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domingo, 2 de novembro de 2025

DIREITA, VOLVER! ANISTIA A BOLSONARO SAI DA PAUTA, SUBSTITUÍDA PELA DEFESA DO MATADOR SERIAL CLÁUDIO CASTRO.

As polícias do Rio esqueceram na mata mais de 60 corpos. Recolhidos pelos
moradores de madrugada, amanheceram enfileirados numa praça da Penha.
"Após as 121 mortes na operação policial do Rio, acusada de chacina pela esquerda, aplaudida pela direita e (segundo as pesquisas) apoiada pela sociedade, a oposição se realinhou e ganhou novo ânimo e a bandeira da insegurança para superar a dependência de Jair Bolsonaro e enfrentar o favoritismo de Lula para 2026...

...tudo caminhava para um fim de ano festivo para Lula, mas 2025 pode terminar  com a derrota acachapante da PEC da Segurança no Congresso e entrar o ano eleitoral enfrentando a CPI das organizações criminosas, comandada pela oposição e focada em martelar que a esquerda defende bandido, é contra a polícia e conivente com o tráfico."(por Eliane Cantanhede, no Estadão)

Trata-se de um copo meio cheio e meio vazio.
Mortes nas operações policiais devastadoras
de Cláudio Castro aproximam-se do milhar

De um lado. o esvaziamento político do pior presidente brasileiro de todos os tempos, responsável último pela morte de algo entre 350 mil e 400 mil cidadãos que teriam sobrevivido à pandemia de covid se não fosse sua sabotagem tresloucada da vacinação, é uma evolução  positiva dos acontecimentos.

Do outro, o copo meio vazio é que a direita se volta agora para a selvageria bestial do bandido bom é bandido morto

Com ínfimo repertório, troca o bolsonarismo que louvava o extermínio de presos políticos por parte do DOi-Codi pelo malufismo que endossava as execuções extrajudiciais de marginais por parte da Rota).

O retrocesso civilizatório parece ser o nosso melancólico destino.

E fica comprovado que Glauber Rocha, no seu primoroso Terra em Transe. estava certo ao indagar se a culpa pela rendição sem luta de 1964 era ou não do povo.  Sim, a culpa maior por aquela quartelada foi da classe dominante (como sempre!), mas a falta de reação dos dominados não pode ser relevada.

Vale lembrar que, em 1936 na Espanha,  o golpe de estado de conservadores, monarquistas e fascistas, apesar de sua enorme superioridade de forças em termos militares, foi rechaçado pelo povo, que se levantou espontaneamente, quando a esquerda ainda vacilava indecisa. 

O que era para ser um passeio das Forças Armadas, bem treinadas nas refregas para manutenção das conquistas coloniais na África, acabou sendo uma guerra civil sangrenta de dois anos e nove meses, decidida pelo forte apoio que a Alemanha nazista e a Itália fascista davam aos ultradireitistas, enquanto a Inglaterra e a França se omitiam de forma vergonhosa

Diferença gritante com o golpe de 1964 no Brasil, com o governo de João Goulart esfarelando a partir de uma marcha de recrutas sob o comando de Olímpio Mourão Filho, de Juiz de Fora para o Rio de Janeira pela via Dutra. Bastariam alguns caças da FAB disparando sobre as cabeças daqueles soldadinhos  de chumbo para eles estarem correndo até hoje. 

E, com alguma resistência popular, o desfecho poderia ter sido outro, mas a usurpação de poder foi facilitada pela tradicional pusilanimidade da brava gente brasileira... (por Celso Lungaretti) 

domingo, 3 de julho de 2022

SAIU O ASSEDIADOR: OS VIRULENTOS DO 1º ESCALÃO FORAM PARA O INFERNO!

eliane cantanhêde
QUEDA DE PEDRO GUIMARÃES DA CAIXA ENCERRA NÚCLEO IDEOLÓGICO NO
 PRIMEIRO ESCALÃO
Ao se esborrachar na Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães foi praticamente a última cara dos ideológicos no primeiro escalão. 

Jair Bolsonaro elegeu-se com o tripé militar/policial, evangélico e ideológico, mas logo no primeiro ano de governo o núcleo conservador levou um safanão e quem passou a dar as ordens foi o centrão

A nova política foi escanteada no Congresso e vem sendo empurrada para o terceiro e quarto escalões. Já à deriva, os ideológicos afundaram de vez com a morte de Olavo de Carvalho. 

Sem chances, o diplomata Ernesto Araújo, defenestrado do Itamaraty, tenta assumir o papel de Carvalho com sua lenga-lenga apocalíptica sobre o fim do Ocidente, contra a China e a favor de Donald Trump. 

Araújo e Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação sem poder ser, esperneiam, mas ninguém dá bola.

Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente sem jamais ter pisado antes na Amazônia, anda mais ocupado em se livrar de inquéritos sobre desvios em São Paulo e relações com madeireiras criminosas. 

E Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, é candidata a alguma coisa no DF.

Também pastor e da cota dos ideológicos como Damares, Milton Ribeiro já foi preso e jogou o presidente na fogueira duas vezes: ao dizer que foi ele quem meteu no MEC os dois pastores mergulhados até o último fio de cabelo em negociatas e lhe passou informações privilegiadas sobre busca e apreensão.

Até os filhos Eduardo e Carlos Bolsonaro, do núcleo mais ideológico, andam mais discretos. 

Assim, quem manda no governo e faz qualquer coisa pela reeleição são o filho 01, senador Flávio Bolsonaro; o centrão de Ciro Nogueira e Arthur Lira; e o núcleo militar do futuro vice na chapa, general Walter Braga Netto. Enquanto eles trabalham, Bolsonaro atrapalha.

Mas, se os ideológicos sumiram no palco, continuam firmes e fortes em áreas como a Cultura, que concedeu a Medalha do Mérito do Livro para Daniel Silveira, incapaz de ler um livro, quanto mais de escrever um, mas agora ao lado de Carlos Drummond de Andrade.

Enquanto os ideológicos fazem dessas, o centrão dá um golpe de mestre: a PEC da Reeleição, que cria o estado de emergência, faz picadinho da lei eleitoral e do teto de gastos e dá mais R$ 41 bilhões do dinheiro público para Bolsonaro recuperar as chances de vencer.

Com 33 milhões passando fome, essa é a maior urgência do Brasil. Mas só viram agora, como perguntou o senador José Serra, único com coragem para fugir da armadilha? 

Assim como o Senado, a Câmara vai aprovar em peso, e em tempo recorde, a tábua de salvação, não dos miseráveis, mas de Jair Bolsonaro. (por Eliane Cantanhêde)
Às vezes eu disponibilizo um filme apenas para justificar o gracejo no
título do post, mas não é o caso deste western italiano da boa safra
de 1968, a respeito do qual vocês podem ler mais aqui

segunda-feira, 30 de março de 2020

INTERDIÇÃO JÁ! O CAPITÃO INSANO NÃO PODE DESAFIAR O PAÍS

Em claro desafio ao seu ministro da Saúde, que na véspera defendeu o confinamento, às recomendações da OMS, às leis e à saúde pública, o capitão Jair Bolsonaro saiu às escondidas do Palácio da Alvorada e passeou pelas ruas de Brasília neste domingo (29).

Foi abraçar e tirar fotos com devotos da sua seita, visitar comércios e um hospital, fazer propaganda de um remédio milagroso para a Covid-19 e publicar tudo no seu Twitter, o meio que ele encontrou para desgovernar o país. 

Não pode passar de 2ª feira: o Congresso e o Supremo Tribunal Federal precisam tomar providências urgentes para interditar o presidente da República, antes que ele leve o país a uma catástrofe sanitária sem precedentes na nossa história republicana. 

Se Bolsonaro não for contido a tempo, fica decretado o liberou geral para todos voltarem às ruas e o comércio reabrir as portas, acabando com o isolamento social que foi adotado em todo o mundo civilizado para segurar o avanço da pandemia. 

O gesto irresponsável do presidente já foi imitado hoje por milhares de pessoas que voltaram a passear pelas ruas de São Paulo, mesmo com os parques e cinemas fechados por ordem do governo paulista. 

O espírito de manada parece ter sido inspirado pela monumental carreata de motocicletas e carrões que percorreu a cidade no sábado, fechou ruas e viadutos, desfilando com um caminhão fake do Exército e que foi acompanhada por carros de polícia, em flagrante exemplo de desobediência civil.
"Agora, em Taguatinga DF", "Agora, Ceilândia DF" foi tuitando o capitão, para avisar por onde estava passando, como quem diz "venham para a rua me ver, esse ministro da Saúde não manda nada". 

Não disse, mas deve ter pensado, enquanto ouvia um vendedor de churrasquinho se queixar da perda de freguesia. 

No meio do passeio, resolveu dar uma parada de 20 minutos no Hospital das Forças Armadas, mas seus assessores não informaram o motivo. Como tudo agora é mistério em torno do presidente, tanto ele pode ter feito um novo exame ou apenas visitado um amigo. 

Nunca saberemos, como também não vimos até hoje o resultado dos exames anteriores que, segundo o presidente, deram negativo para o coronavírus. 

De roupa esporte e sem máscara de proteção, com os seguranças sempre grudados nele, foi cumprimentando e abraçando quem encontrava pela frente, sem se preocupar que poderia contaminar ou ser contaminado pelos transeuntes, como se fosse prefeito de uma cidadezinha do interior, sem ter o que fazer na manhã de domingo. 

Na tensa reunião de sábado com Mandetta e outros ministros, Bolsonaro insistiu no discurso de que o Brasil não pode parar, campanha já abortada pela Justiça. 

Indagado pelo ministro da Saúde se estava preparado para ver caminhões do Exército carregando os mortos, como aconteceu na Itália, ele não se abalou nas suas certezas.  

Seguiu-se um ríspido diálogo em que Mandetta disse ao presidente que seria obrigado a criticá-lo, se ele fosse mesmo entrar num metrô em São Paulo ou numa barca no Rio, como chegou a ameaçar.

"Nesse caso, eu seria obrigado a te demitir", teria respondido o presidente, segundo fontes disseram a Eliane Cantanhede, que relatou o diálogo em sua coluna do Estadão

É assim que a cúpula do desgoverno enfrenta a mais grave crise humanitária deste século. 

Na mesma reunião, foi discutida a reabertura das escolas, como quer o presidente, mas o ministro da Educação não estava presente. Abraham Weintraub sumiu do mapa desde que eclodiu a pandemia, mas continua ativo nas redes sociais. 

Às 23 horas de sexta-feira, o ministro mostrou como está preocupado com a educação brasileira, ao publicar esta inacreditável mensagem no Twitter: 
"Fiz uma coisa feia: assisti o JN/Globo. Fiquei com medo! Independente da gravidade da doença, o coronavírus será o pretexto para que destruam nossas liberdades. Nunca mais sua empresa, sua profissão, sua casa, sua família serão suas, como antes"
Neste clima de fim de feira, o Brasil vai entrar nos próximos dias na fase mais aguda da contaminação por coronavírus, com um ministro da Saúde desmoralizado e um presidente aloprado que dá uma banana para a ciência e para os fatos. 

Interdição já!

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)
.
TOQUE DO EDITOR – Desta vez Ricardo Kotscho, um dos últimos gigantes do nosso jornalismo, acertou em cheio. 

O monumental problema que Jair Bolsonaro representa para o Brasil num momento em que precisa desesperadamente da união de sua gente para enfrentar a crise do coronavírus com o mínimo de mortes possível (não se iludam: mesmo que façamos tudo certo de agora em diante, já erramos tanto que a conta entrará na casa das centenas de milhares de óbitos) requer solução imediata. 

Só a interdição do presidente miliciano por desequilíbrio mental pode ser operacionalizada com a rapidez que a situação exige.

por Celso Lungaretti
E o momento é dos mais oportunos: neste domingo, sua insanidade evidenciou-se de forma gritante e aberrante. 

Então, pelo que a minha posição valer, ela está totalmente alinhada com a do Ricardo Kotscho: interdição já!  

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

DILMA PAGA PRA VER E FAZ CLUBES MILITARES ENGOLIREM BLEFE

O episódio da notícia plantada pelas  viúvas da ditadura  n'O Estado de S. Paulo para pressionar a presidente Dilma Rousseff (ver aqui) terminou com o  incrível exército de Brancaleone  batendo em retirada sob vara, conforme o próprio jornalão relata:
"Os presidentes dos Clubes Militares foram obrigados ontem a publicar uma nota desautorizando o texto do 'manifesto interclubes' [ver íntegra aqui] que criticava a presidente Dilma Rousseff por não censurar duas de suas ministras que defenderam a revogação da Lei da Anistia.

Dilma não gostou do teor da nota por não aceitar, segundo assessores do Planalto, qualquer tipo de desaprovação às atitudes da comandante suprema das Forças Armadas.

A presidente convocou o ministro Celso Amorim (Defesa) para pedir explicações. Ele se reuniu com os comandantes das três Forças, que negociaram com os presidentes dos clubes da Marinha, Exército e Aeronáutica a 'desautorização' da publicação do documento, divulgado no site do Clube Militar no dia 16, como revelou o Estado na terça-feira.

No dia seguinte, houve a reunião de Amorim com os comandantes das três Forças e uma conversa com a presidente. Paralelamente a essa movimentação, os comandantes telefonaram aos presidentes dos três clubes a fim de que a nota crítica a Dilma fosse suprimida.
Ontem, o 'comunicado interclubes' foi retirado do site no início da tarde. Por volta das 16 horas, foi divulgado um outro texto, em que os presidentes desautorizavam o comunicado anterior. Esse desmentido, porém, não chegou a ficar meia hora no ar. O Clube do Exército, para tentar encerrar a polêmica, retirou a nota e o desmentido..."
Uma avaliação interessante do episódio é a da colunista Eliane Cantanhêde, na Folha de S. Paulo:
"A nomeação de Menicucci [para a Secretaria de Políticas para as Mulheres] sinaliza claramente que a primeira presidente mulher da história brasileira, torturada pela ditadura militar, tem um encontro marcado, em algum momento à frente, entre restrições políticas e convicções, entre palavras e atos. É quando fará sua foto oficial para a história.

Não é fácil. O caminho é tortuoso, cheio de obstáculos e armadilhas. Uma delas foi a nota impertinente dos clubes militares, na qual oficiais de pijama se deram ao direito de criticar a presidente e comandante em chefe das Forças Armadas e exigir que ela desautorizasse duas ministras -Menicucci e Maria do Rosário (Direitos Humanos)- por defenderem a verdade sobre ditaduras.

Tal como a presença de Menicucci 'diz' o que Dilma não pode dizer, militares da reserva muitas vezes verbalizam o que os da ativa pensam, mas não podem falar. Tal como Menicucci mede as palavras para não expor a amiga presidente, os da reserva tiveram de recuar por conveniência dos da ativa. E a luta continua".
Eu só faria uma ressalva:  alguns  militares da reserva temerosos do que a Comissão da Verdade possa vir a apurar verbalizam o que alguns colegas na ativa com esqueletos no armário pensam, mas não podem falar. A grande maioria do oficialato quer mais é saber de sua carreira, pragmaticamente.

Então, a Dilma agiu muito bem ao pagar para ver, expondo o blefe de uma minoria extremista e fazendo seus autores o engolirem a seco.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

CARLOS LUNGARZO: O MEDO DOS LINCHADORES

Carlos A. Lungarzo, membro da Anistia Internacional dos EUA, escreveu o artigo abaixo, complementar ao meu Nova vítima do Caso Battisti: Eliane Cantanhêde morre para o jornalismo, sobre a coluna de domingo (08/11) da analista política da Folha de S. Paulo, O Julgamento.

O MEDO DOS LINCHADORES

Carlos A. Lungarzo (*)

Li com atraso um brilhante artigo do solidário e incansável Celso Lungaretti. Nele, critica uma jornalista que, depois de gratificar-se pensando que STF linchará Battisti, pensa, com receio, “mas a votação está apertada”.

O comentário do Celso é quase perfeito, mas faltou dar mais realce ao ponto final, em que a autora se pergunta sobre os votos de Toffoli e Ayres Britto.

Ela teme que Toffoli se declare apto para votar e que Ayres Britto reveja seu voto. Finalmente, se consola dizendo que isso é quase impossível, porque Toffoli deveria sentir-se impedido, por ter sido chefe da Advocacia Geral da União. Por sua vez, Britto não poderia rever seu voto, porque é um homem sério e respeitado, e mudar de voto seria um "vexame".

No caso de Toffoli, lembremos: Marco Aurélio de Mello (e desafio a alguém a mencionar outro juiz mais esclarecido e racional que ele em toda América Latina) disse que é Toffoli quem deve declarar se deseja ou não votar. Apenas ele pode dizer se está ou não impedido. Gilmar Mendes, que começou tentando “enquadrar” Toffoli, nos últimos dias ficou calado, e um portavoz do STF disse que o novo juiz poderia decidir se está ou não impedido.

Alguém que foi advogado não pode (depois) ser juiz? Se Toffoli votar, sua função na AGU será passado e não presente. Qual é a contradição?

Aliás, seria uma verdadeira contradição, se Toffoli, que estava contra a extradição sendo advogado, agora permitisse, por omissão, que Battisti fosse extraditado. Há poucos meses considerava que o dever dos juízes era proteger Battisti, e agora, se omitindo, favorece o linchamento? Não conheço Toffoli, mas pensar isso é injuriar a alguém que ainda não é conhecido pela opinião pública.

Em relação com Britto, eu pergunto: não é possível que uma pessoa faça uma honesta autocrítica? Como não sou jornalista nem advogado, só posso confiar no bom senso: eu já vi vários votos de Britto que sempre me surpreenderam pela coragem, a inteligência e a abertura de espírito.

Alguns não entendem que nem todo mundo é mercenário, que muitas pessoas se auto-respeitam, possuem coragem e senso de honra, como sobradamente tem demonstrado possuir o ministro Britto. Essas pessoas não temem reconhecer quando cometem um erro, não temem admitir que sua decisão foi precipitada, não se envergonham em dizer: “errei, porque todo humano pode errar!”.

Vexame seria insistir no erro, por medo da crítica da mídia marrom, e das ameaças dos “capangas”. Não sabemos se Britto acha ter-se precipitado, mas se ele achar que vai condenar uma pessoa a morte (e não a apenas 30 anos de prisão), sem ter absoluta convicção de que isso é certo, eu acredito que terá a grandeza de modificar o erro.

* Carlos Alberto Lungarzo é escritor, professor aposentado da Unicamp e membro da Anistia Internacional dos EUA, depois de haver passado pelas seções mexicana, argentina e brasileira da AI, na qual milita desde 1980.

domingo, 8 de novembro de 2009

NOVA VÍTIMA DO CASO BATTISTI: ELIANE CANTANHÊDE MORRE PARA O JORNALISMO

Com imenso pesar, comunico a morte jornalística de Eliane Cantanhêde, que, com sua coluna de 08/11 na Folha de S. Paulo (O Julgamento), somou-se à horda de linchadores midiáticos empenhados em fazer prevalecer a posição italiana no Caso Battisti.

Seu texto é uma mal disfarçada tentativa de influenciar um acontecimento, ao invés de apresentar aos leitores um quadro interpretativo tão isento quanto possível.

Se engana os incautos, um malabarismo desses evidencia-se de forma gritante para quem é do ramo. Constitui mero exercício de lobby. Não é jornalismo. Nunca será jornalismo.

Começa dizendo que "tudo indica que o Supremo acatará, nesta quinta, o pedido de extradição do ex-guerrilheiro Cesare Battisti para a Itália, onde foi condenado à prisão perpétua por quatro assassinatos".

Tudo indica por quê? Quais as informações que respaldam a informação? Se as tem, por que não as repartiu com os leitores? Se não as tem, por que trombeteia o que terá sido apenas um desejo de torcedora?

Se um Juca Kfouri afirma tudo indicar que o Corinthians do seu coração vá derrotar, digamos, o Real Madri, cairá no ridículo. Cabe-lhe fazer análises, não colocar seus textos a reboque de suas paixões. E é em igual ridículo que acaba de desabar Cantanhêde.

Depois, ela trata, preconceituosamente, Battisti como "ex-guerrilheiro", o que ele foi há mais de trinta anos, e não como o escritor ou o perseguido politico que ele é hoje. O viés negativo salta aos olhos.

Diz que ele foi condenado por quatro assassinatos, mas "esquece" de dizer que, depois dos promotores italianos acatarem as denúncias interesseiras do delator premiado Pietro Mutti como se fossem a tábua dos dez mandamentos, os defensores de Battisti lembraram o singelo detalhe de que ele não possuia o dom da ubiquidade, o que impossibilitava sua presença física em dois assassinatos quase simultâneos ocorridos em localidades cuja distância era intransponível no intervalo de tempo transcorrido.

Daí a farsesca acusação ter sido ridiculamente remendada, ao invés de jogada no lixo, como deveria ter sido: os promotores passaram a imputar a Battisti a autoria direta de três assassinatos e a autoria intelectual do quarto.

Só este procedimento caricato já seria suficiente para desqualificar todo o castelo de cartas que os promotores armaram unicamente a partir das declarações interesseiras de quem pretendia favores da justiça (redução/extinção de suas penas) ou do Estado (indenizações) italiano, sem testemunhas isentas, sem provas materiais, sem as perícias que se impunham e sem que o acusado tivesse sido sequer informado do processo e defendido por advogado de sua escolha.

Continua tendenciosa Cantanhêde no inacreditável parágrafo seguinte:
"Os defensores políticos de Battisti visaram a opinião pública, via imprensa e internet, tentando levar a questão para a seara humanitária e lapidar seu perfil atual como pacato escritor e pai de família. Já os advogados do governo italiano foram direto ao alvo: concentraram-se no STF e nos meandros jurídicos".
De que caso ela está falando, afinal? No Caso Battisti, é um descalabro reduzir seu leque de apoiadores à categoria de "defensores políticos", quando ele tem a seu lado tantos juristas inatacáveis como Dalmo de Abreu Dallari, tantos cidadãos com espírito de justiça como o cineasta Silvio Tendler, além da provável totalidade das associações e entidades dedicadas à defesa dos direitos humanos, inclusive as comissões respectivas da Câmara Federal e do Senado.

Alinhada com a retórica italiana, ela quer passar a impressão de que são apenas os antigos guerrilheiros que defendem Battisti! Maquiavelismo inábil se volta sempre contra os aprendizes de feiticeiro...

Também é crassa deturpação dizer que conquistamos maioria esmagadora na internet levando "a questão para a seara humanitária" e lapidando (a ironia evidencia claramente o partido que ela toma no caso) seu "perfil atual como pacato escritor e pai de família".

Ora, os advogados Luiz Eduardo Greenhalgh e Luiz Roberto Barroso, a escritora Fred Vargas e o respeitadíssimo membro brasileiro da Anistia Internacional dos Estados Unidos Carlos Lungarzo simplesmente pulverizaram a sentença italiana de 1987 e o pleito eivado de irregularidades que a Itália apresentou ao Brasil, contrapondo-lhes argumentação jurídica irrepreensível e, ouso afirmar, incontestável.

O fato é que a racionália extremamente mais débil do lado italiano é a única destacada pela grande imprensa, que sonega sistematicamente do seus leitores o outro lado, além de mandar às urtigas o direito de resposta (que eu mesmo tantas vezes reivindiquei em vão!).

E outro fato é que Cantanhêde, à qual eu mesmo tenho enviado sistematicamente documentação fundamentada sobre as aberrações jurídicas que envolvem este caso, prefere fazer coro à desinformação programada.

Por que não diz aos leitores da Folha que a escritora Fred Vargas e Carlos Lungarzo (da Anistia Internacional) dissecaram exaustivamente o relatório tendenciosíssimo do ministro Cesar Peluso, expondo um rosário de incorreções factuais e heresias jurídicas?

Simplesmente porque ela trocou o compromisso jornalístico com o resgate e disponibilização da verdade pela faina de encobri-la a serviço de certos interesses - por nenhuma coincidência os dominantes.

Novo parágrafo, nova falácia:
"A primeira derrota de Battisti foi a recusa do refúgio - até porque seria esdrúxulo, senão inédito, classificar como refugiado um estrangeiro que entrou clandestinamente no Brasil e foi preso anos depois sem jamais pedir socorro e acolhimento às autoridades do país. Ao contrário, fugindo delas".
O que levou Cantanhêde a concluir que o refúgio foi recusado? O STF, na primeira votação, apenas decidiu jogar no lixo a Lei brasileira e a jurisprudência que ele próprio firmou com todas as suas decisões anteriores, no sentido de que a concessão do refúgio por parte de quem estava habilitado a concedê-lo (o ministro da Justiça) vedava o prosseguimento do processo de extradição.

No entanto, se for feita justiça na 5ª feira, o refúgio concedido pelo Governo brasileiro, que o STF desta vez decidiu apreciar, será confirmado.

E estes não são meros detalhes semânticos. No caso de jornalistas, cada pequeno deslize costuma embutir uma intenção.

No mais, é patético ela afirmar que quem busca o refúgio são apenas os que chegaram abertamente ao Brasil! Também aqui não dá para acreditarmos que ela realmente ignore a este ponto as agruras dos perseguidos políticos...

E tal tese oportunística e tortuosa não teve absolutamente nada a ver com a decisão do Conselho Nacional para Refugiados.

Se Cantanhêde lesse atentamente o jornal no qual ela própria trabalha, saberia que a decisão do Conare se deveu, isto sim, à vontade do ministro Tarso Genro de decidir pessoalmente esse processo polêmico, daí ter recomendado ao secretário-geral do colegiado Luiz Paulo Barreto que, em caso de empate, desempatasse contra Battisti, para o caso passar à alçada dele, Tarso.

Finalmente, Cantanhêde comenta as tendências de voto dos ministros restantes, com indisfarçável empenho de intimidar José Carlos Toffoli (para que se abstenha de votar) e Ayres Britto (para não rever seu surpreendente voto anterior, já que não costuma colocar razões de Estado à frente do espírito de Justiça e dos valores humanitários).

Ela novamente se mostra torcedora, e não analista política: se o arquirreacionário Gilmar Mendes puder mandar Battisti "de volta para casa - e para a cadeia italiana", alvissarás!; se Toffoli ou Britto impedirem essa crassa injustiça e essa terrível ignomínia, comparável à entrega de Olga Benário aos nazistas, estarão incidindo num "vexame".

Lamento, Cantanhêde, mas seu time vai perder na quinta-feira. E sua reputação jornalística perdeu na véspera, de goleada. Ficou em frangalhos.
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