Mostrando postagens com marcador Ana Helena Tavares. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ana Helena Tavares. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de agosto de 2018

O APOLLO NATALI QUE EU CONHECI – 2

(continuação deste post)
Temer foi secretário da Segurança em 1992/93
Quando já marchava para a aposentadoria, lá pelos seus 55 anos, tomou a temerária decisão de demitir-se para dar assistência ao pai, em seu final de vida. Disse-me que o velho era pesado e suas duas irmãs não aguentariam carregá-lo para o banheiro, além de ser uma situação constrangedora para as duas partes.

[Apesar de nunca lhes ter sobrado dinheiro, poderiam contratar um enfermeiro, claro. O que o Apollo queria, sobretudo, era dar amor e consolo ao pai nos meses finais. Talvez tenha evitado reconhecer isto por temer que soasse piegas.] 

O FGTS foi suficiente para bancar o quase um ano que ele passou cumprindo, em tempo integral, o dever de bom filho.

Óbito consumado, já não havia emprego à sua espera na Agência Estado, nem em redação nenhuma. O máximo que conseguiu foram uns frilas encomendados pela assessoria de imprensa de um amigo e um tempinho trabalhando no serviço de imprensa da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, cujo titular era... o Michel Temer!

Não tinha prazer em falar desta última fase. Só me lembro de me haver contado com mais detalhes um único episódio. Certa vez, durante uma coletiva, um repórter aparentemente bêbado começou a interpelar o Temer de forma muito ofensiva. Quando a paciência do amigo da onça chegava ao fim e ele parecia prestes a recorrer aos seguranças, o Apollo interveio.
De jornalista a quebra-galho. E daí? Nada abatia o Apollo.
"Deixe, que eu resolvo a situação", disse baixinho ao Temer. E, com seu jeitão bondoso, convenceu o esquentadinho a ir com ele tomar um café lá fora

Era como sempre agia quando os ânimos esquentavam na redação: um apaziguador, que permanecia equidistante das partes e ia de uma à outra para apagar arestas e facilitar a reaproximação.

Depois de dois ou três anos tentando ainda sustentar-se como jornalista, curvou-se à evidência dos fatos. Já ouvira as desculpas dos muitos conhecidos e quem não o conhecia tendia a negar-lhe emprego por considerá-lo velho demais ou pela sua aparência humilde e roupas baratas. 

[Jornalistas da velha guarda esmerávamo-nos em conseguir furos e/ou redigir textos cada vez melhores, não dando muita bola para trajes nem para certificações formais, o que nos fazia malvistos pelos selecionadores profissionais. 

Lembro-me de um que me perguntou que prato eu escolheria num cardápio em inglês e, claro, acabou escolhendo um concorrente à mesma vaga. Tratava-se de um colega que eu conhecia de outros carnavais e, tão bem vestido quanto bem falante, travava quando incumbido de textos urgentes e importantes. Já o Apollo e eu os tirávamos de letra...]
A formatura, em fevereiro de 2008

A falta de reconhecimento dos seus méritos não derrubava o Apollo; tocou a vida, trabalhando até como pedreiro, mecânico e corretor de imóveis. Enquanto as irmãs (ambas professoras, uma delas diretora de escola) trabalhavam, vivam um pouco melhor. Quando elas se aposentaram, os três tiveram de apertar mais um pouco o cinto. Mas, seguiram adiante.

De quebra, Apollo realizou o antigo sonho de obter um diploma de jornalismo — que não lhe fora necessário para o exercício da profissão, pois nela já atuava quando o curso se tornou obrigatório para os ingressantes na carreira.

Mesmo sem esperança nenhuma de voltar à ativa, passou quatro anos nas Faculdades São Judas Tadeu e, septuagenário, se graduou brilhantemente.

Remoçou uns cinco anos nesta fase. Dava-lhe imenso prazer iniciar os meninos (seus colegas) nas práticas e segredos da profissão. E familiarizou-se com a internet, passando a usar e-mails para espalhar seus textos entre as dezenas de jornalistas que conhecia.

Foi colaborador de blogs da jornalista carioca Ana Helena Tavares, como o Quem tem medo da democracia?; depois, dos meus.

E andou bancando impressões baratas do seus textos, que entregava de graça para moradores de rua venderem. Uma pequena contribuição, mas a única que estava em condições de dar, para a subsistência dos excluídos.

Estaria bem melhor financeiramente não fosse a insensibilidade de burocracias kafkianas como a do INSS, que negou-lhe aposentadoria integral porque... ela própria perdeu (e admitiu ter perdido) as provas que o Apollo anexou ao processo no qual a pleiteava, relativas a quase uma década que trabalhou sem registro nas empresas do Grupo Estado! 
[Mesmo se o extravio tiver mesmo sido acidental, a aceitação desta tese abriria um precedente juridicamente aberrante, pois os reclamados poderiam dar sumiço em tudo que lhes causasse problemas...]

Indignava-se, mas não perdia o sono, quando recebia más notícias sobre seu pleito; no dia seguinte, irradiava a costumeira alegria de viver. 

Não podia comprar roupas? Aceitava de bom grado as que um sobrinho dispensava por estar crescendo rapidamente. Sua lata velha lhe acarretaria multas se trafegasse pela cidade? Passou a usá-la só no próprio bairro, até que nem para isto servia mais. Não tinha grana para comprar outro carro? O cartão de idoso lhe bastava...

Só superestimou sua resistência a doenças, até porque parecia imune a elas. Então, jamais se preocupou em ter um convênio de saúde, nem deixou os amigos e conhecidos saberem que não possuía nenhum. Octogenário, sem fazer exames periódicos, foi surpreendido por um câncer de medula que se alastrou rapidamente e o matou em três meses. 

O que mais ouvi dos presentes ao velório e ao enterro foi que só então perceberam, em toda sua extensão, a falta que o Apollo faria em suas vidas. Talvez porque, eles como eu, tínhamos a impressão de que estaria sempre ao lado, alegrando-se conosco nos bons momentos e ajudando-nos a superar os maus. 

Quando o caixão baixou à terra, nenhum de nós tinha a ilusão de que encontraria adiante quem cumprisse o mesmo papel. Era insubstituível. 
(continua neste post)

segunda-feira, 18 de abril de 2016

LEMBRANDO O HEROÍSMO DO PASSADO EM MEIO AO DESALENTO DO PRESENTE

Não poderia ser mais emblemática a data do lançamento paulista de O problema é ter medo do medo (Editora Revan, 2016, 300p), da jornalista Ana Helena Tavares, um dia depois da pior derrota sofrida pela esquerda brasileira desde a redemocratização. Será nesta 2ª feira (18), a partir das 19h, no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (R. Rego Freitas, 530, sobreloja).

Trata-se de uma  coleção de depoimentos de pessoas que desempenharam algum papel na luta contra a ditadura militar, reconstituindo a História a partir de visões de quem estava no centro dos acontecimentos.

Foram 26 os entrevistados, inclusive eu. Particularmente, li com muita atenção os tópicos referentes a Alberto Dines, Hélio Bicudo e Sérgio Ricardo, com os quais me identifico mais. Mas, há de tudo um pouco e os leitores certamente tomarão conhecimento de muitos detalhes interessantes do passado.

Uma das principais preocupações de Ana Helena foi questionar o simulacro de anistia que igualou os torturados a seus algozes. 
A entrevistadora com um dos entrevistados

Trata-se de uma aberração jurídica que nos indignou muito nos últimos anos, mas a presidente Dilma Rousseff fulminou a última esperança de vermos punidas tais bestas-feras, ao ignorar olimpicamente o veredicto da Corte Interamericana de Direitos Humanos relativo à guerrilha do Araguaia, preferindo instituir uma Comissão da Verdade que desempenhou uma função nada além de propagandística.

Espero que, apeada do poder, Dilma reflita sobre se valeu a pena fazer tantas concessões ao realismo político, conciliando de forma tão chocante com os inimigos de ontem... em troca, vê-se agora, de nada! 

E o livro é ótimo para evocar uma esquerda que soube enfrentar com muita coragem e dignidade o festival de horrores dos anos de chumbo

Mas que, infelizmente, distorceu-se de forma acentuada a partir de 2003, quando passou a gerenciar o capitalismo para os capitalistas e ficou tão deslumbrada com o novo status que abdicou de organizar os trabalhadores e fazer avançar a revolução, temendo assustar ou incomodar os companheiros de fraque e cartola. Esses que agora a mandaram às urtigas.

E o pior foi que as ruas não a perdoaram.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A DEMOCRACIA QUE (NÃO) TEMOS E A QUE PRECISAMOS CONSTRUIR

A democracia começou a surgir com a tomada de decisões na praça pública, que é do povo como o céu é do condor.

O modelo que se tornou paradigmático foi o de Atenas, a partir do século VI a.C., quando podiam participar da Ekklesia (assembléia) os homens com idade acima de 18 anos. Os temas relevantes para a comunidade, incluindo a designação e permanência dos oficiais nos cargos, eram discutidos e as propostas, colocadas em votação.

No século IV a.C. passou a ser exigido um quórum de 6 mil cidadãos para que os temas mais relevantes pudessem ser votados. Nesta época, a assembléia era convocada pelo menos quatro vezes por mês, alternando-se três encontros rotineiros e um mais importante, no qual se tratava do suprimento de grãos, da defesa da cidade e outras questões prioritárias.

No começo do século V a.C., a  Ekklesia  delegou aos  Nomothetai  a tarefa que seu próprio título define: a de  fazedores de lei.

E, para organizar a pauta das discussões da  Ekklesia, fiscalizar o cumprimento do que já fora deliberado e supervisionar os oficiais, surgiram os  bouleutai  (conselheiros), inicialmente em número de 400, recrutados por sorteio dentre os cidadãos acima de 30 anos. Com o tempo se tornou um conselho de 500 membros, sendo 50 de cada uma das dez tribos (divisões políticas artificiais no corpo dos cidadãos) existentes.

Há dois milênios e meio, portanto,  lançaram-se as bases da democracia atual.

O modelo ateniense funcionou às mil maravilhas... na civilizadíssima Atenas. Em Roma já era desfigurado pela supremacia dos abastados (os patrícios) e pela subjugação do Senado e dos magistrados a tiranos.

Tal ideal foi retomado na era das revoluções burguesas, com um acréscimo fundamental: a definição clara dos direitos dos governados, para que pudessem se defender de abusos das autoridades. Esta é a essência da Declaração de Direitos de 1689 da Inglaterra, da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 da França e da Carta de Direitos de 1791 dos EUA.

Quando elas foram consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, o sistema de pesos e contrapesos ficou, teoricamente, perfeito:
  • os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário a interagirem e buscarem o equilíbrio, além de atuarem um sobre o outro no sentido de evitar a hipertrofia de algum deles e excessos nos quais venha a incorrer;
  • quarto poder, a imprensa, fiscalizando os três;
  • e a Declaração Universal dos Direitos Humanos fixando os limites que nenhum deles pode transpor.
TEORIA E PRÁTICA
 
    Mas, lembrando o bordão do Joelmir Beting,  na prática, a teoria é outra.

    A democracia burguesa sempre favoreceu a perpetuação do capitalismo e da dominação de classe, até por consagrar o princípio da propriedade privada dos meios de produção. 

    Trata-se do alicerce do edifício jurídico sob o qual vivemos, daí as dificuldades encontradas pelos que tentam substituir o primado da ganância, da competição e da desigualdade por um modelo diferente de sociedade, calcado na justiça social e na cooperação solidária entre os homens.

    E, quando os interesses mais vitais da burguesia foram ameaçados por movimentos que não conflitavam com as leis vigentes, os poderosos nunca hesitaram em passar por cima delas,  suspendendo-as  temporariamente enquanto promoviam banhos de sangue (nazismo, fascismo, franquismo, salazarismo, ditaduras militares do 3º mundo, etc.).

    Até que, como antevia Herbert Marcuse na longínqua década de 1950, o recurso à força bruta foi se tornando desnecessário face:
    • ao progresso material, suficiente para tanger a maioria dos trabalhadores ao conformismo, embora estejam recebendo apenas parcela irrisória de seus frutos;
    • à avassaladora eficiência da tecnologia colocada a serviço da manutenção do status quo; e
    • à influência atordoante e mesmerizante dos meios de comunicação de massa, que martelam dia e noite os valores subjacentes à exploração do homem pelo homem.
    Graças às técnicas científicas de manipulação e à tendenciosidade extremada da indústria cultural, o cidadão comum é levado a descrer da própria possibilidade de transformarmos o mundo --mesmo saltando aos olhos que a transformação não só é necessária como se torna cada vez mais imperativa, como única possibilidade de sobrevivência da humanidade face à crise permanente da economia capitalista e aos efeitos catastróficos das agressões à natureza/dilapidação dos recursos naturais imprescindíveis à existência humana.

    O pomposo funcionamento dos três Poderes ainda nos oferece brechas para obtermos pequenos êxitos contra os  donos de gado e gente, mas não nos iludamos: hoje o verdadeiro poder é o econômico, que esvaziou e sateliza o Executivo, Legislativo e Judiciário, reduzidos a meras fachadas, além de ter colocado a imprensa escandalosamente a seu serviço.

    Restam-nos os preceitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que devemos defender com unhas e dentes, pois são grandes trunfos para resistirmos à fascistização e ao avanço da desumanidade.

    E a titânica tarefa de transformarmos a democracia burguesa em democracia real, com a restituição do poder ao povo --que hoje é objeto, nunca sujeito, das decisões que afetam o seu destino.

    O cenário atual, comparado à bela democracia ateniense, sugere terra arrasada.

    Enfim, não adianta chorarmos sobre o leite derramado. Quanto maior a dificuldade de uma empreitada, mais urge darmos o primeiro passo, ao qual seguir-se-ão todos os outros.

    Daí eu encerrar com a inesquecível frase do dirigente esportivo chileno Carlos Dittborn, depois de um terremoto haver praticamente destruído a infra-estrutura com a qual seu país contava para sediar o Mundial 1962 da Fifa: "Porque nada tenemos, todo lo haremos".

    Hoje não nos resta quase nada. Temos de começar logo a reconstruir tudo.

    Obs.: artigo escrito a pedido da companheira Ana Helena Tavares, cujo blogue Quem tem medo da democracia? comemorará no próximo domingo (8) um ano de existência sob tal denominação.

    terça-feira, 3 de abril de 2012

    PM FRATUROU BRAÇO DE MANIFESTANTE NO PROTESTO DIANTE DO CLUBE MILITAR

    Santana: "O troglodita que me agrediu é produto
    de uma formação militar absolutamente equivocada".
    A jornalista Ana Helena Tavares entrevistou um manifestante que sofreu ferimentos leves e outro cujo braço foi fraturado pela PM no último dia 29, diante do Clube Militar do Rio de Janeiro, durante o protesto contra oficiais da reserva que cometiam, impunemente, o crime de fazer apologia do totalitarismo e do terrorismo de estado. Leia a íntegra aqui.

    Como na canção célebre de Chico Buarque, parece que o jeito é chamar o ladrão, pois a polícia barbariza os homens de bem e atua como guarda pretoriana dos pregadores de quarteladas, ditaduras, torturas, genocídios, execuções a sangue frio, estupros, ocultação de cadáveres, etc.

    Várias vezes já propus às forças democráticas brasileiras e aos cidadãos com espírito de justiça que levantem a bandeira da proibição de se fazer apologia do golpe de 1964, com o indiciamento e instauração de processos contra os infratores. 

    Negar o Holocausto é crime nos países civilizados, levando à prisão até historiadores. Está mais do que na hora de o Brasil assumir idêntica postura em relação aos que até hoje envenenam a mente das novas gerações com exortações em tudo e por tudo equiparáveis às dos nazistas.

    Eis os principais trechos da excelente reportagem de Ana Helena:
    "'Ali, a gente não estava fazendo um carnaval, não estava fazendo palhaçada. Para ver um cara que foi do regime que matou rindo das fotos dos companheiros que foram mortos e sumiram. Rindo também de gente que estava lá, que tinha sido torturada e que traz cicatrizes no corpo', desabafa Rodrigo Mondego, de 27 anos, bacharel em direito, que esteve na quinta-feira, 29 de março, em frente ao Clube Militar no Rio de Janeiro, protestando contra a comemoração do golpe de 64.
    Ele não estava sozinho. Segundo seus cálculos, havia cerca de 700 pessoas. Gustavo Santana, sociólogo, de 28 anos, também estava lá. Ambos dizem ter sido agredidos por PMs. Mondego sofreu ferimentos leves, porém Santana teve o braço quebrado e terá de ser operado.
    Os jovens pensam em processar o Estado pelas agressões dos PMs e o Clube Militar por apologia ao crime: 'Para mostrar que alguma coisa tem de ser feita. Porque nós ainda não chegamos ao ideal pretendido pelos que lutaram contra a ditadura e o Estado tem que ser responsabilizado pelas atrocidades cometidas naquele período', diz Santana, que completa: 'O troglodita que me agrediu pode até ter consciência do que fez, mas ele é produto de uma formação militar absolutamente equivocada. E temos que discutir, inclusive, por que a polícia tem de ser militar. Ela pode nos proteger, mas é o contrário'.

    Os dois estão receosos pela vida de um colega, Felipe Garcês (conhecido como 'Pato'), de 22 anos, que foi fotografado cuspindo em um militar e está sendo ameaçado de receber represálias. A foto (...) foi publicada na Veja.com, no blog de Reinaldo Azevedo, que chama Garcês de 'baderneiro'.

    Eles [Santana e Mondego] consideram que participar do ato contra a comemoração do golpe foi uma obrigação cidadã: 'Nós tínhamos a obrigação de estar ali. Muita gente deu a vida para que nós pudéssemos ter o direito à livre manifestação. E a essas mesmas pessoas foi negado o direito de ter história, porque muitos desapareceram. E acho que nós, como signatários dessa luta, temos que estar na rua para dizer que enquanto essas pessoas não aparecerem a luta ainda não acabou. A luta delas ainda existe e é a nossa luta', diz Santana.
    O jovem sociólogo [Santana] descreveu a forma como foi agredido na manifestação do dia 29: 'Eu estava correndo e tomei uma pancada. Vi quando o PM me bateu e olhei na cara dele. Ele sabe que bateu para me machucar. Fumaça, bomba… Só senti quando meu braço ficou pendurado', lembra Santana, que conclui: 'Vivemos num Estado Democrático de Direito, mas as atrocidades (da PM) são as mesmas'.
    Segundo Mondego, o ato contra a comemoração do golpe de 64 'começou de maneira pacífica, tranquila'.
    Mondego: os oficiais da reserva
    faziam "apologia do crime".
    Considera que os militares participantes do evento pró-golpe, mesmo os que não foram torturadores, 'estavam lá, por livre e espontânea vontade, festejando um período onde houve estupro de militantes, pau-de-arara, desaparecimentos. O fato de ele estar comemorando aquele golpe faz com que ele esteja torturando hoje os filhos de todo mundo que foi torturado. Está torturando os filhos dos desaparecidos. Está fazendo apologia do crime'.
    Alguns manifestantes, sentido-se provocados por militares que, contam os entrevistados, 'debochavam e faziam gestos obscenos', resolveram comprar ovos na hora. Mondego estava com alguns na mão, quando ouviu de um senhor ao seu lado: 'Meu filho, me dá a honra de me dar um ovo desses para eu tacar num fascista'. Ele tinha tido um irmão morto pela ditadura.
    'Aqueles ovos não davam para acertar em ninguém, tinha muita tropa de choque. Mas era uma questão simbólica. A gente queria tacar ovo na comemoração, não em ninguém específico', pondera o jovem.

    Além da agressão que ele próprio sofreu, levando um soco na boca do estômago, Mondego conta ter presenciado a cena de um colega seu da UFRJ caído no chão e recebendo choque com pistola elétrica de PMs.
    'A organização do evento não foi boa e a polícia foi extremamente irresponsável. Muita gente apanhou. Muito gás lacrimogêneo. Enquanto isso, os militares saíram de fininho pelas escadas do metrô. Teve cuspe, porque provocaram. Mas ninguém os agrediu', garante.
    E completa: 'A sensação que ficou é que, como eles nunca foram punidos, se acham no direito de debochar da história do País'".

    quinta-feira, 6 de outubro de 2011

    MORTOS SEM SEPULTURA

    O bravo guerreiro Aluízio Palmar, que militou no PCB, organizou o MR-8 e foi um dos presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, dá longo depoimento à companheira Ana Helena Tavares, que vale a pena todos conhecerem na íntegra.

    Reproduzo aqui o trecho no qual ele relata como desvendou, na década passada, o desaparecimento de seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária, estabelecendo que haviam caído numa cilada e sido executados pela repressão; e como esta investigação o animou a escrever Onde foi que vocês enterraram os nossos mortos?, leitura obrigatória para quem quer saber toda a verdade sobre os  anos de chumbo  no Brasil.

    Dos chacinados, é provável que eu tenha conhecido apenas o ex-sapateiro Lavechia, participante comigo da equipe precursora para a instalação de uma escola de guerrilha na região de Registro. 

    Tinha 50 anos e aparentava 60. Fingia ser o caseiro do pequeno sítio, ajudando a tornar mais verossímil nossa  fachada

    Era um homem afável, que falava pouco mas sabia muito... da arte de viver e do sonho com um Brasil melhor, ao qual dedicou seus melhores esforços, até o amargo fim.

    Eis a narrativa de Palmar:
    "Em 2005, o Ministério da Justiça fez um acordo com o departamento da Polícia Federal e eu fui credenciado a ter acesso aos arquivos da PF. Para descobrir rastros, pistas dos desaparecidos políticos da Estrada do Colono. O grupo da extinta VPR.
    Eu já vinha há tempos, desde quando eu emergi da clandestinidade, para ser mais preciso, procurando por: Onofre Pinto, Joel José de Carvalho, Daniel de Carvalho, José Lavéchia, Vítor Ramos e Ernesto Ruggia. Não sabia onde eles estavam. Uma coisa era certa: não estavam no exílio mais. Não estavam no exterior nem no interior, então haviam desaparecido.

    E, neste processo de busca, aconteceu o meu acesso a alguns arquivos. Estamos falando de papéis, informes… Quando comecei a analisá-los, na metade da pesquisa, mexendo daqui e dali, encontrei um nome, que é citado várias vezes em casos semelhantes. Mais tarde, numa pesquisa que eu fiz num cartório de uma cidade próxima daqui (Foz do Iguaçu), descobri o mesmo nome.

    Aí eu resolvi me acampar em meio à região sudeste do Paraná. Levei fogaréu, aluguei um quarto, e fiquei por lá morando, de carro próprio. Para, ao sair dali, comunicar por onde essas pessoas passaram e ficaram, e quem era essa pessoa que apareceu o nome no arquivo.

    Então, eu fui até Três Passos e lá no quartel da Brigada Gaúcha, revirando uns documentos, eu descobri a mesma pessoa, porque ela cometeu um crime naquela região. O Comandante da Brigada recebeu um telefonema do Coronel de fronteiras pedindo que ele fosse libertado, porque era gente deles. E ele foi libertado.

    Eureca! Era o cara… Ligado às forças armadas…
    Daí, comecei a procurar essa pessoa. Procurando, aqui por Foz do Iguaçu, até que eu descobri, graças ao Google, por causa de uma multa de trânsito. Depois, essa pessoa não quis falar comigo, mas falou com outros amigos – um empresário e um agente da Polícia Federal – e contou como aconteceu a chacina da Estrada do Colono. 
    Contou que esses companheiros foram atraídos, no final de 74, quando o aparelho repressivo estava sendo desmontado. Foram atraídos pelos Coronéis Paulo Malhães e Teixeira Brandt. Foram atraídos para uma cilada. Entraram desarmados no Brasil, era fronteira seca, foram conduzidos para um sítio, daqueles no meio da floresta, no Parque Nacional do Iguaçu. E ali eles foram executados a sangue frio.
    Descoberto isso, que essa pessoa nos contou e para pessoas responsáveis em criminalidade, eu decidi fazer um informe, um relatório para a Secretaria Nacional de Direitos Humanos. Mais precisamente, para a Comissão dos Mortos e Desaparecidos, que era a Comissão 9140 do Ministério da Justiça. Daí eu reparei que o meu relatório tava muito burocrático e dei um tempero jornalístico.

    E, de repente, fui entrando numa espécie de catarse, me soltando e me livrando de uma série fantasmas que eu tinha dentro de mim, que estavam entalados. Comecei a falar coisas que, durante anos, não comentei com ninguém, muitas nem eu me lembrava e começaram a vir à tona. Foi aí que comecei a escrever o livro Onde foi que vocês enterraram os nossos mortos?, contextualizando as lutas políticas e sociais contra a ditadura".

    sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

    A ANISTIA DE 1979 EM DISCUSSÃO

    Para quem ainda não leu em outros espaços e também para manter aqui o registro, reproduzo a ótima entrevista que a companheira Ana Helena Tavares fez comigo, como parte de uma série sobre a anistia de 1979, em que ela já ouviu o Hélio Bicudo, o Carlos Lungarzo e o Cid de Queiroz Benjamin.


    Foto tirada numa manifestação do Movimento
    dos Sem-Mídia na porta da "Folha de S. Paulo"
    Celso Lungaretti é paulistano, neto de italianos, e trabalhou durante 34 anos como jornalista profissional, atuando no grupo encabeçado pelo jornal "O Estado S. Paulo", na Imprensa do Palácio dos Bandeirantes, em revistas de variedades e agências de comunicação empresarial. É autor do livro "Náufrago da Utopia" (Geração Editorial, 2005). 

    Participou da resistência à ditadura militar, como militante estudantil e membro da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Foi preso e duramente torturado. Falsamente acusado de delator, ficou de fora da lista de guerrilheiros a serem soltos e exilados, trocados pelo embaixador alemão (seqüestrado em 70), e passou muitos anos sendo injustiçado por companheiros da esquerda. Só conseguiu provar sua inocência nisso no final de 2004, a partir da revelação de um relatório secreto militar e da intervenção em seu favor do historiador Jacob Gorender.

    Hoje com 60 anos, considera-se em plena forma para atuar na profissão, mas, conforme foi se tornando mais notória sua condição de articulista de esquerda, passou a não encontrar mais nenhuma porta aberta na mídia. Para continuar cumprindo, "na contramão do sistema", seu papel de formador de opinião, mantém dois blogues, colabora em outros espaços virtuais e tem seus artigos divulgados por uma ampla rede de amigos. É também um dos principais defensores do escritor e perseguido político Cesare Battisti, em favor de quem já escreveu mais de 200 artigos.

    Nesta entrevista, concedida em exclusivo ao blog Quem tem medo do Lula?, do qual é colaborador e co-editor, Lungaretti diz que a Lei de Anistia foi “irrestrita no mau sentido. O termo oportunista cai melhor”. E devia ter sido revista em 1985: “Agora, que os ainda vivos são septuagenários ou mais idosos ainda, há vários problemas. Considero mais importante assegurarmos que o papel histórico dessa canalha fique bem conhecido”, disse.

    Conhecimento este que é prejudicado pela forma como a mídia atua no assunto. Uma atuação definida por ele como “assustadora” e somente comparável ao que se viu nos “EUA no auge do macarthismo”.

    Lungaretti deixa a indagação: “Se os crimes não só deixarem de ser punidos, como forem também acobertados, que mensagem legaremos aos que virão depois de nós? A de que não há risco em se derrubar um presidente legítimo, rasgar a Constituição, cometer arbitrariedades de todo tipo, torturar, estuprar, assassinar e dar sumiço em restos mortais?”

    E diz que torce para que a presidenta Dilma Rousseff “reabra a questão”. Pois, “indignidade tem limite”.

    Por Ana Helena Tavares

    Carlos Lamarca, de quem você foi companheiro na VPR, o acusou de delator. Sua inocência quanto a isso só foi provada em 2004. Queria que você começasse falando sobre essa história. 
    Celso Lungaretti: Os fatos concretos são:
    1) entre outubro e dezembro de 1969, o Lamarca, o Fujimori, o velho Lavecchia, o Massafumi e eu tentamos preparar uma área em Jacupiranga (SP) para receber os companheiros que deveriam fazer treinamento guerrilheiro;
    2) com a desativação dessa área por inadequação aos nossos propósitos, eu pedi para voltar ao trabalho urbano e o Massafumi se desligou da VPR;
    3) ambos pudemos sair de lá exatamente porque o que nós conhecíamos deixara de ser sigiloso e não sabíamos qual o local onde se faria a nova tentativa de implantar a escola de guerrilha;
    4) preso em abril de 1970, sofrendo torturas muitos intensas e detendo informações importantes, revelei a localização da área abandonada, para ganhar tempo;
    5) a área ativa só viria a ser descoberta pela repressão dois dias depois, em função de novas prisões (conforme consta de um relatório secreto do II Exército);
    6) quando o Massafumi se rendeu ao Deops/SP, tudo isso já havia acontecido;
    7) mesmo assim, um documento da VPR atirou tal responsabilidade sobre nós dois, estimulando preconceitos que, inclusive, tiveram muito a ver com o suicídio do Massafumi.
    O que está por trás dos fatos é meio difícil de apurar-se hoje em dia. O Ivan Seixas, por exemplo, disse-me que a situação era tão caótica e havia tanta coisa ruim acontecendo que a VPR poderia, simplesmente, estar mal informada.
    No entanto, é fato também que quem revelou a localização da chamada Área 2 ao DOI-Codi tinha posição hierárquica superior à minha e, se isto se tornasse notório, seria bem mais constrangedor para a VPR a delação ter partido dessa pessoa que de mim -- eu era jovem, pouco conhecido e não tinha tradição pessoal nem familiar na esquerda.
    Enfim, fiquei com a impressão de que a "razão de Estado" prevaleceu sobre o compromisso revolucionário com a verdade.

    Você guarda algum tipo de ódio dos militares que o torturaram?
    CL: Só os odiaria se fossem iguais a mim. Aos inferiores, eu desprezo. Eram uma escória truculenta e burra, nada mais.
    Em sua opinião, qual punição ainda cabe a eles?
    CL: Deveriam ter respondido por seus crimes no momento da redemocratização do País. Agora, que os ainda vivos são septuagenários ou mais idosos ainda, há vários problemas:
    1) a Justiça brasileira faculta infinitas manobras protelatórias a réus que têm bons advogados, então acabariam todos morrendo antes de qualquer sentença condenatória chegar à fase de execução;
    2) eles alegariam, com razão, desigualdade de tratamento, por terem sido apenas os executantes de uma política adotada pelo Estado brasileiro nos anos de chumbo. Alguns companheiros se contentariam em ver sentenciado um Brilhante Ustra ou um Curió. Eu considero muito piores os mandantes, os altos comandantes militares, os signatários do AI-5. Foi gente como o Delfim Netto que tirou a focinheira dos mastins e os açulou contra nós.
    3) a propaganda da extrema-direita se serviria disso para torná-los objetos de compaixão, o que não merecem ser. Seria tolice criarmos condições para o martiriológio desses carrascos.
    Então, eu considero mais importante assegurarmos que o papel histórico dessa canalha fique bem conhecido, do que corrermos atrás de punições tardias e que acabarão não ocorrendo.

    A Lei de Anistia foi interpretada pelo STF como abrangente aos torturadores. É caso de revisão ou de reinterpretação?
    CL: Não há hipótese de uma anistia ser promulgada durante uma ditadura, beneficiando os esbirros dessa ditadura. Isso não foi anistia, mas sim um habeas corpus preventivo. Então, ela tem é de ser revogada e substituída por outra, gerada num Estado de Direito.
    Ocorre que o Tarso e o Vannuchi desviaram o foco da questão, do Executivo e do Legislativo para o Judiciário. Fizeram isto quando perderam a batalha dentro do Ministério e por saberem que o Congresso também não mexeria nesse vespeiro.
    Mas, o obstáculo não foi contornado: a Advocacia Geral da União, cada vez que requisitada pela Justiça, opina que a anistia de 1979 incluiu os torturadores, mesmo (absurdo!) entendimento do STF.
    Então, melhor do que esse atalho que não levou a lugar nenhum, teria sido continuarmos na estrada principal: para posicionar corretamente essa questão, o Estado brasileiro precisa, primeiramente, revogar a anistia que os déspotas concederam a seus agentes. Todo o resto vem depois.

    Fala-se muito num “pacto de conciliação” e que quebrá-lo seria prejudicial. Como você vê isso?
    CL: Não vejo. Inexistiu conciliação. O que houve foi uma chantagem da ditadura: "se vocês querem que soltemos os presos políticos e deixemos voltar os exilados, terão de engolir o perdão de todos os nossos crimes".
    É compreensível que os companheiros tenham aceitado essa barganha em 1979, afinal havia muita gente de nosso lado sofrendo, aqui e lá fora.
    O incompreensível é não a terem denunciado em 1985. Por conta dessa omissão, o problema continua sem verdadeira solução, um quarto de século depois.

    A anistia foi mesmo “ampla, geral e irrestrita”?
    CL: Foi "ampla" e "geral" porque os militares não conseguiram deixar de fora os resistentes que pegaram em armas, como pretendiam; pelo menos esta parada nós vencemos.
    E "irrestrita" no mau sentido, porque cobriu práticas que não podem ser anistiadas, quais sejam aquelas cuja responsabilidade é dos agentes do Estado. O termo "oportunista" cai melhor...

    O que você acha da expressão “revanchismo”?
    CL: Seria pertinente se aqui tivesse havido uma guerra entre forças equivalentes, não uma tentativa desesperada que alguns milhares de cidadãos idealistas e despreparados empreendemos, contra os efetivos e recursos imensamente superiores dos tiranos que haviam usurpado o poder e recorriam às práticas mais bestiais para nele se manterem.
    O problema é e sempre foi de Justiça. Para quem sofreu as torturas na carne ou teve assassinados seus entes queridos sem receber sequer um corpo para enterrar, é muito difícil aceitar a impunidade ostensiva desses criminosos.
      
    Qual a importância de que a sociedade brasileira tenha direito ao esclarecimento dos crimes da ditadura?
    CL: Se os crimes não só deixarem de ser punidos, como forem também acobertados, que mensagem legaremos aos que virão depois de nós? A de que não há risco em se derrubar um presidente legítimo, rasgar a Constituição, cometer arbitrariedades de todo tipo, torturar, estuprar, assassinar e dar sumiço em restos mortais?
    Já que se tornou muito difícil fazer com que essas bestas-feras cumpram penas de prisão ou ressarçam o Estado pelo que este teve de pagar em indenizações a suas vítimas, que pelo menos sejam expostas ao opróbrio dos brasileiros. Que morram cientes de que os pósteros conhecerão detalhadamente suas práticas infames, encarando-as com horror e repulsa.

    Você diria que hoje o Brasil é um país democrático?
    CL: Formalmente, sim. Mas vivemos uma nova realidade, na qual o poder econômico assumiu tal preponderância que as instâncias políticas foram esvaziadas, tornando-se impotentes para decidir o fundamental; e na qual a indústria cultural, manipulando cientificamente as consciências, desfigura profundamente a representação popular.

    Você trabalhou durante alguns anos no Estadão. Hoje, como você vê a atuação da mídia nesse processo?
    CL: Assustadora. A única comparação que me ocorre é com os EUA no auge do macarthismo.
    Nós, os que contestamos as versões e as visões do agrado dos donos da mídia, não conseguimos exercer plenamente o direito de resposta, não temos espaço para apresentar o "outro lado" e quase nunca somos citados. Viramos não-pessoas, não porque os colegas jornalistas o queiram, mas por causa das restrições impostas pelos altos escalões.

    Qual sua expectativa com relação ao papel da Dilma, uma ex-torturada, nessa questão?
    CL: Torço para que reabra a discussão, pois a última palavra não pode ser aquela dada pelo STF. Indignidade tem limite.
    Related Posts with Thumbnails