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sábado, 14 de fevereiro de 2026

20 FRASES FUNDAMENTAIS PARA QUEM PRETENDE MUDAR O MUNDO

"Ser governado é ser guardado à vista inspecionado, espionado, dirigido, legisferado, regulamentado, depositado, doutrinado, instituído, controlado, avaliado, apreciado, censurado, comandado por outros que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude.

Ser governado é ser, em cada operação, em cada transação, em cada movimento, notado, registrado, arrolado, tarifado, timbrado, medido, taxado, patenteado, licenciado, autorizado, apostilado, admoestado, estorvado, emendado, endireitado, corrigido.

É, sob pretexto de utilidade pública e em nome do interesse geral, ser pedido emprestado, adestrado, espoliado, explorado, monopolizado, concussionado, pressionado, mistificado, roubado.

Depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa, reprimido, corrigido, vilipendiado, vexado, perseguido, injuriado, espancado, desarmado, estrangulado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, para não faltar nada, ridicularizado, zombado, ultrajado, desonrado. Eis o governo, eis sua justiça, eis sua moral!

E dizer que há entre nós democratas que pretendem que o governo prevaleça; socialistas que sustentam esta ignomínia em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade; proletários que admitem sua candidatura à presidência! Hipocrisia!" (PIERRE-JOSEPH PROUDHON).


"Onde quer que tenha chegado ao poder, a burguesia destruiu todas as relações feudais, patriarcais e idílicas. Dilacerou impiedosamente os variegados laços feudais que ligavam o ser humano a seus superiores naturais, e não deixou subsistir entre homem e homem outro vínculo que não o interesse nu e cru, o insensível pagamento em dinheiro.

Afogou nas águas gélidas do calculo egoísta os sagrados frêmitos da exaltação religiosa, do entusiasmo cavalheiresco e do sentimentalismo pequeno-burguês. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e no lugar das inúmeras liberdades já reconhecidas e duramente conquistadas colocou unicamente a liberdade de comércio sem escrúpulos.

Numa palavra, no lugar da exploração mascarada por ilusões políticas e religiosas ela colocou um exploração aberta, despudorada, direta e árida" (KARL MARX e FRIEDRICH ENGELS)
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"Aquele que botar as mão sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo" (Proudhon)

"Até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo, de diversas maneiras. Chegou a hora de transformá-lo" (Marx e Engels)

"Se o capitalismo é incapaz de satisfazer as reivindicações que surgem infalivelmente dos males que ele mesmo engendrou, então que morra!" (LEON TROTSKY)

"A propriedade é o roubo" (Proudhon)

"De cada um, de acordo com suas habilidades, a cada um, de acordo com suas necessidades"(Marx e Engels)

"O primeiro homem que inventou de cercar uma parcela de terra e dizer 'isto é meu', e encontrou gente suficientemente ingênua para acreditar nisso, foi o autêntico fundador da sociedade civil. De quantos crimes, guerras, assassínios, desgraças e horrores teria livrado a humanidade se aquele, arrancando as cercas, tivesse gritado: Não, impostor!" (Jean-Jacques Rousseau)

"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempos de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar" (BERTOLD BRECHT)

"A religião é o suspiro da criança acabrunhada, o coração de um mundo sem coração, assim como também o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo" (Marx)

"Imagine que não há países; não é difícil. Nenhum motivo para matar ou morrer e nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas não sou o único. Eu espero que algum dia você se junte a nós e o mundo será um só" (JOHN LENNON)

"Que meu país morra por mim" (JAMES JOYCE)

"A propriedade privada tornou-nos tão estúpidos e limitados que um objeto só é nosso quando o possuímos" (Marx)

"Os grandes só parecem grandes porque estamos ajoelhados"  (CHE GUEVARA)

"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti"(JOHN DONNE)

"Gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente"(GERALDO VANDRÉ)

"Pereça a pátria e salve-se a  humanidade"(Proudhon)

"Oh, Deus, por que me abandonaste? Porque eu não existo!" (JEAN-LUC GODARD)

"
Se guardo a impossível salvação na loja de retalhos, o que resta? 

Todo um homem, feito de todos os homens, que os vale todos e a quem vale não importa quem" (JEAN-PAUL SARTRE)

"O velho mundo está morrendo e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros" (ANTONIO GRAMSCI)

domingo, 8 de junho de 2025

UNIDOS VENCEREMOS? É A ESPERANÇA QUE NOS RESTA. SEPARADOS PERDEREMOS? DISTO NÃO HÁ NENHUMA DÚVIDA!

A esquerda à qual decidi devotar a minha vida na virada de 1967 para 1968 mantinha firme rejeição ao  autoritarismo e ao punitivismo.

Compreendia que as circunstâncias em que as pessoas eram formadas pelo capitalismo, com o homem reduzido a lobo do homem em luta encarniçada contra tudo e contra todos, favoreciam o afloramento das piores mazelas individuais e coletivas. 

Quem só não rouba, barbariza e mata por temer a polícia, está sempre a um passo de supor que conseguirá cometer seus crimes sem ser punido.  Os mais ousados acabam tentando a sorte e se tornam nefastos para seus semelhantes e para si próprios. 

A maioria não aceita correr os riscos inerentes, mas seu comedimento está longe de ser virtuoso. Deve-se ao medo da punição nos cárceres desta vida ou no suposto inferno de uma suposta outra vida. 

O que me fascinou no marxismo foi ter acenado com uma possibilidade concreta de paraíso na Terra, o que nem as religiões conseguiram oferecer de forma convincente: a de que adiante os avanços científicos e tecnológicos obtidos pela humanidade poderiam, desde que utilizados em benefício do bem comum e não da ganância privada, proporcionar uma vida materialmente satisfatória para cada um dos habitantes do nosso planeta.
Ou seja, a trajetória da humanidade, desde as cavernas, vinha sendo caracterizada pela insuficiência do necessário para todos desfrutarmos uma existência plena. Mas, a humanidade se encaminhava para um tal desenvolvimento das forças produtivas que finalmente a abundância para uns um deixaria de depender da escassez para outros. 

Marx acertou em cheio: a barreira da necessidade foi realmente rompida no século passado. Só que os homens não se tornaram solidários e generosos num passe de mágica. Os privilegiados agarraram-se sofregamente a seus privilégios, tudo fazendo para que fossem poucos a desfrutarem do mesmo padrão de vida e a grande maioria continuasse com acesso parcial ou sem nenhum acesso aos frutos do progresso. 

Agora, não só a desumanidade e desigualdade intrínsecas ao capitalismo impedem a humanidade de ser feliz, como ameaçam `causar a extinção de nossa espécie. 

É este o motivo de eu insistir tanto na necessidade de encararmos  a superação do capitalismo como a principal luta de nosso tempo, a única que poderá garantir que as conquistas pelas quais se mobilizam várias minorias e até maiorias (como as mulheres e os explorados)  serão definitivas, não podendo ser levadas de roldão por retrocessos civilizatórios como o atual.

Dividir para conquistar sempre foi uma fórmula esperta para minorias poderosas evitarem que as maiorias deem fim a seus privilégios injustos. E hoje a lavagem cerebral dos meios de comunicação de massa vai exatamente nessa direção, de insuflar ao máximo a desunião daqueles que somente unidos conseguirão fazer valer sua força para mudar o mundo.

Nós, os explorados, oprimidos e vítimas de uma organização social voltada para eternizar a prevalência dos perdedores e restringir tanto quanto possível o universo dos vencedores, temos de virar esse jogo, antes que seja tarde demais. 

Ou reaprendemos a tolerância, a compaixão e a solidariedade ou continuaremos marchando divididos e mutuamente hostis para o matadouro.
(por Celso Lungaretti)    

quarta-feira, 9 de abril de 2025

"FROUXOS", "COVARDES" E "OMISSOS": ASSIM UM PASTOR DA LAIA DO MALAFAIA ATACOU GENERAIS NO ATO DA AV. PAULISTA

Praticamente todas as minhas previsões sobre Jair Bolsonaro se confirmaram. 

Assim, p. ex., quando os outros articulistas de esquerda davam como inevitável que o Exército o acompanharia na futura tentativa golpista, eu já contrapunha que tais fardados não derrubavam presidentes para colocar no poder tenentes despirocados por eles chutados da caserna. Só o faziam para empossar generais.

E, como hoje todos sabem, na hora H o Exército se recusou a marchar sob as ordens do Bozo.

Por que estou lembrando isto agora? É porque, na micareta do último domingo (6) na avenida Paulista, um pastor qualquer, seguidor do Malafaia, disse ao microfone:
“Cadê esses generais de quatro estrelas, do Alto-Comando do Exército? Cambada de frouxos, cambada de covardes, cambada de omissos. Vocês não honram a farda que vestem!". 
Mas o pior ficou para o dia seguinte: ao invés de repudiar esse ataque insensato, Bolsonaro o apoiou!!!

Ou seja, ele hoje é um aspirante a golpista que, sem ter o Exército ao seu lado, jamais conseguirá dar o sonhado golpe, de forma que viaja na maionese ao hostilizar os verde-olivas, que levam extremamente a sério tais ataques à honra de seus comandantes. 

O último fascistão brasileiro que bateu de frente com os fardados foi Plínio Salgado em 1938; era um líder muito superior ao Bolsonaro e, mesmo assim, perdeu a parada. 
Obrigado a dar baixa do Exército em 1988, Bolsonaro
tudo fez para desmoralizar a farda  quando presidente

Agora se trata de um monumental tiro no pé. As relações entre o bolsonarismo e a alta oficialidade chegaram ao ponto mais baixo de todos os tempos.

Como eu consegui prever corretamente, com quatro anos de antecedência, que Bolsonaro, por mais que os bajulasse e até endinheirasse algumas centenas deles, não conseguiria comandar seus antigos colegas de farda? Foi me baseando nas conclusões que tirei sobre o Exército quando era seu prisioneiro político. 

Sendo muito jovem e tendo sido por eles derrotado, os milicos me subestimaram: continuaram conversando à vontade. na minha frente, sobre assuntos neutros que não tivessem valor operacional para nossa guerrilha. Não perceberam ou não se incomodaram com eu estar o tempo todo os avaliando e tirando conclusões sobre eles.

Pena que esse aprendizado tenha sido desperdiçado pela esquerda, à qual sempre me dispus a fornecer análises que lhe fizeram muita falta. É uma das minhas maiores frustrações.

DO EXISTENCIALISMO AO MARXISMO -- Entre os 14 e os 17 anos, eu pensei seriamente num futuro como pensador de esquerda, seguindo o modelo de Jean-Paul Sartre. Mais por pragmatismo do que por qualquer outro motivo, acabei participando de um  ativismo secundarista de inspiração marxista, pois sabia que o existencialismo ateu não floresceria por estas bandas e sentia necessidade de pertencer a um movimento.
Batalha entre estudantes de esquerda e membros do CCC
na rua Maria Antônia. Um secundarista foi assassinado.

A tragédia brasileira era (e é)  dilacerante demais para eu me conformar com o papel de sábio no topo da montanha. 

Queria confrontar nossas iniquidades sociais, o que me empurrou para o lado dos que se dispunham a travar  o bom combate. Mas não descartava uma volta à  faina teórica, principalmente se viesse logo a redemocratização.

Só que 1968 me revelou quem eu realmente era. Participar da luta concreta me empolgou como nada o fizera na minha vida inteira, a cada dia me descobria agindo como antes não ousava, respondendo de bate-pronto aos desafios ao invés de refletir longamente sobre eles, seguindo a emoção do momento sem me questionar se a decisão que tomava era a politicamente correta. Na hora da ação, eu não refletia. Agia. 

Minha alma não era a de um scholar, embora dominasse algumas ferramentas  da intelectualidade. Entre a academia e a trincheira, percebi que sempre preferiria a trincheira.

E, ao longo destes 55 anos de militância, eu desenvolveria, principalmente, o talento de um comandante de Inteligência. Ou seja, a função que nunca pensara em desempenhar antes de a VPR me incumbir dela virou minha segunda natureza. Meus maiores acertos foram juntando fragmentos de informação para projetar cenários futuros que acabavam mesmo se tornando reais..

E minha maior mágoa foi a infinidade de ocasiões em que eu tentei alertar a esquerda de que suas linhas de ação eram desastrosas, sem conseguir que os dirigentes escolhessem as opções melhores que eu sugeria. Quantos desastres teriam sido evitados!
Eu percebia, evidentemente, que a grande maioria dos companheiros queria receber algo na linha das teses acadêmicas, com um lento e minucioso aprofundamento das questões, de forma que o momento propício para aquelas soluções acabava passando e elas caducavam sem uso. 

Confesso que até poderia jogar esse jogo, mas me repugnava profundamente agir como Marx já fulminara na sua 11@ tese sobre Feuerbach: "Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo". (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 7)

Museu da Capelinha, no Vale do Ribeira: podem 
destruir acervos, mas sua memória está bem viva.


Para deixar bem esclarecido o episódio da queda da área de treinamento ativa da VPR no Vale do Ribeira, precisarei servir-me de informações das quais eu não dispunha naquele momento, mas foram chegando às minhas mãos nas décadas seguintes.

Assim, tendo eu aberto no final da tarde de 16/04 a localização da área abandonada, mas omitindo que ela havia sido desocupada pelo menos um mês atrás, os analistas do DOI-Codi desconfiaram de que eu estaria lhes entregando calhau como se fosse ouro e apenas despacharam uma equipe para verificar discretamente o que havia por lá. 

Tal equipe  vasculhou, em 17/04, o sítio que nos servira de fachada e, ao voltar no dia seguinte para a capital, apenas comunicou que realmente houvera trabalho guerrilheiro no local, mas dele nada restava. Voltou de mãos abanando.

A nova prisão de militante, na manhã de 18/04, foi a que justificou o lançamento da Operação Registro, pois forneceu o pacote completo à repressão: a existência de uma segunda área e de alguns aliados da VPR morando naquela região.

Com as novas informações, o DOI-Codi começou a montar o cerco de Registro. Daí tantos oficiais superiores não pertencentes a seus quadros terem sido chamados às pressas para uma reunião em plena tarde de sábado. E, como pensaram em obter mais detalhes por meu intermédio, me conduziram à sala em que uns 50 deles esboçavam seus planos de ação. 

Descuidados, nem se incomodaram em evitar que eu cruzasse no corredor com a pessoa verdadeiramente responsável pela entrega da área ativa. 

Acabei sendo-lhes inútil por causa da minha pressão acelerada e do receio que tiveram de uma nova morte de jovem por problemas cardíacos que não deveria ter na sua idade. E não me escapou que haviam descoberto algo muito importante, e graças a quem.
Estátua comovente: Zequinha Barreto 
carregando Lamarca em fuga na Bahia
 

No domingo, 19/04, ambos fomos juntos transferidos, de carro, para a sede paulista do DOI-Codi, na rua Tutóia.  E na manhã do dia 20, embarcados num caça da FAB para o palco das ações. 

Aí me caiu a ficha de qual era a peça do quebra-cabeças que ainda estava faltando. Pois, quando Lamarca resolveu abandonar a área 1 e desenvolver a área 2, passou a sair de manhã cedinho com o motorista para ir comandar os preparativos. Voltavam no começo da noite se queixando de estarem com a bunda doendo de tantos quilômetros de rodovia que teriam percorrido sentados.

Era, percebi depois, uma encenação para eu e o Massafumi, que já havíamos decidido não continuar no trabalho de campo, ficarmos supondo que a nova área seria uma região rural em que pipocavam conflitos fundiários na Paraná. Na verdade, a área 2 distava apenas uns 30 quilômetros da área 1.

Mas, se moradores iam recolher palmito na mata e poderiam a qualquer momento desconfiar dos novos moradores (nós), além de estarmos demasiadamente próximos da rodovia BR-116, por que abandonarmos a área 1 e transferir o trabalho para outro ponto da mesma região?

Lamarca deve ter concluído que a existência de uma base de 4 ou 5 aliados locais da VPR seria valiosa, começando pelo fato de que assim ele logo saberia se a chegada de um contingente mais numeroso de companheiros a serem treinados levantasse suspeitas na região. 

Ou seja, tomou uma decisão pouco recomendável em termos de segurança exatamente por carecer de apoiadores noutras regiões. Optou por correr riscos com os que tinha.

Pior ainda foi ter utilizado os préstimos desses aliados para a aquisição dos dois sítios. Dependendo das suspeitas que a repressão viesse a ter, uma simples ida ao cartório lhe revelaria o endereço de ambos.

Nem sequer foi necessário, contudo. A pessoa presa no sábado já deu ao DOI-Codi todas as informações de que necessitava.
Reportagem da Agência Pública revelou que os militares 
chegaram a bombardear as matas da região com napalm
O relatório de operações do II Exército na Operação Registro, do qual só tomei conhecimento em 2004, historiou com exatidão o ocorrido: eu dera involuntariamente a primeira pista à repressão ao revelar a localização da área 1, mas isto não foi levado a sério até que, com a nova queda de militante dois dias depois, os militares tomaram conhecimento de que havia também uma área 2, a qual continuava ativa.

Tive um vislumbre dessa verdade quando, em algum dia da semana seguinte, fui levado às duas áreas de viatura, provavelmente como um teste para averiguarem se eu sabia mais do que revelava. Passamos primeiramente pela área 1 e demonstrei que a conhecia. Não havia informação nenhuma útil para eles lá. então minha sinceridade não faria mal nenhum.

Depois fomos para uma segunda área, que eu desconhecia, mas logo percebi do que se tratava. A área 2 ser tão próxima era a peça que me faltava para o quebra-cabeças inteiro fazer sentido.

Mas, claro, fingi nada ter percebido e os militares aparentemente acreditaram. Se soubessem quanta informação útil eu obtive deles porque me subestimavam...

Talvez pela gravidade do que eu intui, foi uma ocasião em que perdi um pouco a serenidade. Um capitão enfastiado, quando os demais milicos estavam afastados, tentou convencer-me a tentar a fuga pelo mato, "aproveita agora que não tem ninguém olhando!".
Paulo Betti no papel de Lamarca, no filme de 1994: era
parecido, mas lhe faltava a aura de homem sofrido.
  

Respondi de bate-pronto, sem pensar, apontando o meu peito: "Se é para me matar, atira logo pela frente. Não vou correr para levar tiro nas costas".

O capitão não insistiu, apenas mandou me levarem de volta para o delegacia de Jacupiranga. onde me guardavam precariamente Se fosse mais profissional, perceberia que eu não era o jovenzinho assustado que me esforçava para aparentar. 

O que me tirou do sério? Foi haver percebido que  minha exclusão da lista de troca do embaixador alemão não deveria ter sido engano, mas sim uma providência necessária para que eu servisse de bode expiatório pela queda da área.

E por quê? Certamente porque preservar a pessoa presa no sábado era mais importante para a VPR  do que preservar a minha credibilidade revolucionária. 

Não tinha dúvida nenhuma de que Lamarca estava ciente da minha inocência; afinal, ele mesmo me havia contado que algum(ns) ex-colega(s) de farda o municiava com informações quentes sobre o que acontecia no DOI-Codi. Tanto que ele não mexera uma palha quando fui preso no dia 16, mas correu a levantar acampamento e iniciar sua fuga quando a outra pessoa foi presa no dia 18.

Ter chegado à conclusão de que provavelmente estaria sendo desacreditado pela organização quando me esforçava ao máximo para preservar os quadros da VPR foi talvez a gota d'água que extravasou o copo, pois se acrescentou: 
Por 40 anos prevaleceu a versão de que Lamarca morrera
em tiroteio, mas esta foto provou que ele fora executado
— a
o impacto das torturas (bem maior do que eu esperava); 
— à profunda decepção que me causara a briga de foice no escuro em que se constituíra o congresso da VAR-Palmares; e 
— ao remorso que sentia por não haver zelado melhor pelos companheiros cujo ingresso na VPR eu liderara.

Daí a prostração que tomou conta de mim no final de junho. O arrependimento forçado que me impuseram me parecia insignificante diante de tudo que eu já havia sofrido. 

E, no fundo, realmente era uma mera armação dos serviços de Guerra Psicológica das Forças Armadas. Quem acreditava naquilo engoliria qualquer coisa. Mesmo assim, feria demais o meu amor próprio lembrar-me daquela madrugada de pesadelo na sede da Rede Globo no Jardim Botânico. Quis até acreditar que nada daquilo acontecera, mas, no fundo, sabia que ficara muito aquém da imagem que eu tinha de mim mesmo.

Mas, dos tempos em que devorava os livros de Sartre e Camus, me restou a disposição de nunca buscar consolo fácil. Considerei definitivo aquele péssimo momento e assumi comigo mesmo o compromisso de superá-lo com o que fizesse doravante. Ao sair da prisão já recobrara o espírito de luta. A luta armada havia sido inviabilizada por décadas, mas resistir ao capitalismo, ainda que de outra forma, continuava sendo um imperativo para mim.

Quanto ao Lamarca, com o tempo fui compreendendo melhor seus motivos. Apostara tudo na sua visão de guerrilha rural e, quando teve a oportunidade de partir para a prova de fogo (já estava na selva, armado e conduzindo um grupo de guerrilheiros em potencial), percebeu que não tinha como sobreviver ao poder de fogo imensamente superior do Exército, só lhe restando, como opção para salvar a si próprio e a seus comandados, a volta para a cidade.

Num momento tão dramático, ele resolveu sacrificar a minha reputação para tentar salvar o seu sonho: a verdade nua e crua lançaria sérias dúvidas sobre a competência da VPR para ainda lançar sua guerrilha rural.

Ao ficar sabendo, depois de libertado, como tinha sido o final de vida do Lamarca, resolvi não questionar mais a decisão que tomara a meu respeito e quase me destruíra. Afinal, tendo entregado a vida em nome de suas convicções, ele fez por merecer a minha compreensão, pelo menos.

Aí, em 2007, quando a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu à seus entes queridos uma pensão equivalente à de um coronel de Exército e as viúvas da ditadura bateram pesado em tal decisão, com o apoio repulsivo da grande imprensa, não suportei ver a omissão de tantos sobreviventes da nossa luta, que tinham o dever moral de defender a Família Lamarca;

Ao ter certeza de que não o fariam, entrei na polêmica,  confrontando a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e a Veja. Eu tinha a obrigação de ser maior do que aquela ralé que o atacava com tanta fúria, como se continuasse temendo o seu  desprendimento e coragem.  (por Celso Lungaretti) 
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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

DESTA VEZ ELES NÃO PASSARAM. VAMOS NOS PREPARAR PARA A PRÓXIMA!

Depois do confirmada a derrota do Boçalnaro, o ignaro no último domingo (30), nosso país viveu momentos de forte tensão social, com o desencadeamento de uma disparatada tentativa golpista. 

Em muitas regiões brasileiras, os caminhoneiros, principais transportadores de mercadorias de norte a sul do território nacional devido ao abandono dos transportes ferroviário e fluvial de cargas de longas distâncias, resolveram desrespeitar a vontade eleitoral de 60 milhões de brasileiros.

Mas, não estavam sós, como ficou evidenciado no longo mutismo do Boçalnaro, certamente adiando o reconhecimento da derrota na esperança de que o badernaço nas rodovias encontrasse eco nas Forças Armados ou nas polícias militares estaduais. 

O único apoio que os golpistas receberam foi o da Polícia Rodoviária Federal, que, depois de agir com extrema diligência para atrapalhar a chegada dos eleitores às urnas, assistiu inerte àquelas ilegais demonstrações de força, que viraram demonstrações de fraqueza quando as torcidas organizadas de futebol atravessaram os bloqueios na marra para apoiar os seus times do coração em partidas como visitantes.   

Assim, confirmando que, como eu já dissera neste artigo, o Brasil nunca esteve tão perto de uma guerra civil como agora, os bolsominions passaram recibo de que o processo eleitoral somente valeria para eles caso tivessem reeleito o maior genocida da história mundial recente (responsável inequívoco por cerca de 400 mil mortes por sabotagem à vacinação contra a covid). A máscara democrática desses aprendizes de ditadores caiu solenemente!

Mas, felizmente, o Brasil tem características especiais no contexto mundial.

A primeira delas é a dimensão continental do nosso país, em cujo solo existe a maior floresta tropical do planeta e que, num momento de aquecimento global, serve como um pulmão para o mundo. 

A política boçalnarista de deixar passar a boiada para atender de predadores de madeira e minérios, associados ao tráfico de drogas, fez do governo ultradireitista um pária entre os civilizados.

Eu nunca vi com bons olhos a acolhida de braços abertos que Lula recebe nos países capitalistas detentores da hegemonia econômica mundial.

Eles sabem perfeitamente que Lula é um social-democrata de origem operária, mais próximo do trabalhismo inglês que da social-democracia mais progressista. Ele não liga para a contradição relativa do capital/trabalho (uma categoria é a gênese da outra, daí a contradição ser apenas relativa), encarando-a meramente como uma relação social a ser humanizada. Ou seja, repete o equívoco histórico da esquerda institucional.

Mas, diante de um energúmeno pretendente a ditador orientado pelo falecido dublê de filósofo de almanaque e astrólogo de quiromancia Olavo de Carvalho, Lula está sendo considerado pelo G7 como a bala de prata da democracia burguesa, neste momento de depressão econômica planetária (quando esses donos do PIB mundial veem evaporar-se o capital e sua correspondente substância, o valor representado pelo dinheiro que se desvaloriza cada vez mais).

Os fascistas brasileiros, conscientes das ilegalidades que cometem induzidos por uma cantilena patriótica retrô e fazendo-se passar por paladinos do combate à corrupção com a qual estiveram envolvidos, agora resolveram radicalizar e externar o seu ódio elitista.

A segunda especificidade que nos beneficia é a nossa natureza político-econômica, que nos empresta uma importância mundial, avessa a projetos ditatoriais tupiniquins como este misto de nacionalismo patriótico ultrapassado com liberalismo clássico dos Chicago's boys que deu com os burros n’água.

Embora a reforma agrária seja uma bandeira capitalista (os EUA, p. ex., data de mais de dois séculos atrás), nunca fizemos uma dita cuja digna desse nome. 

Mas, por termos água abundante, sol tropical e terras férteis, os latifúndios brasileiros terminaram por descobrir nossa vocação agrícola de produção de alimentos em larga escala, daí nos havermos tornado competitivos: somos o segundo maior produtor de alimentos vegetais e animais do mundo.

Mas temos também minérios, sendo as nossas reservas de ferro das Minas Gerais e amazônicas uma riqueza capaz de desenvolver a nossa indústria metalúrgica que já começa a se tornar vigorosa (a Cia. Siderúrgica do Pecém, responsável por 52% do valor de todas as exportações cearenses, e as filas de navios em São Luís do Maranhão demonstram a pujança que nos tornou, p. ex., grandes fornecedores das indústrias chinesas).

Isto para não falar do parque industrial paulista e no papel que São Paulo desempenha como cérebro financeiro e administrativo, o principal do capitalismo latino-americano.

Somos, portanto, uma simbiose de país com vocação agrícola, cuja produção não agrega valor substancial de riqueza abstrata, ainda que tal produção seja vital em riqueza material não valorizada (basta dizer que no país de maior produção de grãos do mundo, e que detém o maior PIB mundial, os Estados Unidos, o setor agrícola representa menos de 2% do seu PIB), com país urbano industrial.

Nisto reside, também, a nossa importância mundial, capaz de preocupar as lideranças planetárias mais expressivas com os destinos da democracia burguesa brasileira, de vez que um projeto ditatorial militarista ultrapassado não interessa a ninguém.

Lula cai como uma luva neste processo:
— não é um radical de esquerda, capaz de eventualmente questionar o capitalismo decadente;
— traz nas suas consignas a simbologia da estrela socialista encarnada, tendo, contudo, dela na verdade se afastado com suas conciliações políticas ao centro e à direita moderada; e
— pratica o jogo político republicano que interessa à manutenção da autonomia do Estado burguês como força reguladora e regulamentadora da vida capitalista.

Boçalnaro, aconselhado por seus ministros militares e sentindo o termômetro da temperatura de clima de guerra civil ora criado e antes incitado por ele aos seus correligionários fanáticos, acabou implicitamente aceitando a derrota e aconselhando os baderneiros a suspenderem os bloqueios de rodovias.

Juntamente com a forte bancada parlamentar que lidera, deverá fazer oposição ferrenha ao projeto lulista, que, obviamente, sofrerá as agruras próprias de um país devastado economicamente e que, em condição periférica e subalterna, sofre as consequências da depressão econômica mundial..

Mas, embora os boçalnaristas recalcitrantes devam curvar-se às evidências dos fatos ao longo dos próximos dias, a tendência é que voltem a aglutinar forças num futuro mediato (por Dalton Rosado)

domingo, 9 de outubro de 2022

OS FASCISTAS AVANÇARAM NO 1º TURNO, MAS ELES TÊM PÉS DE BARRO – 1

dalton rosado
A AMEAÇA FASCISTA NO BRASIL
"Deus, pátria e família"
 (Plínio Salgado)
Tal como as bactérias que crescem num corpo com baixa imunidade, o pensamento fascista se nutre da desesperança nos cânones civilizatórios em face da barbárie causada pelo capitalismo em fim de feira.

Tenho escrito amiúde sobre as causas primárias dos nossos infortúnios atuais,  mas é preciso sempre lembrá-las aos leitores para que fixem nas suas consciências a certeza de que os motivos da debacle capitalista são  estruturais, e gerenciais e administrativos.

Não se trata de boa ou má governabilidade estatal, mas da ingovernabilidade intrínseca de um aparelho de Estado que sucumbe com o objeto a que serve: o capitalismo.

Todo poder vertical havido na história da humanidade foi a ela nocivo; portanto, precisamos horizontalizar as decisões socais e transformá-las num contrapoder. Este certamente vai constituir-se no maior ganho civilizatório dos tempos atuais.

Será uma volta civilizada, graças aos ganhos do saber que sejam incorporados aos sentidos de solidariedade das sociedades primitivas que tudo partilhavam.

Nunca é demais afirmar que a substituição substancial e majoritária do trabalho vivo (trabalho abstrato remunerado pela mercadoria dinheiro) pelo trabalho morto (das máquinas, sem remuneração às ditas cujas), como bem explicitou Karl Marx e vemos agora se confirmar, representa o fim do ciclo de nascimento, vida e morte de um modo de relação social histórico, não ontológico.

O socialmente histórico se queda diante da dialética do movimento social e coloca de modo perceptível a exaustão daquilo que se tornou socialmente obsoleto.
Tudo que é sólido desmancha no ar, disse Marx. Vivemos tal momento.

O fascismo tem base capitalista e nacionalista; a democracia burguesa tem base capitalista gerida pelos princípios iluministas da tripartição e descentralização do poder, que também é nacionalista, na medida que foi o capitalismo que formatou o conceito de nação como hoje conhecemos.

São dois cegos numa batendo na mesma porta, ainda que o primeiro seja militarmente beligerante e explicitamente genocida, e o segundo piedosamente opressor, tal como um antigo farmacêutico bem-intencionado que manipula remédios com insumos ineficazes.

No Brasil está em curso uma eleição sob esses dois parâmetros e que está explicitando um claro conteúdo antagônico de classes sociais.

Os embandeirados verde-amarelos, com seus carros luxuosos, representam a maioria visualmente perceptível dos veículos no trânsito e presente em restaurantes sofisticados e shoppings centers refrigerados, num vivo contraste com os moradores nas periferias dos bairros das cidades cindidas entre o luxo e o lixo.

Nos bairros pobres, principalmente do Nordeste ainda mais pobre, predomina um sentimento de classe entre os despossuídos identificado nas preferências subterrâneas por Lula, que é quem deles mais se aproxima, ainda que menos presentes entre os que frequentam as igrejas do pentecostalismo da prosperidade fake que apela para o paraíso celestial como recompensa conformista pelo sofrimento terrestre.
Nunca houve entre nós uma eleição com tais características, e isto se observa até de região para região, com os que detêm maior desenvolvimento econômico apresentando diferenciação de escolha (até mesmo no interior das regiões prósperas se observa tal divisão de classe).

O projeto fascista toma corpo despudoradamente mundo afora em face da falta de respostas da democracia burguesa para o combate ao sentido declínio social do poder de compra de mercadorias e da falência estatal no cumprimento das suas incumbências constitucionais de atendimento das demandas públicas básicas.

O Brasil segue esta trajetória de debacle econômico. agravada pelo fato de que aqui a desigualdade social é aviltante por termos uma elite política e econômica que tem a cabeça no colonialismo feudal (alguns confabulam às escâncaras sobre golpes de estado fascistóides).

Estamos vivendo uma ascensão fascista que já pode ser detectada independentemente do resultado das urnas do último domingo. No senado brasileiro os elitistas (com alguns fascistas despudoradamente assumidos tendo sido eleitos) já são maioria, de vez que obtiveram 44 cadeiras das 81 existentes.

O fascismo é cruel e insensível à vida humana. Para ele, só os eleitos pelos deuses, como se tivessem mentes e corpos aptos à purificação da humanidade, devem viver.

Como disse Jean-Paul Sartre em A Idade da Razão, "devemos combater o fascismo não pelo número de mortes que ele causa, mas pelo modo como ele mata". (por Dalton Rosado – continua neste post)
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