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quarta-feira, 14 de maio de 2025

QUE IGREJA E QUE PAPA?

Houve muita nuvem negra nos últimos anos na vida do Vaticano, de onde provêm as diretrizes para o cristianismo católico para quase um bilhão e meio de fiéis? Sem dúvida! 

A última fumaça branca, assinalando, há 12 anos, a escolha do arcebispo argentino Bergoglio, transformado no Papa Francisco, corrigiu um desvio ocorrido em 1978, com a eleição do polonês conservador Karol Wojtyla, conhecido como Papa João Paulo II, cujo pontificado de 27 anos foi dos mais longos.

Embora tenha sido sagrado santo, sua devoção causou numerosas decepções na América Latina, por não ter levado a Igreja a condenar as ditaduras implantadas no continente e por ter recebido os ditadores Galtieri e Pinochet. 

Talvez por ter vivido na Polônia durante o regime comunista, nutria uma ojeriza profunda aos movimentos antiditatoriais da época na América Latina por ele considerados comunizantes, daí ter condenado o movimento social católico da época de oposição aos ditadores, conhecido como Teologia da Libertação.

Essa ausência da Igreja nas lutas sociais e na redemocratização da América Latina provocou um distanciamento da esquerda e, ao mesmo tempo, abriu caminho para a penetração da versão populista estadunidense do protestantismo neopentecostal evangélico, principalmente no Brasil. 

Basta citar a propagação rápida dos evangélicos nas áreas pobres, antes alvos das pastorais católicas propagadoras da Teologia da Libertação, crescendo dos 5% nos anos 70 para os 35% dos dias de hoje, podendo ultrapassar os 50% até 2050 (com isto, o Brasil deixaria de ser o país mais católico do mundo).

Nesse quadro, a simples opção doutrinária da Igreja pelos pobres, sem ação efetiva, já não é mais suficiente para reparar o atraso criado com a rejeição da Teologia da Libertação. 

Hoje, inclusive, ela está sendo cada vez mais substituída pelos neopentecostais e sua ilusão empreendedorista, a pouco espiritual Teologia da Prosperidade.

Seria também muito simplista um papa tomar a decisão (como Karol no livro de Morris West, As Sandálias do Pescador) de entregar todas as riquezas do Vaticano aos pobres. Isso enfraqueceria a influência da Igreja e tornaria o papado uma simples fantasia, deixando órfãos seus seguidores. 

O Concílio do Vaticano II tinha por objetivo integrar a Igreja na modernidade. Não se pode afirmar ter atingido seu objetivo, mesmo porque a fé em princípios religiosos vai se tornando difícil no mundo de hoje, com a ciência acabando e desvendando todos os mistérios.

Num texto bastante crítico sobre Igreja e papas, o jornalista português do semanário Expresso, João Leitão Ramos, faz uma retrospectiva com rápidas análises sobre os mais marcantes papas da história da Igreja, tanto dos reais como dos imaginários na literatura e cinema. E isso inclui maus e bons, começando com o mais infame, como define Leitão Ramos.

Trata-se de Alexandre VI, de 1492 a 1503, o cardeal dos festins, amantes e filhos reconhecidos, de nome Rodrigo Bórgia, inspirador do filme Os Bórgiascom Jeremy Irons.

Trump debochando da fé católica. Ele certamente
daria um papa para capeta nenhum botar defeito...
A história do papado conta também com lendas, fantasias talvez com fundo de verdade, como a de uma mulher eleita papisa no século IX, a lendária Papisa Joana, vivida no cinema pela atriz Liv Ullmann.

Foi com Pio IX, de 1846 a 1878, que se criou o dogma da infalibilidade papal e, em reação ao fim do poder territorial do papado, se proibiu aos católicos votarem na Itália, situação corrigida só em 1929, com Pio XI e o Tratado de Latrão, assinado com Mussolini. 

A morte de João Paulo I, depois de apenas 33 dias de pontificado, inspirou teorias de conspiração, como a do filme O Poderoso Chefão 3 - A Morte de Michael Corleone, de Francis Ford Coppola (1990), com Raf Vallone vivendo o cardeal Lamberto, depois papa, assassinado ao tentar purificar a Cúria na época da fictícia  família Corleone.

O conclave convocado para a eleição do novo papa coincidiu com o lançamento de mais um filme sobre o Vaticano, Conclave, de Edward Berger, valorizado com a inesperada morte do Papa Francisco e a convocação dos 133 cardeais eleitores. 

Trata-se de um thriller religioso de ficção, no qual se abordam temas atuais da Igreja, com um final inesperado. (por Rui Martins)

domingo, 27 de abril de 2025

FRANCISCO ERA UM LIBERAL QUE BUSCAVA COLOCAR A IGREJA CATÓLICA NO SÉCULO 19, MAS OS TEMPOS ATUAIS DÃO VITÓRIA A SEU ANTECESSOR.

 


O falecido Papa não era um homem de esquerda, apesar de ter angariado a simpatia de parte considerável da esquerda, órfã de lideranças e carente de um programa político robusto. De seu apoio à ditadura militar argentina e seu papel na perseguição a membros de sua ordem poucos falaram ultimamente, embevecidos com a retórica levemente progressista de Francisco. 

Jorge Mario Bergoglio ascendeu ao trono de São Pedro após a renúncia de Bento XVI em 2013. Ratzinger havia se tornado Papa em 2005 com um programa francamente reacionário, mas desfocado em relação à sua época. Na realidade, ele havia chegado cedo demais, pois a onda neofascista ainda estava embrionária e a esquerda liberal vivia seu auge com Obama, Lula, Kirchner e outras figuras semelhantes dominando o espaço público. O resultado era sua solidão mundial, uma voz de extrema-direita isolada em um mundo progressista. Diante disso, ele resolve renunciar ao papado, abrindo uma crise na igreja cuja resposta veio através da eleição de um cardeal conservador, mas com mentalidade mais liberal, trazido, pela primeira vez, da América Latina. 

A imagem de Bento 16 não era das melhores...

Não poderia existir antítese mais perfeita com relação a Bento 16 que Francisco. O antigo papa era extremamente reservado e frequentemente aparecia com uma carranca pesada. Seu discurso era antipático e seu gosto pelo luxo e pela pompa do Vaticano era imenso. Seu sucessor, contudo, era pura simpatia, tinha o discurso familiar e empático, além de ter quase nenhum apego às pompas e ao luxo. 

A missão de Francisco era aproximar do mundo moderno uma instituição esclerosada e para isso combinava o papel do Papa de consciência moral do mundo, algo já muito usado por João Paulo II, com algumas medidas liberalizantes. Enquanto Bento 16 era adepto do slogan o mundo que se curve à igreja, Francisco tentava conduzir uma aproximação com a realidade do século XXI, mas visando alcançar os níveis de desenvolvimento do século XIX. No fim, ambos estavam coagidos pela mesma situação: a perda histórica de relevância da Igreja Católica no mundo, mas enquanto Ratzinger buscava fazer o mundo retroagir para se adequar ao ser da igreja, Bergoglio buscava faze-la se adaptar à situação histórica atual. 

Por ironia, o Papa que chegou cedo demais agora está vencendo, pois a situação mundial hoje é mais adequada ao programa de Bento 16 e não ao de Francisco. Por isso, não será surpresa se o novo pontífice escolhido for alguém mais à direita, um herdeiro de Ratiznger e não de Bergoglio. O que isso significaria para o futuro do catolicismo é difícil dizer, mas é pouco provável que a derrocada dessa religião seja freada na Europa e na América Latina. 

...ao contrário do risonho Francisco.

Entre os europeus, a igreja vai perdendo espaço para os ateus e os sem religião, enquanto que entre os latino-americanos, ela perde terreno sobretudo para os evangélicos, embora os sem religião também cresçam por aqui. Somente a África ainda mantém fidelidade, mas por ser um continente politica e economicamente fraco, a sobrevivência católica ali pouco acrescentaria na balança da geopolítica. Por onde se olhe, o catolicismo vai se tornando uma relíquia e seus papas cada vez mais oscilarão entre serem rabugentos saudosistas do passado e senhores simpáticos a falar vagamente sobre as preocupações do momento

De qualquer forma, é preciso ter sempre em mente que a mudança radical hoje necessária no mundo nunca virá do Vaticano ou dos templos, mas da luta organizada dos trabalhadores do povo em geral. (por David Coelho) 




domingo, 21 de abril de 2019

O MUNDO ESTÁ PRENHE DE REVOLUÇÕES – 1

dalton rosado
VIVEMOS O MAIS ABRANGENTE E SIMULTÂNEO
DENTRE OS PERÍODOS DE RUPTURAS SOCIAIS 
"O desemprego do homem deve ser tratado como uma tragédia e não como estatística econômica" 
(papa João Paulo II)
Há momentos no itinerário da humanidade sobre a face da Terra que condensam toda uma carga de impulso para uma nova era em face da saturação do que está posto e que reclama por diferentes formas de convivências sociais expressas em novo modo de produção social. 

Entendo que vivemos um desses momentos, que são especialmente difíceis em razão da transição do que se tem e que não mais atende aos interesses sociais para o que necessita nascer, sob a circunstância de que é um fenômeno simultaneamente mundial.

Nenhuma das proposições políticas à mão são satisfatórias, então caminhamos de decepções em decepções político-econômicas sem que consigamos fazer a viragem necessária. Sofremos hoje as dores do parto; caberá a nós sabermos conduzir os movimentos desse parto de modo a preservarmos tanto a parturiente como o nascituro.

A história nos mostra períodos de obsolescência de modelos políticos gerados por mudanças nos modos da produção social. 

O que define o caráter de uma sociedade é o seu modo de produção social; as mudanças políticas são a consequência, o que demonstra que sempre há uma necessidade de adequação do modelo de organização política aos impérios da economia de produção.
"ensejando a ruptura das amarras político-burocráticas absolutistas"
As antigas sociedades comunitárias primitivas, baseadas na partilha, foram suprimidas quando: 
— o valor envolvido nas permutas quantificadas de produtos produzidos (que eram diferentes das antigas trocas de excedentes, sem mensurações quantitativas e qualitativas) passou a corporificar-se em dinheiro e mercadorias (gênese do forma-valor, cujo embrião se consolidou na Grécia antiga, cerca de 700 anos a.C.) e estabeleceu a ideia de escravização de numerosos contingentes de seres humanos por outros seres humanos, constituídos em castas;
 o Império Romano, escravista e militar, decaiu, ensejando o seu esfacelamento pelos bárbaros;
 quando o feudalismo monárquico nacionalista instituiu nações territorialmente estabelecidas com níveis de produção de subsistência sob critérios estabelecidos pelas servidões aristocrático-rurais;  
 o feudalismo monárquico se tornou um obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas e as relações mercantilistas de produção foram inspirando os ideais iluministas republicano-burguesas, ensejando a ruptura das amarras político-burocráticas absolutistas, monárquico-eclesiásticas, de então, que se tornaram obsoletas, dando origem aos estados burgueses militaristas; e
 o capitalismo dito democrático-burguês se consolidou, com o ascendente modo de produção capitalista tomando todos os poros das sociedades mundiais, aperfeiçoando os processos políticos ditados pela hegemonia do capital e instituindo a concorrência internacional de mercado.
"agora o modo de produção capitalista atingiu o seu limite interno de expansão"
Agora o modo de produção capitalista atingiu o seu limite interno de expansão na produção de mercadorias por força das contradições dos seus próprios fundamentos: a produção de mercadorias baseadas no valor tornou obsoleta (em maior parte) a sua substância primária, o trabalho abstrato, tornando impossível a mediação social sob tal critério. Ou seja, o capitalismo corta o galho sobre o qual está assentado (Robert Kurz). 

Daí decorre o imperativo de sua substituição por um novo modo de produção, uma vez que a contradição entre política e modo de produção insatisfatório se tornou evidente, ainda que ele (o capitalismo) insista em nos levar juntos para o abismo de sua autodestruição.

Vivemos um período de impasses sociais, aumento da miséria e tensão causada pela possibilidade, que cada vez mais concreta, da extinção da vida humana na Terra.

A duração dos processos históricos é bem mais alongada do que a extensão de uma vida humana. Daí alguns reacionários desinformados considerarem o capitalismo como um dado ontológico (portanto imutável) da existência humana, sem considerarem a sua natureza histórica, como se os acontecimentos sociais como se estivessem adstritos ao seu próprio e curto tempo de vida.  
"os acontecimentos e fatos demonstram diariamente a saturação do modelo de mediação social atual "
Isto ocorre embora a roda da história tenha alterado a sua rotação e ganhado velocidade nestes tempos de terceira revolução industrial da microeletrônica. É impressionante a velocidade com que os acontecimentos e fatos demonstram diariamente a saturação do modelo de mediação social atual e sua obsolescência, evidenciado nas contradições político-econômicas em curso.

A debacle interna do capital transcende o poderio bélico e seus resíduos econômicos conjugados com o poder informativo dos moderníssimos meios de comunicação, pois o que está ocorrendo é a desintegração dos fundamentos da própria natureza intrínseca do capitalismo, e não ações práticas e teóricas externas aquilo que provoca a ebulição social em curso, com graves e extremadas consequências iminentes.   

Para concluirmos esta digressão sobre a saturação do atual modelo, há que se considerar os acontecimentos político-econômicos do conjunto das populações dos cinco continentes, e não apenas exemplos isolados de sucesso.

O mundo é pobre e agora, após seu período de ascensão, está empobrecendo ainda mais. (por Dalton Rosado)

(continua neste post)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

PERGUNTARAM A D. PAULO EVARISTO ARNS COMO GOSTARIA DE SER LEMBRADO. ELE RESPONDEU: COMO AMIGO DO POVO.

Apenas 45 minutos depois da morte de dom Paulo Evaristo Arns, a Folha de S. Paulo colocou no ar o excelente necrológio abaixo, escrito por um velho companheiro meu de movimento estudantil, Pedro Del Picchia. 

Curiosamente, depois de militarmos juntos em 1968, nunca ocorreu de nos reencontrarmos como jornalistas. 

Mas hoje, certamente, estamos sentindo o mesmo pesar pela perda de um gigante da resistência ao arbítrio nos anos Médici.

Um grande jornal, quando personagem importante encaminha-se para o fim, providencia antecipadamente tais retrospectivas de sua trajetória, de forma que, anunciado o óbito, basta fazer um ou outro ajuste e publicar. Eu também as cheguei a preparar, na Agência Estado. A do Cazuza foi uma.

A que o Pedro (foto à dir.) fez é, profissionalmente, superlativa. Então, faço questão de compartilhá-la com os leitores deste blogue, até porque traz informações pouco conhecidas sobre um aspecto melindroso da vida de D. Paulo: suas desavenças com os medalhões do Vaticano. A ela, pois.

MORRE DOM PAULO EVARISTO ARNS, 
ÍCONE PROGRESSISTA DA IGREJA NO BRASIL
Morreu nesta quarta-feira (14), na capital paulista, o arcebispo emérito de São Paulo, cardeal dom Paulo Evaristo Arns, 95.

Ele estava internado no Hospital Santa Catarina desde o último dia 28 com problemas pulmonares. Nesta semana, havia sofrido uma piora em sua função renal e estava na UTI. A morte ocorreu por volta das 11h45.

Ao longo da vida, o frade franciscano Paulo Evaristo Arns recebeu muitos epítetos.

Foi chamado de cardeal da liberdade, bispo dos oprimidos, cardeal dos trabalhadores, bispo dos presos, bom pastor, cardeal da cidadania, guardião dos direitos humanos e tantos outros.
Ousadias de dom Paulo agastavam a hierarquia do Vaticano
Mas já ao final da vida, quando lhe perguntaram como gostaria de ser lembrado, deu uma resposta singela: "amigo do povo".

Como padre, bispo e cardeal, lutou pela liberdade, ficou ao lado dos trabalhadores e dos oprimidos, combateu em defesa dos direitos humanos, mas foi, sobretudo, exatamente como gostaria de ser lembrado, um amigo do povo.

Nesta condição, subiu morros, frequentou favelas, incursionou pelas periferias e enfrentou os generais da ditadura para dar proteção a perseguidos políticos —de religiosos a operários, de advogados a jornalistas.

Quando do assassinato do jornalista Vladimir Herzog por agentes do governo, em 1975, comandou na Catedral da Sé um culto ecumênico que, reunindo milhares de pessoas, acabou por se transformar num dos atos públicos mais significativos da luta contra o regime militar instalado 11 anos antes no país.

O golpe de 1964 colheu o frade franciscano dando assistência religiosa aos moradores dos morros de Petrópolis (RJ). Lá chegara depois de uma trajetória iniciada no dia 14 de setembro de 1921, quando nasceu na colônia de Forquilhinha, região de Criciúma, em Santa Catarina. Teve 13 irmãos, quatro dos quais (três freiras e um padre) se dedicaram também à carreira religiosa —sendo Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança que morreu no terremoto do Haiti em 2010, a mais conhecida.
Zilda Arns fundou a Pastoral da Criança

Nas memórias, trata a mãe quase como santa e o pai como ídolo. Identifica nele o "herói anônimo da não violência" que o inspiraria pelo resto da vida.

Relata com dramaticidade —bom escritor que foi o episódio em que o velho descendente de alemães se coloca à frente de uma arma para apartar uma briga entre irmãos no armazém da colônia, de sua propriedade.

Corajoso, líder e democrata -assim dom Paulo via o próprio pai, em cujos exemplos, conta, baseou-se para implantar uma gestão participativa na Arquidiocese de São Paulo.

Da infância herdou também, sobretudo da mãe, a profunda religiosidade que o acompanharia para sempre.

Pois, apesar de ser mais conhecido, no Brasil e no mundo, por suas ações políticas, dom Paulo dedicou seguramente a maior parte de sua vida à pregação do Evangelho e à propagação da fé católica.

Estudou teologia exaustivamente e se especializou na patrística -a história e a filosofia dos primeiros séculos do cristianismo. Foi um homem culto.

O amor à cultura também vem da infância, por influência de dois tios, Adolfo e Jacó, professores em Forquilhinha e declaradamente seus mais queridos mestres.
Antiga igreja e escola de Forquilhinha, SC

Calçou sapatos pela primeira vez aos oito anos antes, só tamancos e assim que conseguiu convencer seu pai, que o queria como sucessor à frente do armazém da colônia, partiu para o seminário menor franciscano de Rio Negro, no Paraná, em 1934. De lá seguiu para Rodeio, Santa Catarina.

Em seguida, transferiu-se para o seminário de Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde foi ordenado sacerdote em 1945.

Escolhido por seu superior para estudar teologia, embarcou para a França, aportando na prestigiosa Sorbonne do pós-guerra.

Lá se dedicou também ao estudo de línguas e recebeu o título de doutor, em 1952.

No mesmo ano voltou ao Brasil, lecionou em instituições franciscanas e dedicou-se a escrever livros e artigos, tornando-se jornalista profissional.

Trabalhou, então, como vigário nos subúrbios de Petrópolis, onde foi à luta organizando a população das favelas locais.

Inspirou-se em ensinamentos tirados da infância: "O povo é a família do padre (...). E o padre (...) não é fujão nem frouxo".

Regime militar — Nomeado bispo em 1966, por decisão pessoal do papa Paulo 6º, a quem conhecera em Roma, voltou à terra natal para ser ordenado ao lado dos colonos de Forquilhinha.
Dom Agnelo Rossi não tinha objeções à ditadura militar

A seguir assumiu a função de bispo auxiliar de São Paulo, por uma improvável escolha do cardeal Agnelo Rossi, alinhado à ala conservadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Como bispo auxiliar da região norte da maior cidade brasileira, começou a visitar os presos comuns no Carandiru e, por designação do cardeal, foi ao presídio Tiradentes saber das condições de um grupo de frades dominicanos encarcerados por motivos políticos, entre eles frei Betto e frei Tito.

Constatou que foram torturados e encontrou Tito esvaindo-se em sangue. Voltou ao cardeal e relatou o que viu. Para sua surpresa, como relata em Da Esperança à Utopia, ouviu de seu superior: "Muito obrigado dom Paulo, (...) mas outros me garantem que não há tortura nas nossas prisões". Ele nunca criticou publicamente dom Agnelo pela declaração.

Mas a partir desse batismo de sangue, assumiu em São Paulo a vanguarda da luta pelos direitos humanos e pela defesa dos presos políticos.

Em outubro de 1970, foi designado titular do arcebispado em substituição ao cardeal Rossi, que foi servir em Roma. Outra vez, uma escolha pessoal de Paulo 6º, o papa que dom Paulo mais admirou e de quem se aproximara em passagens de estudos pelo Vaticano.

Começou a gestão vendendo o imponente palácio episcopal. Com o dinheiro, comprou terrenos em bairros populares para construir centros comunitários e instalações religiosas modestas, dando início à Operação Periferia.
"Você será sempre filho de colono e de seu povo"
Jogou os costumes principescos de seus antecessores pela janela. Surpreendeu os religiosos que o serviram na Cúria paulista ao sentar-se com eles às refeições.

Inspirou-se no que ouviu do pai ao contar-lhe que queria ser padre: [você] "sempre será filho de colono e de seu povo".

Agindo como tal, investiu em trabalho comunitário, foi às periferias, voltou-se para os migrantes e espalhou Comunidades Eclesiais de Base pelos quatro cantos da cidade.

Ao mesmo tempo, revitalizou o estudo doutrinário entre os religiosos e fez da evangelização um objetivo constante em todas as ações da Arquidiocese, até nos presídios.

São dessa época seus grandes confrontos com os generais da ditadura. Enfrentou os sucessivos comandantes do 2º Exército (hoje Exército do Sudeste), sediado em São Paulo, e até presidentes da República.

Num encontro com o presidente Emílio Garrastazu Médici, a conversa encerrou-se aos berros. Foi Médici quem decretou, depois, em 1973, a cassação da rádio Nove de Julho, tradicional emissora da igreja em São Paulo.

Do mesmo modo, desafiou as autoridades civis de São Paulo, de governadores afinados com a ditadura a secretários de Segurança e delegados de polícia, tentando preservar a vida e assegurar os direitos fundamentais dos presos políticos.
Dom Paulo discutiu aos berros com o carrasco Médici

Com base no exemplo de Paulo 6º no Vaticano, reproduziu na Arquidiocese de São Paulo a Comissão Justiça e Paz, em 1972, indo buscar o jurista Dalmo de Abreu Dallari para ser seu primeiro presidente. Paulo 6º declaradamente o admirava e, no consistório de 1973, elevou-o a cardeal.

Sem perder o foco na ação propriamente religiosa de que pouco se fala, usou a nova insígnia papal para se contrapor aos desmandos da repressão política. Apoiou decididamente o procurador de Justiça Hélio Bicudo em sua luta contra o Esquadrão da Morte —quadrilha policial de assassinos de que fazia parte um notório torturador e ícone da ditadura, o delegado Sergio Paranhos Fleury.

Foi a Comissão Justiça e Paz que publicou nos anos 70 o livro de Bicudo sobre o Esquadrão, recusado por editoras comerciais.

No período sofreu ameaças e calúnias —como denúncias anônimas tachando-o de homossexual. Sobre isso jamais se pronunciou, demonstrando absoluto desprezo por seus detratores.

Mas admitiu ter sido informado de que o acidente de automóvel que sofreu no Rio de Janeiro fora na verdade um atentado à sua vida.

Sobreviveu e ainda bateu muito na ditadura -por exemplo, patrocinando a publicação Brasil: Nunca Mais, sobre os mortos e desaparecidos na ditadura militar. Apanhou também.
Um dos melhores amigos de dom Paulo: Hélio Bicudo.

Um dos animadores de suas organizações de base, o operário Santo Dias, presidente da Pastoral Operária, foi assassinado pela polícia com um tiro nas costas durante uma manifestação popular.

O nome do operário —"cuja sorte foi a mesma de Jesus Cristo pregado na cruz", nas palavras de dom Paulo— tornou-se mais um símbolo da luta do cardeal com a criação, anos mais tarde, do Centro Santo Dias de Defesa dos Direitos Humanos, hoje internacionalmente conhecido.

Na prisão, dom Paulo foi ainda visitar —e procurar proteger sob o manto cardinalício- sindicalistas e estudantes.

No episódio Herzog, sua figura se agigantou. O regime militar fez de tudo para desqualificá-lo e ensaiou até manobras diplomáticas junto ao Vaticano por seu afastamento da Arquidiocese de São Paulo.

Foram esforços vãos.

João Paulo 2º — Surpreendentemente, sofreu seu maior revés no período da restauração democrática do país. Numa iniciativa cujas motivações mais profundas são até hoje mal explicadas, o papa João Paulo 2º fracionou a arquidiocese em seções menores e, por consequência, com menos poderes.
João Paulo 2ª solapou a influência daTeologia da Libertação...

Antes que o fato fosse consumado, o cardeal se queixou pessoalmente ao papa, que negou ter dado a ordem. Porém, como dom Paulo deixa claro em suas memórias, nada dessa magnitude acontece sem autorização expressa do pontífice.

Também na campanha do Vaticano contra a Teologia da Libertação, arquitetada pelo então cardeal Joseph Ratzinger (depois papa Bento 16), João Paulo 2º agiu do mesmo modo.

Disse a dom Paulo que não era contra a doutrina, mas deixou a Cúria Romana mandar um visitador para colher elementos processuais com vistas a bombardear a prática da Teologia da Libertação em São Paulo.

Depois dessas contrariedades, o cardeal se afastou, em 1998, por limite de idade, do comando da Arquidiocese de São Paulo, levando o título de arcebispo emérito.

Passou os últimos anos de sua vida entre orações, leituras e assistência aos idosos, recebendo ainda inúmeras homenagens, entre as quais a da presidente Dilma Rousseff que, em 18 de maio de 2012, foi visitá-lo na Congregação Franciscana Fraternidade Nossa Senhora dos Anjos, em Taboão da Serra (SP).
...instigado pelo cardeal Ratzinger.
Na ocasião, Dilma contou a ele as providências do governo para criar a Comissão da Verdade, instalada poucos dias antes. Já bastante combalido, não fez comentários públicos a respeito.

A rigor, seu derradeiro gesto de caráter político -embora de fundo religioso- ocorreu pouco antes de deixar o comando da Arquidiocese, em 1998, quando reagiu de forma dura às atitudes da Cúria Romana, levando João Paulo 2º a admitir, em uma difícil conversa pessoal com o cardeal brasileiro, que era, sim, o responsável final por aquelas decisões polêmicas.

"A Cúria sou eu", disse o papa, provocado por dom Paulo. Mais uma vez, então diante da autoridade máxima da Igreja Católica Romana, o frade mostrou que não era frouxo. (por Pedro Del Picchia)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

"MORRA TEMER" É UM SLOGAN... TEMERÁRIO. E SE UM IMBECIL TOMAR AO PÉ DA LETRA?

Há um pessoal secundarista no Facebook convocando uma manifestação Morra Temer para o próximo dia 30, às 17 horas, no Largo da Batata (SP, capital). 

Postei um comentário na página da moçada, desaconselhando veementemente o slogan do ato de protesto. É brincar com fogo. Eis o que escrevi: 

Companheiros, 

fui um dos líderes da Frente Estudantil Secundarista em 1968 e oito de nós, da zona Leste paulistana, ingressamos na Vanguarda Popular Revolucionária em 1969. O saldo foi trágico: dois assassinados pela repressão, cinco capturados com vida e bestialmente torturados, uma que escapou teoricamente ilesa mas ficou paranoica pelo resto da vida.  
Secundarista baleado na batalha da Maria Antônia, em 68.

Ou seja, senti na pele o que é travar uma luta radicalizada, passei muito perto da morte e convivo desde 1970 com uma lesão permanente, lembrança dos porões da ditadura. 

Vim só pra lhes dar este toque: clamar pela morte de um mero civil é uma péssima ideia. Na guerrilha, depois de dois justiçamentos com más consequências políticas, decidimos que nossos alvos seriam unicamente notórios torturadores e assassinos da repressão, por quem nenhuma pessoa civilizada pudesse sentir qualquer simpatia. 

Matar o Temer seria algo como o que as Brigadas Vermelhas fizeram ao matarem o Aldo Moro: colocaram a Itália inteira contra si e propiciaram uma terrível caça às bruxas. 

Sei que vocês estão apenas querendo chamar a atenção para sua causa, mas certos desejos facilmente se tornam realidade; há muito imbecil matando gente por aí apenas para aparecer.

Se até contra o John Lennon e o papa João Paulo II atentaram, vocês não podem ignorar a possibilidade de que algum mentecapto tome ao pé da letra o slogan, abrindo as portas para o caos. 

Vivemos uma situação muito dramática, atravessando a pior recessão das últimas décadas. Muita coisa ruim pode ocorrer. Não brinquem de cavaleiros do apocalipse! 

É o conselho de quem permanece revolucionário até hoje, totalmente contrário ao capitalismo, ao Estado e à democracia burguesa, mas que detesta crises que tornam mais sacrificada ainda a vida dos explorados e dos coitadezas. 
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