Mostrando postagens com marcador Didi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Didi. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de março de 2026

SÉRIE "COMO FORAM AS CINCO COPAS DO MUNDO QUE O BRASIL CONQUISTOU": 1958.

"A taça do mundo é nossa
Com o brasileiro não há quem possa
Êh eta esquadrão de ouro
É bom no samba, é bom no couro
-
O brasileiro lá no estrangeiro
Mostrou o futebol como é que é
Ganhou a taça do mundo
Sambando com a bola no pé"
(Maugeri, Müller, Sobrinho e Dagô)
A conquista da Copa de 1958, disputada na Suécia, teve um significado imenso para nós, brasileiros: provamos ao mundo e, principalmente, a nós mesmos que poderíamos ser os melhores em alguma coisa, começando a livrar-nos do COmplexo de vira-latas.

Até então, víamo-nos como seres inferiores, deitados eternamente em berço esplêndido, sem nunca concretizarmos o nosso potencial. Uma vinheta radiofônica dizia: Brasil, um país a caminho do seu grande destino. Que nunca chegava.

Enquanto isto, admirávamos, embasbacados, o progresso dos EUA e as imagens fantasiosas que os grandes irmãos do Norte projetavam de si próprios via cinema e TV. Isso, claro, só fazia aumentar nossa sensação de inferioridade.

Consolávamo-nos com a ilusão de que seríamos a nação do futuro – uma pífia compensação para o passado inglório e o presente insosso. Era como a promessa católica do paraíso, o sonho que ajudava a suportar uma vida de privações.
Mané Garrincha, devastador!

O futebol já dera mostras, em 1950, de que poderia se tornar nosso grande motivo de orgulho nacional. No entanto, vacilamos na hora H e a euforia se transformou em frustração.

Meu pai costumava contar que, depois da fatídica derrota contra o Uruguai, a principal rua do nosso bairro ficou quase deserta, como ele nunca a vira num domingo. Rapazes e moças não tiveram nem ânimo para saírem de casa, na noite habitualmente destinada à paquera.

Em 1954 trombamos com o inesquecível esquadrão da Hungria e fomos merecidamente eliminados por Puskas & cia.

Aí, em 1958, receosos de mais uma frustração, não ousávamos acreditar na Seleção Brasileira. Ainda mais depois de duas derrotas vexatórias em amistosos de 1956 (0x3 Itália e 2x4 Inglaterra, apesar dos milagres de são Gylmar) e da eliminatória tortuosa em 1957, quando sofremos o diabo para vencer... o Peru!

É que a Venezuela desistira de disputar uma vaga no Mundial, deixando-nos a tarefa aparentemente facílima de derrotarmos um único e pouco ameaçador adversário.

No entanto, o Peru não morreu na véspera. O jogo em Lima ficou em 1x1 e, no Maracanã, num magro 1x0 -- gol de falta de Didi, cobrando com a maestria habitual uma infração da entrada da área.
Bellini criou o gesto de erguer a taça
[Um causo hilário. Excursionando pelo Brasil, o grande Benfica de então enfrentou o Botafogo e seu famoso goleiro Costa Pereira sofreu um gol de falta do Didi exatamente da mesma maneira, a folha seca, com o arremate parecendo que passaria sobre o gol e a bola descendo nos últimos metros.

Aí, no Pacaembu, o corinthiano Cláudio repetiu a dose, com seu chute que se dirigia para fora e entortava no finzinho da trajetória. Costa Pereira, que caminhava tranquilamente para bater o tiro de meta, botou as mãos na cabeça, estupefato, ao ver a redonda balançando suas redes, depois de fazer o que, nas entrevistas, ele qualificaria de
uma curvita...]

O empate diante da Inglaterra, no segundo jogo das oitavas-de-final (depois da boa estreia contra a Áustria, 3x0, com direito a golaço de Nilton Santos) fez aumentar nosso pessimismo. 

Foram 90 minutos de sofrimento, grudados nos rádios cujo som às vezes fugia, pois as transmissões a longa distância estavam longe de ser perfeitas; quando voltava, era uma agonia tentarmos adivinhar o que sucedera, até constatarmos que não tinha sido marcado nenhum gol durante o apagão.

Iríamos para o tudo ou nada contra a poderosa URSS, que anunciava ter utilizado os mais avançados recursos científicos para detetcar as vulnerabilidades dos futebolistas brasileiros.

Foi quando o técnico Vicente Feola se curvou à pressão dos líderes do elenco e escalou o fenômeno Garrincha... que até então ficara no banco porque um laudo psicológico o dava como pouco mais do que um débil mental. Foi preciso chegarmos à beira do abismo para o treinador desconsiderar os preconceitos dos engravatados.
Pelé mostrou a que vinha contra gauleses

O resultado foi aquilo que passou à história do futebol como um dos inícios de partida mais avassaladores de uma Copa do Mundo. 

Imprevisível como uma força da natureza, Garrincha pulverizou a ciência soviética, colocando uma bola na trave, servindo Vavá no primeiro gol e criando sucessivas jogadas agudas. 2x0.

Na quarta-de-final contra o retrancadíssimo Pais de Gales, foi a vez de Pelé dar o ar de sua graça, fazendo o gol salvador. 1x0. Ele também começara a Copa como reserva (de Mazzola), pois Feola temia que, aos 17 anos, não aguentasse tamanha responsabilidade. 

Ledo engano. O escrete melhorou muito com sua escalação a partir do jogo contra a URSS, para deslanchar de vez na semifinal contra a poderosa França de Fontaine (que, com seus 13 gols marcados nos gramados suecos, dificilmente perderá um dia a coroa de maior artilheiro de um só Mundial). 

Graças ao idiota Garrincha e ao inexperiente Pelé, o Brasil obteve a mais retumbante conquista de uma Copa do Mundo até hoje: com exibições da mais refinada arte futebolística já vista no Planeta Bola, emplacou goleadas de 5x2 tanto na semifinal contra a França quanto na final contra a Suécia.
                  
Gilmar; Djalma Santos, Belini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo disputaram a partida final, não se intimidando com a abertura do placar pelos anfitriões.

Duas arrancadas fulminantes de Garrincha, dois centros convertidos por Vavá e a vantagem mudou de mãos. Pelé (2) e Zagallo liquidaram a fatura, sob aplausos dos maravilhados suecos.
                  
O nosso povo, que há tanto tempo andava atrás de qualquer alegria, pôde finalmente desabafar: com o brasileiro, não há quem possa

Pena que as lições foram logo esquecidas. O embasbacamento face às metrópoles e a submissão aos preconceitos dos engravatados voltaram a prevalecer.
Clique aqui para assistir à final contra a Suécia
E continuamos reprimindo o Macunaíma que temos dentro de nós – tanto que, ao contrário dos argentinos com seu ídolo Maradona, fomos terrivelmente ingratos com nosso herói de duas Copas, deixando Garrincha agonizar no alcoolismo e abandono. (por Celso Lungaretti

ACESSE OS POSTS DA SÉRIE "AS CINCO COPAS DO MUNDO
QUE O BRASIL CONQUISTOU" CLICANDO NOS ANOS
1958 - 1962 1970 1994 - 2002 - final

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

PERCEBEMOS QUE A SELEÇÃO BRASILEIRA E O SANTOS CHEGARAM AO FUNDO DO POÇO QUANDO TOMAM CHOCOLATES DE 7x1

O hino do Corinthians mente: ele não é "do Brasil, o clube mais brasileiro", até porque nasceu em 1910 de uma iniciativa de membros das colônias espanhola e italiana em São Paulo. Os segundos racharam em 1914 e saíram para fundar o Palestra Itália.

Quem mais merece tal qualificação é o Santos, pois sua trajetória de altos e baixos tem muitos pontos em comum com a da Seleção Brasileira.

Assim, a grande fase do Santos começa exatamente em 1958. O ano da primeira Copa do Mundo conquistada pelo Brasil foi, também, o ano em que Pelé obteve seu primeiro título oficial pelo Santos, o de campeão paulista.

O Santos já vinha num crescendo: depois de vencer o certame estadual em 1935 e só voltar a fazê-lo em 1955, repetiu a dose em 1956.

Mas, foi a partir de 1958, durante a era Pelé, que deslanchou de fez, a ponto de tornar-se o segundo melhor time de futebol do planeta durante as décadas de 1950 e 1960, atrás apenas do Real Madrid. 

E, no cenário brasileiro, sua hegemonia foi avassaladora, ainda que o grande Botafogo de Nilton Santos, Didi e Garrincha às vezes o surpreendesse.

Seus mais memoráveis momentos foram quando venceu a Libertadores de América em 1962 e 1963, sagrando-se, em seguida, campeão mundial, ao destruir o Benfica e ao arrancar um triunfo na raça contra o Milan, embora inferiorizado por uma contusão do Pelé.  
Um ridículo revisionismo da Fifa, mais de 60 anos depois, rebaixou tais decisões entre o campeão europeu e o campeão sul-americano a meras copas intercontinentais, como se houvesse naquela época, no restante do mundo, times capazes de não serem massacrados pelos melhores da América do Sul e da Europa.

Também venceu a Libertadores da América em 2011, já na geração de Neymar. Contudo, o brilho dessa conquista foi empanado pelo baile que levou do Barcelona, ao tentar emplacar o Mundial de Clubes. Além dos 4x0 no lombo, ficou nítido o desinteresse do clube catalão em ampliar a goleada, inclusive concluindo com displicência um rosário de outras chances de gols que criou. 

Resumindo, o Santos e a Seleção Brasileira atingiram seus ápices em 1958/1970 e vêm decaindo desde então. 

O escrete ainda vitoriou-se em 1994 na loteria dos pênaltis, após a decisão mais tediosa de um Mundial da Fifa em todos os tempos (120 minutos 0x0!!!); e em 2002, quando os principais adversários atravessavam períodos de entressafra. 

Ou seja, nada de que pudéssemos nos orgulhar como nos orgulhamos das conquistas mágicas de 1958 e 1970, e até mesmo da Copa que tínhamos tudo para ganhar e deixamos escapar por míseros detalhes (1982).
O Santos, nem isto.  Neste século, só campeonatos paulistas que os outros grandes já não disputam a sério, o Brasileirão de 2002 e de 2004, a Copa do Brasil de 2010 e a Libertadores de 2011. Já nos últimos anos, aparece apenas no noticiário lutando para não ser rebaixado ou por conta dos sucessivos episódios de pancadaria na Vila Belmiro (mais dia, menos dia, alguém morrerá).

Mas, há outras semelhanças com a decadência da Seleção: os piores vexames do Santos neste século foram os 7x1 que tomou do Corinthians em 2005 e a surra, pelo mesmo placar, que o Internacional lhe aplicou neste domingo (22). Ou seja, o mesmíssimo 7x1 que o Brasil sofreu da Alemanha em 2014, a pior derrota do nosso escrete em todos os tempos!

Finalmente, foram igualmente péssimos os dirigentes que ora conduzem o Santos diretamente para a série B e os que conduziram o Brasil a cinco Mundiais pífios consecutivos, igualando as duas maiores secas do escrete canarinho (de 1930 a 1954 e de 1974 a 1990), com a agravante de que nada, por enquanto, indica que possa dar a volta por cima em 2026.    

Afora o fato de que as gestões do período de fim de feira foram marcadas por escândalos escabrosos de corrupção, a ponto de um dirigente do futebol brasileiro (João Havelange) ter de renunciar à presidência da Fifa para não ir em cana e outro (José Maria Marin), sem a mesma indulgência, ter visto o sol nascer quadrado nos EUA. 
Quanto ao clube praieiro (como o Milton Neves faz questão de sempre lembrar), a coisa chegou ao ridículo, pois, "nos anos 60, alguns dirigentes santistas explicaram da seguinte forma o desaparecimento de parte da grana da excursão feita pelo time: a porta do avião se abriu em pleno voo e uma das malas caiu".

Um negócio da China no qual o Santos torrou rios de dinheiro, o Parque Balneário, também teve muitos desdobramentos na Justiça, mala de dinheiro com uma verdadeira fortuna esquecida em cima de um balcão, etc. 

Pobre Pelé, que tantas vezes jogou baleado para garantir o queijo desses cartolas roedores! (por Celso Lungaretti

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

O BRASIL REGRIDE ATÉ NO FUTEBOL

Sob o olhar de defensores palmeirenses, Tiquinho Soares
comemora seu gol: Botafogo 1x0, em pleno Allianz Park
.
Lembram do frevo do bi, interpretado pelo saudoso Jackson do Pandeiro? Começava assim: "Vocês 
vão ver como é Didi, Garrincha e Pelé dando seu baile de bola. Quando eles pegam no couro, o nosso escrete de ouro mostra o que é nossa escola".

Evidentemente, como foi composto antes mesmo de começar o Mundial Fifa de 1962, caducou logo de cara, pois o baile de bola do Pelé ficou restrito à vitória fácil e sem brilho contra o freguês mexicano por 2x0, gols marcados por ele e Zagallo. 

Na segunda partida, lá pela metade do 1º tempo, Pelé arrematou de fora da área contra a meta da Tchecoslováquia, acertou a trave e desabou no chão, com estiramento muscular. Estava definitivamente fora de combate.

Coube a Mané Garrincha carregar o um tanto envelhecido selecionado brasileiro nas costas, em Copa na qual o Sobrenatural de Almeida do Nelson Rodrigues assombrou imparcialmente a nós e à nossa principal adversária:
— nas oitavas-de-final tirou Pelé do gramado e a partida terminou em 0x0; 
— mas na final, os 3x1 para nós dependeram de duas falhas bizarras daquele que vinha sendo o melhor goleiro daquela Copa, Schroif (no primeiro gol se adiantou para interceptar um cruzamento de Amarildo, que saiu fechado e acabou entrando, para surpresa do próprio possesso, enquanto no terceiro gol ele soltou aos pés do Vavá uma bola que praticamente já havia dominado).  
Com Jorge Jesus o Flamengo foi vitorioso e
goleador como não se via desde a era Zico

Nossa escola realmente deslumbrou o mundo em 1958, 1970 e 1982 (apesar de eliminada pela Itália graças a erros bobos dos zagueiros). No entanto, lamentavelmente, ela deixou de existir.

Não estou exagerando. É que o Botafogo, após passar décadas como coadjuvante até mesmo no futebol carioca, acaba de renascer pelas mãos do investidor estadunidense John Textor. E, no Brasileirão de 2023, cravou o melhor 1º turno na história dos pontos corridos com 20 equipes, tendo um aproveitamento de estratosféricos 82,5%.

Qual o segredo de tal excelência de desempenho, obtida com jogadores já rodados e, individualmente, bem menos brilhantes do que, p. ex., os craques do Flamengo?    

O blog do Rafael Reis matou a charada: nada menos que 15 integrantes do elenco atual do Botafogo haviam anteriormente atuado na Inglaterra, Itália, Espanha, Alemanha, França, Portugal ou Holanda. E aqui foram confiados a técnicos portugueses, um depois do outro.  
"Encher o Botafogo de atletas acostumados à competitividade daqueles que são considerados os campeonatos nacionais mais fortes do mundo foi uma ideia implantada por John Textor desde o momento em que comprou a SAF do clube, no primeiro semestre do ano passado".
Nossa escola, apesar das glórias passadas, hoje tem pouco a mostrar ao mundo e muito a aprender com a europeia, o que acaba de ser comprovado inclusive na competição feminina.
Eliminadas pelas jamaicanas, as brasileiras só
podiam mesmo esconder a cara. Que vexame!

E o pior é que escolhemos os mestres errados: a CBF vai para o Mundial 2026 de Carlos Ancelotti, um técnico geralmente reativo, que combina defesas fortes com alguns craques no ataque, suficientes apenas para marcarem os gols necessários. Suas campanhas são amiúde vitoriosas, mas raramente memoráveis.

O Flamengo teve o melhor desempenho desde a era Zico graças a um discípulo menor daquele que é, disparado, o técnico máximo do século 21, Pep Guardiola. E sua diretoria desde então bate cabeça, desperdiçando sucessivas chances de recontratar Jorge Jesus. 

Quanto ao Palmeiras, ganha títulos mas não dá espetáculo sob a batuta de Abel Ferreira, de carreira inexpressiva lá fora mas superestimada aqui dentro. 

Este é outro discípulo menor, ainda por cima de um treinador inimigo do futebol: o retranqueiro-mor José Mourinho (Guardiola o fazia de gato e sapato nos clássicos entre Barcelona e Real Madrid de 2008 a 2012).

Até no futebol estamos ultimamente preferindo os conservadores aos revolucionários. E nos saindo muito mal. (por Celso Lungaretti)  

quinta-feira, 29 de junho de 2023

HÁ 65 ANOS O "RETARDADO" GARRINCHA E O "IMATURO" PELÉ NOS TORNARAM CAMPEÕES MUNDIAIS, DRIBLANDO OS PRECONCEITOS

O rei menino chorando, Gylmar e Didi 
"
A taça do mundo é nossa

Com o brasileiro não há quem possa
Ê, êta esquadrão de ouro
É bom no samba, é bom no couro

O brasileiro lá no estrangeiro
Mostrou o futebol como é que é
Ganhou a taça do mundo
Sambando com a bola no pé
Goool!
"
(Maugeri, Müller, Sobrinho e Dagô)
Hoje (29) se completam 65 anos desde a final da Copa do Mundo de 1958, disputada na Suécia, quando o escrete nacional deu um chocolate de 5x2 nos anfitriões, repetindo o placar da semifinal contra a poderosa França.

Tal conquista teve um significado imenso para nós, brasileiros: provamos ao mundo e, principalmente, a nós mesmos que poderíamos ser os melhores em alguma coisa, começando a livrar-nos do complexo de vira-lata.

Até então, víamo-nos como seres inferiores, deitados eternamente em berço esplêndido, sem nunca concretizarmos o nosso potencial. 

Uma vinheta radiofônica dizia: Brasil, um país a caminho do seu grande destino!. Que nunca chegava.

Enquanto isto admirávamos, embasbacados, o progresso dos EUA e as imagens fantasiosas que os grandes irmãos do Norte projetavam de si próprios via cinema e TV. Isso, claro, só fazia aumentar nossa sensação de inferioridade.

Consolávamo-nos com a ilusão de que seríamos a nação do futuro – uma pífia compensação para o passado inglório e o presente insosso. Era como a promessa católica do paraíso, o sonho que ajudava a suportar uma vida de privações.

O futebol já dera mostras, em 1950, de que poderia se tornar nosso grande motivo de orgulho nacional. No entanto, vacilamos na hora H e a euforia se transformou em frustração.
Bellini erguendo a taça Jules Rimet. Ufa!

[Meu pai costumava contar que, depois de tomarmos a fatídica virada do Uruguai por 2x1 em pleno Maracanã, a principal rua do nosso bairro ficou quase deserta, como ele nunca a vira numa noite de domingo. Rapazes e moças nem sequer se animaram a sair para paquerar.] 

Em 1954 trombamos com o avassalador esquadrão da Hungria e fomos merecidamente eliminados por Puskas & cia.

Aí, em 1958, receosos de mais uma frustração, não ousávamos acreditar na Seleção Brasileira. Ainda mais depois de duas derrotas vexatórias em amistosos de 1956 (0x3 Itália e 2x4 Inglaterra, apesar dos milagres do são Gylmar) e da eliminatória tortuosa em 1957, quando sofremos como nunca para vencer, em pleno Maracanã... o Peru!

É que a Venezuela desistira de disputar uma vaga no Mundial, deixando-nos a tarefa aparentemente facílima de derrotarmos um único e pouco ameaçador adversário. No entanto, o Peru não morreu na véspera. O jogo em Lima ficou em 1x1 e, no Maracanã, num magro 1x0 – gol de folha seca de Didi, cobrando com a maestria habitual uma infração da entrada da área.

[Um causo hilário. Excursionando pelo Brasil, o grande Benfica de então enfrentou o Botafogo e seu famoso goleiro Costa Pereira sofreu um gol de falta do Didi exatamente da mesma maneira, a folha seca, com o arremate parecendo que passaria sobre o gol e a bola descendo nos últimos metros. 

Aí, no Pacaembu, o corinthiano Cláudio repetiu a dose, com seu chute que rumava para a linha de fundo e entortava no finzinho da trajetória. Costa Pereira, que caminhava tranquilamente para bater o tiro de meta, botou as mãos na cabeça, estupefato, ao ver a redonda balançando suas redes, depois de fazer o que, nas entrevistas, ele qualificaria de uma curvita...]
Imparável, Garrincha enlouquecia os zagueiros

GARRICHA FUNDIU A CUCA DOS CIENTISTAS DA URSS
 
– O empate diante da Inglaterra, no segundo jogo das oitavas-de-final (depois da boa estreia contra a Áustria, 3x0, com direito a golaço de Nilton Santos), fez aumentar nosso pessimismo. 

Foram 90 minutos de sofrimento, grudados nos rádios cujo som às vezes fugia, pois as transmissões a longa distância eram pra lá de imperfeitas; quando voltava, afligíamo-nos tentando adivinhar se não sofrêramos algum gol durante o apagão.

Tivemos de partir para o tudo ou nada contra a pretensiosa URSS, que anunciava ter estudado cientificamente as vulnerabilidades dos futebolistas brasileiros.

Foi quando o técnico Vicente Feola se curvou à pressão dos líderes do elenco e escalou o fenômeno Garrincha... que até então ficara no banco porque um laudo psicológico o dava como pouco mais do que um débil mental. Foi preciso chegarmos à beira do abismo para o técnico desconsiderar os preconceitos dos engravatados.

O resultado foi aquilo que passou à história do futebol como um dos inícios de partida mais fulminantes de uma Copa do Mundo. Imprevisível como uma força da natureza, Garrincha pulverizou a ciência soviética, colocando uma bola na trave, servindo Vavá no primeiro gol e criando sucessivas jogadas agudas. 2x0.

Na quarta-de-final contra o retrancadíssimo Pais de Gales, foi a vez de Pelé dar o ar de sua graça, fazendo o gol salvador. 1x0.
Os melhores ataques daquele Mundial fizeram uma semi inesquecível
Ele também começou a Copa como reserva (de Mazzola), pois Feola temia que, aos 17 anos, não aguentasse tamanha responsabilidade. 

Ledo engano. O escrete melhorou muito com sua escalação a partir do jogo contra a URSS, para deslanchar de vez na semifinal contra a poderosa França de Fontaine (que, com seus 13 gols marcados nos gramados suecos, dificilmente perderá um dia a coroa de maior artilheiro de um só Mundial). 

Graças ao retardado Garrincha e ao imaturo Pelé, o Brasil selou a mais retumbante conquista de uma Copa do Mundo até hoje, pois, com exibições de uma arte futebolística nunca antes vista no Planeta Bola, venceu as duas partidas finais por sonoros 5x2.

Gilmar; Djalma Santos, Belini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo disputaram a partida derradeira, não se intimidando com a abertura do placar pelos anfitriões. 

Bastaram duas arrancadas perfeitas de Garrincha, deixando os atônitos defensores suecos pelo caminho e centrando rasteiro para Vavá completar, e a vantagem mudou de mãos.
Golaço de Pelé furou a sólida retranca da Pais de Gales

Pelé (2) e Zagallo liquidaram a fatura, sob aplausos dos extasiados torcedores escandinavos.

O nosso povo, que há tanto tempo andava atrás de qualquer alegria, pôde finalmente desabafar: com o brasileiro, não há quem possa!.

Pena que as lições foram logo esquecidas. O embasbacamento face às metrópoles e a submissão aos preconceitos dos engravatados voltaram a prevalecer.

E continuamos reprimindo o Macunaíma que temos dentro de nós – tanto que, ao contrário dos argentinos com seu ídolo Maradona, fomos terrivelmente ingratos com nosso herói de duas Copas, deixando Garrincha agonizar no alcoolismo e abandono. (por Celso Lungaretti)

Melhores momentos da final (ou acesse o jogo completo aqui) 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

O HEXA É, SIM, POSSÍVEL (AZEDUME DEMAIS NÃO CHEIRA BEM)

Temos trunfos invejáveis, como Casemiro, Vinícius Júnior...
A
seleção brasileira garantiu vaga nas oitavas-de-final da Copa do Mundo do Catar em apenas duas rodadas, podendo agora utilizar a terceira partida para poupar titulares e testar reservas.

Isto era o máximo que estava ao seu alcance até agora, então a missão foi integralmente cumprida.

Não tinha como assegurar desde já o primeiro lugar de sua chave, mas ninguém duvida que isto ocorrerá.

Amassou Sérvia e Suíça nas etapas complementares, teve reais chances de marcar pelo menos o dobro de gols

Nenhum arremate adversário chegou à sua meta em 180 minutos de jogo, mais acréscimos.

Mostrou técnica, combatividade e força mental. Não se abalou com a performance apagada de seu principal craque na primeira partida, nem com a ausência do dito cujo por contusão na segunda.

Ou seja, uma avaliação serena indica que é candidatíssimo ao título e, quando for necessário, tem como melhorar em muito o seu desempenho. Por enquanto, não precisou fazer mais do que fez. 

No entanto, há muito negativismo e azedume nas redes sociais e nos textos/falas de comentaristas esportivos. Parece que a doença do desequilíbrio nas análises e da polarização extremada contagiou todo o tecido social, não apenas a política.

A seleção brasileira campeã mundial de 1958, se não tiver sido o melhor escrete canarinho de todos os tempos, só perde para o de 1970. 
...e Rodrygo. Há tempo nossas chances não eram tão boas  

No entanto, empatou a segunda partida com a Inglaterra por 0x0 e suou sangue para derrotar o meramente retrancado País de Gales por 1x0 nas quartas.

Contava com Nilton Santos, Didi, Garrincha e Pelé, deuses dos estádios. Mesmo assim, só conseguiu seu gol, o primeiro do rei num Mundial da Fifa, aos 28 minutos do 2º tempo.

Depois desse sufoco, contudo, nosso selecionado deslanchou, selando sua conquista com chocolates de 5x2 tanto na semifinal contra a França, quanto na final contra os anfitriões suecos.

É óbvio que algumas decisões de Tite são questionáveis, como os 45 minutos que demorou para entregar a camiseta (errada) para Rodrygo. Ele deveria é ter iniciado a contenda no lugar de Fred.

Mas, embora isto hoje pareça incrível, em 1958 Garrincha e Pelé só passaram a titulares na terceira partida. Antes atuavam Joel e Mazzola. 

Fato é que temos a melhor seleção desde 2002 e desta vez contamos com jogadores capazes de mudar os rumos de qualquer partida complicada, como o dito Rodrygo, Bruno Guimarães, Everton Ribeiro, Antony, Pedro e Martinelli.

Pelo que se viu até agora, estamos na prateleira superior ao lado de Argentina, Espanha e França. 

Conclusão: quem tem reais motivos para se preocuparem são os demais. (por Celso Lungaretti)

domingo, 20 de novembro de 2022

MUNDIAIS DA FIFA/5 VEZES BRASIL: O MANÉ JOGOU POR ELE E PELO PELÉ

O gol inverossímil que Garrincha marcou contra o Chile... 
"
Vocês vão ver como é
Didi, Garrincha e Pelé
Dando seu baile de bola
Quando eles pegam no couro
Nosso escrete de ouro
Mostra o que é nossa escola

Quando a partida esquentar
E Vavá de calcanhar
Entregar a pelota a Mané
É Mané Garrincha, Didi,
Didi diz 'é por aqui'
Aí vem o gol do Pelé"
(B. Marques/D. Bezerra)
O Brasil era o favorito do Mundial 1962, no Chile, com seu grupo de jogadores que pouco havia mudado desde 1958, quando deslumbrou o Planeta Bola. A principal alteração estava no banco, com o discreto Aymoré Moreira substituindo o adoentado Vicente Feola.

Mas, a contusão de Pelé, logo na segunda partida, foi um balde de água fria no nosso ânimo.

Antes, a Seleção aplicara protocolares 2x0 num México cujo único destaque era o goleiro Carbajal, por haver disputado muitas Copas (acabaria fechando a conta em cinco).

Contra a Checoslováquia, o rei tentou um chute de fora da área, que foi à trave enquanto ele ia ao chão, abatido por uma distensão muscular.

A aplicação tática do adversário fez escassearem nossas oportunidades de gol e os dois melhores arremates brasileiros morreram nos postes. 0x0.
...seus outros 3 e a jogada decisiva contra a Espanha atestam: ele carregou o Brasil nas costas!
A aplicação tática do adversário fez escassearem nossas oportunidades de gol e os dois melhores arremates brasileiros morreram nos postes. 0x0.

Uma vitória contra a Espanha, no jogo seguinte, tornou-se obrigatória para o Brasil seguir adiante na Copa.

Foi um jogo épico, contra um adversário forte e que contava com o mito Puskas (húngaro que, após ser o grande destaque da Copa de 1954, assumira a cidadania espanhola).

Chutando da meia lua, Adelardo colocou a Espanha na frente.

Amarildo, o substituto de Pelé, empatou, aproveitando centro rasteiro de Zagallo.
Substituir Pelé parecia missão impossível. Mas
Amarildo conseguiu marcar tentos providenciais.

Gylmar salvou o Brasil fazendo uma defesa extraordinária, depois de dividir a bola com um avante espanhol na marca do pênalti. O grande Gento pegou o rebote e desferiu um arremate mortal para o gol, com Gylmar caído. Mas o goleiraço, num lance de puro reflexo, conseguiu erguer os braços e espalmar.

Parêntesis 1  Gento, além de ser um fora de série, tinha muito caráter. Certa vez, incumbido de cobrar um pênalti inexistente para o Real Madrid, chutou na direção da bandeira de escanteio, recusando-se a tirar proveito do erro da arbitragem.

Parêntesis 2  também errou a arbitragem de Brasil x Espanha ao não assinalar um pênalti cometido por Nilton Santos. Marcou fora da área a falta ocorrida dentro.

O enciclopédia usou de malandragem, dando um passo dissimulado à frente para confundir o juiz, que estava vindo conferir de perto o local da infração.

Parêntesis 3  então com 11 anos, eu não entendia por que o placar do estádio de Viña del Mar estampava a frase porque nada tenemos, lo haremos todoSó bem depois vim a saber que um forte terremoto destruíra a infraestrutura futebolística do Chile, a dois anos do Mundial.

Contudo, o grande dirigente Carlos Dittborn conseguiu evitar a mudança de sede, pronunciando então essa frase que motivou sua gente a, com um esforço descomunal, conseguir reerguer tudo em tempo.
Foi uma epopeia: na manhã da partida inaugural, ainda 
eram completados os últimos ajustes no Estádio Nacional. 
Parêntesis 4  tratou-se da primeira Copa do Mundo cujas partidas foram integralmente exibidas no Brasil, em teipe. Passavam na noite do dia seguinte e, cúmulo da breguice, um locutor daqui agradecia a gentileza do comandante fulano, piloto da Varig, que havia trazido a fita no seu voo.

As duas emissoras que transmitiam futebol, a Record e a Tupi, optaram pelo revezamento: cada equipe se incumbia da locução/comentários de um tempo da partida.

Então, era o chatíssimo Walter Abrão quem resmungava, no finalzinho da partida contra a Espanha, quando Garrincha não atava nem desatava na ponta: É muito egoísmo, ficar prendendo a bola numa hora destas, em vez de passá-la a um companheiro!.

Foi a maior queimada de língua que vi na vida. Num único mas decisivo lampejo de gênio, Mané se livrou dos adversários, atraiu toda a marcação (inclusive o goleiro) e deu um centro milimétrico para a cabeçada certeira de Amarildo. O possesso nem precisou pular. 2x1

Apesar do folclore, Garrincha não era nenhum desmiolado em campo. Tanto que, quando Pelé se contundiu, a ficha logo caiu para o Mané: era a ele que competia liderar o ataque brasileiro no restante do Mundial.

Então, às suas jogadas desconcertantes mas nem sempre objetivas, ele acrescentou uma inusitada dose de pragmatismo: passou a priorizar o gol.
Schroiff, melhor goleiro da Copa, falhou em 2 gols da final 

Nas quartas-de-final contra a Inglaterra, fez um cabeceando do meio da área e outro, sensacional, chutando da intermediária, quase uma
folha seca ao estilo de Didi (só que, com a bola rolando, é bem mais difícil!). 3x1.

Na semifinal contra os anfitriões, o inverossímil: pegou um rebote na entrada da área e, com a perna cega que só servia para descer do bonde, acertou um chute perfeito, no ângulo.

De quebra, outro gol de cabeça, quase igual ao da partida anterior. E o Brasil despachou o Chile: 4x2.

Parêntesis 5  o Mané foi expulso no fim da semifinal, mas o jeitinho brasileiro fez a diferença nos bastidores. O árbitro, providencialmente (seria mais apropriado dizer premeditadamente...) não entregou a súmula em tempo e Garrincha pôde disputar a final.

Assim, com exceção do contundido Pelé, o Brasil levou a campo sua força máxima: Gilmar; Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Amarildo e Zagallo.

A Checoslovaquia, com seu bem montado esquema de formiguinhas, foi o adversário – mas a sorte, dessa vez, lhe seria madrasta.
Clique acima para ver os melhores momentos da semifinal 
do Mundial de 1962 ou aqui para assistir à partida completa
Os meio-campistas Masopust (0x1) e Zito (2x1), surgindo como elementos-surpresa, marcaram.

Amarildo, tentando um cruzamento da linha de fundo, viu, com seu espanto transparecendo no olhar, a bola enganar o goleiro Schroiff, que se posicionara para interceptar o centro. Nem ele acreditou no gol  (1x1) que fizera.

E o empolgante Djalma Santos alçou a bola despretensiosamente para a área. O pobre Schroiff, melhor arqueiro da Copa, estava num dia pra lá de infeliz. Ofuscado pelo sol, soltou infantilmente a pelota no pé de Vavá, que não perdoou. 3x1.

Parêntesis final  chefiando a delegação, o empresário paulista Paulo Machado de Carvalho foi fundamental para as conquistas de 1958 e 62. 
O comandante ajudando a carregar
Pelé depois que ele se contundiu

Sob a conturbada liderança dos cartolas cariocas, o Brasil dera vexame em 1950, quando os dirigentes não só embarcaram no já ganhou, como deixaram que ele contagiasse os jogadores.

Chegaram ao cúmulo de recomendarem ao limitado zagueiro Bigode que não abrisse a caixa de ferramentas na final, pois o mundo todo estaria olhandoCom Bigode pisando em ovos, o hábil ponta Gighia fez a festa em cima dele, levando o Uruguai à vitória.

E deu novo vexame em 1954, perdendo não só o jogo, mas também a esportiva, contra a Hungria, que era realmente melhor.

Aí entrou Paulo Machado de Carvalho, com um enfoque mais profissional do futebol e uma habilidade imensa na motivação dos jogadores.

P. ex.: ao ficar sabendo que Didi estava apático e macambúzio porque sentia falta da caninha habitual, o marechal da vitória o levou ao bar e, para surpresa do jogador, chamou duas pingas.

Didi hesitou, mas o velho disse: Comigo você pode. Toma!.

Copo vazio, ele foi além: Beba a minha também!.

Finalmente: Agora, vai à luta e arrebenta! Nós precisamos de você.

Assim era o homem. Então, não foi surpresa que, depois de criticadíssimo pela equipe esportiva da rádio Bandeirantes (SP) ao longo de toda a campanha, ele desse o troco quando um pouco perspicaz repórter da emissora o foi entrevistar no vestiário festivo da conquista do bi.
"Engoliu mais essa?"

Ele só disparou uma frase:
Engoliu mais essa, Pedro Luís?

O veterano locutor discursou durante minutos, criticando a mesquinhez de quem aproveitava um momento de júbilo nacional para vinganças pessoais.

Em vão: tinha ido a nocaute e, como os pugilistas sonados, não se dera conta. (por Celso Lungaretti)
Melhores momentos da final; para assisti-la completa, clique aqui 
Related Posts with Thumbnails