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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

E QUANDO EU PENSO NA MORTE DO MACALÉ EU TENHO SOLUÇOS, E OS SOLUÇOS ESTRAGAM MINHA GARGANTA


O
Jards Macalé morreu na semana passada, aos 82 anos. Foi um dos talentos que despontaram em meio ao tropicalismo, mas não conseguiram, de início, brilhar tão intensamente como Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia.

Mas, quando o quarteto de elite do tropicalismo foi intimidado pela ditadura, inclusive com prisão e desterro do Caetano e do Gil, a linha experimental do movimento sobreviveu graças ao Macalé e ao Tomzé.

O Macalé começou sua carreira profissional em 1965, como violonista nos espetáculos do Grupo Opinião. Mas só se tornou um artista notado pelo público e pela imprensa a partir de sua participação no quarto FIC, quando cantou "Gotham City" e recebeu uma das maiores vaias da época dos festivais. Com isto, de imediato ficou conhecido como artista maldito

Também em 1970 lançou o compacto duplo Só Morto, que ouvimos até ficar riscado na nossa comunidade alternativa no Jardim Bonfiglioli. Morríamos de rir com a ingenuidade dos censores, que não perceberam as referências ao uso da maconha na canção "Soluços" ("Minha garganta fica vermelha, irritada, eu ainda não comprei meus óculos escuros") nem ao clima de medo e terror criado pela ditadura militar ("Esse sol tão forte é um sol de morte"). 

Adiante, contudo, os censores considerariam o xote "Sim ou não" um atentado à moral e aos bons costumes, tendo o imbróglio até causado a prisão do Macalé por alguns dias. O motivo foi o palavrão subentendido em "se você disser que pode, garota, eu me caso com você". O que será que eles queriam, casamentos assexuados? 

É um arraso o LP de 1972, que leva o nome dele e tem o melhor repertório  de todos os seus discos, incluindo parcerias com Torquato Neto e Capinam.

E foi um ato de coragem sua iniciativa de promover, em 1973, um show celebrando os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, com a participação do Chico Buarque, Gal Costa, Gonzaguinha, Luiz Melodia, Paulinho da Viola e Raul Seixas, entre outros. Imediatamente proibido, o álbum duplo dele derivado acabou  sendo lançado em 1979, quando Ernesto Geisel desmontava o aparato repressivo dos anos de chumbo . 

É superlativa a canção "Let's play that", na qual ele recriou o "Poema de Sete Faces", do Carlos Drummond de Andrade. O "Quando eu nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: 'Vai, Carlos! Ser gauche na vida' virou "Quando eu nasci um anjo torto, um anjo solto, um anjo louco veio ler a minha mão. Não era um anjo barroco, era um anjo muito solto, louco, louco, muito doido, com asas de avião. E eis que o anjo me disse, apertando a minha mão, entre um sorriso de dentes: 'Vai, bicho, desafinar o coro dos contentes!'"

Foi esta a fase em que acompanhei bem o trabalho do Jards Anet da Silva, mas ele ainda fez muita coisa boa. 

E quando penso na morte do Macalé eu tenho soluços, e os soluços estragam minha garganta. Até a vista, mermão! (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 27 de maio de 2024

E AGORA, LULA? MIMANDO OS PODEROSOS E FERRANDO OS IDEALISTAS, VOCÊ VAI ACABAR SOZINHO NO ESCURO, QUAL BICHO DO MATO!

"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
E agora, José?"
(Drummond)




Tal cenário de pesadelo acaba de inspirar ao jornalista Leonardo Sakamoto aquele que talvez seja o melhor artigo de sua carreira: Tragédia no RS é aviso sobre a derrocada da sociedade com a mudança do clima (vide aqui), 
no qual ele toca em cheio na ferida:

"Nas próximas décadas, teremos milhões de refugiados ambientais por conta da subida no nível dos oceanos e pelos eventos climáticos extremos; fome em grande escala devido à redução e desertificação de áreas de produção e à perda da capacidade pesqueira; aumento na quantidade de pessoas doentes e subnutridas, além de conflitos e guerras em busca de água e de terra para plantar. 

Muita gente vai morrer no Brasil e no mundo. E os sobreviventes terão que adaptar sua vida para conviver com um ambiente mais hostil e violento".
Há muito eu vinha advertindo que esta situação chegaria. No livro Vida contra Morte, escrito entre 1953 e 1956 por Norman O. Brown e lançado no Brasil em 1972, prestei muita atenção numa conclusão assustadora, mas que era sustentada com brilhantismo por sua análise: a de que, tendo seu crescimento sido travado por aquelas contradições que Marx já detalhara no século retrasado, o capitalismo se voltaria contra si mesmo e contra a sociedade que o engendrou, sendo capturado pelo instinto de morte e passando a expressá-lo.

Não era novidade, Hebert Marcuse já caminhara na mesma direção em
Eros e Civilização (1955), mas Norman O. Brown aprofundou o tema de forma tão consistente e irrefutável que passei a acompanhar com muita atenção os acontecimentos que parecessem confirmar tal fenômeno. 

E assim venho constatando, ao longo de meio século, que as alterações climáticas se tornaram cada vez mais ameaçadoras, com as projeções de avanço do aquecimento global sendo superadas ano a ano; e que os tradicionais cavaleiros do apocalipse, a guerra, a fome e a peste, voltam a nos assombrar com força total.    

Mas, mesmo tendo sido recentemente exterminados em larga escala pela covid e estando agora às voltas com um dilúvio, continuamos resistindo à constatação de que o caos social veio para ficar e o Brasil como o conhecíamos deixou de existir.

Doravante a espécie humana estará cada vez mais lutando por sua sobrevivência, com risco real de ser extinta ainda neste século e a necessidade de direcionar, com máxima urgência, seus melhores esforços para a eliminação de vilões óbvios como os combustíveis fósseis e o desmatamento.

O certo é que o tempo desperdiçado até agora nos condena a sofrer durante muitos anos as consequências de nossa insensatez; e que, se não começarmos a acertar o passo o quanto antes, chegará um momento em que nada mais vai adiantar e a aventura humana sobre a terra terá fim.

A presidência da República está emparedada e
achatada entre o Senado e a Câmara que a tutelam
O que fazermos, então? Marcharmos resignados para o matadouro ou lutarmos com todas as nossas forças para ao menos minorar a devastação que vem por aí e, se conseguirmos garantir a sobrevivência de contingentes humanos, começarmos a reconstruir a nossa civilização sob uma perspectiva diferente?

INIMIGO FIGADAL DA ESQUERDA COMBATIVA

Mas, podem indagar os leitores, o que tudo isto tem a ver com as iniciativas governamentais para esvaziar, pelo estrangulamento financeiro, a educação para o exercício pleno da cidadania no Brasil, tornando o ensino superior atual um versão piorada dos liceus de artes e ofícios de outrora?

Comecemos pelo fato de que, como bem o David Coelho denunciou em dois ótimos artigos (este e este), há no episódio uma nítida rendição do governo federal às posições conservadoras e mesmo reacionárias:
— seja porque Lula venha sempre sendo, desde as longínquas greves do ABC, um inimigo figadal (ainda que dissimulado) da esquerda combativa, nada além de mais um reformista tentando em vão minorar a desumanidade do capitalismo;
— e/ou porque, optando por prostrar-se ao grande capital e comprar a governabilidade cedendo a todas as chantagens do centrão, não lhe sobram recursos orçamentários para atender as demandas do próprio eleitorado do PT, em áreas fundamentais como educação, saúde e políticas ambientais.

É exatamente por causa do viés cada vez mais direitista do Governo Lula e de sua escandalosa união de forças com os inimigos do saber que nossa vitória nas greves atuais me parece tão improvável quanto nas que travamos em 1968 contra os acordos MEC-Usaid. 

Contudo, trata-se também de uma luta que aponta na direção certa: a de nos prepararmos para os confrontos muito mais difíceis e decisivos que travaremos adiante, na luta pela sobrevivência da civilização em meio ao caos e sob os ataques da barbárie.

Assim como tudo que 1968 representou não foi varrido pela promulgação do AI-5 e consequente imposição ao País do terrorismo de estado, mas continuou exercendo forte influência na política, na cultura e nos costumes (principalmente) por pelo menos uma década, esta jornada também deixará muitos frutos e lições.

Inclusive a de que entre o Governo Lula e a esquerda existe hoje um abismo nas intenções e nos atos. Quanto antes nos cair tal ficha, menos tempo precioso atiraremos na lixeira. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

...E EIS QUE O ANJO ME DISSE, APERTANDO A MINHA MÃO: "VÁ, BICHO, DESAFINAR O CORO DOS CONTENTES!" – 1

dalton rosado
SER GAUCHE NA VIDA 
Ser de esquerda, obviamente, não é uma posição geográfica, muito embora a expressão tenha surgido para designar a oposição burguesa que sentava-se à esquerda no parlamento da Assembleia Nacional constituída pela revolução republicana francesa e posterior império napoleônico, e que fazia oposição aos monarquistas, sentados à direita.

Como se vê, a esquerda tem suas origens na defesa do republicanismo burguês que, então inspirado  nos princípios iluministas, representava o pensamento oposicionista à monarquia feudal. 

A esquerda, assim constituída, era mercantilista, republicana, e em última análise, defensora do capitalismo em seus primórdios. 

É claro que, com o passar do tempo (como acontece com muitas transformações semânticas), o termo de esquerda abrangeu até os marxistas e anarquistas, surgidos no século 19, embora fossem muito díspares entre si tais posições e proposições ideológico-doutrinárias.

A diferenciação persiste, muito embora o pensamento conservador de direita sempre tente colocar no mesmo balaio alhos e bugalhos.

Ser de esquerda é uma opção da consciência humana!
A esquerda na Assembleia Nacional Constituinte

Se você tem a realização do ideal de justiça como referência de vida e age coerentemente de acordo com ela, você é um permanente revolucionário de esquerda, mesmo que se equivoque nalgum momento (estando, contudo, pronto para fazer a autocrítica que objetive consertar tal erro).  

Daí não podermos (nem devemos) ser apenas bem intencionado nas nossas posições e proposições, mas sim coerentes com aquilo que a nossa consciência nos indica como correto, sob um código moral e ético humanista.

Como princípio fundamental, ser de esquerda, do ponto de vista emancipacionista revolucionário, é compreender que a lógica do capital, que se enraizou em todos os quadrantes do mundo atual, é pugnar por uma mediação social fora da escravização indireta do trabalho abstrato produtor de valor e propiciador da acumulação segregacionista do capital. 

Os partidos comunistas são hoje, em geral, anticomunistas, de vez que praticam sem nenhum pejo a escravização indireta pelo trabalho abstrato (de Cuba à China dita comunista), pois defendem a permanência e a retomada do desenvolvimento econômico como fator de pretensa libertação dos trabalhadores. 
No Brasil, os partidos ditos de esquerda, mas institucionalizados, que integram o chamado
bloco da esquerda, são, na verdade, meros defensores do capitalismo que pretendem humanizar, atuando apenas na defesa: 
— dos direitos dos trabalhadores contra a vilania do capital (deveriam, no entanto, pugnar pela superação do capitalismo enquanto tal); e
— das franquias democráticas burguesas, sempre ameaçadas em face das frequentes e cíclicas crises do capitalismo.

Por estarem presos à institucionalidade burguesa constitucional e dela dependam economicamente, e por sua obediência juramentada ao chamado decoro institucional, limitam-se à defesa dos ganhos civilizatórios adquiridos pela humanidade, ora em retrocessos por impossíveis de serem mantidos em face da atual depressão econômica. 

Registre-se que a defesa dos ganhos civilizatórios é uma luta meritória e indispensável, mas inglória se mantidos os pressupostos da exploração capitalista. 

Como o capitalismo é cruel e insensível ao drama humano e apenas serve-se das necessidades humanas de consumo de mercadorias para exercer a sua tirania, quando chega a debacle dos seus fundamentos, como agora ocorre, todos os partidos institucionais se quedam obedientemente às exigências do seu senhor absolutista: a forma valor e sua pretensamente necessária sobrevivência.
Parlamentares expulsos do PT em 2004 por discordarem
da reforma da Previdência imposta pela direção do partido
 

Exemplo claro de bom comportamento diante da governabilidade econômica sob a mediação social pelo capital, podemos extrair do começo da administração do PT com Lula, que enviou ao Congresso Nacional um projeto da reforma da Previdência Social que retirava direitos dos trabalhadores pensionistas e que rachou o partido, dando origem ao Psol, criado por dissidentes. 

O Psol, entretanto, se um dia chegar ao poder, terá de governar dentro das regras da responsabilidade fiscal sob pena de impeachment. É que o capital dá ordens à política.  

Uma delas: após jurar-se respeito à Constituição, a ninguém é consentido negar o capitalismo, por ela consagrado como aspiração suprema da existência da humanidade! 

A adoção de uma postura crítica ao capital não é permitida nem  para a chamada esquerda, ainda que com propósitos humanitário; nem para a direita, cujos propósitos são de retrocessos absolutistas conservadores e cruelmente nazifascistas – não é, Daniel Silveira??? (por  Dalton Rosado continua neste post)
Jards Macalé interpreta a canção que compôs em parceria com o 
poeta Torquato Neto, atualizando os versos célebres do Drummond

domingo, 13 de junho de 2021

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA PEDRA, TINHA UMA PEDRA DIFICULTANDO A PASSAGEM DOS TANQUES

jânio de freitas
OS GOLPISTAS
TÊM UMA DÚVIDA
Desde o golpe assestado em 2018 pelo general Eduardo Villas Bôas contra o processo de eleição livre e democrática, com pronta capitulação da maioria do Supremo Tribunal Federal, são diferentes as posições formais da Marinha e da Aeronáutica (idênticas) e a do Exército, ante os acontecimentos políticos, o governo e a própria Constituição. 

Esse tem sido e será ainda mais, se mantido, um fator decisivo para a sobrevivência atual e futura da custosa democracia à brasileira.

Faltam indícios da existência, ou não, de custo interno para a Aeronáutica e a Marinha. Se algum há, está bem contido e vale a pena. Para todos os efeitos constitucionais, políticos e de ordem, a estrita dedicação nas duas Forças ao profissionalismo militar tem sido um empecilho ao fechamento do circuito golpista.

Pela dimensão, pelo espalhamento por grande parte do território, o Exército é desde sempre a força militar preponderante. Mas, para as intervenções na vida política e nos regimes, a unidade das Forças Armadas foi o redutor de riscos excessivos aos resultados pretendidos. 

Na golpeada segunda metade do século passado, por uma única vez o Exército ousou agir sozinho contra o poder constituído. 

Foi em 1955, quando os generais Lott e Denys derrubaram o presidente e seu sucessor, que participavam do golpe iminente para impedir a posse de Juscelino. Os dois chefes do Exército fizeram de surpresa contra os comandos da Marinha e da Aeronáutica, agentes do golpismo, o que foi chamado de, e era, golpe da legalidade

O comando da Marinha reagiu, pôs em mar o seu cruzador, povoado de políticos decaídos, mas as contingências não lhe ofereceram mais do que uma rota tranquila até Santos. E, aos intranquilos civis, a refeição sempre sublime da oficialidade de Marinha.

Por menos que sejam conhecidas as ideias vigentes na Aeronáutica e na Marinha, e por mais que as práticas da política as desagradassem, o silêncio e a distância que mantêm são sugestões de não endosso a Bolsonaro. 

Convém lembrar que, bem antes disso, já uma atitude incomum sinalizava a mesma rejeição: o general Villas Bôas, como disse há tempos, falou ao Alto-Comando sobre a nota (golpista) que dirigiria ao Supremo, mas não consultou os outros dois comandantes de Forças.

Nem ao menos os avisou. Só poderia ser assim por previsão de discordância impeditiva. O ambiente já estava sombrio, pois.

Não há disputa, mas pode haver, se Bolsonaro e o bolsonarismo acreditarem demais em suas possibilidades de marcha ilegal. O risco de que tudo degenere é o que Bolsonaro e seu pessoal parecem supor. Risco de disputa e o seu risco.

A eleição de Biden cassou o apoio estadunidense, em geral determinante no Brasil, com que Bolsonaro podia contar ao tempo de Trump. 

Ao atraso tecnológico das Forças Armadas, prejudicial e inquietante muito mais para a Marinha e a Aeronáutica que ao Exército, não convém a reação certa do mundo desenvolvido a promotores de destruição da Amazônia e de agravamento dos dramas climáticos. Ao empresariado já bastam os primeiros sinais de hostilidade no mercado externo.

Ainda assim, Bolsonaro quer tentar. É bastante tapado e envolvido por tapados para ir, irem, adiante. Além disso, outro componente de sua propensão é mais um risco: o seguimento lógico e reto da vida nacional conduz (conduzirá, conduziria) os Bolsonaro e muitos coautores dos crimes bolsonaristas a julgamentos e justas condenações à prisão.

A miséria de caráter que povoa as instituições brasileiras não condiz com um final de justiça, mas Bolsonaro aprecia tratamentos preventivos tresloucados. No caso, a conquista de poder bastante para evitar o final lógico e reto em qualquer assunto, e muito mais nos seus.

Com o silêncio e a distância, Marinha e Aeronáutica estão como configurações militares do regime constitucional democrático. Nunca estiveram com a história tão depositada em seus navios, seus aviões e, comprovem-na, sua dignidade. 
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(por Jânio de Freitas)

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

AS MANIFESTAÇÕES DE RUA NOS EUA SÃO AS EXPRESSÕES MAIS LEGÍTIMAS DE UM POVO QUE COMEÇA A CONHECER A PRÓPRIA FORÇA

 dalton rosado
A LIÇÃO DAS RUAS
Tão fortes como os protestos contra a violência racista dos policiais estadunidenses que seguem a orientação supremacista do governo recém-demitido do presidente Destrumpelhado estão sendo as manifestações de rua em várias cidades sobre a importância da contagem de todos os votos por lá.  

É na hora da derrota, e não da vitória, que se conhece a grandeza dos homens. Neste quesito Donald Trump mostra o que verdadeiramente é: um prepotente bilionário, nascido em berço de ouro e que não admite ter seus caprichos contrariados. 

Não é uma constatação nova. Todos já sabíamos ser ele um homem convicto de que o poder do capital pode prevalecer sobre todas as coisas. Mas, bem dizia o poeta Drummond: "São tão fortes as coisas... Mas eu não sou as coisas, e me revolto!". 

As manifestações de rua são as expressões mais legítimas de uma população que começa a conhecer o seu imenso poder de contraponto à tirania; que é capaz de manifestar em praça pública a sua revolta, capaz de calar a intransigência da ignorância dos que equivocadamente consideram que seus algozes e suas formas de relações sociais sejam o esteio das vidas precarizadas que suportam.   

Como a tirania tem medo das ruas! Como se apressa em qualificar os manifestantes de
vândalos predadores e promotores do caos, sem perceber que eles, os tiranos, são os principais mantenedores da tirania implícita à sociedade dividida em classes sociais. 

[Classes estas cada vez mais dissociadas e antagônicas, por causa da concentração de renda nas mãos de uns poucos  e da penúria nas existências de tantos!]

Como é ridículo alguém querer parar uma contagem de votos e se declarar vencedor das eleições antes mesmo do término da apuração dos ditos cujos! 

Como é ridículo vermos alguém que exatamente foi eleito há 4 anos por tal processo eleitoral negar a lisura e eficácia desse mesmo processo! 

Como é ridículo vermos o inconformismo de alguém que se elegeu com promessas agora desnudadas de redenção social capitalista!

Como é ridículo e perigoso tentar convulsionar um país tentando impor a ideia de que só ele representa a cura do mal (quando, na verdade, é ele quem está a promover o incremento do próprio mal, a exploração capitalista)!   
O menino mimado que se considera merecedor de todos os privilégios e obediência irrestrita  não aceita que lhe tirem o doce e ameaça levar a bola embora quando perde a partida! 

É na derrota, repetimos, que se conhece a grandeza do perdedor, e esse não é o caso do presidente Destrumpelhado

Joe Biden não representa, obviamente, a emancipação popular, pois esta só virá a partir de um novo modo de relação social, que se expresse numa diferente forma de produção e regramento da organização social (horizontalizada, nos dois aspectos!).
 
Mas a sua vitória tem um significado educativo, daí a importância que atribuímos ao despertar da força da manifestação da soberania popular nas ruas dos Estados Unidos. 

O processo de educação das multidões quanto ao conhecimento de sua própria força é o aspecto mais importante na vitória de um candidato como Joe Biden, que, mesmo sendo conscientemente preso à institucionalidade estatal vertical do Estado burguês e defensor do sistema de dominação capitalista, tem postura mais civilizada e abertura ao diálogo. 

Mas não devemos nos enganar com os limites de tal comportamento, ainda que estejamos satisfeitos por termos destituído do poder político o mais expressivo representante e apologista do capital e de toda a sua prepotência intrínseca.   

O capital em crise ainda vai nos criar, nos anos vindouros, dificuldades antes inimagináveis, daí a importância de combatermos decididamente os negacionistas irracionais como Donald Trump e seu submisso similar tupiniquim de igual estatura moral e menor poder político.

É importante que os Estados Unidos, como maior emissor mundial de gás carbônico na atmosfera, tenham na presidência alguém capaz de reconduzi-los ao consenso da Conferência do Clima Paris 2015 e que seja capaz de buscar soluções (mesmo sendo elas infrutiferamente contraditórias pelos fundamentos capitalistas) para a produção mercantil fora de padrões ecologicamente suicidas. 

É importante que tenhamos na presidência dos EUA alguém sensível ao drama de imigrantes, pelo menos no quesito do tratamento humano às crianças. Elas, coitadas, nem sequer sabem o motivo de estarem sendo tão rudemente maltratadas!
 
Biden continuará a defender os interesses de uma nação que detém a hegemonia capitalista no mundo, mas com dificuldades para fazê-lo, de vez que o capital em crise já dá sinais claros de que tal hegemonia não se manterá indefinidamente, graças ao abalo que seus alicerces estão a sofrer com a erosão causada pela dinâmica do processo dialético histórico, o qual terminará por demonstrar a insubsistência dos fundamentos de uma relação social escravista por excelência.

Hoje subimos um degrau, mas, apesar de a escada ser longa e íngreme, mais forte é o poder da vontade soberana de um povo consciente de sua força!
 
(por Dalton Rosado)

domingo, 9 de agosto de 2020

NÁUFRAGO DA UTOPIA: UM BLOG QUE HÁ 12 ANOS DESAFINA O CORO DOS CONTENTES

Mea culpa: neste ano estou noticiando com um dia de atraso o aniversário do blog. A minha atenção estava tão voltada para o Dia dos Pais que passei batido pelos 12 anos do Náufrago.

Coisas de pai idoso, que só pôde realizar o sonho de ter crianças do seu sangue já cinquentão, precisou dar uma guinada radical numa vida  já estabilizada e, apesar dos muitos percalços, hoje tem como seus entes mais queridos uma filha de 18 anos e outra de 12, que são uma razão muito forte para continuar lutando contra todas as adversidades do destino e todas as insídias dos genocidas.

Mais do que todos os outros, este Dia dos Pais teve um significado muito especial, já que veio depois da quarentena que nos manteve afastados por quase cinco meses, com muitas dúvidas sobre se conseguiríamos comemorá-lo juntos. Acabou dando tudo certo, felizmente.
Apollo Natali

Quanto à nossa efeméride particular, ela sempre terá um sabor meio amargo por causa da proximidade do aniversário da morte do Apollo Natali, um dos melhores colaboradores que já tivemos, extraordinário cronista e um ser humano como poucos, falecido em 31/07/2018.  

Tive o privilégio de contar com sua amizade e suas iluminações durante 27 anos, então foi como perder o irmão que nunca tive, mas a vida me concedeu.

O único consolo para nós é que ele foi poupado de testemunhar o que o Brasil se tornou a partir do pleito de três meses depois, pois lhe teria partido o coração. 

É, contudo, gratificante a sensação de dever cumprido que a data nos inspira. Mantemos intransigentemente os compromissos com a justiça social, a liberdade, os direitos humanos e o pensamento crítico, jamais cedendo a pressões nem buscando o sucesso fácil. 
Dalton Rosado

Quando se consumou a eleição de um presidente que inspirava graves temores de iminência da instalação de alguma forma de fascismo no Brasil, não abandonamos por um dia sequer nossa postura combativa, colocando a preservação de outras vidas muito acima de nossa autopreservação. 

Felizmente, não houve Operação Jacarta nenhuma e a ameaça (que realmente chegou a existir), por não ser sólida, foi se desmanchando no ar.

Mantivemos o foco no futuro, jamais transigindo com uma esquerda que teve imensa responsabilidade pelos desastres da década que está se encerrando, quais sejam: 
— o abandono dos jovens manifestantes de 2013 à sua própria sorte, permitindo que fossem esmagados pela reação; 
David Emanuel Coelho
— o ideologicamente aberrante e economicamente catastrófico governo neoliberal de Dilma Rousseff a partir de 2015, que nos fez perder as ruas e ensejou o renascimento da extrema-direita que saíra desmoralizada da ditadura militar;
— a incapacidade de articulação de qualquer reação significativa ao impeachment da Dilma e à prisão do Lula; e
— a eleição de um presidente que empunhava as bandeiras do retrocesso, do atraso e da desumanidade, além de cercado por sérias suspeitas de envolvimento numa infinidade de crimes comuns.

Quem a tudo isso assistiu perplexo e perdeu todas as batalhas que tentou travar só poderá ser aceito como defensor das causas populares se fizer rigorosa autocrítica, reconhecendo os erros cometidos e se comprometendo a nunca neles reincidir, bem como a rever com humildade e discernimento sua prática, principalmente no que tange à aposta (cada vez mais insensata!) numa regeneração do capitalismo, algo tão improvável quanto um lobo virar carneiro. 
Rui Martins

O capitalismo se encaminha, isto sim, para sua pior depressão econômica em todos os tempos, quando utilizará todos os recursos disponíveis para a própria sobrevivência, não para socorrer as vítimas de sua ganância desmedida.

Enfim, o Dalton Rosado, o David Emanuel de Souza Coelho, o Rui Martins, eu e quem mais quiser nos ajudar nessa luta, manteremos o Náufrago como:
— uma trincheira na luta contra o capitalismo e suas manifestações agônicas, como esse neofascismo que está morrendo na praia após causar imensos danos aos brasileiros (aí inclusas algumas dezenas de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas na atual pandemia); e 
— como um espaço aberto para a discussão franca de teses, posturas e propostas que nos possam conduzir a um estágio superior de civilização, com a priorização do bem comum e da realização plena dos seres humanos.

Celso Lungaretti
No que depender de nós, continuaremos desafinando o coro dos contentes (grande Torquato Neto, que tão jovem nos deixou!) nos próximos 12 anos e por quantos mais o destino nos permitir. 

Contamos com o apoio de todos vocês, principalmente divulgando o blog e seus posts, pois quem marcha na contramão tanto do sistema dominante quanto da esquerda institucionalizada enfrenta dificuldades bem maiores e depende muito mais do apoio de seus companheiros de ideais.

A luta continua. (Celso Lungaretti)
"Vai, bicho, desafinar o coro dos contentes"

terça-feira, 2 de junho de 2020

VLADIMIR SAFATLE REBATE BOLSONARO: "ACABOU, NÃO. APENAS COMEÇOU"

Acabou, porra. Foi assim, com sua polidez costumeira, que o sr. Jair Bolsonaro reagiu ao fato de seus aliados estarem em investigação por crimes contra a República. 

No mesmo dia, um de seus filhos (a formulação é sintomática, o referido é conhecido pela população por ser filho de...), falou abertamente sobre o golpe de 1964 como pretensa resposta ao clamor popular na chamada guerra entre poderes.

Mas se for para falar em clamor popular, melhor começar por responder porque a maioria das brasileiras e dos brasileiros está hoje sem voz. Segundo a última pesquisa Datafolha, 43% das brasileiras e dos brasileiros rejeitam claramente o governo federal, avaliando-o como ruim ou péssimo

Nunca na história recente deste país um presidente chegou a um ano e meio de seu mandato com tamanha rejeição. Isto numa situação na qual todas as peças estavam a seu favor. Pois uma situação de pandemia equivale (ao menos do ponto de vista das identificações políticas) a uma situação de guerra e, nestas circunstâncias, a população tende a se unir em torno de seu governo para lutar contra algo que a ameaça como um todo.

O sr. Bolsonaro poderia ter chamado todos a baixarem as armas, conclamado uma união nacional pela defesa da vida. Ele poderia ter dito que passaríamos todos por momentos muito difíceis na economia, mas que o Governo iria mobilizar seus recursos para fornecer salários para as pessoas ficarem em casa por três meses. Ele poderia fazer um grande acordo para impedir que as empresas demitissem e para obrigar as grandes fortunas e o sistema financeiro a repartir seus rendimentos estratosféricos num momento de implosão social. Se ele fizesse isto, agora sua aprovação seria recorde. 

Mas, para isto, Bolsonaro não poderia ser Bolsonaro. Para isto, o Brasil não poderia ser o Brasil. E, para isto, sua elite suicida e escravocrata não poderia ser sua elite suicida e escravocrata.

Ao contrário, e a conta dessa responsabilidade vai para todos os empresários que o apoiam, o governo preferiu abrir caminho para se transformar no novo epicentro mundial da covid-19. 

Neste exato momento, morrem mais brasileiras e brasileiros desta doença do que qualquer outra nacionalidade no mundo. Isto levando em conta apenas os números oficiais, com suas subnotificações evidentes e limitações para testagem da população. 

Esta é a verdadeira face da responsabilidade para com o país, do cuidado da nação e de outras afirmações com as quais somos bombardeados diariamente. Com uma responsabilidade destas, país algum precisa de inimigos.

Mas um observador da vida nacional poderia se perguntar porque essa maioria que não quer mais o sr. Bolsonaro e sua naturalização genocida das mortes de brasileiras e brasileiros não é ouvida. 

As Forças Armadas, responsáveis maiores pelo caos no qual estamos, são exímias em fazer ouvir a voz de uma minoria aguerrida e fascista, enquanto procura de todas as formas calar a verdadeira maioria. Essa maioria agora quer voz.

Ela foi pega numa chantagem perversa do governo. Sendo o único setor que realmente se preocupa com a vida das brasileiras e dos brasileiros mais vulneráveis, ela ficou em casa, respeitou a quarentena, resumiu sua indignação a panelaços, enquanto via a horda minoritária sair às ruas para zombar das mortes e exigir políticas irresponsáveis que destruiriam de vez o país. 

Pois uma política madura e responsável de isolamento poderia ter permitido ao país debelar a pandemia em três meses. Agora, seremos a referência mundial em catástrofe, seremos o país contra o qual o mundo levantará um cordão sanitário e, ironia macabra, isso sim irá destruir a economia.

Essa maioria teve que ouvir passiva o sr. Bolsonaro blefar em armar a população sendo que ele sabe muito bem o que acontecerá se ele realmente armar a população, ao invés de simplesmente armar suas milícias minoritárias. 

Se ele quer fazer isto, que comece por dar armas aos povos indígenas, cuja existência o ocupante atual do ministério da educação despreza, ou à classe trabalhadora espoliada por sua política econômica exímia em dar presentes a quem diz que 5 mil ou 7 mil mortes não são nada diante do prejuízo que ele terá por não poder vender hambúrgueres.

Agora, essa maioria vê o sr. Bolsonaro procurar realizar uma operação digna de 1984, de George Orwell. Nesse romance, Orwell lembra, entre outras coisas, que há uma mutação necessária na língua para que um regime autoritário se imponha. Algo parecido tem ocorrido entre nós. 

Tal como na Oceania de Orwell, somos diariamente submetidos ao exercício de reescritura do sentido de termos que pareciam elementares. No país do bolsonarismo, ignorância é força, liberdade é genocídio.
Pois notem como o discurso sobre a liberdade emana tão facilmente da boca daqueles que fazem de tudo para cala-la, que amam torturadores e louvam ditaduras como a que conhecemos durante vinte anos. 

Há dias, o sr. Bolsonaro, numa de suas lives, afirmou: "Muito maior que a própria vida, é nossa liberdade". Bem, deixando de lado a contradição elementar de que uma liberdade sem vida não é liberdade alguma, há algo de interessante nesse tipo de afirmação. Ela ecoa o discurso oficial de que as políticas de restrição a circulação e atividades desenvolvidas para o combate contra a pandemia seriam um atentado a liberdade.

Tal discurso ressoa um certo tipo de concepção de liberdade que parte do dogma dos limites sagrados dos indivíduos. Vimos algo parecido quando manifestantes norte-americanos saíram às ruas com um cartaz onde se via uma máscara dentro de um sinal de proibido e se lia meu corpo, minhas regras. O mesmo raciocínio serviu de base para manifestantes alemães exigirem o direito de se infectarem.

A lógica é clara e não há como negar certa consistência. Sendo liberdade algo que alguns compreendem como a propriedade que tenho sobre mim mesmo, ninguém poderia me obrigar a portar uma máscara médica, a ficar em casa, a cuidar de meu corpo, a não ser que ele tenha meu consentimento para isto. Afinal, como disse o sr. Bolsonaro noutra de suas ocasiões de reflexão filosófica: "Se eu me contaminei, é responsabilidade minha, ninguém tem nada a ver com isso".

Ao menos, tudo isto serve para mostrar o tipo de monstruosidade social legitimada pelo discurso que reduz a liberdade à propriedade de si. Desde que aceitamos essa premissa, as consequências são o discurso do ocupante atual da presidência da República. 

E de nada adianta afirmar coisas como: "Mas o exercício da propriedade que tenho de mim mesmo deve estar submetida a respeito pelo risco a vida do outro". Pois eles poderão sempre perguntar (e, novamente, com certa consistência): "Mas quem decide quais são os riscos relevantes ao outro? Por que devo admitir que o estado ou cientistas que se colocam como sábios oraculares decidiram o que é risco relevante?

A única maneira realmente consequente é recusar essa liberdade que se realiza no genocídio. Liberdade não é ser proprietário de mim mesmo, mas compreender que estou num sistema de mútua dependência que exige o reconhecimento da racionalidade de afetos de solidariedade genérica. 

O corpo que chamo de meu não é simplesmente meu corpo. Ele também é, entre outras coisas, um veículo de contágio, ou seja, ele é a sua maneira uma parte do corpo social e deve também ser tratado como tal. Um afeto dessa natureza é tudo os que sustentam esse Governo e sua indiferença genocida querem que não emerja. Porque ele se realiza na igualdade real e numa mutualidade que ainda não existe, mas que pode existir.

A maioria brasileira que ainda não tem voz saberá como rejeitar esse individualismo possessivo que é a verdadeira forma de violência. Pois o verdadeiro embate é pela construção de uma liberdade real que nunca aceitará que mais de 28 mil brasileiras e brasileiros mortos seja uma fatalidade natural, como a queda das folhas no outono.
Para finalizar, não podemos mais aceitar as chantagens que nos foram impostas. Nossas ações devem ser mais efetivas a partir de agora: redes de boicotes a empresas que sustentam essa política da morte, manifestações de rua pelo impeachment do governo que respeitem exigências de segurança sanitária (como vimos em Israel). 

Pois a queda desse governo não será apenas a queda desse governo. Será dar à maioria sua verdadeira força de recusa e abrir o caminho para que ela possa começar a criar. (por Vladimir Safatle) 
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