Mostrando postagens com marcador Sergio Fleury. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sergio Fleury. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de março de 2026

"UMA BATALHA ATRÁS DA OUTRA" ME FEZ LEMBRAR A PROPAGANDA ENGANOSA DAS "VIÚVAS DA DITADURA"

Ao assistir Uma batalha após a outralogo me lembrei da propaganda enganosa das viúvas da ditadura na década retrasada. Eu as combati muito no Orkut.

Sem terem como negar os crimes contra a humanidade cometidos pelo seu lado, os ultradireitistas tentavam igualar os raros excessos em que os guerrilheiros incidiam à adoção generalizada dessas práticas por parte do regime militar. Era como equiparar um a mil. 

Da mesma forma, esse filmeco de ação mostra mostra os combatentes como figuras caricatas, disparando chavões e palavrões a torto e a direito e explodindo instalações que jamais seriam alvos para nós (incluo-me entre os combatentes da luta armada) por não serem identificadas como nefastas pelo povão. 

Para culminar, apresenta  uma guerrilheira  como erotômana,  exigindo que um coronel do exército forçasse uma ereção sob a mira de sua arma).

O que tem isso a ver com os verdadeiros guerrilheiros e as nossas verdadeiras ações armadas? Absolutamente nada.  E o pior é que omite o lado mais execrável da repressão, como se não tivessem havido sevícias e matanças desembestadas. 

Eu, por exemplo, tive meu tímpano estourado quando o cabo da guarda me levava de volta para a solitária, após uma sessão de torturas. Ou seja, apesar de sua posição inferior na hierarquia militar, ele se deu ao luxo de extravasar suas frustrações num preso político. E, que eu saiba, jamais foi punido por isto.
Nossos poucos pentes de metralhadora
não eram utilizados em treinamentos
Houve também um capitão que, numa diligência em área rural, me aconselhou a tentar fugir, pois ninguém estava prestando atenção

Eu, como parte mais fraca, evitava entrar em confronto com os militares, mas daquela vez não aguentei mais e respondi, mostrando meu peito: "Se é para me matar, atira aqui e não pelas costas".

Para piorar, o diretor Paul Thomas Anderson enxertou comicidade bobinha num assunto muito sério. Centenas de companheiros valorosos morreram na resistência ao totalitarismo e ao terrorismo de estado. Outros tantos sofreram o diabo nos porões da ditadura. Merecemos respeito.

O festival de besteiras que assola a tela continuou com a frouxidão da rede de militantes, sem resquício nenhum de nossas normas de segurança bem mais profissionais (tínhamos como paradigmas os tupamaros uruguaios). Organizados daquela maneira não aguentaríamos sequer um mês nos anos de chumbo

Guerrilheiros treinando com metralhadora? Esquece: tiros isolados poderiam estar sendo desferidos por caçadores, mas rajadas inevitavelmente atrairiam a repressão. Ademais, os pentes escasseavam para nós e jamais os desperdiçaríamos dessa maneira.

E, se houvesse tanta gente assim combatendo a ditadura, seria o suficiente para fazermos a revolução no país inteiro. Éramos um punhado de idealistas sendo esmagado pelos muitíssimos militares. 

A inferioridade de forças era tão acentuada que nossas organizações começaram fazendo ações armadas sozinhas e acabaram tendo de juntar duas ou três para as levarem a cabo.

Quanto à cambada de gringos e ricaços que nos combatia, eles eram bem diferentes da fantasia mostrada no filme, um misto tosco de CCCTFP,  Opus Dei linha dura das Forças Armadas. Para começar, não incineravam seus membros.

A igualação dos desiguais é uma tônica no filme

Provavelmente, o delegado Sérgio Fleury foi o único assassinado pelo fogo amigo. Sabia demais e estava descontrolado, daí terem feito dele um raro dono de barco que caiu no mar e morreu afogado. Acredite quem quiser...

Nada além de um road movie metido a besta, Uma batalha após a outra fica quilômetros atrás de Sem Destino, sendo inferior até a Mad Max 2, p. ex. 

Se o Oscar não fosse um festival da indústria cinematográfica e jamais do cinema, eu consideraria descabida a  a premiação  de melhor filme e melhor diretor

Nas principais categorias, o único a merecer a estatueta era o Wagner Moura, como melhor ator. Fez jus a ela por ter conseguido tornar crível um personagem inverossímil.

Já o Sean Penn foi agraciado com a estatueta de ator coadjuvante apesar de haver tido o pior desempenho de sua carreiraMas, já que o Oscar não tem real relevância afora a comercial, tanto faz, como tanto fez. (por Celso Lungaretti)

sábado, 20 de junho de 2020

IMPLOSÃO DO BOLSONARISMO ELIMINA HIPÓTESE DE GOLPE, MAS AINDA PODE VIR UM PUTSCH PARA CAUSAR MUITO ESTRAGO

Com a prisão do homem-bomba Fabrício Queiroz, o bolsonarismo faz água por todos os lados. 

Agora, muitos outros analistas vieram somar-se à conclusão a que cheguei já no dia (24/04) da ruptura do Sergio Moro com o presidente miliciano, assim expressa no artigo Moro deverá acrescentar hoje outra marca à coronha de sua arma:    
"...desde aquele domingo em que Bolsonaro afrontou as determinações sanitárias do seu próprio governo ao participar de uma manifestação ultradireitista, procedendo como um espalha-vírus alucinado, ele só tem feito cavar a sepultura do mandato que um destino insólito atirou-lhe no colo. 
São 40 dias cometendo erro após erro, dia após dia, a ponto de levantar suspeitas cada vez maiores de que lhe faltam condições mentais para o exercício do cargo. Os mais perspicazes já não tinham dúvida de que ele era um cadáver político insepulto, à espera do enterro
A imperdoável e asnática exoneração do ministro Mandetta foi algo assim como o penúltimo degrau do cadafalso. Faltava só a gota d'água, o episódio que causasse uma sensação generalizada de agora passou da conta, não dá mais!, tanto em termos políticos quanto jurídicos.
E Moro roubou o espetáculo, (...) empurrando Bolsonaro para o abismo".
A partir de então, passei a me referir ao Bolsonaro como um cadáver político à espera do rabecão institucional. Ontem (19/06) Reinaldo Azevedo buscou em Fernando Pessoa um rótulo semelhante, na coluna que foi seu ponto de chegada onde eu já estava havia oito semanas:
"O governo Bolsonaro acabou. A reforma da Previdência (é o) único marco que ficará destes dias, durem quanto durar... Isso à parte, sobra pregação golpista. E só.
Quanto tempo o mito ainda fica por aí? Não sei. Mas é um cadáver adiado que procria, para lembrar verso de Fernando Pessoa em caso bem mais nobre. E qualquer coisa que venha à luz, nessas circunstâncias, será necessariamente ruim.
Não temos mais um presidente, mas um refém do fundão do centrão".
De onde veio minha certeza imediata e absoluta de que, ao sair atirando, Moro ferira de morte o (des)Governo Bolsonaro? 

De que, no Brasil pós-pandemia, imerso na pior depressão econômica de sua História, um estadista de verdade vai fazer tanta falta que será impossível a permanência de alguém tão despreparado e desequilibrado na presidência da República.

Restava, unicamente, a hipótese do autogolpe, que sempre habitou os sonhos de Bolsonaro. Mas, pela convivência forçada que tive com os militares quando prisioneiro político nos anos de chumbo, eu sabia que era praticamente impossível eles virarem a mesa para manter um oficial de baixa patente como presidente. 

[Ainda mais um capitão a quem haviam empurrado para o portão de saída por ter questionado publicamente decisões superiores e tramado atentados terroristas. Quando eles dão golpe no Brasil, é para entregar a faixa presidencial a um general.]   

Mais: eles se veem como integrantes de uma instituição permanente, sendo grande seu empenho em legarem uma imagem íntegra aos que virão depois.

Então, depois do trabalhão que tiveram para superar o opróbrio das torturas e execuções durante a ditadura de 1965/85, jamais lhes passaria pela cabeça assumir responsabilidades tão espinhosas quando os augúrios para o Brasil são nada menos do que péssimos: depois que a pior crise sanitária de nossa História finalmente dissipar-se, será a vez da pior depressão econômica de nossa História desabar com impacto total sobre nós. 

Quem quererá ter sua imagem associada a tais desgraceiras? Só imbecis. E os altos comandantes militares, apesar do estereótipo de bicho-papão que impregna os comentários de uma infinidade de internautas, não o são.

Enfim, são águas passadas. Agora que a prisão do faz-tudo do clã escancara o envolvimento dos Bolsonaros com o crime comum até a eleição de 2018, seu filme está definitivamente queimado com os altos comandantes militares, que podem relevar truculências mas nunca, jamais, parcerias com a contravenção.

Os cadáveres que o delegado Sergio Fleury produzira como líder do Esquadrão da Morte de São Paulo, expostos pelo grande Hélio Bicudo, não fizeram com que eles retirassem a proteção que lhe concediam por haver, em seguida, passado a atuar na repressão política. Até uma lei criaram para evitar que fosse preso.

Mas, quando Bicudo provou que, naquele passado, Fleury não comandava o extermínio de criminosos para limpar as ruas, mas sim a soldo de um grande traficante que o utilizava para eliminar a concorrência, os verde-olivas de imediato o deixaram entregue à própria sorte. Pouco tempo depois, ele se tornou um raríssimo exemplo de dono de barco que cai no mar e se afoga... 

Por último, Demétrio Magnoli veio hoje (20/06) ao encontro da minha posição (vide aqui), trazendo um acréscimo importante: se golpe de Estado bem sucedido é carta fora do baralho, tentativa malograda pode haver, sim. Com isto eu concordo.

Putsch integralista será bisado 82 anos depois?
Algo nessa linha pode provir, principalmente, das polícias estaduais junto às quais os bolsonaristas desenvolvem intenso proselitismo, mas elas servem para arruaças (como na greve dos PMs cearenses) e tiroteios contra bandidos, não para empreitadas complexas; e de amadores metidos a bestas, como os zumbis evangélicos que estão recebendo treinamentos militares pra lá de suspeitos.

Mas, no frigir dos ovos, prevalecerá a velha tese marxista de que, na democracia burguesa, o poder dominante é o econômico. Então, os grandes empresários e banqueiros saberão impedir que seus negócios sejam fortemente prejudicados por aventuras estapafúrdias.

O que vem por aí são anos de marcha lenta na economia e de penúria entre o povo, com permanente risco de explosões sociais. Então, os donos do PIB têm total clareza de que o Brasil precisará de um apaziguamento dos espíritos e da boa vontade das outras nações para atravessar, a duras penas, tal período dramático.

Não terá uma coisa nem outra sob Bolsonaro (daí ele estar com os dias contados) nem sob qualquer outro governo autoritário e truculento, ainda que menos descerebrado. 

Então, um putsch pode mesmo acontecer e causar muito estrago antes do fracasso anunciado. Temos de ficar atentos a tal possibilidade. (por Celso Lungaretti)       

sábado, 2 de dezembro de 2017

ASSISTA A UM EXCELENTE DOCUMENTÁRIO SOBRE A 'OPERAÇÃO CONDOR' E CONHEÇA UM COMPANHEIRO POR ELA VITIMADO

"Às 18 horas do dia 5 de dezembro de 1973, meu pai Joaquim Pires Cerveira (...) se dirigiu a um encontro com seu companheiro de Organização (...) João Batista de Rita Pereda.

Atropelado e sequestrado com Pereda, no centro de Buenos Aires, pela Operação Condor, foram ambos entregues à ditadura brasileira.

Foi assassinado em 13 de janeiro de 1974 no DOI-Codi da Barão de Mesquita (RJ), tornando-se um desaparecido político.

Dali para frente, a vida se resumiu na busca da verdade e dos seus restos mortais."

O depoimento é de Neusah Cerveira, jornalista, economista, geógrafa e historiadora.

Segundo ela, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Deops/SP, comandou pessoalmente o sequestro, com a colaboração de agentes da Polícia Federal e do Exército argentinos. Teria sido o pontapé inicial da Operação Condor, embora a formalização desse acordo de cooperação entre as ditaduras sul-americanas só haja ocorrido em 1975.

Enviado a São Paulo, Cerveira ficou à disposição do DOI-Codi, então chefiado por Carlos Alberto Brilhante Ustra.

E foi Ustra em pessoa que o entregou ao DOI-Codi/RJ, onde chegou numa ambulância, às 23h do dia 12. Durante a madrugada executaram-no; depois, deram sumiço nos seus restos mortais.

Conheci Cerveira em maio/1970, no DOI-Codi/RJ. Quarentão, bondoso, esforçava-se por elevar o moral dos colegas de cela, cantando músicas de sua autoria.
Neusah: "busca da verdade e dos restos mortais"

Uma delas ficou para sempre na minha lembrança. Começava assim: "É bonito o anoitecer na praia,/ é bonito o anoitecer no mar./ Eu fui no mar, à tardinha,/ levar meu presente pra nossa rainha./ Ê, ê, é a rainha do mar,/ ah, ah, nossa mãe Iemanjá".

Por razões de segurança, não conversávamos sobre nossas respectivas militâncias. Soube depois que ele havia feito carreira militar, chegando a major; era gaúcho e vinha das hostes brizolistas.

Mal os golpistas de 1964 usurparam o poder, transferiram-no à reserva: ele foi um dos punidos pelo Ato Institucional nº 1.

Preso em outubro/1965, acabou sendo em maio/1967 inocentado da acusação de ter facilitado a fuga do coronel Jefferson Cardim Osório, pertencente ao Movimento Nacionalista Revolucionário.

Nova detenção em 1970, quando fomos colegas de infortúnio. Sua esposa e filho também sofreram maus tratos.

Minhas recordações, evidentemente, são nebulosas, tanto tempo depois. Mas, ficou-me a imagem de um homem do tipo caseiro, cuja aparência afável e inofensiva contrastava com a dos ex-militares da minha própria organização, a VPR; estes tinham ar decidido e pareciam sempre prontos para a ação.

Presos políticos trocados pelo embaixador alemão; Cerveira é o grisalho, na fileira do fundo.
Minha avaliação, face ao que fiquei sabendo depois, não estava longe da realidade. Cerveira, bom pai de família, poderia perfeitamente ter levado uma existência prosaica. Era a noção do dever, a fidelidade à causa revolucionária, que o forçava a enfrentar perigos e viver fugido.

Um dos 40 presos libertados quando do sequestro do embaixador alemão, viajou em junho/1970 para a Argélia.

No Chile, participou em 1972 do julgamento de uma dirigente da VPR, acusada de pusilanimidade diante da repressão. Convenceu os demais julgadores de que, mesmo sendo ela culpada, revolucionários não deveriam matar revolucionários. Salvou-lhe a vida.

Sem a mínima ambição pessoal, com enorme idealismo e força moral, Cerveira foi um daqueles quadros que fizeram muita falta na redemocratização do País.
Cerveira na lista dos incinerados

SEQUESTRADO EM BUENOS AIRES, ASSASSINADO NO DOI-CODI E INCINERADO NA USINA CAMBAHYBA.

"Maria de Lourdes Pires Cerveira (...) conversou com o marido pela última vez em novembro de 1973, quando combinaram que a família se reuniria em Buenos Aires em janeiro de 1974. Joaquim deveria ter ligado para a casa em 10 de dezembro, data do aniversário da filha, mas não o fez.

No dia 3 de janeiro, a família recebeu um telefonema anônimo informando que Cerveira fora sequestrado na capital portenha quase um mês antes, mais precisamente no dia 5 de dezembro.

...O anfitrião de Joaquim Cerveira em Buenos Aires, de sobrenome Rossi, conta que no dia seguinte, 6 de dezembro de 1973, às 3 horas da madrugada, seis policiais argentinos que se identificaram como pertencentes à Polícia Federal realizaram uma busca na residência de Cerveira à procura de armas e documentos.

Retornaram às 11 horas da manhã acompanhados de um homem 'que parecia chefiar' o grupo e, pela descrição, poderia ser Sérgio Paranhos Fleury – identificado por uma cicatriz na testa. Em meio a ameaças, eles mostraram uma foto de Cerveira aos outros residentes da casa e se retiraram da mesma após darem a entender que Cerveira havia sido preso.
Fleury não usava terno branco ao arrancar sangue dos presos

...Em 19 de fevereiro de 1974, Maria de Lourdes foi informada por Oldrich Hasselman, representante latino-americano do Alto Comissariado da ONU para Refugiados em Buenos Aires, que os dois homens desaparecidos na Argentina, Cerveira e João Batista, foram vistos na noite de 12 para 13 de dezembro de 1973, quando chegavam numa ambulância fortemente guardada, na Polícia do Exército (DOI-Codi), na rua Barão de Mesquita, em lamentável estado físico.

...A morte de Cerveira e de mais outros 11 desaparecidos foi confirmada pelo general Adyr Fiúza de Castro, entrevistado anonimamente pelo jornalista Antônio Henrique Lago para o jornal Folha de S.Paulo, em matéria publicada em 28/01/1979. Adyr Fiúza de Castro foi criador e primeiro chefe do Centro de Informações do I Exército...

...Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, o ex-delegado Cláudio Guerra afirmou que o delegado Sérgio Paranhos Fleury teria sido o responsável pelo sequestro de Cerveira em Buenos Aires e também por seu traslado para o Brasil – informação que Guerra teria obtido do próprio Fleury. 

Guerra afirmou ainda que o corpo do major Joaquim Pires Cerveira lhe foi entregue pelo coronel Freddie Perdigão no Destacamento de Operações de Informações , à rua Barão de Mesquita, Rio de Janeiro, para incineração na usina Cambahyba, no município de Campos de Goytacazes (RJ).
Neste inferno o conheci; a ele Cerveira voltou para morrer.

...[Uma testemunha ocular] faz o seguinte relato do aspecto dos dois brasileiros quando foram levados para a prisão: "Estavam amarrados juntos em posição fetal, os rostos inchados, mostrando vestígios de sangue fresco. Estavam em estado de choque, obviamente extenuados. Foram levados para o que é conhecido como celas frigoríficas individuais. São câmaras de torturas. A temperatura interna pode ser reduzida a menos de quinze graus. O sistema nervoso do prisioneiro pode também ser afetado. Isto é feito por meio de um sistema de alto-falantes, que reproduz os gritos de pessoas sofrendo torturas".

...Diante das investigações realizadas, conclui-se que Joaquim Pires Cerveira foi sequestrado, torturado e desapareceu em ações perpetradas por agentes do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar, implantada no país a partir de abril de 1964. 

As circunstâncias do desaparecimento de Joaquim Pires Cerveira comprovam a coordenação entre os serviços de informações militares brasileiros e argentinos e o trabalho clandestino deles para monitorar, perseguir e sequestrar exilados políticos no Cone Sul."(trechos do tópico referente a Joaquim Cerveira no relatório final da Comissão Nacional da Verdade)

Assista aqui à íntegra do filme Condor (2007), dirigido por Roberto Mader,
 documentário vencedor do Prêmio Acie de Cinema de 2009, tanto
pelo veredito do júri quanto na votação do público.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

VALE TUDO PARA DESQUALIFICAR BICUDO, ATÉ ATRIBUIR-LHE SENILIDADE!!!

O homem que derrotou o Esquadrão da Morte...
Em artigo publicado nesta 5ª feira (15/10) no Brasil 247, a colunista Tereza Cruvinel ignorou não só as boas práticas jornalísticas como as mais elementares noções de civilidade, educação, respeito pessoal e deferência para com as pessoas idosas, ao indagar, já no título, se Bicudo está senil?.

E, no primeiro parágrafo, consumou a tentativa de desqualificação de um dos maiores heróis da resistência jurídica à ditadura militar, lastreada tão somente no preconceito em relação à sua idade (93 anos), já que não aponta nele nenhum comportamento característico da senilidade, apenas reprovando suas opiniões. Ou seja, pretendeu intimidá-lo por dele discordar, e o fez lançando uma suspeição que não tinha competência para lançar, já que não é médica: 
"Um homem lúcido como ele sempre foi não diria os disparates que disse, em entrevista ao Estadão, se tivesse perfeito domínio de suas faculdades mentais. O jurista Hélio Bicudo disse que 'o PT tomou conta do judiciário. É o PT que está decidindo o que acontece no STF. Quem foi que colocou esses ministros no tribunal? Foi o PT. Eles (ministros) não irão julgar nada contra o PT'".
Sem entrar no mérito da independência ou não de cada um dos ministros do STF empossados desde 2003, é perfeitamente cabível um cidadão lúcido suspeitar que o partido no poder favoreça candidatos simpáticos a seus interesses.
...e sua detratora.

Ainda mais depois de tanto haver sido dito que, para conquistar a vaga, Luiz Fux teria enganado alguns grãos petistas, levando-os a crerem que ele ajudaria a absolver os mensaleiros.

Acredito, enfim, que Cruvinel tenha infringido o Estatuto do Idoso:
Art. 96. Discriminar pessoa idosa, impedindo ou dificultando seu acesso a operações bancárias, aos meios de transporte, ao direito de contratar ou por qualquer outro meio ou instrumento necessário ao exercício da cidadania, por motivo de idade:
          Pena – reclusão de 6 (seis) meses a 1 (um) ano e multa.
§ 1º Na mesma pena incorre quem desdenhar, humilhar, menosprezar ou discriminar pessoa idosa, por qualquer motivo.
Bicudo concorreu para este desfecho 
E também o Código Penal:
Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro:             
§ 3º  Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência:
Pena - reclusão de um a três anos e multa. 
Como leigo que sou, não tenho a mínima pretensão de esgotar a análise jurídica dessa ofensa.  É ao Ministério Público.que compete tal tarefa.

O que não exime a Cruvinel da obrigação moral de retratar-se o quanto antes, pedindo desculpas a Bicudo por ter escrito como qualquer sem noção, e não como uma jornalista.

sábado, 26 de abril de 2014

COMO UM ANTIGO TORTURADOR COMETERIA O CRIME PERFEITO

Vamos supor que um torturador de outrora quisesse eliminar dois dos seus congêneres, de tal forma que o assassinato não viesse a ser imputado nem a ele, nem a outros veteranos da repressão ditatorial.

Um dos alvos, porque estava próximo da morte e mantinha um minucioso arquivo sobre agentes do Estado que cometeram crimes contra a humanidade, como os cometeram, quem foram suas vítimas, que fim tiveram os respectivos restos mortais, etc. Sabia-se lá quem ficaria com tal arquivo quando ocorresse sua morte natural e qual o destino que a ele daria. Daí a conveniência de antecipar o desfecho, para o poder administrar convenientemente, só permitindo que viessem a público informações tornadas inócuas pelo passar das décadas.

Outro, porque dera com a língua nos dentes num palco iluminado e, mesmo que não voltasse a fazê-lo (deixara de identificar comparsas vivos, mas poderia mudar de ideia), constituía-se num péssimo exemplo. Quantos pés na cova com os mesmos antecedentes não estariam queimando de inveja da notoriedade que ele alcançara? Para certo tipo de pessoas, serem relegadas ao esquecimento incomoda muito mais do que serem lembradas como ogros...

Assassinados: o 1º colecionador de armas...
Como dizia o Dadá Maravilha, para toda problemática existe uma solucionática

O hipotético torturador de outrora certamente conheceria bem um universo contíguo, o da contravenção, nele sentindo-se como um peixe dentro da água. Lembrem-se: 
  • o famoso delegado Sérgio Fleury, nos tempos em que chefiava o famigerado Esquadrão da Morte, estava a serviço de um grande traficante, liquidando apenas seus concorrentes, enquanto fingia exterminar os bandidos em geral;
  • os torturadores da PE da Vila Militar (RJ), oficiais inclusos, quando começaram a escassear os proventos da repressão à guerrilha (as recompensas recebidas de grandes empresários e a rapinagem dos bens apreendidos com militantes), não só se tornaram parceiros de contrabandistas da região como tentaram passar-lhes a perna, tomando sua muamba à bala;
  • um destes oficiais, o Capitão Guimarães, não se conformou de, desmascarado, haverem aliviado para ele no sentido de salvar as aparências mas ter-se tornado um pária na caserna --optou por dar baixa e iniciar uma bem sucedida carreira como bicheiro de Niterói, acabando por se tornar um dos maiores chefões do crime organizado.
...e o 2º colecionador de armas. Ambos quando mais convinha.
Então, para alguém da laia de um antigo torturador da ditadura militar, nada mais fácil do que encontrar ladrões homicidas aptos para tais missões e passar-lhes a dica de que os oficiais da reserva em questão possuíam bens valiosos, como coleções de armas, estando praticamente indefesos.

Com a recomendação expressa de que os mesmos deveriam ser assassinados, e ninguém mais.

Com a advertência expressa de que, se caíssem presos, não deveriam de forma nenhuma incriminá-lo, caso contrário sua rede (de veteranos dos porões e novos fanáticos do extremismo) cuidaria para que fossem mortos no cárcere.

Foi assim que as coisas se passaram? Se non è vero, è ben trovato, como dizem os italianos...

domingo, 10 de novembro de 2013

BOLEIROS 10x0 PAVÕES

Este líder de verdade segue os passos do Sócrates
Nunca atuei no jornalismo esportivo propriamente dito, mas travei contato com alguns craques em épocas de Copa do Mundo, quando as revistas dão mais destaque ao futebol. Principalmente o Rivellino, a quem entrevistei duas vezes, e o Zico. 

Pareceram-me dignos, honestos e boa gente (ao contrário dos empresários, políticos e artistas que eu era obrigado a ouvir amiúde). Cordiais mas autênticos, não fazendo nenhum esforço para agradarem, nem tentando me manipular. Sua postura era tão digna de admiração quanto seu talento nos gramados.

O Manfrini, meiocampista de um esquadrão lendário do Fluminense, fora meu colega de ginásio; jogáramos juntos umas poucas vezes, pois eu era só o goleiro reserva. Mais tarde, depois que ele já pendurara as chuteiras, reencontrei-o no Desafio ao Galo da TV Record, como diretor do Parque da Mooca, o timinho de várzea no qual iniciara sua vitoriosa trajetória. Tão gordo que só aguentou disputar o primeiro tempo.

Eu estava lá cobrindo a participação do adversário, a Duratex, pois fazia a revista dessa empresa. No final, o Manfrini me convidou para bater papo com os quatro outros veteranos que ele aliciara para sua equipe, dentre eles o zagueiro Amaral, ex-Corinthians, que chegara a disputar um Mundial pelo Brasil. A efusiva camaradagem entre eles, sem ciumeiras e vedetismo, me chamou a atenção. Tão diferentes dos artistas!

Este falso líder abandonou os liderados no fogo
Vale lembrar, também, um episódio uruguaio que comprova a firmeza de caráter de um grande boleiro. O capitão da Celeste Olímpica, Obdulio Varela, se tornara uma lenda viva ao encher sua seleção de brios no maracanazo de 1950, levando-a a compensar a inferioridade técnica  com esforços sobre-humanos; não se envolvia, contudo, com lutas reivindicatórias.

Certa vez, os cartolas caíram na besteira de declararem à imprensa que o movimento dos jogadores era uma roubada, tanto que até o Obdulio Varela o rechaçara. Furioso por terem invocado seu nome em vão, Varela compareceu à reunião seguinte, passou a liderar os colegas e os guiou para a vitória.

Colegas me contaram que o Nelson Piquet também não bajulava repórteres. Quando apareciam sem convite na casa dele, atendia-os no portão. Fazia questão de preservar sua intimidade. [Nunca entendi a compulsão da maioria das pessoas, de colocarem na vitrine a esfera pessoal de suas existências. Eu só uso o twitter para anunciar os escritos que lanço. Jamais você lerão que estou em tal lugar, fazendo tal coisa. Muito menos encontrarão, em lugar nenhum, revelações sexuais. Abomino a exposição/banalização da vida íntima. Sempre considerei repugnantes os homens que se vangloriam de conquistas amorosas e ficam trombeteando detalhes de suas noitadas e de suas parceiras.]  

Enfim, não é surpresa nenhuma para mim que os jogadores do Bom Senso Futebol Clube estejam tão lúcidos e coesos em seu movimento contra os cartolas escravagistas em geral e o capataz da CBF em particular: o nefando José Maria Marin, aquele puxa-saco da ditadura militar que rasgava seda para o delegado Sérgio Fleury e pediu a cabeça dos comunistas da TV Cultura pouco antes de o Vladimir Herzog ser preso e assassinado pelo DOI-Codi.

O que aconteceria se o movimento não fracassasse
Só lamento que o jovem e bom zagueiro Paulo André, do Corinthians, não tenha a estatura futebolística do Sócrates, pois está seguindo os passos do doutor enquanto líder e, se fosse igualmente um jogador fora de série, sua influência e seu destaque na mídia aumentariam muito.

Também não me surpreendeu o melancólico esfacelamento do Procure Saber, o movimento dos censores acidentais. Constatando a péssima repercussão, o primeiro a pular fora foi exatamente o inspirador e líder, Roberto Carlos, que policia até teses universitárias sobre a Jovem Guarda. RC usou o Fantástico para tirar o dele da reta, dizendo que aprova as biografias não autorizadas e só queria que fossem melhor equacionados alguns detalhes. [Fez lembrar a velha piada de colegiais sobre a virgindade pela metade: não existe...]   

O divo Caetano Veloso foi o primeiro a reagir: confessou haver defendido uma tese "estranha" por solidariedade aos outros e se queixou de o rei  ter abandonado a todos no fogo. 

Resta saber que atitude tomarão os magníficos traídos Chico Buarque e Gilberto Gil.

Como o Bom Senso e o Procure Saber são praticamente simultâneos, faz sentido dizer que, numa comparação moral entre ambos, o placar seria Boleiros 10x0 Pavões.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

DEIXAREMOS UM FILHOTE DA DITADURA NOS REPRESENTAR NO MUNDIAL 2014?!

FOLHA CORRIDA DO ATUAL PRESIDENTE DA CBF:
  • COMO DEPUTADO DURANTE A DITADURA MILITAR, EXIGIU QUE FOSSE INVESTIGADA A INFILTRAÇÃO COMUNISTA NA TV CULTURA (PONTO DE PARTIDA DO ASSASSINATO DE VLADIMIR HERZOG) E FOI À TRIBUNA FAZER OS MAIS RASGADOS ELOGIOS AO DELEGADO SÉRGIO FLEURY (O TOCAIEIRO DO MARIGHELLA). LEIA OS DOIS DISCURSOS DO LAMBE-COTURNOS aqui
  • COMO ESPORTISTA, ROUBOU ATÉ MEDALHA DE CAMPEÃO DA COPA SÃO PAULO (vide aqui).
  • COMO CIDADÃO, FEZ "GATO" PARA SURRUPIAR ENERGIA ELÉTRICA DO VIZINHO (vide aqui). 
DEIXAREMOS UM MARIN DESSES REPRESENTAR O FUTEBOL BRASILEIRO NUMA COPA DO MUNDO?!

O ANTÍDOTO ESTÁ aqui; TRATA-SE DE UMA PETIÇÃO LANÇADA POR IVO HERZOG,  FILHO DO SAUDOSO  VLADO.

ASSINE! REPASSE! DIVULGUE! 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

BRILHANTE USTRA E MAIS DOIS COMANDARAM O ATENTADO AO RIOCENTRO

O torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra foi um dos comandantes da fracassada operação terrorista de agentes da repressão política que, insatisfeitos com a desativação das unidades criadas especialmente para combater os grupos guerrilheiros, tentaram explodir três bombas para criar pânico durante uma apresentação de Chico Buarque e outros músicos famosos no Riocentro, em homenagem ao Dia do Trabalhador de 1981.

O objetivo era inculpar a esquerda pelo atentado, como forma de convencer o ditador Figueiredo de que os DOI-Codi's e outros centros de tortura continuavam sendo necessários e não deveriam ser extintos.

Quem confirma é um ex-delegado do Dops que virou pastor evangélico e agora sente remorsos dos crimes que praticou ou testemunhou, Cláudio Antônio Guerra.

Ele deu depoimentos aos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto, cujo Memórias de uma guerra suja está sendo lançado pela editora Topbooks. O portal Último Segundo antecipou vários trechos do livro--vide aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Eis o que Guerra conta:
"Participei do atentado ao Riocentro e fiz parte das várias equipes que tentaram provocar aquela que seria a maior tragédia, o grande golpe contra o projeto de abertura democrática.

O destino daquela bomba era o palco. Tratava-se de um artefato de grande poder destruidor. O efeito da carga explosiva no ambiente festivo, onde deveriam se apresentar uns oitenta artistas famosos, seria devastador. A expansão da explosão e a onda de pânico dentro do Riocentro gerariam consequências desastrosas. Era evidente que muitas pessoas morreriam pisoteadas.
 Aquela bomba [que estourou por engano no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário] era uma das três que deveriam explodir no show. O capitão Wilson [Luís Chaves Machado] estacionou o veículo embaixo de um fio de alta tensão e a carga elétrica desse fio, a energia que passava em cima do Puma, fechou o circuito da bomba, provocando a explosão. O erro foi do capitão. (...) Eu era especialista em explosivos".
Segundo o ex-delegado, os comandantes da operação foram “os mesmos de sempre”:
  • o coronel de Exército Freddie Perdigão, do SNI;
  • o comandante Antônio Vieira, do Cenimar;
  • e o então coronel Brilhante Ustra, do DOI-Codi paulista.
Em seguida, Guerra e sua equipe deveriam prender os esquerdistas a serem responsabilizados pelo atentado:
"Fui para lá com uma lista de nomes. (...) Mas deu tudo errado. Com a explosão da bomba no Puma, os militares policiais civis e os policiais civis que levavam outras duas bombas abortaram a operação".
Guerra revela que haviam sido suspensos todos os serviços de apoio do Riocentro, incluindo o policiamento e a assistência médica, para que não houvesse socorro imediato às vítimas. Até as portas de saída foram trancadas e, nas placas de trânsito, picharam a sigla da extinta VPR, para que parecesse ser um atentado da esquerda.

DELEGADO FLEURY, UM "ARQUIVO QUEIMADO". 
SÓ O PERCIVAL DE SOUZA NÃO SABIA...

De resto, quem acompanha este blogue não terá sido surpreendido por nenhuma das ditas  revelações bombásticas  do livro.

Nem a de que resistentes foram executados e tiveram seus restos mortais incinerados, nem a de que o delegado Sérgio Fleury (e também o jornalista Alexandre Von Baumgarten) foi vítima de uma queima de arquivo. É o que eu sempre disse.

Quando a luta armada acabou, Fleury e outros rapinantes viram evaporarem duas fontes de vultosos ganhos adicionais: a divisão de tudo que apreendiam com os militantes e as gratificações de empresários fascistas.

Os torturadores da PE da Vila Militar (RJ) resolveram compensar as perdas achacando contrabandistas, depois tentaram até tomar deles uma carga mais valiosa, mas o episódio acabou em tiroteio e no desmascaramento dos bandidos fardados.

Já Fleury, bandido à paisana, desesperou-se com a falta de fundos para sustentar o vício na cocaína e chantageou seus ex-patrocinadores ricaços, ameaçando revelar o que sabia sobre eles: não só o financiamento de práticas hediondas, mas também a participação voluntária de alguns deles nas torturas.

Reaças, canalhas e tarados, eles tomaram as providências cabíveis para manterem escondidas suas vergonhas. Onde já se viu dono de barco morrer afogado?

Percival de Souza que me desculpe, mas 2+2 continuam sendo 4. Então, desde sempre eu contava esta história como minhas fontes me relataram. E o delegado arrependido confirma agora a veracidade do que sempre afirmei:
"Fleury tinha se tornado um homem rico desviando dinheiro dos empresários que pagavam para sustentar as ações clandestinas do regime militar. Não obedecia mais a ninguém, agindo por conta própria. E exorbitava. (...) Nessa época, o hábito de cheirar cocaína também já fazia parte de sua vida. Cansei de ver.
....Dias depois [de Guerra ter começado a vigiá-lo, buscando detectar uma oportunidade para o assassinarem] os planos mudaram, porque Fleury comprou uma lancha. Informaram-me que a minha ideia do acidente seria mantida, mas agora envolvendo essa sua nova aquisição – um ‘acidente’ com o barco facilitaria muito o planejamento".
Segundo Guerra, Fleury foi dopado e ainda atordoaram-no com uma pedrada na cabeça, antes de o atirarem no mar.

Por último: quanto aos 11 companheiros massacrados e  sumidos  pelas bestas-feras da repressão, os casos eram igualmente notórios; só se acrescentaram detalhes, reavivando nossas feridas. 

Prefiro lembrar-me do sempre sereno Joaquim Pires Cerveira cantando seus sambas para nos animar durante o calvário no DOI-Codi carioca e do jeito ingênuo de  garotão  que o Bacuri exibia nos seus bons momentos.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

QUEM É O CABO ANSELMO

Na reestréia do programa Roda Viva, a busca de impacto prevaleceu sobre os critérios de ordem moral: a atração foi um sujeito que se vangloria de, passando-se por companheiro dos resistentes, ter contribuído para que a ditadura militar exterminasse cerca de 200 deles durante os  anos de chumbo.

O número, evidentemente, é exagerado, mas o que devemos pensar de quem quer ser reconhecido como  serial killer?

Nada que um indivíduo desses diga interessa às pessoas de bem. E o que eu tinha a dizer sobre ele, já disse em artigos como Bomba! Segundo ex-diretor do Dops, o cabo Anselmo já era agente duplo em 64 (que pode ser acessado aqui) e Reaparece o cabo Anselmo: será mais uma provocação?, de 04/08/2009, que reproduzo abaixo:

Um dos personagens mais detestados dos anos de chumbo, José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, voltou ao noticiário na semana passada, quando foi tirar impressões digitais para reaver seus documentos de identidade, que não lhe fizeram falta quando vivia sob a proteção dos órgãos de segurança da ditadura militar, nem durante bom tempo depois de restabelecida a democracia no País.

Queixa-se de estar agora em dificuldades financeiras, necessitando de uma reparação da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, à qual acusa de protelar a decisão do seu caso:
"Esse pessoal da esquerda ainda inventa muita mentira. Há muita resistência no governo. Estão me enrolando já faz um bom tempo".
Foi o que também declarou num depoimento muito divulgado pela rede virtual de extrema-direita:
"Não aceito a decisão da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça de empurrar o julgamento do meu pedido de anistia para o próximo governo".
O presidente do colegiado, Paulo Abrão, esclarece que havia necessidade formal de confirmação da identidade do requerente, já que ele não possuía documentação legal. Se as digitais revelarem que se trata mesmo do cabo Anselmo, aí o processo poderá seguir seu curso.

Exigências burocráticas à parte, ele é mesmo o cabo Anselmo e circula acompanhado por um amigo e tutor de passado igualmente tenebroso: o delegado Carlos Alberto Augusto, do 12º distrito de São Paulo.

De janeiro de 1970 a 1977, Augusto trabalhou sob as ordens diretas do terrível delegado Sérgio Paranhos Fleury no Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo, quando era conhecido como Carlinhos Metralha (por andar amiúde com uma metralhadora pendurada no ombro).

Recentemente apontado ao Ministério Público Federal como torturador por Ivan Seixas, diretor do Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo, Augusto entoa a habitual ladainha de que era "agente de informação" e não fazia o serviço sujo:
"Apenas cumpri meu dever de defender o país do comunismo. Não me arrependo de nada."
Tanto não se arrepende que está prontinho para ajudar a golpearem novamente a democracia, se surgir a oportunidade:
"O país que eu desejo não é este que está aí. Esses caras do governo [Lula] são todos sanguinários. Tudo comunista bandido e covarde. Estou à disposição dos militares na hora em que eles precisarem de novo".
O MAIS NOTÓRIO "CACHORRO" DO FLEURY

Hoje com 67 anos, o cabo Anselmo é mais célebre dos militantes da resistência à ditadura militar que trocaram de lado, passando a atuar (segundo o jargão dos próprios órgãos de segurança) como cachorros da repressão, incumbidos de armar ciladas para os companheiros. De acordo com o delegado Augusto, só no Deops/SP havia uns 50 deles.

Principal agitador da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil no período que antecedeu a quartelada de 1964, depois do golpe Anselmo foi preso, escapou de forma inverossímil, passou vários anos foragido e chegou a treinar guerrilha em Cuba.

De regresso ao Brasil em 1970, militou na luta armada contra o regime militar, ao mesmo tempo em que colaborava com a repressão da ditadura, atraindo seus companheiros para emboscadas.

Eis como Élio Gaspari relatou, em A Ditadura Escancarada, uma de suas missões:
"A última operação de Anselmo, na primeira semana de janeiro de 1973, (...) resultou numa das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura. Um combinado de oficiais do GTE e do DOPS paulista matou, no Recife, seis quadros da VPR. Capturados em pelo menos quatro lugares diferentes, apareceram numa pobre chácara da periferia. Lá, segundo a versão oficial, deu-se um tiroteio (...). Os mortos da VPR teriam disparado dezoito tiros, sem acertar um só. Receberam 26, catorze na cabeça. (...) A advogada Mércia de Albuquerque Ferreira viu os cadáveres no necrotério. Estavam brutalmente desfigurados".
Quando seu verdadeiro papel ficou evidenciado, ele passou a viver sob a proteção dos órgãos de segurança, que lhe proveram remuneração e fachada legal sob identidade falsa. De vez em quando, para aumentar os ganhos, concedia entrevistas que foram publicadas com destaque na grande imprensa e até viraram livros.

O programa de anistia federal, a cujos benefícios Anselmo aspira, foi criado para oferecer reparações àqueles que sofreram danos físicos, psicológicos, morais e profissionais em decorrência do estado de exceção vigente no Brasil entre 1964 e 1985.

Conseqüentemente, caso o cabo Anselmo houvesse sido, conforme alega, um militante revolucionário até meados de 1971, só então mudando de lado, sua vida teria sofrido um dano plausível em função do arbítrio instaurado no País, a despeito do juízo que façamos de quem chegou a se gabar numa entrevista de haver causado a morte de "cem, duzentos" idealistas que combatiam a ditadura e o tinham como companheiro.

Ou seja, se o poder não tivesse sido usurpado por um grupo de conspiradores em 1964, o cabo Anselmo continuaria presumivelmente servindo a Marinha, ao invés de se tornar um homem que há décadas carrega o estigma da infâmia, vivendo escondido no próprio país. Daí o direito formal que teria à reparação que está pleiteando.

COOPTADO OU INFILTRADO?

A menos, claro, que se consiga comprovar a tese sustentada por vários de seus ex-colegas da Armada: a de que o cabo Anselmo desde o primeiro momento serviu à comunidade de informações, como agente infiltrado nos movimentos de esquerda.

Alegam, primeiramente, que ele tudo fez para radicalizar os movimentos dos subalternos das Forças Armadas – fator decisivo para que a oficialidade decidisse quebrar seu juramento de fidelidade à Constituição, passando a apoiar os conspiradores.

Logo após o golpe, Anselmo pediu asilo na embaixada mexicana. Mas, embora fosse uma das pessoas mais procuradas do País, resolveu sair andando de lá, sem ser detido.

Algum tempo depois foi preso, exibido como troféu pela ditadura... e logo transferido para uma delegacia de bairro, na qual, diz Gaspari, “Anselmo fazia serviços de telefonista, escrivão e assistente do único detetive do lugar”.

A situação carcerária do ex-marujo, continua Gaspari, não cessou de melhorar:
“Com as regalias ampliadas, era-lhe permitido ir à cidade. Numa ocasião surpreendeu o ministro-conselheiro da embaixada do Chile, visitando-o no escritório e pedindo-lhe asilo. Quando o diplomata lhe perguntou o que fazia em liberdade, respondeu que tinha licença dos carcereiros. O chileno, estupefato, recusou-lhe o pedido”.
Finalmente, sem nenhuma dificuldade, Anselmo deixou a cadeia em abril de 1966. Nada houve que caracterizasse uma fuga: apenas constataram que o hóspede saíra e não voltara.

Em sua excelente coluna de hoje, O dito cabo Anselmo (acessar aqui), que recomendo com entusiasmo, o jornalista Jânio de Freitos assim comenta tal episódio:
"O compreensível ódio da oficialidade desacatada pelos marinheiros, logo na mais classista das forças militares, transmudou-se em represália feroz quando o golpe possibilitou a prisão da marujada rebelde. Masmorras e prisão nas piores condições em navios foram o destino comum dos apanhados. Não, porém, para o maior incitador da rebelião e das ameaças à oficialidade: Anselmo foi posto em um pequeno e pacato distrito policial na orla da floresta do Alto da Tijuca, sem vigilância especial, e disponível para seus visitantes. Em poucos dias, não precisou de mais do que sair pela porta para a liberdade. Os visitantes perderam a sua nos dias seguintes".
E foi mais longe o grande jornalista, acrescentando uma informação não muito conhecida sobre Anselmo:
"Também por aquelas alturas, um cartunista jovem e já famoso foi solicitado a ajudar 'o caçado' Anselmo, arranjando-lhe um abrigo por alguns dias. O rapaz deu-lhe a chave de um apartamento. Em troca, recebeu os efeitos habituais da repressão, e mais tarde viveu anos de exílio na Suíça".
NOVA MISSÃO DE AGENTE PROVOCADOR?

Se ficar estabelecido que o Anselmo foi sempre um agente duplo, ele não fará jus à anistia federal; mas, claro, os antigos comandantes do Cenimar, Deops e órgãos congêneres dificilmente atestarão que ele estava na sua folha de pagamentos antes mesmo da quartelada de 1964.

O certo é que as chamadas provas circunstanciais não bastam para privá-lo da reparação a que moralmente não faz jus, inclusive por ter sido, como assinala Jânio de Freitas, "criada, entre outras, para as suas vítimas".

Embora Jânio de Freitas tenha carradas de razão em tudo que afirma, a Comissão de Anistia não poderá basear sua decisão em ilações como a de que a "a história rocambolesca" da fuga do Anselmo, acima relatada, "vale por um atestado". Concordo plenamente, mas temo que isto não seja suficiente, em termos legais.

Outra trecho significativo de sua coluna:
"Anselmo diz ter dificuldades financeiras (...). Tais dificuldades, supondo-se que existam, não eliminam a questão de como se manteve nos últimos 45 anos. E, ainda, o fato de que os serviços secretos e as correntes militares da ditadura, ou delas originárias, nunca abandonaram um dos seus que se mantivesse fiel, como Anselmo. Os anos desde o fim da ditadura estão repletos de nomes e histórias assim. E, por gratidão ou dever funcional, a Marinha e a ditadura deixaram provas do tratamento especial ao dito cabo Anselmo".
Está certo o colunista ao insinuar que as motivações de Anselmo possam ser outras que não as financeiras. É bem capaz de ele continuar recebendo mesada generosa das viúvas da ditadura e estar apenas cumprindo uma nova missão de agente provocador: a de fornecer um trunfo propagandístico contra o programa de anistia federal, caso este indefira o seu pedido.

É tudo de que precisa a extrema-direita para infestar a internet com acusações de que estariam sendo adotados dois pesos e duas medidas.

Alvejar as reparações que o Brasil concede seguindo recomendações da ONU está entre os carro-chefes da propaganda enganosa dos Ternumas da vida, pois as cifras alardeadas causam inveja num país em que nunca houve maior respeito pelos direitos dos cidadãos. [Nem haverá jamais, se as tentativas de introdução de práticas civilizadas continuarem despertando reações tão tacanhas.]

Tudo isso considerado, talvez a Comissão seja mesmo obrigada a engolir esse sapo gigantesco: anistiar um indivíduo ignóbil a ponto de causar a morte da companheira que engravidara (a paraguaia Soledad Barret Viedma), tendo preferido propiciar o massacre de seis revolucionários do que salvar sua amante e a criança que ela concebia.
Related Posts with Thumbnails