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sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

RESISTÊNCIA À TIRANIA, TERRORISMO CONVENCIONAL E TERRORISMO DE ESTADO

Este atentado terrorista contra o arquiduque Ferdinando precipitou  a 1ª Guerra Mundial
O
terrorismo foi uma prática característica da segunda metade do século XIX, quando revoltosos impotentes para conduzir seus povos à tomada de poder decidiram intimidar os governantes, atentando contra suas vidas.

Então, em vez de conquistar as massas para a revolução, eles optaram por tornar impossível à classe dominante continuar governando. Tentavam criar o caos. O termo terrorista definia com exatidão a atuação política desses cidadãos.

Os terroristas mais característicos foram os narodniks da Rússia, que cometeram um sem-número de atentados contra o czar e seus ministros, à bala e com bombas.

Já os movimentos de resistência aos regimes militares latino-americanos, tanto quanto os que combateram o nazi-fascismo na Europa, sempre objetivaram conquistar o apoio das massas para sua causa. Nunca quiseram criar o caos. Designavam suas ações com uma expressão que fala por si mesma, propaganda armada. Eis algumas dessas ações:
O irmão de Lênin tentou
matar o czar: foi executado
— e
xpropriavam bancos para manter a luta e sustentar militantes nas condições de rigorosa clandestinidade;
— sequestravam diplomatas para trocá-los pelos resistentes que estavam presos e sofrendo torturas atrozes;
— ocupavam estações de rádio para obrigar a colocação no ar de seus manifestos;
— tomavam supermercados e convidavam os trabalhadores a saqueá-los;
— sequestravam empresários e condicionavam sua libertação à distribuição de gêneros alimentícios em favelas;
— criavam guerrilhas na esperança de que se tornassem o embrião de um exército de libertação.

Como em toda luta desse tipo, houve um ou outro excesso, como a bomba contra o jornal O Estado de S. Paulo (que só chamuscou o mural) e o atentado contra o QG do II Exército (que vitimou um recruta e foi criticadíssimo pela própria esquerda).

No entanto, o Comando de Caça aos Comunistas (organização paramilitar consentida pela ditadura), sozinho, cometeu muito mais ações caracteristicamente terroristas do que todos os grupos de esquerda juntos.

Idem, os integrantes dos órgãos de segurança da ditadura que tentaram sabotar a abertura de Geisel, com bombas, atentados e agressões covardes aos jornaleiros que ousavam vender veículos alternativos (suas bancas eram incendiadas!).

Centenas, talvez milhares, de inocentes teriam morrido no Riocentro, se o feitiço não houvesse virado contra o feiticeiro.

E, claro, que moral tinha a ditadura militar brasileira para rotular alguém de terrorista?! Com absoluto desprezo pelos direitos humanos, cometeu atrocidades que incluíram o sequestro e a execução de opositores, capturados com vida e levados a centros clandestinos de tortura, para sofrerem suplícios terríveis e depois receberem o tiro de misericórdia; e a ocultação de seus cadáveres, tanto que famílias continuam em busca dos restos mortais dos seus entes queridos.
Atentado contra o WTC deu aos EUA pretexto para desmedidas violações dos direitos humanos   
Quem levou a grau extremo a prática do
terrorismo de estado não deveria nem sequer tocar nesse assunto...
ROLO COMPRESSOR – O rótulo de terrorista, portanto, não passou de uma deturpação da História com fins propagandísticos. Assim como chamavam de terroristas quem não o era e nunca foi, os militares brasileiros chegaram até a distribuir por todo o País cartazes acusando de assassinos pessoas que jamais haviam matado uma mosca – inclusive eu.

Era, sim, a mais vil e infame aplicação, no Brasil, dos conceitos de Goebbels: repetir tantas vezes uma mentira até que ela passasse por verdade.

Tudo isso ficou para trás quando os historiadores esclareceram a verdade sobre os anos de chumbo, os juristas reconheceram que a ação dos grupos armados se deu em conformidade com o princípio de resistência à tirania e o Estado brasileiro admitiu e começou a reparar sua culpa pelos maus feitos da turba de delinquentes que agiu em seu nome durante 21 anos.
Guerra psicológica: mentiras oficiais
eram espalhadas pelo Brasil inteiro
   

No entanto, a extrema-direita se reagrupou e passou a desenvolver uma propaganda avassaladora e massacrante, principalmente na internet. E voltou a tratar os resistentes como terroristas, exumando o velho clichê propagandístico, que já estava desmoralizado e banido do debate civilizado.

Não tenta mudar conceitos no ambiente acadêmico, pois sabe que seria exposta ao ridículo. Seu alvo preferencial, ao buscar prosélitos, são os incultos, os fracassados, os medíocres, os frustrados e os ressentidos – a mesmíssima escória que respaldou a ascensão de Mussolini e Hitler.

Aproveitando a justa indignação contra o Governo Lula – que é tudo, menos um governo de esquerda –, desenvolve uma pregação totalitária sem sutileza nenhuma. Se a justiça fosse séria no Brasil, muitos néo-integralistas já estariam presos por pregarem ostensivamente o fim da democracia.

Essa corja atua como rolo compressor, intimidando as pessoas equilibradas, que acabam deixando de participar dos fóruns de discussão política na internet para não terem de enfrentar uma malta de adversários que não hesita em recorrer a intimidações e grosserias.

Ou seja, fazem na internet o que os primeiros fascistas e nazistas faziam nas ruas: amedrontavam as pessoas de bem, para que não reagissem à escalada do arbítrio.

Como devemos nos comportar?

Não é próprio dos seres humanos decentes ficarmos discutindo com seres tão destituídos de humanidade, solidariedade, compaixão e, até, compostura. Pessoas capazes de vituperar de forma demagógica e virulenta o que um grande homem como o rabino Henry Sobel fez [pequenos furtos em estabelecimentos comerciais] em decorrência de uma moléstia, só nos causam o mais profundo asco.

Mas, quem deixar o terreno livre para os obscurantistas será cúmplice de todos os retrocessos que vierem a ocorrer. Então, não podemos nos acovardar nem continuar cedendo terreno.
Eduardo Bolsonaro negando a tortura; na
Europa, quem nega o holocausto vai em cana

Tampando o nariz, devemos reagir. Marcar posição. Afirmar nossa crença na civilização e nosso repúdio à barbárie.

Pois eles, com suas mentiras e calúnias, são muito mais fracos do que nós, com nossos ideais e verdades. Podemos expulsá-los de volta para as trevas das quais nunca deveriam ter saído.

Lembrem-se: é fácil esmagar o ovo da serpente, mas muito difícil matar a víbora depois. (por Celso Lungaretti)
OBSERVAÇÃO – Relendo artigos antigos, encontrei num deles este esclarecimento até didático sobre o que realmente era e é terrorismo, palavra que nos anos de chumbo passou a ter um novo significado, utilitário, no uso propagandístico que lhe deram as viúvas da ditadura brasileira e os ultradireitistas em geral.

Em março de 2007 fiz um artigo sobre o que haviam sido os 21 anos de ditadura militar e os direitistas o combateram encarniçadamente. Dei uma resposta a todos neste outro texto e, derrotados na batalha dos argumentos, eles partiram para o ad hominem, tentando desqualificar-me como ex-terrorista.

Aí, para encerrar a polêmica, escrevi um terceiro artigo no qual ensinei aos fanáticos burrinhos o que era realmente terrorismo.  Foi dele que extraí esse longo trecho, que, acredito, continua sendo esclarecedor nos dias atuais. (CL)

quarta-feira, 3 de junho de 2020

OS MILITARES QUE ANTECEDERAM O BOZO NO EXIBICIONISMO EQUESTRE TAMBÉM TINHAM IMAGENS HORROROSAS

Newton Cruz pelo menos mantinha pose de general...
ruy castro
GOVERNAR
A CAVALO
Os estertores da ditadura militar produziram uma figura de pé de página na história do Brasil: o general Newton Cruz. Enquanto chefe do SNI sob o presidente Figueiredo, só as trevas o conheciam. Mas, em 1983, quando Figueiredo o promoveu a comandante militar do Planalto, seu estilo saiu à luz do dia.

Newton Cruz foi pioneiro em mandar repórteres calar a boca, partiu para estrangular um deles numa coletiva e, de rebenque e capacete, comandava a cavalo as operações antiprotesto em Brasília, chicoteando os carros e jogando o pobre animal contra as pessoas na calçada.

É um perigo quando autoridades se prestam a tais fanfarronices. O povo tende a identificá-los com sua montaria, vendo neles um único quadrúpede. Newton Cruz nunca se livrou dessa imagem, nem mesmo quando foi acusado de envolvimento em episódios turvos da ditadura, um deles a bomba no Riocentro, em 1981. Passou à posteridade aos relinchos.
...enquanto o ex-tenente faz má figura até ao montar. 

Jair Bolsonaro saiu a cavalo pela Esplanada dos Ministérios neste domingo (31), saudando seus cada vez mais reduzidos apoiadores. Fez isso em mangas de camisa e com as fraldas para fora, como sói —afinal, é apenas um ex-tenente que foi promovido a capitão ao ser mandado embora do Exército. Nunca um suboficial lhe prestou continência. 

O homem a cavalo imagina-se uma potência, por ver os outros de cima para baixo. Bolsonaro, desmontado, ao rés do chão e acuado pela Justiça, já não está com essa potência toda.

E começa a tornar possível o que até há pouco parecia impensável: unir contra si as forças democráticas do Brasil, de várias cores políticas. Na ditadura foi assim —custou, mas chegou-se a um ponto em que ela já não interessava a ninguém, nem aos militares. A Bolsonaro só restará uma minoria falangista. Até o centrão, que ele pensou ter comprado, lhe dará uma banana.

O problema de governar a cavalo é que um dia ele tem de voltar para a estrebaria. (por Rui Castro)
Figueiredo se deliciando com a flagrância equina
Toque do editor — Talvez por limitações de espaço, o Ruy deixou de citar o mais notório cavaleiro que usou a faixa presidencial: o ditador João Baptista Figueiredo.

Certa vez, numa entrevista, indagaram-lhe o que achava do cheiro de povo e ele, de bate-pronto, tascou: "Eu prefiro o cheiro do cavalo". 

Piores do que esta, só a resposta dada a um garoto que lhe perguntou o que faria se o pai dele recebesse apenas um salário-mínimo ("eu dava um tiro na cuca") e sua afirmação de que "a solução para as favelas é jogar uma bomba atômica".

Também o povo não gostava do cheiro do Figueiredo, tanto que ele pediu aos brasileiros que o esquecessem e deixou a presidência por uma porta lateral, fugindo da cerimônia para não transferir pessoalmente a faixa a seu sucessor José Sarney, o vice empossado em razão da doença e morte de Tancredo Neves. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

UNIVERSIDADE, A ÚLTIMA TRINCHEIRA CONTRA ESTUPIDEZ DA ERA BOLSONARO – 2

 (continuação deste post)
Invasão do campus da UnB em 1965; outras viriam, inclusive a chamado de um reitor.
Esse conluio entre regime militar e universidade foi mais intenso e ignóbil aqui mesmo, na capital brasileira, quando os generais aclamados pelo capitão-presidente profanaram a sagrada autonomia da Universidade de Brasília, a academia que estava no coração da nova ordem sem coração, o regime que combatia a força das ideias pela ideia da força armada, desalmada, desatinada. 

Um regime que expurgou da UnB seus dois primeiros reitores, nomes primeiros da educação e do compromisso ético com a escola e com a liberdade do pensamento: Darcy Ribeiro, criador e fundador da UnB, e Anísio Teixeira, lançador do movimento da Escola Nova, uma escola que enfatizava o desenvolvimento do intelecto e a capacidade de julgamento — tudo aquilo que sofre censura do ordinário projeto da Escola sem Partido sonhado hoje pelo capitão Bolsonaro e sua turma. 

A nova ordem que trazia a desordem institucional afastou ambos — Darcy e Anísio — da UnB, de Brasília, das escolas, dos jovens, do país. Darcy e Anísio, as duas referências maiores da UnB, permaneceram apenas 25 meses à frente da universidade. 
Darcy Ribeiro, lembrado com admiração e carinho...
O mais longevo reitor em Brasília resistiu no cargo 106 meses, quase nove anos. Resistiu porque se tratava de um militar, um interventor, um duro preposto da nova ordem que desprezava a velha ordem democrática, um capitão como Bolsonaro: o novo reitor, José Carlos Azevedo, era um capitão-de-mar-e-guerra da Marinha, o que não deixa de ser simbólico da visão estreita que a ditadura tinha da Universidade.

Azevedo desembarcou na UnB em maio de 1976, uma semana após o Dia Nacional de Lutas contra Prisões Arbitrárias. O capitão começou punindo os estudantes, os estudantes reagiram com uma greve de quatro meses e Azevedo chamou a PM. Era a quarta invasão armada do campus, desde o golpe de 64. Mais de mil estudantes foram expulsos, bem como professores de esquerda. 

Azevedo era homem de confiança do Cenimar, o serviço secreto da Marinha que sequestrou Honestino Guimarães, um estudante de Geologia de 18 anos. Presidente da UNE na clandestinidade, ele foi preso pela Marinha no Rio, torturado pelo Exército em Brasília e levado pela Aeronáutica ao Araguaia, onde foi executado e enterrado na selva pelas tropas que combatiam a guerrilha. Honestino, como Kucinski, é um dos desaparecidos da ditadura. 

O capitão-reitor ainda convocaria mais duas vezes a PM para sustentar sua gestão linha-dura, que só acabaria em março de 1985, três dias antes que o último general da ditadura, seu amigo João Figueiredo, deixasse o Planalto pela porta dos fundos para não passar a faixa ao sucessor civil.
...e o seu antípoda, relegado ao lixão do esquecimento.

Os grandes homens, como dizia a Oração Fúnebre do ateniense Péricles, estão guardados em nossos corações e mentes, mas também esculpidos na pedra dos monumentos, dos museus, das escolas. 

Aqui na UnB temos a Fundação Darcy Ribeiro, o Pavilhão Anísio Teixeira, a revista Darcy e o Memorial Darcy Ribeiro, que ele mesmo – fiel ao seu estilo sedutor – batizou como beijódromo

O DCE da UnB tem o nome de Honestino, que ainda batiza o Museu Nacional, na Esplanada dos Ministérios. A ponte que cruza o lago Paranoá teve, por dois anos, o nome de Honestino, mas uma decisão da Justiça, em 2017, devolveu ao lugar o batismo original Ponte Costa e Silva, o general que firmou o AI-5 que liberou a repressão mais sangrenta que fez desaparecer Honestino e tantos outros.

O capitão Azevedo morreu em fevereiro de 2010 — e não tem um só espaço com seu nome na UnB que ele ultrajou e oprimiu. Azevedo foi descartado no lixão do esquecimento. 

Lamento o revisionismo histórico do capitão Bolsonaro e daqueles que, de forma apressada, carimbam como terroristas todos os que chegaram ao limite da própria vida para confrontar o arbítrio. É uma leviandade que fere os fatos, a memória e, principalmente, a universidade, a nossa universidade. Foi na parcela mais consciente, mais insubmissa, mais generosa da juventude que se buscou a força do bem para o bom combate, o justo combate ao mal da força e da prepotência.

Esse bando de irmãos estava aqui, na universidade. Para eles o bardo escreveu, em Henrique V :
Honestino Guimarães, executado pela repressão ditatorial
"... E nenhuma festa de São Crispim acontecerá/ Desde este dia até o fim do mundo/ Sem que nela estejamos lembrados;/ Nós poucos, nós poucos e felizes, nós bando de irmãos;/ Pois quem hoje derramar seu sangue comigo,/ Será meu irmão; seja ele o mais vil que for/ Este dia enobrecerá sua condição".
Foi da universidade, desse bando de irmãos, que se elevou o protesto mais veemente, a rebeldia mais indignada, o gesto mais altivo contra o mal, a prepotência, a força. Repudiando o que fizeram aqui, ao atropelar a sagrada autonomia da Universidade; denunciando o que fizeram ali, ao afrontar o sagrado império da lei; ao violar a Constituição, o Parlamento, os tribunais, as liberdades, ferindo os direitos humanos, machucando o corpo humano. 

Muitos jovens deste país poderiam ter calado, ter sufocado, ter consentido com o que se fazia e desfazia. Mas, reagiram, buscaram as ruas, as escolas, os parlamentos. 

Quando esses espaços foram cercados, ocupados e desfigurados pela força, foram obrigados à resistência e ao confronto extremo. 

No limite do insuportável, abandonaram famílias, carreiras, amigos, afetos e a luz do dia para um combate desproporcional, arrojado, irrestrito, utópico contra a violência que atingia a todos. 
"não eram comandados, agiam pelo simples dever de consciência"

Não fizeram aquilo porque eram mandados, comandados, teleguiados. Fizeram tudo aquilo porque queriam, porque sentiam, porque deviam, pelo justo imperativo da sobrevivência, pelo forte motivo da urgência, pelo simples dever de consciência. Arriscaram suas vidas, acabaram suas vidas lutando e combatendo por nossas vidas.

Que se diga ao capitão Bolsonaro: esses jovens foram resistentes, como a Resistência francesa que lutou contra o invasor e o opressor nazista. Foram inconfidentes, como os heróis da conjuração mineira que anteciparam o grito por liberdade. Foram combatentes, como os jovens do exército brancaleone de George Washington que desafiaram o Império britânico para estabelecer os fundamentos do regime democrático. Foram insurgentes como os negros que combatiam o apartheid na África do Sul.

Lutaram pela liberdade contra a opressão de exércitos, regimes e sistemas que só sobrevivem à custa da liberdade dos outros. Fizeram levantes sancionados pelo direito imemorial e universal à luta contra a tirania.

Que se explique ao capitão Bolsonaro: guerrilha não se confunde com terrorismo, definido sim pelo deliberado objetivo de infundir terror entre a população civil, sob o risco assumido de vítimas inocentes – como no caso do terror consumado do 11 de Setembro nas Torres Gêmeas de Nova York, como no caso do terror frustrado da bomba do DOI-Codi no Riocentro do Rio de Janeiro.
"terrorista foi o atentado frustrado contra o Riocentro"
É por isso que ninguém, nem mesmo um cínico, se atreve a escrever terroristas de Sierra Maestra ou terroristas do Araguaia. Eram guerrilheiros, não terroristas.

Que se esclareça ao capitão Bolsonaro: terrorista era o Estado, que usou da força e abusou da violência para alcançar e machucar dissidentes presos, indefesos, algemados, pendurados, desprotegidos diante de um aparato impiedoso que agia à margem da lei, na clandestinidade, nos porões, torturando e matando sob o remorso de um codinome, encoberto na camuflagem de um capuz.

Que se lembre ao capitão Bolsonaro: terroristas eram os assassinos de Honestino Guimarães, Vladimir Herzog, David Capistrano da Costa, Manoel Raimundo Soares, Stuart Angel Jones, Manoel Fiel Filho, Paulo Wright, Zuzu Angel e tantos outros. (por Luiz Claúdio Cunha, ex-consultor da Comissão Nacional da Verdade, jornalista e escritor, em artigo publicado no site Congresso em Foco)
(continua neste post)

domingo, 2 de agosto de 2015

NÃO ADIANTA TENTAR VENCER NO FRONT DA COMUNICAÇÃO UMA GUERRA QUE ESTÁ SENDO PERDIDA NO FRONT ECONÔMICO

Meu artigo deste sábado (01/08), previsivelmente, foi mal recebido em espaços petistas, pois não entrou no espírito da autêntica tempestade em copo d'água que eles estão fazendo a partir de um episódio menor --principalmente se comparado ao terrorismo que já grassou por aqui.

Nos anos de chumbo, a direita executou atos de terrorismo duros, que chegaram a causar danos de monta e a ferir/assassinar pessoas. Houve sequestros e torturas praticados por paramilitares, houve invasão de teatro para espancar atores, houve envio de cartas-bombas para instituições e figuras notórias de esquerda (uma delas matou  Lyda Monteiro da Silva, senhora de 59 anos, funcionária da OAB/RJ), houve incêndios de bancas de jornais em plena luz do dia, etc. O pior de todos, se não malograsse, teria sido o do Riocentro, pois pessoas em pânico, num recinto com as portas trancadas, morreriam pisoteadas aos milhares.

Os atentados de então partiam de ferrabrases organizados. Na década de 1960, principalmente do CCC, cujos quadros não integravam oficialmente o esquema de repressão, mas tinham suas atividades toleradas e até estimuladas pela ditadura. Na de 1970, dos agentes do DOI-Codi que, por baixo do pano, sabotavam a abertura  política do déspota esclarecido Ernesto Geisel.

Já os atentados ao Instituto Lula e ao Sintusp não provieram necessariamente de profissionais; o contrário é bem mais plausível.

Bombas caseiras, até as torcidas organizadas de futebol sabem fabricar. E os que invadiram o Sintusp podem haver sido meros fascistinhas da USP à cata de documentos comprometedores, que na saída teriam aberto as torneiras do gás sem se darem conta dos riscos inerentes.

Nunca devemos magnificar episódios desse tipo sem termos certeza de que sejam parte de uma verdadeira escalada terrorista e não ações isoladas de aloprados de direita. Lembremo-nos da fábula do menino que gritava lobo!... 

O chocante é que o atentado ao Instituto Lula esteja sendo tão superdimensionado (inclusive pela Dilma) e o do Sintusp haja sido totalmente ignorado (inclusive pela Dilma). Ambos se equivalem quanto aos resultados (poucos danos, ninguém ferido), mas no da USP o prédio poderia ter ido pelos ares exatamente quando os funcionários estivessem entrando para mais um dia de trabalho. Qualquer cidadão imparcial haverá de convir que a periculosidade foi imensamente maior em 2012. 

Os petistas então não deram a mínima, como de costume. Se não houvessem sistematicamente negado solidariedade aos outros agrupamentos de esquerda em tais situações, estariam recebendo mais solidariedade agora, quando tentam desesperadamente evitar o impeachment presidencial. A empáfia é péssima conselheira. 

De resto, torno a repetir, chegou a hora de os governistas desistirem de tentar romper o isolamento político tirando da cartola os mesmos coelhos de sempre: encontros engana-trouxas com governadores, alarmismo para poderem posar novamente de mal menor, promessas enganosas de que a recuperação econômica começará já neste semestre quando até as pedras sabem que a coisa vai piorar muito antes de melhorar, etc.

Não adianta tentar vencer no front da comunicação, com factoides e retórica fantasiosa, uma guerra que está sendo perdida no front econômico, por um motivo bem concreto, o péssimo momento da nossa economia. Nem mesmo Goebbels conseguiria...

O que está afundando cada vez mais o Governo Dilma é o empobrecimento dos brasileiros. E não será a partir de uma posição de absoluta fragilidade que ele conseguirá implantar pra valer o arrocho fiscal --o qual, aliás, não tem dado certo ultimamente em lugar nenhum do mundo, mas sim destruído as nações que caem nessa arapuca. 
O alvo correto: MST protesta no Ministério da Fazenda.

A contagem regressiva está em curso e a única forma de Dilma conservar o mandato é começando a acertar, depois de tantos erros cometidos.

Antes de mais nada, há um bode óbvio a ser retirado da sala. Exonerando Joaquim Levy e descartando o receituário neoliberal, Dilma teria, pelo menos, o apoio da esquerda, ponto de partida para uma reversão do quadro atual, adverso ao extremo.

Se a teimosia e a arrogância a continuarem cegando, morrerá abraçada com ele.

sábado, 1 de agosto de 2015

LEMBREM-SE DO ATENTADO AO SINTUSP: INDIGNAÇÃO DE DILMA COM O TERRORISMO É SELETIVA!

Bomba caseira no Instituto Lula é ameaça à democracia
A presidenta Dilma Rousseff repudiou com firmeza o atentado ao Instituto Lula, independentemente de as imagens das câmeras de segurança evidenciarem que se tratava de mera intimidação. Os criminosos queriam apenas fazer barulho, não causar verdadeiros estragos ou ferir alguém.

Mas, o ato em si tem de ser repudiado, qualquer que haja sido a periculosidade. Portanto, ela está certíssima na sua avaliação:
"A intolerância é o caminho mais curto para destruir a democracia. Jogar uma bomba caseira na sede do Instituto Lula é uma atitude que não condiz com a cultura de tolerância e de respeito à diversidade do povo brasileiro".
Assim como estava erradíssima em  janeiro de 2012, quando ignorou olimpicamente um episódio muito mais grave, conforme qualquer um depreende deste alerta que lancei na ocasião:
Tentativa de explodir o Sintusp era uma irrelevância
"... ecos do frustrado atentado ao Riocentro ressoam na denúncia do Sindicato dos Trabalhadores da USP, de que acaba de ocorrer uma 'criminosa tentativa de sabotagem no Sintusp': quando os funcionários chegaram para trabalhar no dia 12, encontraram pastas e documentos revirados e todos os botões do fogão industrial abertos, sem que tivessem sido violados os cadeados de entrada nem as fechaduras das portas que dão acesso à entidade e salas internas.
Funcionários e estudantes se recordam de terem visto, na véspera, vigilantes da empresa Evik e policiais à paisana rondando o sindicato.
...Este é o último capitulo de (...) uma verdadeira ofensiva repressiva feita por parte da reitoria e do governo, que se dá através de processos administrativos, criminais e ações de espionagem contra os diretores e ativistas do sindicato e estudantes que lutam em defesa de uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos".
Dercy Gonçalves explica
Ou seja, daquela vez uma simples faísca poderia ter mandado o Sintusp pelos ares, mas a presidenta da República enterrou a cabeça na areia, como costuma fazer quando é atingida a esquerda autêntica. Chegou ao cúmulo de esparramar copiosas lágrimas retóricas por um oficial da PM agredido nos protestos de rua, num momento em que manifestantes e repórteres eram simplesmente barbarizados pela corporação.

Adota postura diametralmente oposta quando a vítima é boa companheira, ou seja, pertence à fatia da esquerda que antes qualificávamos de reformista e agora está mais desvirtuada ainda (a ala governista do PT,  p. ex., se tornou verdadeira contradição em termos, uma esquerda neoliberal).

Também não me lembro de ter ouvido então a maioria das vozes hoje erguidas exaltadamente contra o terrorismo, numa overdose de indignação democrática. Por que será?

terça-feira, 20 de maio de 2014

AS NOVAS FRENTES DA LUTA DOS SANTOS GUERREIROS PARA QUE OS DRAGÕES DA MALDADE SEJAM PUNIDOS

São Jorge/Zumbi matando o dragão/latifundiário, na visão de Glauber Rocha
A impunidade eterna dos torturadores da ditadura militar e seus mandantes foi acordada em pleno regime de exceção. 

De um lado estavam os algozes, utilizando a libertação dos presos políticos e a permissão de volta dos exilados como moeda de troca para munirem-se de uma espécie de habeas corpus preventivo, pois sabiam ter cometido os mais hediondos crimes contra a humanidade. 

Do outro as vítimas, representadas por uma oposição intimidada e que, ansiosa por virar uma página terrível da nossa História, não mediu o alcance das concessões feitas à tirania. 

Selou-se o pacto num Congresso que várias vezes fora fechado e expurgado, tendo, ademais, a representação popular sido falseada por um verdadeiro arsenal de casuísmos. 

É óbvio que um mostrengo político-jurídico desses violenta os preceitos legais das nações civilizadas e contraria as orientações da ONU para países que voltam à civilização depois de surtos de totalitarismo.

Revogar a auto-anistia dos torturadores seria uma medida imprescindível e urgente em qualquer redemocratização digna deste nome, mas o que ocorreu no Brasil foi uma transição para enganar trouxa, tutelada pelas mesmas forças que moviam os cordéis da ditadura por trás da cortina. As chances de uma ruptura verdadeira acabaram no dia em que foi rejeitada a emenda das diretas-já.

Os presidentes José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. previsivelmente, não quiseram ou não ousaram mexer nesse vespeiro.

Só no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva a revogação da Lei de Anistia foi discutida numa reunião ministerial, mas a corrente dos que temiam espantalhos (encabeçada por Nelson Jobim) prevaleceu. 

Para salvarem as próprias faces, os ministros vencidos (Paulo Vannuchi e Tarso Genro) apontaram aos cidadãos inconformados o caminho dos tribunais. Era o que restava, pois o Executivo optara pela omissão e o Legislativo se fingia de morto; mas, percebia-se, ilusório. Já naquele agosto de 2008 eu advertia (vide aqui) que ficaríamos patinando sem sair do lugar.

A batalha jurídica realmente terminou quando o Supremo Tribunal Federal, numa das decisões mais estapafúrdias e escabrosas de sua História, decidiu avalizar a anistia extorquida mediante chantagem em 1979. Enquanto viger tal decisão, serão infrutíferos os esforços dos santos guerreiros que, movendo uma espécie de guerrilha jurídica, buscam brechas e atalhos para condenar os dragões da maldade. 

Quanto muito, conseguem levá-los aos bancos dos réus nas instâncias inferiores, mas eles invariavelmente são e serão inocentados acima, a menos que o STF mude seu entendimento sobre o fulcro da questão. E este, ao que tudo indica, só o fará se e quando a Lei da Anistia for revogada. 

É, claro, louvável a iniciativa do Ministério Público Federal, de denunciar cinco militares envolvidos na tortura, assassinato e ocultação do cadáver do ex-deputado Rubens Paiva -com base, inclusive, em documentos encontrados no sítio do falecido coronel Paulo Malhães, recentemente assassinado por bandidos comuns (com grande possibilidade de terem sido instrumentalizados por remanescentes da repressão ditatorial, conforme sustentei neste e neste artigos).

Mas, se o STF continuar velando o sono dos injustos, a tentativa dará em nada, como das outras vezes.

Também no Rio de Janeiro, o Grupo de Justiça de Transição do MPF denunciou seis envolvidos no atentado do Riocentro, ação terrorista que causaria um morticínio em larga escala se um dos petardos não  tivesse explodido antes do tempo. 

A juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6ª Vara Federal, acertadamente acatou a denúncia, argumentando tratar-se, à luz do Direito Internacional, de um crime contra a humanidade -portanto, imprescritível. 

Este caso tem uma especificidade que possibilita a abertura de uma exceção à regra da impunidade: os fardados e o civil (um ex-delegado) não estão cobertos pela anistia de agosto de 1979, pois brincaram com fogo em abril de 1981, ao tentarem inibir o processo de redemocratização e o desmonte da engrenagem repressiva dos anos de chumbo

Se nem assim for feita justiça, é melhor darmos uso mais apropriado ao espaço físico dos tribunais -talvez disponibilizando-o para os grupos teatrais, que nele poderão representar suas farsas.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

TORTURADOR-MOR: O MAPA DA MINA EXISTE, SÓ OS PROMOTORES NÃO VEEM

Notícia desta 5ª feira (24) da Folha de S. Paulo:
"A Justiça negou pedido para abrir ação penal contra o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-Codi, pelo desaparecimento de Aluísio Palhano em 1971.

A decisão do juiz Márcio Rached Millani, da 10ª Vara Criminal de São Paulo, é um novo revés à estratégia do Ministério Público Federal de denunciar ex-agentes da ditadura por sequestro de presos políticos.

O juiz diz que a tentativa de processar Ustra e o delegado Dirceu Gravina contraria o STF, que manteve a validade da Lei da Anistia para acusados de tortura no regime militar. O Ministério Público vai recorrer".
Não seria mais inteligente o Ministério Público mudar a estratégia? 
A atual está mesmo levando a sucessivos reveses, com as várias instâncias do Judiciário sempre se prostrando à estapafúrdia e imoral decisão do Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a ditadores o direito de anistiarem a si próprios e a seus esbirros em plena ditadura.

Brilhante Ustra, contudo, não poderá esconder-se atrás da Anistia de 1979 se o acusarem de responsável pelo atentado ao Riocentro, ocorrido em 1981. Para mais detalhes, acesse aqui e aqui.

Embora fracassado, tal ato terrorista --portanto imprescritível-- deixou um sargento morto e um capitão gravemente ferido. Houve vítimas, pouco importando não serem inocentes. Justiça poética  não equivale à justiça do Estado brasileiro.

Os desvairados pretendiam provocar uma matança generalizada, pois o pânico causado pela explosão de três bombas num show musical traria consequências terríveis.

Eram muitos os cúmplices e, presumivelmente, de alto escalão, já que tinham sido suspensos todos os serviços de apoio do Riocentro, incluindo o policiamento e a assistência médica, para que não houvesse socorro imediato às vítimas. Até as portas de saída foram trancadas.

Finalmente, um dos culpados está agora revelando publicamente tudo que foi feito e quem fez: o ex-delegado do Dops que virou pastor evangélico e sente remorsos dos crimes que praticou ou testemunhou, Cláudio Antônio Guerra.

Está tudo preto no branco, em seu livro Memórias de uma guerra suja.

Informa que os comandantes da operação foram “os mesmos de sempre”:
  • o coronel de Exército Freddie Perdigão, do SNI;
  • o comandante Antônio Vieira, do Cenimar; e
  • o então coronel Brilhante Ustra, do DOI-Codi paulista.
Só não entendo por que o Ministério Público prefere dar murro em ponta de faca do que ocupar-se deste crime gravíssimo e igualmente impune.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

ANISTIA DE 1979 NÃO IMPEDE QUE USTRA RESPONDA PELO ATENTADO DO RIOCENTRO

Eis dois incisos do Artigo 5 da Constituição Federal, com grifos meus:
  • XLIII - a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem;
  • XLIV - constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático.
E eis o que o ex-delegado do Dops/SP, Cláudio Antônio Guerra, declarou a respeito do atentado do Riocentro, em 30 de abril de 1981: os comandantes da operação foram “os mesmos de sempre”, quais sejam (ele apontou) o coronel de Exército Freddie Perdigão, do SNI; o comandante Antônio Vieira, do Cenimar; e o então coronel Brilhante Ustra, do DOI-Codi paulista.

Guerra, portanto, acusou Brilhante Ustra de comandar um atentado terrorista, que não só é imprescritível e insuscetível de graça ou anistia, como nem sequer estaria abrangido pela anistia de 1979, pois esta só abarcou fatos ocorridos até 15 de agosto de 1979. Desta vez não há como ele escapar pela tangente do  pacto de conciliação nacional...

Quando ainda era uma revista, a
veja apontou os reais culpados.
Temos, portanto, um antigo comandado fazendo denúncia pública contra os comandantes (e também os outros executantes) de uma  ação terrorista. Nada, absolutamente nada, isenta os que continuarem vivos de responderem por tal tentativa de provocar um pânico que, ao que tudo indica, teria consequências as mais terríveis, com um sem número de espectadores de um espetáculo musical morrendo pisoteados.  

A crermos no que a Folha de S. Paulo publica nesta 6ª feira (4), as autoridades estão, simplesmente, ignorando este crime gravíssimo:
"A Polícia Federal abriu investigação sobre o paradeiro de supostas vítimas do ex-delegado Cláudio Guerra, que afirma ter matado e incinerado corpos de presos políticos na ditadura militar.

O ex-policial prestou depoimento a um delegado da PF há cerca de um mês. A presidente Dilma Rousseff e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, foram informados do relato, que está em sigilo.

A intenção é enviar as informações à Comissão da Verdade, ainda não instalada".
Não é só à Comissão da Verdade que devem ser enviadas as informações. O Ministério Público tem de ser imediatamente acionado, para verificar se existem criminosos a serem acusados e, em caso afirmativo, iniciar de imediato tais procedimentos.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

BRILHANTE USTRA E MAIS DOIS COMANDARAM O ATENTADO AO RIOCENTRO

O torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra foi um dos comandantes da fracassada operação terrorista de agentes da repressão política que, insatisfeitos com a desativação das unidades criadas especialmente para combater os grupos guerrilheiros, tentaram explodir três bombas para criar pânico durante uma apresentação de Chico Buarque e outros músicos famosos no Riocentro, em homenagem ao Dia do Trabalhador de 1981.

O objetivo era inculpar a esquerda pelo atentado, como forma de convencer o ditador Figueiredo de que os DOI-Codi's e outros centros de tortura continuavam sendo necessários e não deveriam ser extintos.

Quem confirma é um ex-delegado do Dops que virou pastor evangélico e agora sente remorsos dos crimes que praticou ou testemunhou, Cláudio Antônio Guerra.

Ele deu depoimentos aos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto, cujo Memórias de uma guerra suja está sendo lançado pela editora Topbooks. O portal Último Segundo antecipou vários trechos do livro--vide aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Eis o que Guerra conta:
"Participei do atentado ao Riocentro e fiz parte das várias equipes que tentaram provocar aquela que seria a maior tragédia, o grande golpe contra o projeto de abertura democrática.

O destino daquela bomba era o palco. Tratava-se de um artefato de grande poder destruidor. O efeito da carga explosiva no ambiente festivo, onde deveriam se apresentar uns oitenta artistas famosos, seria devastador. A expansão da explosão e a onda de pânico dentro do Riocentro gerariam consequências desastrosas. Era evidente que muitas pessoas morreriam pisoteadas.
 Aquela bomba [que estourou por engano no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário] era uma das três que deveriam explodir no show. O capitão Wilson [Luís Chaves Machado] estacionou o veículo embaixo de um fio de alta tensão e a carga elétrica desse fio, a energia que passava em cima do Puma, fechou o circuito da bomba, provocando a explosão. O erro foi do capitão. (...) Eu era especialista em explosivos".
Segundo o ex-delegado, os comandantes da operação foram “os mesmos de sempre”:
  • o coronel de Exército Freddie Perdigão, do SNI;
  • o comandante Antônio Vieira, do Cenimar;
  • e o então coronel Brilhante Ustra, do DOI-Codi paulista.
Em seguida, Guerra e sua equipe deveriam prender os esquerdistas a serem responsabilizados pelo atentado:
"Fui para lá com uma lista de nomes. (...) Mas deu tudo errado. Com a explosão da bomba no Puma, os militares policiais civis e os policiais civis que levavam outras duas bombas abortaram a operação".
Guerra revela que haviam sido suspensos todos os serviços de apoio do Riocentro, incluindo o policiamento e a assistência médica, para que não houvesse socorro imediato às vítimas. Até as portas de saída foram trancadas e, nas placas de trânsito, picharam a sigla da extinta VPR, para que parecesse ser um atentado da esquerda.

DELEGADO FLEURY, UM "ARQUIVO QUEIMADO". 
SÓ O PERCIVAL DE SOUZA NÃO SABIA...

De resto, quem acompanha este blogue não terá sido surpreendido por nenhuma das ditas  revelações bombásticas  do livro.

Nem a de que resistentes foram executados e tiveram seus restos mortais incinerados, nem a de que o delegado Sérgio Fleury (e também o jornalista Alexandre Von Baumgarten) foi vítima de uma queima de arquivo. É o que eu sempre disse.

Quando a luta armada acabou, Fleury e outros rapinantes viram evaporarem duas fontes de vultosos ganhos adicionais: a divisão de tudo que apreendiam com os militantes e as gratificações de empresários fascistas.

Os torturadores da PE da Vila Militar (RJ) resolveram compensar as perdas achacando contrabandistas, depois tentaram até tomar deles uma carga mais valiosa, mas o episódio acabou em tiroteio e no desmascaramento dos bandidos fardados.

Já Fleury, bandido à paisana, desesperou-se com a falta de fundos para sustentar o vício na cocaína e chantageou seus ex-patrocinadores ricaços, ameaçando revelar o que sabia sobre eles: não só o financiamento de práticas hediondas, mas também a participação voluntária de alguns deles nas torturas.

Reaças, canalhas e tarados, eles tomaram as providências cabíveis para manterem escondidas suas vergonhas. Onde já se viu dono de barco morrer afogado?

Percival de Souza que me desculpe, mas 2+2 continuam sendo 4. Então, desde sempre eu contava esta história como minhas fontes me relataram. E o delegado arrependido confirma agora a veracidade do que sempre afirmei:
"Fleury tinha se tornado um homem rico desviando dinheiro dos empresários que pagavam para sustentar as ações clandestinas do regime militar. Não obedecia mais a ninguém, agindo por conta própria. E exorbitava. (...) Nessa época, o hábito de cheirar cocaína também já fazia parte de sua vida. Cansei de ver.
....Dias depois [de Guerra ter começado a vigiá-lo, buscando detectar uma oportunidade para o assassinarem] os planos mudaram, porque Fleury comprou uma lancha. Informaram-me que a minha ideia do acidente seria mantida, mas agora envolvendo essa sua nova aquisição – um ‘acidente’ com o barco facilitaria muito o planejamento".
Segundo Guerra, Fleury foi dopado e ainda atordoaram-no com uma pedrada na cabeça, antes de o atirarem no mar.

Por último: quanto aos 11 companheiros massacrados e  sumidos  pelas bestas-feras da repressão, os casos eram igualmente notórios; só se acrescentaram detalhes, reavivando nossas feridas. 

Prefiro lembrar-me do sempre sereno Joaquim Pires Cerveira cantando seus sambas para nos animar durante o calvário no DOI-Codi carioca e do jeito ingênuo de  garotão  que o Bacuri exibia nos seus bons momentos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

TERRORISMO NA USP: TENTARAM MANDAR O SINTUSP PELOS ARES

Já não é mais uma escalada autoritária o que se vê na Universidade de São Paulo: agora se trata de um processo de fascistização plenamente configurado, cada vez mais agressivo e de consequências imprevisíveis.

As ocupações militares da USP e da cracolândia são as duas faces da mesma moeda: a tentativa de reabilitarem o recurso abusivo à força como solução para tudo e dissuasivo a ser empregado contra todos.

Não foi por acaso que um herdeiro espiritual da ditadura militar completou a chapa de José Serra na última eleição presidencial. Nem é por acaso que a identidade política do novo governo de Geraldo Alckmin esteja sendo dada... pela Polícia Militar!

Como nos antecedentes da última quartelada, a oposição começa a rondar as portas de quartéis. Três derrotas acachapantes e a possibilidade de uma quarta em 2014 estão enlouquecendo os tucanos, que cada vez mais se transformam em corvos.

Se não reagirmos de imediato e com máxima firmeza, as consequências, adiante, serão as mais nefastas. O ovo da serpente já eclodiu, mas ainda estamos em tempo de esmagar o réptil.

DA HORDA DE INVASORES DO SERRA 
À TROPA DE OCUPAÇÃO DO ALCKMIN

Na USP, o quadro veio se agravando ano a ano, mês a mês, dia a dia, até chegar-se ao quadro atual, que é assustador. O reinício das aulas ocorrerá sob os piores augúrios.

Em 2007 (vejam aqui), o ex-governador José Serra tentou impor-lhe quatro decretos autoritários e foi obrigado a recuar pela vigorosa defesa da autonomia universitária por parte de estudantes, professores e funcionários.
Atentado ao Riocentro: o feitiço virou contra o feiticeiro

A gestão de Serra foi também marcada pela volta da repressão mais brutal contra manifestantes e pela permissão para  invadir e agredir, concedida a contingentes policiais extremamente identificados com a ditadura de 1964/85. É patético que, ex-presidente da UNE, ele tenha agido exatamente como os inimigos que então o perseguiam e por causa dos quais teve de procurar o exílio.

Como  legado, Serra deixou a USP entregue a quem os membros do Conselho Universitário e dos Conselhos Centrais não queriam como reitor, tanto que o preteriram na lista tríplice, por saberem muito bem que lhe faltavam méritos acadêmicos e sobravam convicções ultradireitistas: João Grandino Rodas. Desde o notório Paulo Maluf, nenhum governador de São Paulo afrontava a posição dos Conselhos, deixando de escolher o primeiro colocado da lista.

Tido como integrante da medievalista e anticomunista Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, Rodas desconversou ao ser indagado sobre isto numa entrevista. Foi membro da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, quando conseguiu encontrar pretextos até para negar a responsabilidade dos carrascos da ditadura em casos notórios e indiscutíveis como os de Stuart Angel e Edson Souto. E, ao dirigir a Faculdade de Direito da USP, requereu o assalto da Polícia Militar àquela unidade e perseguiu de forma tão atrabiliária seus desafetos que acabou sendo declarado  persona non grata  pelos acadêmicos.

Coerentemente, Rodas aproveitou a primeira chance que teve (o assalto e morte de um estudante) para completar a obra de Serra, concedendo à PM, desta vez, permissão para  ocupar e provocar.

A sucessão de intimidações e humilhações a que a tropa de ocupação submeteu os universitários causou uma revolta espontânea contra a PM, seguida de mais repressão, mais abusos de poder e mais reincidências nas práticas ditatoriais: em dezembro foi o famigerado decreto 477 que se reeditou na prática, ao expulsarem-se sumariamente seis estudantes.

E, como o terrorismo oficial vem sempre acompanhado do oficioso, ecos do frustrado atentado ao Riocentro ressoam na denúncia do Sindicato dos Trabalhadores da USP, de que acaba de ocorrer uma "criminosa tentativa de sabotagem no Sintusp": quando os funcionários chegaram para trabalhar no dia 12, encontraram pastas e documentos revirados e todos os botões do fogão industrial abertos, sem que tivessem sido violados os cadeados de entrada nem as fechaduras das portas que dão acesso à entidade e salas internas.

Funcionários e estudantes se recordam de terem visto, na véspera, vigilantes da empresa Evik e policiais à paisana rondando o sindicato.

SNI DO RODAS ESPIONA ATÉ OS
DIRETORES DE UNIDADES DA USP

Em sua nota, o Sintusp destaca que a ação terrorista ocorreu na sequência dos seguintes episódios recentes:
  • dia 6 - uma estudante grávida foi agredida por integrantes da Guarda Universitária na presença de PM's;
  • dia 9 - diretores do Sintusp discutiram com guardas universitários e PM's, ao defenderem o estudante Nicolas Menezes Barreto da agressão do sargento André Ferreira;
  • dia 9 – a revista Fórum publica (veja aqui) relatórios da espionagem a que estão sendo submetidos sindicalistas, professores, estudantes e até diretores de unidades da USP (o que, por si só, já é motivo mais do que suficiente para Rodas ser afastado do cargo).
Termina assim a nota da diretoria colegiada plena do Sintusp sobre o ato terrorista:
"Este é o último capitulo de uma tragédia anunciada pela assinatura de um convênio que perpetua a PM em nossa universidade, como parte de uma verdadeira ofensiva repressiva feita por parte da reitoria e do governo, que se dá através de processos administrativos, criminais e ações de espionagem contra os diretores e ativistas do sindicato e estudantes que lutam em defesa de uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos.

Assim, denunciamos esta criminosa atitude de ataque ao Sintusp e responsabilizamos a reitoria e o governo pela integridade física de todos.

Finalmente, pedimos as entidades sindicais, populares, estudantis, intelectuais e parlamentares a manifestarem repudio a mais essa ação criminosa e devida apuração dos fatos, conseqüentemente, a responsabilização de seus autores".
A entidade sugere o envio de mensagens às seguintes autoridades:
  • secretário Estadual de Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto (seguranca@sp.gov.br);
  • reitor João Grandino Rodas (gr@usp.br);
  • procurador-geral de justiça Fernando Grella Vieira (pgj@mp.sp.gov.br); e
  • presidente da Assembleia Legislativa, deputado Barros Munhoz (barrossmunhoz@yahoo.com.br).
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