Se eu estivesse no século 18, tiraria de letra a tarefa de escrever algo sobre a morte do Papa Franciso. Bastaria citar esta estrofe da poesiaO século, do Castro Alves:
"Quebre-se o cetro do Papa.
Faça-se dele — uma cruz!
A púrpura sirva ao povo
P'ra cobrir os ombros nus.
Que aos gritos do Niagara
— Sem escravos — Guanabara
Se eleve ao fulgor dos sóis!
Banhem-se em luz os prostíbulos,
E das lascas dos patíbulos
Erga-se a estátua aos heróis!"
No século passado, tudo que haveria de importante para se dizer já estava expresso na antológica La Saeta, do poeta Antonio Machado, cujos versos, musicados, foram gravados por vários artistas, com destaque para a interpretação emocionante de Joan Manuel Serrat.
"Oh, no eres tú mi cantar,
no puedo cantar ni quiero
A este Jesús del madero
sino al que anduvo en la mar!'
("Oh, não é você meu cantar,
não posso cantar nem quero
a esse Jesus de madeira,
mas sim ao que caminhava sobre as ondas")
Neste depressivo século 21, contudo, já não me animo a rechaçar a Igreja Católica com a contundência de antes, pois quem disputa seu espaço, crescendo cada vez mais, são autênticos mercadores do templo, podres até a medula.
O Papa Francisco certamente não tinha a magnitude heroica do cardeal eterno de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, que confrontou a ditadura militar com imensa coragem e salvou muitos companheiros nossos da morte.
Mas, comparado aos pastores do culto ao bezerro de ouro, com sua mentalidade de faço tudo pelo dízimo, sou obrigado a reconhecer que ele era um mal infinitamente menor do que as más lacraias de hoje que, não contentes com empobrecer e esfaimar os coitadezas, agora se põem até a tentarem desgraçar o Brasil com uma nova ditadura.
E me revira o estômago constatar que há tantos brasileiros incapazes de ver como patifes os patifes que são.
Seja em fotos, imagens filmadas ou ao vivo, o mau caráter desses autonomeados bispos, apóstolos e sei lá quantos outros rótulos farsescos transparece indisfarçavelmente: são apenas e tão somente picaretas empedernidos. Nem isto nosso sofrido povo percebe?!
Se nunca acreditei que os sacerdotes católicos tivessem algo a ver com os personagens do drama bíblico, embora supostamente remontassem à igreja que Pedro ergueu por delegação de Cristo, mais inacreditáveis ainda são esses sacerdotes de si mesmos, sem batinas nem adereços medievais, que mais me parecem vendedores ambulantes de terrenos na lua.
Temo que, se tudo continuar piorando tanto quanto está, algum dia ainda terei saudades do Papa Francisco... (por Celso Lungaretti)
Nascido numa estrebaria, era filho de José, o carpinteiro
Esqueçam o Papai Noel que a Coca-Cola vestiu com suas cores e que nada mais é do que a apoteose do consumismo.
O que o mundo realmente celebra (ou deveria celebrar) no Natal é a saga de um filho de carpinteiro que trouxe esperanças a pescadores e outras pessoas simples de um país subjugado ao maior império da época.
Os primeiros cristãos eram triplamente injustiçados:
— economicamente, porque pobres;
— socialmente, porque insignificantes; e
— politicamente, porque tiranizados.
Jesus Cristo nasceu três décadas depois da maior revolta de escravos enfrentada pelo Império Romano em toda a sua existência.
As mais de 6 mil cruzes fincadas ao longo da Via Apia foram o desfecho da epopeia de Spartacus, que, à sua maneira rústica, acenou com a única possibilidade então existente de revitalização do império: o fim da escravidão. Roma ganharia novo impulso caso passasse a alicerçar-se sobre o trabalho de homens livres, não sobre a conquista e o chicote.
Sua pregação era socialmente revolucionária, evitando apenas confrontar a dominação romana (seria suicídio)
Vencido Spartacus, não havia mais quem encarnasse (ou pudesse encarnar) a promessa de igualdade na Terra.
Jesus Cristo a transferiu, portanto, para o plano místico: todos os seres humanos seriam iguais aos olhos de Deus, devendo receber a compensação por seus infortúnios num reino para além deste mundo.
Este foi o cristianismo das catacumbas: a resistência dos espíritos a uma realidade dilacerante, avivando o ideal da fraternidade entre os homens.
Hoje há enormes diferenças e uma grande semelhança com os tempos bíblicos: o império igualmente conseguiu neutralizar as forças que poderiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.
A revolução é mais necessária do que nunca, mas inexiste uma classe capaz de assumi-la e concretizá-la, como o fez a burguesia, ao estabelecer o capitalismo; e como se supunha que o proletariado industrial fizesse, edificando o socialismo.
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AS AMEAÇAS DE CATÁSTROFES E O FANTASMA DO RETROCESSO– O fantasma a ora nos assombrar é o do fim do Império Romano: ou seja, o de que tal impasse nos faça retroceder a um estágio há muito superado em nosso processo evolutivo.
Mas, ao enfurecer-se com os que mercantilizavam a fé, ameaçou a estrutura de poder de Israel e foi destruído.
O capitalismo hoje produz legiões de excluídos que fazem lembrar os bárbaros que deram fim a Roma; não só os que vivem na periferia do progresso, mas também os miseráveis existentes nos próprios países abastados, vítimas do desemprego crônico.
E as agressões ao meio ambiente, decorrentes da ganância exacerbada, estão atraindo sobre nós a fúria dos elementos, com consequências avassaladoras. Décadas de catástrofes serão o preço de nossa incúria.
No entanto, como disse o grande jornalista Alberto Dines, “criaturas e nações cometem muitos desatinos, mas na beira do abismo recuam e escolhem viver”.
Se a combinação do progresso material com a influência mesmerizante da indústria cultural tornou o capitalismo avançado praticamente imune ao pensamento crítico e à gestação/concretização de projetos alternativos de organização da vida econômica, política e social, tudo muda durante as grandes crises, quando abrem-se brechas para evoluções históricas diferentes.
Estamos em plena contagem regressiva, encaminhando-nos para o momento em que as contradições insolúveis do capitalismo acabarão desembocando numa depressão tão terrível como a da década de 1930; e em que nos veremos gravemente ameaçados pela sucessão de emergências e mazelas que decorrerão das alterações climáticas (a pandemia de covid-19 parece ser apenas um trailer do que está para vir).
"...a solidariedade, ao invés do egoísmo..."
O sofrimento e a devastação serão infinitamente maiores se os homens enfrentarem desunidos tais desafios. Caso as nações e os indivíduos prósperos venham a priorizar a si próprios, voltando as costas aos excluídos, estes morrerão como moscas.
O desprendimento, em lugar da ganância; a cooperação, substituindo a competição; e a solidariedade, ao invés do egoísmo, terão de dar a tônica do comportamento humano nas próximas décadas, se as criaturas e nações escolherem viver.
E há sempre a esperança de que os mutirões criados ao sabor dos acontecimentos acabem apontando um novo caminho para os cidadãos, com a constatação de que, caso se mobilizem e organizem tendo o bem comum como prioridade suprema, eles aproveitarão muito melhor as suas próprias potencialidades e os recursos finitos do planeta.
Então, para além do Natal mercantilizado, que se tornou a própria celebração do templo e de seus vendilhões, vislumbra-se a possibilidade de outro. O verdadeiro: o Natal cristão, dos explorados, dos humilhados e ofendidos.
Se frutificarem os esforços dos homens de boa vontade que, entre nós, ainda restarem. (por Celso Lungaretti)
"Oh, não é para você meu canto!/ Não posso cantar, nem quero/
a este Jesus de madeira,/ mas sim àquele que caminhava sobre o mar"
Para quem é pesquisador, o momento é único, pois mostra uma transformação no comportamento religioso dos brasileiros. E se trata de uma transformação praticamente inédita, sem qualquer forma aparente de pressão, cujas consequências se fazem sentir na política, mas sorrateiramente poderão modificar os hábitos sociais, a música, a literatura, as expectativas de vida, com reflexos no cinema, no teatro e no próprio comércio. O Brasil é um país em mutação.
E a pergunta se impõe: mutação para melhor ou pior? Vou procurar alinhar os fatos, deixarei a conclusão aos leitores e pesquisadores.
Se começássemos pelo fim, frustraríamos quem prefere acompanhar a evolução dos processos sociais. Por isso, vamos ver onde tudo começou, sem ter de fazer um grande retrocesso, pois tudo ocorreu de maneira rápida, mesmo se tratando de um fenômeno envolvendo tradições e gerações de seres humanos. O ponto de partida fica há 200 anos, 1820, quando chegaram ao Brasil os primeiros imigrantes alemães e suíços. Alguns foram para São Paulo e Rio Grande do Sul; a maioria, porém, se dirigiu para o leste de Minas Gerais. O ciclo da cana-de-açúcar estava chegando ao fim e ia começar o do café. Esses lavradores, que logo se impuseram na região, não eram católicos como os brasileiros, mas luteranos e uns poucos calvinistas.
Para viver na região e nela assegurar o desenvolvimento da agricultura, tinham recebido o direito de manter sua fé protestante e o império brasileiro garantia o pagamento de um salário mínimo para o primeiro pastor imigrante. Era, porém, proibida a construção de igrejas, para evitar uma concorrência com a religião oficial, o catolicismo.
Tais regiões prosperaram, tornaram-se importantes cidades e os grupos protestantes se desenvolveram. Enquanto as comunidades luteranas progrediam no Sul, porém, o quadro era diferente nas Minas Gerais: por falta de pastores luteranos, havia uma dispersão dos fiéis. Essa lacuna seria preenchida no fim do século XIX pelos presbiterianos.
Ao contrário dos luteranos, cujo credo foi levado ao Brasil pelos imigrantes, a Igreja Presbiteriana, de origem calvinista, chegou ao país na metade do século XIX por um missionário estadunidense, Ashbel Green Simonton, com o objetivo de promover a evangelização dos brasileiros. Ao chegarem a Minas Gerais, os primeiros presbiterianos encontraram os luteranos, que a eles se agregaram. É importante para o presbiterianismo a participação dos mineiros convertidos do catolicismo, que substituíram os missionários estadunidenses, na expansão dessa denominação protestante, pois Minas funcionou como um celeiro de pastores para as igrejas presbiterianas de outros estados brasileiros. Entre eles, o mineiro Boanerges Ribeiro, que, depois de formado no Seminário de Campinas, foi ser pastor na cidade portuária de Santos, justamente na época em que o Partido Comunista, de volta à legalidade após a libertação de seu líder, Luís Carlos Prestes, tinha conseguido a maioria absoluta na Câmara Municipal.
Boanerges transformou a congregação de presbiterianos de Santos, que se reunia no templo da Igreja Luterana, numa frente avançada contra o comunismo, recuperando para a igreja muitos dos membros simpatizantes do partido.
Depois de deixar Santos e passar alguns anos nos EUA, e de ser reconhecido como um dos mais inteligentes e cultos líderes do presbiterianismo, tendo sido escritor e diretor da Universidade Mackenzie, Boanerges Ribeiro chegou ao posto máximo de presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana. O Brasil vivia o começo da ditadura decorrente do golpe de 1964.
Dentro da Igreja Presbiteriana e de seus seminários, expandia-se a ideologia do evangelho social. A intervenção de Boanerges Ribeiro foi forte, com o fechamento de seminários, a expulsão de pastores considerados esquerdistas e mesmo denúncias ao governo militar. Um dos pastores expulsos foi James Wright, filho de missionários estadunidenses no Paraná, conhecido por sua participação na missa em memória de Vladimir Herzog.
Não foram apenas os presbiterianos os apoiadores do golpe de 64, mas todas as denominações protestantes ou evangélicas. Tinha sido um rompimento com as próprias origens libertárias do protestantismo europeu. O protestantismo verde-amarelo nada tinha a ver com Lutero ou Calvino, atrelado que já estava ao conservador protestantismo estadunidense. Nessa época, os protestantes não chegavam a 4 milhões em todo o Brasil. A Igreja Católica ainda era socialmente ativa, mas regrediu alguns anos mais tarde, abandonou a AP e os movimentos inspirados num evangelho social.
Foi quando as denominações evangélicas estadunidenses mais conservadoras decidiram invadir o Brasil. Primeiramente com o movimento popular de cura divina e, logo a seguir, adaptando à teologia cristã a teoria de best-sellers americanos – como O Poder do Pensamento Positivo, de Norman Vincent Peale – para a ideologia do Evangelho da Prosperidade.
A visão capitalista do Evangelho da Prosperidade vem derrubando o tradicional catolicismo e conquistando fiéis seguidores, principalmente entre os brasileiros mais pobres – até 2050, deve haver mais evangélicos do que católicos no Brasil. Hoje, já são mais de 30%. As denominações protestantes tradicionais, inclusive os presbiterianos, não participam dessa expansão. Ela é exclusiva das chamadas igrejas evangélicas: Assembleia de Deus, Igreja Pentecostal, Congregação Cristã e Igreja Universal estão entre as principais.
Até aí, essa expansão evangélica nada teria de reprovável. Poderia ser qualificada como um fenômeno de moda, se não fosse a decisão dos evangélicos de se reunir em termos políticos. Isso significou a eleição do atual presidente Bolsonaro e o aumento das bancadas evangélicas na Câmara, no Senado e, logo mais, nas câmaras municipais. Deixando de lado as frases de Cristo, “o meu reino não é deste mundo” e “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, os evangélicos querem hoje repetir, no Brasil, o que a Igreja Católica foi até o fim da Idade Média e o regime em vigor nos Estados teocráticos muçulmanos, como o Irã.
No Irã, que poderia estar entre os mais democrático dos países muçulmanos, existem dois poderes. O religioso é superior e controlador do poder político. Hoje, ao que parece, os evangélicos pretendem criar no Brasil, de alguma forma, a supremacia do poder evangélico sobre o poder político, incluindo a criação e a revogação de leis e a supremacia sobre o STF.
A eleição de Bolsonaro foi conclusiva para os evangélicos. A partir do crescimento dessas igrejas, com seu evangelho de consumo e a inspiração capitalista baseada na prosperidade econômica, os evangélicos logo disporão de maioria no Parlamento e dominarão a vida política brasileira.
Serão capazes de mudar nossos códigos Civil e Penal e de ditar a vida social brasileira, acabando, p. ex., com o Carnaval e os cultos de origem africana, mediante a instituição de um rigoroso governo teocrático.
A ditadura de Deus será mais terrível ainda que a dos militares. (por Rui Martins, no Observatório da Imprensa)
Hoje não tem artigo, crônica ou crítica. Tem música.
E é uma canção belíssima: La Saeta. Fiquei arrepiado ao escutá-la pela primeira vez, na voz do nosso Fagner, em dueto (ouça-o aqui) com o autor Joan Manuel Serrat -outro extraordinário cantor/compositor catalão, a exemplo de Lluís Llach.
Talvez porque, desde meus verdes anos, sempre me incomodasse a opulência do catolicismo oficial -- aquele dos altares, das procissões, da Inquisição e das Redentoras.
Com o tempo aprendi que não era esse o verdadeiro legado de Jesus Cristo, mas sim uma mensagem de esperança para os pobres, os humildes, os fracos, os desprotegidos, os injustiçados e os excluídos da Judeia -como destaca o douto estudioso de religiões Reza Aslan numa das exegeses mais importantes e consistentes já produzidas sobre os evangelhos, Zelota (leia uma boa reportagem aqui).
Também mexeu muito comigo a tese levantada por um dos pais da contracultura, Norman O. Brown, em seu clássico absoluto, Vida contra morte (1959): a de que o pecado cometido pela humanidade contra o Pai já foi purgado por milênios de calvário, sendo chegada a hora de resgatarmos a promessa de liberdade e plenitude que o Filho trazia e foi escamoteada por visões religiosas que preferem enfatizar os horrores da crucificação, para tanger seus rebanhos ao conformismo.
Tudo a ver com esta canção que, comparando o calvário longínquo de Jesus ao calvário permanente dos ciganos, é uma altaneira negação do Cristo dos crucifixos (sois pecadores, arrependei-vos!) para afirmar o que andava sobre as águas (tudo podeis, libertai-vos!).
Eis a letra completa de La Saeta:
Dijo una voz popular:
¿Quién me presta una escalera
para subir al madero
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?
Oh, la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos
siempre con sangre en las manos,
siempre por desenclavar.
Cantar del pueblo andaluz
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz.
Cantar de la tierra mía
que echa flores
al Jesús de la agonía
y es la fe de mis mayores.
¡Oh, no eres tú mi cantar
no puedo cantar, ni quiero
a este Jesús del madero
sino al que anduvo en la mar!
E aqui, a interpretação mais empolgante que dela encontrei no Youtube: