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sábado, 2 de dezembro de 2017

ASSISTA A UM EXCELENTE DOCUMENTÁRIO SOBRE A 'OPERAÇÃO CONDOR' E CONHEÇA UM COMPANHEIRO POR ELA VITIMADO

"Às 18 horas do dia 5 de dezembro de 1973, meu pai Joaquim Pires Cerveira (...) se dirigiu a um encontro com seu companheiro de Organização (...) João Batista de Rita Pereda.

Atropelado e sequestrado com Pereda, no centro de Buenos Aires, pela Operação Condor, foram ambos entregues à ditadura brasileira.

Foi assassinado em 13 de janeiro de 1974 no DOI-Codi da Barão de Mesquita (RJ), tornando-se um desaparecido político.

Dali para frente, a vida se resumiu na busca da verdade e dos seus restos mortais."

O depoimento é de Neusah Cerveira, jornalista, economista, geógrafa e historiadora.

Segundo ela, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Deops/SP, comandou pessoalmente o sequestro, com a colaboração de agentes da Polícia Federal e do Exército argentinos. Teria sido o pontapé inicial da Operação Condor, embora a formalização desse acordo de cooperação entre as ditaduras sul-americanas só haja ocorrido em 1975.

Enviado a São Paulo, Cerveira ficou à disposição do DOI-Codi, então chefiado por Carlos Alberto Brilhante Ustra.

E foi Ustra em pessoa que o entregou ao DOI-Codi/RJ, onde chegou numa ambulância, às 23h do dia 12. Durante a madrugada executaram-no; depois, deram sumiço nos seus restos mortais.

Conheci Cerveira em maio/1970, no DOI-Codi/RJ. Quarentão, bondoso, esforçava-se por elevar o moral dos colegas de cela, cantando músicas de sua autoria.
Neusah: "busca da verdade e dos restos mortais"

Uma delas ficou para sempre na minha lembrança. Começava assim: "É bonito o anoitecer na praia,/ é bonito o anoitecer no mar./ Eu fui no mar, à tardinha,/ levar meu presente pra nossa rainha./ Ê, ê, é a rainha do mar,/ ah, ah, nossa mãe Iemanjá".

Por razões de segurança, não conversávamos sobre nossas respectivas militâncias. Soube depois que ele havia feito carreira militar, chegando a major; era gaúcho e vinha das hostes brizolistas.

Mal os golpistas de 1964 usurparam o poder, transferiram-no à reserva: ele foi um dos punidos pelo Ato Institucional nº 1.

Preso em outubro/1965, acabou sendo em maio/1967 inocentado da acusação de ter facilitado a fuga do coronel Jefferson Cardim Osório, pertencente ao Movimento Nacionalista Revolucionário.

Nova detenção em 1970, quando fomos colegas de infortúnio. Sua esposa e filho também sofreram maus tratos.

Minhas recordações, evidentemente, são nebulosas, tanto tempo depois. Mas, ficou-me a imagem de um homem do tipo caseiro, cuja aparência afável e inofensiva contrastava com a dos ex-militares da minha própria organização, a VPR; estes tinham ar decidido e pareciam sempre prontos para a ação.

Presos políticos trocados pelo embaixador alemão; Cerveira é o grisalho, na fileira do fundo.
Minha avaliação, face ao que fiquei sabendo depois, não estava longe da realidade. Cerveira, bom pai de família, poderia perfeitamente ter levado uma existência prosaica. Era a noção do dever, a fidelidade à causa revolucionária, que o forçava a enfrentar perigos e viver fugido.

Um dos 40 presos libertados quando do sequestro do embaixador alemão, viajou em junho/1970 para a Argélia.

No Chile, participou em 1972 do julgamento de uma dirigente da VPR, acusada de pusilanimidade diante da repressão. Convenceu os demais julgadores de que, mesmo sendo ela culpada, revolucionários não deveriam matar revolucionários. Salvou-lhe a vida.

Sem a mínima ambição pessoal, com enorme idealismo e força moral, Cerveira foi um daqueles quadros que fizeram muita falta na redemocratização do País.
Cerveira na lista dos incinerados

SEQUESTRADO EM BUENOS AIRES, ASSASSINADO NO DOI-CODI E INCINERADO NA USINA CAMBAHYBA.

"Maria de Lourdes Pires Cerveira (...) conversou com o marido pela última vez em novembro de 1973, quando combinaram que a família se reuniria em Buenos Aires em janeiro de 1974. Joaquim deveria ter ligado para a casa em 10 de dezembro, data do aniversário da filha, mas não o fez.

No dia 3 de janeiro, a família recebeu um telefonema anônimo informando que Cerveira fora sequestrado na capital portenha quase um mês antes, mais precisamente no dia 5 de dezembro.

...O anfitrião de Joaquim Cerveira em Buenos Aires, de sobrenome Rossi, conta que no dia seguinte, 6 de dezembro de 1973, às 3 horas da madrugada, seis policiais argentinos que se identificaram como pertencentes à Polícia Federal realizaram uma busca na residência de Cerveira à procura de armas e documentos.

Retornaram às 11 horas da manhã acompanhados de um homem 'que parecia chefiar' o grupo e, pela descrição, poderia ser Sérgio Paranhos Fleury – identificado por uma cicatriz na testa. Em meio a ameaças, eles mostraram uma foto de Cerveira aos outros residentes da casa e se retiraram da mesma após darem a entender que Cerveira havia sido preso.
Fleury não usava terno branco ao arrancar sangue dos presos

...Em 19 de fevereiro de 1974, Maria de Lourdes foi informada por Oldrich Hasselman, representante latino-americano do Alto Comissariado da ONU para Refugiados em Buenos Aires, que os dois homens desaparecidos na Argentina, Cerveira e João Batista, foram vistos na noite de 12 para 13 de dezembro de 1973, quando chegavam numa ambulância fortemente guardada, na Polícia do Exército (DOI-Codi), na rua Barão de Mesquita, em lamentável estado físico.

...A morte de Cerveira e de mais outros 11 desaparecidos foi confirmada pelo general Adyr Fiúza de Castro, entrevistado anonimamente pelo jornalista Antônio Henrique Lago para o jornal Folha de S.Paulo, em matéria publicada em 28/01/1979. Adyr Fiúza de Castro foi criador e primeiro chefe do Centro de Informações do I Exército...

...Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, o ex-delegado Cláudio Guerra afirmou que o delegado Sérgio Paranhos Fleury teria sido o responsável pelo sequestro de Cerveira em Buenos Aires e também por seu traslado para o Brasil – informação que Guerra teria obtido do próprio Fleury. 

Guerra afirmou ainda que o corpo do major Joaquim Pires Cerveira lhe foi entregue pelo coronel Freddie Perdigão no Destacamento de Operações de Informações , à rua Barão de Mesquita, Rio de Janeiro, para incineração na usina Cambahyba, no município de Campos de Goytacazes (RJ).
Neste inferno o conheci; a ele Cerveira voltou para morrer.

...[Uma testemunha ocular] faz o seguinte relato do aspecto dos dois brasileiros quando foram levados para a prisão: "Estavam amarrados juntos em posição fetal, os rostos inchados, mostrando vestígios de sangue fresco. Estavam em estado de choque, obviamente extenuados. Foram levados para o que é conhecido como celas frigoríficas individuais. São câmaras de torturas. A temperatura interna pode ser reduzida a menos de quinze graus. O sistema nervoso do prisioneiro pode também ser afetado. Isto é feito por meio de um sistema de alto-falantes, que reproduz os gritos de pessoas sofrendo torturas".

...Diante das investigações realizadas, conclui-se que Joaquim Pires Cerveira foi sequestrado, torturado e desapareceu em ações perpetradas por agentes do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar, implantada no país a partir de abril de 1964. 

As circunstâncias do desaparecimento de Joaquim Pires Cerveira comprovam a coordenação entre os serviços de informações militares brasileiros e argentinos e o trabalho clandestino deles para monitorar, perseguir e sequestrar exilados políticos no Cone Sul."(trechos do tópico referente a Joaquim Cerveira no relatório final da Comissão Nacional da Verdade)

Assista aqui à íntegra do filme Condor (2007), dirigido por Roberto Mader,
 documentário vencedor do Prêmio Acie de Cinema de 2009, tanto
pelo veredito do júri quanto na votação do público.

domingo, 29 de maio de 2011

"CADÊ A DEMOCRACIA, PRESIDENTE DILMA?"

Por compartilhar sua indignação pelos mortos e preocupação com os vivos, reproduzo a carta aberta enviada à presidente Dilma Rousseff pela combativa Neusah Cerveira, filha do saudoso Joaquim Cerveira (meu companheiro de cela em 1970 no DOI-Codi/RJ, executado pela Operação Condor em 1974):
"A Srª deve estar muito bem informada por seus ministros dos assassinatos de ativistas sociais que estão acontecendo nos últimos dias na Região Norte do país. Foram três em menos de uma semana, de forma covarde, cruel e, obviamente, crimes encomendados.

Sabemos, o Brasil inteiro sabe e agora o mundo inteiro saberá que existe uma lista de 'marcados para morrer'.

O crime desses companheiros é o de defender nossas florestas e denunciar o contrabando ilegal de madeira e outros tipos de 'irregularidades' dos grandes latifundiários que dominam a região! Não vou nominá-los (os latifundiários) porque seriam  nomes, em alguns casos, vergonhosos para nosso País!

Principalmente, para a nossa débil democracia, conquistada com o sangue e a dor de tantos que tombaram para que a Sra. hoje tivesse condições de ocupar o mais alto cargo da Nação!
 Não vou me estender, nem ocupar seu tempo, porém advirto que não vamos tolerar que essa macabra 'lista de marcados para morrer' prossiga da forma impune com que têm sido tratados os assassinatos de ativistas sociais e de direitos humanos. Tratados com morosidade judicial e total impunidade!
 Não preciso dizer a senhora como dói para uma família ver seu pai executado dentro do carro enquanto passeava com sua família! Como dói Para crianças perder pai e mãe executados...

Cadê a DEMOCRACIA, Presidente Dilma? Veja bem que meu pedido não trata de crimes de 40 anos atrás e sim do aqui, do hoje e do amanhã!

Uma palavra sua, e esses assassinatos acabam! Ordene que acabem, por favor! Construa uma democracia que faça jus à sua HISTÓRIA de luta! Mostre a que veio, Presidente!"

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ANOS DE CHUMBO: OS LONGOS BRAÇOS DA REPRESSÃO

"O golpe de 1964 encastelou no poder um grupo de militares fanáticos pela doutrina da Escola Superior de Guerra (ESG), organizada em 1946.

Ao longo de quase 20 anos, os militares e civis da ESG formularam e desenvolveram a doutrina e formaram uma nova 'elite' para dirigir o país.

Várias tentativas de golpe de estado, durante as décadas de 50 e 60 haviam falhado. Mas, em 1964, a Segurança Nacional estava no poder.

(...) O Exército recebeu a tarefa de submeter a nação aos ditames da ideologia golpista.

Com a intenção de subjugar qualquer tentativa de reação democrática, foram criados organismos de repressão, sendo o primeiro deles a Oban (Operação Bandeirante), lançada em junho de 1969, que, posteriormente, recebeu a denominação de DOI-Codi (Departamento de Operações Internas - Centro de Operações de Defesa Interna).


Havia também organismos não oficiais clandestinos, que serviam ao sistema, como o Esquadrão da Morte, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC). A organização denominada Tradição Família e Propriedade (TFP), embora fosse uma associação legal, possuía, segundo depoimentos, uma facção ilegal, inclusive com centros de treinamento de guerrilha anticomunista em Minas Gerais.

Durante a década de 50 do Século XX, era visível o crescimento, dentro da Igreja, de setores que apoiavam as lutas populares e a defesa dos direitos dos pobres e oprimidos socialmente, num prenúncio do que viria a ser a Teologia da Libertação.

Em reação a esse processo, surgiu a Sociedade Brasileira em Defesa da Tradição, da Família e da Propriedade, (...) uma organização católica de extrema direita, cujos membros recebem treinamento paramilitar, e cujo ideário é bastante próximo ao neonazismo, exceto pela pregação religiosa bastante fanática e obscurantista que caracteriza esta organização.

A TFP existe até os dias de hoje, e organiza campanhas contra a reforma agrária (para eles, uma bandeira dos comunistas), contra o direito ao aborto, e contra o Projeto de Lei da Parceria Civil Registrada, e possui fortes financiadores, não somente da alta hierarquia da Igreja Católica, mas também de setores do grande empresariado.


Um terceiro braço da repressão, talvez o mais terrível e que só recentemente veio à luz e está sendo desvendado e denunciado, foi a Operação Condor, ou melhor, é a Operação Condor, visto que, segundo farto material jornalístico nacional e internacional, inclusive depoimentos de participantes, continua em atividade.

De acordo com o descobridor dos Arquivos do Terror, o advogado paraguaio e ex-preso político Martin Almada, a Operação Condor continua em funcionamento.

O advogado e ex-prisioneiro político paraguaio Martín Almada apresentou os chamados arquivos do terror à Comissão de Direitos Humanos do Parlamento do Uruguai, onde sustenta que a operação repressiva continua em andamento no Cone Sul.

Entre os documentos entregues (...) à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, há declarações do uruguaio Gustavo Insaurralde, militante do Partido pela Vitória do Povo, que teriam sido obtidas sob tortura, além de informações sobre seu traslado em avião militar à Argentina.


O documento denuncia uma lista de 40 uruguaios detidos no Paraguai pela ditadura, além de outro documento que indicaria os nomes do co-fundadores da Operação Condor e dos possíveis 'vôos da morte' em ambos países.

Almada também diz ter encontrado documento que mostra que, em abril de 1997, 'um coronel paraguaio disse a um colega equatoriano: envio aqui uma lista de subversivos paraguaios para a elaboração de uma lista de subversivos da América Latina'.

O ativista denuncia também que, durante a presidência de Carlos Menem na Argentina, um grupo de militares esteve reunido em Bariloche para intercambiar dados e nomes de 'subversivos da região'.

Ele disse ainda que as reuniões também foram feitas em 1997, em Quito, capital do Equador, em 1999, em La Paz, capital da Bolívia, e em Santiago do Chile, em 2001...


A Operação Condor foi responsável por milhares de assassinatos e desaparecimentos de militantes revolucionários latino-americanos."

(Neusah Cerveira, doutora em História Social pela FFLCH/USP, no artigo 
"Rumo à Operação Condor - ditadura, tortura e outros crimes", publicado 
em junho/2009, na edição nº 38 do Projeto História, São Paulo)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

HACKERS FASCISTAS ME TIRARAM DO AR

Não sou paranóico. Diante de qualquer fato inusitado, procuro sempre esgotar as explicações banais, antes de aceitar que houve uma ação premeditada contra mim.

No entanto, é a segunda vez que tiram meus blogues do ar em momentos importantes da luta pelo Cesare Battisti.

Há alguns meses, foram sucessivas denúncias ao Blogger de que o Náufrago da Utopia e o Celso Lungaretti - O Rebate seriam blogues de spams. A improcedência das acusações, felizmente, foi logo estabelecida.

Ontem, minha conta do GMail foi atacada - e os blogues a ela vinculados passara a dar mensagem de "removido".

Não estava conseguindo logar no GMail. Mas, mandando mensagem a seus serviços de apoio, consegui que fosse sanado o problema.

A companheira Neusah Cerveira também vem sofrendo sucessivos ataques de hackers, além de outros mais diretos, como a suspensão da pensão da sua mãe (viúva do Major Cerveira, assassinado pela Operação Condor), prisões, inquéritos policiais e pixações na sua casa.

É bom ficarmos atentos. A direita dos porões começa a agir com mais desenvoltura.
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