltadas à infraestrutura e logística de comércio exterior, e uma combativa diplomacia empresarial.

O capitalismo de Estado no Brasil desenhado no período Lula-Dilma foi erigido sobre protecionismo comercial, fortalecimento das megacorporações de economia mista que atuam em commodities agrícolas e minerais, política industrial defensiva e, por último, remuneração do capital financeiro em níveis bem superiores às taxas praticadas ao redor do mundo - de modo a compensar os esquálidos níveis de poupança e investimento internos, ambos inferiores a 20% do PIB.
Trabalhadores chineses já não são os mais explorados. Há piores!
Tanto o modelo chinês como o brasileiro conferiram caráter sacrossanto à noção de conteúdo local. No caso chinês, muito se especulou quanto ao conteúdo local como imperativo para manter-se empregada – a baixos níveis de remuneração –a imensa população de jovens que a cada ano chega ao mercado de trabalho.

Contudo, esse que foi o principal estereótipo da competitividade chinesa –mão de obra abundante a baixo custo– já está caduco. Economias como Índia, Paquistão, Vietnã ou mesmo países africanos já oferecem mais atrativos neste particular do que a China.

O que marca a ênfase que o capitalismo de Estado na China contemporânea atribui ao conteúdo local se manifesta na robusta capacidade de realizar compras governamentais ou celebrar contratos internacionais exigindo, como contrapartida do parceiro estrangeiro, a instalação de unidades produtivas em território chinês.

Neste sentido, aparentemente é grande a coincidência com o modelo brasileiro de busca de conteúdo local, que concentra o poder do Estado, suas autarquias e das grandes empresas de economia mista e em favor da atração de investimentos estrangeiros diretos.
No entanto, o capitalismo de Estado no Brasil e sua filosofia local-conteudista promoveram tão somente substituição de importações. Na China, tais ferramentas foram instrumentalizadas à promoção de exportações.

A vertente chinesa promoveu internacionalização e competitividade e, no limite, acabou por auxiliar na emergência do país como principal nação-comerciante. Em contraste, o modelo brasileiro tão somente serviu para isolar o país do mundo, reforçando suas feições de atrasada autarquia"
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