Mostrando postagens com marcador Clube Militar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Clube Militar. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de março de 2023

DE VOLTA ÀS PALESTRAS: A LUTA CONTINUA!

A
pesar dos pesares, estamos um pouco melhor em 2023, finalmente livres da pandemia e do Bozo.

A segunda praga foi muito pior, embora 44% dos brasileiros, com a consciência obnubilada por uma lavagem cerebral grosseira e pela própria ignorância (tanto quanto o Ricardo Kotscho, não sou condescendente com quem gosta de ser tratado a pontapés e despreza os que tentam libertá-lo), prefiram temer comunistas, o bicho papão, a mula sem cabeça, o capeta e outras fábulas. 

A primeira praga causou doença e morte, pois é isto que as pestes insensivelmente fazem. A segunda praga sabotou conscientemente os esforços para salvar os infectados, acrescentando centenas de milhares de nomes à lista de óbitos.  

Eu e os companheiros do blog Náufrago da Utopia atravessamos estes quatro anos no deserto denunciando dia após dia a monstruosidade insana do pior presidente brasileiro de todos os tempos e do bando de celerados com ele acumpliciado. 

E mais não fizemos porque não encontramos com quem fazê-lo, pois dispostos sempre estivemos. 

De minha parte, mesmo septuagenário, não faltei às manifestações de rua contra o genocida fujão nem descartei a possibilidade de um maior engajamento pessoal nas iniciativas visando ao seu afastamento imediato da presidência da República.  Se dependesse de mim, ele jamais teria completado o mandato após haver cometido uma imensidão de gravíssimos crimes de responsabilidade.

E foi muito gratificante voltar a ser convidado para falar sobre episódios históricos dos quais participei ou que presenciei, pois levo muito a sério a missão de transmitir às novas gerações o conhecimento acumulado em mais de meio século travando o bom combate, inclusive para manter viva a memória dos companheiros que entregaram a vida na luta contra a ditadura militar.

E a data da retomada das minhas palestras calhou de ser muito especial: o próximo dia 1º de abril, quando se completarão 59 anos da usurpação do poder por golpistas que, sob pretextos falaciosos (as fake news da época), derrubaram o governo legítimo de João Goulart.

Já que os saudosos do arbítrio insistem em reunir-se todo ano no Clube Militar para louvar  a quartelada, nada mais oportuno do que disponibilizarmos o antídoto.

Será a partir das 13h30 no Centro de Cultura Social Vira-Lata Caramelo (rua Sumaré, 732, no bairro de Utinga, em Santo André), ponto de encontro de luta e de fortalecimento dos movimentos sociais na região do ABC Paulista, mediante a concretização de atividades educativas, culturais e políticas, em dialogo com a comunidade local, valorizando princípios libertários de atuação popular. 

É composto pela Brigada Lucas Eduardo Martins, Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio e Quilombo Invisível, em conjunto com outras organizações autônomas. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

AUTORIDADES ALERTADAS SOBRE INSTIGAÇÃO DE BRILHANTE USTRA

O professor Carlos Lungarzo (foto), militante da Anistia Internacional há 32 anos, considerou das mais perigosas a situação criada pelo torturador Brilhante Ustra, ao trombetear nome, dados pessoais e fotos de cinco participantes da manifestação de repúdio à ditadura de 1964/85 que teve lugar diante do Clube Militar do Rio de Janeiro na semana passada.

Assim, Lungarzo enviou um alerta máximo, em inglês, francês e espanhol,  às redes de direitos humanos no Brasil e no exterior, pedindo-lhes para tornarem amplamente conhecida tal ameaça.

Cientificou também o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e o senador Eduardo Suplicy

Espera-se que providências sejam tomadas para garantir a vida e a integridade física dos manifestantes.

Na manhã desta 4ª feira (4) continuava no ar, no site em que Brilhante Ustra (tendo sua esposa como alegada administradora...) defende o totalitarismo e o terrorismo de estado do qual foi uma das principais expressões, o post Identificado jovem cuspidor do conflito no Clube Militar. Vide aqui. 

O justificado temor é que seus seguidores entendam a publicação como o que parecer ser: uma instigação a retaliações violentas.

Repito o que disse na minha primeira denúncia: se qualquer um deles sofrer uma agressão covarde como as que eram marca registrada da ditadura militar, já sabemos quem deve ser responsabilizado como indiscutível instigador e provável mandante.

Assim como reafirmo minha perplexidade diante da forma acintosa com que Ustra retoma suas antigas atividades, agora à frente de uma espécie de DOI-Codi privado. Afinal, se até as intimidações da ditadura continuam sendo consentidas, para que serviu 1985?

Finalmente, é repulsiva a chantagem emocional de Ustra, ao fazer uma novela lamurienta acerca da idade do coronel aviador Juarez Gomes da Silva, o alvo da cusparada.

Não se trata de um doce e inofensivo octogenário, mas sim do presidente do Ternuma-RJ, portanto dedicado dia e noite à justificação/exaltação do arbítrio, minimização de atrocidades, distorção de episódios históricos e satanização dos heróis e mártires da resistência à tirania (contra os quais move campanhas permanentes de difamações, calúnias e injúrias).

Ele pode ser visto numa IstoÉ de 2003 se dispondo a desenvolver uma campanha publicitária para apresentar membros do governo (inclusive a então chefe da Casa Civil Dilma Rousseff) como "terroristas" e declarando que o então ministro da Justiça Tarso Genro não passaria de um "canalha" (acesse aqui).

terça-feira, 3 de abril de 2012

CLUBE MILITAR: BRILHANTE USTRA INCITA REPRESÁLIAS CONTRA MANIFESTANTES

O site do torturador Brilhante Ustra publicou (vide aqui) nome, foto e dados pessoais do manifestante que cuspiu num dos oficiais da reserva participantes da criminosa apologia do totalitarismo e do terrorismo de estado que teve lugar dia 29 no Clube Militar do Rio de Janeiro, bem como de outros quatro cidadãos que se posicionaram contra aquela abominação.

O objetivo alegado foi "disponibilizar material para que o Clube Militar, assim como o agredido possam acionar a justiça".

Mas, há sempre possibilidade de eles se tornarem alvos das práticas habituais do antigo DOI-Codi: sequestros, torturas, assassinatos.

Os defensores dos direitos humanos devem tomar imediatas providências para a proteção da vida e da integridade física dos cinco.

Se qualquer um deles sofrer uma agressão covarde como as que são marca registrada da ditadura militar, já sabemos quem deve ser responsabilizado como indiscutível instigador e provável mandante.

Finalmente, eis algumas perguntas que não querem calar:
  • O que mais agride as leis do País, a cusparada que um jovem de 22 anos, justificadamente indignado, aplicou no coronel aviador Juarez Gomes da Silva, presidente do Ternuma-RJ, ou a própria atuação do Ternuma-RJ na justificação/exaltação do arbítrio, minimização de atrocidades e manutenção de campanhas de ódio permanentes (incluindo as de difamações, calúnias e injúrias  contra os heróis e mártires da resistência à tirania)?
  •  Que consideração merece tal personagem, um destrambelhado que já apareceu na IstoÉ se propondo a desenvolver uma campanha publicitária para denunciar autoridades federais (inclusive a então ministra Dilma Rousseff) como "terroristas" e declarando que o então ministro da Justiça Tarso Genro não passaria de um "canalha" (vide aqui)?
  • Quem levantou os nomes e dados pessoais dos quatro outros manifestantes, afora o do sociólogo Gustavo Santana, que apareceu no noticiário como vítima de agressão bestial da PM (teve o braço quebrado)?
O Brilhante Ustra parece ter montado um DOI-Codi privado em plena democracia.

É o caso de averiguarmos se ele não está usurpando funções da polícia ao realizar investigações, e da imprensa ao divulgar os resultados.

Não sei se é legal. Mas moral, com certeza, não é.

Trata-se do preço que estamos pagando por não havermos instalado em 1985 um tribunal como o de Nuremberg. Redemocratização pela metade dá nisso.

PM FRATUROU BRAÇO DE MANIFESTANTE NO PROTESTO DIANTE DO CLUBE MILITAR

Santana: "O troglodita que me agrediu é produto
de uma formação militar absolutamente equivocada".
A jornalista Ana Helena Tavares entrevistou um manifestante que sofreu ferimentos leves e outro cujo braço foi fraturado pela PM no último dia 29, diante do Clube Militar do Rio de Janeiro, durante o protesto contra oficiais da reserva que cometiam, impunemente, o crime de fazer apologia do totalitarismo e do terrorismo de estado. Leia a íntegra aqui.

Como na canção célebre de Chico Buarque, parece que o jeito é chamar o ladrão, pois a polícia barbariza os homens de bem e atua como guarda pretoriana dos pregadores de quarteladas, ditaduras, torturas, genocídios, execuções a sangue frio, estupros, ocultação de cadáveres, etc.

Várias vezes já propus às forças democráticas brasileiras e aos cidadãos com espírito de justiça que levantem a bandeira da proibição de se fazer apologia do golpe de 1964, com o indiciamento e instauração de processos contra os infratores. 

Negar o Holocausto é crime nos países civilizados, levando à prisão até historiadores. Está mais do que na hora de o Brasil assumir idêntica postura em relação aos que até hoje envenenam a mente das novas gerações com exortações em tudo e por tudo equiparáveis às dos nazistas.

Eis os principais trechos da excelente reportagem de Ana Helena:
"'Ali, a gente não estava fazendo um carnaval, não estava fazendo palhaçada. Para ver um cara que foi do regime que matou rindo das fotos dos companheiros que foram mortos e sumiram. Rindo também de gente que estava lá, que tinha sido torturada e que traz cicatrizes no corpo', desabafa Rodrigo Mondego, de 27 anos, bacharel em direito, que esteve na quinta-feira, 29 de março, em frente ao Clube Militar no Rio de Janeiro, protestando contra a comemoração do golpe de 64.
Ele não estava sozinho. Segundo seus cálculos, havia cerca de 700 pessoas. Gustavo Santana, sociólogo, de 28 anos, também estava lá. Ambos dizem ter sido agredidos por PMs. Mondego sofreu ferimentos leves, porém Santana teve o braço quebrado e terá de ser operado.
Os jovens pensam em processar o Estado pelas agressões dos PMs e o Clube Militar por apologia ao crime: 'Para mostrar que alguma coisa tem de ser feita. Porque nós ainda não chegamos ao ideal pretendido pelos que lutaram contra a ditadura e o Estado tem que ser responsabilizado pelas atrocidades cometidas naquele período', diz Santana, que completa: 'O troglodita que me agrediu pode até ter consciência do que fez, mas ele é produto de uma formação militar absolutamente equivocada. E temos que discutir, inclusive, por que a polícia tem de ser militar. Ela pode nos proteger, mas é o contrário'.

Os dois estão receosos pela vida de um colega, Felipe Garcês (conhecido como 'Pato'), de 22 anos, que foi fotografado cuspindo em um militar e está sendo ameaçado de receber represálias. A foto (...) foi publicada na Veja.com, no blog de Reinaldo Azevedo, que chama Garcês de 'baderneiro'.

Eles [Santana e Mondego] consideram que participar do ato contra a comemoração do golpe foi uma obrigação cidadã: 'Nós tínhamos a obrigação de estar ali. Muita gente deu a vida para que nós pudéssemos ter o direito à livre manifestação. E a essas mesmas pessoas foi negado o direito de ter história, porque muitos desapareceram. E acho que nós, como signatários dessa luta, temos que estar na rua para dizer que enquanto essas pessoas não aparecerem a luta ainda não acabou. A luta delas ainda existe e é a nossa luta', diz Santana.
O jovem sociólogo [Santana] descreveu a forma como foi agredido na manifestação do dia 29: 'Eu estava correndo e tomei uma pancada. Vi quando o PM me bateu e olhei na cara dele. Ele sabe que bateu para me machucar. Fumaça, bomba… Só senti quando meu braço ficou pendurado', lembra Santana, que conclui: 'Vivemos num Estado Democrático de Direito, mas as atrocidades (da PM) são as mesmas'.
Segundo Mondego, o ato contra a comemoração do golpe de 64 'começou de maneira pacífica, tranquila'.
Mondego: os oficiais da reserva
faziam "apologia do crime".
Considera que os militares participantes do evento pró-golpe, mesmo os que não foram torturadores, 'estavam lá, por livre e espontânea vontade, festejando um período onde houve estupro de militantes, pau-de-arara, desaparecimentos. O fato de ele estar comemorando aquele golpe faz com que ele esteja torturando hoje os filhos de todo mundo que foi torturado. Está torturando os filhos dos desaparecidos. Está fazendo apologia do crime'.
Alguns manifestantes, sentido-se provocados por militares que, contam os entrevistados, 'debochavam e faziam gestos obscenos', resolveram comprar ovos na hora. Mondego estava com alguns na mão, quando ouviu de um senhor ao seu lado: 'Meu filho, me dá a honra de me dar um ovo desses para eu tacar num fascista'. Ele tinha tido um irmão morto pela ditadura.
'Aqueles ovos não davam para acertar em ninguém, tinha muita tropa de choque. Mas era uma questão simbólica. A gente queria tacar ovo na comemoração, não em ninguém específico', pondera o jovem.

Além da agressão que ele próprio sofreu, levando um soco na boca do estômago, Mondego conta ter presenciado a cena de um colega seu da UFRJ caído no chão e recebendo choque com pistola elétrica de PMs.
'A organização do evento não foi boa e a polícia foi extremamente irresponsável. Muita gente apanhou. Muito gás lacrimogêneo. Enquanto isso, os militares saíram de fininho pelas escadas do metrô. Teve cuspe, porque provocaram. Mas ninguém os agrediu', garante.
E completa: 'A sensação que ficou é que, como eles nunca foram punidos, se acham no direito de debochar da história do País'".

terça-feira, 27 de março de 2012

MEU CORAÇÃO E MEU TECLADO ESTÃO AO LADO DOS JOVENS MANIFESTANTES

No início de 1970, quando a repressão do ditador Médici estava desembestada, foi-me passada uma nova aliada, que nem me lembro quais serviços andou prestando para nós da VPR.

O inusitado era a figura da mulher, uma idosa simpática e robusta, com ânimo invejável. Voz forte e calorosa. Gestos desinibidos, espalhafatosos. Jeitão de quem lidava ou lidara com as artes.  

Simpatizei muito com ela. Mas, não tinha, nem de longe, a forma de ser e o discurso de quem apoiava a luta armada. Conseguia imaginá-la em passeatas, nunca na resistência clandestina.

Por mera curiosidade --dela não tive um pingo de suspeita-- indaguei o motivo de ter decidido nos ajudar. A resposta me deixou arrepiado, foi algo mais ou menos assim:
"Meu tempo de discutir linhas políticas já passou. Agora, tenho de acreditar nos jovens e apoiar o que eles estão fazendo. Vocês são nossa única esperança".
É como me sinto em relação às manifestações de protesto contra antigos torturadores, articulados pela internet e levadas a cabo pelo movimento Levante Popular da Juventude em sete capitais brasileiras, nesta 2ª feira (26).

Carregamos o bastão há décadas, era mais do que tempo de passá-lo às novas gerações. Devemos encarar sua entrada na luta como sopro renovador, coroamento dos nossos esforços e estímulo para perseverarmos: sabemos agora que o sacrifício dos resistentes dos anos 60 e 70 continuará servindo de inspiração para os que travam o bom combate e que nossos mortos continuarão sendo honrados quando nós mesmos já não o pudermos fazer.

Então, deploro a rabugice de Ivo Herzog, diretor do Instituto Vladimir Herzog, que fez questão de rechaçar os invasores de sua praia numa declaração, pra lá de infeliz, que deu ao jornal da  ditabranda:
"Sou contra esse tipo de protesto. Quem tem que dizer quem torturou é o poder público. A sociedade deve se manifestar, mas pichar a calçada das pessoas é vandalismo".
Era exatamente o que o pessoal do PCB dizia de nós em 1968, quando tudo fazia para convencer sua militância a  manter a compostura, não se misturando com  baderneiros.

Acontece que o poder público vem se omitindo covardemente, vergonhosamente, repulsivamente, desde 1985. Agora mesmo, é patética a demora para serem definidos os membros e empossada a Comissão da Verdade.

Então, meu coração e meu teclado estão ao lado dos jovens manifestantes.

E vou rir muito quando eles se posicionarem diante do Clube Militar do RJ em pijamas, debochando desses golpistas de outrora que insistem em enaltecer até hoje o despotismo.

Também aí o poder público está sendo extremamente omisso. Nos países civilizados, quem exalta o nazismo e nega o Holocausto é merecidamente processado e chega a cumprir pena de prisão.

Aqui se permite que glorifiquem quarteladas, façam apologia do terrorismo de estado e achincalhem heróicos resistentes com a maior sem cerimônia.

domingo, 11 de março de 2012

"GRANDES CAMINHADAS COMEÇAM COM A DECISÃO DO PRIMEIRO PASSO"

Participei neste sábado da prévia inicial para a escolha do candidato do Partido Socialismo e Liberdade à prefeitura paulistana --talvez, parafraseando Platão, o primeiro passo de uma grande caminhada para forjarmos uma esquerda anticapitalista capaz de, verdadeiramente, representar uma alternativa de poder no Brasil.

Foi alentador ver tanta gente jovem e empolgada, acreditando que outro mundo é possível. Inevitavelmente, voltaram-me as lembranças do ardor dos secundaristas que acreditávamos ser capazes de sacudir o mundo em 1968.

Estávamos à beira de um abismo e não sabíamos.

O que, aliás, não importaria: ainda que tivéssemos uma antevisão dos horrores dos anos seguintes, com certeza seguiríamos em frente, com o arrojo magnificamente expresso por Caetano Veloso na canção "Mamãe coragem" (sobre o difícil momento de trocarmos a segurança do lar familiar pelos rumos perigosos ditados por nossa consciência):
"Mamãe, mamãe, não chore
Não chore nunca mais, não adianta
Eu tenho um beijo preso na garganta
Eu tenho um jeito de quem não se espanta
(Braço de ouro vale 10 milhões)
Eu tenho corações fora do peito
Mamãe, não chore
Não tem jeito"
Emblematicamente, os três precandidatos do PSOL são continuadores daquela luta. Ivan Valente e Odilon Guedes, inclusive por a terem travado; e Carlos Giannazi, o benjamim da turma, por identificação com os valores e o exemplo da resistência à ditadura militar, tanto que se deve a ele a instituição do Dia dos Mortos e Desaparecidos Políticos no estado de São Paulo.

O partido estará otimamente representado por qualquer um dos três.

Ivan Valente, o presidente nacional do PSOL, participou do movimento estudantil quando era diretor do centro acadêmico da Escola de Engenharia Mauá, foi preso e torturado como dirigente do clandestino Movimento de Emancipação do Proletariado, estava entre os fundadores do PT (tendo integrado seu Diretório Nacional) e acumula vários mandatos como deputado estadual e federal. Saiu do PT em 2005, na mesma leva do Plínio de Arruda Sampaio.

Eu o conheci em 1986, buscando apoio para a greve de fome dos  quatro de Salvador.

Foi um raro caso de petista que procurou ajudar estes companheiros desatinados: eles expropriaram um banco em benefício da revolução quando o país já se redemocratizara, foram renegados pelo PT e abandonados às represálias dos policiais fascistas (os quais tentaram inculpá-los por todos os bancos assaltados no País inteiro, além de tramarem seu assassinato na prisão).

O PT só pensava nos prejuízos eleitorais que adviriam de uma identificação com os autores de tal quixotada. Ou seja, há um quarto de século já colocava o noticiário da imprensa burguesa acima de valores como a solidariedade que os companheiros devem receber de nós quando são alvos da sanha da repressão.

Quanto ao Ivan, eu o reencontraria depois em várias lutas e situações. Nunca deixei de o admirar. E ontem nos cumprimentamos efusivamente, apesar do meu notório apoio à candidatura do Giannazi.

Disputas menores entre companheiros nunca os devem dividir nem azedar relacionamentos. A nós, revolucionários, cabe combatermos os burgueses, seus serviçais e os totalitários como inimigos figadais, mas tratarmos cordialmente os adversários de nossas posições no campo da esquerda. É esta a cartilha pela qual veteranos como o Ivan e eu rezamos.

Após participar do movimento estudantil e revolucionário nos anos de chumbo, Odilon Guedes  obteve destaque tanto na sua profissão (é mestre em economia pela PUC/SP, professor das Faculdades Oswaldo Cruz o presidiu o Sindicato dos Economistas no Estado de SP) como na política, chegando a ser vereador na capital paulista.

Transpira a dignidade de um velho guerreiro, no bom sentido da expressão. Em seu pronunciamento, lamentou que os filiados não estejam dando a devida atenção à sua precandidatura, face à polarização entre Giannazi e Valente. Um de seus apoiadores levantou a possibilidade de que venha a se tornar uma opção para assegurar a unidade do partido.

Só vejo um cenário em que isto seria possível: um quase empate entre os favoritos, com ambos decidindo então abdicar de suas pretensões em benefício de Odilon, o  tertius. Parece-me pouco provável.

O professor Carlos Giannazi apareceu no noticiário em 1998, como diretor de escola que movia céus e terras para abrir novas salas de aula naquele bairro carente, acabando por arrancar das autoridades a cessão de um prédio abandonado. 

Como vereador do PT, posicionou-se contra o desvio para outras finalidades de verbas que pertenciam à Educação. A prefeita Marta Suplicy conseguiu que ele tivesse seu mandato suspenso e fosse expulso do partido, o que só o engrandeceu aos olhos dos que não trocam os princípios pelas conveniências.

Desde então, como vereador e deputado estadual, veio sedimentando sua posição de principal liderança do professorado paulista e esteve sempre alinhado com o movimento estudantil e os movimentos sociais, marcando firme presença em suas lutas.

Sua atividade frenética, colocando o mandato a serviço de todos os bons combates, fez dele o precandidato com mais respaldo nas bases do partido e junto à população. Daí ser o homem certo para este momento, sem demérito nenhum para os  imprescindíveis  Valente e Guedes.

Identifico-me com o repúdio de Giannazi ao autoritarismo no seio da esquerda (amiúde vitupera o stalinismo em suas falas) e com sua convicção de que a crise do capitalismo é grave e ensejará uma nova onda revolucionária. Os dois apostamos, sobretudo, nas ruas e nas praças, que são do povo como o céu é do condor.

É nelas que devemos construir nossa opção, não nos gabinetes do poder. 

OS EMBRIÕES GOLPISTAS

Na minha intervenção, abordei um assunto de ordem geral: a necessidade de todos nós, da esquerda, acompanharmos com muita atenção os manifestos militares e outros embriões golpistas.

Não é tão fácil se derrubar um presidente legítimo, rasgar a Constituição e submeter a nação ao terrorismo de estado. A quartelada de 1964, p. ex., começou a ser tramada no momento em que Jânio Quadros se elegeu presidente da República, em fins de 1960 --tanto que já havia um dispositivo golpista suficientemente estruturado para tentar o  pulo do gato  quando da renúncia de Jânio, em agosto de 1961.

Mas, a falta de respaldo na opinião pública, além da firme reação do governador Leonel Brizola e dos subalternos das Forças Armadas, frustraram esta primeira tentativa.


Foram necessários quase três anos para apresentar-se outra ocasião propícia. Nesse meio tempo, os conspiradores acumularam força; retaliaram os sargentos e cabos que haviam se posicionado contra o golpe, impondo-lhes medidas disciplinares e dispersando-os por unidades longínquas; conseguiram algum apoio da classe média por meio das marchas de carolas, dondocas e reaças; e utilizaram a radicalização de subalternos das Forças Armadas como espantalho para assustar a oficialidade e tangê-la ao golpismo (podem até ter provocado tal radicalização, por meio de figuras como o cabo Anselmo).

Da mesma forma, desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva nota-se a existência de embriões golpistas, seu que a  ocasião propícia  surgisse até agora. Eis alguns:
  • o Cansei!, que aspirava a ser uma nova Marcha da família, com Deus, pela liberdade, mas só reuniu algumas centenas de  testemunhas, não decolando;
  • a tentativa de tornar o Supremo Tribunal Federal, sob a presidência de Gilmar Mendes, um polo de poder alternativo ao Governo Federal, tendo a blitzkrieg de usurpação de prerrogativas do Executivo sido detida no Caso Battisti, o que fez o PIG e as forças reacionárias desistirem de apostar na dupla Mendes/Peluso;
  • o caráter ultradireitista que a campanha presidencial de José Serra assumiu no segundo turno de 2010, com o ostensivo envolvimento de remanescentes e de viúvas da ditadura;
  • a reintrodução da repressão caracteristicamente ditatorial nos episódios da ocupação da USP e das  faxinas sociais  na cracolândia e no Pinheirinho, levadas a cabo por efetivos policiais-militares que até hoje cultuam as práticas e a memória do arbítrio;
  • a arregimentação dos católicos contra o aborto e dos evangélicos contra os gays;
  • as recentes insubordinações dos oficiais da reserva, encabeçados por figuras como o coronel Brilhante Ustra (declarado torturador pela Justiça), o General Maynard Marques (que qualificou a presidente Dilma Rousseff de assaltante, torturadora e assassina), o general Valmir Pereira (presidente do Ternuma, um dos sites mais extremados na apologia da última ditadura) e o coronel Jarbas Passarinho (aquele que reconheceu estar mandando os escrúpulos às favas ao assinar o AI-5).
Há, sim, forças empenhadas em mergulhar o País novamente nas trevas. Mas, enquanto o grande capital e os EUA considerarem seus interesses bem servidos sob o status quo, os esquemas golpistas permanecerão em stand by. Não se violenta as instituições no Brasil sem a participação ou o sinal verde dos verdadeiramente poderosos.

Temos, contudo, de manter uma observação atenta dos quadros político e econômico. Os cenários são dinâmicos e, havendo crises e turbulências, os pescadores em águas turvas certamente tentarão alguma cartada para interromper o longo ciclo petista no poder.

E a melhor maneira de lidar com eles nunca foi ceder, como fez o PT ao desistir da descriminalização do aborto para apaziguar religiosos medievaliestas e ao assegurar aos militares insubmissos que a anistia de 1979 permanecerá intocável (diante de uma bravata tão desrespeitosa ao ministro da Defesa e à presidente da República, o primeiro deveria tê-los apenas chamado às falas, sem dar-lhes quaisquer satisfações, nem mesmo a reiteração de obviedades).

A verdadeira esquerda não deve recuar diante das ofensivas direitistas, nem por motivos eleitoreiros, nem por pusilaminidade face às carrancas militares.

Nosso papel é o de mantermos erguidas essas bandeiras que o PT está descartando ou defendendo pela metade (caso da Comissão da Verdade, que poderá ser desfigurada pelas concessões aos comprometidos com a mentira); e de cerrarmos fileiras com o PT na defesa da democracia, caso esta venha a ser ameaçada.

Obs.: computadas as duas primeiras prévias, de um total de seis, Giannazi obteve 288 votos (57%);  Valente, 197 (39%); e  Guedes, 20 (4%).

quinta-feira, 8 de março de 2012

O XÍS DA QUESTÃO É: A INTIMIDAÇÃO MILITAR RESULTARÁ OU NÃO?

Se fizer concessões ao blefe de  pijamados
que não têm real influência nas tropas...
Quando a Comissão da Verdade se tornou lei, teria sido melhor definir seus integrantes e instalá-la de imediato "ou usar o largo prazo de 180 dias para compô-la, contando em enfraquecer com o tempo e a persuasão as reações dos temerosos ou contrários à veracidade histórica"?

A indagação é do veterano jornalista Janio de Freitas, na sua coluna desta 5ª feira (ver íntegra aqui).

Para ele, não há como saber, ainda, se o governo fez a melhor escolha ao optar pelo segundo caminho.

Na minha opinião, o Manifesto Interclubes e o  Manifesto Brilhante Ustra constituem prova evidente de que a opção foi desastrosa. Deu-se ao inimigo todo tempo do mundo para reagrupar suas forças e reagir, e o resultado aí está: pressões e intimidações cujo verdadeiro objetivo é torná-la inócua, ao arrepio do que o Executivo propôs e o Legislativo aprovou.

Agora, tudo leva a crer que acontecerá o que eu, desde o primeiro momento, temia: a indicação, para integrá-la, de sete personagens conciliatórios, palatáveis aos que têm esqueletos no armário e aos remanescentes/simpatizantes da ditadura, em geral.

Foi o que me levou, em setembro, a apresentar-me como anticandidato à Comissão da Verdade: evitar que o espaço fosse totalmente tomados por cidadãos com espinha flexível, dispostos a concessões em nome da famosa governabilidade (a justificativa para todas as incoerências e todos os recuos!).

Então, mais do que nunca, insisto: presidente Dilma, não adianta bom senso e jogo de cintura ao lidar com essa minoria de fanfarrões obcecados em evitar que sua imagem apareça no espelho da História como os Calibãs que foram e que ainda são. 

...o governo, apesar das aparências,
terá perdido a verdadeira batalha.
[É um esforço inútil, claro. Independentemente do veredicto do Estado brasileiro, Brilhante Ustra será lembrado até o fim dos tempos como o comandante de um dos piores centros de tortura que já funcionaram no Brasil e Jarbas Passarinho, signatário do seu recente manifesto, como o ministro que afirmou estar mandando os escrúpulos às favas ao endossar outro documento igualmente hediondo, o que instaurou o AI-5.]  

Ceder desta vez, explicita ou implicitamente, só os estimulará a ameaçarem com a velha desordem militar sempre que sentirem seus calos pisados. E os desafios vão se tornar cada vez mais explícitos e intoleráveis.

Então Jânio de Freitas está certíssimo quanto à forma de lidar com os dois manifestos "dessas criaturas da Guerra Fria, que elevaram o anticomunismo acima dos seus juramentos militares, da Constituição e da soberania nacional": a presidente da República e o ministro da Defesa tem mesmo é de "cobrar, na forma da lei e dos regimentos militares, o respeito à sua autoridade impessoal e à Constituição".

Como ele bem sintetizou: "aos fora da lei, a lei".

Mas, não adiantará nada ambos manterem firmeza aparente e recuarem no que realmente importa.

O primeiro manifesto insubmisso exigia que Dilma desautorizasse suas ministras Eleonora Menicucci e Maria do Rosário, e foi o que Amorim implicitamente fez, ao garantir aos militares que a Comissão da Verdade vai respeitar a anistia que os verdugos concederam a si próprios, como um habeas corpus preventivo, em 1979.

Se Dilma, ademais, constituir a Comissão com sete figuras que não cheirarem nem federem; e se aceitar a exclusão de antigos combatentes contra a ditadura --o que equivalerá a endossar a velha tese do Brilhante Ustra & cia., da igualação dos torturadores e resistentes, dos carrascos e suas vítimas, de bestas-feras da tirania e defensores da liberdade--, então os oficiais de pijama terão, na verdade, vencido a parada, apesar das aparências.

E dias piores virão, com certeza.

quarta-feira, 7 de março de 2012

CELSO AMORIM EXIGE QUE AUTORIDADE CIVIL SEJA RESPEITADA

"Não estou preocupado com questão de afronta. O importante é o respeito à autoridade civil... a Comissão da Verdade é lei e todos nós brasileiros, militares e civis, temos de respeitar a lei."

(Ministro da Defesa Celso Amorim, 
sobre a insubordinação de 
oficiais da reserva)

domingo, 4 de março de 2012

"OS QUE ASSINAM O MANIFESTO ERAM A PRÓPRIA DITADURA"

"Os que assinam o manifesto, todos da reserva ou reformados, eram a própria ditadura. Foram parte do seu sustentáculo e de tudo o que nela foi feito e eles temem ver exposto plenamente e julgado. Eram a ditadura ontem, são hoje a voz da ditadura. Não é mal que façam o país ouvir a voz roufenha, velada e já trêmula da ditadura.

Também é assim que somos forçados a não perder a consciência de nossa própria história. O mesmo acontece com eles: não se esquecem do que foram -e, logo, são. E nós outros formamos a consciência de que serão necessárias duas, talvez três gerações, se tudo correr como necessário ao processo de democratização, para que não haja mais resquícios venenosos no profissionalismo militar brasileiro."
(Jânio de Freitas, colunista da Folha de S. Paulo)

DOI-CODI E TERNUMA MARCAM PRESENÇA NO "MANIFESTO BRILHANTE USTRA"

Matando as saudades do
DOI-Codi: o chefão de SP...
O site do único torturador declarado como tal pela Justiça brasileira acaba de colocar no ar uma relação atualizada de signatários do papelucho pomposamente intitulado de Alerta à Nação, mas que eu preferi batizar com o nome do seu grande inspirador, divulgador e provável autor:  Manifesto Brilhante Ustra.

Agora, o recenseamento de remanescentes e de  viúvas  da ditadura, mais os cuervos  por ela criados, abarca 61 generais, 1 desembargador, 258  coronéis, 55 tenentes-coronéis, 11  majores, 17 capitães, 20 tenentes, 15 subtenentes, 15 sargentos, 2 cabos, 1 soldado e 191 civis (provavelmente com expressiva participação do Opus Dei e da TFP, embora não constem os nomes do Geraldo Alckmin, do Ives Gandra Martins e do João Grandino Rodas).

Duas inclusões significativas na lista: o general Valmir Fonseca Azevedo Pereira, presidente do Ternuma, entidade que dispensa apresentações; e o general Maynard Marques de Santa Rosa, outro veterano do DOI-Codi, merecidamente afastado do serviço ativo em 2010.

O último personagem aparece nas relações de antigos torturadores como integrante da 2ª Seção (Inteligência) do Regimento de Obuses, requisitado para a equipe de buscas do DOI-Codi-RJ em 1971/72. E andou frequentando o noticiário como um encrenqueiro  de caderneta:
se reencontrou com um  bom
companheiro 
do RJ.
  • em 2007 criticou a conduta do Governo Lula na demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima;
  • em 2009, juntamente com dois outros generais linha-dura, combateu o novo organograma das Forças Armadas, alegando que afastava os militares do poder; e
  • em fevereiro/2010, qualificou a Comissão Nacional da Verdade de "Comissão da Calúnia" num e-mail que vazou para a imprensa ou foi nela  plantado.
As duas primeiras indisciplinas saíram relativamente baratas, mas a terceira lhe acarretou a humilhante exoneração do Departamento-Geral de Pessoal do Exército, para encerrar a carreira "indo fazer nada no gabinete do comandante até 31 de março, quando cai na reserva", conforme escreveu na época a colunista Eliane Cantanhêde.

Para quem quiser refrescar a memória sobre ele, eis um interessante artigo: General Maynard diz que Dilma assaltou, torturou e matou (clique para abrir)

Dize-me com quem andas...

sábado, 3 de março de 2012

TENTAM GANHAR DO GOVERNO NO GRITO; O GOVERNO DEVE GRITAR MAIS ALTO

Assim é bem melhor...
O colunista Hélio Schwartsman, na Folha de S. Paulo deste sábado, 3 (veja aqui), após fazer uma profissão-de-fé antiditatorial como preâmbulo, sustenta ser um "exagero, porém, que as leis e regulamentos castrenses permitam enquadrar e punir por desrespeito à hierarquia os oficiais reformados, que são, para todos os efeitos, cidadãos aposentados".

Segundo Schwartsman, ainda é pouco o que lhes concedeu uma lei aprovada no catastrófico Governo Sarney, dando aos militares o direito de "opinar livremente sobre assunto político, e externar pensamento e conceito ideológico, filosófico ou relativo à matéria pertinente ao interesse público". Exatamente o que eles haviam negado à totalidade do povo brasileiro durante os 21 anos anteriores.

No entanto, a politização e a partidarização das Forças Armadas --às quais se acabará chegando se for flexibilizado demais o regulamento disciplinar dos fardados e  pijamados-- são potencialmente muito arriscadas num país que passou por constantes turbulências de origem ou com envolvimento militar no início do século passado, sucumbindo em seguida a duas ditaduras dificílimas de remover.

...do que assim.
Vejam o caso presente. Os seguidores do torturador Brilhante Ustra (*) não estão discutindo a Comissão da Verdade em tese, mesmo porque já é lei contra cuja aprovação nada mais podem fazer, mas sim visando atingir objetivos eminentemente práticos: tentam intimidá-la, antes mesmo de empossada; e intimidar os ministros Celso Amorim, Eleonora Menicucci e Maria do Rosário; e intimidar a própria presidente Dilma Rousseff.

Externando sem papas na língua seu extremo desprezo pelo Legislativo e pelo Executivo,  sonham mesmo é com uma volta ao escabroso período da tutela castrense sobre a Nação.

Então, enquanto subsistir tal viés totalitário e os militares da reserva insistirem em conturbar a política brasileira com ostensivas provocações, turvando a água para os pescadores da ativa eventualmente entrarem em cena, seria suicida uma postura complacente por parte do Governo Federal.

Não é hora de abrir mão de dispositivos aplicáveis dos regulamentos disciplinares dos fardados, mas, pelo contrário, deve utilizá-los na medida necessária para esmagar os ovos de serpente antes que eclodam.

Quando alguém tenta ganhar de um governo no grito, a sabedoria política e até o comezinho bom senso mandam que o governo grite mais alto.

* E não só dele: o presidente do Ternuma, general Valmir Fonseca Azevedo Pereira, reclamou num site da extrema-direita que, embora tenha assinado o segundo manifesto, sua adesão não estava sendo divulgada. Ora, está aí uma informação muito esclarecedora. Eu divulgo, general. Não precisa nem agradecer.

quinta-feira, 1 de março de 2012

SIGNATÁRIOS DO "MANIFESTO BRILHANTE USTRA" SERÃO ADVERTIDOS

A resposta do governo federal ao desafio dos oficiais da reserva ultradireitistas foi branda: advertência.

Assim, todos os signatários do   manifesto Brilhante Ustra   receberão um puxão de orelhas dos comandantes militares.

Como se tratou de uma evidente provocação, faz certo sentido a reação contida; parecerá, na caserna, que o ministro da Defesa Celso Amorim não deixou a insubordinação passar em branco, mas também foi magnânimo com os veteranos encrenqueiros. É como as famílias costumam administrar as inconveniências cometidas por seus idosos.

Mas, algo tem de ser feito nos bastidores para convencer os seguidores do Brilhante Ustra (foto) a baixarem a bola.

Já desacataram duas ministras, a própria presidente da República, o ministro da Defesa e o Congresso Nacional.

É óbvio que, se continuarem desafiando seus superiores supremos, bem como os poderes Executivo e Legislativo, a cada novo episódio terão de receber uma punição mais grave.

Vejamos o que vem ao caso no regulamento disciplinar do Exército.

O Art. 2o  estabelece que "estão sujeitos a este Regulamento os militares do Exército na ativa, na reserva remunerada e os reformados" (grifo meu).

Isto é reforçado no § 1o do Art. 40: "O Comandante do Exército, na área de sua competência, poderá aplicar toda e qualquer punição disciplinar a que estão sujeitos os militares na ativa ou na inatividade" (grifo meu).

Na Relação de Transgressões (anexo 1), as seguintes obviamente se aplicam às recentes bravatas dos nostálgicos do arbítrio:
  •  47. Provocar ou fazer-se causa, voluntariamente, de alarme injustificável;
  • 59. Discutir ou provocar discussão, por qualquer veículo de comunicação, sobre assuntos políticos ou militares, exceto se devidamente autorizado;
  • 86. Desconsiderar ou desrespeitar autoridade constituída;
  • 98. Desacreditar, dirigir-se, referir-se ou responder de maneira desatenciosa a superior hierárquico;
  • 99. Censurar ato de superior hierárquico ou procurar desconsiderá-lo seja entre militares, seja entre civis;
  • 101. Ofender a moral, os costumes ou as instituições nacionais ou do país estrangeiro em que se encontrar, por atos, gestos ou palavras;
  • 103. Autorizar, promover ou tomar parte em qualquer manifestação coletiva, seja de caráter reivindicatório ou político, seja de crítica ou de apoio a ato de superior hierárquico, com exceção das demonstrações íntimas de boa e sã camaradagem e com consentimento do homenageado;
  • 105. Autorizar, promover, assinar representações, documentos coletivos ou publicações de qualquer tipo, com finalidade política, de reivindicação coletiva ou de crítica a autoridades constituídas ou às suas atividades.
Finalmente, o parágrafo 1º do Art. 37 especifica que a aplicação da punição disciplinar deve obedecer aos seguintes parâmetros:
  • a) para a transgressão leve, de advertência até dez dias de impedimento disciplinar, inclusive;
  • b) para a transgressão média, de repreensão até a detenção disciplinar; e
  • c) para a transgressão grave, de prisão disciplinar até o licenciamento ou exclusão a bem da disciplina.
Divulgarem um manifesto colocando em xeque a autoridade e legitimidade de uma decisão do ministro da Defesa, na verdade, foi uma transgressão grave. A advertência está lhes saindo bem  barata.
 
Quanto aos promotores do Ministério Público Federal incumbidos dos crimes virtuais, há muito tempo deveriam ter verificado com atenção o que é colocado no ar por sites de remanescentes ou devotos da ditadura militar, como o pivô da investida contra o ministro Celso Amorim: A Verdade Sufocada, do Brilhante Ustra.

Parecem-me perfeitamente tipificados delitos como difamação, calúnia e injúria. Há incitações contra autoridades constituídas, pregações golpistas e outros excessos.

E se deturpa premeditadamente a História, agredindo as vítimas do arbítrio e a memória dos resistentes assassinados, o que nos leva a refletir se não caberia por aqui algo como os procedimentos criminais instaurados no mundo civilizado contra quem nega a existência do Holocausto (historiadores inclusos).

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

OS TOTALITÁRIOS CONTRA-ATACAM

Teremos entrado num túnel do tempo? A
retórica é a mesmíssima dos tempos de Médici
Primeiramente, os presidentes dos Clubes das três Armas lançaram um pomposo Manifesto Interclubes, exigindo que a presidente Dilma Rousseff, comandante em chefe das Forças Armadas (à qual o trio deve obediência), desautorizasse duas de suas ministras. Vide aqui.

Em seguida, convencidos pelos ministros militares a respeitarem a hierarquia, os insubmissos recuaram: colocaram uma retratação no ar e, pouco depois, deletaram tudo, dando por encerrado o assunto. Vide aqui.

Agora, no site do torturador-símbolo do Brasil Carlos Alberto Brilhante Ustra (o único com  registro em carteira, já que foi declarado torturador pela 23ª Vara Cível de São Paulo...), os totalitários contra-atacam com um  alerta à Nação: "Eles que venham. Por aqui não passarão!". Vide aqui.

É a História se repetindo como farsa: soa muito mal, na boca dos herdeiros políticos do  generalíssimo  Francisco Franco, a célebre expressão com que Dolores Ibarrurí, a Pasionária, exortava o povo espanhol a resistir aos fascistas na década de 1930.

"Este é um alerta à Nação brasileira, assinado por homens cuja existência foi marcada por servir à Pátria", começa o papelucho de 2012, para logo enveredar por delírios megalomaníacos:
"São homens que representam o Exército das gerações passadas e são os responsáveis pelos fundamentos em que se alicerça o Exército do presente".
Traduzindo: eles são (*) os representantes daquele Exército que conspiradores contumazes, acumpliciados com uma potência estrangeira, conseguiram arrastar em 1964 para uma aventura golpista, cuja consequência foi a imposição de uma ditadura bestial e de um bestial terrorismo de estado aos brasileiros.

UNIFORMES HERÓICOS x FARDAS EMPORCALHADAS

Brilhante Ustra parece aguardar
os aplausos por sua nova obra...
A afirmação de que o Exército do presente se fundamenta no golpismo e no totalitarismo deveria ser repudiada firmemente pelos militares atuais --os que vieram depois das trevas e não possuem esqueletos no armário.

Eles têm é de orgulhar-se de vestirem o uniforme de Carlos Figueiredo e Roberto dos Santos, os heróis da Estação Antártica Comandante Ferraz; não o de Brilhante Ustra, aquele que “emporcalhou com o sangue de suas vítimas a farda que devera honrar”, segundo a frase imortal do ex-ministro da Justiça José Carlos Dias.

Na prática, trata-se de um manifesto subscrito por 13 generais, 6 tenentes coroneís, 73 coronéis, 2 capitães de mar e guerra, 1 capitão de fragata, 1 major e 1 tenente.

É muita pretensão uma centena de oficiais em pijamas se declararem depositários dos valores nos quais se alicerça o Exército. E bizarro a lista incluir três representantes... da Marinha!

Mas, como a lógica anda meio distante dos antros das viúvas da ditadura, eles também se proclamam porta-vozes do Clube Militar:
"Em uníssono, reafirmamos a validade do conteúdo do Manifesto publicado no site do Clube Militar, a partir do dia 16 de fevereiro próximo passado, e dele retirado, segundo o publicado em jornais de circulação nacional, por ordem do Ministro da Defesa, a quem não reconhecemos qualquer tipo de autoridade ou legitimidade para fazê-lo... O Clube Militar não se intimida e continuará atento e vigilante".
Como a relação de signatários não inclui o presidente do Clube Militar, Renato Cesar Tibau da Costa, devemos supor que ele haja sido destituído? Ou os 97 estão falando em nome do Clube sem nenhuma delegação formal para o fazer? E desde quando três marujos são porta-vozes do clube do Exército?

O principal, claro, é a quebra da hierarquia, à qual, mesmo na reserva, eles continuam submetidos, segundo seu regimento disciplinar. Cometem, portanto, a mais crassa indisciplina ao confrontarem seus superiores supremos: o ministro da Defesa e a presidente da República. São estes os "fundamentos em que se alicerça o Exército do presente"?!

O objetivo último das escaramuças,
todos sabemos qual é...
Além de contestarem os dirigentes e as políticas do Executivo, eles também insurgem-se contra as decisões do Congresso Nacional, ao qualificarem a instituição da Comissão da Verdade de "ato inconseqüente de revanchismo explícito e de afronta à lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo".

Se 1985 significou alguma coisa, foi que não existe mais tutela fardada sobre os Poderes da República. É totalmente inaceitável a pretensão desses nostálgicos do arbítrio, de quererem impedir com ultimatos velados o resgate da verdade histórica --objetivo real da Comissão, destituída de autoridade para remeter os assassinos, torturadores, estupradores e ocultadores de cadáveres aos tribunais, como vem ocorrendo em países com tolerância menor ao despotismo e à barbárie.

Cabe agora ao Ministério da Defesa tomar as atitudes cabíveis para fazer a hierarquia das Forças Armadas voltar a ser respeitada.

Trata-se, evidentemente, de uma provocação. Mas, reagindo estritamente à transgressão disciplinar, Celso Amorim ganhará a parada.

Oficiais militares são extremamente avessos às quebras de hierarquia, pois temem vir a ser eles próprios desacatados pelos subalternos. Não apoiarão a bravata inconsequente desses gatos pingados, ainda mais por eles estarem agindo em causa própria e não em defesa da corporação: inquietam-se, sobretudo, com o que possa vir à tona a seu próprio respeito.

No fundo, estão em pânico face ao enorme risco de passarem à História com imagem tão hedionda quanto a de Brilhante Ustra, o signatário nº 15 do manifesto tosco e, não por acaso, o primeiro dentre os 73 coronéis. Só a patente inferior impediu que ele encabeçasse a lista de apoio a um documento que inspirou, provavelmente redigiu e trombeteou no seu site.

* deveriam ter escrito "somos", mas desconhecem a gramática tanto quanto ignoram a Constituição Brasileira e a Declaração Universal dos Direitos do Homem...

sábado, 25 de fevereiro de 2012

FIQUEI MUITO FELIZ AO VER OS FARDADOS SUBMETIDOS À AUTORIDADE PRESIDENCIAL

Num dos espaços virtuais em que se discutiu meu artigo Dilma paga pra ver e faz Clubes Militares engolirem blefe, um comentarista assim resumiu o episódio da provocação ultradireitista e a firme resposta da presidente Dilma Rousseff: "os militares disseram o que queriam, mesmo proibidos para tanto, e a presidente só lhes passou um pito. Muito bonitinho, entre mortos e feridos salvaram-se todos". 

Como não foi atitude isolada --muita gente na esquerda deixou de reconhecer a importância de não termos desta vez engolido o sapo, mas sim o enfiado na goela dos inimigos--, resolvi compartilhar com vocês o desabafo que postei no CMI:

Assim como a Roselyne do filme, nossa Dilma domou os leões...
Não se deve desmerecer nem minimizar o fato de a Dilma haver tido a coragem política de colocar os militares provocadores no seu devido lugar.

Foi exatamente o que o Lula deixou de fazer em 2007, quando o Alto Comando do Exército lançou uma nota oficial que presidente nenhum poderia aceitar. Quem quiser recordar o episódio, pode acessar aqui.

A única atitude aceitável, naquela circunstância, era a exoneração imediata dos signatários.

Para não ficarmos em exemplos da esquerda, até o ditador Geisel agiu assim quando desobedecido pelo comandante do II Exército e, adiante, quando desafiado pelo ministro do Exército. Nos dois episódios cortou o mal pela raiz e, com isto, garantiu o prosseguimento do seu projeto de abertura política.

...cujos rugidos, desta vez, viraram miados.
O Governo Lula medrou e, ao negar apoio à proposta de revogação da anistia de 1979 (defendida pelo Tarso Genro e pelo Paulo Vannuchi), selou o destino da luta pela punição dos torturadores: ela verdadeiramente acabou naquele início de setembro, há quatro anos e meio. Tudo que veio depois foram iniciativas antecipadamente condenadas ao fracasso.

Então, depois de tantos recuos, finalmente temos uma presidente sem medo de  bicho papão. Ela pagou pra ver e todos nós pudemos constatar que era blefe.

Em 2007 eu também achava que era blefe. Nada indicava que o Alto Comando tivesse o aval da tropa para alguma aventura institucional; e as mãos que movimentam os cordéis dos golpes no Brasil (o grande capital e os EUA) nem de longe estavam insatisfeitas com o Lula, pois seus interesses vinham sendo escrupulosamente contemplados. Para que mudar?

No entanto, daquela vez o Lula não pagou pra ver, e deu no que deu. Estamos até hoje morrendo de inveja dos vizinhos que ousaram botar os  gorilas  na jaula.

Pouco importando que a Dilma não seja do meu partido, desta vez eu fiquei muito feliz ao ver os fardados submetidos à autoridade presidencial.

Isto deveria ser comemorado por toda a esquerda, sem sectarismo.

Como, sem sectarismo, toda a esquerda deveria ter comemorado, p. ex., a vitória no Caso Battisti e a instituição do Dia dos Mortos e Desaparecidos Políticos em SP.

Já que conquistamos poucas vitórias, deveríamos pelo menos valorizar as que obtemos.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

DILMA PAGA PRA VER E FAZ CLUBES MILITARES ENGOLIREM BLEFE

O episódio da notícia plantada pelas  viúvas da ditadura  n'O Estado de S. Paulo para pressionar a presidente Dilma Rousseff (ver aqui) terminou com o  incrível exército de Brancaleone  batendo em retirada sob vara, conforme o próprio jornalão relata:
"Os presidentes dos Clubes Militares foram obrigados ontem a publicar uma nota desautorizando o texto do 'manifesto interclubes' [ver íntegra aqui] que criticava a presidente Dilma Rousseff por não censurar duas de suas ministras que defenderam a revogação da Lei da Anistia.

Dilma não gostou do teor da nota por não aceitar, segundo assessores do Planalto, qualquer tipo de desaprovação às atitudes da comandante suprema das Forças Armadas.

A presidente convocou o ministro Celso Amorim (Defesa) para pedir explicações. Ele se reuniu com os comandantes das três Forças, que negociaram com os presidentes dos clubes da Marinha, Exército e Aeronáutica a 'desautorização' da publicação do documento, divulgado no site do Clube Militar no dia 16, como revelou o Estado na terça-feira.

No dia seguinte, houve a reunião de Amorim com os comandantes das três Forças e uma conversa com a presidente. Paralelamente a essa movimentação, os comandantes telefonaram aos presidentes dos três clubes a fim de que a nota crítica a Dilma fosse suprimida.
Ontem, o 'comunicado interclubes' foi retirado do site no início da tarde. Por volta das 16 horas, foi divulgado um outro texto, em que os presidentes desautorizavam o comunicado anterior. Esse desmentido, porém, não chegou a ficar meia hora no ar. O Clube do Exército, para tentar encerrar a polêmica, retirou a nota e o desmentido..."
Uma avaliação interessante do episódio é a da colunista Eliane Cantanhêde, na Folha de S. Paulo:
"A nomeação de Menicucci [para a Secretaria de Políticas para as Mulheres] sinaliza claramente que a primeira presidente mulher da história brasileira, torturada pela ditadura militar, tem um encontro marcado, em algum momento à frente, entre restrições políticas e convicções, entre palavras e atos. É quando fará sua foto oficial para a história.

Não é fácil. O caminho é tortuoso, cheio de obstáculos e armadilhas. Uma delas foi a nota impertinente dos clubes militares, na qual oficiais de pijama se deram ao direito de criticar a presidente e comandante em chefe das Forças Armadas e exigir que ela desautorizasse duas ministras -Menicucci e Maria do Rosário (Direitos Humanos)- por defenderem a verdade sobre ditaduras.

Tal como a presença de Menicucci 'diz' o que Dilma não pode dizer, militares da reserva muitas vezes verbalizam o que os da ativa pensam, mas não podem falar. Tal como Menicucci mede as palavras para não expor a amiga presidente, os da reserva tiveram de recuar por conveniência dos da ativa. E a luta continua".
Eu só faria uma ressalva:  alguns  militares da reserva temerosos do que a Comissão da Verdade possa vir a apurar verbalizam o que alguns colegas na ativa com esqueletos no armário pensam, mas não podem falar. A grande maioria do oficialato quer mais é saber de sua carreira, pragmaticamente.

Então, a Dilma agiu muito bem ao pagar para ver, expondo o blefe de uma minoria extremista e fazendo seus autores o engolirem a seco.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

ASSIM GRASNARAM OS CORVOS

A grande imprensa não deu, mas eu dou, graças a uma dica do bom companheiro Caio Toledo: eis os grasnidos com que as aves de mau agouro tentaram pressionar a presidente Dilma Rousseff, conforme reproduzidos  no site Políticas de Memória.  

MANIFESTO
INTERCLUBES
MILITARES

COMPROMISSOS…
“Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte, não haverá discriminação, privilégios ou compadrio. A partir da minha posse, serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política.”

No dia 31 de outubro de 2010, após ter confirmada a vitória na disputa presidencial, a Sra Dilma Roussef proferiu um discurso, do qual destacamos o parágrafo acima transcrito. Era uma proposta de conduzir os destinos da nação como uma verdadeira estadista.

Logo no início do seu mandato, os Clubes Militares transcreveram a mensagem que a então candidata enviara aos militares da ativa e da reserva, pensionistas das Forças Armadas e aos associados dos Clubes. Na mensagem a candidata assumia vários compromissos. Ao transcrevê-la, os Clubes lhe davam um voto de confiança, na expectativa de que os cumprisse.

Ao completar o primeiro ano do mandato, paulatinamente vê-se a Presidente afastando-se das premissas por ela mesma estipuladas. Parece que a preocupação em governar para uma parcela da população sobrepuja-se ao desejo de atender aos interesses de todos os brasileiros.

Especificamente na semana próxima passada, e por três dias consecutivos, pode-se exemplificar a assertiva acima citada.

Na quarta-feira, 8 de fevereiro, a Ministra da Secretaria de Direitos Humanos concedeu uma entrevista à repórter Júnia Gama, publicada no dia imediato no jornal Correio Braziliense, na qual mais uma vez asseverava a possibilidade de as partes que se considerassem ofendidas por fatos ocorridos nos governos militares pudessem ingressar com ações na justiça, buscando a responsabilização criminal de agentes repressores, à semelhança ao que ocorre em países vizinhos. Mais uma vez esta autoridade da República sobrepunha sua opinião à recente decisão do STF, instado a opinar sobre a validade da Lei da Anistia. E, a Presidente não veio a público para contradizer a subordinada.

Dois dias depois tomou posse como Ministra da Secretaria de Política para as Mulheres a Sra Eleonora Menicucci. Em seu discurso a Ministra, em presença da Presidente, teceu críticas exarcebadas aos governos militares e, se auto-elogiando, ressaltou o fato de ter lutado pela democracia (sic), ao mesmo tempo em que homenageava os companheiros que tombaram na refrega. A platéia aplaudiu a fala, incluindo a Sra Presidente. Ora, todos sabemos que o grupo ao qual pertenceu a Sra Eleonora conduziu suas ações no sentido de implantar, pela força, uma ditadura, nunca tendo pretendido a democracia.

Para finalizar a semana, o Partido dos Trabalhadores, ao qual a Presidente pertence, celebrou os seus 32 anos de criação. Na ocasião foram divulgadas as Resoluções Políticas tomadas pelo Partido. Foi dado realce ao item que diz que o PT estará empenhado junto com a sociedade no resgate de nossa memória da luta pela democracia (sic) durante o período da ditadura militar. Pode-se afirmar que a assertiva é uma falácia, posto que quando de sua criação o governo já promovera a abertura política, incluindo a possibilidade de fundação de outros partidos políticos, encerrando o bi-partidarismo.

Os Clubes Militares expressam a preocupação com as manifestações de auxiliares da Presidente sem que ela, como a mandatária maior da nação, venha a público expressar desacordo com a posição assumida por eles e pelo partido ao qual é filiada e aguardam com expectativa positiva a postura de Presidente de todos os brasileiros e não de minorias sectárias ou de partidos políticos.

Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 2012

(assinam os presidentes do Clube Naval, do Clube Militar e do Clube de Aeronáutica)
Related Posts with Thumbnails