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sexta-feira, 28 de outubro de 2022

LULA? BOLSONARO? MELHOR SERIA ELEGERMOS QUEM NÃO DESAFINASSE!

dalton rosado
OS MEUS ELEITOS
N
ão voto, mas é claro que as eleições presidenciais deste domingo (30) têm importância fundamental para todos e, obviamente, para mim. 

Até não votar por opção conceitual e doutrinária é uma forma de votar, de protestar ou, ainda, de marcar posição (de alerta) sobre o day after.

Uma vitória do Boçalnaro, o ignaro representaria, para todo o povo brasileiro, um retrocesso civilizatório e material inaceitável, motivo pelo qual o meu ato de protesto ou omissão do voto tem sido questionado. Mas insisto que é um alerta, mesmo que represente um grito no deserto.

Aliás, tudo indica que seja bastante improvável tal resultado, a esta altura do 2º tempo e com os reiterados tiros nos pés dados pelo próprio candidato e seus correligionários próximos:
— a história do pintou um clima;
— a desindexação do salário-mínimo à inflação que estaria nos planos secretos do Paulo Guedes; e
— as sandices do Bob Jeff, o cowboy tupiniquim tresloucado, uma espécie de Adélio Bispo usando armamento de verdade ao invés de lâmina retrátil.

Seria a volta de posturas intolerantes nos costumes e da aceitação de restrições de direitos trabalhistas, salariais, fome e morte em nome da economia (caso da covid) e de uma hipotética retomada do desenvolvimento econômico e do mercado.

A legitimação de tantas proposituras absurdas e retrógradas pelo voto seria um retrocesso de dimensões históricas e, talvez, sofregamente duradouras.

A vitória de Lula agora é bastante provável, de vez que as eleições tomaram um nítido conteúdo de classes, com o candidato sebastianista detendo a preferência da faixa bem mais numerosa, a de baixa renda (mesmo que parte do patronato pressione fortemente tal estrato social).

Mas, classifico a eleição de Lula como mal bem menor, fruto de uma convergência de segmentos influentes e mais lúcidos da sociedade civil que somaram forças, superando divergências conciliáveis, algumas ditas progressistas e outras nem tanto, o que nos aponta para uma distensão social momentânea.

Quando digo que a distensão é momentânea, quero alertar para os graves problemas socioeconômicos e ecológicos que certamente cairão no colo do Lula. 

Eles estão a requerer soluções fora da caixa e do pensar habitual, mas não são sequer percebidos pelo candidato social-democrata-trabalhista.

Lula, no seu afã de parecer palatável aos setores elitistas do mundo político e econômico brasileiro, tende a adotar, de forma simplista, soluções antigas para problemas novos.

O mundo em depressão econômica causada por fatores endógenos à sua própria lógica funcional está a clamar por medidas antes inimagináveis, como:
— a transição gradativa e preferencial de energia fóssil para energias limpas (eólica e fotovoltaica), e não o fortalecimento da Petrobrás como se ainda estivéssemos no tempo do petróleo é nosso;
 a produção alimentar voltada para a satisfação das necessidades de consumo popular, de modo a acabar com a tragédia do fome num país que é o segundo maior produtor mundial de alimentos;
 a guinada na visão que se tem do mercado, passando-se a considerá-lo um mal social a ser extirpado e não um fator de equalização dos problemas sociais;
 o abandono da crença arcaica de que tudo se resolverá com a retomada do desenvolvimento econômico, substituída por um receituário que priorize o desenvolvimento humano e a melhora da qualidade de vida;
 a formatação de uma estrutura jurídico-constitucional de base, a fim de que não tenhamos mais de aceitar os centrões da como vida indispensáveis à sobrevivência da democracia burguesa e esta como indispensável para que não sobrevenham ditaduras.

Estou contando as horas para que ultrapassemos este momento de discussões eleitorais estéreis e possamos nos debruçar sobre soluções viáveis e duradouras dos nossos destinos.

Assim, quero falar de coisas prazerosas que me acompanham nos últimos 60 anos; quero falar dos nossos grupos brasileiros musicais que tantos prazeres nos proporcionaram.

Seguindo a ordem cronológica, começarei pelos cariocas (naturais ou por adoção), subdivididos em dois blocos, o primeiro com Tim Maia, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Jorge Ben Jor, que se uniram inicialmente no conjunto Os Sputniks, para depois encantarem o Brasil com melodias tão originais quanto belas.

O segundo com os expoentes da Bossa Nova, quais sejam Tom Jobim, Vinícius de Morais, João Gilberto, Chico Buarque, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lira, Johnny Alf, Nara Leão, Silvinha Telles, Elizeth Cardoso, Agostinho dos Santos, Astrud Gilberto, Miúcha e outros.

Os baianos, também subdivididos em dois blocos, o primeiro formado por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Betânia, Gal Costa, Tom Zé, Torquato Neto, Capinam,

O segundo integrado pelos novos baianos Morais Moreira, Baby do Brasil, Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes, Elomar, Carlinhos Brown, Luiz Caldas, Luiz Galvão, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Margareth Menezes, Cláudia Leite e outros.

Os mineiros do Clube da Esquina, com Milton Nascimento, Fernando Brant, Lô Borges, Márcio Borges, Toninho Horta, Beto Guedes, Flávio Venturini, Wagner Tiso, Tavinho Moura e outros.

Os cearenses, agrupados em torno no que se convencionou chamar Pessoal do Ceará, com Belchior, Raimundo Fagner, Ednardo, Rodger Rogério, Teti, Jorge Melo, Petrúcio Maia, Fausto Nilo, Augusto Pontes, Stélio do Vale, Brandão e outros.

Os pernambucanos e paraibanos, com destaque para Geraldo Vandré, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Lenine, Chico Science, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Nana Vasconcelos, Reginaldo Rossi e outros

Estes são os meus eleitos, que formaram grupos de produções musicais em cada região e que dão ao Brasil o belo título de país do chamado 1º mundo da música planetária.

Como diz o meu amigo e editor jornalístico Osvaldo Araújo, a música é o que mais se aproxima do divino.

Vou ouvi-los para que me ajudem a superar a mediocridade e a tormenta... (por Dalton Rosado)
"Quem sabe o canto da gente, seguindo
na frente, prepare o dia da alegria!"

domingo, 12 de dezembro de 2021

DALTON ROSADO RELEMBRA O GOLPE DE 1964 E O "GOLPE DENTRO DO GOLPE" (AI-5)

"
A CIA financiou setores da Igreja Católica na Marcha da Família, com Deus pela Liberdade
e noutros movimentos religiosos" (frei Betto)
Considero importantes os depoimentos pessoais dos que viveram os anos de chumbo, seus testemunhos da História e as ilações que, a partir deles, podem ser feitas para o momento presente. É um contributo do blog para que a história negativa não se repita. 

Assim, nesta véspera de mais um aniversário da assinatura do infame AI-5 [outro post sobre as 53 velinhas manchadas de sangue pode ser acessado aqui], vamos à obra.  

Em 31 de março de 1964 eu estava próximo de completar 14 anos (faltavam 22 dias). Um adolescente apaixonado por futebol, que morava em Mossoró (RN), cidade cujo pequeno destacamento da FAB era comandado por meu pai, então sargento da Aeronáutica.

Ele havia conhecido minha mãe, exatamente em Mossoró, 16 anos antes, quando ele foi para lá transferido. Minha mãe era oriunda da tradicional família Rosado; tinha como primo Jerônimo Dix-Sept Rosado Maia, prefeito da cidade e aspirante ao governo do Estado, o que viria a acontecer dois anos após. 

O governador Dix-sept Rosado morreu num acidente de avião em 1951, quando viajava ao Rio de Janeiro para uma audiência com o presidente Getúlio Vargas. 

Meu pai era um mineirinho nascido na histórica cidade mineira de Mariana (a mesma da tragédia da barragem) e que fora para o Rio de Janeiro, lá se tornando militar. Minha mãe, originária da classe média mossoroense (os Burlamacchi, de origem italiana, e os Rosado, de origem espanhola), apaixonou-se por aquele militar de baixa patente e com ele se casou. 
Eis a Mossoró quando os pais do Dalton namoravam

Nasci em 1950 no Rio de Janeiro, para onde meu pai houvera sido transferido logo após o casamento. Assim, como diz a música de Chico Buarque, sou um brasileiro nato, de muitos cantos e origens. 

Vivíamos a pobreza sustentável de uma vida familiar de militar de baixa patente com cinco filhos, sendo eu o primogênito.  

Quando passei no vestibular de Direito, aos 19 anos, fui cursar a Faculdade em Fortaleza (capital mais próxima de Mossoró) e por lá fiquei até hoje, pois foi onde descobri a régua e o compasso consolidadores daquilo que antes já se formara na minha personalidade: a luta contra as injustiças sociais. 

Meu pai, que servira na guerra patrulhando o Atlântico Sul como sargento rádio-telegrafista, não fazia o antigo estereótipo do militar casca grossa, disciplinador rabugento e bitolado, e minha mãe era envolvida com assistência social aos desvalidos. 

Formavam um casal sem nenhuma aspiração de poder e com imenso senso de justiça, o que certamente me influenciou a ter uma visão crítica daquela sociedade desigual que chocava até o mais insensível observador de cena cotidiana rural e urbana. 

Lembro-me de meu pai, como comandante militar subalterno, recebendo um oficial superior da nova ordem golpista, o qual, de cara, reclamou da poeira no seu sapato; meu pai respondeu batendo continência e dizendo sim, senhor!
Alunos tentando gravar aulas eram policiais infiltrados
Na minha ingenuidade de adolescente, achei que aquilo era uma injustiça e uma afronta ao meu pai, que havia engraxado o sapato até ficar brilhando, mas não tinha como evitar que ele ficasse novamente empoeirado por causa da sequidão da terra.      

Depois assisti à prisão de um comerciante, pai do meu melhor amigo, que comprava uns uísques escoceses contrabandeados no porto de Areia Branca para tomar com os amigos; um tenente do Exército o deteve numa operação espetacular (bem no estilo da Lava-Jato de Sergio Moro) como se fosse um grande contrabandista. 

Esse era o clima policialesco do combate à corrupção alardeado pelos golpistas. Entristeceu-me a vergonha do meu amigo ao ver seu pai algemado, colocado em cima de um caminhão e sendo tratado como um perigoso bandido, embora não passasse de um pacato cidadão que apenas gostava de tomar uns uísques mais baratos e de boa qualidade com os amigos a quem prestava favores.

Meu pai foi para a reserva logo em seguida, afastando as preocupações da família sobre a possibilidade de ser considerado como adversário do regime e receber alguma punição. 

Estas eram as minhas impressões de menino de 14 anos sobre o golpe de 1964, nos meses e anos subsequentes. 
"vi o AI-5 como um golpe dentro do golpe"

Já entrando na vida adulta, vi o AI-5 do final de 1968 como um golpe dentro do golpe

Em 1969 vi muita gente sendo perseguida. Uma delas pude até salvar da prisão, já que alertado pelo motorista da pick-up que serviria de transporte quando fossem detê-la no dia seguinte. 

Tratava-se do meu melhor amigo, que então teve tempo suficiente para dar o fora e hoje é um brilhante professor de física na UFRJ. 

Em Fortaleza, na faculdade de Direito, assisti em 1970 aos embates de professores com alunos que portavam gravadores, proibidos pelos mestres sob pretextos, já que não podiam alegar o motivo real:  eram policiais infiltrados para vigiá-los. 

A indignação com o amordaçamento da livre expressão do pensamento e a amizade com o pessoal da esquerda clandestina (inclusive do movimento cultural do qual saíram Belchior, Jorge Melo, Ednardo, Rodger Rogério, Teti e o eleitor do Boçalnaro, Raimundo Fagner, que depois caiu em si e detonou o governo genocida) fortaleceram a minha inclinação natural para as causas populares e a admiração pelos que ousavam travar o bom combate numa época de trevas.   

Os anos de chumbo foram marcados pelo falso milagre brasileiro; pela euforia da brilhante conquista da seleção brasileira no México, aproveitada de modo ufanista pelos golpistas; e pela perseguição sem tréguas à esquerda, que somente podia se articular nos subterrâneos da resistência.
Dalton foi o secretário de Finanças da prefeita Maria Luíza Fontenele 
O que se viu daí em diante foram: 
— demissões arbitrárias; 
— perseguições de todo tipo; 
— banimentos, intensificação das cassações de parlamentares;
— prisões, torturas, assassinatos;
— um clima de medo, em contraponto à alegria de grande parte da classe média. 

Eram os deslumbrados com o boom econômico, indiferentes aos acontecimentos políticos  e eufóricos com a ilusória melhora do padrão de consumo, impulsionada pelos dólares de uma dívida que iria nos custar muito cara. 

Tudo sob o silêncio da censura à imprensa que somente divulgava os êxitos da ditadura. 

Após me formar no final dos anos 70, passei a ser:
— advogado de causas populares: 
— fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da arquidiocese de Fortaleza, com o cardeal Aloísio Lorscheider (1980); 
— fundador do PT (1981); 
— um dos coordenadores da campanha vitoriosa do PT à prefeitura de Fortaleza em 1985; 
— secretário de Finanças de Administração popular (1986 a 1988); 
— candidato a prefeito de Fortaleza, apoiado pela então prefeita Maria Luíza (1988), tendo ambos sido expulsos porque os dirigentes nacionais do PT preferiam outra candidatura; e
— estudioso das teorias revolucionárias, o que me levou a convergir para a crítica da economia política marxiana e a escrever alguns livros sobre o tema, ainda inéditos, além de colaborar com jornais e blogs.

Esta é a trajetória pessoal de um cidadão preocupado com a renitente e histórica tragédia do povo brasileiro, apesar da imensa potencialidade material do nosso país; e com a faina tresloucada dessa extrema-direita que tenta fazer-nos regredir a um passado atroz e ignaro. 

Ditadura nunca mais! (por Dalton Rosado) 

domingo, 31 de março de 2019

DALTON ROSADO: "LEMBRANÇAS DO GOLPE (1964) E DO GOLPE DENTRO DO GOLPE (AI-5)"

                             encontro com a ditadura – 13

"A CIA financiou setores da Igreja Católica na Marcha com Deus pela Liberdade e outros movimentos religiosos" (frei Betto)
Considero como importantes os depoimentos pessoais dos que viveram os anos de chumbo, seus testemunhos da História e as ilações contributivas que, a partir deles, podem ser feitas para o momento presente. É um contributo do blog para que a história negativa não se repita. Assim, vamos à obra.  

Em 31 de março de 1964 eu estava às vésperas de completar 14 anos (faltavam 22 dias). Um adolescente apaixonado por futebol, que morava em Mossoró, Rio Grande do Norte, cidade cujo pequeno destacamento da FAB era comandado por meu pai, então sargento da Aeronáutica.

Meu pai havia conhecido minha mãe no ano de 1948, exatamente em Mossoró, 16 anos antes, quando ele foi para lá transferido. Minha mãe era oriunda da tradicional família Rosado; tinha como primo Jerônimo Dix-Sept Rosado Maia, prefeito da cidade e aspirante ao governo do Estado, o que viria a acontecer dois anos após. 

O governador Dix-sept Rosado morreu num acidente de avião em 1951, quando viajava ao Rio de Janeiro para uma audiência com o presidente Getúlio Vargas. 

Meu pai era um mineirinho nascido na histórica cidade mineira de Mariana (a mesma da tragédia da barragem) e que fora para o Rio de Janeiro, lá se tornando militar. Minha mãe, originária da classe média mossoroense (os Burlamacchi, de origem italiana, que trocaram o cchi por qui por causa da pronúncia, e os Rosado, de origem espanhola), apaixonou-se por aquele militar de baixa patente e com ele se casou. 
Assim era Mossoró quando os pais do Dalton namoravam

Nasci no Rio de Janeiro em 1950, para onde meu pai houvera sido transferido logo após o casamento. Assim, sou como diz a música de Chico Buarque, um brasileiro nato, de muitos cantos e origens. Vivíamos a pobreza sustentável de uma vida familiar de militar de baixa patente com cinco filhos, sendo eu o primogênito.  

Quando passei no vestibular de Direito, aos 19 anos, fui cursar a Faculdade em Fortaleza (capital mais próxima de Mossoró, RN) e por lá fiquei até hoje, pois foi onde descobri a régua e o compasso consolidadores daquilo que antes já se formara na minha personalidade: a luta contra as injustiças sociais. 

Meu pai, que servira na guerra patrulhando o Atlântico Sul como sargento rádio-telegrafista, não fazia o antigo estereótipo do militar casca grossa, disciplinador rabugento e bitolado, e minha mãe era envolvida com assistência social aos desvalidos. 

Formavam um casal sem nenhuma aspiração de poder e com imenso senso de justiça, o que certamente me influenciou a ter uma visão crítica daquela sociedade desigual que chocava até o mais insensível observador de cena cotidiana rural e urbana. 

Lembro-me de meu pai, como comandante militar subalterno, recebendo um oficial superior da nova ordem golpista, o qual, de cara, reclamou da poeira no seu sapato; meu pai respondeu batendo continência e dizendo sim, senhor!
"alunos que tentavam gravar aulas eram policiais infiltrados"
Na minha ingenuidade de adolescente, achei que aquilo era uma injustiça e uma afronta ao meu pai, que havia engraxado o sapato até ficar brilhando, mas não tinha como evitar que ele ficasse novamente empoeirado por causa da sequidão da terra.      

Depois assisti à prisão de um comerciante, pai do meu melhor amigo, que comprava uns uísques escoceses contrabandeados no porto de Areia Branca para tomar com os amigos; um tenente do Exército o deteu numa operação espetacular (bem no estilo da Lava Jato dos dias de hoje) como se fosse um grande contrabandista. 

Esse era o clima policialesco do combate à corrupção alardeado pelos golpistas. Lembro-me da vergonha do meu amigo, que vira seu pai algemado, colocado em cima de um caminhão e sendo tratado como um perigoso bandido, embora não passasse de um pacato cidadão que apenas gostava de tomar uns uísques mais baratos e de boa qualidade com os amigos a quem prestava favores.

Meu pai foi para a reserva logo em seguida, afastando as preocupações da família sobre a possibilidade de ser considerado como adversário do regime e receber alguma punição. 

Estas eram as minhas impressões de menino de 14 anos sobre o golpe de 1964, nos meses e anos subsequentes. 
"vi o AI-5 como um golpe dentro do golpe"

Já entrando na vida adulta, vi o AI-5 do final de 1968 como um golpe dentro do golpe

Em 1969 vi muita gente sendo perseguida. Uma delas pude até salvar da prisão, já que alertado pelo motorista da pick-up que serviria de transporte quando fossem detê-la no dia seguinte. Tratava-se do meu melhor amigo, que então teve tempo suficiente para se colocar a salvo e hoje é um brilhante professor de física na UFRJ. 

Em Fortaleza, na faculdade de Direito, assisti em 1970 aos embates de professores com alunos que portavam gravadores, proibidos pelos mestres sob pretextos, já que não podiam alegar o motivo real:  eram policiais infiltrados para vigiá-los. 

Minha indignação com o amordaçamento da livre expressão do pensamento e a amizade com o pessoal da esquerda clandestina (inclusive do movimento cultural do qual saíram Belchior, Jorge Melo, Ednardo, Rodger Rogério, Teti e o hoje equivocado eleitor do Boçalnaro, Raimundo Fagner) fortificaram a minha inclinação natural pelas causas populares e a admiração pelos que ousavam travar o bom combate numa época de trevas.   

Os anos de chumbo foram marcados pelo falso milagre brasileiro; pela euforia da brilhante conquista da seleção brasileira no México, aproveitada de modo ufanista pelos golpistas; e pela perseguição sem tréguas à esquerda, que somente podia se articular nos subterrâneos da resistência.
Secretário de Finanças de Fortaleza entre 1986 e 1988
O que se viu daí em diante foram: 
— demissões arbitrárias; 
— perseguições de todo tipo; 
— banimentos, intensificação das cassações de parlamentares;
— prisões, torturas, assassinatos;
— um clima de medo, em contraponto à alegria de grande parte da classe média. 

Eram os deslumbrados com o boom econômico, indiferentes aos acontecimentos políticos  e eufóricos com a ilusória melhora do padrão de consumo, impulsionada pelos dólares de uma dívida que iria nos custar muito cara. 

Tudo sob o silêncio da censura à imprensa que somente divulgava os êxitos da ditadura. 

Após me formar no final dos anos 70, passei a ser advogado de causas populares: 
— fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da arquidiocese de Fortaleza, com o cardeal Aloísio Lorscheider (1980); 
— fundador do PT (1981); 
— um dos coordenadores da campanha vitoriosa do PT à prefeitura de Fortaleza em 1985; 
— secretário de Finanças de Administração popular (1986 a 1988); 
— candidato a prefeito de Fortaleza, apoiado pela então prefeita Maria Luíza (1988), tendo ambos sido expulsos porque os dirigentes nacionais do PT preferiam outra candidatura; e 
— estudioso das teorias revolucionárias, o que me levou a convergir para a crítica da economia política marxiana e a escrever alguns livros sobre o tema, ainda inéditos, além de colaborar com jornais e blogs.

Esta é a trajetória pessoal de um cidadão preocupado com a renitente e histórica tragédia do povo brasileiro, apesar da imensa potencialidade material do nosso país; e ressabiado com a atual exumação de surrados clichês anticomunistas que, ao invés de nos impulsionarem para o futuro, tentam fazer-nos regredir a um passado atroz e ignaro. 

Ditadura nunca mais! (por Dalton Rosado)

domingo, 19 de agosto de 2018

NOSSO NORDESTE DECAI CADA VEZ MAIS SOB O CAPITALISMO, MAS HAVERÁ DE FLORESCER NUMA SOCIEDADE EMANCIPADA!

dalton rosado
NORDESTE BRASILEIRO, A TERRA PROMETIDA?
Na história da libertação dos hebreus do jugo egípcio, Canaã corresponde à terra prometida onde, graças à conjunção de terra, sol e água abundante, corria leite e mel.

O Nordeste brasileiro pode se tornar a nova Canaã destes tempos chamados de modernos. Aliás, trata-se de um conceito que mascara o vergonhoso descompasso atual entre o desenvolvimento tecnológico e do saber, de um lado; e a pobreza da maior parte das populações do mundo, do outro. Uma discrepância que é gritante no nosso Nordeste.   

Nele, a secular (ou milenar) escassez de água da chuva agora se agrava com o aquecimento global, reduzindo drasticamente os seus reservatórios e causando a desertificação de grande parte de terras interioranas, já abandonadas por parcela considerável dos seus antigos habitantes, os pobres agricultores. 
Isto também é Nordeste...
Nem mesmo os antigos coronéis resistiram à autofagia capitalista: eles também desertaram. Isto, contudo, não deve nos causar júbilo, pois se trata de outro aspecto trágico dentro de uma realidade ainda mais trágica, com os resquícios da era pré-capitalista extinguindo-se por força da dinâmica de sua negativa lógica de produção e deixando uma terra devastada no seu lugar.    

A população do Nordeste (53,6 milhões de habitantes, correspondendo a 25,8% da população brasileira) concentra-se nos centros urbanos; mais precisamente, na faixa litorânea. 

A densidade demográfica do interior do Nordeste é bem inferior aos 36,3 habitantes por km² atribuído à região, que já é bem inferior aos 47,5 habitantes por km² da região sul/sudeste do Brasil, vez que sua população se concentra nos centros urbanos.       

É que ninguém consegue produzir no agronegócio sob o regime concorrencial de mercado com as condições de competitividade dadas para o Nordeste brasileiro. 

Fazer reforma agrária no Nordeste é fácil, mas não passa de uma piada; as terras carecem de valor econômico, na medida em que a produção agrícola não consegue concorrer com outras regiões do país.  
...mas o capitalismo o conduz a isto.

Os grandes latifundiários rurais até aceitariam as desapropriações estatais, não fossem as avaliações irrisórias que hoje se fazem daquilo que outrora supunham ser um valioso patrimônio.

Comete grave erro o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra: ao lutar pela propriedade da terra para os agricultores, sem colocar em xeque a própria natureza jurídica e econômica da propriedade rural e seu modo implícito de produção, direciona-se para o fracasso, a menos que atualize a sua bandeira de lutas e passe a defender não só a posse da terra, mas também a produção sob outro modo de relação social. 

Até a agricultura de subsistência deixou de ser viável, tanto que os poucos colonos que se aventuram a produzir num lote de terra desapropriada logo desistem da empreitada. Apenas algumas localidades mais bem aquinhoadas por terem solo fértil e água conseguem produzir alguma coisa, e assim mesmo em pequena escala.     

Salta aos olhos quão perversa é a lógica capitalista para as regiões que não conseguem ter competitividade de mercado para a sua produção de mercadorias; os fenômenos do empobrecimento rural do Nordeste brasileiro e de sua destruição ecológica via desertificação o atestam de forma incontestável. 
"Menino de pé no chão, já não sabe nem chorar. Reza uma reza comprida
 pra ver se o céu saberá. Mas a chuva não vem, não. E esta dor
no coração, ai, quando é que vai se acabar?!"
.
Não se produz alimentos em grande escala no Nordeste porque o solo é pobre; a água, escassa; e a energia, cara. 

Esses três fatores deixariam de existir acaso houvesse um modo de produção de bens agrícolas servíveis ao consumo fora da lógica da mercadoria, ou seja, sem mensuração de valor monetário, mas de valoração da vida. 
"Em 1950 mais de 2 milhões de nordestinos viviam fora dos seus estados
natais. 10% da população do Ceará emigrou. 13% do Piauí!
5% da Bahia!! 17% de Alagoas!"
.
Ao contrário do que se pensa (e o pensar sob o capitalismo é sempre abstrato e oportunista, sem conexão com o concreto e a satisfação das necessidades humanas, ainda que se torne real na vida social), o Nordeste brasileiro poderia se tornar, sob outra lógica, a mais produtiva das terras brasileiras, vez que os seus pretensos entraves à produção podem, sim, ser removidos.  

Como sabem os profissionais das ciências agrícolas, o sol é o mais importante fungicida do planeta Terra; e o Nordeste brasileiro possui sol e vento permanentes o ano inteiro.
"Quero ver o meu sertão produzir pra nação ver. E o sertanejo menino,
sorrindo poder crescer. Fazer conta de somar, dividir, multiplicar.
E quando receber carta, não ter que pedir pros outros ler"
.
Consequentemente, as pragas que dificultam a produtividade agrícola podem ser combatidas com mais facilidade, e o seu clima, mais ou menos estável durante todo o ano, o torna imune aos danos causados pelas geadas e pelas chuvas excessivas.

Deve ser também levada em conta a possibilidade de produção de energias limpas como a fotovoltaica e a eólica. A primeira advinda do sol e a segunda dos ventos, que são particularmente permanentes e estáveis durante todo o ano, com pequenas variações de intensidade. 
"Por falta d'água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão. Até mesmo
a asa branca bateu asas do sertão. Entonce eu disse, adeus
Rosinha, guarda contigo meu coração"
.
O Nordeste tem águas subterrâneas salgadas, salobras, que podem ser dessalinizadas pelo uso de equipamentos movidos à energia fotovoltaica e eólica, abstraindo-se dessa utilização o custo econômico de tal processo, somente possível numa sociedade não mediada pela forma-valor.    

Sob este mesmo prisma, as águas dos rios amazônicos poderiam ser transpostas para a região nordeste do Brasil e manter de forma perene (e até com sobras!) o abastecimento de água para a produção rural e para os centros urbanos, desde que não prevalecesse a famigerada viabilidade econômica da lógica capitalista que prioriza o lucro em detrimento da vida.    
"A vida aqui só é ruim quando não chove no chão. Mas se chove dá de tudo,
fartura tem de porção. Tomara que chova logo, tomara, meu Deus,
tomara! Só deixo o meu Cariri no último pau de arara"
.
Por último vem a questão do enriquecimento do solo, agora que as técnicas agrícolas têm como fazê-lo perfeitamente. Os custos econômicos, contudo, o inviabilizam na atualidade,  mas tal empecilho deixaria de existir sob uma lógica de produção voltada para a satisfação das necessidades de consumo. 

Sob uma mediação social sem a imposição da tirania da ganância sobre a produção agrícola, a satisfação das necessidades de consumo de alimentos poderiam ser facilmente atendidas em cada localidade, evitando-se os elevados custos de transporte, próprios a uma economia mercantilizada (poluição pelo monóxido de carbono que atende aos interesses da indústria petrolífera à parte...).  
"E mesmo quem não tem coragem pra suportar, tem que arranjar também
coragem pra suportar. Ou então vai embora, vai pra longe e deixa
tudo, tudo que é nada, nada pra viver, nada pra dar"
.
Comprova-se assim, teoricamente e na prática, que a produção agrícola no Nordeste hoje se tornou plenamente viável graças à apreensão do saber pela humanidade nos seus vários ramos do conhecimento.

Até algumas décadas passadas, quando a competitividade mundial de mercado ainda não tinha imposto as suas regras ditatoriais a todos os quadrantes do mundo, a mesa de café da casa de um latifundiário rural era farta (já para os trabalhadores rurais sobrava uma alimentação bem mais precária, seguindo a tradição da senzala).
"Pavão misterioso, meu pássaro formoso, no escuro dessa noite me ajuda a
cantar. Derrama essas faíscas. Despeja esse trovão. Desmancha
isso tudo que não é certo, não!"
.
Nessa mesa podiam-se encontrar: café, açúcar mascavo, rapadura, leite, coalhada, cuscuz de milho, milho assado no verão (oito meses) e cozido no inverso (4 meses), canjica, pamonha,  ovos, queijos, carne assada, tapioca, bolos, frutas deliciosas do semi-árido, sucos de frutas de época, etc. 

Um café dez estrelas, e tudo bem natural!      
"Não há, ó gente, ó não, luar como esse do sertão. Oh, que saudade do luar da
minha terra, lá na serra branquejando folhas secas pelo chão! Este luar cá
da cidade, tão escuro, não tem aquela saudade do luar lá do sertão"
.
Com tudo isso o capitalismo acabou. O coronel vendeu sua fazenda, comprou uma casa na cidade e faz compras no supermercado de alimentos industrializados, vindos até do exterior.

Enfim, poderíamos hoje estar vivendo de um modo cômodo e moralmente dignificante, ao contrário da autofagia bárbara que ora nos é imposta, se déssemos fim, já com enorme atraso, à irracional mediação social pela forma-valor (dinheiro e mercadorias)! 
"Aqui tudo corre tão depressa, se você tropeça, não vai levantar. Motocicletas
se movimentando, dedos da moça datilografando, numa engrenagem de
pernas pro ar. Vou danado pra Catende, com vontade de chegar!"
.
A tecnologia, o saber científico e a máquina podem ser atributos redentores da humanidade, mas também podem ser fatores destrutivos e autodestrutivos, quando usados em detrimento da vida.

Nosso Nordeste é uma Canaã em potencial, que se tornará realidade dependendo das escolhas que fizermos e da consciência social que viermos a adquirir. (por Dalton Rosado)
"Debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, forjar
do trigo o milagre do pão e se fartar de pão

Decepar a cana, recolher a garapa da cana, roubar
da cana a doçura do mel e se lambuzar de mel

Afagar a terra, conhecer os desejos da terra, cio
da terra, a propícia estação, e fecundar o chão"

terça-feira, 21 de março de 2017

MÚSICOS E CANÇÕES QUE ILUMINARAM A MINHA VIDA (parte 2)

(o início desta série do Celso Lungaretti está aqui)
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O compositor, cantor e multi-instrumentista  Egberto Gismonti deu sequência ao trabalho do grande Heitor Villa-Lobos, de fazer uma releitura erudita das raízes musicais brasileiras; com a vantagem de ser também o intérprete de suas criações e de atingir os admiradores de uma MPB mais sofisticada, enquanto o maestro Villa-Lobos ficava mais restrito aos apreciadores da música clássica.

Ambos, inclusive, realizaram magníficos trabalhos com canções indígenas. Em 1978, Gismonti chegou a morar durante algum tempo com os índios Iaualapitis, do Alto Xingu, com os quais dialogava sobretudo através da música, tendo tal vivência marcado profundamente seu álbum Sol do meio-dia.

Ele despontara para o grande público no Festival Internacional da Canção de 1968, com a belíssima "O sonho", interpretada pelos Três Morais. Era, ainda, uma canção com letra, mas Gismonti se voltaria cada vez mais para a música exclusivamente instrumental.

Durante algum tempo a Emi-Odeon lhe garantia o lançamento de pelo menos um álbum por ano, mas a fonte foi secando, ao mesmo tempo em que gravadoras jazzísticas europeias lhe davam guarida, tanto para realizar discos solos como para projetos conjuntos com outros artistas de vanguarda de vários países. 

Daí resultou, p. ex., o pungente álbum Mágico (1979), cuja melancolia parece refletir o próprio clima gelado de Oslo, onde foi gravado – mas, claro, se deve em maior parte à performance superlativa do saxofonista norueguês Jan Garbarek (o baixista estadunidense Charlie Haden completou o trio).

A faixa "Bailarina" é a melhor do álbum, na minha opinião.
  
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Mal alcançando o microfone aos 11 anos...
Elis Regina teve seu grande momento na era dos festivais. Nascida em 1945 na capital gaúcha, começou a cantar aos 11 anos num programa de rádio para crianças, gravou seu primeiro LP aos 16 (na linha do rock água-com-açúcar de Celly Campello) e passou em 1964 a ser atração das boates do Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro, famoso reduto da bossa-nova.

Sua interpretação visceral de "Arrastão", no Festival da Excelsior de 1965, escancarou-lhe as portas do sucesso, tendo sua condição de apresentadora e atração maior do principal programa de TV dedicado ao gênero (O fino da bossa) feito dela o grande nome da MPB na segunda metade dos anos 60.
...e já no tempo do furacão Elis.

Após a assinatura do AI-5, quando a intimidação e a censura esvaziaram aquele movimento musical, Elis aprimorou-se na técnica do seu ofício, fez belos álbuns, conseguiu emplacar mais de 1.200 apresentações com seu show Falso brilhante... mas nunca voltou a emocionar tanto aos que a tínhamos visto despontar para o estrelato. Até porque a emoção havia sido praticamente suprimida da arte e da vida dos brasileiros.

Sua morte como consequência de overdose em 1982 lembrou muito a tragédia de grandes roqueiros (Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, etc.) que pareceram sair do palco da vida quando já não conseguiam igualar seus fulgurantes desempenhos anteriores e arrancavam os cabelos por isto.

Eis o que aficionados conseguiram reconstituir da atuação que transformou Elis numa estrela:
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Elomar Figueira Melo é um compositor, cantor e violonista baiano que se tornou conhecido por um público mais amplo a partir do festival MPB 80 da Rede Globo, no qual Dércio Marques defendeu sua "O peão (ou pinhão) na amarração". 

Nascido e criado no sertão, conseguiu formar-se arquiteto em 1964, lançou seu primeiro compacto em 1968 e o primeiro LP em 1972. Encarava a música como sua principal ocupação, buscando na arquitetura apenas um "suporte financeiro". 

Caracterizava-se por manter o visual sertanejo na carreira artística e por utilizar o jargão regional nas suas letras, que mostravam o cotidiano sofrido dos nordestinos e questionavam as injustiças sociais (algo como um Vandré dizendo as mesmas coisas no linguajar do povão).  

Ao mesmo tempo, partia para experimentos musicais sofisticados, compondo óperas e gravando discos com expoentes eruditos como Arthur Moreira Lima. É o caso desta versão mais sofisticada de "O peão na amarração":
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O cearense Fagner é, como Alceu Valença, outro compositor e cantor talhado para voos altos, que foi capaz de criar verdadeiras obras-primas na década de 1970 e início da seguinte, mas não tentou manter a qualidade do seu trabalho quando deixaram de existir consumidores em número suficiente no nicho da MPB sofisticada. 

Prostrou-se ao mercado e, aderindo ao som banal que a indústria fonográfica martela dia e noite na cabeça de suas vítimas, tornou-se mais um dentre tantos e tantos fabricantes de ruídos populares (como disse Paulo Francis a respeito de Caetano Veloso). Antes era artista e era único.

Quem quiser saber quão grande ele foi um dia, deve escutar o álbum que gravou em 1981 na Espanha, Traduzir-se, com a participação de monstros sagrados do flamenco como Joan Manoel Serrat e Camarón de la Isla;  e seu superlativo LP de 1975, Ave noturna, trazendo pérolas como "Astro vagabundo", "Beco dos baleiros", "Estrada de Santana" e esta dilacerante "Última mentira".
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Ela era assim em 1967...
Quando, entre outubro e novembro de 1968, a TV Record realizou seu 4º Festival da Música Popular Brasileira, o céu carregado indicava a iminência de uma tempestade. Algumas semanas antes, no dia 15 de setembro, acontecera a célebre eliminatória paulista do 3º FIC, na qual a "Questão de Ordem" de Gilberto Gil fora desclassificada e Caetano Veloso, após fazer um discurso inesquecível, retirou sua "É proibido proibir" em protesto contra as vaias que recebia. 

Gatos escaldados, ambos não quiseram mais expor-se à imbecilidade ululante. Então, para surpresa geral, quem apareceu para defender a composição que ambos haviam inscrito, "Divino maravilhoso", foi uma desconhecida com visual agressivo e cabelos desgrenhados, introduzida como Gal Costa

Passada a surpresa, espalhou-se a notícia de que se tratava de uma transfiguração da meiga e tímida Maria da Graça Costa Penna Burgos, que ainda no ano anterior estreara em LP dividindo com Caetano Veloso os vocais de canções suaves, com arranjos acústicos.
...e ficou assim no ano seguinte.

Surpreendentemente, ela não só tinha voz potente, como desandou a usá-la até quando não deveria. Sua fase tropicalista é marcada por interpretações gritadas (quase arrebentava nossos tímpanos em "Meu nome é Gal"!), como se tentasse ser a Janis Joplin brasileira. Não passou nem perto, mas, sem dúvida, deixou uma forte marca na MPB.

Uma das canções que melhor se adequaram ao estilo que ela estava tentando adotar foi "Vapor barato", um clássico de Jards Macalé e Wally Salomão.
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"O que foi que fizeram com ele? Não sei.
A música de Geraldo Vandré entrou na minha vida em 1966, quando dava os primeiros passos nas trilhas revolucionárias. 

Cantores/compositores correndo na faixa do protesto político e social havia outros, como Sérgio Ricardo e Gilberto Gil; eu percebia, contudo, algo diferente na forma como Vandré dizia praticamente as mesmas coisas: a emoção. 

Seu canto passava a impressão de que ele acreditava profundamente na mensagem transmitida em cada verso. 

Caso do grito que ele solta no meio da "Canção nordestina", começando lá embaixo e subindo até nos arrepiar até o fundo da alma ("E essa dor no coração/ aaaaaaAAAAAAIIIIIIIII, QUANDO É QUE VAI SE ACABAR?!"). Não se faziam tais coisas na música popular daquele tempo.

Também suas canções de amor sofrido são tocantes ao extremo. "Pequeno concerto que ficou canção" é um arraso: "Ah, eu vou voltar pra mim,/ seguir sozinho assim,/ até me consumir ou consumir toda essa dor,/ até sentir de novo o coração capaz de amor!".

Ele era o único dos compositores revolucionários que se colocava invariavelmente como personagem de suas músicas, o que lhes aumentava muito o impacto. Mas, não percebia o perigo embutido em versos como "Se um dia eu lhe enfrentar,/ não se assuste, capitão:/ só atiro pra matar/ e nunca maltrato, não": o de os ouvintes passarem a ver mesmo nele um guerrilheiro e dele cobrar uma postura de guerrilheiro. Noblesse oblige, Vandré até tentou corresponder a tais expectativas.
"Só sei que esse trapo, esse homem foi um rei" (Benito Di Paula)

Como no tempestuoso 1968, quando ele ousou o que nenhum outro ousara nem ousaria: atirar uma estrofe na fuça dos milicos, lançando-lhes um desafio altaneiro: "Há soldados armados, amados ou não,/ quase todos perdidos de armas na mão./ Nos quartéis lhes ensinam antigas lições,/ de viver pela pátria e morrer sem razões".

Teve de deixar o País e, no exílio, percebeu como lhe fazia falta a firmeza ideológica de um autêntico revolucionário. Era um artista dos melhores, mas, ainda assim, apenas um artista. E não aguentou a barra de ser estranho em terra estranha, com a saúde debilitada e cheio de problemas psicológicos, amplificados pelas drogas.

Tomou a decisão desastrosa de negociar com os militares a volta ao Brasil, tendo, na chegada, sido praticamente sequestrado e confinado durante 58 dias numa clínica carioca. Não tenho a mais remota dúvida de que sofreu uma lavagem cerebral e reprogramação mental. O resultado é que nunca mais foi o mesmo. 

Considero-o um caso similar aos de Garcia Lorca e Victor Jara, que foram abatidos como cães pelos fascistas; a Vandré causaram a morte espiritual, que talvez seja pior ainda.

O LP que gravou em 1973 na França, Das terras de benvirá, é com certeza o mais doloroso que escutei na vida – e, ainda, assim, de cristalina beleza. Ouçam a faixa-título e saibam por quê.
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Com os Mutantes, em 1967: "Domingo no parque".
No contato profissional que tive com ele certa vez, Gilberto Gil me causou ótima impressão. Boa gente como costumam ser os baianos da gema, brincalhão, aberto para abordar qualquer tema. 

No final da maratona (eu colhia informações para escrever uma revista inteira sobre ele), a coisa parecia mais uma conversa de velhos amigos do que uma entrevista propriamente dita.

Por ele ser a simpatia em pessoa, até evitei mais tarde criticá-lo por haver aceitado ser ministro da Cultura sem real disposição para lutar contra os poderosos interesses que avassalavam o setor e o reduziam à inocuidade e mediocridade. 

Sei que é ingenuidade, mas sempre sonho com músicos fazendo o que pregam nas suas letras. O Gil, com certeza, não cumprirá aquilo a que se propunha meio século atrás, lá no comecinho de sua trajetória: "Ainda viro este mundo/ em festa, trabalho e pão!". 
Exílio londrino em 1971: o preço da coerência.

São também da esquecida canção "Viramundo" estes versos que me inspiram até hoje: "Prefiro ter toda a vida/ a vida como inimiga/ a ter na morte da vida/ minha sorte decidida". Parece que eu acredito mais neles do que o autor.

Enfim, como ninguém é perfeito, mais vale lembrarmos a coragem que Gil teve para peitar a ditadura em 1968, lançando contra ela uma contestação global (política, ideológica, estética, moral, sexual, o escambau...); sua enorme contribuição para que os brasileiros nos percebêssemos como realmente somos, eternos explorados e irmãos siameses de outros explorados como os povos africanos, por mais que vivamos com a cabeça em Hollywood e Miami; e os muitos biscoitos finos que saíram do seu forno ao longo das décadas, inspirando-nos sonhos, ideias e ações.

Como esta sensível e nostálgica "A rua" (tomara que ele tenha mesmo voltado para matar a saudade!).  
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O bruxo Hermeto Pascoal é outro dos grandes nomes brasileiros da música instrumental, misturando no seu caldeirão sonoridades da natureza, ruídos que extrai de utensílios caseiros ou instrumentos exóticos por ele inventados, raízes nordestinas, influências jazzísticas, etc. 

O resultado é a alternância de passagens brilhantes e outras nem tanto. 

Sua originalidade artística e figura bizarra o tornaram arroz de festa de festivais internacionais, principalmente o de Montreux, na Suíça. Mas, às vezes fica a impressão de que todas as suas esquisitices são mais pirotecnias para disfarçar uma falta de espinha dorsal nas suas músicas.

Como esta "Gaio da roseira", que começa e acaba com o mesmo refrão nordestino, tendo muito experimentalismo musical no meio (fórmula que até o rock já utilizou largamente, começando por "In-A-Gadda-Da-Vida", do Iron Buterfly, em 1968). Enfim, é interessante e chega a ser bem agradável em certos trechos, então vale a pena conhecermos, mas sem expectativas exageradas. 
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Itamar Assumpção entra aqui como representante dos artistas de vanguarda da capital paulista que, entre 1979 e 1986, se uniram num movimento para alavancar a produção independente e sacudir o monopólio das grandes gravadoras, tendo o teatro Lira Paulistana como seu quartel general. Também estavam nesta jogada o Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Grupo Rumo, Premeditando o Breque e Língua de Trapo, entre outros.

O Arrigo Barnabé era o mais aclamado da turma, mas sempre me pareceu um genérico nacional do Frank Zappa & The Mothers of Invention. 

Já o Itamar foi mais autêntico, com sua mistura de rock, funk e gafieira. "Nego Dito", auto-louvação de um marginal pé de chinelo, é uma graça.
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O cantor, pianista e compositor Ivan Lins se tornou conhecido a partir do 2º lugar que obteve no decadente Festival Internacional da Canção de outubro de 1970, com "O amor é meu país". Ele e o Gonzaguinha foram as únicas revelações, cabendo  a vitória à intragável "BR-3".

Mês e meio depois, a Globo lançava o programa semanal Som Livre Exportação, comandado por Ivan Lins e Elis Regina, que durou quase nove meses, tendo projetado, p. ex., Tim Maia, Aldir Blanc e César Costa Filho.

Músico cujas influências principais eram a bossa-nova, o jazz e o soul, destacava-se pelas performances empolgadas, sem ser particularmente original nem brilhante. Tinha como principal parceiro Vitor Martins, cujas letras muitas vezes eram de esquerda soft

"Começar de novo", contudo, é uma bela canção da dupla que não poderia faltar aqui – até porque, nestes tristes trópicos, somos eternos Sísifos, obrigados a sempre recomeçar, sem que jamais a pedra se mantenha no topo da montanha.
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