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segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

HERDEIRA MILIONÁRIA QUER DOAR TUDO

 


Esmola, ajudas caritativas, entidades filantrópicas, associações religiosas, organizações internacionais de ajuda, nada disso vai acabar com a pobreza e a miséria no mundo. Não adianta nem muita boa vontade, o problema é econômico social e só uma total transformação nas estruturas sociais, no momento rejeitadas por todos e com risco de degenerarem se aceitas, poderia solucionar a questão da distribuição equitativa das riquezas acumuladas por uns poucos.

"Se os super ricos quisessem salvar o mundo, já o teriam feito há muito tempo!" A frase, que repete um lugar comum sabido por todos nós, é da austríaca-alemã Marlene Engelhorn, numa entrevista à televisão em Viena sobre sua decisão de distribuir a um grupo de pessoas por ela desconhecidas, cerca de 25 milhões de euros equivalentes a 125 milhões de reais. Ela também não quis ser chamada de rica filantrópica.

Com essa decisão, Marlene se tornou uma figura mediática, com sua história contada e recontada em toda a mídia mundial. E fato raro capaz de mobilizar tanto interesse: era e é uma notícia positiva.

Doar tanto dinheiro mesmo raro. Existem pessoas que doam, no testamento, importâncias nem sempre importantes, a entidades e mesmo pessoas. O caso de Marlene é bem diferente: ela, com apenas 32 anos, vem de receber uma herança do avô multimilionário e decide doar todo o total, por achar incorreto receber tanto dinheiro sem nada ter feito para isso merecer. Marlene é descendente de Friedrich Engelhorn, o capitalista fundador da BASF.

Ela, que é ativista e jornalista de acordo seu curriculum vitae, milita por uma reforma na lei austríaca, capaz de colocar contra ela todas as afortunados do mundo: Marlene Engelhorn quer uma taxação do Estado sobre as heranças dos ricos e multimilionários. Tanto dinheiro, geralmente rendendo juros e sendo reaplicado para novos rendimentos, é para ela um absurdo. Isso nos lembra que o ministro Haddad enfrentou toda a oposição evangélica e bolsonarista na tentativa de taxar os rendimentos das fortunas brasileiras.

O movimento pelo qual Engelhorn milita tem o nome de taxmenow, do qual ela é mesmo cofundadora. Numa tradução livre poderia ser "quero já um imposto para mim".

Para Marlene, os mais ricos da população na Áustria possuem quase 50% da riqueza do país e

"isso se reflete de maneira negativa na estrutura social, no funcionamento do sistema político e no panorama mediático e chega a ameaçar o funcionamento da democracia pela influência desproporcional de algumas pessoas milionárias".

Mas nem todos os herdeiros da família Engelhorn têm o mesmo desprendimento de Marlene. Uma boa parte da fortuna da família está na Suíça, onde herdeiros se disputam pela herança de Curt Clover Engelhorn, falecido em 2016, cujo grande negócio foi a venda da Boehringer Mannheim à indústria farmacêutica suíça Roche em 1997. (por Rui Martins) 

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

O AMOR VENCEU, UM CONTO DA ERA LULA 3

 'O amor venceu!', disse alguém na internet em resposta a uma postagem do governo e Zoinho, que mal tinha acesso à internet e pouco sabia ler, ficou pensando em que significavam aquelas palavras. 

Ele não gostava de ser chamado de zoinho, apelido dado pelos colegas da escola devido ao seu olho direito um pouco fechado. Com socos e chutes partia para cima de quem ousasse usar tal nome, acabava apanhando, ainda mais ridicularizado e vendo o apelido pegar com mais intensidade. Certo dia, um colega foi até sua casa para fazer um trabalho escolar e o chamou assim na frente dos vizinhos, pronto!, zoinho se oficializou a ponto de até sua família não lembrar mais qual era sua real alcunha. 

Mas ele próprio acabou aceitando a denominação, pois tendo abandonado a escola por volta do quarto ano do fundamental, passou sempre a se apresentar como sendo o Zoinho, em mais um exemplo de que de fato o conceito é socialmente construído. 

Zoinho lera a frase após alguém lhe mostrar a postagem em que era anunciado o aumento do valor do Bolsa Família. 'Certamente você deve ter direito', dizia a pessoa, 'você precisa voltar pra sua casa e voltar pra escola. Você tem quantos anos? 14?... pois é, ainda tá na idade... aproveita que esse governo olha pelos pobres...'.  

Zoinho ficou alguma coisa ofendido, pois não era morador de rua, apenas costumava andar pela cidade para usar seu loló, pois a mãe, evangélica, não o permitia em casa e mais de uma vez o havia levado para a Igreja participar de uma sessão do descarrego. Ficava alguns dias fora e depois retornava, fazendo tremendo barulho no portão para entrar. Para comprar a droga, vivia vendendo drogas e o sujeito do celular era justamente um de seus compradores. 

Mas não quis voltar naquele dia, ouvira que um padre ia distribuir comida e estava morrendo de fome. Caminhou em direção ao local, mas precisava passar por um bairro de classe média alta e não gostava muito de lá, pois uma vez, sentado na rua por ali para comer uma quentinha, um sujeito mal encarado de bermuda e sem camisa lhe deu um pontapé enquanto esbravejava 'vaza, porcaria! Esses cracudos ficam infestando a rua da gente!'. Para Zoinho, a maior ofensa não foi o chute, foi ter sido chamado de cracudo, logo ele que se orgulhava de só usar loló!

Evitava o lugar desde então, mas era o caminho mais curto, então foi por lá. Felizmente, havia pouca gente na rua naquela tarde fria de maio. Apressando o passo logo se livrou do bairro e chegou no local de distribuição da comida. Lá já haviam centenas reunidos e algumas irmãs de caridade organizavam tudo. 

'Bendito sóis os pobres, pois é deles o Reino de Deus', dizia uma enquanto entregava crucifixos junto com agasalhos. 'A cada ano aumenta, é incrível!', dizia outra constatando a maré de desafortunados que avançava sobre a praça. 

As quentinhas foram servidas e, depois de pegar seu agasalho e o crucifixo, Zoinho foi embora em direção ao viaduto onde costumava passar algumas noites. A noite se prenunciava gélida, com sensação térmica abaixo de zero. Por isso, decidiu comprar um loló para ficar mais aquecido, usando o resto do seu dinheiro. Mesmo agasalhado, o frio começava a abraça-lo e cada aperto era uma fincada a mais pelo corpo. Por sorte, o colchão e o cobertor de Zoinho estavam bem guardados numa laje do viaduto e bastava pegar. 

Mas onde estavam? Ele procurou, procurou e nada! Vendo sua agonia, outro morador de rua deu a notícia: 'ixi, Zoinho, prefeitura veio aí e levou tudo embora! Só ficou as coisas de quem foi esperto para esconder, você não tava aqui...'. Aborrecido, Zoinho pensou no que iria fazer. Decidiu ir para casa e foi pegar o ônibus. Embarcou na porta da frente junto com outra turba para ir de graça, como sempre faziam, mas logo veio uma blitz de fiscais e policiais. Ou pagavam a passagem, ou desembarcavam. Sem dinheiro, desceu, voltando para o viaduto. 

Numa noite antes, um cara havia morrido por ali de frio e agora Zoinho temia ter o mesmo fim pois a cada minuto o frio ficava mais e mais implacável. Não havia nem como fazer uma fogueira, pois a prefeitura havia levado até a lenha e os papéis. Usou o loló e começou a orar para ver se Jesus se compadecia dele e o aquecia. Em vão! Se o Reino de Deus é dos pobres, falta avisar ao Soberano. Levantou e começou a caminhar. 

Sem  seus pertences, a maioria dos seus companheiros de viaduto havia migrado para outros lugares ou mesmo ido se arriscar nos abrigos da prefeitura, sempre lotados e sujos. Logo, porém, ele avistou um senhor já bastante velhinho que se aconchegava em uma manta grossa deitado em cima de uns papelões. Zoinho se lembrava dele, era um sujeito muito doente, quase cego e sem uma das pernas, resultado da diabetes não tratada.

Não foi possível entender muito o que se passou, apenas que Zoinho havia de supetão tentado tomar a coberta do velhinho, mas esse, tendo em sua posse uma faquinha velha, lhe retribuiu três estocadas, duas no coração e uma na garganta. 'Filho de uma égua, ladrão!'. Zoinho tombou no chão ensanguentado e antes de se formar a roda de curiosos, já estava morto. 

O amor venceu. 

(por David Emanuel Coelho) 


sábado, 29 de julho de 2023

O CHORO DE LULA É DESPOLITIZANTE E REACIONÁRIO

 Lula possui o hábito costumaz de chorar, sobretudo em situações em que a miséria do país é colocada diante dele. Certamente, muitos devem ver nesse hábito a coragem de um homem em mostrar sua faceta humana e, ainda por cima, quebrar estereótipos de gênero, visto ser o choro culturalmente considerado algo indigno dos homens, algo próprio das mulheres. 

No entanto, o hábito de segurar bebês também foi introduzido no passado com motivação semelhante. Em uma época que o cuidado com crianças era algo exclusivamente feminino, quando o homem sequer podia se aproximar dos infantes, os políticos começaram a segurar os pequeninos como prova de sua humanidade e forma de quebrar estereótipos parecidos aos de hoje. Genuíno ou não, o ato buscava aproximar políticos do populacho comum, mostra-lo enquanto um indivíduo típico e não um aristocrata servido por babás e empregados domésticos. 

Estou com isso condenando segurar bebês ou chorar? Claro que não! Apenas gostaria de refletir sobre o significado dessas ações, nem de longe inocentes. Bolsonaro, por exemplo, também chora, mas seu choro tem um sentido diferente do de Lula. 

Nem sempre Lula chorou. Pelo meu entendimento, seu hábito de chorar começou de forma acentuada mais ou menos por volta da década de 1990. Quando era um líder sindical, não há relato de que tivesse o costume de chorar, mesmo tendo motivos genuínos para expressar fortes emoções naquele período. É válido, portanto, considerar ter esse hábito se iniciado por algum motivo naquela época. 

Não sem coincidência, a década de 1990 marca o período de transição de Lula e do próprio PT de uma posição centrada na lógica trabalhista, orientada pela ação sindical e pelo estatismo, para uma tônica de digestão administrativa da pobreza, seguindo as orientações do Banco Mundial e os ditames morais da Igreja Católica, sobretudo. Nessa nova forma de conceber a ação política, a luta pelo controle social dos trabalhadores foi cedendo espaço à ideia de conter os danos mais pronunciados da extrema pobreza, incluindo os pobres através da assistência social e levando serviços públicos para os grotões marginalizados. Ao invés de combater o capitalismo, minorar seus impactos. 

Em lugar da luta de classes, era colocada a centralidade da moral de matriz cristã. O pobre substituía o trabalhador e as diferenças econômicas eram apagadas em nome do discurso tecnocrata da política social a ser conduzida pelo Estado cidadão. Nesse aspecto, a pobreza passou a ser vista não enquanto um produto necessário e inevitável do desenvolvimento capitalista, forma social que só pode produzir riqueza gerando, ao mesmo tempo, imensa miséria, mas como uma falha moral de indivíduos egoístas e sem humanidade, incapazes de estender a mão para seus semelhantes. 

Para Lula e o PT, o primordial passou a ser não mudar a sociedade, mas garantir que um pouco do banquete dos ricos chegasse à mesa dos pobres. Passou a imperar o espírito caridativo e esse foi elevado a política pública oficial. Mas a caridade sempre está baseada em emoções, no apelo à sensibilidade alheia. O sujeito que esmola na rua roga aos passantes para lhe ajudarem a satisfazer a fome e, para isso, apela aos sentimentos nobres deles. A esmola é sempre algo feito a partir da comoção, da tristeza diante da dor alheia. 

Por isso Lula chora. Ele precisa esmolar em prol dos miseráveis. Ele chora para sensibilizar a classe dominante, a burguesia, dos males vividos diariamente pelos pobres do Brasil. Nossos capitalistas, conhecidos pela patifaria e mesquinhez, necessitam ser lembrados de seu dever cristão de ajudar os semelhantes e contribuir com um pedaço do imenso orçamento público para garantir o sucesso das políticas de digestão da pobreza. 

No entanto, se a caridade individual é bem-vinda e meritória - pois de fato a fome e o sofrimento de um ser humano são algo inadmissíveis, sendo dever de qualquer um ajudar a quem sofre - a caridade pública é um ato despolitizante e reacionário. Um indivíduo não tem condições de modificar a estrutura social, mas forças coletivas sim e, por isso, não deve ser papel de um líder popular transformar a caridade em fim político, mas apontar para a transformação concreta do mundo de modo a superar radicalmente a miséria e por fim à necessidade de qualquer caridade. 

A caridade pública gera o clientelismo porque passa a colocar o beneficiário em condição de credor daquela organização que o ajuda. Não à toa as instituições religiosas sempre usaram e usam do mecanismo da caridade como meio para alavancar sua influência e seu poder, pois assim pode forjar uma base imensa de dependentes. Por isso também, a caridade pública nunca busca romper com a miséria, extirpa-la, pois precisa da existência de miseráveis para manter aquele grupo responsável pela ação caridativa. 

Assim, o choro de Lula é despolitizante e reacionário. Faz parte de uma estratégia de digestão moral da miséria, de administração da extrema pobreza, e visa substituir a luta de classes pelo moralismo tacanho e sentimentalóide.

De novo, não se trata de condenar o choro por si mesmo, como se fosse uma atitude indigna. Demonstrar sentimentos em público não é indigno, mas o choro de um líder pode ser a expressão da fúria diante de uma injustiça, do entusiasmo diante da luta ou mesmo a tristeza por perdas e derrotas, mas jamais o choro costumaz de quem quer mais uma esmola para o povo que, no fim das contas, é o criador de toda a riqueza existente e, por isso, não deveria precisar de nenhuma caridade. (por David Emanuel Coelho) 

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